Protagonistas na pesca artesanal, mulheres relatam invisibilidade e vulnerabilidade às mudanças climáticas

Além de alimentação e renda, a cultura e o legado familiar estão entre as motivações das pescadoras artesanais para seguir na atividadeAlém de alimentação e renda, a cultura e o legado familiar estão entre as motivações das mulheres para seguir na pesca. Foto: Tuấn Vũ / Unsplash

Responsáveis por quase metade da força de trabalho na pesca artesanal, mulheres enfrentam desafios agravados pela desigualdade de gênero, falta de representação política e pela crise climática. É o que revela estudo publicado na quinta (7) na revista Marine Policy, conduzido por pesquisadores das universidades federais de São Paulo (UNIFESP) e do Sul da Bahia (UFSB), em parceria com instituições nacionais e internacionais. O trabalho aponta que o conhecimento ecológico das pescadoras brasileiras – que percebem os impactos diretos das mudanças ambientais na atividade – pode apoiar a formulação de políticas públicas mais justas e também mais eficazes.

Para entender como as mudanças climáticas e o viés de gênero afetam as pescadoras artesanais brasileiras e identificar possíveis falhas nas políticas existentes, o grupo de cientistas entrevistou nove mulheres que atuam em sete estados de quatro regiões da costa brasileira. Elas falaram sobre suas motivações, perspectivas para o futuro e os impactos do clima em suas atividades. As entrevistas aconteceram em 2022.

O artigo aponta que as normas de gênero, moldadas por expectativas culturais e sociais, fazem com que a contribuição das mulheres no setor seja frequentemente vista como uma extensão das tarefas domésticas – inclusive por elas mesmas. “Mesmo as pescadoras sendo protagonistas na pesca artesanal e enfrentando diretamente os impactos das mudanças climáticas, elas permanecem invisíveis nas estatísticas e nas políticas públicas”, observa Caroline Fassina, primeira autora do estudo. “Além disso, o estudo revelou a força do conhecimento ecológico local dessas mulheres como uma fonte valiosa de dados e percepções sobre as transformações ambientais”, completa.

Entre as motivações citadas para a pesca, estão alimentação e renda, mas também o bem-estar e a cultura, expressa em vínculos afetivos com o território, o mar e a comunidade. O legado familiar tem papel de destaque: oito das nove entrevistadas mencionaram o pai como influência na introdução à pesca. Leandra Gonçalves, coautora do estudo, avalia que esse aspecto pode ser incorporado a programas intergeracionais que estimulem o envolvimento de jovens na pesca artesanal. “Políticas públicas podem apoiar projetos de formação baseados em ‘educadores do mar’ – pessoas das comunidades que compartilham saberes tradicionais e vivências para fortalecer o sentimento de pertencimento e continuidade”, diz a pesquisadora, professora do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Gestão e Governança do Oceano.

Embora a televisão tenha sido apontada como uma das principais fontes de informação sobre mudanças climáticas, o estudo revelou que as experiências cotidianas das pescadoras são fontes de dados sobre o tema. Entre os efeitos mais preocupantes relatados estão perda de biodiversidade, calor excessivo e aumento das tempestades. Também foram citadas mudanças nas temporadas de pesca, períodos de seca e até impactos na saúde. Com isso em mente, Caroline Fassina defende que “é fundamental promover espaços de escuta e inclusão formal das mulheres nos conselhos de gestão e políticas públicas, além de registrar seus conhecimentos em plataformas acessíveis”.

Leandra Gonçalves destaca a importância de incentivar e abrir mais espaço para as lideranças femininas na pesca, investir em programas com foco em gênero, tendo em vista as desigualdades estruturais que invisibilizam a contribuição feminina na atividade. Estimular esse tipo de ação está entre os objetivos da equipe, que também ressalta o desejo de ampliar o alcance da pesquisa. Segundo as autoras, os próximos passos incluem a intenção de aplicar a estrutura metodológica em outras regiões do Atlântico Sul, inclusive na costa da África, incentivando as parcerias Sul-Sul, além de investigar como juventudes e identidades diversas, como mulheres trans e pessoas não-binárias, estão inseridas na pesca artesanal e pensam o futuro dessa profissão e do seu local de trabalho, o mar.


Fonte: Agência Bori

A face de gênero e classe da crise climática: chuvas extremas afetam mais as mulheres pobres

chuva no EquadorSegundo a ONU, entre 2000 e 2022, as inundações foram o desastre natural mais comum na América Latina, afetando 49 milhões de pessoas e causando US$ 28 bilhões em danos. Crédito da imagem: Presidência do Equador/Flickr . Imagem de domínio público.

O estudo, publicado no Journal of Disaster Risk Reduction, combinou dados de pesquisas domiciliares do Equador entre 2007 e 2019 com informações meteorológicas e características geográficas, como suscetibilidade a inundações, secas e deslizamentos de terra. Utilizando modelos, examinou como esses eventos influenciam a distância da população em relação à linha de pobreza.

Entre suas conclusões, observou que a crise de chuvas, tanto em excesso quanto na seca, faz com que famílias pobres e de baixa renda sofram consequências ainda mais graves por viverem em áreas altamente suscetíveis.

Nesses locais, a exposição a riscos ambientais se cruza com a vulnerabilidade econômica devido à escassez de recursos para se adaptar às mudanças climáticas . Isso leva, por exemplo, à destruição de casas por deslizamentos de terra ou lama resultantes de inundações, ou a grandes cortes de energia durante ondas de calor e secas.

A pesquisa descobriu que as interrupções nas chuvas reduzem a renda familiar em 3% na área urbana em geral, e caem até 26% em bairros vulneráveis.

“Dentro deste grupo, aqueles que vivem em assentamentos informais são os mais afetados. E as mulheres ainda mais”, disse Cristhina Llerena Pinto, econometrista e professora da Universidade Central do Equador e uma das autoras do estudo, ao SciDev.Net .

De fato, o estudo descreve o impacto sobre as mulheres como “desproporcional”. Elas estão super-representadas no mercado de trabalho informal, arcam com o peso das tarefas de cuidado, têm rendas mais baixas e instáveis ​​e têm dificuldade para poupar, acessar crédito, obter qualificação profissional e estudar, o que, segundo o estudo, restringe a mobilidade social ascendente.

Contatada pelo SciDev.Net , María Carla Rodríguez, socióloga especializada em planejamento urbano e habitat, pesquisadora do Instituto Gino Germani e professora da Universidade de Buenos Aires, descreveu o estudo como “sólido e consistente”. Ela afirmou que “os bairros pobres sofrem maiores danos” devido aos “efeitos destrutivos dos desastres naturais ” e enfatizou que a desigualdade de gênero na economia informal é ainda mais acentuada.

No caso equatoriano, o Banco Mundial estima que as inundações pluviais custam ao país US$ 33,4 milhões por ano e que 20% da população está exposta ao risco de inundações.

Em 2023, o Equador sofreu a seca mais severa em 50 anos, que afetou o fornecimento de eletricidade devido a uma combinação de escassez de água para gerar energia hidrelétrica e aumento da demanda devido às altas temperaturas.

Embora o estudo tenha tomado o Equador como referência, os autores sugerem que os resultados podem ser extrapolados para outras cidades latino-americanas, especialmente as regiões andinas e costeiras.

Segundo a ONU, entre 2000 e 2022, as enchentes foram o desastre natural mais comum na região, afetando 49 milhões de pessoas e causando US$ 28 bilhões em danos; enquanto as secas afetaram mais de 53 milhões de pessoas e causaram US$ 22 bilhões.

Adaptação e resiliência

Para Llerena Pinto, é fundamental elaborar estratégias de adaptação de longo prazo para populações empobrecidas, com foco nas mulheres. Ela observou que a região poderia adotar medidas conjuntas para ajudar a população, pois “embora cada país tenha suas próprias características específicas, eles enfrentam o impacto das mudanças climáticas com mais frequência”.

Ele afirmou que áreas com risco de desastres naturais devem ser estudadas minuciosamente, e projetos específicos devem ser elaborados em bairros informais, como correção de declives para evitar deslizamentos, barreiras de contenção para evitar inundações, infraestrutura para melhorar o planejamento urbano, expansão da rede de transporte e melhorias na conectividade urbana.

No entanto, ele esclareceu que em alguns distritos de risco extremamente alto, as autoridades devem trabalhar com a população para realocá-la em áreas mais seguras.

Nesse ponto, Rodríguez se diferenciou e sugeriu incorporar uma abordagem comunitária e socioorganizacional às possíveis soluções, cuja participação ele considerou essencial após um evento climático extremo “para a sobrevivência e a recuperação”.

Precisamos oferecer treinamento que ajude as mulheres a ingressar no mercado de trabalho formal. Isso permitirá que elas tenham acesso a uma renda estável e se tornem mais resilientes.

Cristhina Llerena Pinto, econometrista, professora da Universidade Central do Equador

Em vez disso, ele pediu “mudanças no horizonte estratégico de como a distribuição das atividades econômicas da população, a relação com a natureza e o modelo produtivo são reorganizados”.

“Devemos oferecer capacitação que ajude as mulheres a ingressar no mercado de trabalho formal. Isso permitirá que elas tenham acesso a uma renda estável e sejam mais resilientes” aos desastres climáticos, disse Llerena Pinto. Ela também sugeriu que haja capacitação técnica em profissões exigidas pelo mercado e maior acesso à educação de qualidade .

Por fim, ele afirmou que uma alternativa de curto prazo seria pagar bônus emergenciais às populações vulneráveis ​​em áreas de alto risco, antes ou imediatamente após o choque, para que pudessem acessar rapidamente recursos que lhes permitissem adaptar suas casas e evitar que enfrentassem consequências tão graves no futuro. No entanto, ele esclareceu que esta não é uma solução permanente, mas sim “uma assistência temporária para evitar que afundem ainda mais na pobreza”.


Fonte:  SciDev.Net

Engels: debate atual sobre a posição da mulher na sociedade

Edipro lança nova edição de clássico escrito pelo tradicional autor marxista que analisa a primeira forma de divisão social do trabalho: pelo gênero

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Amigo e copensador das ideias de Karl Marx, Friedrich Engels foi um estudioso alemão que também se dedicou ao estudo de seus próprios temas de pesquisa. Uma das obras escritas pelo autor foi A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, até hoje considerado um tratado histórico sobre as relações familiares de sociedades primitivas da Europa.

Neste livro, publicado pela primeira vez em 1884, Engels relata como o surgimento do excedente nas sociedades mais antigas impulsionou a desigualdade e criou a divisão de tarefas que definiam que à mulher caberia dedicar-se a cuidar da casa e dos filhos e aos homens ficaria a tarefa de trabalhar na indústria.

Apontado como um dos clássicos dentro da tradição marxista, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, que ganha nova edição no Brasil pelo Grupo Editorial Edipro, trouxe – e ainda coloca em pauta – debates sobre Estado, representação da mulher na sociedade e assuntos referentes à propriedade privada. O autor recorre ao materialismo histórico e estabelece um novo determinante da ordem social para além das relações de produção: o nível de desenvolvimento da família.

Dividido em nove partes, o livro apresenta um estudo de Engels que é fundamental para a compreensão da passagem dos sistemas de sociedades matriarcais para patriarcais, do nascimento da propriedade privada e da consequente criação do Estado. Inspirado pelo trabalho do antropólogo estadunidense Lewis Morgan, Engels traça os estágios pré-históricos de cultura, do estado selvagem à barbárie, que culminaram na civilização atual.

À medida que iam aumentando, as riquezas davam, por um lado, ao homem uma posição mais importante que à mulher na família, e, por outro, faziam nascer nele a aspiração de se valer dessa vantagem para modificar em proveito dos filhos a ordem de herança estabelecida. Mas isso não podia se fazer enquanto se mantivesse vigente a filiação segundo o direito materno. Este tinha de ser abolido, o que ocorreu. E não foi tão difícil quanto hoje nos parece. Essa revolução — uma das mais profundas que a humanidade já conheceu — não teve necessidade de tocar nem em um único dos membros vivos da gins. Todos os membros desta puderam continuar sendo o que até então tinham sido. Bastou tomar a simples resolução de que os descendentes de um membro masculino permaneceriam na gens, porém os de um membro feminino sairiam dela, passando para a gens de seu pai.
(A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, p. 69)

Esta edição do Grupo Editorial Edipro é traduzida por Saulo Krieger – doutor em Filosofia pela Unifesp – e baseia-se na edição do livro Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staats publicada pela Verlag Schweizerische Volksbuchhandlung em 1892. Este volume apresenta três conjuntos de notas diferentes (do autor, do editor falando das mudanças da primeira para segunda-edição e do editor explicando contextos do livro).

Ficha técnica

Título: A origem da família, da propriedade privada e do Estado
Autor: Friedrich Engels
Tradução: Saulo Krieger
Editora: Edipro
ISBN: 9786556601021
Páginas:  224
Formato:  14cm x 21cm
Preço: R$ 48,50
Link de venda: Amazon

Sobre o autor

Friedrich Engels (1820-1895), teórico alemão que foi coautor de diversas obras com Karl Marx, sendo que a mais conhecida é o Manifesto do Partido Comunista. Ajudou a publicar, após a morte de Marx, os dois últimos volumes de O Capital. Engels foi um filósofo como poucos: soube analisar a sociedade de forma muito eficiente, influenciando diversos autores marxistas.

Gênero e questão agrária são temas de primeiro debate da Série Brasil Rural

mulher reforma agrária

Na semana em que se celebra o Dia do Trabalhador Rural e da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), em parceria com a Friedrich-Ebert-Stiftung Brasil (FES Brasil), convidam todos a participarem do debate “Gênero e questão agrária: desafio das mulheres no Brasil rural”. A live será dia 22 de julho (quinta-feira) às 19h, com transmissão pelo canal do Youtube da FES Brasil.
 
📑 O debate faz parte da Série Brasil Rural, uma iniciativa entre a ABRA e a FES que reúne uma série de artigos que serão lançados a partir desse mês que analisam alguns dos principais desafios e contradições da questão agrária no Brasil. O texto inaugural, que subsidia o debate, chama-se “As Mulheres no Censo Agropecuário 2017”, de autoria de Karla Hora, Miriam Nobre e Andrea Butto.
 
💻 A live contará com a participação das três autoras e mediação de Yamila Goldfarb, da ABRA. Contamos com sua presença! Até lá!
 
🔗 Veja o texto completo: http://www.fes.de/cgi-bin/gbv.cgi?id=17954&ty=pdf

Os impactos da COVID-19 na desigualdade de gênero dentro de lares

COVID GENERO

Por Giuliana Schunck e Tricia Oliveira, advogadas do escritório Trench Rossi Watanabe

Nos últimos anos, o mundo vem celebrando a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres. São muitas as reportagens e notícias exaltando mulheres em cargos de liderança em grandes multinacionais ou posições políticas importantes. Tais conquistas são de extrema relevância e devem, sim, ser festejadas e propagadas, no entanto, há muito ainda pela frente a ser conquistado no âmbito da igualdade profissional e, mais ainda, no âmbito doméstico.

Em reunião com o grupo de gêneros, parte do Comitê de D&I de nosso Escritório, surgiu a discussão de como o isolamento social decorrente da pandemia da COVID-19 colocou em evidência a sempre existente desigualdade na divisão do trabalho doméstico e dos cuidados com as crianças e idosos. Antes do isolamento, apesar de a desigualdade já ocorrer, ela de certo modo era mascarada pelo fato de as crianças irem para a escola, algumas até em período integral e por vezes haver uma “participação” maior do homem que auxiliava no transporte ou em tarefas de casa, sem contar com a possibilidade de maior ajuda com profissionais que realizam tarefas domésticas (isso, claro, para uma parcela de privilegiados), muitos dos quais tiveram que ser afastados para também cumprirem o distanciamento.

Nesse momento, com todos em casa, lições remotas, sem auxilio externo, mais do que nunca se mostra absolutamente acertado o ditado que diz que “é necessária uma vila para cuidar de uma criança”, pois de fato é preciso toda a comunidade para participar dos cuidados com as crianças. Mesmo antes do isolamento, como padrão em uma sociedade patriarcal, as mulheres já tinham a maior carga de conciliar o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos ou parentes idosos. Com o home office, esse cenário se intensificou.

Não há dúvida de que o cenário que temos hoje em termos de divisões de tarefas aparenta ser melhor do que tínhamos há 50, 20 ou até mesmo 10 anos atrás. Mas ainda assim, a situação, talvez na maioria dos lares, é de alguma (ou até mesmo grande) desigualdade.

Na prática, o que se vê são as mães muito mais preocupadas (a chamada carga mental de pensar em tudo) e ocupadas com as questões da casa (comida, limpeza etc.), com as tarefas da escola, e com o entretenimento das crianças em tempos de pandemia.

Essa situação acaba, de forma perversa, refletindo no desempenho profissional das mulheres, que já tanto lutam para poder ocupar espaços de maior destaque, sem contar seus reflexos em sua saúde mental e física.

Uma reportagem do portal The Lily (do The Washington Post) aponta que as mulheres acadêmicas estão produzindo menos artigos científicos durante a pandemia por conta, justamente, do aumento dos cuidados domésticos. Por outro lado, homens da academia estão submetendo 50% a mais de artigos, porque supostamente têm mais tempo de dedicação ao trabalho. E essa realidade, medida no meio acadêmico, certamente pode ser transposta para diversos outros setores profissionais. Isso sem contar outras camadas da população mais vulneráveis, como as trabalhadoras informais.

A ONU Mulheres emitiu relatório sobre os impactos da COVID-19 sobre as mulheres, em diferentes aspectos, desde profissionais e de remuneração, saúde, trabalhos domésticos e não-remunerados, até questões de violência doméstica, demonstrando como esse recorte de gênero é importante e necessário durante a pandemia.  A ONU Mulheres também sugere algumas ações, tais como compartilhar os trabalhos de casa, ler, assistir e compartilhar histórias sobre mulheres, conversar sobre a desigualdade com a família, continuar o ativismo de forma online, entre outros. Mas a verdade é que a eliminação da desigualdade passa por diferentes espectros sociais.

Sem dúvida, é importante fomentar a igualdade dentro de casa, dividindo as tarefas entre parceiros, educando meninos e meninas da mesma forma, mostrando à comunidade que todos ganham em uma sociedade mais igualitária. Porém, os esforços são também importantes em outras searas, como empresas, organizações, escolas, universidades entre outras entidades. É preciso educar a sociedade, de forma geral, que pais e mães devem dividir as responsabilidades com a casa e com os cuidados dos filhos e idosos. Não há nenhuma razão – a não ser aquelas de machismo e patriarcado, – que efetivamente justifique que as mulheres sejam as cuidadoras de todos na sociedade.

Em tempos de pandemia, há de se aproveitar o momento e fomentar mudanças sociais, que inclusive já estavam ocorrendo gradualmente. Já se viu que o home office funciona e as organizações estão se tornando mais empáticas com as necessidades de seus empregados, com a flexibilidade de tempo, entre outras iniciativas que ajudam na questão da igualdade. Outras mudanças também podem acontecer na sociedade: companheiros e pais mais participativos, organizações mais atuantes e engajadas na mudança, uma sociedade mais atenta, mais aberta ao debate e à efetiva necessidade de mudança de comportamento. Esperamos que seja possível aproveitar a experiência do isolamento para que esses novos olhares e atitudes se incorporem na rotina das pessoas e empresas. Não há como voltar ao “normal” depois de tudo isso, justamente porque o “normal” não estava funcionando, impunha um peso muito maior às mulheres e outras minorias, mostrava que nossa sociedade não estava em equilíbrio.

Que possamos refletir, agir e criar uma nova maré para ser seguida por todos, modificando e melhorando a nossa sociedade.