Glifosato não precisa matar as abelhas para ameaçá-las: estudo revela alterações no forrageamento e na química cerebral

Pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology mostra que exposição subletal ao herbicida reduz a atividade de forrageamento das abelhas e altera processos neuroquímicos, somando-se a um conjunto crescente de evidências sobre impactos do glifosato em organismos não alvo e possíveis riscos à saúde humana

Durante décadas, uma das principais linhas de defesa utilizadas para sustentar a suposta segurança ambiental do glifosato esteve baseada no argumento de que seu mecanismo de ação teria como alvo uma via metabólica presente em plantas e microrganismos, mas inexistente nos animais. Um estudo publicado em maio de 2025 no Journal of Experimental Biology acrescenta novas evidências de que essa interpretação é insuficiente para compreender os efeitos ecológicos do herbicida.

O artigo, intitulado “Sublethal glyphosate exposure reduces honey bee foraging and alters the balance of biogenic amines in the brain“, tem como primeira autora Laura C. McHenry, pesquisadora que realizou o trabalho no Departamento de Entomologia da Virginia Tech, nos Estados Unidos. O estudo foi desenvolvido juntamente com Roger Schürch, McAlister Council-Troche, Aaron D. Gross, Lindsay E. Johnson, Bradley D. Ohlinger e Margaret J. Couvillon.

A importância da pesquisa começa justamente pelo conceito de exposição subletal. Em vez de perguntar apenas se determinada concentração de glifosato mata uma abelha, McHenry e seus colaboradores investigaram algo ecologicamente mais complexo: se uma concentração que não provoca mortalidade imediata é capaz de modificar comportamentos essenciais para a sobrevivência das abelhas e, consequentemente, para o funcionamento das colônias.

Os pesquisadores treinaram grupos de abelhas (Apis mellifera) das mesmas colmeias para visitar alimentadores artificiais contendo solução de sacarose. Um grupo recebeu apenas a solução açucarada, enquanto outro foi exposto a uma solução contendo glifosato na concentração de 5 mg de equivalente ácido por litro. Posteriormente, os pesquisadores compararam o comportamento de forrageamento e recrutamento das abelhas e analisaram substâncias relacionadas ao funcionamento do sistema nervoso desses insetos.

O resultado merece atenção: as abelhas expostas ao glifosato reduziram em 13,4% sua atividade de forrageamento. Os pesquisadores também encontraram alterações envolvendo a tiramina e relações entre tiramina, octopamina e tirosina no cérebro das abelhas. Essas chamadas aminas biogênicas desempenham funções importantes na regulação do comportamento dos insetos.

Isso significa que a toxicidade ambiental não pode ser medida exclusivamente contando organismos mortos. Uma abelha pode permanecer viva e, ainda assim, ter reduzida sua capacidade de executar atividades fundamentais para a colônia. Forragear significa localizar recursos, coletar néctar e pólen e contribuir para a manutenção energética e nutricional da colmeia. Uma redução persistente nessa atividade pode adquirir consequências que ultrapassam amplamente o indivíduo contaminado.

E existe aqui uma dimensão ainda maior. As abelhas estão entre os principais polinizadores dos ecossistemas terrestres e desempenham um papel fundamental tanto na reprodução de plantas silvestres quanto na produção agrícola. Assim, alterações aparentemente discretas no comportamento individual podem potencialmente produzir consequências em cascata quando milhões de indivíduos são continuamente expostos em paisagens agrícolas dominadas pelo uso intensivo de agrotóxicos.

O estudo de McHenry e colaboradores também não aparece isoladamente. Pesquisas anteriores já haviam identificado diversos efeitos subletais do glifosato sobre abelhas, incluindo alterações da homeostase fisiológica, desregulação imunológica, mudanças nos padrões de sono, redução da capacidade de navegação, menor resposta à sacarose e prejuízos à aprendizagem associativa e à retenção da memória olfativa. Os próprios autores recuperam essa literatura ao contextualizar seus resultados.

Outro resultado particularmente importante havia sido publicado em 2018 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Erick V. S. Motta, Kasie Raymann e Nancy A. Moran demonstraram que o glifosato pode modificar a microbiota intestinal das abelhas, reduzindo populações de bactérias benéficas. As abelhas expostas tornaram-se posteriormente mais vulneráveis à bactéria oportunista Serratia marcescens. Em outras palavras, o herbicida pode produzir efeitos indiretos sobre um animal justamente porque interfere nos microrganismos dos quais esse animal depende.

Essa constatação desmonta uma simplificação recorrente no discurso sobre a segurança do glifosato. O fato de os animais não possuírem a via do chiquimato, que constitui o alvo primário do herbicida nas plantas, não significa automaticamente que estejam protegidos de seus efeitos. Animais vivem associados a comunidades microbianas, enquanto processos de estresse oxidativo, alterações metabólicas e outros mecanismos podem oferecer caminhos adicionais de toxicidade.

O problema vai muito além das abelhas

A literatura científica disponível indica que os efeitos potenciais do glifosato e de suas formulações comerciais precisam ser examinados em uma escala ecotoxicológica muito mais ampla. Estudos com organismos aquáticos, por exemplo, vêm relatando alterações fisiológicas, histológicas, metabólicas e comportamentais. Uma revisão sobre glifosato e seu principal produto de degradação, o AMPA, reuniu evidências de impactos em organismos aquáticos, particularmente peixes.

Uma síntese mais recente da ecotoxicidade do glifosato em ambientes aquáticos identificou efeitos associados a mecanismos como estresse oxidativo, inibição enzimática e alterações endócrinas, com possíveis consequências neurológicas, reprodutivas e de desenvolvimento em diferentes grupos taxonômicos. Isso é especialmente preocupante porque a utilização agrícola em grande escala cria múltiplas rotas pelas quais resíduos podem alcançar solos, águas superficiais e organismos que jamais foram o alvo da aplicação do herbicida.

Temos, portanto, um problema típico da agricultura quimicamente intensiva: o agrotóxico é aplicado para controlar uma espécie ou conjunto de espécies consideradas indesejáveis, mas sua circulação não respeita as fronteiras do campo cultivado. Deriva, escoamento superficial, transporte pelo solo e contaminação da água ampliam espacialmente a exposição e transformam uma decisão agronômica localizada em um problema potencialmente ecossistêmico.

E os seres humanos?

Quando passamos para a saúde humana, é necessário reconhecer que existe uma controvérsia científica e regulatória importante. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato no Grupo 2A, isto é, como “provavelmente carcinogênico para humanos”. A avaliação considerou evidência limitada de carcinogenicidade em seres humanos, evidência suficiente em animais experimentais e fortes evidências de genotoxicidade.

A associação epidemiológica com câncer continua sendo debatida. Uma meta-análise publicada em 2019 encontrou associação entre as categorias de maior exposição a herbicidas à base de glifosato e maior risco de linfoma não Hodgkin. Por outro lado, uma meta-análise posterior não encontrou associação estatisticamente significativa para linfoma não Hodgkin considerado em conjunto, embora tenha indicado que uma associação com determinados subtipos, particularmente o linfoma difuso de grandes células B, não poderia ser descartada.

Essa divergência é importante porque mostra que não se deve apresentar como consenso científico aquilo que continua sendo objeto de disputa. Também revela a diferença entre identificação de perigo e avaliação de risco. A classificação da IARC procura determinar se uma substância possui capacidade de provocar câncer sob determinadas condições de exposição; avaliações regulatórias procuram estimar o risco considerando níveis e formas específicas de exposição.

É justamente por isso que existe contraste entre instituições. Em 2023, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) informou que sua revisão não identificara “áreas críticas de preocupação” que impedissem a renovação da autorização do glifosato, embora tenha reconhecido lacunas de dados em determinados aspectos da avaliação.

Entretanto, novas evidências experimentais continuam aparecendo. Em 2025, pesquisadores ligados ao Global Glyphosate Study publicaram na revista Environmental Health os resultados de um experimento de carcinogenicidade realizado com ratos Sprague-Dawley expostos desde a vida pré-natal ao glifosato e a formulações comerciais contendo o herbicida. O estudo encontrou aumento estatisticamente significativo de diferentes tipos de tumores nos grupos expostos, inclusive em algumas das doses estudadas dentro de faixas utilizadas como referência regulatória.

Nenhum desses estudos, isoladamente, encerra a discussão sobre os riscos do glifosato. Mas o conjunto das evidências torna cada vez mais difícil sustentar a imagem de uma substância ambientalmente inócua simplesmente porque sua toxicidade aguda para determinados animais é relativamente baixa.

A morte não pode continuar sendo a única medida da toxicidade

É justamente nesse ponto que o trabalho liderado por Laura C. McHenry adquire relevância especial. A pergunta fundamental deixa de ser “quanto glifosato é necessário para matar uma abelha?” e passa a ser “o que acontece com uma abelha que permanece viva depois de ser exposta ao glifosato?”.

Essa mudança parece pequena, mas possui enormes implicações para a maneira como avaliamos agrotóxicos. Um organismo pode sobreviver e apresentar alterações na memória, orientação espacial, alimentação, reprodução, imunidade, microbiota ou comportamento. Quando esses efeitos atingem organismos sociais como as abelhas, alterações individuais podem potencialmente repercutir sobre a organização da colônia inteira.

E quando o organismo afetado é um polinizador, as consequências potenciais avançam ainda mais pela cadeia ecológica.  A pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology contribui, portanto, para questionar um paradigma regulatório excessivamente concentrado na toxicidade aguda. Ecossistemas não são constituídos simplesmente por organismos “vivos” ou “mortos”. Eles dependem de relações ecológicas, comportamentos, processos fisiológicos, reprodução, comunicação, competição, mutualismos e inúmeras outras interações.

O glifosato pode não matar imediatamente uma abelha exposta a uma determinada concentração. Mas uma abelha que forrageia menos, navega pior, apresenta alterações neuroquímicas ou possui microbiota intestinal modificada não é ecologicamente equivalente a uma abelha não exposta.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das principais lições desse novo estudo: quando milhões de organismos são submetidos repetidamente a exposições subletais, aquilo que parece pequeno no laboratório pode deixar de ser pequeno na escala de uma paisagem agrícola inteira.  A pergunta que deveria orientar políticas públicas e sistemas de avaliação ambiental, portanto, não é apenas quanto de um agrotóxico um organismo consegue suportar antes de morrer. A questão deveria ser muito mais exigente: quanto é possível alterar silenciosamente o funcionamento dos organismos antes de comprometer também o funcionamento dos ecossistemas dos quais dependemos?

Estudo abrangente associa glifosato à ansiedade e ao autismo

Por Sustainable Pulse

O estudo multigeneracional mais abrangente sobre os herbicidas glifosato e Roundup revelou comportamento semelhante à ansiedade, dependente da dose, em ratos expostos a doses consideradas “seguras” pelos órgãos reguladores. As descobertas, que em breve serão publicadas após revisão por pares, reforçam diversos estudos menores que demonstraram um possível papel do glifosato no transtorno do espectro autista.

Herbicidas à base de glifosato são pulverizados em tudo, desde plantações de soja até calçadas suburbanas. Órgãos reguladores nos Estados Unidos e na Europa há muito tempo afirmam que as doses às quais a maioria das pessoas é exposta são seguras. No entanto, este novo estudo abrangente , publicado este mês como pré-impressão por pesquisadores do Instituto Ramazzini, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, da Universidade George Mason e do Boston College, sugere que essa suposição merece uma análise mais aprofundada — pelo menos no que diz respeito ao cérebro.

O estudo expôs ratos ao glifosato ou a uma de duas formulações comerciais, Roundup Bioflow e Ranger Pro, continuamente ao longo de três gerações — começando no útero e continuando por um ano inteiro de vida. As doses variaram da Ingestão Diária Aceitável da União Europeia (UDI), o nível que os reguladores consideram seguro para exposição humana ao longo da vida, até o Nível Sem Efeitos Adversos Observados (NOAA) da UE, a dose mais alta na qual não se supõe que ocorram danos.

Quando a terceira geração de ratos atingiu um ano de idade, aproximadamente equivalente à meia-idade em humanos, os animais expostos apresentavam comportamentos diferentes. Em um teste padrão de comportamento exploratório chamado teste de campo aberto, os ratos tratados — especialmente os machos e, principalmente, aqueles expostos às formulações comerciais do herbicida em vez de apenas ao glifosato — passavam mais tempo junto às paredes da arena de teste, movimentavam-se com menos liberdade em espaços abertos, congelavam com mais frequência e se limpavam de forma desorganizada e fragmentada, em vez da sequência suave da cabeça à cauda típica de um rato sem perturbações. Em conjunto, segundo os pesquisadores, esses são marcadores clássicos de ansiedade elevada em roedores. Os ratos machos expostos às formulações comerciais também apresentaram reduções modestas na força de preensão dos membros posteriores, sugerindo efeitos sutis na função neuromuscular. A memória, a coordenação motora geral e os sinais neurológicos evidentes não foram afetados.

“Nossos resultados toxicológicos levantam preocupações importantes sobre os efeitos neurocomportamentais dos herbicidas à base de glifosato, incluindo transtornos do espectro autista, mesmo em doses atualmente consideradas “seguras””, afirmou na terça-feira o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal do Estudo Global sobre Glifosato e autor sênior do artigo.

Por que o autismo entra na conversa?

O artigo não afirma ter encontrado evidências diretas de autismo em ratos — não foram realizados os testes, como avaliações de comportamento social, que os pesquisadores normalmente usam para modelar características semelhantes ao autismo em animais. O que ele faz é adicionar um dado a um crescente conjunto de pesquisas em humanos e animais que, segundo os pesquisadores, levantam a questão de se o glifosato deve ser incluído na lista de exposições ambientais que merecem ser investigadas quanto a um possível papel em condições de neurodesenvolvimento, incluindo o transtorno do espectro autista.

Essa ligação mais ampla se baseia principalmente em outros estudos, que o novo artigo cita como contexto. Estudos epidemiológicos encontraram associações entre a exposição ao glifosato, medida na urina, e comprometimento cognitivo, sintomas depressivos e desempenho inferior em testes de percepção social em adolescentes. Estudos separados com animais — que não fazem parte deste novo artigo — relataram que camundongos expostos a herbicidas à base de glifosato durante a gestação apresentam déficits sociais semelhantes ao autismo na idade adulta. Uma revisão de 2025 analisou as evidências existentes que conectam a exposição a herbicidas à base de glifosato especificamente ao transtorno do espectro autista, descrevendo-a como uma área de pesquisa emergente, mas ainda incompleta.

Os autores do novo estudo abrangente com ratos argumentam que suas descobertas são relevantes para essa discussão porque a ansiedade, os padrões de higiene alterados e a reatividade sensorial modificada a novos ambientes são domínios comportamentais que se sobrepõem a características observadas no transtorno do espectro autista, e porque as vias neurobiológicas implicadas em outras pesquisas sobre o glifosato — sinalização serotoninérgica interrompida, neuroinflamação, distúrbios do microbioma intestinal que afetam a química cerebral — são vias também implicadas na pesquisa sobre autismo de forma mais ampla.

O que tornou este estudo diferente?

O novo estudo faz parte de um projeto maior: o Estudo Global do Glifosato, um programa de pesquisa multi-institucional que representa a avaliação toxicológica mais abrangente já realizada sobre o glifosato e suas formulações comerciais. O estudo examina não apenas o comportamento neurológico, mas também o risco de câncer, a toxicidade para órgãos, a disrupção endócrina e os efeitos no desenvolvimento em uma mesma coorte multigeneracional de animais. Outras vertentes desse programa, incluindo um estudo de carcinogenicidade, já foram publicadas e demonstraram que herbicidas à base de glifosato causam diversos tipos de câncer; esta análise neurocomportamental é a mais recente delas. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) está atualmente realizando uma revisão completa dos resultados do estudo de carcinogenicidade, o que pode levar a mudanças na regulamentação do produto químico na União Europeia.

A maioria das pesquisas anteriores com animais sobre os efeitos neurológicos do glifosato analisou uma única geração, exposta por algumas semanas, e testou o produto químico em sua forma pura. Este estudo fez o oposto em todos os aspectos: três gerações, exposição contínua desde antes do nascimento até um ano de idade e — crucialmente — testes dos produtos comerciais aos quais as pessoas são realmente expostas, não apenas do ingrediente ativo.

Essa distinção acabou sendo importante. Em praticamente todas as medidas, as formulações comerciais Roundup Bioflow e Ranger Pro produziram efeitos mais amplos e, muitas vezes, maiores do que o glifosato isoladamente, mesmo quando a dose de glifosato era idêntica. Os pesquisadores apontam isso como evidência de que os ingredientes inativos em herbicidas comerciais — os surfactantes e adjuvantes que ajudam os produtos a aderir e penetrar nas folhas das plantas — não são biologicamente inertes em mamíferos, uma preocupação que outros laboratórios vêm levantando há anos, mas que as avaliações de risco regulatórias, que normalmente avaliam apenas o glifosato, não abrangem completamente.

O padrão com predominância de machos também é notável. Em todos os resultados, quando uma diferença entre os sexos surgiu, foram os ratos machos que se mostraram mais afetados — um padrão que ecoa a proporção de aproximadamente quatro para um de machos nos diagnósticos de transtorno do espectro autista em humanos, embora os autores do estudo sejam cautelosos em não traçar uma relação direta entre os dois.


Fonte: Sustainable Pulse

Amplo estudo realizado em Nova York reforça a evidência que associa o glifosato ao risco de parto prematuro

Por Julie Zenderoudi para “The New Lede”

Mulheres grávidas expostas ao glifosato, o herbicida mais  amplamente utilizado no mundo, podem enfrentar um risco maior de partos prematuros, de acordo com um dos maiores estudos já realizados sobre essa relação. 

O estudo, liderado pelo New York University (NYU) Langone Health e publicado na revista Environmental Pollution , mostrou que mulheres grávidas com maior exposição ao glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup, apresentaram um risco significativamente maior de entrar em trabalho de parto espontâneo prematuro. Embora pesquisas anteriores já tivessem associado a exposição ao glifosato a gestações mais curtas, o estudo da NYU é um dos maiores a examinar a exposição durante a gravidez e o parto prematuro em humanos.

“Este estudo reforça a ideia de que a exposição ao glifosato durante a gravidez é generalizada e pode estar ligada ao risco de parto prematuro. Mesmo associações modestas são importantes porque a gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais”, disse Jessie Buckley, professora de epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, em um e-mail.

“A gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais.” — Jessie Buckley, Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill

Pesquisadores coletaram amostras de urina de 1.450 mulheres que deram à luz entre 2016 e 2019 e descobriram que aquelas com níveis mais altos de glifosato durante o meio da gravidez tinham maior probabilidade de entrar em trabalho de parto espontâneo — ou seja, entrar em trabalho de parto naturalmente antes de 37 semanas, em vez de ter o parto induzido medicamente — em comparação com aquelas com níveis mais baixos.

O parto prematuro é uma das principais causas de doenças e morte em recém-nascidos. Bebês prematuros podem enfrentar uma série de problemas de saúde, incluindo infecções e dificuldades de aprendizagem e desenvolvimento a longo prazo.

As participantes planejavam dar à luz em hospitais da cidade de Nova York, longe de áreas agrícolas, o que sugere que a exposição provavelmente ocorreu por meio dos alimentos. “Não é como se estivessem em populações agrícolas onde há pulverização em larga escala e dispersão de resíduos de herbicidas pelo ar”, disse o Dr. Leonardo Trasande, autor sênior do estudo e professor de pediatria na Escola de Medicina Grossman da NYU.

Buckley observou que a exposição ao glifosato não é algo que as pessoas possam necessariamente evitar. “A exposição ao glifosato é fundamentalmente um problema sistêmico. Reduções reais exigem decisões políticas sobre como e onde o glifosato é usado”, disse Buckley. “Embora a dieta possa influenciar a exposição pessoal, mudanças como a escolha de alimentos orgânicos não estão igualmente disponíveis para todos. Escolhas individuais não podem substituir ações preventivas que eliminem o risco de exposição em primeiro lugar.”

O estudo surge um mês depois de o Supremo Tribunal ter decidido a favor da Monsanto, agora propriedade da Bayer, limitando os processos judiciais de consumidores contra empresas de pesticidas. A decisão no caso Monsanto v. Durnell determinou que as empresas de pesticidas não podem ser responsabilizadas por omitirem avisos sobre o risco de cancro, desde que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) tenha considerado esses avisos desnecessários.

Em fevereiro, o governo Trump assinou uma ordem executiva protegendo a produção de glifosato. A ordem foi amplamente criticada por grupos de saúde pública e ambientalistas.

Um porta-voz da Ruveon, subsidiária da Bayer que administra seus produtos à base de glifosato, afirmou que estão analisando a publicação. “O glifosato tem sido usado com segurança há 50 anos e está entre os produtos de sua categoria mais extensivamente estudados”, diz o comunicado, acrescentando que “nenhuma autoridade regulatória no mundo determinou que o glifosato cause danos reprodutivos ou ao desenvolvimento”.

Trasande acredita que os resultados apresentados no estudo destacam a necessidade de regulamentações mais rigorosas para proteger a saúde de gestantes e bebês, dois grupos especialmente vulneráveis ​​a substâncias químicas no meio ambiente. “Certamente, isso reforça ainda mais a necessidade de mudanças, tanto individuais quanto sociais, em relação ao que comemos e como produzimos [alimentos].”

Imagem em destaque por Eduardo Ramos no Unsplash


Fonte: The New Lede

Novo estudo associa exposição ao glifosato a alterações em hormônios importantes durante a gravidez

Por Sustainable Pulse

Um novo estudo que examinou como o herbicida mais usado no mundo pode afetar o corpo das mulheres durante a gravidez revelou que a exposição ao glifosato, o ingrediente ativo de muitos herbicidas, está relacionada a alterações em diversos hormônios que contribuem para a gravidez e o desenvolvimento fetal.

 estudo , publicado no Journal of Exposure Science and Environmental Epidemiology, analisou 752 mulheres grávidas em Porto Rico. A equipe de pesquisa descobriu que níveis mais altos de glifosato e um composto relacionado estavam associados a alterações hormonais que auxiliam na manutenção da placenta, no crescimento fetal e no momento do parto. O glifosato é amplamente utilizado na agricultura, paisagismo e em produtos para controle de ervas daninhas, e as pessoas podem ser expostas por meio de alimentos, água, solo, deriva de pesticidas ou contato com áreas tratadas.

“Este é o herbicida mais utilizado no mundo, contudo, existem surpreendentemente poucos estudos sobre os potenciais impactos que ele pode ter na saúde reprodutiva humana, na gravidez ou no desenvolvimento fetal e infantil”, afirmou John Meeker, professor de Ciências da Saúde Ambiental na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan e autor principal do artigo. “Ao considerarmos nossas novas descobertas juntamente com as de estudos experimentais, fica claro que é preciso dar mais atenção a esses riscos potenciais e que mais pesquisas são urgentemente necessárias.”

Os pesquisadores utilizaram dados da  coorte de nascimento PROTECT , um estudo de longa duração sobre exposições ambientais e saúde materno-infantil em Porto Rico.

As participantes forneceram amostras de urina até três vezes durante a gravidez, por volta das 18, 22 e 26 semanas. Os pesquisadores também mediram diversos hormônios em amostras de sangue, incluindo estrogênio, hormônios da tireoide e hormônio liberador de corticotropina (CRH). O CRH é um hormônio envolvido na resposta do corpo ao estresse e em processos biológicos relacionados ao trabalho de parto.

Glifosato e AMPA — a principal substância em que o glifosato se decompõe no meio ambiente — foram encontrados na maioria (70%) das amostras coletadas nas visitas de estudo, demonstrando que a exposição era comum entre os participantes.

Para cada aumento moderado nos níveis de AMPA, os pesquisadores encontraram níveis de estriol 10,6% menores durante a gravidez. Um aumento semelhante no glifosato foi associado a níveis de estriol 8,3% menores. O AMPA também foi associado a níveis mais elevados do hormônio tireoidiano T3.

Mais tarde na gravidez, o AMPA foi associado a níveis mais elevados de hormônio estimulante da tireoide, e o glifosato foi associado a níveis mais elevados de CRH.

“Os níveis de exposição que medimos em Porto Rico são mais altos do que os relatados para a população geral dos EUA, e os territórios americanos historicamente suportam uma parcela desproporcional dos impactos ambientais”, disse Mislael Valentín-Cortés, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Epidemiologia da Universidade de Michigan. “Crucialmente, essas exposições químicas coincidem com eventos climáticos extremos, desastres e falhas de infraestrutura, e seus efeitos adversos cumulativos sobre a saúde exigem uma atenção mais constante do que a que recebem atualmente.”

Alguns estudos recentes em humanos associaram a exposição ao glifosato a certos desfechos relacionados à gravidez, incluindo parto prematuro e diferenças no crescimento fetal. Até então, pouco se sabia sobre as alterações biológicas que poderiam explicar essas associações.

Este estudo aponta para a disrupção hormonal como uma possível via. As descobertas complementam estudos em laboratório e com animais que sugerem que herbicidas à base de glifosato podem afetar o sistema endócrino e acrescentam novas evidências em humanos a partir de medições repetidas durante a gravidez.

Os autores observaram que o estudo foi observacional, o que significa que pode mostrar associações, mas não pode comprovar causa e efeito por si só sem considerações adicionais. As amostras de urina também refletem a exposição recente e podem não capturar a exposição total de uma pessoa ao longo da gravidez. O estudo não testou se as alterações hormonais levaram a resultados do parto ou efeitos posteriores na saúde da criança, mas os pesquisadores planejam explorar isso no futuro com a coleta de mais dados.

Ainda assim, os pesquisadores afirmam que as descobertas contribuem para o crescente interesse em como as exposições ambientais comuns podem afetar a saúde durante a gravidez.

“À medida que a atenção pública continua a crescer em torno de alimentos, pesticidas e saúde ambiental, essas descobertas ajudam a direcionar a conversa de uma preocupação geral para mudanças mensuráveis ​​em processos fisiológicos”, disse Meeker. “Compreender como as exposições comuns podem afetar a gravidez é um passo importante para proteger a saúde materna e infantil.”


Fonte: Sustainable Pulse

Quem vigia a ciência? Caso Unicamp expõe como interesses do agronegócio ameaçam a integridade da ciência sobre agrotóxicos

Reportagem da Repórter Brasil mostra que a influência de financiadores privados sobre estudos científicos pode ser muito mais ampla do que se imagina e levanta dúvidas sobre a capacidade das instituições de proteger a independência da produção do conhecimento

A reportagem de Hélen Freitas, publicada pela Repórter Brasil merece ser lida com atenção por todos aqueles que acompanham o debate sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana e no meio ambiente. O caso relatado não se resume à abertura de uma investigação pela Unicamp e pela revista científica InterAmerican Journal of Medicine and Health. Ele lança luz sobre um problema muito mais amplo: a fragilidade dos mecanismos de proteção da integridade científica justamente em uma das áreas mais disputadas da pesquisa contemporânea. 

Segundo a reportagem, a investigação procura esclarecer possíveis conflitos de interesse em um estudo que concluiu que trabalhadores rurais expostos ao glifosato apresentavam níveis considerados aceitáveis do herbicida. A questão central, entretanto, não é apenas o financiamento da pesquisa pela Aprosoja-MT. Os documentos analisados indicam que a entidade financiadora também teria participado da seleção dos trabalhadores avaliados, indicado laboratórios responsáveis pelas análises e participado da logística de coleta e transporte das amostras. Em outras palavras, o financiador teria interferido em etapas fundamentais do desenho metodológico da pesquisa.

Caso essas informações sejam confirmadas, estaremos diante de algo muito mais grave do que um simples conflito administrativo, pois se trata da possibilidade de comprometimento da independência científica justamente no momento em que são produzidas evidências destinadas a orientar decisões regulatórias sobre um dos herbicidas mais utilizados no planeta.

O aspecto mais preocupante, porém, talvez seja outro. É que seria um erro interpretar esse episódio como um acidente isolado. Ao contrário, ele parece ilustrar um padrão recorrente na literatura científica relacionada aos agrotóxicos.

Nas últimas décadas, inúmeras revisões sistemáticas demonstraram que estudos financiados por fabricantes ou por entidades diretamente interessadas na manutenção do uso de determinados produtos tendem, com frequência significativamente maior, a produzir conclusões favoráveis à segurança dessas substâncias quando comparados às pesquisas conduzidas por grupos independentes. Esse fenômeno já foi amplamente documentado nas áreas do tabaco, da indústria farmacêutica, dos combustíveis fósseis e, cada vez mais, da agricultura baseada em insumos químicos.

Não se trata de afirmar que toda pesquisa financiada pelo setor privado seja necessariamente inválida. A ciência depende de diferentes fontes de financiamento, inclusive empresariais. O problema surge quando o patrocinador deixa de financiar e passa a interferir na definição das perguntas, na seleção dos participantes, na metodologia empregada, na interpretação dos resultados ou na divulgação das conclusões. A partir desse momento, a independência científica deixa de existir.

O caso da Unicamp também revela outro aspecto igualmente preocupante: a insuficiência dos mecanismos de monitoramento ético atualmente existentes.

Os Comitês de Ética em Pesquisa exercem papel fundamental na proteção dos participantes dos estudos. Entretanto, sua atuação concentra-se predominantemente na análise inicial dos protocolos de pesquisa. Depois da aprovação, o acompanhamento efetivo da execução dos estudos costuma ser bastante limitado, dependendo quase sempre das informações prestadas pelos próprios pesquisadores.

Esse modelo parte de uma premissa de boa-fé que, embora essencial ao funcionamento da ciência, torna-se insuficiente quando pesquisas envolvem interesses econômicos extremamente elevados. Se, durante a execução do estudo, ocorrerem mudanças relevantes na seleção dos participantes, nos procedimentos metodológicos ou na participação do financiador, muitas vezes não existem mecanismos institucionais capazes de detectar essas alterações em tempo oportuno.

Da mesma forma, o sistema editorial das revistas científicas baseia-se fortemente nas declarações de conflito de interesse apresentadas pelos próprios autores. Editores e pareceristas normalmente não possuem instrumentos para verificar independentemente se todas as relações financeiras, institucionais ou metodológicas foram efetivamente declaradas. Como consequência, o sistema depende quase inteiramente da transparência dos pesquisadores.

É justamente essa combinação entre fiscalização limitada durante a execução das pesquisas e confiança quase absoluta nas autodeclarações dos autores que cria um ambiente favorável para conflitos de interesse permanecerem invisíveis durante anos.

O episódio reforça, portanto, a necessidade de uma agenda muito mais robusta de integridade científica. Pesquisas com potencial impacto sobre políticas públicas de saúde e de regulação ambiental deveriam adotar padrões muito mais rigorosos de transparência. Protocolos previamente registrados, divulgação integral das fontes de financiamento, publicidade sobre a participação dos patrocinadores em cada etapa da pesquisa, acesso aos bancos de dados e auditorias independentes deveriam constituir práticas rotineiras — e não exceções.

Essa discussão torna-se ainda mais urgente quando lembramos que as decisões regulatórias envolvendo agrotóxicos afetam milhões de trabalhadores rurais, comunidades expostas à pulverização, consumidores e ecossistemas inteiros. Quanto maiores os impactos sociais de uma pesquisa, maior deve ser o grau de independência e de escrutínio público sobre sua produção.

Por isso, o mérito da reportagem da Repórter Brasil vai além da denúncia de um caso específico. Ela convida a comunidade científica a enfrentar uma questão desconfortável, mas inevitável: até que ponto os atuais mecanismos de integridade científica conseguem proteger a produção do conhecimento quando os interesses econômicos em jogo alcançam bilhões de reais?

Infelizmente, tudo indica que, na área dos agrotóxicos, a resposta ainda está longe de ser satisfatória.

Glifosato: da contaminação ambiental ao risco das superbactérias

Pesquisa publicada na Frontiers in Microbiology mostra que bactérias resistentes a múltiplos antibióticos também apresentam elevada resistência ao herbicida mais utilizado no mundo, ampliando as preocupações sobre os impactos ambientais e sanitários do atual modelo agrícola

Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Microbiology acrescenta uma dimensão particularmente preocupante ao já extenso debate sobre os riscos associados ao glifosato. A pesquisa, conduzida por Camila A. Knecht e colaboradores, encontrou evidências de que bactérias hospitalares altamente resistentes a antibióticos também apresentam elevada resistência ao glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo. A divulgação dos resultados pela ScienceDaily amplia o alcance de uma descoberta que merece atenção não apenas da comunidade científica, mas também das autoridades responsáveis pelas políticas de saúde pública e agricultura.

O estudo analisou mais de uma centena de cepas bacterianas provenientes de hospitais, áreas agrícolas e ambientes naturais na região do Delta do Paraná, na Argentina. Os resultados revelaram um padrão inquietante: bactérias resistentes a múltiplos antibióticos também suportavam concentrações elevadas de glifosato e de formulações comerciais baseadas nesse herbicida. Os autores sugerem que a utilização intensiva do glifosato em sistemas agrícolas pode favorecer a seleção e a permanência dessas bactérias no ambiente, criando uma ponte ecológica entre hospitais e áreas rurais.

A hipótese apresentada pelos pesquisadores é particularmente relevante porque desloca parte do debate sobre resistência antimicrobiana para além do uso indiscriminado de antibióticos. Se confirmada por novos estudos, ela indica que herbicidas largamente empregados na agricultura também podem contribuir para selecionar microrganismos capazes de sobreviver aos principais antibióticos utilizados na medicina.

Embora o trabalho não demonstre que o glifosato seja a única causa da disseminação dessas bactérias, ele reforça a necessidade de compreender a resistência antimicrobiana como um fenômeno ambiental complexo, envolvendo múltiplos fatores de seleção. Nesse contexto, agricultura, saúde pública e qualidade ambiental deixam de ser temas separados e passam a integrar um mesmo sistema.

Na realidade brasileira, essa discussão adquire importância ainda maior. O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais de glifosato, impulsionado pela expansão das monoculturas de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Em um cenário caracterizado pela aplicação contínua de grandes volumes desse herbicida, torna-se legítimo perguntar quais são os efeitos cumulativos dessa exposição sobre os microrganismos presentes nos solos, nos corpos d’água e até mesmo nos sistemas de abastecimento.

Esse novo estudo também dialoga com uma literatura científica que vem crescendo rapidamente. Em 2023, uma pesquisa publicada igualmente na Frontiers in Microbiology demonstrou que trabalhadores expostos ocupacionalmente a diferentes classes de agrotóxicos apresentavam alterações significativas na diversidade e na composição da microbiota intestinal. Os autores identificaram redução da diversidade bacteriana e modificações em dezenas de espécies microbianas associadas à exposição prolongada a fungicidas, inseticidas e outros pesticidas. Em outras palavras, os agrotóxicos não afetam apenas os organismos-alvo das lavouras: eles também alteram comunidades microbianas fundamentais para a saúde humana.

Essas descobertas convergem para uma conclusão cada vez mais difícil de ignorar: os processos regulatórios utilizados para autorizar pesticidas continuam avaliando predominantemente sua toxicidade direta sobre organismos superiores, mas ainda dedicam pouca atenção aos impactos ecológicos sobre comunidades microbianas. Trata-se de uma lacuna importante, pois o microbioma humano e ambiental desempenha funções essenciais para a imunidade, o metabolismo, a fertilidade dos solos e o equilíbrio dos ecossistemas.

Os próprios autores do estudo mais recente defendem que os processos de registro de pesticidas passem a incorporar testes que avaliem seu potencial de favorecer a seleção conjunta de resistência a antibióticos. É uma proposta coerente com o conceito de “Saúde Única” (One Health), segundo o qual saúde humana, saúde animal e saúde ambiental são dimensões inseparáveis.

Enquanto o agronegócio insiste em apresentar o glifosato apenas como uma ferramenta indispensável para elevar a produtividade agrícola, a ciência continua revelando efeitos indiretos que extrapolam em muito o controle de plantas daninhas. Se herbicidas também contribuem para fortalecer superbactérias resistentes aos antibióticos, estamos diante de um problema que ultrapassa os limites das lavouras e alcança diretamente hospitais, sistemas de saúde e toda a sociedade.

A Bayer está no banco dos réus. Quem julga a Revolução Verde?

A denúncia relatada por Ana Carolina Bortoleto revela que, por trás de uma corporação específica, existe um modelo agrícola inteiro baseado na socialização dos danos ambientais e sanitários e na privatização dos lucros

O artigo Denúncia contra Bayer expõe falhas globais na responsabilização por agrotóxicos”, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil e assinado por Jaqueline Pereira de Andrade e Daisy Carolina Tavares Ribeiro, oferece uma oportunidade valiosa para refletirmos sobre um problema que vai muito além de uma única empresa. O caso envolvendo a Bayer não deve ser interpretado como uma tentativa de exonerar a multinacional alemã de suas responsabilidades. Ao contrário, ele evidencia tanto o papel desempenhado pelas grandes corporações químicas na consolidação da agricultura dependente de agrotóxicos quanto os limites dos mecanismos institucionais atualmente existentes para controlá-las e responsabilizá-las pelos danos que seus produtos podem causar.

A Bayer ocupa hoje uma posição central no mercado global de insumos agrícolas, especialmente após a aquisição da Monsanto, em 2018. Com essa operação, herdou não apenas ativos estratégicos, mas também uma extensa lista de controvérsias relacionadas ao glifosato e a outros produtos amplamente utilizados na agricultura industrial. A permanência de disputas judiciais em diferentes países demonstra que as dúvidas sobre os impactos sanitários e ambientais desses produtos continuam longe de serem resolvidas. Mais do que isso, revela como a produção do conhecimento científico nessa área ocorre em um ambiente permeado por conflitos de interesse, pressões econômicas e disputas políticas.

Entretanto, limitar a discussão à Bayer seria insuficiente. O verdadeiro problema está no modelo agrícola construído a partir da Revolução Verde. Ao longo das últimas décadas, a produção agrícola passou a depender de um pacote tecnológico baseado na mecanização intensiva, em sementes padronizadas, fertilizantes sintéticos e uso crescente de agrotóxicos. Esse modelo permitiu elevar a produtividade de diversas culturas, mas também gerou uma dependência estrutural de substâncias químicas cujos efeitos cumulativos sobre a saúde humana e os ecossistemas continuam sendo progressivamente revelados pela literatura científica.

É justamente nesse ponto que o caso relatado por Ana Carolina Bortoleto ganha relevância. Mesmo quando surgem evidências científicas consistentes, denúncias bem fundamentadas e mobilização social, os mecanismos de responsabilização frequentemente se mostram lentos, fragmentados e insuficientes diante do poder econômico das corporações transnacionais. Não por acaso, as disputas envolvendo agrotóxicos costumam se arrastar por décadas, enquanto os produtos seguem sendo comercializados e utilizados em larga escala.

O problema torna-se ainda mais complexo porque os impactos dos agrotóxicos raramente se manifestam de forma imediata ou facilmente rastreável. Casos de câncer, distúrbios neurológicos, alterações endócrinas, contaminação de recursos hídricos e perda de biodiversidade costumam resultar de exposições prolongadas e múltiplas. Essa característica favorece estratégias empresariais voltadas a semear dúvidas, contestar evidências e postergar medidas regulatórias, reproduzindo um padrão já observado anteriormente nas indústrias do tabaco, do amianto e dos combustíveis fósseis.

A consequência é que os sistemas de regulação acabam operando em permanente desvantagem. Enquanto as corporações dispõem de recursos financeiros praticamente ilimitados para influenciar pesquisas, contratar especialistas, financiar lobby e sustentar longas batalhas judiciais, os órgãos públicos frequentemente enfrentam restrições orçamentárias, limitações técnicas e pressões políticas. O resultado é um quadro em que a velocidade da expansão dos mercados de agrotóxicos supera em muito a capacidade dos Estados de avaliar, monitorar e controlar seus impactos.

Por isso, o caso da Bayer deve ser entendido como a expressão de uma crise mais profunda. O que está em questão não é apenas a conduta de uma empresa específica, mas a fragilidade dos instrumentos públicos destinados a proteger a saúde coletiva e o meio ambiente diante de um modelo agrícola que continua socializando seus custos e privatizando seus lucros. Enquanto essa assimetria persistir, denúncias como a relatada pelo Le Monde Diplomatique Brasil continuarão surgindo, revelando não apenas os problemas de uma corporação, mas os limites de um sistema regulatório incapaz de acompanhar a escala e a complexidade dos riscos produzidos pela agricultura química contemporânea.

Quando a ciência é terceirizada pelas corporações: o caso do glifosato e a fabricação da dúvida

Por que a integridade científica importa para a saúde pública e ambiental

Uma das estratégias mais eficientes para manter produtos perigosos no mercado não é necessariamente financiar campanhas publicitárias ou fazer lobby junto a governos. Muitas vezes, basta produzir uma aparência de consenso científico. É exatamente isso que volta ao centro do debate internacional após as novas revelações divulgadas pelo Retraction Watch, um dos mais respeitados observatórios mundiais sobre integridade científica.

A publicação noticia que dois artigos críticos sobre a segurança do glifosato, publicados na revista Critical Reviews in Toxicology, passaram a ser investigados por suspeitas de terem sido produzidos sob forte influência da Monsanto (atualmente Bayer), empresa que desenvolveu o Roundup. A investigação ocorre poucos meses depois da retratação formal de um influente artigo de 2000 que sustentava que o herbicida não oferecia riscos à saúde humana, mas que acabou sendo associado a práticas de ghostwriting e a conflitos de interesse não declarados.

O problema vai muito além de um simples caso de má conduta acadêmica. Trata-se da existência de uma verdadeira infraestrutura científica privada, composta por pesquisadores, consultores e especialistas contratados para produzir artigos que reforcem a narrativa de segurança desejada pelas corporações. São cientistas que emprestam seu prestígio acadêmico para construir uma realidade conveniente aos interesses econômicos das empresas, frequentemente ocultando a participação direta dos patrocinadores.

Essa estratégia é especialmente eficaz porque transforma propaganda corporativa em aparente conhecimento científico. Um artigo publicado em uma revista especializada passa a ser citado por outros pesquisadores, utilizado por agências reguladoras, incorporado em pareceres técnicos e reproduzido pela imprensa como se representasse uma avaliação independente. Décadas depois, mesmo quando surgem evidências de manipulação, os efeitos já estão profundamente enraizados na literatura científica e nas políticas públicas.

No caso do glifosato, essa situação é particularmente grave. O herbicida é um dos produtos químicos mais utilizados na agricultura mundial, sendo aplicado em milhões de hectares todos os anos. Qualquer distorção deliberada sobre seus riscos potenciais significa ampliar a exposição de trabalhadores rurais, comunidades vizinhas, consumidores, organismos aquáticos, polinizadores e ecossistemas inteiros.

Não se trata de afirmar que todo cientista que realiza pesquisas financiadas pela indústria seja desonesto. A colaboração entre universidades e empresas pode produzir avanços importantes quando existe transparência, independência metodológica e divulgação completa dos conflitos de interesse. O problema começa quando corporações escrevem artigos, selecionam resultados, ocultam sua participação e utilizam pesquisadores como fachada para conferir legitimidade a conclusões previamente definidas.

A história do tabaco, do amianto, dos combustíveis fósseis e agora dos agrotóxicos mostra um padrão recorrente: fabricar dúvida para atrasar regulações, minimizar riscos e preservar mercados altamente lucrativos. A ciência deixa de ser um instrumento de busca da verdade para se transformar em ferramenta de gestão de riscos financeiros.

Por isso, as novas investigações destacadas pelo Retraction Watch merecem atenção muito além da comunidade acadêmica. Elas revelam que a disputa sobre os agrotóxicos não acontece apenas nas lavouras ou nos tribunais, mas também dentro das revistas científicas, dos processos de revisão por pares e das instituições responsáveis por produzir conhecimento.

Defender a integridade da ciência significa defender a saúde pública, a biodiversidade e o direito da sociedade de tomar decisões baseadas em evidências independentes. Quando cientistas passam a atuar como consultores ocultos das corporações, não é apenas um artigo que perde credibilidade: é todo o sistema de produção do conhecimento que fica contaminado.

Procurador-Geral do Texas está investigando a Bayer e a PepsiCo por contaminação de produtos alimentícios por glifosato

Por Sustainable Pulse 

O procurador-geral do Texas, Ken Paxton, anunciou uma investigação abrangente para combater o grave problema dos resíduos de glifosato nos alimentos, que, segundo seu gabinete, “coloca a saúde dos americanos e das crianças em risco”.

Este anúncio surge após o gabinete do Procurador-Geral Ken Paxton ter emitido Mandados de Investigação Civil (“CIDs”) a importantes fabricantes de agrotóxicos e alimentos, incluindo a Bayer e a PepsiCo.

O glifosato é o principal ingrediente do herbicida Roundup. É um herbicida amplamente utilizado em culturas geneticamente modificadas. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer determinou que o glifosato é um provável carcinógeno humano. Desde então, extensas pesquisas em humanos e animais demonstraram que o glifosato contribui para disfunções endócrinas, infertilidade, doenças renais e doenças autoimunes, além de suas propriedades cancerígenas.

Mais de 250 milhões de libras de glifosato são pulverizadas nos Estados Unidos a cada ano. Pesquisas constataram que mais de 70% dos adultos americanos apresentam traços detectáveis ​​de glifosato em seus corpos, em comparação com apenas 12% em 1993.

Os cientistas atribuem grande parte desse aumento drástico ao uso generalizado do glifosato como dessecante. A dessecação é a prática de aplicar herbicidas como o Roundup nas plantações pouco antes da colheita, para que sequem uniformemente. Essa prática contribui com mais de 90% do glifosato encontrado nos alimentos, principalmente em produtos alimentícios que contêm aveia, trigo, girassol e leguminosas.

Embora a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) proíba o uso de glifosato como dessecante em aveia nos Estados Unidos, o uso não autorizado ocorre e grandes empresas alimentícias também obtêm seus ingredientes de países estrangeiros onde essa prática é amplamente difundida.

A aveia é um alimento comum em cereais, barras de cereais e biscoitos, o que torna as crianças particularmente vulneráveis ​​aos malefícios do glifosato. De fato, estudos mostram que certos produtos alimentícios comercializados para crianças estão entre os mais contaminados por glifosato nos Estados Unidos. Outros produtos são comercializados como “saudáveis” quando os fabricantes sabem que estão contaminados com níveis perigosamente altos de glifosato. Pesquisas indicam ainda que crianças entre um e dois anos de idade têm a maior exposição alimentar ao glifosato em comparação com qualquer outra faixa etária.

“Se alguma empresa estiver usando brechas na legislação para envenenar nossas crianças com glifosato, nós descobriremos e buscaremos justiça”, disse Paxton.

“Meu gabinete também está investigando se as principais empresas alimentícias estão cumprindo a lei do Texas e se os consumidores, especialmente os pais, foram enganados sobre os benefícios para a saúde de produtos alimentícios comuns comercializados para suas famílias. Nenhuma corporação está acima da lei e nenhuma ação ilegal ficará impune”, concluiu ele.


Fonte: Sustainable Pulse

Glifosato no Brasil: saúde pública sob ataque químico

A ofensiva do Ministério Público para banir o herbicida expõe os riscos sanitários do modelo agroexportador brasileiro e o enorme poder político da indústria química e do agronegócio sobre as estruturas regulatórias do Estado

A iniciativa do Ministério Público do Trabalho de buscar a proibição do glifosato no Brasil recoloca no centro do debate um dos maiores problemas sanitários e ambientais do modelo agroexportador brasileiro: a dependência extrema de um herbicida amplamente associado a riscos graves à saúde humana. Segundo a reportagem do Valor International, procuradores sustentam que o produto representa ameaça significativa aos trabalhadores rurais e à população exposta.

O glifosato tornou-se praticamente onipresente na agricultura brasileira, especialmente após a expansão das sementes transgênicas resistentes ao herbicida. O problema é que o acúmulo de evidências científicas ao longo das últimas décadas vem associando sua exposição a uma série de doenças, incluindo distúrbios endócrinos, danos neurológicos, problemas reprodutivos e, sobretudo, o Linfoma Não-Hodgkin. A classificação feita pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, como “provavelmente carcinogênico para humanos” continua sendo um marco incontornável nesse debate.

Além disso, há uma dimensão frequentemente invisibilizada: no Brasil, o uso do glifosato ocorre em um contexto de pulverização massiva e combinação com dezenas de outros agrotóxicos. Ou seja, a população não é exposta a uma substância isolada em condições laboratoriais controladas, mas a verdadeiros coquetéis químicos cujos efeitos sinérgicos permanecem insuficientemente estudados. O resultado é um enorme experimento toxicológico em escala nacional conduzido sobre trabalhadores rurais, comunidades camponesas e consumidores urbanos.

Apesar da gravidade das evidências, as chances de êxito do pleito do Ministério Público são limitadas. Isso ocorre porque o glifosato ocupa posição estrutural no atual modelo agrícola brasileiro. Sua proibição afetaria diretamente o agronegócio exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de pacotes químicos. Trata-se de um setor que possui enorme influência política sobre o Congresso Nacional, governos estaduais, Ministério da Agricultura e parte relevante das agências regulatórias.

Há ainda um poderoso aparato discursivo construído pelas corporações do agronegócio e pela indústria química para apresentar o glifosato como “seguro quando usado corretamente”, apesar das crescentes controvérsias científicas e das sucessivas ações judiciais internacionais envolvendo a fabricante Bayer, que herdou os passivos da Monsanto. Nos Estados Unidos, milhares de processos já resultaram em indenizações bilionárias relacionadas ao desenvolvimento de câncer após exposição ao herbicida.

No caso brasileiro, o cenário se torna ainda mais difícil porque o Estado adotou, nos últimos anos, uma trajetória contínua de flexibilização regulatória e expansão acelerada dos registros de agrotóxicos. O país tornou-se um dos maiores mercados mundiais para substâncias que muitas vezes já foram restringidas ou banidas em outras regiões do planeta.

Por fim, é importante reconhecer que dificilmente haverá qualquer avanço substantivo na restrição ou eventual banimento do glifosato sem uma ampla mobilização social capaz de confrontar o enorme poder político e econômico exercido pelo agronegócio e pela indústria química no Brasil. A iniciativa do Ministério Público tende a enfrentar não apenas resistência jurídica, mas também uma intensa pressão de setores empresariais que tratam qualquer tentativa de controle sanitário e ambiental como ameaça direta ao modelo exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de insumos químicos.

Nesse sentido, torna-se fundamental ampliar mecanismos de controle social sobre os processos de aprovação, monitoramento e reavaliação toxicológica dos agrotóxicos. Hoje, as grandes corporações químicas operam com ampla margem de influência sobre as estruturas regulatórias do Estado, enquanto populações expostas — trabalhadores rurais, comunidades camponesas, povos indígenas e consumidores urbanos — possuem participação extremamente limitada nas decisões que afetam diretamente sua saúde e seus territórios. O resultado é que o Brasil segue sendo transformado em um dos maiores mercados globais para substâncias altamente tóxicas, muitas vezes já proibidas em outros países, tudo em nome da manutenção de elevados níveis de produção de commodities agrícolas para exportação.

A discussão sobre o glifosato, portanto, ultrapassa o debate técnico sobre um único herbicida. Ela coloca em questão quem define os limites do risco aceitável em uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade ambiental e pela captura corporativa das políticas públicas.

Assim, ainda que a ação do Ministério Público tenha enorme relevância política e sanitária, ela enfrenta uma correlação de forças extremamente desfavorável. O debate sobre o glifosato, no fundo, não é apenas técnico ou científico: ele expõe o conflito entre saúde pública e um modelo econômico profundamente dependente da intensificação química da agricultura brasileira.