O alerta da rã-cachorro sobre agrotóxicos à base de glifosato

Estudo experimental sugere que agrotóxico pode alterar crescimento, desenvolvimento e provocar deformidades em girinos, com possíveis impactos em ecossistemas inteiros.

🌎 O alerta da rã-cachorro sobre agrotóxicos à base de glifosato Estudo experimental sugere que agrotóxico pode alterar crescimento, desenvolvimento e provocar deformidades em girinos, com possíveis impactos em ecossistemas inteiros. Texto de Edson Antonio Tanhoffer, Luana Wunsche, Marta Margarete Cestari e Mauricio Moura
Anfíbios anuros são mais vulneráveis a poluentes por terem fase aquática e outra terrestre, o que aumenta risco de contaminação. Na foto, subespécies de rã Physalaemus cuvieri. Fotos: Herpto.org/Reprodução
Por Edson Antonio Tanhoffer, Luana Wunsche, Marta Margarete Cestari e Mauricio Moura para Ciência UFPR 

 Há questões na vida que são falsas dicotomias. Um exemplo é a ideia de que se não aumentarmos a área plantada, não haverá alimentos para todos. Ou ainda, a de que se não se usar agrotóxico, não há como produzir alimentos em grande quantidade. São polêmicas infundadas porque é possível ter uma área plantada grande, diversificada e saudável, com uso de menos insumos. Mas isso implicaria a mudança da lógica dominante de plantio, a lógica do agronegócio.

Esse modelo, que recebe fartos incentivos fiscais, privilegia a produção de commodities, produtos de origem primária, de baixo valor agregado e voltados para exportação, além do aumento do capital privado em vez da preservação da natureza e da segurança e soberania alimentar das populações.

A questão dos agrotóxicos é particularmente sensível porque afeta o sistema de produção em todos os níveis e tem um peso econômico gigante com diversos interesses associados. O uso dos agrotóxicos também tem impacto na saúde humana e de uma diversidade de outros organismos. Então, a equação não é simples.

Os organismos vivos são bastante complexos e o grande desafio da química, de fármacos ou agrotóxicos é ser preciso quanto ao alvo de atuação de seus produtos. A indústria dos agrotóxicos desenvolve produtos tóxicos e que potencialmente envolvem riscos aos organismos vivos e aos ambientes ao quais estão associados.

O alto incentivo ao aumento do uso de agrotóxicos denota que essa indústria pouco considera tais efeitos nocivos. Estudos que avaliam a segurança dos agrotóxicos são de responsabilidade das próprias empresas desenvolvedoras, o que abre espaço para ações que garantam seus interesses, como o acúmulo de capital.

Uma forma de evitar esse conflito de interesse seria um processo de controle externo, acompanhado e determinado pelo Estado. Entretanto, no Brasil, os grandes latifundiários e as multinacionais do agronegócio possuem um forte poder político, tornando o país permissivo aos interesses desse setor.

É claro que um exame do comportamento ecotoxicológico das substâncias sob todas as combinações possíveis de fatores influentes é praticamente impossível e certamente inviável. Fato que demonstra que os estudos utilizados nos processos de avaliação de risco e liberação de uso são insuficientes, especialmente quando se tratam de substâncias utilizadas de maneira difusa, em grande escala.

Mas, dentro desse contexto, o princípio da precaução deveria prevalecer. Esse é um princípio moral e político que determina que, se há dúvidas sobre uma ação que pode originar um dano socioambiental severo, é recomendável que ela não ocorra. Nesse sentido, é necessário mostrar os efeitos nocivos em diversos grupos de organismos e de ecossistemas, forçando uma discussão ampla.

Rãs-cachorro são vulneráveis à contaminação da água

Como os organismos usualmente encontrados nos cultivos não se queixam, esse artigo tem por finalidade buscar ouvir as queixas de um deles, a rã-cachorro (Physalaemus cuvieri), sobre as ações de um herbicida com base de glifosato.

Esse anfíbio está amplamente distribuído pela América do Sul e muito embora tenham populações grandes e estáveis, encontra-se localmente ameaçado na Argentina, especialmente devido à perda e contaminação de áreas de ocorrência desta espécie pelo agronegócio.

Os anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) são organismos com características bem particulares. O grupo recebe esse nome por possuir duas fases em seu ciclo de vida, uma aquática e outra terrestre. Os anfíbios foram os primeiros animais vertebrados terrestres e sobreviveram às grandes extinções, incluindo aquela que extinguiu os dinossauros.

Mesmo com essa história de sucesso, hoje é o grupo de vertebrados com mais risco de desaparecer, com aproximadamente 41% das espécies ameaçadas.

As atividades antropogênicas (aquelas derivadas das atividades humanas) são responsáveis por uma grande parcela do desaparecimento populacional. E, dentre estas atividades, o agronegócio tem grande importância, tanto pela expansão da fronteira agrícola (redução e fragmentação das paisagens naturais) quanto pela utilização do controle químico nos plantios (contaminação).

A contaminação por agrotóxicos talvez seja a mais agravante, uma vez que essas substâncias são formuladas para eliminar formas de vida e causam efeitos nocivos, que, nesse caso específico, podem passar despercebidos a grande parte das pessoas.

Os anfíbios anuros são particularmente susceptíveis, justamente por possuírem uma fase aquática e outra terrestre, o que aumenta a probabilidade de contaminação. Além disso, possuem a pele altamente permeável, o que facilita a absorção de diversas substâncias, incluindo os agrotóxicos.

Considerando que as poças dentro de cultivos ou no seu entorno têm pouco volume de água, os girinos nesses ambientes podem ser expostos a doses muito altas de agrotóxicos,  que são prontamente absorvidas, como o observado no caso do glifosato. Uma vez absorvido, o glifosato e produtos formulados possuem como efeito final para os girinos, o aumento da mortalidade, distúrbios no desenvolvimento, ou mesmo indução de malformações, o que levará a um menor sucesso reprodutivo do indivíduo adulto.

Esses efeitos só ocorrem se o agrotóxico interferir nos processos naturais de formação e manutenção do funcionamento do corpo dos organismos. Independentemente do efeito, a mensagem é direta: um produto químico pode alterar vias metabólicas de um organismo de maneira danosa.

Glifo o quê?

O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no Brasil e no mundo, e um dos mais controversos com relação às suas propriedades toxicológicas e ecotoxicológicas. O volume de glifosato aplicado em campo tem aumentado expressivamente e assimetricamente em relação à área plantada nos últimos anos, principalmente após o desenvolvimento de cultivos transgênicos resistentes a esse herbicida.

Até o momento, os dados não demonstraram haver uma correlação positiva entre o uso desse herbicida e o aumento da produtividade agrícola. Pelo contrário, em um período de 12 anos, o uso do glifosato por hectares aumentou 124%, enquanto a produtividade cresceu 9,5%.

Existem ainda correlações positivas significativas em estudos epidemiológicos de casos de malformação e abortos em humanos que estão próximos a áreas de aplicação de herbicidas a base de glifosato. Em adição, estudos experimentais têm demonstrado efeitos de disrupção endócrina, tumores em mamas e danos nos rins e fígado.

O glifosato não é utilizado de forma isolada. Existem mais de 750 formulações comerciais, mas usamos no estudo o mais consumido em nível mundial. Embora alguns desses efeitos tóxicológicos sejam exclusivos do princípio ativo (o glifosato), ingredientes contidos nas formulações muitas vezes possuem também a sua própria toxicidade.

Desse modo, os estudos que avaliam exclusivamente o glifosato não garantem a segurança dos seus produtos formulados, como realizado muitas vezes pelas agências reguladoras. Resíduos de glifosato já foram encontrados em amostras do ar, da água da chuva e do abastecimento público, nos alimentos, no sangue, urina e leite humano, em várias regiões do mundo, incluindo o Brasil.

Embora os resultados na literatura científica independente (não vinculados à indústria de venenos) e da ciência regulatória (oficial) sejam muitas vezes controversos, crescem as evidências dos efeitos adversos do glifosato e seus produtos formulados sobre a saúde humana e de muitos outros organismos.

Com base nessas evidências, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS), reclassificou o glifosato como provável carcinógeno em humanos. No Brasil, no entanto, após ter permanecido ao longo de dez anos em reavaliação, o glifosato teve sua manutenção no mercado brasileiro mantida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2019.

Portanto, dada a escassez de estudos e as incertezas dos impactos desses pacotes tecnológicos sobre o conjunto de seres vivos e do ambiente ao qual estão associados, torna-se necessário ampliar nossos conhecimentos sobre os efeitos destas substâncias. Com isso, espera-se fortalecer os debates e decisões em torno da liberação de uso destas substâncias, com base em novas evidências. Para abordar essa questão, pretendemos determinar o efeito do agrotóxico sobre atributos da história de vida e incidência de malformações em girinos de rã-cachorro.

Como fizemos nosso estudo?

Foi realizado um experimento de 12 dias, com o intuito de avaliar efeitos que possam aparecer ao longo do desenvolvimento das rãs, como malformações e alterações da forma. Nesse experimento, repetido 5 vezes, foram utilizados três aquários de vidro contendo as seguintes concentrações de glifosato:

T1 = 0.28mg.L-1;
T 2 = 2.8mg.L-1;
T 3= 4mg.L-1.

Além de um grupo controle negativo (CN), sem a exposição ao agrotóxico, que possibilita analisar os possíveis desvios da normalidade. Essas dosagens representam concentrações ambientalmente relevantes, ou seja, possíveis de serem encontradas nos ambientes que esses organismos ocupam e onde se reproduzem.

Para o estudo de malformações e desenvolvimento, um total de 80 indivíduos foram analisados através da utilização de uma lupa e paquímetro (instrumento utilizado para medições). Em cada girino, foram avaliados quatro parâmetros:

1) Desenvolvimento;
2) Crescimento;
3) Morfologia do disco oral;
4) Pigmentação.

Esse parâmetros foram escolhidos por possuírem impacto na sobrevivência dos girinos e no sucesso reprodutivo dos adultos.

O que descobrimos?

O agrotóxico foi capaz de afetar igualmente as taxas de desenvolvimento e crescimento dos girinos, de forma que, quanto maior a dose, menor e mais novo era o girino. Ou seja, maior era o efeito do agrotóxico sobre essas características. Ainda, observamos um aumento na incidência de deformidades no disco oral, como dequeratinização, fusão de lábios ou ausência de lábios, dentículos e papilas.

Da mesma forma, foram notadas diferenças na pigmentação da pele dos girinos. Essas diferenças estão relacionadas ao tamanho, morfologia e desenvolvimento das expansões ramificadas (processos dendríticos) das células pigmentares.

Mas o que dizem esses resultados?

Indicam que o agrotóxico foi capaz de alterar as taxas de crescimento, desenvolvimento e produzir deformidades em girinos de rã-cachorro. E como o agrotóxico afeta o crescimento e o desenvolvimento? Uma possibilidade são os custos da detoxificação e reparação de tecidos, pois os danos causados pelo agrotóxico nos tecidos, como brânquias, fígado e rins, têm como consequência um deslocamento energético para a reparação desses danos.

Este processo leva a uma grande redução das reservas energéticas, que podem trazer prejuízos para outros processos fisiológicos importantes, processos esses que envolvem o funcionamento e a manutenção da vida, como o crescimento e o desenvolvimento.

Outra possibilidade é a quebra das vias neuro-endócrinas, já que o glifosato é considerado um desregulador endócrino. Essas vias bioquímicas regulam diversos processos que estão também relacionados, dentre outras funções, ao crescimento e desenvolvimento.

E, com relação às alterações nas células pigmentares e malformação do aparato bucal? As alterações nas células pigmentares encontradas estão relacionadas a danos provocados pelo Roundup no citoesqueleto, o que prejudica a formação das expansões dendríticas e consequentemente o transporte dos pigmentos no interior das células. Dessa forma há uma redução da cobertura pigmentar.

E qual seria o impacto? A pigmentação tem função ecológica sob diversos aspectos, como a camuflagem. Alterações no padrão de pigmentação podem alterar interações ecológicas, como a predação e a seleção sexual. Já as malformações no aparato bucal impactam tanto a alimentação quanto funções sensoriais. Portanto, quebras nos padrões biológicos encontrados podem levar a mudanças de alto significado ecológico para os indivíduos, com implicações na sobrevivência dos girinos e no sucesso reprodutivo dos adultos e assim afetar a dinâmica populacional. Esses impactos podem também interferir em outros níveis da hierarquia ecológica, como as comunidades e os ecossistemas.

Independentemente se é possível ou não relacionar os mecanismos bioquímicos e fisiológicos de atuação do agrotóxico sobre as alterações morfológicas e de crescimento encontradas, o fato é que existe um efeito nocivo potencial do agrotóxico da marca testada nos girinos.

Isso demonstra que organismos não alvo podem ser afetados pelo agrotóxico. Embora não contemplados na maioria das legislações mundiais, os anuros podem ser um grupo importante a ser avaliado, especialmente devido às suas características particulares e seu grau de vulnerabilidade.

A cada conhecimento adicional relacionado aos fatores que afetam a sobrevivência e reprodução dos indivíduos desse grupo que sofre taxas alarmantes de extinção, são importantes em uma abordagem da preservação das espécies e ambientes associados. Além disso, como são componentes fundamentais dos ambientes aquáticos, possuem potencial para serem utilizados como bioindicadores da saúde desses sistemas.

Autores

EDSON ANTONIO TANHOFFER é docente no Departamento de Anatomia da UFPR

LUANA WUNSCHE DE ALMEIDA é bióloga e mestra em Ecologia e Conservação pela UFPR

MARTA MARGARETE CESTARI é professora titular no Departamento de Genética da UFPR, onde coordena o Laboratório de Citogenética Animal e Mutagênese Ambiental (Labmuta)

MAURICIO MOURA é professor no Departamento de Zoologia da UFPR e coordenador do Laboratório de Dinâmicas Ecológicas

Edição: Lívia Inácio

➕ Leia detalhes na dissertação Efeito do Roundup sobre as variações morfológicas de girinos de rã-cachorro (Physalaemus cuvieri Fitzinger, 1826), defendida por Luana Wunsche de Almeida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação (PPGEco) da UFPR


📌 Conteúdo elaborado na disciplina de divulgação científica do PPGEco/UFPR

🌎 A Ponte com a Ciência é a editoria especializada em divulgação científica da Ciência UFPR. Nela, cientistas da UFPR puxam conversas sobre temas de seus estudos. Textos e argumentações são próprias dos autores. Saiba como enviar seu texto 


Fonte: Ciência UFPR

O uso de glifosato na agricultura do Reino Unido aumentou 1.000% desde 1990

Glyphosate use in UK farming up 1,000% since 1990 | News | The Grocer

Por PAN UK 

Uma análise de dados oficiais do governo – divulgada no dia 09/04 pela PAN UK – revela que a quantidade de glifosato aplicada às plantações no Reino Unido aumentou de 200 toneladas métricas por ano em 1990 para mais de 2.200 toneladas em 2024. Aumentos significativos foram observados em uma ampla gama de culturas. Por exemplo, mais de 66 toneladas de glifosato foram aplicadas em batatas britânicas em 2024, contra 1,5 tonelada em 1990. Durante o mesmo período, a área de terras agrícolas no Reino Unido tratadas com o herbicida tóxico aumentou dez vezes, chegando a mais de 2,6 milhões de hectares em 2024, dezesseis vezes o tamanho da Grande Londres. A grande maioria desses aumentos ocorreu no setor de culturas aráveis, com destaque para os cereais (trigo, cevada e milho).

Embora os dados fora do setor agrícola sejam muito mais fragmentados, o uso de glifosato por conselhos locais em espaços públicos, como parques, áreas de lazer e ruas, também parece ter crescido drasticamente. De acordo com estatísticas oficiais do governo do Reino Unido, os conselhos locais utilizaram aproximadamente 60 toneladas de produtos à base de glifosato em 2020. No  entanto, o maior levantamento já realizado sobre o uso de pesticidas por conselhos, publicado no ano passado, revelou que eles utilizaram pelo menos 354 toneladas de pesticidas em 2024, sendo que a grande maioria continha glifosato.

Esses aumentos expressivos serão minuciosamente analisados ​​ainda este ano, já que o governo do Reino Unido precisa decidir até meados de dezembro se renovará a aprovação do glifosato. Caso optem por conceder a licença máxima de 15 anos, é improvável que haja oportunidade de revisão da decisão até 2041.

“Os números de hoje revelam que o vício em glifosato no Reino Unido saiu completamente do controle. O uso excessivo desse produto químico tóxico está causando uma série de problemas, e ainda assim continuamos a pulverizá-lo nos alimentos que consumimos e nos locais onde nossas crianças brincam. Sabemos que o glifosato está ligado a diversos tipos de câncer e outras doenças potencialmente fatais. Além disso, ele prejudica o meio ambiente, poluindo nossas águas e afetando a vida selvagem. O governo precisa urgentemente se comprometer a eliminar gradualmente – e, em última instância, proibir – o glifosato e apoiar os agricultores e as administrações locais na adoção de alternativas seguras e sustentáveis. Caso contrário, todos continuaremos a pagar o preço.”  Nick Mole, Analista de Políticas, PAN UK

Um trator pulverizando campos. Crédito: Foto-up / Shutterstock.org

Crédito Foto-up / Shutterstock.org

O glifosato – frequentemente conhecido por sua marca mais comum, Roundup – tem sido alvo de controvérsia há muitos anos devido ao crescente número de evidências que demonstram seu potencial para causar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente. Nos EUA, foi objeto de uma série de processos judiciais que levaram o fabricante a pagar US$ 11 bilhões a pacientes com câncer que alegam que o herbicida causou linfoma não Hodgkin ou outros tipos de câncer relacionados.  O governo francês reconheceu a ligação entre a doença de Parkinson e o glifosato e tem pago indenizações a agricultores.

Também foi demonstrado que o produto químico tem impactos ambientais negativos de grande alcance, desde a contaminação da água até danos diretos e indiretos a uma variedade de animais selvagens, incluindo anfíbios , abelhas e outros polinizadores.  Embora seja apresentado por alguns como uma solução para as mudanças climáticas, o glifosato é derivado de combustíveis fósseis e produz 31,29 quilogramas de CO2e por quilograma de produto químico produzido.

Devido ao uso excessivo, as ervas daninhas no Reino Unido estão se tornando resistentes ao glifosato . Os primeiros casos de resistência foram confirmados em 2025 e estão se tornando cada vez mais comuns.  A resistência já é um problema antigo nos EUA, onde o glifosato é usado em grandes quantidades.

Em 2023, a UE proibiu o uso de glifosato na dessecação pré-colheita , uma prática que consiste em pulverizar a plantação com produtos químicos pouco antes da colheita para secá-la.  No entanto, o Reino Unido continua permitindo o uso de glifosato como dessecante pré-colheita, apesar de frequentemente resultar em altos níveis de resíduos nos alimentos.

“A clara evidência do aumento do uso de glifosato nessa escala deveria servir de alerta. Isso mostra que temos dependido demais de um único produto químico, principalmente em nossos sistemas de cultivo. Precisamos reduzir o uso de glifosato, e poderíamos começar com seu uso como dessecante pré-colheita em culturas destinadas à cadeia de suprimentos alimentares. Também devemos evitar múltiplas aplicações no mesmo campo na mesma safra. Os agricultores precisam de alternativas práticas, bons conselhos e incentivos adequados do governo e da cadeia de suprimentos para reduzir o uso de pesticidas. E devemos evitar simplesmente pressionar os agricultores a adotarem outro produto ou sistemas de cultivo excessivos que levam a resultados ruins para a natureza e nossos solos.” ​​Martin Lines, agricultor e CEO da Nature Friendly Farming Network 

O Reino Unido e a UE estão atualmente negociando um novo Acordo SPS, que provavelmente levará o Reino Unido a adotar a licença de dez anos concedida pela UE para o glifosato em 2023. Enquanto isso, o governo britânico deve tomar sua própria decisão sobre o glifosato até 15 de  dezembro de 2026 e afirmou que lançará uma consulta pública de 60 dias em junho.

A PAN UK está pedindo que o glifosato não seja reaprovado. No entanto, se uma nova licença for concedida, ela deverá vir acompanhada de um conjunto de restrições destinadas a reduzir o uso geral e limitar o impacto da exposição ao glifosato na saúde humana e no meio ambiente, incluindo:

  • Proibição de vendas a usuários não profissionais, como jardineiros amadores.
  • Proibido o uso em espaços públicos, como parques, calçadas, playgrounds, escolas e hospitais.
  • Proibição do uso na dessecação pré-colheita – isso contribuiria significativamente para ajudar o governo do Reino Unido a atingir sua meta de reduzir o uso e os danos causados ​​por pesticidas no setor agrícola em 10% até 2030.

Fonte: PAN UK

Novo estudo avança conhecimento da ciência ao relacionar a exposição a agrotóxicos ao câncer

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Por Carey Gillam para “The New Lede”

Um novo estudo sobre a exposição a agrotóxicos no Peru revela uma associação mecânica entre a exposição e o câncer, e demonstra como “misturas complexas de agrotóxicos” podem contribuir para o desenvolvimento de câncer em pessoas, mesmo em níveis de exposição atualmente considerados seguros.

Os autores do estudo, publicado na Nature Health , afirmaram que as descobertas questionam as abordagens toxicológicas clássicas, baseadas na avaliação de substâncias isoladas e no estabelecimento de limites de segurança, e demonstram a importância de se analisar os impactos de misturas de múltiplos agrotóxicos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras ao redor do mundo normalmente avaliam os agrotóxicos individualmente e não em combinação, uma prática que tem sido alvo de críticas.

“Há muito tempo presumimos que os riscos dos pesticidas são avaliados individualmente, mas, na realidade, as pessoas estão constantemente expostas a misturas complexas em seu ambiente cotidiano — e nossas descobertas sugerem que essa realidade negligenciada pode ser um componente importante do risco de câncer”, disse o coautor do estudo, Stephane Bertani, diretor de pesquisa em biologia molecular do Instituto Francês de Pesquisa Científica Internacional (IRD).

Além do IRD, a equipe de pesquisa incluiu cientistas do Instituto Pasteur e do Instituto Nacional de Doenças Neoplásicas (INEN).

A equipe afirmou que seu estudo é o primeiro a destacar os mecanismos biológicos pelos quais a exposição a agrotóxicos pode contribuir para o desenvolvimento de certos tipos de câncer.

Os pesquisadores se concentraram no Peru, combinando dados ambientais com informações sobre mais de 150.000 pessoas diagnosticadas com câncer entre 2007 e 2020, contidas em registros nacionais de câncer, e análises biológicas.

O estudo envolveu o mapeamento das áreas do Peru mais expostas à contaminação por agrotóxicos entre 2014 e 2019. Os autores afirmaram ter descoberto que certos tumores, mesmo aqueles que afetam diferentes órgãos, compartilham vulnerabilidades biológicas comuns ligadas à sua origem celular, que podem ser enfraquecidas pela exposição a agrotóxicos.

“Análises moleculares realizadas em tecido hepático, um órgão fundamental no processamento de substâncias químicas e considerado um indicador de exposição ambiental, mostram que os agrotóxicos interferem nos mecanismos que mantêm a identidade celular e o funcionamento normal”, afirma um comunicado de imprensa que acompanha o novo estudo.

“Essas alterações biológicas surgem antes do desenvolvimento do câncer, sugerindo efeitos precoces, cumulativos e silenciosos. Elas podem tornar os tecidos mais vulneráveis ​​a outros fatores, como infecções, inflamações ou fatores ambientais”, afirma o comunicado à imprensa.

Bruce Lanphear, professor de ciências da saúde na Universidade Simon Fraser, afirmou que o estudo representa um passo na “direção certa” em termos de análise de misturas de agrotóxicos, exposições no mundo real e plausibilidade biológica, mas “não chega a demonstrar que os agrotóxicos são a causa dos padrões de câncer observados”.

“O próximo passo é simples, embora não seja fácil: medir a que as pessoas estão realmente expostas e acompanhá-las ao longo do tempo”, disse Lanphear. “Isso significa combinar o biomonitoramento com estudos de coorte ou de caso-controle, levando em consideração outros fatores de risco importantes e relacionando as exposições individuais a alterações biológicas precoces e doenças.”

O estudo incluiu informações sobre a exposição a 31 agrotóxicos diferentes, incluindo atrazina, glifosato e 2,4-D – todos herbicidas de uso comum; bem como clorpirifós, imidaclopride e permetrina – inseticidas de uso comum. Ao todo, 19 inseticidas, 7 fungicidas e 5 herbicidas fizeram parte do estudo. Nenhum deles é atualmente classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer como carcinogênico, embora vários sejam classificados como provavelmente ou possivelmente carcinogênicos.

Nos Estados Unidos, dezenas de milhares de pessoas processaram a Monsanto, fabricante do glifosato, e sua proprietária, a Bayer, alegando que a exposição a produtos à base de glifosato causou o desenvolvimento de câncer. A Suprema Corte dos EUA deve analisar, no final de abril, um recurso da Bayer no qual a empresa argumenta que não deve ser responsabilizada por não alertar sobre os riscos de câncer, caso a Agência de Proteção Ambiental (EPA) não tenha exigido tais advertências.

Análises realizadas por dois grupos de saúde pública sem fins lucrativos constataram, no entanto, que a EPA tem um histórico de não exigir avisos sobre o risco de câncer em agrotóxicos, mesmo quando a própria agência determina que os ingredientes de um produto são cancerígenos.

Imagem em destaque por Dibakar Roy  no  Unsplash.


Fonte: The New Lede

Pesquisadores pedem ação urgente em relação ao glifosato, citando fortes ligações com o câncer

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Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Reguladores dos EUA e da Europa devem tomar medidas urgentes para regulamentar mais rigorosamente o glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo, à luz de fortes evidências científicas de que o pesticida pode causar câncer e outros problemas de saúde, afirmou um grupo de cientistas internacionais na sexta-feira.

Os cientistas, que se reuniram em um “simpósio sobre glifosato” em Seattle, nos dias 25 e 26 de março, para examinar uma série de pesquisas realizadas na última década, concluíram que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão fortes que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.

O grupo confirmou descobertas anteriores que relacionam a exposição ao linfoma não Hodgkin e alertou que impactos nocivos à saúde estão sendo encontrados em níveis de exposição consistentes com os padrões de uso atuais.

“As agências devem agir sem mais demora para limitar o seu uso, ou eliminá-los se legalmente exigido, para proteger a saúde pública”, disseram os cientistas em comunicado

Entre os cientistas participantes, estavam especialistas ligados a diversas universidades dos EUA, aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e ao Instituto Nacional do Câncer, bem como especialistas da Europa e do Canadá.

Especialistas se reuniram em Seattle em março de 2026 para avaliar as evidências científicas sobre os impactos do glifosato na saúde.

As conclusões completas do grupo, que incluiu especialistas em epidemiologia, toxicologia, câncer e avaliação de riscos, serão detalhadas em um artigo revisado por pares que o grupo espera publicar ainda este ano.

O glifosato é amplamente utilizado por agricultores, paisagistas e outros, tendo sido introduzido há 50 anos pela Monsanto e comercializado como uma forma excepcionalmente segura de eliminar ervas daninhas.

Mas, ao longo dos anos, aumentaram as evidências que ligam o glifosato a uma série de danos à saúde e ao meio ambiente.

O trabalho apresentado no simpósio de Seattle ocorre pouco mais de uma década depois de a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde ter realizado uma extensa revisão da literatura científica sobre o glifosato antes de 2015, determinando que o produto químico era “provavelmente” cancerígeno para os seres humanos.

A revisão de pesquisas científicas mais recentes realizada em Seattle confirma e reforça essa classificação, afirmaram os cientistas presentes no simpósio. Muitos agora estão convencidos de que não há mais espaço para dúvidas sobre a carcinogenicidade do glifosato.

“É evidente que as evidências mudaram e se fortaleceram desde 2015”, disse Christopher Portier , ex-cientista do governo dos EUA e professor adjunto da Universidade Emory, que participou do simpósio de Seattle e também da revisão do glifosato realizada pela IARC em 2015.

Especialistas presentes no simpósio sobre glifosato em Seattle analisaram uma série de dados relacionados aos potenciais impactos na saúde.

Além disso, os cientistas afirmaram que existem evidências, provenientes de estudos em humanos e/ou animais, de que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato aumentam o risco de diversos problemas de saúde, incluindo doenças renais e hepáticas. As pesquisas também mostram impactos nos sistemas reprodutivo, endócrino, neurológico e em outros sistemas metabólicos. Crianças, bebês e fetos são os mais suscetíveis, disseram os cientistas.

Os cientistas se concentraram em pesquisas realizadas desde 2016, incluindo a revisão de dados sobre como e onde as pessoas são expostas, estatísticas sobre a presença generalizada de glifosato na poeira doméstica em certas áreas agrícolas e a prevalência de glifosato em amostras de urina.

Os cientistas alertaram ainda que outros pesticidas também não estão sendo adequadamente avaliados e regulamentados, e que os processos de aprovação em todo o mundo devem ser “fundamentalmente revistos” para proteger a saúde humana. Eles afirmaram que medidas preventivas para reduzir a exposição humana devem ser implementadas sem demora enquanto as pesquisas continuam.

O glifosato não é a única substância química em que os órgãos reguladores não estão seguindo e agindo com base em evidências científicas de danos, embora seja um exemplo crucial, de acordo com os cientistas presentes no simpósio.

“Existe um enorme contraste, um conflito, entre o consenso científico e a perspectiva regulatória”, disse Lianne Sheppard, organizadora do simpósio e professora de ciências da saúde pública na Universidade de Washington. “Este [glifosato] é o exemplo mais flagrante disso.”

Os cientistas propõem uma reformulação do sistema regulatório, exigindo dados científicos de laboratórios e organizações independentes, livres de conflitos de interesse, com os custos dessa pesquisa sendo arcados pela indústria de pesticidas. As agências reguladoras devem basear suas decisões de aprovação de pesticidas em dados imparciais sobre os efeitos na saúde, em vez de dependerem fortemente de dados não publicados apresentados pelas empresas que buscam aprovação para seus produtos, afirmaram os cientistas. Para os pesticidas já comercializados, as agências reguladoras “devem monitorar de perto o uso, os dados de exposição e os efeitos nocivos, especialmente para grupos suscetíveis e altamente expostos”, concluíram os cientistas.

Em última análise, o grupo concluiu que o uso de pesticidas deve ser reduzido de forma geral e “eliminado na medida do possível”.

“Isto é imprescindível para a saúde dos seres humanos, dos ecossistemas e das gerações futuras”, afirmou o grupo em comunicado.

Tracey Woodruff, professora da Universidade de Stanford, participou do simpósio.

“É difícil fazer o governo mudar, principalmente porque a indústria gasta muito dinheiro fazendo lobby no Congresso para garantir que as leis favoreçam seu ponto de vista”, disse Tracey Woodruff, professora da Universidade Stanford e ex-cientista sênior do Escritório de Políticas da EPA, que participou do simpósio.

“As pessoas estão realmente revoltadas porque estão ficando mais doentes, suas famílias estão ficando mais doentes e estão sendo expostas a produtos químicos tóxicos. Há um consenso geral de que as pessoas não querem ser expostas a produtos químicos tóxicos.”

A Bayer, com sede na Alemanha, que comprou a Monsanto em 2018 e herdou a marca Roundup, à base de glifosato, e outros herbicidas também à base de glifosato, está atualmente envolvida em processos judiciais nos Estados Unidos movidos por dezenas de milhares de pessoas que alegam que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa causou o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer no sangue.

A Bayer afirma que seus produtos à base de glifosato são seguros e não causam câncer ou outros problemas de saúde, mas diversos estudos de pesquisa contestam essa posição.

Um  estudo de 2022,  por exemplo, descobriu que o glifosato pode ter efeitos neurotóxicos em doses inferiores aos níveis considerados seguros pelas agências reguladoras. E  um estudo de 2023  associou a exposição infantil ao glifosato à inflamação do fígado e a distúrbios metabólicos.

No mês passado, uma  revisão de 15 anos de estudos publicados  confirmou que a exposição humana a herbicidas à base de glifosato tem sido associada a inúmeros efeitos adversos à saúde, que incluem não apenas câncer, problemas hepáticos e metabólicos, mas também efeitos nos sistemas reprodutivo e endócrino, além de disrupção do microbioma, entre outros.

A Bayer está tentando resolver o litígio e está buscando um recurso perante a Suprema Corte dos EUA, o que poderia limitar futuros processos judiciais.

Nem a Bayer nem a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) se pronunciaram de imediato sobre a declaração emitida no simpósio de Seattle.


Fonte: The New Lede

Ánálise identificou “pontos críticos” de glifosato e câncer em Iowa e outros estados do meio-oeste dos EUA

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Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Uma nova análise relaciona o uso elevado do herbicida glifosato a taxas elevadas de linfoma não Hodgkin (LNH), particularmente no Centro-Oeste dos Estados Unidos, reforçando anos de pesquisa que associam o câncer ao herbicida popularizado pela Monsanto.

A análise feita pela Food & Water Watch (FWW), uma organização sem fins lucrativos de defesa da saúde pública, examinou os condados que aplicam as maiores quantidades de herbicidas à base de glifosato no país, concentrando-se naqueles que estão entre os 20% que mais utilizam glifosato em culturas agrícolas.

Em seguida, o grupo cruzou esses dados com as taxas de incidência de linfoma não Hodgkin (LNH). Entre as descobertas, o grupo afirmou que 60% dos condados com alto uso de glifosato apresentavam taxas de LNH acima da média nacional.

A maior sobreposição entre a aplicação de glifosato e o linfoma não Hodgkin foi observada no Centro-Oeste, uma importante região agrícola dos EUA.

Um mapa dos pontos críticos mostra aglomerados de taxas de linfoma não Hodgkin (LNH) particularmente altas em muitas partes de Iowa, o principal estado produtor de milho do país e um dos cinco principais estados produtores de soja. Ambas as culturas foram geneticamente modificadas para tolerar a pulverização com glifosato.

Iowa tem a segunda maior taxa de câncer do país e é  um dos três únicos estados onde a incidência de câncer está aumentando , de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde. A análise da FWW constatou que 82% das áreas com alta incidência de pulverização de glifosato apresentavam taxas elevadas de incidência de linfoma não Hodgkin.

A FWW afirmou que baseou sua análise em dados do Programa de Uso de Produtos Químicos Agrícolas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e no banco de dados de Perfis Estaduais de Câncer do Instituto Nacional do Câncer. O mapa exibe apenas os condados que estão entre os 20% com maior aplicação total de glifosato por quilômetro quadrado e que também possuem dados em nível de condado sobre a incidência de linfoma não Hodgkin (LNH), segundo a FWW.

“É impressionante que muitos dos condados que mais utilizam glifosato sejam também ‘pontos críticos’ para o linfoma não Hodgkin — um câncer associado à exposição ao glifosato”, disse Amanda Starbuck, diretora de pesquisa da FWW.

Sarah Green, diretora executiva do Conselho Ambiental de Iowa, que tem uma iniciativa em andamento para explorar a relação entre fatores de risco ambiental e taxas de câncer em Iowa, disse que a nova análise não foi surpreendente.

“Sabemos que as taxas de câncer em Iowa atingiram níveis alarmantes, e pesquisas crescentes mostram que os habitantes de Iowa enfrentam riscos desproporcionais devido à exposição a produtos químicos agrícolas, incluindo glifosato, atrazina, acetoclor e nitratos provenientes de fertilizantes e da aplicação de esterco”, disse ela. “O que é especialmente notável é que os habitantes de Iowa não estão expostos a apenas um fator de risco, mas frequentemente a vários simultaneamente.”

Green alertou que correlação não implica causalidade e afirmou que é necessário realizar pesquisas mais abrangentes sobre os impactos na saúde das exposições ambientais.

O glifosato foi introduzido pela Monsanto na década de 1970 e, por muito tempo, tem sido um herbicida amplamente utilizado na agricultura, bem como em uma variedade de usos comerciais e residenciais. Popularmente conhecido como Roundup, o uso desse produto químico disparou depois que a Monsanto introduziu culturas geneticamente modificadas para tolerar o glifosato, facilitando aos agricultores o controle de ervas daninhas em suas plantações sem prejudicar as culturas geneticamente modificadas.

Com o aumento do uso, cresceu também o escrutínio científico dos potenciais riscos ambientais e para a saúde humana associados ao produto químico.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, parte da Organização Mundial da Saúde, classificou o agrotóxico como provavelmente cancerígeno para humanos, observando ligações com o linfoma não Hodgkin.

Em 2019, pesquisadores publicaram um estudo que constatou que pessoas com alta exposição a herbicidas à base de glifosato apresentavam um risco 41% maior de desenvolver linfoma não Hodgkin, classificando as evidências como “uma ligação convincente” entre o produto químico e o câncer.

Diversos cientistas se reunirão ainda este mês em um simpósio para analisar as pesquisas sobre o glifosato em relação aos seus potenciais impactos na saúde.

A professora Lianne Sheppard , da Universidade de Washington , que está organizando o simpósio e é uma das autoras do estudo de 2019, afirmou que as evidências sobre os potenciais riscos do glifosato para a saúde continuam a aumentar.

“Desde a publicação do nosso estudo, acumularam-se evidências de que os herbicidas à base de glifosato causam danos ao DNA e afetam os mecanismos de reparo do DNA, o que pode resultar em câncer, e que os cânceres do sangue, como o linfoma não Hodgkin, podem ser os mais afetados”, disse ela.

Dezenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos processaram a Monsanto e a empresa alemã Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, alegando que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa causou o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin (LNH).

A Monsanto, e posteriormente a Bayer, afirmam que seus produtos não causam câncer. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) sustenta que o glifosato “ provavelmente não é cancerígeno para humanos“.


Fonte: The New Lede

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras

Estudo identifica pela primeira vez resistência ao herbicida em Solanum americanum, espécie comum em áreas agrícolas

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras -

Por Jéssica para “São Carlos Agora” 

Pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram diferentes espécies de plantas invasoras, agronomicamente conhecidas como “plantas daninhas”, com capacidade de resistir à ação do herbicida glifosato. Entre elas está Solanum americanum, cuja resistência foi registrada pela primeira vez para a espécie, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

A investigação teve início durante o doutorado de Gabriel da Silva Amaral, no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar, sob a orientação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no Departamento de Química (DQ) da Instituição, a partir de relatos de produtores rurais que observavam falhas recorrentes no controle de plantas invasoras. Com base nessas observações, os pesquisadores coletaram sementes de espécies que haviam sobrevivido à última aplicação do herbicida (dose de campo) em pomares de laranja-doce e limão-taiti. O material foi então submetido a testes laboratoriais para avaliar a resposta das plantas ao herbicida.

Como surge a resistência

O glifosato é o herbicida mais utilizado no país e um dos mais empregados no mundo. Ainda assim, algumas populações de plantas invasoras vêm apresentando redução na sensibilidade ao produto, devido ao uso indiscriminado deste. Essa resistência não ocorre de forma imediata, é resultado de um processo evolutivo gradual.

Quando um herbicida é usado repetidamente, ele não afeta todas as plantas da mesma forma. Algumas já possuem pequenas diferenças genéticas que as tornam menos sensíveis ao produto. Com o tempo, essas plantas sobrevivem às aplicações e se multiplicam, fazendo com que a população passe a responder cada vez menos a ação do herbicida. Esses indivíduos sobrevivem, se reproduzem e transmitem essas características às gerações seguintes. Com o tempo, esses traços passam a predominar, formando populações resistentes.

Testes confirmam a resistência

Segundo Amaral, o estudo trouxe uma constatação inédita. “Elucidamos que Solanum americanum apresenta resistência ao glifosato. É o primeiro registro desse tipo de resistência para a espécie no Brasil e no mundo. A descoberta amplia o conjunto de plantas invasoras que passam a representar desafio para a citricultura, especialmente em sistemas com uso contínuo do herbicida”, afirma. 

Os testes indicaram que algumas espécies, como Amaranthus deflexus, Amaranthus hybridus e Tridax procumbens, permaneceram sensíveis ao produto. Já Bidens pilosa apresentou comportamento distinto: embora a maioria das populações tenha respondido ao glifosato, amostras coletadas na região de Olímpia exibiram sinais de resistência, com redução significativa na mortalidade das plantas tratadas com glifosato.

Outras espécies já reconhecidas por dificultar o manejo agrícola, como Conyza bonariensis, Digitaria insularis e Chloris elata, apresentaram resistência. Em alguns casos, nem mesmo doses elevadas do herbicida foram suficientes para garantir o controle.

Para confirmar que as plantas eram realmente resistentes, e não apenas sobreviventes ocasionais, os pesquisadores realizaram teste bioquímico que avalia o funcionamento da via metabólica alvo do glifosato. O herbicida atua bloqueando a chamada via do chiquimato, responsável pela produção de aminoácidos essenciais ao desenvolvimento da planta. Quando essa via é interrompida, a planta deixa de sintetizar compostos indispensáveis para seu crescimento e sobrevivência. Como consequência desse bloqueio, o ácido chiquímico, uma molécula intermediária da via, passa a se acumular.

Em plantas sensíveis ao herbicida, esse acúmulo é elevado, sinalizando que o metabolismo foi efetivamente interrompido. Já nas populações analisadas como resistentes, os níveis de ácido chiquímico foram significativamente menores. Isso indica que o glifosato não conseguiu bloquear completamente a via metabólica. Ao demonstrar que a via permanece ativa nas plantas resistentes, o estudo confirma que não se trata de uma sobrevivência casual, mas de uma alteração fisiológica consistente que reduz a eficácia do herbicida.

Além do impacto direto no controle das plantas invasoras, o uso contínuo do herbicida pode afetar outros componentes do sistema produtivo. “O glifosato não atua apenas sobre as plantas indesejadas. Ele também pode interferir em bactérias e fungos do solo que desempenham papel importante na saúde da lavoura. Aplicações frequentes ou em doses elevadas podem reduzir esses microrganismos benéficos e comprometer a ciclagem de nutrientes”, explica Amaral.

A ocorrência simultânea de múltiplas espécies resistentes em um mesmo pomar é uma problemática constante. Nas áreas analisadas, que envolvem os municípios de Araras, Cordeirópolis, Mogi-Mirim e Olímpia, os cientistas identificaram a convivência de duas, três ou até cinco espécies resistentes lado a lado. Essa sobreposição torna o manejo mais complexo, uma vez que estratégias eficazes para uma espécie podem não funcionar para outra, elevando custos e limitando as alternativas disponíveis aos produtores.

A identificação dessas populações resistentes é fundamental para compreender como o uso contínuo de herbicidas pode alterar o equilíbrio no campo. É necessário orientar estratégias de manejo mais diversificadas e sustentáveis, reduzindo a dependência de uma única ferramenta de controle.

A pesquisa foi desenvolvida frente ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Controle Biorracional de Insetos Pragas e Fitopatógenos (CBIP), sob coordenação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no DQ. Os resultados foram publicados e podem ser conferidos no site da revista AgriEngineering.

O projeto recebeu apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos 14/50918-7 e 2012/25299-6).


Fonte: São Carlos Agora

Glifosato, condenado nos EUA por relação com câncer, é o agrotóxico mais presente em ultraprocessados no Brasil

De acordo com o Idec, metade dos produtos apresentam substância, que foi detectada em quase um terço das amostras no último relatório do instituto

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Pulverização de agrotóxicos em área agrícola. O glifosato é o herbicida mais utilizado no Brasil e no mundo. Foto: Pexels/Arjun MJ

Por Forum 

A Bayer apresentou nos Estados Unidos uma proposta de acordo que pode chegar a US$ 7,25 bilhões (cerca de R$ 37 bilhões) para encerrar processos judiciais relacionados ao herbicida Roundup. O produto é alvo de milhares de ações movidas por pessoas e é considerado um provável carcinógeno pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O plano foi protocolado em um tribunal estadual do Missouri e prevê a criação de um fundo de indenização, com pagamentos distribuídos ao longo de até 21 anos. Para que o acordo seja validado, é necessária a adesão de um número mínimo de autores das ações. Caso a participação seja considerada insuficiente, a empresa poderá retirar a proposta.

No Brasil, o glifosato se tornou ao longo dos anos o herbicida mais usado nas lavouras, principalmente em cultivos de soja transgênica, e o consumo de herbicidas no país mais que dobrou na última década, impulsionado pela expansão agrícola e pela resistência de plantas daninhas, o que consolidou a substância como base da agricultura química nacional.

Entre os anos de 2010 e 2020, o volume de herbicidas ativos comercializados saltou de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas por ano, um crescimento de 128%, segundo um estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), realizado em parceria com a Universidade de Rio Verde e publicado na revista científica Agriculture.

Estudos indicam o surgimento de impactos ambientais e potenciais riscos à saúde em áreas de aplicação intensiva, como aumento de mortalidade infantil em localidades próximas a lavouras, e debates sobre limites mais permissivos de resíduos em água potável em comparação com países europeus. No governo de Jair Bolsonaro, a política agrícola foi marcada pela aprovação acelerada de agrotóxicos, e também do glifosato, favorável a sua base eleitoral, o agronegócio, com autoridades defendendo a liberação técnica do uso desses químicos e registrando recordes de novos pesticidas autorizados em poucos anos, muitos dos quais são proibidos ou restritos em outras regiões.

Glifosato em ultraprocessados e água

Resíduos de glifosato foram identificados em alimentos ultraprocessados no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).  Foi identificada na pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote” a presença de agrotóxicos em metade das amostras: das 24 avaliadas, 12 apresentaram resíduos dessas substâncias, sendo o glifosato o mais recorrente, detectado em 7 produtos.

O estudo também apontou que a farinha de trigo, ingrediente comum em itens como empanados, biscoitos e macarrão instantâneo. continua sendo uma das principais fontes de contaminação. Entre as categorias analisadas, apenas os produtos do tipo petit suisse não apresentaram resíduos de agrotóxicos em nenhuma das amostras testadas.

Além disso, o Brasil detém a maior reserva de água doce superficial do mundo, representando aproximadamente 12% do total global. Além disso, abriga a maior floresta úmida, a Amazônia, e vastas extensões de áreas continentais alagadas, como o Pantanal e o Araguaia, e extensas bacias hidrográficas espalhadas pelo território. O país figura entre os principais consumidores globais de agrotóxicos.

Isso aponta para o risco de contaminação das principais reservas hídricas do país e um impacto significativo na diversidade biológica. Segundo estatísticas mais recentes, a agricultura irrigada responde por 66,1% do total de águas superficiais e subterrâneas utilizadas no Brasil, totalizando 83 bilhões de litros diários. Considerando também o consumo voltado para a pecuária, a proporção se eleva para 77,7%.

De acordo com um estudo publicado pelo Atlas dos Agrotóxicos em dezembro de 2023, na contaminação das águas, “as substâncias tóxicas podem impactar tanto as águas superficiais quanto as subterrâneas por meio da lixiviação, um processo de ‘lavagem’ do solo no qual nutrientes e elementos químicos são transportados para os corpos hídricos. Além disso, a percolação, que é o movimento da água através do solo, contribui para o fluxo dessas substâncias em direção aos reservatórios subterrâneos”, destaca estudo.

A presença de contaminação é influenciada também por características como o tipo de solo, clima, padrões de uso e ocupação do solo, e as propriedades físico-químicas dos compostos utilizados. Os agrotóxicos podem percorrer  extensas distâncias por meio de processos como a evapotranspiração, que é a conversão da água em vapor da superfície terrestre para a atmosfera, e pela ação dos ventos. A água evaporada é transportada pelos ventos, alimentando as precipitações em diversas regiões, fenômeno conhecido como “rios voadores”.

Apesar do Brasil dispor do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua), responsável por investigar a presença de agrotóxicos e outros parâmetros nos municípios do país, a pesquisa ressalta que há uma escassez de estudos analíticos sobre a presença de contaminantes agrotóxicos nas águas, principalmente por dificuldades financeiras e logísticas.

Combinações de agrotóxicos são comumente detectadas em pesquisas científicas e análises do Vigiágua, mas os efeitos da exposição a essas misturas ainda são pouco explorados e inadequadamente incorporados às legislações que estabelecem os parâmetros para o monitoramento de agrotóxicos na água no país. “Além disso, há limitações normativas quanto ao monitoramento de agrotóxicos em água. Uma delas refere-se ao baixo número de parâmetros de agrotóxicos previstos para serem monitorados pelos Ministérios da Saúde (MS) e do Meio Ambiente”, diz trecho do documento.

Entre 2018 e 2021, a análise de 41.780 amostras revelou que em menos de 10% das detecções os resultados ultrapassaram o limite de quantificação. A atrazina, metolacloro, glifosato e 2,4-D foram os agrotóxicos mais frequentemente quantificados. Contudo, um percentual significativamente maior de agrotóxicos foi identificado em níveis não quantificáveis, sugerindo a possibilidade de limitações nas técnicas analíticas em uso, sem necessariamente indicar a ausência de riscos.

Outra pesquisa, realizada pelo Pesticide Atlas em 2022, fez uma comparação da concentração de glifosato em águas potáveis brasileiras e europeias. A substância da Bayer defendida pelos agricultores é de alto risco e foi liberada pelo governo Bolsonaro ainda na pandemia, em 2020, permanecendo em uso por quatro anos.

No estudo, foi constatado que o Brasil permite quantidades de glifosato maiores na água em relação à União Europeia. Enquanto aqui são permitidos 500 microgramas por litro, nos países europeus, por litro, é liberado apenas 0,1 micrograma, o que revela uma quantidade 5 mil vezes maior de autorização da substância tóxica no Brasil.

Quando surgiu o glifosato?

O herbicida foi desenvolvido na década de 1970 pela Monsanto, multinacional norte-americana que se tornou uma das principais referências globais na produção de insumos agrícolas. Antes, a substância foi descoberta em 1950 pelo químico suíço Henri Martin e, inicialmente, era usada como produto de limpeza de metais. A empresa também esteve envolvida na fabricação de produtos químicos militares décadas antes, como na Guerra do Vietña, o que contribuiu para os impactos da indústria química. Com o sucesso comercial do glifosato após sua associação a sementes geneticamente modificadas, o produto se tornou o herbicida mais utilizado no mundo, tamanho que a empresa lançou o produto Roundup.

Em 2018, a Bayer, conglomerado alemão do setor farmacêutico e químico, concluiu a compra da Monsanto por US$ 63 bilhões. Desde então, o glifosato passou a integrar o portfólio da Bayer, que mantém a comercialização do herbicida em diversos países. Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta disputas judiciais e pressão de organizações de saúde e ambientais. Parte dessas preocupações decorre de estudos científicos que apontam associação entre a exposição prolongada ao glifosato e maior risco de determinados tipos de câncer, embora o debate científico não seja unânime e haja divergências entre agências regulatórias sobre o grau de risco e a relação causal direta. Além do setor agrícola, o grupo Bayer também atua na produção de medicamentos, incluindo tratamentos oncológicos, fato citado por críticos como exemplo das contradições presentes no modelo de negócios de grandes conglomerados químicos e farmacêuticos.


Fonte: Forum

Trump enfurece a MAHA com ordem que concede “imunidade” à produção de glifosato

After Promising to 'Make America Healthy Again,' Trump Mandates Production  of Cancer-Causing Glyphosate | Common Dreams

Por Carey Gillam para “The New Lede”

Em uma medida que enfureceu defensores da saúde e do meio ambiente, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva que protege a produção e concede “imunidade” a herbicidas à base de glifosato, como o Roundup, que foram associados ao câncer e são alvo de ampla ação judicial nos EUA.

A ordem também protege a produção nacional de fósforo, usado na fabricação de glifosato e outros agrotóxicos, bem como de uma série de outros produtos, incluindo alguns para a defesa militar. Garantir “uma mineração nacional robusta de fósforo elementar e a produção de herbicidas à base de glifosato nos Estados Unidos é fundamental para a segurança econômica e nacional americana”, afirma a ordem.

A ordem de 18 de fevereiro cita a autoridade da Lei de Produção de Defesa e instrui a Secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, a emitir ordens e regulamentos que “sejam necessários para implementar esta ordem”.

ACasa Branca afirmou que “a ameaça de redução ou interrupção da produção” de herbicidas à base de fósforo e glifosato “coloca em grave risco a segurança e a defesa nacional, incluindo a segurança do abastecimento alimentar”, e a ordem executiva cita o glifosato como “um pilar da produtividade agrícola e da economia rural desta nação”.

Nem a ordem executiva nem a ficha informativa divulgada pela Casa Branca que a acompanha revelam que os herbicidas à base de glifosato foram associados a uma série de tipos de câncer e outros problemas de saúde em múltiplos estudos de pesquisa independentes  por especialistas em câncer da Organização Mundial da Saúde.

“Uma zombaria” para MAHA

A medida da Casa Branca surge em um momento em que a Bayer, fabricante do Roundup, enfrenta dezenas de milhares de processos judiciais alegando que os herbicidas à base de glifosato da empresa causam câncer e que a empresa não alertou agricultores e outros usuários sobre os riscos. A empresa, que herdou os litígios ao comprar a Monsanto em 2018, já pagou bilhões de dólares em acordos e veredictos de júri e anunciou esta semana que propõe pagar US$ 7,25 bilhões em um acordo coletivo para tentar evitar futuros processos.

A Bayer afirmou que, caso não consiga resolver o processo judicial, poderá interromper a produção de herbicidas à base de glifosato para o mercado agrícola dos EUA.

“Esta ordem executiva parece ter sido redigida na sala de reuniões de uma empresa química”, disse Vani Hari, ativista alimentar, autora e uma das líderes de base da coalizão Make America Healthy Again (MAHA). “Chamar isso de ‘defesa nacional’ enquanto se expande a proteção a produtos tóxicos é uma manobra perigosa. A verdadeira segurança nacional é proteger as famílias, os agricultores e as crianças americanas.”

Kelly Ryerson, outra figura importante no movimento MAHA, que tem pressionado os órgãos reguladores e legisladores dos EUA por restrições ao glifosato e outros pesticidas, afirmou que a medida de Trump é um insulto àqueles que, em grande parte, apoiaram o governo devido às promessas de que as questões relacionadas ao MAHA seriam levadas a sério.

“O presidente está zombando dos próprios eleitores que elegeram seu governo”, disse Ryerson. “Expandir a produção de glifosato, um pesticida criticado pelo movimento MAHA, é perpetuar o sistema alimentar tóxico e químico que criou uma população americana doente e infértil. É irônico que essa medida seja tomada em nome da segurança nacional, quando a destruição química da saúde humana e do solo é o que realmente ameaça nossa segurança nacional e nosso futuro como uma nação produtiva.”

Lori Ann Burd, diretora do programa de saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, classificou a ordem executiva como “uma carta de amor repugnante de Trump às maiores empresas de pesticidas do mundo”.

“Isso é mais uma prova de que Trump não se importa nem um pouco com a saúde dos americanos”, disse ela. “Enquanto ele se curva aos interesses das empresas químicas, o resto do país, especialmente aqueles que foram envenenados por pesticidas, pergunta com razão: ‘E nós?’”

Questões de “imunidade”

A ordem de Trump contém uma cláusula que “confere toda a imunidade prevista na seção 707 da Lei (50 USC 4557) ” e afirma que “os produtores nacionais de fósforo elementar e herbicidas à base de glifosato são obrigados a cumprir esta ordem”. A Lei citada afirma que “nenhuma pessoa será responsabilizada” por “qualquer ato” resultante do cumprimento de uma ordem emitida de acordo com essa lei.

A Bayer não respondeu quando questionada sobre seu envolvimento na ordem executiva de Trump, mas emitiu um comunicado dizendo: “A Ordem Executiva do Presidente Trump reforça a necessidade crítica de que os agricultores americanos tenham acesso a ferramentas essenciais de proteção de cultivos produzidas internamente, como o glifosato. Cumprimos esta ordem para produzir glifosato e fósforo elementar.”

A empresa tem se engajado em uma série de táticas para tentar aliviar a pressão dos processos judiciais, incluindo pressionar o Congresso para que a Lei Agrícola e outras legislações incluam disposições que restrinjam a capacidade das pessoas de processar a empresa por não alertar sobre os riscos de câncer, caso a Agência de Proteção Ambiental dos EUA não exija tais avisos.

A empresa já conseguiu aprovar leis que a protegem de processos judiciais em dois estados e está pressionando por leis semelhantes em mais estados. Ela também solicitou à Suprema Corte dos EUA que se pronuncie a seu favor sobre a questão da prevalência da legislação federal sobre ações judiciais por omissão de advertência, e o tribunal superior agendou uma audiência para 27 de abril.

Especialistas jurídicos estavam analisando se e como a ordem executiva poderia ou não, de fato, fornecer proteção legal para a fabricação de glifosato e fósforo. Mas George Kimbrell, diretor jurídico do Centro para Segurança Alimentar, disse que a ordem de Trump fazia parte de um padrão de “muito barulho por nada”.

“As ordens executivas não têm força de lei sem nova autorização do Congresso e, neste caso, não podem magicamente conceder à Monsanto imunidade pelos danos causados ​​por seus produtos tóxicos à base de glifosato”, disse Kimbrell em um comunicado. “Esta [ordem executiva] é uma tentativa transparente de influenciar a Suprema Corte a conceder à Monsanto/Bayer, fabricante do glifosato, e a outros gigantes do setor de pesticidas imunidade contra responsabilidade pelos danos causados ​​por seus produtos.”

Em resposta à ordem executiva, o Environmental Working Group (EWG) observou que Robert F. Kennedy Jr., nomeado por Trump como Secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, tem um longo histórico de críticas ao glifosato e ao seu fabricante devido aos danos à saúde associados ao herbicida, e que tanto Trump quanto Kennedy prometeram abordar as preocupações com a saúde relacionadas ao glifosato e a outros pesticidas.

“Se alguém ainda tinha dúvidas se o programa ‘Make America Healthy Again’ era um compromisso genuíno com a proteção da saúde pública ou uma farsa arquitetada pelo presidente Trump e por RFK Jr. para mobilizar eleitores preocupados com a saúde em 2024, a decisão de hoje responde a essa pergunta”, disse Ken Cook, presidente e cofundador do EWG, em um comunicado.

“Não consigo imaginar uma afronta maior a todas as mães afetadas pelo MAHA do que esta”, disse Cook. “Ao conceder imunidade aos fabricantes do pesticida mais utilizado no país, o presidente Trump acabou de dar à Bayer uma licença para envenenar as pessoas.”

Em resposta a perguntas sobre a ordem executiva, Kennedy emitiu uma declaração dizendo que a ordem “coloca os Estados Unidos em primeiro lugar onde mais importa: nossa prontidão de defesa e nosso abastecimento de alimentos”.


Fonte: The New Lede

Corteva interromperá produção do herbicida “Enlist Duo” que critícos rotulam de “coquetel tóxico”

A Corteva vai descontinuar uma mistura de Agente Laranja e glifosato, mas outro de seus herbicidas ainda usará um desfolhante da época da Guerra do Vietnã

Uma placa diz: 'Americano desde 1926'

Placa da Corteva em Jewell, Iowa, em 6 de janeiro de 2023. Fotografia: Michael Siluk/Universal Images Group/Getty Images

Por Tom Perkins para “The Guardian” 

A gigante química Corteva deixará de produzir o Enlist Duo, um herbicida considerado por ambientalistas como um dos mais perigosos ainda em uso nos EUA, devido à presença de uma mistura de Agente Laranja e glifosato, ambos associados ao câncer e a danos ecológicos generalizados.

Durante a Guerra do Vietnã, as forças armadas dos EUA utilizaram o Agente Laranja, uma arma química, para destruir a vegetação, causando sérios problemas de saúde entre os soldados e os moradores vietnamitas.

O glifosato, por sua vez, é um ingrediente herbicida altamente controverso e tóxico que motivou processos judiciais semelhantes. Ambos são proibidos ou têm seu uso severamente restringido em muitos países industrializados.

Apesar dos riscos da combinação das substâncias, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) aprovou por duas vezes seu uso em plantações de alimentos. O composto é aplicado anualmente em cerca de 4,5 milhões de acres de campos onde se cultivam milho, soja e algodão geneticamente modificado.

A medida encerrará uma década de litígios e campanhas de pressão pública para proibir o Enlist Duo, e os defensores estão “comemorando como uma vitória”, disse Kristina Sinclair, advogada do Centro para Segurança Alimentar (CFS, na sigla em inglês), uma organização sem fins lucrativos que é a principal autora da ação judicial.

“Após mais de uma década de batalhas judiciais, em vez de tentar refutar nossos argumentos no tribunal, o fabricante retirou o Enlist Duo do mercado”, disse Sinclair. “Nosso sistema alimentar nunca deveria ter sido contaminado com esse coquetel tóxico, e agora nunca mais será.”

A Corteva informou ter vendido mais de US$ 1 bilhão em produtos Enlist em 2022. O agente químico laranja 2,4-D continuará sendo usado no Enlist One, e o processo judicial que pede a um juiz a invalidação de sua aprovação prosseguirá.

Em comunicado, um porta-voz da Corteva afirmou que a produção do Enlist Duo foi interrompida porque o produto agora representa apenas 1% das vendas.

“Essa decisão é a mais recente de uma série de medidas que tomamos nos últimos anos para otimizar nosso portfólio e não afeta a produção ou a disponibilidade do Enlist One, que continua sendo uma solução líder de mercado”, disse o porta-voz.

O 2,4-D age atacando as raízes e folhas das ervas daninhas, fazendo com que produzam células indesejadas, de forma semelhante à indução do câncer, para matá-las ou enfraquecê-las. A substância é considerada um possível carcinógeno pela Organização Mundial da Saúde e, entre outros efeitos na saúde humana, está associada ao linfoma não Hodgkin, defeitos congênitos, problemas respiratórios, doença de Parkinson e danos reprodutivos.

Acredita-se também que o produto prejudique centenas de espécies ameaçadas de extinção, incluindo borboletas, pássaros, peixes, veados, panteras e morcegos, escreveu o CFS em seus documentos judiciais. A ação alega ainda que a aprovação do produto ameaça aumentar a disseminação de novas ervas daninhas resistentes a herbicidas, porque a EPA não mitigou adequadamente os riscos. Isso obriga os agricultores a lidar com novas “superervas daninhas”.

A EPA aprovou o Enlist Duo pela primeira vez em 2014, o que levou a um processo judicial movido pela CFS e outras entidades, alegando que a agência violou a lei federal ao não garantir que o herbicida não causasse “efeitos adversos irrazoáveis ​​ao meio ambiente”, conforme exigido pelas leis nacionais sobre pesticidas. Naquela época, a EPA declarou, sem realizar a consulta obrigatória de acordo com a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção, que o coquetel químico não causaria danos a nenhuma espécie ameaçada de extinção.

Um tribunal federal invalidou a aprovação da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) para o Enlist Duo em 2020, mas a agência o reaprovou em 2022 para um período de uso de sete anos. Os defensores argumentaram que a EPA baseou suas avaliações de impacto ambiental e de saúde em níveis de uso anteriores, que subestimam drasticamente a ameaça.

A reaprovação do Enlist Duo pela EPA, apesar da decisão judicial, é emblemática de uma filosofia falha e mais ampla na divisão de pesticidas da agência, afirmou Nathan Donley, diretor de saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, que esteve envolvido nos processos. A agência está sempre em busca de “ajustes”, disse ele.

“Sempre que os tribunais encontram falhas em sua abordagem, nunca há um momento de reflexão, nunca há um reconhecimento de que seu processo é falho, há simplesmente uma corrida para encontrar a solução mais rápida para que seja reaprovado”, disse Donley.

“Levar os pesticidas ao mercado é sempre o objetivo da EPA – e quando essa é a principal motivação do órgão regulador de um país, há um limite para o que se pode esperar deles”, acrescentou Donley.


Fonte: The Guardian

Testes realizados na Flórida detectam glifosato em marcas de populares de pães

State warns families about glyphosate levels in popular bread brands

Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Autoridades da Flórida divulgaram esta semana os resultados de testes que mostraram que vários pães comumente vendidos  em supermercados no estado continham resíduos de glifosato, um herbicida que cientistas associam ao câncer.

O governador da Flórida, Ron DeSantis, afirmou em um comunicado à imprensa que os testes em produtos de panificação fazem parte de um programa de testes mais amplo, concebido para “fornecer aos floridianos as informações necessárias para que façam as melhores escolhas para o bem-estar de suas famílias”.

O Departamento de Saúde do estado encontrou glifosato em seis dos oito produtos de panificação testados: Nature’s Own Butter Bread, Nature’s Own Perfectly Crafted White, Dave’s Killer Bread White Done Right, Wonder Bread Classic White, Sara Lee Honey Wheat e Dave’s Killer Bread 21 Whole Grain, informou o estado.

As marcas de pão Dave’s Killer Bread possuem certificação orgânica e são rotuladas como livres de ingredientes geneticamente modificados (GM). O pão Nature’s Own Perfectly Crafted White também é rotulado como não contendo ingredientes GM. A Flowers Foods, proprietária de ambas as marcas, não respondeu ao pedido de comentário.

Fonte: Healthy Florida First

O glifosato é um herbicida químico introduzido na década de 1970 pela Monsanto, que se tornou o herbicida mais utilizado no mundo. Presente em marcas como o Roundup, é popular entre agricultores de todo o mundo, principalmente aqueles que cultivam culturas geneticamente modificadas para tolerar a pulverização direta com o herbicida.

O glifosato também é usado como agente dessecante no trigo e em outras culturas não transgênicas antes da colheita, uma prática que torna a colheita mais eficiente para os agricultores, mas pode deixar maiores resíduos de glifosato nos grãos.

Ao longo dos anos, diversos testes realizados por pesquisadores detectaram resíduos de glifosato não apenas em pães, mas também em uma variedade de alimentos , incluindo mingau de aveia para bebês .

A Monsanto e sua proprietária alemã, a Bayer, afirmam que o glifosato não representa um risco à saúde , e autoridades governamentais dizem que os resíduos de glifosato e outros agrotóxicos encontrados em produtos alimentícios são quase sempre tão baixos que não são considerados prejudiciais.

No entanto, cientistas internacionais ligados à Organização Mundial da Saúde classificaram o glifosato como provavelmente cancerígeno para humanos, e estudos recentes realizados na Europa descobriram que os herbicidas à base de glifosato representam não apenas risco de câncer , mas também outros riscos à saúde.

“O pão é um alimento básico para muitas famílias da Flórida, e elas devem poder consumi-lo sem se preocupar com toxinas ”, disse o Dr. Joseph Ladapo, Cirurgião-Geral do Estado, em um comunicado .  “Nossos testes encontraram altos níveis de glifosato em algumas marcas populares de pão. A exposição crônica ao glifosato está ligada a alterações prejudiciais na microbiota intestinal, inflamação do fígado e efeitos neurológicos adversos. A Flórida está tomando medidas por meio da transparência, testes contínuos e um foco claro na redução da exposição para proteger as famílias.”

O anúncio sobre o glifosato surge depois de autoridades da Flórida terem afirmado, no mês passado, que testes realizados em 24 fórmulas infantis detectaram níveis elevados de mercúrio, arsênio, cádmio e chumbo.


Fonte: The New Lede