China e Rússia fazem queixas de agrotóxico e coronavírus em carne e soja exportadas pelo Brasil

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao MAPA

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na Amazônia

Por Raquel Lopes / FolhaPress

As embaixadas do Brasil na China e na Rússia reportaram, em telegramas ao Itamaraty, problemas em alimentos brasileiros exportados. Segundo diplomatas, autoridades nos dois países cobram soluções e há até queixa por “falta de controle” em relação aos produtos brasileiros.

Moscou, por exemplo, alertou para o índice de agrotóxico acima do limite permitido. Só em 2020, a reclamação envolveu mais de 300 mil toneladas de soja.

A missão em Pequim, por outro lado, relatou ao menos seis registros de presença do novo coronavírus em embalagens de carne e de pescado.

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A Folha teve acesso a 350 páginas das correspondências enviadas ao Ministério das Relações Exteriores. Os documentos foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Segundo dados do Comex Stat, um sistema do governo para consultas e extração de dados do comércio exterior brasileiro, a soja correspondeu a 25% da exportação brasileira para a Rússia em 2020.

Em um dos telegramas de janeiro, a embaixada do Brasil em Moscou cita que o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia está preocupado com casos repetidos de detecção de glifosato acima do tolerado.

O documento pontuou que o país está endurecendo o controle sobre a presença da substância em produtos de grãos tanto no mercado interno quanto nas operações de exportação e importação.

A justificativa usada pelo país seria por causa do alto grau de toxicidade do glifosato para humanos e animais, confirmado por estudos da  Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como funciona a permissão de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, esse tipo de agrotóxico é permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O telegrama assinado pelo embaixador na Rússia, Tovar da Silva Nunes, citou que a agência reguladora russa tem informado repetidamente ao MAPA sobre o fornecimento ao país de soja com níveis acima do permitido desde 2019.

“O lado russo chamou a atenção dos colegas brasileiros para a necessidade de tomar medidas corretivas o quanto antes”, escreveu o diplomata.

Nunes acrescentou ainda que o desrespeito aos limites do agrotóxico corresponde a uma violação aos requisitos do regulamento técnico da União Aduaneira sobre a segurança dos grãos.

Segundo consta do telegrama, os resultados de verificação de segurança de grãos importados pela Rússia constataram, em parte da soja exportada no ano passado, teor de glifosato até 14,2 vezes superior ao máximo de 0,15 mg/kg previsto nas exigências do regulamento técnico da união aduaneira.

“O que aponta para a falta de controle estatal adequado por parte das autoridades competentes do Brasil. Nesse sentido, Rosselkhoznadzor [a vigilência russa] disse em comunicado que se reserva o direito de impor uma proibição temporária à importação dos produtos em questão do Brasil”, escreveu Nunes.

A Folha já publicou reportagem sobre o risco de o governo da Rússia adotar restrições temporárias à importação de soja caso não fosse reduzida a quantidade de pesticidas nos grãos importados do Brasil.
Já os telegramas da embaixada em Pequim citaram a detecção do coronavírus em produtos exportados ao país asiático no ano passado.

Em uma das correspondências, de novembro, o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita relatou que a aduana da China suspendeu um estabelecimento brasileiro exportador de pescado.

A medida foi tomada em razão da não apresentação de medidas corretivas após os produtos apresentarem resultado positivo para o vírus causador da COVID-19.

“Na comunicação, a aduana chinesa afirma esperar que o Mapa atribua importância à identificação do novo coronavírus em produtos exportados pelo Brasil para a China e às não conformidades encontradas na auditoria por videoconferência”, escreveu Mesquita.

De acordo com ele, o órgão “solicita, ademais, que as autoridades brasileiras adotem medidas para investigar a causa da contaminação, requeiram a adoção de medidas corretivas pelo estabelecimento e notifiquem as referidas correções ao lado chinês, a fim de garantir a segurança dos pescados exportados para este mercado”.

Também em novembro, Mesquita informou que a imprensa chinesa intensificava as notícias que associavam o surgimento de novos casos de COVID-19em portos e aeroportos do país a contato com produtos importados.

Ao falar especificamente do Brasil, citou ao menos cinco vezes em que a mídia tratou da detecção do coronavírus em produtos importados da cadeia de frio. Os casos ocorreram nas províncias de Hubei, Shanxi e Shandong.

“A mídia chinesa continua a insistir na narrativa de que alimentos importados da cadeia de frio apresentam alto risco de transmissão da COVID-19, chegando mesmo a insinuar que o primeiro caso da epidemia, em Wuhan, teria origem em produtos vindos de outros países”, escreveu o embaixador.

O MAPA afirmou, por meio de nota, que rotineiramente são tratados temas similares na relação comercial entre países. “Os dois pontos citados já foram analisados e continuamente são monitorados entre o Brasil e os governos da China e Rússia. O fluxo comercial desses países com o Brasil permanece fluído, sem interrupção”, afirmou.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse, em nota, que desenvolveu protocolo com o Hospital Israelita Albert Einstein, que rege os cuidados adotados pelas empresas do setor, assim como a legislação brasileira.

“Ambos protegem a saúde dos colaboradores e preservam a inocuidade dos alimentos produzidos para o mercado interno e internacional.”

A entidade disse ainda que organizações técnico-científicas relacionadas à saúde humana e à produção de alimentos realizaram pesquisas que constataram que o risco de transmissão de COVID-19 por embalagens é praticamente nulo.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Diário do Nordeste [Aqui!].

Nos passos da Monsanto

A Bayer instou o México e a Tailândia a retirarem a proibição do glifosato, de acordo com documentos que vazaram recentemente

Nessa demonstração em 2015 no México contra a estratégia do glifosato da Monsanto, o grupo dos EUA ainda não fazia parte da Bayer AG.Nessa demonstração em 2015 no México contra o uso do glifosato da Monsanto, o grupo dos EUA ainda não fazia parte da Bayer AG. Foto: REUTERS / Ginnette Riquelme

Por Andreas Knobloch para o Neues Deutschland

Em 2019, o governo tailandês decidiu banir três agrotóxicos, incluindo a toxina vegetal glifosato. Mas pouco antes de a proibição entrar em vigor, o governo de Bangkok recuou. “Eu estava particularmente interessado no papel dos EUA nisso”, disse Nathan Donley, cientista da organização ambiental sem fins lucrativos Center for Biological Diversity (CBD). Documentos deixaram claro que as empresas químicas e o lobby agrícola estavam intensamente envolvidos na influência dos EUA na Tailândia para impedir a proibição do glifosato. “Então, vi no noticiário que o México estava tomando medidas semelhantes às da Tailândia para proibir o glifosato e outros agrotóxicos. Isso nos levou a solicitar os documentos. “

De acordo com a Lei de Liberdade de Informação, a CBD solicitou a liberação de registros internos; o jornal britânico “The Guardian” publicou na semana passada. O tráfego de e-mails publicados mostra que o grupo alemão Bayer trabalhou em estreita colaboração com funcionários do governo dos EUA para pressionar o governo do México a suspender sua proposta de proibição do glifosato. O governo do presidente Andrés Manuel López Obrador deu aos seus agricultores até 2024 para interromper o uso de glifosato e outros agrotóxicos, bem como o cultivo e uso de milho GM. Os argumentos citados para a proibição são segurança alimentar e soberania, além de aspectos de saúde. O glifosato é um componente de vários herbicidas e tem sido associado ao câncer e outros problemas de saúde. Também na Alemanha, os herbicidas que contêm glifosato devem ser proibidos a partir de 2024.

Bayer AG is the owner of Monsanto.

E-mails internos do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e outras agências do governo dos EUA detalham como a Bayer instou o governo dos EUA a pressionar o México depois que o país inicialmente se recusou a importar glifosato da China no final de 2019. “Você pode ver o mesmo procedimento quando as empresas químicas afirmam que o governo dos EUA exerce influência sobre o que geralmente são países menores quando tentam elevar os padrões ambientais e de saúde”, diz Donley, referindo-se ao exemplo da Tailândia.

Por exemplo, Stephanie Murphy, representante da Bayer para assuntos governamentais, perguntou ao Diretor de Política de Comércio Internacional do USTR, Leslie Yang, em um e-mail sobre a rejeição da entrega de glifosato, se ela poderia “discutir o assunto mais com o USTR” e se “um possibilidade de um compromisso através da USMCA « O USMCA, acordo comercial recém-negociado entre os Estados Unidos, México e Canadá, foi assinado no final de 2018 e entrou em vigor em 1º de julho do ano passado. O lobista da indústria, CropLife America, que é financiado pela Bayer entre outros, também esteve envolvido. O glifosato desempenhou um papel importante nas negociações entre as autoridades americanas e mexicanas no início de 2020.

Em e-mails posteriores, Murphy escreveu a Yang sobre a necessidade de “engajamento político de alto nível”. Isso realmente aconteceu. Em maio, o representante de Comércio dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, alertou a então secretária de Comércio do México, Graciela Márquez Colín, que as questões do milho transgênico e do glifosato ameaçavam minar a “força de nossos laços bilaterais”.

Bayer nega que suas ações sejam ilegais. “Como muitas empresas e organizações que operam em setores fortemente regulamentados, também fornecemos informações e contribuímos para a tomada de decisões políticas e processos regulatórios cientificamente sólidos”, escreveu a empresa quando questionada. “Nosso relacionamento com todos que trabalham no setor público é rotineiro, profissional e obedece a todas as leis e regulamentos.”

Donley, um defensor da proibição de agrotóxicos, também não acredita que nenhuma lei tenha sido violada. “Mas esse também não é o padrão que deveríamos estabelecer”, diz ele. A Bayer certamente tem o direito de pedir apoio ao governo dos EUA, mas o governo dos EUA está comprometido com interesses mais amplos do que a agenda de uma empresa química. “Se você olhar as trocas de e-mail, verá que o governo dos EUA está fazendo mais ou menos tudo o que a Bayer pede. É extremamente preocupante.”

No momento, parece que o México está disposto a reduzir o uso de produtos químicos na agricultura. “Os EUA parecem muito contra isso, então não tenho certeza de como isso vai acabar”, disse Donley. “Mas o que não deveria acontecer é que a diplomacia dos Estados Unidos está sob a influência das corporações – e é isso que está acontecendo neste caso.”

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui!].

Quanto custa um câncer? Bayer faz ‘conta de padaria’: lucro com glifosato compensa custo de processos por danos à saúde

Empresa gasta US$ 12 bilhões em indenizações, mas continua fabricando – e vendendo muito – o agrotóxico. “É a prova cabal de que não existe, nem de longe, possibilidade de qualquer tipo de ética no sistema capitalista”, afirma analista

Manifestação de mulheres camponesas em frente à sede nacional da Bayer, em São Paulo
Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – A Bayer não fala em lucros com a venda do herbicida glifosato, o mais vendido do mundo. Mas certamente é gigantesco, já que é suficiente para cobrir, com sobra, os acordos bilionários que tem proposto à Justiça nos Estados Unidos para pagar milhares de indenizações a doentes de câncer expostos ao RoundUp, produto a base de glifosato.

A companhia alemã que comprou a Monsanto – desenvolvedora do glifosato –, desembolsou em 2020 US$ 10 bilhões (cerca de R$ 54 bilhões) para liquidar 95 mil processos por efeitos danosos do agrotóxico. Restaram ainda 30 mil ações. Na semana passada propôs outro acordo, no valor de US$ 2 bilhões (R$ 10,8 bilhões), para cobrir futuros pedidos de indenização de pessoas que, por exposição ao glifosato, desenvolveram linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer que atinge o sistema imunológico. O teto de indenização e cobertura de assistência à saúde será de até US$ 200 mil. A homologação da oferta depende de decisão do juiz Vince Chabbria, da Corte Distrital de São Francisco.

“Os acordos de US$ 10 bilhões do ano passado, somado aos U$2 bi de agora, superam o faturamento total da indústria de agrotóxicos no Brasil no ano passado. São cifras, portanto, astronômicas, mesmo para transnacionais do porte da Bayer”, diz o engenheiro Alan Tygel, coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida.

Segundo ele, quando a Bayer concluiu a compra da Monsanto em 2018, por US$ 63 bilhões, já sabia que herdaria milhares de processos e teria de desembolsar bilhões de dólares em pedidos de indenização contra o RoundUp. Mesmo assim a empresa decidiu comprar a Monsanto e seguirá vendendo o produto.

Bayer e câncer

“É a prova cabal de que não existe, nem de longe, possibilidade de qualquer tipo de ética no sistema capitalista. Fizeram a conta de padaria: quanto temos de receita, quanto custa cada câncer causado pelo produto, e chegaram à conclusão de que mesmo assim dá lucro”, disse Tygel.

Para ele, os acordos já firmados e o agora proposto não terão influência no cenário brasileiro. Apesar da gravidade dos danos, a agenda em favor da indústria de agrotóxicos por parte da Anvisa e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) seguirão. “Esperamos, porém, que pelo menos processos judiciais semelhantes possam prosperar e reparar, ainda que de forma meramente financeira, a dor e o sofrimento das famílias vitimadas pelas intoxicações por agrotóxicos.

Embora a proposta possa sugerir que a Bayer esteja finalmente admitindo o potencial carcinogênico da substância que produz, a empresa está protegendo seu caixa. É o que acredita o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski. “A Bayer não está reconhecendo que o glifosato faz mal, mas implicitamente está se protegendo ao propor limite de dois bilhões de dólares para futuros casos. Ou seja, para pessoas que ainda não constituíram advogado para entrar com ação.”

Ruralistas na contramão

Estudioso dos agrotóxicos, Pedlowski concorda com Tygel. O “hiper domínio da bancada ruralista” está atrasando o Brasil no debate sobre o glifosato. E o latifúndio e a economia brasileira podem tomar prejuízo em médio prazo.

“A Nestlé barrou o café do Espírito Santo pelo excesso de glifosato. No início de 2019, a Rússia sinalizou que faria o mesmo com a soja, caso o Brasil não reduzisse o uso de agrotóxico. A Europa já não compra soja para uso humano, só para alimentar animais. E há um grande movimento nos países escandinavos e na Alemanha contra a soja brasileira. Cedo ou tarde, o Brasil pode tomar uma moratória sanitária. Os ruralistas contam com a dependência mundial da soja nacional. Mas esquecem de que chineses e latifundiários brasileiros estão plantando soja em Moçambique”, alertou.

Em dezembro, a Anvisa concluiu a reavaliação toxicológica do glifosato. Manteve a permissão do uso, mas com restrições. Entre elas, adoção de tecnologia para reduzir a deriva (espalhamento das gotículas para além da área pulverizada. No mesmo mês, o governo de López Obrador determinou que até o final de 2024 o produto será banido no México.

Argentina, Uruguai e Costa Rica aprovaram medidas de redução de uso. A Alemanha quer banir até 2023. Em julho, a Áustria decidiu proibir o uso do produto por considerar cada vez mais robustas as evidências do potencial carcinogênico da substância. A França está em vias de aprovar nova legislação para redução seguida de banimento até 2023. Outros países, como Itália, Holanda e República Tcheca também têm restrições ao uso de herbicidas com o glifosato como princípio ativo.

Sinal verde

O produto tem sinal verde também do Ministério da Agricultura. Em janeiro, quando o governo de Jair Bolsonaro completou dois anos, sob seu mandato já haviam sido liberados 1.033 novos agrotóxicos, segundo levantamento de Pedlowski. Desse total, foram autorizados 22 pedidos para fabricação de novos produtos à base de glifosato. O princípio ativo só ficou atrás do fungicida Mancozebe, com 24 pedidos.

O agrotóxico mais usado no Brasil tende a ganhar ainda mais espaço. No último dia 5, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança atendeu pedido do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) para fazer experiências em campo com uma cana de açúcar desenvolvida geneticamente para resistir a pulverizações intensas de glifosato. Os testes serão feitos nos municípios paulistas de Piracicaba, Barrinha e Valparaiso. A cana é hoje a terceira cultura em termos de consumo de pesticidas (11%), ficando atrás da soja (48%) e do milho (13%).   

Hipocrisia da Bayer

Professor de Ecotoxicologia, Agroecologia e Cooperativismo no campus Viamão do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), o agrônomo Cláudio Fioreze considera “hipócrita” a oferta de tais acordos pela Bayer. “Pelo valor que eles pagaram na Monsanto (US$ 63 bilhões) o pelo que lucram com a venda do agrotóxico mais vendido no mundo, é uma hipocrisia fazer esse tipo de acordo, em que se reconhece haver o dano, quando se trata de um dano incalculável a longo prazo, um dano ecossistêmico”.

Entretanto, enxerga disputas com a justiça dos Estados Unidos um ponto de partida para mudanças. “Foram longas batalhas judiciais que levaram a legislações bastante restritivas aos cigarros. Antes se fumava dentro de todo lugar, na sala de aula, no taxi, no hotel. E hoje há propagandas expondo os males do tabagismo”, comparou.

Nesse sentido, defende, deveria ser adotada uma espécie de certificação negativa da produção de alimentos. “Hoje em dia, o ônus da certificação é de quem produz alimento ecológico, orgânico, limpo. Então os alimentos produzidos no modelo de agronegócio convencional, muitas vezes com uso de substâncias proibidas em outros países, teriam de trazer aviso na embalagem. Algo como esse produto foi produzido com agrotóxico X, que pode causar câncer, danos ao sistema nervoso”.

Edição: Fábio M Michel

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Monsanto pagou ao Google para censurar resultados de pesquisa e desacreditar jornalistas

A reportagem é de Cassie B., publicada por Rebelión, 12-10-2020. A tradução é do Cepat.

MONSANTO 1

Uma reportagem do The Guardian expôs como a Monsanto, agora propriedade da Bayer, funcionava como um “centro de fusão”, que reunia informações de inteligência sobre jornalistas que se atreviam a dizer a verdade sobre os seus produtos. Um de seus maiores alvos foi a jornalista da Reuters, Carey Gillam, que fez excelentes reportagens sobre os vínculos entre a Monsanto e o agrotóxico Roundup da Bayer, ao longo dos anos. Agora, trabalha como diretora de pesquisa do US Right to Know, outro alvo das investigações da Monsanto.

Segundo os relatórios, a empresa pagou ao Google para promover resultados de busca que criticavam seu trabalho quando as pessoas procuravam por termos como “Monsanto glifosato Carey Gillam”. A empresa também planejou uma estratégia para pressionar a Reuters, dizendo que precisavam “continuar pressionando os editores [de Gillam] sempre que haja uma oportunidade”.

Google to Block All Anti-Cancer, 'Anti-Vax' and Anti-GMO Websites at the  Browser Level - USAHITMAN Conspiracy News

Também lançaram um ataque planejado a um livro de Gillam, “Whitewash: The Story of a Weed Killer, Cancer, and the Corruption of Science“, pouco antes de seu lançamento, redigindo pautas para terceiros, que poderiam ser utilizadas para criticar seu trabalho e instruir agricultores e outros clientes da indústria sobre como publicar críticas negativas sobre o livro.

“Sempre soube que a Monsanto não gostava do meu trabalho … e trabalharam para pressionar os editores e me silenciar, mas nunca imaginei que uma empresa multibilionária gastaria tanto tempo, energia e equipe comigo. É espantoso”, disse Gillam ao The Guardian. Disse que o seu livro recebeu muitas críticas negativas na Amazon, logo após sua publicação oficial, muitas delas repetindo os mesmos argumentos.

A Monsanto guardou um arquivo com os nomes de cerca de 200 jornalistas e legisladores cuja influência espera conquistar. Também iniciaram uma investigação sobre o cantor Neil Young e escreveram um memorando sobre suas atividades contra a Monsanto em sua música. Estavam tão preocupados com sua influência sobre o público que fizeram sua equipe jurídica ficar de olho nele.

Embora algumas empresas tenham centros de inteligência que procuram ameaças criminosas legítimas, como ataques cibernéticos, “torna-se preocupante quando você vê que empresas usam seu dinheiro para investigar pessoas que estão participando em seus direitos contemplados na primeira emenda”, disse o pesquisador principal da Electronic Frontier Foundation, Dave Maass.

Os processos judiciais estão expondo a corrupção da Monsanto/Bayer

Esses atos da Monsanto foram revelados por documentos que vieram à tona durante os testes do agrotóxico mortal Roundup. Já foram declarados responsáveis em três casos relacionados ao câncer e mais de 11.000 ações judiciais de paisagistas, jardineiros e agricultores contra a Roundup estão em tramitação.

O glifosato, que é listado como cancerígeno pelo estado da Califórnia e considerado um provável cancerígeno pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial da Saúde, é usado em pelo menos 70 plantações de alimentos nos Estados Unidos, incluindo vegetais, frutos secos e frutas, além de ser pulverizado em lavouras convencionais como aveia, trigo e cevada, antes da colheita. Seu alcance é enorme e podem ser encontrados resíduos do produto químico em muitos dos alimentos vendidos e consumidos nos Estados Unidos.

Monsanto também pagou para pesquisadores escreverem e publicarem estudos fantasmas que deixassem esses produtos com uma percepção favorável. Também interferiram nas agências reguladoras e se recusaram a realizar estudos de segurança de longo prazo para seus produtos. Talvez se tivessem utilizado menos tempo e energia atacando seus críticos e mais tempo tornando seus produtos mais seguros, não estariam nesta posição agora.

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Este artigo foi retirada da página do IHU Online [Aqui!].

Bayer aceita pagar 10,9 bilhões de dólares às vítimas do herbicida Roundup

Gigante alemã encerra definitivamente dezenas de milhares de processos pelo pesticida da Monsanto, após passar anos negando que ele cause câncer

round upO herbicida Roundup em um supermercado da Califórnia, em 2017.MIKE BLAKE / REUTERS

Por Pablo Ximénez de Sandoval, de Los Angeles, para o El País

Bayer, gigante alemão do setor químico, aceitou um acordo para pagar 10,9 bilhões de dólares (58 bilhões de reais) para arquivar dezenas de milhares de ações judiciais relativas a casos de câncer supostamente provocados por um de seus pesticidas. A empresa calcula que o acordo afeta 75% dos atuais queixosos, estimados em 125.000, e 95% dos casos que chegariam a julgamento. Em apenas dois anos, as ações contra o herbicida Roundup deixaram de ser uma mera curiosidade em um tribunal de San Francisco para se tornar uma confusão jurídica que ameaçava derrubar o valor de mercado da Bayer.

Nesse período, foram se acumulando precedentes que indicavam um risco importante para a Bayer caso ela insistisse em continuar lutando para defender a segurança de seus pesticidas. No centro do caso se encontra o glifosato, o princípio ativo dos pesticidas Roundup e Ranger Pro. O primeiro é o pesticida de uso comum mais vendido do mundo.

O glifosato foi desenvolvido pela Monsanto na década de 1970. Não existem provas definitivas de que esse herbicida provoque câncer ―autoridades reguladoras dos EUA e Europa consideram que o produto é seguro, tal como está etiquetado. Entretanto, em 2015 a Organização Mundial da Saúde concluiu que era “provavelmente cancerígeno”. Os júris que já condenaram a Monsanto têm acatado a premissa de que a empresa ocultou os riscos do produto, embora não esteja totalmente provada sua relação direta com o câncer.

O acordo se divide em duas partes. Entre 8,8 e 9,6 bilhões de dólares servirão para indenizar a casos que estão em aberto, e outros 1,25 bilhão para potenciais novos casos. Em um comunicado citado pela Reuters, a empresa afirma que o acordo não inclui nenhuma exigência de rotular o Roundup como cancerígeno. O mediador judicial Kenneth Feinberg afirmou à Reuters que 25.000 casos ficaram de fora do acordo, mas que espera que se incorporem nos próximos meses. Segundo Feinberg, o pacto assegura que não haverá novos julgamentos e que todos os principais advogados envolvidos assinaram o pacto.

A primeira sentença a favor de um demandante foi a de Dewayne Johnson, um jardineiro que utilizou durante anos o herbicida em seu trabalho no subúrbio de San Francisco. Johnson foi diagnosticado com um linfoma não-Hodgkins, e em 10 de agosto de 2018 uma juíza condenou a Monsanto a lhe pagar 289 milhões de dólares, uma quantidade descomunal para esse tipo de ação. O júri considerou que a relação entre o glifosato e o câncer estava provada e que, além disso, a empresa tinha conspirado para ocultá-la. Aquela indenização foi depois reduzida a 78 milhões, mas abriu a porta a dezenas de processos, que depois se tornaram milhares.

Em março do ano passado, um segundo júri chegou à mesma conclusão no caso de Edwin Hardeman, de 70 anos, outro morador de San Francisco com linfoma não-Hodgkins, que atribuía ao uso contínuo do Roundup. Àquela altura, havia 11.000 ações em todo o país. Em maio, outro júri voltou a pôr a Monsanto contra as cordas ao ditar uma indenização de dois bilhões de dólares para um casal que utilizou o Roundup durante décadas em seu jardim e, aos 70 anos, ambos padeciam de linfoma não-Hodgkins. A empresa continuou mantendo que seu produto estava corretamente etiquetado, mas nesse momento já era evidente que os júris estavam dispostos a acreditar nos autores das ações, e que o glifosato era um problema jurídico muito maior do que a Bayer havia previsto.

A empresa alemã herdou o problema quando absorveu a Monsanto, em meados de 2018, por 63 bilhões de dólares. A firma argumentava que o Roundup era seguro e que as ações apresentadas até então não representavam qualquer risco. Pouco depois, decidiu eliminar a marca Monsanto porque o nome estava tão desprestigiado que se tornara comercialmente prejudicial. 

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Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal El País [Aqui].

Acesso grátis ao Atlas do agronegócio transgênico no Cone Sul

Monoculturas, resistência e propostas dos povos

atlas

A introdução da soja transgênica no Cone Sul (e, quase simultaneamente, do milho transgênico) significou a imposição maciça de monoculturas em um vasto território, avançando a grande velocidade, como nunca havia acontecido na história da agricultura. Ao mesmo tempo, cresceu o uso do principal herbicida associado a essas culturas: o glifosato. Esse crescimento teve conseqüências dramáticas na saúde dos habitantes das comunidades próximas às produções, bem como nos solos e na biodiversidade. 

Neste atlas, desenvolvemos diferentes aspectos de um modelo que envolve a concentração de terras e a criminalização dos camponeses, a destruição de ecossistemas e economias regionais, o controle oligopolista do mercado por um punhado de empresas e o impacto do agronegócio nos corpos de mulheres.

Também abordamos as resistências, propostas e alternativas que surgem de dois modelos disputados: um que, baseado na agricultura industrial, tenta transformar a agricultura e nossos alimentos em uma mercadoria. Ao contrário de outro, que, com a ajuda de organizações camponesas, povos indígenas e agricultores familiares, busca recuperar a produção de alimentos saudáveis ​​para garantir o direito à alimentação, de mãos dadas com um modelo camponês de produção agroecológica.

Faça o download do ATLAS EM FOLHA ÚNICA Aqui!
FAÇA O DOWNLOAD DO ATLAS EM FOLHA DUPLA:  Aqui!

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Este material foi publicado originalmente em Espanhol pela Alianza Biodiversidad [Aqui!].

Intacta 2, a soja sob medida para suprir a China e para garantir os lucros fabulosos da Bayer

bayer intacta 2A multinacional alemã Bayer anuncia a aprovação pela China da soja Intacta 2 que é geneticamente modificada para tolerar os herbicidas Glifosato e Dicamba

A multinacional alemã Bayer (aquela vende desde veneno até remédio) acaba de anunciar que o “Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China (MARA) concedeu certificado de segurança para importação de soja Intacta 2 para uso em alimentos/ração”.  A Bayer acrescentou ainda que “a Intacta 2 passou por um longo processo de revisão e aprovação conduzido pelo governo Chinês e obter essa aprovação é muito importante para o lançamento da Plataforma Intacta 2 Xtend® no Brasil, previsto para a safra 2021/22″.

Pois bem, o que o anúncio da Bayer não trouxe foi a informação que a semente da soja Intacta 2 é tolerante aos herbicidas Glifosato e Dicamba, que obviamente a empresa produz em larga escala, e que estão passando por um processo de ampla restrição em outros países por seus efeitos danosos à saúde humana e ao meio ambiente.  Há que se lembrar que o Glifosato tem sido associado ao aparecimento do Linfoma Non-Hogdkin, enquanto que o Dicamba teve sua venda suspensa nos EUA por causa dos danos causados em outras culturas que estejam próximas dos cultivos de soja.

Com esse anúncio da Bayer também fica mais claro porque apenas em 2020, o Ministério da Agricultura comandado pela “Musa do Veneno”, Tereza Cristina (DEM/MS), aprovou quatro novos produtos contendo o Dicamba para serem vendidos no mercado brasileiro, sendo três deles fabricados primariamente por empresas sediadas na China. O interessante é que tudo isso acaba mostrando que a enxurrada de aprovação de agrotóxicos altamente perigosos que está sendo promovida pelo governo Bolsonaro visa garantir os lucros fabulosos de multinacionais como a Bayer do que uma suposta preocupação com a redução no nível de toxicidade e do custo dos agrotóxicos vendidos no Brasil.

Trocando em miúdos, com essa aprovação da Intacta 2, a China ganha dos dois lados: por um lado garante o suprimento de soja barata produzida no Brasil e, por outro lado, continua como a principal fonte de agrotóxicos altamente perigosos para abastecer o latifúndio agro-exportador brasileiro.  Já Bayer garante a manutenção de suas altíssimas taxas de lucro combinando a venda de uma semenda geneticamente modificada da qual detém os direitos de propriedade com o despejo no Brasil de agrotóxicos cuja venda está sendo restringida em outros países.

Enquanto isso no Brasil, o que teremos é o avanço do processo de envenenamento ambiental e da população brasileiro, bem como a expansão da franja de desmatamento em todos os nossos biomas florestais, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Isto sem falar de produtores agrícolas que tenham o azar de cultivar outros tipos de semente de soja que sejam sensíveis ao Dicamba.

A síntese desse processo em que o Brasil internaliza todos os ônus sociais e ambientais já se tornou conhecida pela máxima de “passar a boiada”.

Contaminação do Roundup é “inevitável”, mostra a primeira pesquisa mundial sobre glifosato

mapa global roundup

Este mapa, criado por cientistas australianos, mostra onde os solos estão contaminados pelo Glifosato. Fonte: Universidade de Sydney.

Por Jane McNaughton para o ABC

O Glifosato é o ingrediente ativo do herbicida Roundup, produzido originalmente pela Monsanto – uma empresa de alcance global agora pertencente à Bayer.

O mapa identifica a análise de risco ambiental e os determinantes de que as regiões mais afetadas da Austrália são o sudeste de Nova Gales do Sul e o centro-oeste de Nova Gales do Sul que continuam no noroeste de Queensland.

A região ocidental da Austrália também mostra várias regiões com risco médio, bem como partes do sul da Austrália e  da província de Vitória.

O principal autor do artigo, o professor associado do Instituto de Agricultura de Sydney, Federico Maggi, diz que o mapa se baseia em pesquisas complementadas por anos de estudo realizados em escala global.

“A razão pela qual produzimos o banco de dados é porque há uma falta de entendimento das moléculas usadas e da distribuição geográfica dos usuários”, disseram eles.

Isso ocorre quando as agências internacionais discutem o futuro do herbicida.

“A Comissão Européia está investigando se deve ou não estender a licença do Roundup, suspender ou proibí-la”, disse Maggi.

Na Austrália e no exterior, existem várias ações legais em andamento contra uma empresa de produtos químicos agrícolas por causa das alegações de que o Roundup causa câncer.

Mas Maggi disse que o júri ainda não decidiu se a substância é realmente um risco à saúde.

“A literatura científica é muito dividida entre aqueles que trazem evidências de que o Glifosato pode ter efeitos negativos, e aqueles que afirmam que não existem efeitos visíveis na saúde humana”, disse Maggi.

‘Está em todo lugar’

A pesquisa descobriu que o glifosato e subprodutos associados a este produto químico foram detectados na maioria do solo da Terra.

“Ele é encontrado em quase todos os lugares do mundo e é inevitável, porque encontramos ambientes que não foram expostos a essa molécula antes de ter uma capacidade muito baixa de degradá-la”, disse Maggi.

“Todas as terras cultivadas são atualmente afetadas globalmente por essas substâncias; mas a intensidade no uso deste produto químico é variável”, disse ele.

Mas o Dr. Maggi disse que alguns países têm contaminação em um nível muito mais perigoso.

round up 1O Tribunal Federal de São Francisco concluiu que o herbicida contendo glifosato era um fator importante no câncer de homem na Califórnia. (AP: Haven Daley)

“O que chamamos de ‘hotspots’ são Europa, China, Sudeste Asiático, América do Norte, um pouco na América do Sul e Austrália”, disseram eles.

Maggi disse que o subproduto do glifosato, o ácido aminometilfosfônico (AMPA), pode representar um risco maior, pois não parece se decompor, e seus efeitos na saúde humana e ambiental são desconhecidos.

“É venenoso para as plantas, pelo menos, e não sabemos muito sobre essa molécula”, disseram eles.

Maggie disse que a prevalência do produto químico foi encontrada principalmente em pastagens de soja e milho.

“Dada a quantidade de glifosato usada globalmente, é muito provável que encontremos a molécula do subproduto de forma ampla no ambiente”, disse ele.

O diretor do Instituto de Agricultura de Sydney, professor Alex McBratney,  disse que há algum tempo existem dados localizados e evidências anedóticas de contaminação por glifosato.

“Frequentemente ouvimos declarações gerais sobre quanto está sendo usado, mas esse [mapa] nos permite ver exatamente onde as coisas estão sendo usadas”, disse McBratney.

“Embora pensemos que o glifosato seja ecológico, existem alguns resíduos que estão se acumulando no solo – e não temos certeza se [esses resíduos] têm algum tipo de consequência ambiental.

round up 2Contaminação por glifosato na Austrália. (Fornecido: Universidade de Sydney)

“Eu certamente estou preocupado com o fato de que haja efeitos do uso de grandes quantidades de glifosato, e que desenvolvemos nosso sistema alimentar para usar grandes quantidades de glifosato”.

A “crescente resistência ao Roundup”

O Dr. McBratney disse que a indústria agrícola australiana precisa aumentar seus esforços para implementar táticas alternativas de controle de ervas daninhas.

“Estamos preocupados com isso, de um ponto de vista puramente ecológico, ter o suprimento de alimentos do mundo dependente do uso desse herbicida é uma rota bastante perigosa a seguir”, disseram eles.

“Precisamos de três ou quatro alternativas diferentes ao glifosato, não porque ele seja necessariamente inseguro para o meio ambiente, mas porque há um aumento na resistência a herbicidas.

“As culturas podem realmente tolerar o glifosato como uma forma de manejo de plantas daninhas que incentiva o uso excessivo do herbicida quando temos outras tecnologias disponíveis”.

round up 3As primeiras populações mundiais de rabanete resistente ao glifosato foram confirmadas pelo pesquisador da Australian Herbicide Resistance Initiative, Mike Ashworth. (Fornecido por: Grains Research and Development Corporation)

Mas o Dr. McBratney disse que, embora as ‘bandeiras vermelhas’ estivessem começando a surgir, o preço e a facilidade de aplicação relativamente barata dificultava  a transição do produto.

“É um pouco precário confiar em um único herbicida, e quanto mais cedo pudermos ter alternativas no campo para melhor”, disseram eles.

“A ironia é que  o Glifosato nos permite fazer agricultura que nos esforçamos para fazer, de preservar água e carbono, mas, ao fazer isso, nos colocamos em outro perigo – mais ecológico.

“Acho que as pessoas fizeram isso pelas razões certas – econômica e ambientalmente – mas as conseqüências podem não ser a que esperamos se não diversificarmos em breve”.

A aceitação dos consumidores está diminuindo

À medida que os clientes ficavam cada vez mais conscientes dos alimentos que consumiam, McBratney disse que os agricultores precisam se afastar de agrotóxicos.

“O maior perigo é a perda da confiança do público em usá-lo para a produção de alimentos”, disse ele.

“A licença social para o uso de agrotóxicos está desaparecendo e precisamos procurar alternativas.

“Eu apenas sinto que o meio ambiente e as disputas [em andamento] farão com que o Glifosato eventualmente não seja mais usado”.

round up 4Manifestantes participam de uma marcha de protesto contra a Monsanto em Paris em 2015 (Reuters: Mal Langsdon)

McBratney  afirmou ainda que a resposta provavelmente está em máquinas de alta tecnologia e no uso de inteligência artificial. “Há várias pessoas trabalhando nisso na Austrália, e vejo essas alternativas como o futuro para lidar com ervas daninhas em nossa agricultura”, disse ele.  “Modificando as próprias culturas ou usando mais tecnologias baseadas em informações para detectar ervas daninhas. “Depois de detectar a erva, você pode eletrocutá-la, cozinhá-la no vapor ou retirá-la, para que haja outras maneiras de lidar com esse problema”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal ABC da Austrália [Aqui!].

Jornal francês volta a denunciar uso abusivo de agrotóxicos no Brasil

soja agrtoóxicosColheita de soja na fazenda Morro Azul perto de Tangará da Serra, no Mato Grosso. Getty Images

Por Adriana Moysés para a RFI

O uso excessivo de agrotóxicos no Brasil continua em destaque na imprensa francesa. Na quarta reportagem de uma série dedicada ao desmatamento na Amazônia, o jornal regional Ouest France relata nesta segunda-feira (30) resultados de estudos científicos apontando o envolvimento do herbicida glifosato em abortos espontâneos e no aumento da mortalidade de recém-nascidos em áreas que concentram 80% da produção de soja no centro-oeste e sul do Brasil.

Jornal de maior tiragem da França, Ouest France cita a pesquisa publicada em fevereiro passado por Mateus Dias, Rudi Rocha e Rodrigo R. Soares, das universidades de Princeton (EUA), São Paulo e Columbia (EUA). O estudo colheu dados de áreas de cultura de variedades de soja geneticamente modificadas, fabricadas pela Monsanto, nas quais também foi associado um herbicida à base de glifosato, explica o diário.

“As populações de 1.119 municípios cercados por plantações de soja foram expostas direta ou indiretamente à molécula, seja por inalação no ar, pelo consumo de água ou de alimentos contaminados com glifosato. Nessas localidades, entre 2000 e 2010, houve uma alta da mortalidade infantil que aponta uma média de 557 mortes de recém-nascidos ou abortos espontâneos por ano”, reporta o diário francês. Outro estudo, realizado na Universidade do Piauí, demonstrou que 80% do leite materno recolhido em diferentes maternidades em duas regiões agrícolas do estado, distantes de 750 km uma da outra, continham glifosato ou outros perturbadores hormonais.

Doses excepcionais e arriscadas para a saúde

A reportagem do Ouest France, muito detalhada, mostra que três quartos das terras cultiváveis no Brasil são tratadas com agrotóxicos. Das 10 substâncias desse gênero mais utilizadas no país em 2016, quatro são proibidas na União Europeia. O glifosato é utilizado em larga escala no território brasileiro e em proporções muito maiores que o permitido na França. A legislação francesa prevê a utilização de apenas meio litro da substância por hectare, enquanto no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos e em outros países da região a proporção tolerada chega a ser 80 a 100 vezes superior.

No “Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, elaborado pela professora Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Geografia da USP, a reportagem do Ouest France encontrou outro dado preocupante, relacionando o glifosato a taxas de suicídio.

“No Paraná, de 3.723 casos de intoxicação recenseados no período de 2007-2014, 1.631 foram por tentativa de suicídio, ou seja, 40% do total. As mesmas proporções são encontradas nos estados de São Paulo (844 tentativas) e Minas Gerais (957). Pior ainda em Pernambuco, onde ocorreram 1.145 tentativas de suicídio num total de 1.545 intoxicações. (…) O fato de dispor de produtos agrícolas tóxicos facilita o suicídio. É um veneno ao alcance das mãos.”

A reportagem relata ainda a indignação da ONU depois de o presidente Jair Bolsonaro liberar o uso de centenas de agrotóxicos. “O relatório do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU lembra que o Brasil utiliza maciçamente moléculas proibidas em várias regiões do mundo e em doses excepcionalmente elevadas: enquanto a taxa máxima recomendada de glifosato por litro de água potável é de 0,1 miligrama, no Brasil ela é 5.000 vezes maior.”

Um leitor atento compreende facilmente por que a imagem da agricultura brasileira é péssima na França.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

Amazônia sob ataque furioso: latifundiários sojeiros querem fim da “moratória da soja”

moratória da sojaLatifundiários querem o fim da “moratória da soja” que desde 2006 vem organizando o uso de terras amazônicas para cultivos de soja

Depois do fim da proibição dos grandes plantios de cana de açúcar na Amazônia e no Pantanal, os setores mais atrasados do latifúndio agro-exportador querem acabar com a chamada “moratória da soja” que, em tese, impede a implantação da monocultura de soja em áreas recentemente desmatadas nos biomas amazônicos. É que nos informa hoje o jornal Valor Econômico em uma matéria intitulada “Governo e agricultores unem forças contra moratória da soja na Amazônia“. 

A matéria assinada pelos jornalistas Marcela Caetano, Luiz Henrique Mendes e Camila Souza Ramos informa que sob os auspícios de uma tal de “Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), apoiada pelo governo Bolsonaro, uma ação será impetrada no  Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra as tradings agrícolas que são encarregadas de fazer observar a “moratória sa soja“.

Primeiro, é importante notar que a moratória da soja é o nome que se deu ao pacto firmado entre as entidades representativas dos produtores de soja no Brasil, ONGs  ambientais e, mais tarde, do próprio governo federal, prevendo a adoção de medidas contra o desmatamento da Amazônia, e que vem sendo supostamente observada desde 2006.

Eu disse supostamente observada porque sou o co-autor de um artigo na revista Acta Amazônica onde estudando a dinâmica da monocultura da soja em Rondônia se verificou que o alcance da moratória da soja é mais limitado do que a propaganda em torno dela permite acreditar. 

Expansão da área plantada com monocultura de soja em Rondônia (2000-2014) indicou a presença de plantios em áreas recentemente desmatadas

Mas o fato é que ruim com a “moratória da soja”, muito pior sem ela. É que sem essa trava mínima, o campo de forças que opera nas terras já desmatadas na Amazônia será alterado e, muito provavelmente, causará uma aceleração do desmatamento. A verdade é que as diversas monoculturas que estão tendo suas áreas plantadas aumentadas (por exemplo: cana, soja e algodão) acabam deslocando para outros pontos a atividade pecuária, principal “consumidora” de áreas cobertas por florestas nativas.

soja 1Opção preferencial pelos mercados asiáticos para venda da soja produzida na Amazônia aparece como estratégia para escapar dos mecanismos de proteção ambiental

Assim, ao pressionar pelo fim da “moratória da soja”, o que a Aprosoja Brasil e o governo Bolsonaro pretendem de fato é aumentar a área desmatada. Esta é a verdade inescapável de mais esse movimento contra a proteção ambiental dos biomas amazônicos.

Um erro fatal (mais um, aliás) que está sendo cometido nesse processo de extinção de proteções ambientais apareceu na declaração do presidente da Aprosoja Brasil,  Bartolomeu Braz que, menosprezando as punições que podem advir pelo rompimento da “moratória da soja, disse não temer as retaliações europeias porque “nosso mercado hoje é majoritariamente o asiático. A demanda europeia é irrisória. Além disso, quem tem soja somos nós. Quero saber se existe soja mais sustentável que a nossa”.  O erro aqui é acreditar que os europeus e suas tradings não possuem relevância na circulação da soja brasileira mesmo para os mercados asiáticos.

Outro aspecto que continua sendo aparentemente desprezado é a possibilidade cada vez mais concreta de que a soja brasileira passe por um embargo mundial por causa do excesso de agrotóxicos, a começar pelo herbicida Glifosato. Lembremos que em janeiro de 2019, a Rússia informou ao Brasil que se não houvesse uma diminuição do total de resíduos de Glifosato, o país pararia as importações de soja brasileira. De lá para cá, desconheço qualquer medida para atender a demanda russa. Por outro lado, a Anvisa agiu para facilitar ainda mais o uso do Glifosato no Brasil ao rebaixar o seu nível de toxicidade.

O crucial aqui é que somadas todas as ações tomadas e em vias de serem tomadas pelo governo Bolsonaro e seus aliados paroquiais dentro do latifúndio agro-exportador, o que estamos presenciando é uma tentativa de desmontar completamente todas as estruturas de governança colocadas em funcionamento para proteger a Amazônia e o Cerrado. Esta é a verdade mais óbvia de todas essas ações.  A aposta é que o resto do mundo assistirá a isso de forma passiva e não reagirá ao aumento da perda de biodiversidade e das emissões de gases estufa por causa do aumento do desmatamento amazônico, sem que ocorram prejuízos nas relações comerciais. Resta saber se a mão brasileira terá cartas suficientemente boas para segurar esta aposta.