Amazônia e bolsonarismo: um encontro marcado pela contradição

Por IsmaeL machado*

Toda visita de um representante da família Bolsonaro à Amazônia produz uma cena política peculiar. Seus discursos costumam evocar desenvolvimento, soberania nacional e liberdade econômica. Arrastam seguidores vestidos com as cores da seleção brasileira de futebol, a quem inclusive Flavio Bolsonaro teve o desplante de chamar de ‘camisa de meu pai’. À primeira vista, trata-se de conceitos legítimos e desejáveis. Mas basta observar com atenção a história da região para perceber que, muitas vezes, essas palavras carregam significados profundamente distintos daqueles defendidos por quem vive, pesquisa e luta pela Amazônia. É como se fossem o chamado ‘ouro de tolo’. A presença de Flávio Bolsonaro no Pará inevitavelmente reacende um debate que ultrapassa a disputa eleitoral. Trata-se de uma discussão sobre projetos de país e, sobretudo, sobre visões radicalmente distintas a respeito da Amazônia.

A contradição não está apenas em medidas específicas ou em governos determinados. Ela é mais profunda. Trata-se do choque entre duas formas de imaginar a própria existência da Amazônia. E como a família Bolsonaro atende mais a uma chamada necropolítica que a uma política de vida, com o zero alguma coisa, a Amazônia corre mais riscos que nunca. Não que esteja atualmente em boas condições de um olhar maduro sobre si, já que há um desenvolvimentismo latente em Lula que não condiz com o que, pelo menos eu, gostaria que fosse o futuro dessa região.

Historicamente, a região foi tratada pelo Estado brasileiro como uma fronteira a ser conquistada. Nunca como uma sociedade complexa. Desde o ciclo da borracha, passando pelos grandes projetos de integração nacional da ditadura militar, a floresta foi frequentemente percebida como um vazio demográfico e econômico à espera de ocupação. A famosa expressão “integrar para não entregar” sintetizou essa visão.

foto ismael machado

O problema é que a Amazônia nunca foi um vazio. Antes da chegada dos colonizadores, milhões de pessoas habitavam a região. Povos indígenas desenvolveram sistemas sofisticados de manejo ambiental, construíram redes comerciais, produziram conhecimento sobre biodiversidade e transformaram a floresta sem destruí-la. Mesmo após séculos de violência colonial, essas populações continuam presentes e continuam reivindicando seu direito de existir.

O bolsonarismo, entretanto, herda em grande medida uma tradição política que vê esses grupos como obstáculos ao desenvolvimento. Quando lideranças indígenas são acusadas de impedir o progresso ou quando a demarcação de terras é apresentada como um entrave econômico, o que está sendo questionado? No fundo, o próprio direito dessas populações de definir seus modos de vida.

Por trás dessa disputa existe uma questão filosófica fundamental sobre quem tem o direito de decidir o futuro da Amazônia. A visão bolsonarista costuma responder que esse futuro deve ser definido prioritariamente pelo mercado, pela propriedade privada e pelos grandes investimentos econômicos, mas entregando tudo de mão beijada, tirando da frente qualquer sistema regulatório e fiscalizatório. A floresta aparece como recurso. A terra aparece como ativo econômico. Os rios aparecem como potencial energético. A biodiversidade aparece como matéria-prima. Que sejam disponibilizadas a quem tem dinheiro. Outro dia, o Ministério Público interveio para impedir o leilão de uma área de praia em Santarém, que seria privatizada.

Mas existe outra perspectiva, cada vez mais defendida por pesquisadores, movimentos sociais e comunidades tradicionais. Nela, a Amazônia não é apenas um estoque de recursos. É uma rede complexa de relações entre seres humanos, territórios, culturas e ecossistemas. Essa diferença parece abstrata, mas produz consequências concretas. Claro, precisamos achar soluções econômicas para a região, mas não de forma predatória como frequentemente se vê.

Quando a floresta é vista simplesmente como recurso econômico, a destruição pode ser justificada em nome do crescimento. O desmatamento torna-se um efeito colateral aceitável para o desenvolvimento. Os conflitos fundiários passam a ser tratados como inevitáveis. A expulsão de comunidades tradicionais é apresentada como custo do progresso. É essa a promessa dos bolsonaros a monocultores latifundiários, ao garimpo ilegal, aos acusados de trabalho escravo. Vimos isso entre 2019 e 2022.

As políticas defendidas pelo bolsonarismo foram frequentemente criticadas por enfraquecer mecanismos de fiscalização ambiental, questionar demarcações de terras indígenas e estimular uma narrativa segundo a qual a proteção ambiental seria um obstáculo ao desenvolvimento. Essa visão ignora um dado fundamental. A destruição da floresta não representa desenvolvimento sustentável para a Amazônia. Ao contrário, tende a aprofundar conflitos fundiários, ampliar a concentração de renda e acelerar processos de degradação ambiental que atingem diretamente as populações locais.

Quando a floresta é compreendida como condição de existência, porém, a lógica muda completamente. Preservar deixa de ser obstáculo ao desenvolvimento e passa a ser requisito para qualquer projeto econômico duradouro. A própria crise climática mundial tornou essa questão incontornável. Há alguns anos as pautas discursivas sobre a Amazônia passaram a incluir a justiça climática, que basicamente significa compreender que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. Embora o aquecimento global seja um fenômeno planetário, seus impactos recaem de maneira desproporcional sobre populações que historicamente contribuíram muito pouco para a destruição ambiental. Essa é uma das grandes contradições amazônicas.

Os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e agricultores familiares da região estão entre aqueles que menos emitem gases de efeito estufa. Seus modos de vida, em muitos casos, são baseados justamente na conservação da floresta, no manejo sustentável dos recursos naturais e em formas de ocupação de baixo impacto ambiental. No entanto, são essas populações que frequentemente enfrentam primeiro os efeitos das mudanças climáticas, como as secas extremas, alterações no ciclo dos rios, perda de biodiversidade, insegurança alimentar, aumento das queimadas e eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis.

Hoje sabemos que a Amazônia desempenha papel decisivo na regulação climática do continente sul-americano. Seus rios voadores influenciam o regime de chuvas que sustenta a agricultura em diversas regiões do Brasil. Sua biodiversidade abriga conhecimentos ainda desconhecidos pela ciência. Sua destruição afeta o país inteiro.

O que a ideologia bolsonarista defende? Políticas que flexibilizam controles ambientais ou enfraquecem órgãos de fiscalização. Isso significa apostar num modelo de desenvolvimento cada vez mais questionado pela própria realidade ecológica do século XXI.

Lembremos que a Amazônia é um território marcado por massacres, expulsões e disputas violentas pela terra. O Pará conhece essa história melhor do que quase qualquer outro estado brasileiro. Nomes como a Guerrilha do Araguaia, a violência contra povos indígenas, os conflitos agrários do sul e sudeste do estado e o Massacre de Eldorado dos Carajás, para ficar nesses exemplos simples, revelam um padrão histórico de concentração fundiária e exclusão social.

Por isso, quando determinados discursos exaltam apenas a expansão econômica e silenciam sobre direitos humanos, reforma agrária, proteção territorial ou justiça ambiental, acabam reproduzindo uma lógica antiga. A ideia de que a Amazônia existe para servir a interesses externos, e não para garantir dignidade às populações que nela vivem. Talvez seja justamente nesse ponto que a incompatibilidade entre a Amazônia e o bolsonarismo se torne mais evidente.

A Amazônia contemporânea exige diálogo, diversidade, ciência, proteção ambiental e reconhecimento dos direitos territoriais. O bolsonarismo, por sua vez, consolidou-se politicamente por meio de uma retórica de confronto com quase tudo e todos. Ambientalistas, movimentos sociais, organizações internacionais, universidades e, frequentemente, com os próprios povos indígenas. São concepções distintas de democracia, de natureza e de futuro.

No fundo, a pergunta é simples. Devemos discutir se a Amazônia deve ser tratada como uma fronteira econômica a ser conquistada ou como uma civilização socioambiental a ser preservada e fortalecida? A resposta a essa pergunta define o destino do Brasil. Porque a Amazônia não é um problema a ser resolvido. É uma possibilidade histórica a ser compreendida. E qualquer projeto político que não consiga enxergar essa complexidade corre o risco de repetir os erros que, há décadas, transformam riqueza natural em desigualdade social. O jovem Flávio Bolsonaro representa o que de mais velho e antigo (não no sentido de sabedoria e experiência, mas de ultrapassado e arcaico) pode advir para a Amazônia. Que impeçamos seu avanço sobre nós.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte: Medium

Os perigos da fronteira na Amazônia e o massacre dos seus defensores

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A não ser que haja alguma grande surpresa, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista  Dom Philips são as novas vítimas do espírito de fronteira que cerca o saque desenfreado das riquezas naturais existentes na Amazônia, e certamente não serão as últimas.

Como alguém que realizou trabalhos de campo no flanco oeste da fronteira amazônica, posso testemunhar que ali, mais do que em qualquer outra parte do Brasil, o que perdura mesmo é a ocupação do aparelho de estado por indivíduos e grupos que participam diretamente do saque.  Como estava em Rondônia fazendo minha pesquisa no massacre da Fazenda Santa Elina em Corumbiara, posso afiançar que aquele talvez tenha sido apenas o mais exemplar dos eventos de matança ocorrido via as forças policiais em terras rondonienses, mas que é pouco lembrado porque logo depois ocorreu outro massacre mais famoso, o de Eldorados de Carajás.

Quem vê a Amazônia de longe pensa que a instalação formal de instituições do Estado brasileiro significa alguma melhoria significativa nos mecanismos que devem regular as relações sociais e as formas de uso das riquezas amazônicas. Mas ver de longe o que acontece na Amazônia é sempre ilusório, pois o que os últimos três anos revelam é que basta termos uma administração federal que apenas se omita na aplicação da lei para que como dizem os gringos “all hell breaks loose” (ou em uma tradução literal para que as portas do inferno sejam escancaradas).

A verdade é que a Amazônia é um lugar extremamente perigoso para quem quer defender seus ecossistemas naturais e os povos tradicionais que lograram estabelecer um equilíbrio tenso, mas mais harmônico do que o desequilíbrio imposto pela lógica da acumulação capitalista.

Toda a situação da Amazônia é agravada porque inexiste no Brasil uma real preocupação, principalmente nas elites, das consequências desastrosas que a destruição dos ecossistemas amazônicos trarão para o Brasil e o resto do mundo. É como se todo o conhecimento científico acumulado sobre o papel das florestas amazônicas no oferecimento de múltiplos serviços ambientais (a começar pela regulação climática) pudesse ser jogado no lixo em troca de um punhado de dólares.

Entretanto, o problema não é apenas interno, mas tem a ver primariamente com a necessidade de acumulação das grandes corporações capitalistas que moem a vida do planeta para manter as condições nababescas em que vive uma porção mínima da população humana. Aliás, se olharmos para as interconexões existentes entre o saque em curso na Amazônia e a atual crise sistêmica do capitalismo, veremos que qualquer discurso em prol da sustentabilidade do planeta que seja feito, por exemplo, no Fórum Econômico Mundial de Davos não passa de mera hipocrisia.

Agora de volta ao caso de Bruno Pereira e Dom Philips, como já ocorreu no caso de Chico Mendes e Dorothy Stang, se não houver uma contínua pressão para que a situação seja devidamente esclarecida, o mais provável é que mais este martírio suma das manchetes e o massacre dos defensores das florestas amazônicas continue seguindo seu curso e, pior, de forma impune.