TV italiana mostra efeitos devastadores do uso do glifosato na Argentina

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Por Matilde Moyano

Enquanto a maioria dos argentinos não tem conhecimento da situação de poluição e danos à saúde gerados por agroquímicos como o glifosato, o herbicida mais utilizado pelo nosso sistema agrícola, a Itália mostra este drama na televisão.

A Argentina pode assistir na TV italiana o seu próprio drama. “O glifosato: L’erbicida nuoce del mondo alla salute” apareceu recentemente no programa Le Iene, o CQC italiano, e mostrou uma realidade que atinge principalmente os habitantes dos povoados fumigados”. As pessoas em áreas rurais da costa argentina sofrem as fumigações aéreas com agroquímicos adotados pelo nosso modelo de agroprodução.

Com a condução de Gaetano Pecoraro e com a participação do jornalista argentino Patrício Eleisegui (autor de ‘Envenenado‘), este documentário se concentra no glifosato, o herbicida produzido pela multinacional Monsanto, que é usado para eliminar ervas daninhas de culturas, principalmente da soja transgênica

Em 2015, a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) pertencente à Organização Mundial de Saúde (OMS) categorizou o glifosato como provavelmente cancerígeno, e, recentemente, pesquisadores da Faculdade de Bioquímica da Universidade Nacional de Rosário (UNR) concluíram que o glifosato cria um mecanismo de toxicidade no desenvolvimento e funcionamento do sistema nervoso dos mamíferos.

Malformações congênitas, problemas respiratórios, doenças neurológicas, alergias, abortos espontâneos e câncer são apenas algumas das doenças sofridas por esses argentinos que vivem perto de grandes extensões de cultivos de soja, ou em regiões próximas à área de produção transgênica dependentes dos venenos da Monsanto

Este documentário apresenta o depoimento de Fabián Tomasi, um nativo de Basavilbaso, Entre Rios, que em 2005 começou a trabalhar em uma empresa de aplicação aérea de agroquímicos e hoje sofre de uma polineuropatia tóxica metabólica grave e atrofia muscular generalizada. O pediatra e médico neonatologista Medardo Ávila Vazquez, a quem falamos anteriormente sobre distâncias mínimas preventivas a serem observados quando a pulverização aérea também participa; e o Doutor em Ciências, Damían Marino, um pesquisador da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), cuja pesquisa encontrou traços de glifosato em algodão, compressas de gaze e abosrventes femininos vendidos na Argentina.

O uso de glifosato não só afeta a saúde dos residentes dos povoados vizinhos das plantações, mas também a saúde de todas as pessoas que vivem na Argentina, porque outra pesquisa mostrou que frutas e verduras que compramos em supermercados e quitandas eles estão contaminados com um ou mais produtos químicos, e até a bacia do rio Paraná está contaminado com esse herbicida.

Este veneno perigoso também foi encontrado na urina humana em Mar del Plata e em amostras de sangue e água em Pergamino. No resto do mundo, foi encontrada em vinhos da Califórnia, em cervejas alemãs e também em alimentos para o café da manhã nos Estados Unidos.

FONTE: https://www.facebook.com/FueraMonsantoarg/videos/1742049609240614/?__xts__[0]=68.ARCAEtSMJgZkcGrAYZJuv53OdkbAzKjrPO5UETulN9XNNKm1ozKRnaURWWkErbJVwNCVpMfmRvdidUUW0mHPWRKedUJUv8XuzEAPE13oUBV1eAmUlnghNHqkV0qWqxpqabzixsKrnQ3u3iL9Pp9i91-aIERc4ciIrhKYMJx39MVzcg5AWRrEyQ&__tn__=K-R

A morte de Fabian Tomasi, ativista argentino anti-agrotóxicos, cujo corpo se tornou uma arma

“Meu corpo está consumido”, disse o argentino de 53 anos, responsável por encher os tanques dos pulverizadores com herbicidas.

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Fabian Tomasi em sua cozinha em Basavilbaso,  na região de Entre Rios,  em fevereiro de 2018.

Por Charlotte Chabas para o Le Monde*

O seu corpo se tornou uma arma. Suas salientes costelas de onde dois braços magros escapam é que já não sabemos o quão bem eles estavam lá, sua espinha empolada pela escoliose, os olhos ainda brilhantes, suas bochechas emaciadas e cobertas com uma barba densa. E no meio, uma boca negra, bem aberta, parecendo se esforçar para respirar. Era o grito da Argentina poluída, uma réplica moderna da obra-prima de Edvard Munch. Aos 53 anos, Fabian Tomasi, que se tornou um símbolo da luta contra os agrotóxicos na Argentina, morreu sexta-feira, sete de setembro.

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Quadro “O Grito” de Edward Munch.

Aos 23 anos, este nativo de Basavilbaso começou a trabalhar para uma fazenda na região de Entre Rios (centro-leste). O jovem era responsável por preencher os tanques de herbicidas aviões espalhando o veneno sobre os vastos campos de soja na província, que gradualmente substituíram o gado tradicionais. Nestes grandes tanques, palavras que ele ainda não conhecia: Glifosato, Tordon, Propanil, Endosulfan, Cipermetrina, 2-4D, Metamidofos, Clorpirifós, adjuvantes, fungicidas, Gramoxone.

Diabético crônico, Fabian Tomasi muito rapidamente começou a sentir dor no final dos dedos. Nenhuma proteção era dada pela empresa a esses trabalhadores agrícolas que estavam na linha de frente. Um médico diagnosticou-o com neuropatia e colocou-o sob analgésicos.

Mas era uma espiral que não tinha fim: perda de elasticidade da pele, diminuição da capacidade pulmonar, perda de peso severa, infecções nos cotovelos e joelhos… é finalmente uma polineuropatia tóxica grave que é diagnosticada, uma síndrome neurológica que atinge 80% do seu corpo, e inclui um conjunto de doenças inflamatórias e degenerativas que afetam o sistema nervoso periférico. “Neste momento, meu corpo está consumido, cheio de crostas, quase sem mobilidade e à noite tenho dificuldade em dormir por causa do medo de não acordar”, escreve ele em carta aberta ao site militante La Poderosa. .

Ele não é o único a sofrer. Ao seu redor, em 2014, seu irmão Roberto, que também vive sob a pulverização de aviões, morreu de câncer no fígado, após semanas de agonia. Em sua região, o número de cânceres é quase três vezes maior do que nas cidades, segundo a rede de médicos fumigados da aldeia, que até fala de “epidemia”.

Então, Fabian Tomasi decidiu falar e começou uma briga para que fosse reconhecida a ligação entre sua doença e seu trabalho. “Não haverá mais ninguém. Toda a terra que temos não será suficiente para enterrar todos os mortos”, previu.

Em breve, o país conheceria este camponês que posava diante dos fotógrafos da imprensa internacional, no meio de campos ou na pequena cozinha azulejada onde morava com a mãe, a esposa e a filha. “Nós não somos ambientalistas, somos afetados por um sistema de produção que se preocupa mais em preencher alguns bolsos do que a saúde das pessoas”, dizia Fabian Tomasi, regularmente convidado em reuniões para explicar os efeitos dos agrotóxicos sobre a saúde humana.

“Para essas substâncias afetarem você, pode levar meia hora ou três anos. Não depende do tempo, mas do contato com substâncias destinadas a matar.”

Foi particularmente contra o glifosato que Fabian Tomasi entrou guerra, este produto usado a uma taxa de 300.000 toneladas por ano por uma Argentina dopada com soja transgênica. Alguns meses antes de morrer, o ex-trabalhador agrícola havia declarado à Agence France-Presse que a molécula de Monsanto era “uma armadilha que nos foi dada por pessoas muito poderosas“.

Não há doença livre de veneno e não há veneno sem essa conivência criminosa entre corporações multinacionais, a indústria da saúde, governos e o judiciário. Hoje, mais do que nunca, devemos detê-los e, para isso, devemos lutar, mesmo nos piores cenários, porque nosso inimigo se tornou muito forte. “

Apesar de sua luta, Fabian Tomasi não terá direito a julgamento. Tampouco conseguirá garantir que a Argentina adote legislação nacional para regulamentar o uso de agrotóxicos. Mas nos últimos anos, ele ajudou a tornar alguns prefeitos a promulgar estatutos para regular a pulverização, sob a pressão de seus cidadãos.

Em meados de agosto, Fabian Tomasi saudou as condenações dos EUA da Monsanto a US $ 289,2 milhões (248 milhões de euros) em benefício de um jardineiro americano, Dewayne “Lee” Johnson. “Eu não preciso de dinheiro no momento. Eu preciso da vida, ele disse. Eles não são empresas, são operadores.

Publicado originalmente em francês pelo jornal “Le Monde” [Aqui!]

A indústria dos agrotóxicos e seus áulicos

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As revelações trazidas pelo processo judicial em que a Monsanto/Bayer foi condenada a pagar R$ 1 bilhão por não ter propriamente informado ao jardineiro Dwayne Johnson o potencial cancerígeno do herbicida Round Up (também conhecido pelo nome do seu princípio ativo que é o glifosato) mostram que esse segmento industrial vem imitando os passos dados pelas corporações tabagistas que, por décadas, negaram o potencial dos cigarros de causarem diversos tipos de doenças usando pesquisadores “muy amigos”.

Esse fato foi demonstrado pela matéria de diversos veículos da mídia internacional que citaram os múltiplos esforços realizados pela Monsanto para apoiar pesquisadores simpáticos aos seus interesses comerciais, enquanto agia para desacreditar aqueles que contribuíam com pesquisas que demonstavam justamente o contrário [1].

Essas táticas corporativas não surpreendem pois, como eu já disse, as corporações tabagistas já empregaram essa estratégia à exaustão até que ficou impossível aceitar a versão de cientitas “muy amigos” que também negavam os impactos negativos dos cigarros sobre a saúde dos usuários. Quem desejar saber mais sobre isto, sugiro que procurem assistir o filme “O informante” estrelado por Russell Crowe e que mostra a saga de um pesquisador, Jeffrey Wigand, que resolveu contar o que sabia sobre as ações da Brown & Williamson para ocultar suas próprias pesquisas que mostravam o contrário do que a empresa propagandeava [2].

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Interessante notar que passadas duas décadas das revelações cercando a Brown & Williamson, ainda há gente que também usa a estratégia de defender a indústria de agrotóxicos usando a mesma tática de desacreditar a ciência que foi utilizada para justificar a decisão contra a Monsanto.  Esses verdadeiros áulicos da indústria do veneno adotam a cantilena de que 1) há ciência desprovando as teses apontam o papel danoso do glifosato à saúde humana e 2) a suposta inexistência de ciência que confirmem isso.

E obviamente esses áulicos adotam táticas utilizadas contra a esquerda pelos grupos de ultradireita que abundam nas redes sociais. A coisa vai do escárnio puro e simples até a menção de quem condena o uso amplo e intensivo de agrotóxicos é “esquerdopata”. 

Por outro lado, se repete a cantilena manjada de que se não fosse pelos agrotóxicos o mundo já teria morrido de fome, como se a humanidade não viesse se virando sem eles há mais de 15.000 anos ou como se a questão da falta de alimentos não tivesse nada com fatores sociais, econômicos e políticos.

O problema para esses áulicos do veneno é que o glifosato já vem sendo objeto de estudos há mais de uma década, existindo múltiplos trabalhos, produzidos usando “sound science”e publicados em revistas reconhecidas pela comunidade científica, que apontaram os riscos postos pela exposição ao glifosato, não apenas sobre a saúde humana, mas também para os ecossistemas naturais.  Aliás, basta fazer uma busca simples no Google Acadêmico usando palavras-chaves como “glifosato, câncer, Round up” que aparecerão trabalhos apontando para as ligaçõe entre a exposição ao glifosato e o câncer, entre outras doenças.

Em outras palavras, os que negam os impactos do glifosato escolhem ser acólitos da indústria do veneno, recebendo recursos do segmento ou não. E aqui há que se relacionar esses áulicos do veneno à outros negacionistas de pesquisas científicas (aliás, esses segmentos muitas vezes se misturam) que apontam o dedo na direção das corporações que degradam os ecossistemas da Terra e as populações que neles vivem, a começar pelos que negam que estejamos enfrentando mudanças climáticas por causa da emissão de poluentes na atmosfera.

Não creio que esses áulicos do veneno sejam convencidos por argumentos racionais e sistemáticos como os que orientam, pois já fizeram uma opção ideológico. Entretanto, precisamos nos dirigir e dialogar pelos que estão sendo alvo do discurso falacioso deles. Essa parece ser uma tarefa complexa e dificil, e que ainda conta com poucas pessoas dispostas e suficientemente informadas para fazê-lo.  Por isso mesmo, os que podem contribuir para ampliar o conhecimento não apenas sobre os danos causados pelo glifosato, mas pelos agrotóxicos em geral.

Mas não dizerem que não falei de flores, posto abaixo um vídeo com a música “Monsanto Years” do álbum homônimo lançado por Neil Young em 2015.

 


[1] https://www.theguardian.com/business/2018/aug/10/monsanto-trial-cancer-dewayne-johnson-ruling

[2]  https://www.cbsnews.com/news/60-minutes-most-famous-whistleblower/

Tribunal na Califórnia condena Monsanto por ocultar potencial cancerígeno do Round up

round up

Numa decisão que certamente tirará os controladores da Bayer, um tribunal na Califórnia condenou a Monsanto a pagar uma indenização no valor de US$ 289 milhões (algo equivalente a R$ 1 bilhão) a um jardineiro que contrai câncer supostamente ao manusear de forma contínua o herbicida Round Up (ou Glifosato) [1 & 2].

glofosato

Os advogados de Dewayne Johnson argumentaram durante o julgamento que durou um mês em San Francisco que a Monsanto “lutou contra a ciência” por anos e agiu contra pesquisadores que alertaram sobre os possíveis riscos à saúde causados pelo herbicida. Johnson foi a primeira pessoa a levar a Monsanto a julgamento por alegações de que o produto químico vendido sob a marca Roundup causa câncer.

johnson lesions

Com 80% do seu corpo coberto por lesões como as mostradas em sua mão, Dwayne Johnson e seus advogados tiveram que demonstrar o papel do Round up no desenvolvimento das mesmas [3].

Durante o julgamento, os advogados de Johnson apresentaram e-mails internos de executivos da Monsanto que demonstraram como a empresa repetidamente ignorou as advertências dos especialistas, procurou análises científicas favoráveis e ajudou a pesquisadores financiados pela empresa a escrever “ghost papers” (artigos fantasmas) que encorajavam o uso continuado do glifosato.

Obviamente a Monsanto/Bayer já anunciou que vai recorrer do veredito dada o montante envolvido e as inevitáveis repercussões no mundo inteiro na medida em que o Round Up/Glifosato foi por anos o herbicida mais comercializado em todo o planeta. Entretanto, dada as minúcias técnicas apresentadas pelos advogados de Dewayne, a Monsanto/Bayer deve se preparar para uma batalha morro acima.

Por outro lado, este caso tem a qualidade de revelar o que já é sabido há muito tempo na comunidade científica: a existência de pesquisadores que em troca das verbas entregues pela Monsanto, se dispuseram a oferecer artigos e relatórios científicos que omitiam o potencial do Round Up de causar câncer e outras doenças. Esses pesquisadores fornecedores de “ghost papers” estão sendo tão condenados quantoa Monsanto/Bayer. Resta saber como e quando se dará o seu julgamento pela comunidade científica.

Este caso também oferece uma chance única de que se debate a ciência pró-venenos agrícolas no Brasil, num momento em que o congresso nacional se prepara para mutilar e fazer regredir a legislação sobre a comercialização e uso de agrotóxicos no Brasil.


[1] https://www.theguardian.com/business/2018/aug/10/monsanto-trial-cancer-dewayne-johnson-ruling

[2] https://www.theguardian.com/business/2018/may/22/monsanto-trial-cancer-weedkiller-roundup-dewayne-johnson

[3] https://edition.cnn.com/2018/08/10/health/monsanto-johnson-trial-verdict/index.html

Brasil tem 5 mil vezes mais agrotóxicos na água do que países europeus

glifosato

Pesquisa recente da pesquisadora e professora de Geografia Agrária da USP, Larissa Bombardi, sobre o alto índice de agrotóxicos que consumimos no Brasil e os reflexos para a saúde espantam. Mortes por intoxicação e suicídio são alguns dos casos citados pela especialista em seu trabalho mais recente, que resultará no livro Geografia Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil.

O estudo, em fase de finalização, reúne os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país. São mais de 60 mapas entre os anos de 2007 a 2014. O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto, até a década passada, ocupado pelos EUA.

“O glifosato, herbicida mais vendido no Brasil, e causador de câncer é 5 mil vezes maior na água potável por aqui do que na União Européia. Inclusive em algumas praças e parques públicos, ele é utilizado para capinar. Há muitas prefeituras utilizando também à beira da estrada. Por que é seguro aqui e não é lá fora? 30% dos agrotóxicos que são usados no Brasil são proibidos na União Européia”, alerta ela sobre a permissividade brasileira em relação a outros países.

Projeto de Lei em São Paulo

O cenário é realmente desesperador, contudo, alguns sinais de mudança começam a aparecer. A Câmara dos Vereadores de São Paulo aprovou, na última semana, o PL 891/2013, que proíbe o uso de agrotóxicos que contenham em sua composição 20 tipos diferentes de princípios ativos. Entre os elementos vetados, está o glifosato.

Conforme descrito no artigo 1o da lei, “ficam proibidos na cidade de São Paulo o uso e a comercialização de agrotóxicos que apresentem em sua composição os seguintes princípios ativos: abamectina, acefato, benomil, carbofurano, cihexatina, endossulfam, forato, fosmete, glifosato, heptacloro, lactofem, lindano, metamidofós, monocrotofós, paraquate, parationa metílica, pentaclorofenol, tiram, triclorfom e qualquer substância do grupo químico dos organoclorados e que tenha sido banida em seu país de origem”.

Da Redação Ecoguia, com informações da Agência Brasil

Investigação na madrugada

agrotoxicos

Como não encontra dados sobre a contaminação das águas e do solo brasileiros por pesticidas, Jean Remy Guimarães decidiu, em uma noite insone, investigar relatórios franceses sobre o tema. Veja o que ele descobriu.

 Por Jean Remy Davée Guimarães*

Segundo os folhetos de promoção de pesticidas, eles são eficientes, claro, mas também seletivos, e ainda têm o bom gosto de permanecer nos locais onde são aplicados, por terem baixa mobilidade. E mais: caso acabem indo parar onde não devem, não haveria problema, porque eles têm baixa toxicidade. Afinal, são produtos de tecnologia de ponta, aprovados por autoridades nacionais e internacionais, usados em dezenas de países – e há centenas de estudos comprovando sua eficiência e segurança. Uma maravilha!

Já dissecamos aqui, em penoso exercício, as entranhas do processo de avaliação e autorização de pesticidas em órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), cujas deliberações norteiam as decisões dos países membros, que aprovam se a OMS aprovar. Sabemos que os pesticidas não são terríveis apenas contra os insetos e outras supostas pragas devido ao grande número de intoxicações letais e subletais em agricultores. Ouvimos sempre que esses ‘acidentes’ acontecem devido à falta de cuidado na aplicação dos produtos. Que povinho ignorante e teimoso, não é mesmo?

Mas, como a maioria da população vive em cidades e não socializa com agricultores, está mais preocupada com a eventual contaminação dos alimentos que chegam à sua mesa. A cada ano, os relatórios da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os níveis de pesticidas em alimentos no país justificam e renovam esta preocupação, já que são tristemente repetitivos – o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos (Para) costuma indicar o pimentão, o morango e o pepino como os alimentos com maior número de amostras contaminadas por agrotóxico.  Em 2010, por exemplo, 90% das amostras de pimentão, 63% das de morango e 58% das de pepino tinham resíduos de agrotóxicos acima do permitido, ou continham agrotóxicos não autorizados para aquele cultivo, ou juntavam os dois predicados. Tomate, alface e abacaxi também frequentam as listas dos mais contaminados.

Ouviremos novamente que isto se deve à falta de cuidado dos agricultores e à pouca fiscalização por parte do governo. Irei dormir aliviado, já que os dois problemas têm solução. Epa, mas… se têm solução, por que seguem sendo problema? Pronto, insônia garantida. Ok, se os agricultores e o governo tomarem vergonha, haverá menos resíduos de pesticidas na comida. E, se pararmos de usar pesticidas, não haverá mais resíduo dos mesmos na comida.

Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos?

Será? Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos? Quem sabe já dormi e não percebi, é sonho ou pesadelo, já que os pesticidas ficam quietinhos no lugar de aplicação, coisa que eu também devia fazer para pegar no sono em vez de procurar piolho em pedra. Piolho? Inseticida nele.
 

Descobrindo (a falta de) dados

A estas alturas, já saí da cama e caí na rede. Em poucos cliques, coleciono vários trabalhos acadêmicos sobre níveis de pesticidas diversos em água de rio, água subterrânea, solo e sedimento em diferentes pontos do país. É um pepino ou um abacaxi? Há como descascá-lo? Quem vai cuidar disso, e como? Quanto vai custar fazer algo a respeito, quanto custará deixar para lá?

Agora que acordei de vez, me pergunto: se há relatórios oficiais anuais sobre pesticidas em alimentos no país, deve haver algo parecido sobre pesticidas no ambiente, certo? Claro, o Brasil é o maior consumidor de pesticidas do mundo, imagina se não vai haver. E, assim, descobri um método infalível de pegar no sono, que foi buscar por esta informação nos sites do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, da Embrapa. Achei fragmentos, notas, referências, links para conteúdo externo ou um ou outro estudo, mas nada sistemático, muito menos de abrangência nacional. E anual? Fala sério…
 

O caso francês

Mas o pior estava por vir. A dúvida tira o sono, mas a inveja tira mais ainda. Buscando em outros países o equivalente do relatório que meu próprio país me nega, topei com este cruel link francês (a França, de novo…) ao buscar por “pesticides + eau” no site do Ministério do Meio Ambiente, da Energia e do Mar daquele país. São seis documentos completos sobre a distribuição geográfica dos níveis de pesticidas em água de rio e água superficial, a distribuição dos pontos com níveis acima das normas, listas e gráficos com os pesticidas mais encontrados e seus produtos de degradação, links para download (que funciona) de mapas em PDF, planilhas em Excel. Imagine o mapa de um país de área próxima a de um único estado do Brasil, São Paulo, em que são plotados dados de mais de 2.200 pontos de coleta. Considere, ainda, que esses dados são atualizados a cada dois ou três anos. É muita humilhação para um cidadão de um país que está ferozmente empenhado no desmonte da legislação ambiental árdua e timidamente conquistada nas últimas décadas.

Mas chega de autoflagelação, vamos a alguns dos interessantes dados do relatório em questão.

Em 2013, 21,6% das amostras de água subterrânea estavam fora das normas nacionais para pesticidas. Oitenta e cinco compostos de pesticidas ultrapassaram as normas mais de uma vez e 14 ultrapassaram mais de dez vezes. Apenas 30% das amostras não apresentaram níveis detectáveis de pesticidas. A maioria dos compostos detectados em águas subterrâneas foram herbicidas e fungicidas de uso agrícola e/ou seus produtos de degradação. Já em territórios ultramarinos como a Martinica, metade das amostras estavam fora das normas – neste caso, por herança maldita do pesado uso de pesticidas nos cultivos de banana na ilha. Imagino que, ali, os que podem devem ser grandes consumidores de água mineral Vittel e Vichy, importadas da metrópole.

Na Martinica, o relatório revela ainda teores acima dos limites mesmo para pesticidas já proibidos há anos ou mesmo décadas, tais como dieldrin, proibido em 1994, e chlordecona e atrazina, proibidas em 2003.

Já nos cursos d´água da França, os pesticidas mais detectados são o AMPA, produto de degradação do glifosato, presente em 56% das amostras, e o próprio glifosato, registrado em 38% das amostras, seguidos dos diversos produtos de degradação da persistentíssima atrazina, banida há mais de 13 anos.

Se há tanto e tantos pesticidas em água de rio e água subterrânea, eu esperaria que também estivessem presentes na água de torneira. Mas isso é outro relatório, no site de outro ministério, e fica para outro dia.

Jean Remy Davée Guimarães, é professor e pesquisador do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/4885/n/investigacao_na_madrugada

EUA suspendem herbicida da Dow

A Agência de Proteção Ambiental americana (EPA, na sigla em inglês) retirou a aprovação do herbicida Enlist Duo, desenvolvido pela Dow AgroSciences, alegando novas evidências de que o agrotóxico atinge também outras plantas além das ervas daninhas.

A decisão da agência americana se baseou no questionamento de grupos ambientais de que a combinação química do produto é “bem provavelmente” mais danosa que o pensado inicialmente.

O “Enlist Duo” foi aprovado pela EPA há pouco mais de um ano e é resultado da combinação de glifosato e 2,4­D.

O produto é parte do chamado “Sistema Enlist de Controle de Ervas Daninhas”, que traz uma tecnologia para soja e milho baseada em um “trait” (evento transgênico) que torna as plantas tolerantes ao herbicida. No Brasil, o Enlist está sob análise da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) desde 2012.

Ocorre que o uso do 2,4­D tem enfrentado muita resistência ao redor do mundo, por ser um dos componentes do agente laranja, usado durante a guerra do Vietnã.

O Enlist Duo já havia sido aprovado nos Estados de Illinois, Indiana, Iowa, Ohio, Dakota do Sul, Wisconsin, Arkansas, Kansas, Louisiana, Minnesota, Missouri, Mississippi, Nebraska, Oklahoma e Dakota do Norte, e aguardava aprovações para outras áreas do país.

Segundo a EPA, há agora o entendimento de que os 9 metros de separação das áreas pulverizadas com o produto não são suficientes para proteger as demais espécies. Portanto, concluiu, mais tempo é necessário para análise.

A Dow contava com o Enlist Duo para alavancar seus resultados financeiros no segmento agrícola. O produto deveria competir com as tecnologias transgênicas da Monsanto.

A Dow disse que está trabalhando com a EPA para garantir provas de biossegurança e espera que o herbicida esteja disponível para uso na safra 2016. Embora admita a possibilidade de o Enlist Duo sofrer modificações nas condições de uso, a Dow disse não acreditar no cancelamento do produto.

FONTE: http://www.contraosagrotoxicos.org/index.php/570-eua-suspendem-herbicida-da-dow