Enquanto bilhões podem ser consumidos por obras temporárias de engorda de praias, cidades costeiras seguem sem investimentos à altura dos desafios impostos pelas mudanças climáticas
Uma reportagem publicada pelo O Estado de S. Paulo, assinada pelo jornalista José Maria Tomazela, chama atenção para um problema que tende a se agravar nas próximas décadas: cerca de 40% das praias brasileiras já sofrem com processos erosivos, enquanto cresce a aposta em obras de engorda artificial como principal resposta ao avanço do mar.
A própria matéria deixa claro aquilo que especialistas em geomorfologia costeira vêm afirmando há anos: a engorda de praias não representa uma solução definitiva. Trata-se de uma intervenção temporária, extremamente cara e que exige repetição periódica. Em muitos casos, a areia adicionada acaba sendo novamente removida pelas ondas e correntes, obrigando novas aplicações e multiplicando os custos públicos.
O problema é que essa estratégia continua tratando a erosão como um fenômeno isolado, quando ela é apenas uma das manifestações de uma crise muito maior. A combinação entre mudanças climáticas, elevação do nível médio do mar, intensificação de eventos extremos e décadas de ocupação inadequada do litoral altera profundamente a dinâmica costeira. Nenhuma quantidade de areia conseguirá reverter processos físicos que tendem a se intensificar ao longo deste século.
Há ainda um aspecto pouco discutido. Grande parte das obras de engorda visa proteger empreendimentos imobiliários de alto valor econômico, áreas turísticas e infraestrutura instalada junto à linha de costa. Em outras palavras, frequentemente se socializam os custos para preservar ativos privados altamente valorizados. Isso não significa que determinadas intervenções emergenciais não possam ser necessárias, mas elas não deveriam ser confundidas com uma política consistente de adaptação climática.
Nesse sentido, talvez a principal reflexão provocada pela reportagem seja outra: quanto dinheiro continuará sendo destinado a obras que precisam ser refeitas continuamente, enquanto cidades brasileiras permanecem despreparadas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas?
Os recursos públicos empregados em sucessivas engordas de praias seriam muito mais bem utilizados em um amplo programa de adaptação climática das cidades brasileiras, especialmente das cidades litorâneas, que já sofrem — e sofrerão cada vez mais — com a elevação do nível do mar, tempestades mais intensas, inundações costeiras, salinização de aquíferos, perda de infraestrutura e deslocamento de populações. Isso inclui planejamento urbano, restauração de ecossistemas costeiros, proteção de manguezais e restingas, revisão do uso e ocupação do solo, sistemas de drenagem resilientes e, em situações inevitáveis, programas de retirada planejada de ocupações em áreas de alto risco.
Persistir na lógica de reconstruir praias indefinidamente equivale a insistir em enxugar gelo diante de um oceano em transformação. O desafio colocado pelas mudanças climáticas exige abandonar soluções paliativas e investir em políticas públicas capazes de aumentar a resiliência das cidades e das populações costeiras.
