Por causa das implicações cancerígenas do Glifosato, Bayer é atingida com veredito de US$ 2 bilhões nos EUA

Logotipo da Bayer AG em uma fábrica da fabricante farmacêutica e química alemã em Wuppertal, Alemanha

Logotipo e bandeiras da Bayer AG são fotografados do lado de fora de uma fábrica da fabricante farmacêutica e química alemã em Wuppertal, Alemanha, em 9 de agosto de 2019. REUTERS/Wolfgang Rattay/Foto de arquivo

Por Agência Reuters

BERLIM, 22 de março (Reuters) – Bayer (BAYGn.DE)foi condenada por um júri no estado americano da Geórgia a pagar cerca de US$ 2,1 bilhões a um autor que alegou que o herbicida Roundup da empresa causou seu câncer, disseram os escritórios de advocacia do autor na última sexta-feira.

O veredito, do qual a Bayer disse no sábado que iria apelar, é um dos maiores acordos legais emitidos em um caso relacionado ao Roundup e é o mais recente revés para o grupo, um dos maiores fabricantes de sementes e agrotóxicos do mundo.

A Bayer pagou cerca de US$ 10 bilhões para resolver alegações contestadas de que o Roundup, baseado no herbicida glifosato, causa câncer. Mais de 60.000 outros casos estão pendentes para os quais o grupo reservou US$ 5,9 bilhões em provisões legais.

O grupo farmacêutico e de biotecnologia alemão adquiriu o Roundup como parte de sua aquisição de US$ 63 bilhões da empresa agroquímica norte-americana Monsanto em 2018.

O veredito da Geórgia inclui US$ 65 milhões em danos compensatórios e US$ 2 bilhões em danos punitivos, de acordo com uma declaração enviada por e-mail à Reuters pelos escritórios de advocacia do autor, Arnold & Itkin LLP e Kline & Specter PC.

A Bayer disse em um comunicado que discordava do veredito do júri, pois ele entrava em conflito com o peso esmagador das evidências científicas e o consenso dos órgãos reguladores e suas avaliações científicas em todo o mundo.

“Acreditamos que temos fortes argumentos na apelação para anular esse veredito e eliminar ou reduzir as indenizações excessivas e inconstitucionais”, afirmou.

Ele disse que os danos em casos que chegaram a julgamentos finais foram reduzidos em 90% no geral em comparação com as sentenças originais do júri.

No início deste mês, a Bayer informou aos legisladores dos EUA que poderia parar de vender o Roundup a menos que eles reforçassem a proteção legal contra litígios de responsabilidade pelo produto, disse à Reuters um analista financeiro e pessoa próxima ao assunto.


Fonte: Agência Reuters

Glifosato contamina com agrotóxico até alimentos vendidos como saudáveis, mostra relatório do Idec

Pesquisa do Idec surpreende ao mostrar que até os chamados plant-based têm veneno

O duplo perigo dos ultraprocessados já é conhecido, mas os dados continuam alarmantes. O IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) lançou o terceiro volume da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote” e, mais uma vez, encontrou resíduos de agrotóxicos em produtos populares, muitos deles direcionados ao público infantil, como bolos prontos e bebidas lácteas.

A novidade deste estudo foi a análise de produtos plant-based, itens naturais, vegetais e mais especificamente, feitos de plantas e  vendidos como alternativas “saudáveis e sustentáveis”.

O resultado, no entanto, não condiz com a promessa: duas das três marcas de hambúrgueres vegetais continham resíduos de agrotóxicos, e todas as três marcas de empanados de frango vegetais apresentaram a mesma contaminação.

Assim como nas edições anteriores, o glifosato foi o agrotóxico mais identificado nas amostras analisadas. Essa substância, amplamente utilizada na agricultura, está associada ao desenvolvimento de câncer e é proibida em diversos países. Ele apareceu em 7 das 24 amostras analisadas.

Produtos à base de trigo, ingrediente comum em ultraprocessados, frequentemente apresentam resíduos desse agrotóxico. “Farinha de trigo, ingrediente encontrado na crosta dos empanados, no biscoito maisena e no macarrão instantâneo, continua sendo um ingrediente com alta prevalência de contaminação por agrotóxicos”, informa a pesquisa.

Impacto para os consumidores 

A presença de agrotóxicos em alimentos industrializados preocupa especialistas em segurança alimentar e saúde pública. O consumo excessivo desses produtos pode levar a doenças crônicas e expor crianças a substâncias prejudiciais desde a primeira infância.

Na avaliação do Instituto, além disso, a contaminação em produtos plant-based levanta questionamentos sobre a regulação e o controle desses alimentos, que muitas vezes são comercializados como alternativas mais saudáveis.

Para auxiliar os consumidores na escolha de produtos mais seguros, o IDEC disponibiliza gratuitamente uma cartilha com informações detalhadas sobre os riscos dos agrotóxicos em alimentos ultraprocessados e alternativas mais saudáveis. O material pode ser baixado mediante cadastro no site do instituto.

Para baixar a pesquisa completa, clique [Aqui!].


Fonte: Campo Grande News

Uso do glifosato impacta negativamente o desenvolvimento de bebês, aponta estudo

Aumento de agricultores que pulverizam glifosato está correlacionado com queda no peso de bebês no momento do nascimento, mostra estudo

A soja Round-up Ready tolera o herbicida glifosato e levou a um aumento maciço em seu uso. Jim West/Alamy

Por Erik Stokstad para a Science

Bebês em condados rurais dos Estados Unidos que usam glifosato, um herbicida comum nascem um pouco mais cedo e abaixo do peso , segundo um grande estudo. Essas mudanças, embora pequenas em média, podem resultar em deficiências de aprendizagem e um risco aumentado de infecção, relataram pesquisadores na semana passada no Proceedings of the National Academy of Sciences , resultando em mais de US$ 1 bilhão em custos de assistência médica em todo o país a cada ano.

É um estudo “muito convincente e rigoroso”, diz Eyal Frank, um economista ambiental da Universidade de Chicago que não estava envolvido. Para as crianças mais vulneráveis, em grupos historicamente desfavorecidos, o efeito foi significativamente maior. “Essa é a descoberta mais alarmante”, ele diz. Ainda assim, Frank e outros observam que a pesquisa não pode provar que o produto químico conhecido como glifosato é o culpado. Por um lado, o estudo não mediu diretamente a exposição individual ao ingrediente ativo do herbicida.

Mais de 127.000 toneladas de glifosato são pulverizadas em campos dos EUA a cada ano, e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras dizem que é seguro usar com as devidas precauções. Mas algumas pesquisas sugerem que o glifosato pode interromper os hormônios reprodutivos em animais de laboratório. Em pessoas, um pequeno estudo em 2018 relacionou a exposição ao glifosato a uma gravidez ligeiramente mais curta.

Edward Rubin, economista ambiental da Universidade do Oregon, e o estudante de pós-graduação Emmett Reynier decidiram dar uma olhada ampla no efeito do glifosato. Com a introdução da soja geneticamente modificada para tolerar o glifosato em 1996, os agricultores puderam pulverizar o herbicida sem prejudicar suas plantações. Isso permitiu o controle barato e fácil de todos os tipos de ervas daninhas sem arar, o que corrói o solo. Nos anos seguintes, as plantas de milho e algodão tolerantes ao glifosato também passaram a dominar as terras agrícolas dos EUA.

Para procurar efeitos em bebês, Rubin e Reynier analisaram dados sobre tempo de gestação e peso ao nascer de mais de 10 milhões de bebês nascidos entre 1990 e 2013 em condados rurais. Eles compararam os dados de nascimento com quantidades estimadas de glifosato e outros agroquímicos pulverizados por quilômetro quadrado nos condados, publicados pelo US Geological Survey.

O baixo peso ao nascer é um importante preditor de problemas de saúde, como atraso no desenvolvimento cognitivo, e aumenta o risco de infecção e doenças não transmissíveis, como diabetes e doenças cardiovasculares.

Entre 1990 e 1996, não houve diferença no peso ao nascer ou na duração da gravidez entre os condados, descobriu a equipe. Depois que as culturas biotecnológicas chegaram ao mercado, no entanto, o peso ao nascer começou a cair em condados onde mais culturas biotecnológicas são cultivadas e pulverizadas com glifosato. Em 2005, os bebês nascidos em condados dominados por milho, soja e algodão biotecnológicos pesavam em média cerca de 30 gramas a menos do que aqueles nascidos em condados rurais que cultivam principalmente outros tipos de culturas nas quais o glifosato não é usado. Os bebês também nasceram 1,5 dias antes em lugares onde o glifosato era comum.

A quantidade de dados permitiu que os cientistas descartassem a possibilidade de que mudanças em outros herbicidas e agroquímicos estivessem em ação. Eles também consideraram outras possíveis influências no peso do bebê ao nascer, como o impacto do desemprego.

A mudança média no peso ao nascer — um pouco menos de 1% de declínio — é relativamente pequena. Mas Rubin observa que ela cancela o aumento do peso ao nascer visto em bebês quando suas mães recebem benefícios alimentares do governo que visam melhorar a saúde infantil, um programa que custa bilhões de dólares a cada ano.

Rubin e Reynier também estimaram os custos de saúde ao longo da vida do nascimento prematuro, incluindo cuidados pós-natais, educação especial e menores ganhos na idade adulta. Os custos gerais de saúde da redução média de 0,6% no tempo de gestação associada à exposição ao glifosato chegam a cerca de US$ 1,1 bilhão anualmente. Essa estimativa é “realmente nova e útil”, diz Carly Hyland, cientista de saúde ambiental da Universidade da Califórnia, Berkeley.  

A injustiça ambiental também está em jogo, diz Rubin. Filhos de pais negros ou solteiros tinham mais de 60 vezes mais probabilidade de ter baixo ou muito baixo peso ao nascer, com quase o dobro de redução de peso. “Isso sugere alguns efeitos realmente grandes”, diz Rubin.

Alguns estudos encontraram danos mais severos em outros países. Dois artigos publicados em 2023 encontraram taxas mais altas de mortalidade infantil e câncer infantil em áreas agrícolas no Brasil, onde as taxas de aplicação de glifosato são duas vezes maiores que nos EUA.

Cynthia Curl, cientista de saúde ambiental e epidemiologista da Boise State University, diz que “uma limitação importante” do estudo dos EUA foi sua dependência do uso de glifosato em todo o condado, em vez de dados de exposição individual. “Gosto de ver medições na mãe durante a gravidez”, acrescenta Lynn Goldman, pediatra e epidemiologista da George Washington University.

No entanto, os novos resultados devem preocupar os reguladores, diz Goldman. “A EPA definitivamente precisa analisar isso.” A segurança dos pesticidas aprovados deve ser reavaliada a cada 15 anos; a EPA atrasou sua revisão do glifosato e agora espera concluí-la no ano que vem. No entanto, a administração do presidente Donald Trump pode adiar ainda mais a revisão.

 

Fonte: Science
 

O tsunami de venenos continua: governo Lula liberou mais 73 agrotóxicos no primeiro dia útil de 2025

Celebrada neste 11 de janeiro, data foi instituída em 1990; ministério aprovou, ao todo, 77 insumos agrícolas em janeiro

agrotóxicos BSB
 
Protesto contra as mudanças na lei de agrotóxicos, em outubro de 2023, em Brasília. – Evaristo Sá/AFP
 
Por Leonardo Fernandes para o Brasil de Fato

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) começou 2025 com a liberação de 73 novos insumos para uso agrícola, entre os quais, 44 de formulação química, os agrotóxicos, e outros 29 de origem biológica, os chamados bioinsumos. O Ato nº 63, de 30 de dezembro de 2024 foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) no dia 2 de janeiro, assinado por José Victor Torres Alves Costa, coordenador-geral de agrotóxicos e afins do Mapa. A medida vai na contramão da luta estabelecida pelo Dia do Combate à Poluição por Agrotóxicos. Celebrada neste 11 de janeiro, a data foi instituída em 1990, por decreto presidencial.

A liberação dos produtos envolve três órgãos da administração federal: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Mapa. À Anvisa compete fazer a classificação toxicológica, enquanto o Ibama monitora o potencial de periculosidade ambiental. Já ao Mapa cabe coordenar o processo, avaliar a viabilidade de uso na agricultura e decidir sobre a liberação do produto.  

Quanto ao nível de toxicidade para humanos, 42 produtos receberam a “Categoria 5 – Improvável de Causar Dano Agudo”, outros 12 receberam a “Categoria 4 – Pouco Tóxico” e cinco foram classificados como “Moderadamente Tóxico”, na categoria 3. Um produto recebeu a “Categoria 2 – Altamente Tóxico” e outro a “Categoria 1 – Extremamente Tóxico”. Sete produtos não receberam classificação toxicológica da Anvisa.  

Sobre o potencial de danos ao meio ambiente, 31 produtos receberam a “Classe IV – Pouco Perigoso ao Meio Ambiente”, outros 11 receberam a “Classe III – Perigoso ao Meio Ambiente”, 28 ficaram na “Classe II – Muito Perigoso ao Meio Ambiente”, e dois integraram a “Classe I – Altamente Perigoso ao Meio Ambiente”. 

 


Quantidade dos produtos liberados pelo Mapa no Ato Normativo nº 63 e suas classificações de periculosidade ambiental e toxicidade/Fonte: Ministério da Agricultura 

O inseticida Clorpirifós SM 480, com uso indicado para culturas de algodão, batata, café, citros, feijão, milho, soja, tomate rasteiro e trigo, é o produto que recebeu Categoria 2, como altamente tóxico, e Classe II, ou seja, muito perigoso ao meio ambiente. Estudos indicam que a contaminação por esse produto pode provocar distúrbios hormonais e problemas neurológicos irreversíveis, como diminuição de até 2,5 pontos de QI (Quociente de Inteligência) de crianças. Por conta disso, esse agrotóxico já foi banido em diversos países da União Europeia e nos Estados Unidos.  

O Ácido Diclorofenoxiacético (2,4-D ACID 866 SL) é um herbicida desenvolvido em 1940, indicado pelo Mapa para uso nas culturas de cana-de-açúcar, milho, soja e trigo. Ele é conhecido por ter sido usado como arma química na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1959-1975). Esse produto recebeu a Categoria 1 na classificação da Anvisa, como “extremamente tóxico”, e Classe III, segundo a classificação do Ibama, como “produto perigoso ao meio ambiente”. O agrotóxico está entre os produtos que foram derramados no Rio Tocantins após a queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), em 22 de dezembro do ano passado.

Também há liberação de novos produtos à base de glifosato, herbicida que diversas pesquisas apontam ter relação com incidência de cânceres, e que tem seu uso banido em alguns países europeus. No Brasil, em 2019, a publicação de um ato normativo pela Anvisa estabeleceu a reclassificação desse produto, que deixou de ser considerado “extremamente tóxico”, e foi classificado como “improvável de causar dano agudo”, no mais recente ato do Mapa. Segundo o documento do ministério, ele é indicado para uso em cultivos de algodão, arroz, café, cana-de-açúcar, citros, eucalipto, milho, pastagens, pinus, soja, trigo e uva.

Um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), intitulado Tem veneno nesse pacote, teve o segundo volume publicado em 2022, com foco nos alimentos de origem animal. Segundo o instituto, no Brasil, 63% dos agrotóxicos usados vão para a cultura da soja e quase 77% da soja produzida no mundo é usada para alimentação de animais para consumo humano, o que justificou o recorte. Dos 24 produtos analisados, 14 apresentaram resíduos de agrotóxicos, e o glifosato foi o que mais apareceu nas amostras estudadas, estando presente em nove dos 24 produtos. 

Larissa Bombardi, professora licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, lamenta as novas liberações, que vão na direção contrária do conhecimento acumulado em torno ao tema. “A gente já sabe, não se pode nem argumentar inocência, ignorância, ingenuidade, não. A gente sabe que novos casos serão gerados, que isso vai se multiplicar. É escolher o caminho da tragédia.”    

A pesquisadora é autora do livro Agrotóxicos e colonialismo químico, que trata do fenômeno da colonialidade do modelo agrário brasileiro que, segundo ela, é uma “das faces da construção socioterritorial do Brasil”, baseada na apropriação e concentração da terra. “A verdade é que ninguém jamais governou no Brasil sem estar atrelado de alguma forma com essa elite agrária que controla o país há 500 anos, antes de que o Brasil fosse Brasil”, destaca. “Os agrotóxicos são uma face de tantos outros elementos ambientais e de direitos humanos”, completa Bombardi.   


Larissa Bombardi, professora licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica  / Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Mapa ignora orientação do próprio governo 

“Não é possível que 80% dos agrotóxicos proibidos na Alemanha possam ser vendidos aqui no Brasil, como se a gente fosse uma republiqueta de bananas”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em reunião com os chefes dos Três Poderes, em setembro de 2024.  

Sobre esse aspecto, Bombardi recorre à história para novamente afirmar o princípio da colonialidade expresso no caso dos agrotóxicos banidos em países europeus. “Em 1848, Marx estava aqui na Bélgica, em Bruxelas, escrevendo o Manifesto Comunista. A Europa estava num momento de discutir as relações de trabalho. No entanto, companhias europeias comercializavam pessoas escravizadas. Que era algo impensável naquele momento na Europa. No entanto, as empresas lucravam com isso. E eu penso que é um paralelo feliz para entender esse momento e essa relação contraditória, colonial, que a gente continua reproduzindo, porque a União Europeia tem a regulação mais restritiva do mundo. Só que o bloco continua exportando substâncias que eles não toleram aqui.”   

Segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o país segue permitindo o uso de 195 agrotóxicos banidos, entre eles Mancozebe, Clorotalonil, Atrazina, Acefato, Clorpirifós, Imidacloprido, Carbendazim, Dibrometo de diquate, Metomil e Diurom.   

O presidente da República anunciou ainda que vai convocar reuniões com lideranças dos partidos, representantes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), empresários e membros da bancada ruralista no Congresso para discutir uma proposta que vise reduzir o uso de insumos químicos na agricultura brasileira. No entanto, o Ministério da Agricultura parece jogar contra a orientação do chefe do governo.

José Victor Torres Alves Costa, coordenador-geral de agrotóxicos e afins do Mapa, que assinou o ato de liberação dos novos produtos, já expôs, em outros espaços, firme posição em defesa do uso desses agrotóxicos e contrário a qualquer modificação na política de liberação, que mais que facilitar o uso desses produtos na agricultura brasileira, o incentiva.  

Em 5 de novembro, em audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a constitucionalidade da isenção fiscal aos agrotóxicos, o servidor do Mapa contrariou seus colegas de outros ministérios do governo presentes, naturalizando o modelo agrícola baseado no uso de insumos químicos. “O produtor rural só tem uma decisão a tomar: usar esse insumo ou não, sob pena de redução da capacidade produtiva de alimentos daquele sistema de cultivo”, argumentou.

Um relatório da Receita Federal apontou que somente as empresas que participam do mercado dos agrotóxicos ganharam mais de R$ 21 bilhões em renúncia fiscal no primeiro semestre deste ano. Sobre esse aspecto, Bombardi recorre novamente à teoria marxista, e afirma que o sistema de isenções atual segue os padrões dos tempos da chegada das caravelas portuguesas a solo americano.

“Toda vez que a gente tem uma isenção fiscal, que uma empresa é beneficiada com uma isenção fiscal, quer dizer que é o governo, a população como um todo, deixou de atender o bem comum para atender o interesse privado. Então o Brasil está reproduzindo uma lógica da acumulação primitiva em favor dessas grandes empresas, oligopolistas internacionais. A gente está dando de graça e, o mais cruel disso tudo, é que a gente está falando de substâncias que afetam o meio ambiente, a saúde humana. É a mesma coisa que as caravelas chegando e roubando ouro, saqueando a natureza etc. É um saque”, argumenta a pesquisadora.   

Em outra audiência pública, dessa vez na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, no dia 25 de novembro, que tratou da proibição dos agrotóxicos do tipo neonicotinoides, altamente nocivos a insetos polinizadores, o servidor do governo chegou a mencionar supostos estudos nos quais se demonstra que os insumos alternativos a esses produtos seriam mais prejudiciais ao ser humano.

Questionado pela representante do Ibama sobre tais estudos, o representante do Mapa recuou, afirmando que as informações haviam sido prestadas pelos “próprios produtores”. O representante do Ministério da Agricultura defendeu o uso de agentes químicos na agricultura brasileira, sob o argumento de que sua proibição poderia ter impacto econômico aos produtores e à economia.


José Victor Torres Alves Costa, coordenador-geral de agrotóxicos e afins do Mapa, assinou o ato de liberação dos novos produtos  / Vinícius Loures/Câmara dos Deputados

Apesar do esforço do Mapa na defesa do modelo agrícola baseado no uso de agrotóxicos, após sete anos de crescimento contínuo, 2023 registrou uma queda de 15% em relação a 2022 na liberação de novos produtos, passando de 652 para 555 no primeiro ano do atual governo, números ainda considerados altos pelos ativistas.  

Mudanças na lei deu superpoderes ao Mapa 

“O ritmo está acelerado, como se fosse mesmo um cartório que só vai passando e carimbando. Nenhuma possibilidade de reversão à vista”, avalia Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Ele explica que a metodologia para a avaliação e autorização do uso desses produtos foi alterada pela lei dos agrotóxicos (Lei nº 14.785), aprovada em dezembro de 2023 pelo Congresso Nacional e sancionada com vetos pelo presidente Lula.    

“Pela lei antiga, primeiro se decidia se o produto entrava nos critérios proibitivos da lei antiga, como incidência de câncer, mutagênese, teratogênese, desregulação endócrina. Se não entrasse nesses critérios, aí era aprovado e recebia uma das classes que existem. A classificação toxicológica, que é feita pela Anvisa, e ambiental, feita pelo Ibama, é sobre produtos que já foram aprovados para uso. Ou seja, não importa se um produto for altamente tóxico ou muito perigoso, isso só vai impactar nas restrições de uso”, explica. “Pela nova lei, Anvisa e Ibama são consultados, mas perdem o poder de veto. Então, em tese, mesmo que o Ibama dissesse que não pode, o Mapa poderia autorizar”, finaliza. 

O alerta sobre as modificações no processo de aprovação dos agrotóxicos na nova lei, aprovada em 2023, já havia sido objeto de uma nota técnica da Abrasco, enquanto o projeto ainda tramitava no Congresso Nacional.

“Outra alteração preocupante, é facilitar o registro de agrotóxicos mutagênicos, cancerígenos, teratogênicos, desreguladores hormonais e tóxicos para o sistema reprodutivo. Na lei de 1989, hora substituída pelo PL 1.459/22, esses agrotóxicos perigosos eram proibidos na primeira etapa da ‘avaliação do risco’. Neste cenário, os agrotóxicos cancerígenos, tóxicos para o sistema reprodutivo poderão seguir o processo de ‘avaliação de risco’, que estabelece níveis permissíveis (níveis aceitáveis) de exposição”, diz o documento. 

Tamara Andrade, especialista em regulação do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, critica a concentração de poderes em um único órgão federal sobre um tema que afeta diretamente a saúde da população e o meio ambiente. Segundo ela, isso torna as decisões sobre liberações desses produtos mais permeável aos interesses de um mercado.   

“Até que o Pacote do Veneno fosse aprovado e entrasse em vigor, o atendimento às diretrizes e exigências dos órgãos federais da agricultura, da saúde e do meio ambiente era condição obrigatória para liberar determinado agrotóxico. A nova lei retirou da Anvisa e do Ibama qualquer ingerência sobre a decisão de conceder ou não o registro de agrotóxicos. Na prática, é exclusivamente o Mapa que detém o poder de aprovar ou não agrotóxicos no Brasil”, avalia Andrade.   

Em nota, o Ibama afirmou que “não há qualquer flexibilização quanto ao rigor técnico empregado nas análises realizadas” pelo instituto, que “tem empenhado esforços significativos para aprimorar a sua avaliação ambiental adaptada à realidade brasileira e em linha com as melhores práticas regulatórias internacionais”. 

“Essa avaliação é feita de modo a impedir que produtos dotados de características proibitivas sejam produzidos, importados, exportados, comercializados e utilizados no Brasil, e a fim de contribuir para a utilização mais segura e com menor impacto ao meio ambiente e a organismos da fauna e flora”, diz o comunicado. 

O Ibama minimizou o alto número de produtos liberados nos últimos anos, e informou que apenas 38% dos produtos que tiveram o registro aprovado em 2023 foram de fato produzidos ou comercializados. “Isso acontece porque a grande maioria dos produtos registrados no Brasil são genéricos ou idênticos a outros já lançados no mercado, com a diferença apenas de uma marca comercial nova”, conclui a nota. 

Já a Anvisa, afirmou em nota que a concessão de registro desses produtos, que não tem prazo de validade, prevê a reanálise, sempre quando há uma indicação de perigo ou risco à saúde humana, ao meio ambiente, ou mesmo pela ineficácia na utilização. “A reanálise é o processo no qual a Anvisa revisa os parâmetros de segurança para a saúde humana de um determinado ingrediente ativo e dos agrotóxicos registrados, podendo culminar na manutenção de um produto no mercado, na imposição de restrições específicas ou o seu banimento”, afirma o órgão, que informou ainda que desde 2006, a agência finalizou 20 reavaliações de ingredientes ativos de agrotóxicos.

Segundo a Anvisa, como resultados dessas reavaliações, foram proibidos 13 ingredientes ativos de agrotóxicos, sendo eles, o carbendazim, cihexatina, carbofurano, endossilfam, forato, lindano, metamidifós, monocrotofós, paraquate, parationa metílica, pentaclorofenol, procloraz e triclorfom. Para outros seis ingredientes ativos reavaliados, ainda que os registros tenham sido mantidos, foram estabelecidas restrições com o objetivo de mitigar os riscos identificados, a saber, o 2,4-D, abamectina, acefato, forsmete, glifosato e tiram.

Sobre os agentes mencionados na reportagem, a Anvisa infromou que ambos foram indicados para reavaliação. “O 2,4-D teve sua reavaliação concluída em 2019 e o clorpirifós está presente na lista de agrotóxicos prioritários indicados para reavaliação publicada em 2019, ocupando a 5º posição”, diz o comunicado. “A reavaliação do ingrediente ativo 2,4-D foi concluída por meio da Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 284, de 21 de maio de 2019, com indicação de manutenção no registro, com restrições. As restrições incluem a observação de intervalos de reentrada para determinadas atividades, exigência de área de bordadura, exigência de tecnologias de redução de deriva, entre outras”, explica a Anvisa.

Programa de redução de agrotóxicos segue travado 

Em 2024, o Brasil de Fato noticiou sucessivos adiamentos de lançamento do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), devido à recusa do Ministério da Agricultura em aderir ao Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). O Planapo foi lançado em outubro, apenas com menção ao Pronara, e com a promessa de que o programa seria lançado até dezembro, o que ainda não aconteceu.

O atraso foi tema de análise pela organização internacional Humans Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos, em tradução livre), divulgada no último dia 3. O texto, assinado por Julia Bleckner, pesquisadora sênior da iniciativa de saúde global da entidade, alerta que o avanço no tema é urgente, já que o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo.  

“O Pronara, previsto em 2013 e nunca implementado, é mecanismo fundamental para o alcance desses objetivos. Diante das falas do presidente sobre a necessidade de reduzir o uso de agrotóxicos, movimentos sociais viram no Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro e, posteriormente, no Dia Mundial de Luta contra os Agrotóxicos, 3 de dezembro, oportunidades para a assinatura do decreto. Estas datas simbólicas passaram sem que o governo federal tomasse medidas efetivas na direção da agricultura sustentável”, afirma Andrade.  

Fontes do Planalto confirmam que o governo trabalha para lançar o Pronara no primeiro semestre de 2025. Para a especialista do Idec, a postura do governo em relação aos agrotóxicos é contraditória com as prioridades definidas pelo presidente da República. 

“Uma das prioridades de Lula é a erradicação da fome e a promoção da alimentação adequada e saudável. Acontece que é impossível garantir alimentação adequada e saudável quando se permite que os alimentos disponíveis estejam cheios de agrotóxicos, em quantidade e composição sabidamente prejudiciais à saúde. Isso se torna ainda mais grave quando as pessoas não têm acesso a informações disponíveis e confiáveis”, finaliza Andrade. 

Panorama do envenenamento coletivo 

Segundo estudo da Abrasco publicado em 2023, “o Brasil consome a maior quantidade de agrotóxicos do mundo por hectare plantado”, e o número vem crescendo nos últimos anos, tendo aumentado em torno de 45% entre 2013 e 2021.  

“O consumo mundial de agrotóxicos em 2020 foi de 2.661.124 toneladas, desse total, somente no Brasil foram utilizadas 685.745,68 toneladas, o que representa cerca de ¼ do consumo dos agrotóxicos utilizados no mundo todo”, diz nota técnica da associação, que alerta ainda para os efeitos dessa realidade na saúde da população.  

“Investigações evidenciam que os agrotóxicos são responsáveis diretos por cerca de 200 mil mortes a cada ano. A maioria dessas mortes ocorreram em países periféricos, vulneráveis e com sistemas reguladores e de saúde fracos no sentido da proteção da saúde frente às exposições a tais substâncias perigosas”, diz o texto. 

“A intensificação do uso de agrotóxicos no Brasil e a adoção do modelo agroindustrial de transgênicos associados ao consumo de agrotóxicos, especialmente de glifosato e 2,4 D, agravou sua situação sanitária e ambiental. O Brasil está mal monitorado pelas políticas públicas por força do lobby do agronegócio sobre os poderes executivo, legislativo e judiciário, que muito investe na desregulação e no desmonte do arcabouço legal e institucional estruturado no Estado brasileiro após a promulgação de sua Constituição Federal de 1988”, diz a nota. 

Ainda segundo estudo da Abrasco, para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos, são gastos US$ 1,28 no Sistema Único de Saúde (SUS) apenas com tratamentos de intoxicações agudas, sem levar em conta o alto nível de subnotificação dos casos. O cálculo também desconsidera os gastos em doenças crônicas, “aquelas que aparecem com o passar do tempo devido à exposição constante aos pesticidas, como o câncer”. 

“No fim das contas, o SUS não é quem arca com esses grandes custos das doenças crônicas. Então, obviamente que quando a gente fala de uma ampliação no número de substâncias utilizadas, quando a gente fala na autorização de substâncias, que estão sendo questionadas no mundo todo, que já foi é confirmado pela Organização Mundial da Saúde que algumas delas são cancerígenas, obviamente que a gente está impondo um quadro grave para a população de uma forma criminosa”, afirma Bombardi.     

Brasil de Fato procurou o Mapa para se manifestar, mas não obteve retorno a tempo da publicação desta reportagem.  

Edição: Martina Medina


Fonte: Brasil de Fato

Contestação à aprovação do Glifosato pela União Europeia chega ao Tribunal de Justiça Europeu

glifosato

Por Sustainable Pulse

A Pesticide Action Network (PAN) Europe e seus membros ClientEarth, Générations Futures, GLOBAL 2000, Pesticide Action Network Germany e Pesticide Action Network Netherlands contestaram a aprovação do glifosato pela União Europeia perante o Tribunal de Justiça Europeu.

As organizações apresentaram uma análise científica e jurídica robusta ao Tribunal de Justiça Europeu, destacando sérias deficiências na avaliação do glifosato na Europa, incluindo o fato de que a Comissão e as agências científicas da UE excluíram sistematicamente estudos científicos críticos relatando efeitos adversos causados ​​pelo glifosato, usando argumentos cientificamente infundados, ou minimizaram esses efeitos aplicando, por exemplo, metodologias estatísticas menos sensíveis e inadequadas.

De acordo com as ONGs, ao fazer isso, a CE e a EFSA violaram suas próprias diretrizes e protocolos internacionais e sua conclusão de que o glifosato é seguro é cientificamente infundada e resulta de uma avaliação de risco que não cumpre com os principais requisitos legais. Portanto, as ONGs estão solicitando a intervenção do Tribunal.

O herbicida amplamente utilizado tem sido associado a sérios riscos à saúde e ao meio ambiente, incluindo câncer, distúrbios reprodutivos e doenças neurológicas. Sendo reaprovado por 10 anos, ele continuará a ser usado extensivamente em toda a Europa. Cidadãos europeus, incluindo crianças, continuam amplamente expostos a essa substância.

Em janeiro de 2024, as ONGs solicitaram à Comissão que revisasse sua decisão de reaprovar o glifosato até 2033, pois ele não cumpre com as disposições da lei da UE e, particularmente, com o Regulamento (CE) 1107/2009. A legislação dá prioridade à proteção da saúde humana e do meio ambiente sobre a colocação de produtos pesticidas no mercado, como foi destacado anteriormente pelo tribunal da UE.

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Glyphosate: Europe divided by the world's most widely used pesticide |  Euronews

Em resposta, a Comissão rejeitou formalmente o pedido de revisão em setembro de 2024. Agora, as ONGs estão oficialmente entrando com uma contestação no Tribunal.

“As agências científicas da União Europeia (UE) estão contornando as regras para concluir que o glifosato é seguro. Vários estudos científicos, incluindo da própria indústria, claramente o vinculam a efeitos adversos sérios, como câncer e doenças potencialmente neurológicas”, diz Angeliki Lysimachou, chefe de ciência e política da PAN Europe.

“Ao usar intencionalmente métodos estatísticos menos sensíveis, desconsiderando evidências científicas críticas e negligenciando pesquisas inovadoras sobre o câncer, a UE está falhando em seu dever de proteger a saúde pública. Não podemos ficar em silêncio sobre essa questão – é uma questão de salvaguardar a saúde das gerações atuais e futuras.”

As ONGs se concentraram no que identificaram como as falhas mais significativas na avaliação de risco do glifosato pela UE. Sua análise revela uma avaliação incompleta da formulação representativa usada em campos europeus, sem toxicidade de longo prazo, carcinogenicidade e efeitos cumulativos. Elas também explicam a rejeição de evidências revisadas por pares em favor de estudos financiados pela indústria que minimizam evidências sobre genotoxicidade, neurotoxicidade e impactos ambientais. Além disso, as ONGs mostram como a avaliação da UE está desconsiderando os impactos do glifosato na biodiversidade e no microbioma e as implicações relacionadas à saúde. Essas descobertas juntas demonstram a clara violação do princípio da precaução ao aprovar o glifosato apesar de incertezas significativas e lacunas de conhecimento.

Antoine Bailleux, advogado da coalizão de ONGs, comenta: “É legítimo que a Comissão desfrute de alguma margem de manobra ao gerenciar riscos relacionados à aprovação de substâncias ativas usadas em pesticidas. No entanto, há limites para tal poder discricionário. É jurisprudência bem estabelecida que a avaliação de risco deve, por exemplo, cumprir com os princípios de excelência, transparência e independência. Acreditamos que a avaliação do glifosato não correspondeu a esses padrões de qualidade. É por isso que estamos indo ao Tribunal.”

Na sua análise da avaliação de risco da UE para o glifosato, as organizações apresentam ao Tribunal as seguintes conclusões importantes:

  • Preocupações levantadas por especialistas em neurotoxicidade foram ignoradas . Cartas obtidas pela PAN Europe por meio de uma solicitação de acesso a documentos revelam que cientistas alertaram a Comissão Europeia, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) e a Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) sobre as potenciais ligações do glifosato com a doença de Parkinson [ Carta 1 ] e neurotoxicidade do desenvolvimento – relevante para autismo e deficiências cognitivas em crianças [ Carta 2 ]. As cartas criticam as autoridades da UE por não refutar esses riscos.
  • A Comissão e a Agência Europeia de Produtos Químicos em sua  resposta, confiam fortemente na análise de câncer  feita por Kenny Crump, um consultor privado com um histórico de defesa de indústrias  ligadas ao chumbo, amianto e benzeno. Crump descarta todos os tumores induzidos por glifosato como “falsos positivos”, tentando minar a credibilidade da avaliação de outros cientistas, incluindo aqueles da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) da OMS.
  • Manipulação’ estatística : Costuma-se dizer que o diabo está nos detalhes. Isso não poderia ser mais verdadeiro no caso do glifosato. Avaliadores de risco da UE empregaram testes estatísticos em estudos de câncer com glifosato projetados para examinar potenciais efeitos terapêuticos, diminuindo o poder do teste. O professor de Biologia Ambiental Geert de Snoo (Universidade de Leiden, diretor de pesquisa na Academia Real Holandesa de Ciências e ex-membro da autoridade holandesa de pesticidas Ctgb) recentemente  chamou isso de “má ciência” e “estatísticas ruins” . Avaliadores de risco da UE também escolheram  uma abordagem que não foi projetada para examinar aumentos de dose-resposta em tumores em animais expostos ao glifosato, distorcendo ainda mais os resultados em favor do glifosato.
  • O IARC, em suas  recomendações de prioridades para 2025–2029 , revisou a literatura científica recente sobre glifosato e câncer e concluiu que as “ evidências existentes não parecem apoiar uma mudança na classificação ”. Como resultado, a classificação como ‘provavelmente cancerígeno para humanos’ permanece, enquanto a ECHA recusou essa classificação, construindo sua decisão sobre o que pode ser descrito como dados “manipulados”.

Linha de base

O glifosato tem sido uma fonte de controvérsia desde que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) o classificou como “provavelmente cancerígeno para humanos” em 2015. De acordo com a lei da UE, pesticidas com essa classificação de risco devem ser proibidos de usar. No entanto, as avaliações de risco da UE de 2017 e 2023 concluíram que o glifosato não apresenta riscos significativos à saúde, permitindo que ele continue sendo um dos herbicidas mais amplamente usados ​​na Europa e no mundo.

Essa discrepância levou vários especialistas e cientistas a investigar a toxicidade do glifosato e a avaliação realizada pelas agências da UE e pelo IARC. As deficiências da avaliação foram expostas em várias ocasiões.

Este desafio legal segue crescentes críticas públicas e científicas ao processo de avaliação de risco da UE. Em 2023, a Comissão renovou a aprovação do glifosato por 10 anos, apesar das preocupações generalizadas e da falha em atender aos altos padrões exigidos pela lei da UE sobre pesticidas. Após receber uma resposta insatisfatória à sua solicitação de revisão interna em setembro de 2024, a coalizão de seis ONGs decidiu escalar sua luta para o Tribunal de Justiça Europeu.


Fonte: Sustainable Pulse

Isenções fiscais para agrotóxicos deixam fatura para a saúde da população e o SUS

Inclusão das substâncias na lista de setores com menos tributos e adiamento de programa de controle impulsionam problema

Brasil é uma das nações que mais consomem agrotóxicos em todo o mundo – Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz)

Por Juliana Passos e Nara Lacerda para o Brasil de Fato 

O fim de 2024 chega com um banho de água fria para a luta pelo controle do uso de agrotóxicos em território nacional. Nesta semana, o Congresso Nacional aprovou a reforma tributária e incluiu os venenos agrícolas na lista de produtos beneficiados com 60% de redução de tributos, se forem registrados no Ministério da Agricultura. 

Outro exemplo emblemático da falta de progresso vem do executivo. O Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), em discussão desde 2014, foi adiado. Prevista para ser lançada neste mês, a política não saiu do papel. Há a expectativa de que o Pronara seja anunciado no primeiro semestre de 2025. 

O atraso foi tema de análise pela organização internacional Humans Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos, em tradução livre), divulgada no último dia 3. O texto, assinado por Julia Bleckner, pesquisadora sênior da iniciativa de saúde global da entidade, alerta que o avanço no tema é urgente, já que o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. 

Segundo o artigo, “embora o plano original tenha sido elaborado em 2014, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) o impediu repetidamente de avançar. A falha dos ministérios envolvidos em chegar a um acordo é um golpe para os cientistas, ativistas e agricultores familiares brasileiros que defendem o plano há mais de uma década”. 

Em entrevista ao podcast Repórter SUS, a pesquisadora Karen Friedrich, servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante do grupo de trabalho saúde e ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), afirma que o país não avançou nos últimos anos, principalmente levando em consideração o fato de que o governo federal está sob uma gestão de bases populares. Ela ressalta, no entanto, que o estrago começou bem antes

“Precisamos analisar não apenas os últimos dois anos, mas também o que os antecedeu. Durante os governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) tivemos a tramitação do pacote do veneno e vários atos infralegais, que não demandam nem consulta ao Congresso Nacional, flexibilizaram o uso de agrotóxicos. Esses atos, provenientes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Agricultura, permitiram que a liberação de agrotóxicos continuasse no governo Lula como era feita no governo Bolsonaro.” 

Enquanto o Brasil via a confirmação de que o plano de controle continuaria emperrado, uma pesquisa internacional reforçou os riscos do glifosato para o cérebro. A substância é usada em centenas de produtos vendidos no país.

O estudo, publicado no periódico Neuroinflammation, revelou que a exposição ao químico, mesmo em curto prazo, pode causar danos permanentes. A pesquisa, conduzida pela Universidade Estadual do Arizona e pelo Instituto de Pesquisa Genômica Translacional (TGen), mostrou que o glifosato se acumula no cérebro e pode desencadear processos inflamatórios associados a doenças neurodegenerativas.  

Outro alerta importante veio da Fiocruz e da Abrasco. Uma carta pública manifesta preocupação com a pulverização aérea de agrotóxicos com drones. As entidades argumentam que a prática coloca em risco a saúde de trabalhadores rurais, comunidades tradicionais e indígenas, além de contaminar o meio ambiente.  

“A pulverização aérea é uma das práticas mais nocivas que existem”, alerta Karen Friedrich. Ela ressalta que garantir a segurança desse tipo de prática depende de fatores muito diversos, como a quantidade dispersada, o tamanho das gotículas, o vento, a temperatura e outras condições de difícil controle. 

“As condições climáticas do país são muito diversas e mais ainda com o momento de crise e de colapso climático. Então, garantir a segurança é algo antiético. Não é possível dizer que é 100% seguro quando não é. Os mais atingidos são os trabalhadores da agricultura, suas famílias, quem mora nas áreas do entorno e povos e comunidades tradicionais, inclusive de maneira proposital. Além de tudo, agrotóxico no Brasil também é usado como arma química.” 

Na conversa com o podcast, Karen Friedrich aponta ainda que agrotóxicos recebem bilhões de reais em isenções fiscais anualmente. Segundo a pesquisadora, as vantagens contribuem para aumentar o problema do uso excessivo dessas substâncias no Brasil.  

Ela cita um estudo da Abrasco que demonstra que o Sistema Único de Saúde (SUS) gasta cerca de R$ 12 bilhões para tratar doenças causadas por agrotóxicos, enquanto o governo concede R$ 10 bilhões em isenções fiscais para a indústria de agrotóxicos. 

“Estamos discutindo a reforma tributária. Os agrotóxicos têm bilhões de reais em isenção todos os anos. Quando olhamos a relação do que é isento e dos gastos para tratar essas pessoas. Podemos até questionar a história de que o agronegócio é líder do Produto Interno Bruto [PIB]. Sabemos que, se botarmos na conta os problemas, eles vão ficar devendo”.
 

Edição: Martina Medina


Fonte: Brasil de Fato

Breve exposição ao glifosato pode causar danos duradouros ao cérebro, mostra estudo

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Por Sustainable Pulse 

A exposição ambiental a toxinas no ar, na água ou em certos produtos químicos pode aumentar o risco de efeitos nocivos à saúde, incluindo o cérebro humano. Agora, uma nova pesquisa mostrou que até mesmo uma breve exposição ao herbicida mais usado no mundo, o glifosato, pode causar danos duradouros ao cérebro, que podem persistir por muito tempo após o término de qualquer exposição direta.

No novo estudo, o pesquisador Ramon Velazquez, da Universidade Estadual do Arizona, e sua equipe demonstram que a exposição a um ingrediente ativo em herbicidas, chamado glifosato, pode resultar em inflamação cerebral significativa e aumentar o risco de doenças neurodegenerativas e efeitos semelhantes aos do Alzheimer.

“Nosso trabalho contribui para a crescente literatura que destaca a vulnerabilidade do cérebro ao glifosato”, diz Velazquez. “Dada a crescente incidência de declínio cognitivo na população idosa, particularmente em comunidades rurais onde a exposição ao glifosato é mais comum devido à agricultura em larga escala, há uma necessidade urgente de mais pesquisas básicas sobre os efeitos deste herbicida.”

A pesquisa  foi publicada no Journal of Neuroinflammation. Velazquez é pesquisador do ASU-Banner Neurodegenerative Disease Research Center no ASU Biodesign Institute e professor assistente da School of Life Sciences.

A equipe de Velazquez realizou o trabalho em colaboração com o Translational Genomics Research Institute, ou TGen, parte da City of Hope, e usou camundongos para modelar a exposição ao glifosato. Eles mostraram que os cérebros podem ser muito mais suscetíveis aos efeitos danosos do herbicida do que se pensava anteriormente. O glifosato é o herbicida químico mais comum usado no mercado global.

O estudo monitorou a presença e o impacto dos subprodutos do glifosato no cérebro muito depois do término da exposição, mostrando uma série de efeitos persistentes e prejudiciais à saúde cerebral.

A exposição ao glifosato também resultou em neuroinflamação, sintomas semelhantes aos do Alzheimer, morte prematura e comportamentos semelhantes aos da ansiedade, replicando outros estudos.

Os pesquisadores testaram dois níveis de exposição ao glifosato: uma dose alta, semelhante aos níveis usados ​​em pesquisas anteriores, e uma dose mais baixa que está próxima do limite usado para estabelecer a dose aceitável atual em humanos. Além disso, os cientistas descobriram que esses sintomas persistiram muito depois de um período de recuperação de seis meses em que a exposição foi descontinuada.

Essa dose menor ainda levou a efeitos nocivos nos cérebros dos camundongos, mesmo após a exposição cessar por meses. Enquanto os relatórios mostram que a maioria dos americanos é exposta ao glifosato diariamente, esses resultados mostram que mesmo um curto período pode potencialmente causar danos neurológicos.

Por outro lado, o estudo levanta sérias preocupações sobre a segurança do produto químico para populações humanas.

De acordo com os  Center for Disease Research , trabalhadores rurais, paisagistas e outros empregados na agricultura têm maior probabilidade de serem expostos ao glifosato por inalação ou contato com a pele. Além disso, as novas descobertas sugerem que a ingestão de resíduos de glifosato em alimentos pulverizados com o herbicida potencialmente representa um risco à saúde. A maioria das pessoas que vivem nos EUA foi exposta ao glifosato durante a vida.

“Minha esperança é que nosso trabalho impulsione uma investigação mais aprofundada sobre os efeitos da exposição ao glifosato, o que pode levar a um reexame de sua segurança a longo prazo e talvez gerar discussão sobre outras toxinas prevalentes em nosso ambiente que podem afetar o cérebro”, disse  Samantha Bartholomew , candidata a doutorado na ASU e primeira autora do artigo.

As descobertas da equipe se baseiam em  pesquisas anteriores da ASU  que demonstram uma ligação entre a exposição ao glifosato e um risco aumentado de distúrbios neurodegenerativos. O estudo anterior mostrou que o glifosato foi capaz de cruzar a barreira hematoencefálica, uma camada protetora que normalmente impede que substâncias potencialmente prejudiciais entrem no cérebro. Uma vez que o glifosato rompe essa barreira, ele pode interagir com o tecido cerebral e contribuir para a neuroinflamação e outros efeitos prejudiciais na função neural.

Os regulamentos atuais permitem o uso de pesticidas em plantações de alimentos. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA define uma tolerância ou limite sobre a quantidade de resíduos de pesticidas que podem permanecer legalmente em alimentos e rações. A EPA considera certos níveis de glifosato seguros para exposição humana, afirmando que o produto químico é minimamente absorvido pelo corpo e é excretado principalmente inalterado.

No entanto, estudos recentes, incluindo este, podem mudar essa percepção e levantar questões sobre os limites de segurança existentes e se o uso do glifosato é realmente seguro.

“Os herbicidas são usados ​​intensamente e onipresentemente em todo o mundo”, disse o coautor Patrick Pirrotte, professor associado da Divisão de Detecção Precoce e Prevenção do TGen, diretor do Integrated Mass Spectrometry Shared Resource do TGen e da City of Hope, e autor sênior do artigo.

“Essas descobertas destacam que muitos produtos químicos que encontramos regularmente, antes considerados seguros, podem representar riscos potenciais à saúde. No entanto, pesquisas adicionais são necessárias para avaliar completamente o impacto na saúde pública e identificar alternativas mais seguras”, disse ele.

“Nosso objetivo é identificar fatores ambientais que contribuem para a crescente prevalência de declínio cognitivo e doenças neurodegenerativas em nossa sociedade”, disse Velazquez. “Ao revelar tais fatores, podemos desenvolver estratégias para minimizar exposições, melhorando, em última análise, a qualidade de vida da crescente população idosa.”

O cérebro humano é um órgão incrivelmente adaptável, frequentemente capaz de se curar, mesmo de traumas significativos. No entanto, pela primeira vez, uma nova pesquisa mostra que até mesmo um breve contato com um herbicida comum pode causar danos duradouros ao cérebro, que podem persistir muito tempo após o término da exposição direta.


Fonte: Sustainable Pulse

Exposição ao glifosato pode levar à demência, mostra estudo

A exposição ao glifosato, presente nos herbicidas, ameaça a cognição e a lucidez, além de aumentar a ansiedade, mostram estudos. Os que correm mais riscos são os trabalhadores rurais e profissionais que atuam diretamente no campo

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Glifosato, amplamente usados, é pulverizado em plantações nas pesquisas com camundongos, surge concentrado em áreas específicas do cérebro, causando efeitos associados ao Alzheimer – (crédito: Gráfico por Jason Drees)

Por Isabella Almeida para o Correio Braziliense

O cérebro tem uma grande capacidade de adaptação. No entanto, uma nova pesquisa, liderada pela Universidade Estadual do Arizona e pela City of Hope, nos Estados Unidos, revela que até mesmo uma breve exposição a um defensivo agrícola comum pode causar danos cerebrais que persistem por um longo período. Os cientistas demonstraram, em camundongos, que o glifosato, um dos herbicidas mais comuns no mundo, promove uma inflamação significativa no sistema nervoso, associada a doenças neurodegenerativas.

O estudo, publicado no Journal of Neuroinflammation, identificou uma relação glifosato e sintomas de neuroinflamação em ratos, além de uma condição de neurodegeneração acelerada, semelhante ao que é observado na doença de Alzheimer, em humanos. Os pesquisadores rastrearam a presença e o impacto dos subprodutos do agrotóxico no cérebro, mesmo após o fim da exposição e identificaram uma série de efeitos persistentes que prejudicam a saúde neural.

Os camundongos submetidos ao herbicida também morreram prematuramente e apresentaram comportamentos semelhantes aos de ansiedade. No entanto, os cientistas ficaram surpresos ao notar que esses sintomas persistiram mesmo após um período de recuperação de seis meses.

A pesquisa mostrou também que um subproduto do glifosato —o ácido aminometilfosfônico —acumulou-se no tecido cerebral, levantando sérias preocupações sobre a segurança do produto químico para os seres humanos. “Nosso trabalho contribui para a crescente literatura que destaca a vulnerabilidade do cérebro ao glifosato”, afirmou Ramon Velazquez, cientista da Arizona State University. “Dada a crescente incidência de declínio cognitivo na população idosa, particularmente em comunidades rurais onde a exposição ao glifosato é mais comum devido à agricultura em larga escala, há uma necessidade urgente de mais pesquisas básicas sobre os efeitos deste herbicida.”

Para o trabalho, a equipe realizou experimentos com camundongos expostos a duas doses de glifosato: uma dose alta, similar aos níveis usados em estudos anteriores, e uma dose mais baixa, próxima do limite considerado seguro para humanos. Mesmo a quantidade menor causou efeitos nocivos no cérebro dos animais, desencadeando inflamação persistente no cérebro e no sangue, mesmo após a interrupção da exposição por meses.

Os dados indicam que a exposição ao glifosato pode resultar em danos neurológicos significativos, com inflamação prolongada que pode impulsionar a progressão de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

Efeitos adversos

Os experimentos foram realizados ao longo de 13 semanas, seguidos por um período de recuperação de seis meses. O principal metabólito do glifosato, o ácido aminometilfosfônico, foi detectado nos cérebros dos camundongos, tanto em camundongos normais quanto em camundongos modelos da Alzheimer. Mesmo com o fim da exposição, os efeitos adversos persistiram.

Conforme os autores, estudos como esse são importantes porque mostram que trabalhadores rurais e outros profissionais da agricultura têm maior probabilidade de ser expostos ao glifosato por inalação ou contato com a pele. Além disso, as descobertas indicam que a ingestão de resíduos em alimentos pulverizados com o herbicida pode representar um risco à saúde. De acordo com os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a maioria das pessoas nos Estados Unidos foi exposta ao glifosato em algum momento da vida.

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Dasa, destaca haver teorias que propõem que todo esse processo de neurodegeneração começaria com infecções por microrganismos, ou tem a ver com um processo inflamatório cerebral. “Há muito tempo se propõe que seja desencadeado pela exposição a toxinas, inclusive, metais pesados, ou outro tipo de materiais tóxicos. Agora vemos o glifosato, são resultados interessantes.

No entanto, Uribe pondera que ainda não é possível extrapolar os resultados do estudo para seres humanos. “Mas esse tipo de pesquisa é muito importante para abrir novas perspectivas, começar a investigar se realmente existe um efeito tóxico a longo prazo, e qual seria o tipo de exposição que desencadearia. Qual dose seria tóxica mesmo, uma série de coisas.”

Os pesquisadores reforçam a necessidade de mais estudos sobre os efeitos neurológicos do glifosato, já que as descobertas anteriores demonstraram que o herbicida atravessa a barreira hematoencefálica — camada protetora que normalmente impede que substâncias potencialmente prejudiciais entrem no cérebro. Após a travessia, o produto pode interagir com o tecido cerebral e contribuir para a neuroinflamação e outros danos na função neural.

“Essas descobertas destacam que muitos produtos químicos que encontramos regularmente, antes considerados seguros, podem representar riscos potenciais à saúde. No entanto, mais pesquisas são necessárias para avaliar completamente o impacto na saúde pública e identificar alternativas mais seguras”, frisou Patrick Pirrotte, autor sênior do estudo e pesquisador da City of Hope.


Fonte: Correio Braziliense 

Na Argentina, formas de violência lenta avançam a fronteira da soja e dos agrotóxicos venenosos

296776Nancy López é uma líder indígena. Seu neto nasceu de cesariana após uma reação de choque aos agrotóxicos. Foto de : Naomi Hennig

Por Naomi Hennig para o Neues Deutschland 

Há alguns anos, um anúncio da empresa de produtos químicos agrícolas Syngenta proclamava a “República Unida da Soja”, uma ficção nascida do imaginário do setor agrícola que parece tornar-se cada vez mais real com o passar dos anos. Estende-se por várias fronteiras nacionais no Cone Sul da América do Sul, a área ao redor do Trópico de Capricórnio. Desde a década de 1990, o feijão asiático tem desfrutado de uma marcha triunfante em toda a região. E com ele os intervenientes no pacote tecnológico associado: grandes empresas agrícolas, empresas químicas e de sementes, comerciantes agrícolas globais, investidores. Nos limites da república da soja, na região do Chaco, no noroeste da Argentina, que está ameaçada pelo desmatamento, o lado obscuro deste modelo de desenvolvimento é particularmente evidente.

Num dia quente e úmido de fevereiro – é verão no hemisfério sul e estação chuvosa no Chaco – encontro Isaías Fernandez e Nancy López, líderes indígenas dos pequenos assentamentos Wichí-Weenhayek de Quabracho e Oka Puckie, para uma entrevista. Algumas das cabanas de madeira parecem bastante danificadas depois de uma tempestade na noite anterior, mas as pessoas com quem falo permanecem impassíveis. Há coisas mais importantes para relatar. Agora, na época das chuvas, as empresas agrícolas locais começam a cultivar os campos. Para os moradores dos assentamentos, isso significa sofrer os efeitos nocivos dos agrotóxicos pulverizados nas plantações de soja vizinhas.

As duas comunidades se estabeleceram há anos ao longo da estrada arterial, na periferia da pequena cidade de Tartagal: 24 famílias em 95 hectares de terra. A comunidade vive num conflito permanente pelas suas terras – existe atualmente outro aviso de despejo e as pessoas estão gravemente ameaçadas de perder suas terras. A vida aqui é difícil, o dia a dia é caracterizado por muitos obstáculos. Como não há ligação de água potável, a água é transportada em recipientes plásticos. Se você olhar de perto poderá ver a caveira e o aviso “Veneno”. São latas de agrotóxicos recicladas que as fazendas vendem para as pessoas da região.

Pouco antes, houve outra campanha noturna de pulverização bem próximo ao assentamento. A filha grávida de Nancy sofreu convulsões e teve que ser levada ao hospital onde foi realizada uma cesariana. Seu filho nasceu como resultado de uma reação de choque aos agrotóxicos. Como será o futuro para um recém-nascido que vem ao mundo sob tais circunstâncias?

Isaías está ciente de que viver num ambiente tão poluído tem consequências para a saúde a longo prazo. Aqui e também no próximo assentamento maior, Misión Kilómetro 6, as pessoas relatam doenças tumorais, problemas respiratórios e de pele, além de nascimentos prematuros e abortos espontâneos. A certa altura, os moradores de Oka Puckie e Quebracho decidiram que já estavam fartos e confrontaram o motorista de um caminhão pulverizador que circulava no campo de soja ao lado, sob o manto da escuridão. O subcontratado, que nada sabia da existência do assentamento vizinho, teve uma ideia e desligou a máquina – por enquanto.

Hoje eles estão nos matando com papéis

A identidade da população indígena do Chaco foi moldada pela experiência histórica de colonização da Conquista Espanhola e posteriormente do Estado-nação argentino, explica Nancy. A incursão do agronegócio e o desmatamento associado na região levaram a numerosos conflitos sobre direitos de uso da terra e títulos de propriedade, chamados simplesmente de “papeles” (papéis) no jargão local. Ela descreve as expulsões e a precarização da população indígena como uma nova onda de colonização, como uma ameaça aguda: “Se você perde a floresta, você perde a sua cultura. Se as empresas vierem e derrubarem a floresta, perderemos tudo. Eles costumavam nos matar com armas – agora nos matam com papéis.”

A partir da década de 2000, durante o período do boom das matérias-primas e dos elevados preços do mercado mundial, a agricultura argentina expandiu-se para além da fértil região dos Pampas e levou a um desmatamento alarmante na região do Chaco, a norte. Os campos de soja consumiram áreas florestais que foram utilizadas pela primeira vez para a agricultura. Ocorreram cenas de destruição que, para muitos moradores do Chaco, representaram um apocalipse: escavadeiras, protestos e despejos. O fim da auto-suficiência local destruiu modos de vida e comunidades.

As duras condições desta região impediram que os espanhóis conquistassem todo o Chaco. Na época das chuvas tudo se transforma numa paisagem lamacenta, pequenas estradas rurais e estradas agrícolas tornam-se intransitáveis ​​e muitas aldeias e quintas ficam isoladas do mundo exterior. No verão, as temperaturas às vezes ultrapassam os 40 graus, o que torna impossível trabalhar ao ar livre. No entanto, há muito investimento acontecendo aqui. Enormes silos operados por comerciantes internacionais de grãos como Cargill, Bunge e Cofco estão sendo construídos ao longo de estradas rurais. A concentração de terras aqui no norte é particularmente elevada; as operações agrícolas com dezenas de milhares de hectares dominam o negócio. Ocasionalmente você vê pequenos assentamentos improvisados, escolas abandonadas ou cemitérios. Parecem irritações breves entre os imensos e monótonos campos de soja e milho que se estendem até ao horizonte. Esta região remota e muitas vezes referida como marginal está totalmente ligada às cadeias de valor globais da indústria alimentar.

O crescimento das exportações agrícolas e de matérias-primas foi a salvação financeira para a economia argentina, que conseguiu reestruturar-se rapidamente após a falência nacional em 2001 e libertar-se brevemente do endividamento excessivo. Com taxas de exportação superiores a 30 por cento, o boom da soja representou uma fonte lucrativa de divisas estrangeiras. Mas hoje os sacrifícios que o modelo de produção de soja exige dificilmente podem ser ignorados. As pessoas nas zonas rurais da Argentina estão a organizar-se e a formar redes de ativistas como os Pueblos Fumigados, as aldeias pulverizadas. Em Tartagal, a rádio comunitária Voz Indígena desempenha um papel importante. Principalmente as mulheres das comunidades indígenas participam de oficinas e produzem seus próprios programas de rádio. Foi aqui que ela “acordou”, diz Mónica Medina, de Quebracho. Não pode mais ser pulverizado com pesticidas ou distribuído.

Responsabilidade dos fabricantes de agrotóxicos

É um dia frio de abril no Hemisfério Norte, a 12 mil quilômetros de Tartagal. Numerosos convidados estão reunidos na sala de eventos da organização de direitos humanos ECCHR, em Berlim, representantes de organizações parceiras do Paraguai, Brasil, Bolívia e Argentina, bem como de organizações ambientais alemãs. Trata-se da responsabilidade da Bayer AG alemã e da exigência de que a empresa cumpra o seu dever de cuidado para limitar os efeitos nocivos de produtos como o glifosato nas pessoas e no ambiente. Ao mesmo tempo que a assembleia de acionistas da Bayer, no final de abril, a aliança apresentou uma reclamação ao ponto de contato alemão para as Diretrizes da OCDE, acompanhada de numerosos eventos informativos. Trata-se do pacote tecnológico que a Bayer tem vendido desde que assumiu o controle do Grupo Monsanto: sementes de soja geneticamente modificadas e agrotóxicos adaptados a elas. E trata-se de práticas empresariais num ambiente social caracterizado por inúmeros conflitos devido ao avanço do setor agrícola.

Soja geneticamente modificada e pesticidas na América do Sul

Em 1996, as sementes de soja da Monsanto foram o primeiro organismo geneticamente modificado (OGM) a ser aprovado na Argentina e desde então se espalharam por toda a região. Um gene patenteado foi inserido no DNA das sementes de soja da Monsanto (marca RoundupReady) que as torna resistentes ao herbicida Roundup, também produzido pela Monsanto. O herbicida, à base de glifosato, mata todas as plantas daninhas, mas deixa a planta de soja RoundupReady resistente a este agrotóxico.

A denúncia se baseia em um dossiê detalhado, em pesquisas meticulosas sobre as estruturas de vendas da Bayer Crop Science em quatro países do Cone Sul (Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai), bem como em relatórios e entrevistas com pessoas das regiões rurais afetadas por pesticidas.  Deriva, águas poluídas, fontes de água potável inutilizáveis ​​e graves consequências para a saúde decorrentes do contato com agrotóxicos. Metade da área agrícola total da Argentina é utilizada para o cultivo de soja, bem como enormes áreas para o cultivo de milho geneticamente modificado. O glifosato e outros pesticidas são usados ​​quase incontrolavelmente em todas estas áreas – em média, os agricultores argentinos usam o dobro da quantidade de pesticidas por hectare em comparação com os EUA, de 12 a 15 litros. É semelhante nos países vizinhos.

Abel Areco, o advogado que viajou do Paraguai e chefe da organização BASE-IS, fala sobre a morte de Rubén Portillo: O pequeno agricultor da Colônia Yerutí, no leste do Paraguai, morreu em 2011 devido a agrotóxicos, e outras 20 pessoas foram envenenadas. As fazendas locais descartaram recipientes de agrotóxicos de maneira inadequada; o veneno entrou nos poços dos moradores vizinhos. A organização da Areco trabalha há anos com pequenos agricultores e comunidades indígenas afetados e tem acompanhado muitos desses casos. María José Venancio, da organização argentina de direitos humanos CELS, também relata seu trabalho como advogada em Santiago del Estero, uma província do norte da Argentina. Ao falar dos inúmeros conflitos que cercam a expansão do agronegócio em sua região, ela se consome de raiva.

O autor Rob Nixon descreve esta violência quotidiana contra as pessoas e a natureza, em muitas pequenas etapas ao longo das cadeias de abastecimento de produtos agrícolas e produção alimentar, como violência lenta – violações dos direitos humanos através da poluição e da extração de recursos que normalmente não produzem quaisquer notícias espectaculares. É uma violência lenta que se espalha territorialmente, que está distante e absolutamente normalizada. Uma violência da qual muitos na Europa dificilmente suspeitam e que pessoas como Nancy e Isaías, na distante Tartagal, há muito analisam. Resta ainda saber se o ponto de contacto alemão da OCDE também concorda com a sua análise.


Fonte: Neues Deutschland

Estudo inédito mostra que 22 agrotóxicos de uso abundante estão associados ao câncer de próstata

prostate cancer pesticides

Por Douglas Main para o The New Lede

Uma nova pesquisa acrescenta evidências de que vários tipos de agrotóxicos— incluindo os herbicidas amplamente utilizados 2,4-D e glifosato — podem aumentar o risco de câncer de próstata.

Um estudo publicado em 4 de novembro no periódico Cancer examinou a relação entre a quantidade de agrotóxicos usados ​​em condados dos EUA em certos períodos de tempo e as taxas de câncer de próstata 14 anos depois. Quase duas dúzias desses produtos químicos foram consistentemente associados a um risco elevado da doença, que é o câncer mais comum em homens e é considerado o segundo mais mortal .

Os resultados sugerem que mais pesquisas são necessárias urgentemente para entender melhor o papel que agrotóxicos podem desempenhar no desenvolvimento deste e de outros tipos de câncer, escreveram os autores.

“Muitos agrotóxicos não foram suficientemente estudados quanto aos seus potenciais efeitos cancerígenos, particularmente em relação ao câncer de próstata”, disse o coautor do estudo Simon Soerensen , pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Stanford.

As descobertas aumentam as preocupações sobre os impactos à saúde da exposição crônica a agrotóxicos e são apenas as mais recentes em anos de pesquisa que relacionam produtos químicos usados ​​na agricultura a diferentes tipos de câncer e outras doenças.

A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o 2,4-D como “possivelmente” cancerígeno para humanos, por exemplo. E seis outros agrotóxicos analisados ​​no estudo são atualmente classificados como “potenciais cancerígenos humanos” pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). A EPA classifica o herbicida diuron em particular como um cancerígeno conhecido/provável.

O estudo também identificou quatro produtos químicos que estavam ligados não apenas à incidência de câncer de próstata, mas também à morte por ele. Entre eles estão três herbicidas, conhecidos como cloransulam-metil, diflufenzopir e trifluralina, e um inseticida chamado tiametoxam, que foi proibido para uso externo na União Europeia devido à sua toxicidade para abelhas.

Um dos herbicidas consistentemente associados ao câncer de próstata no artigo foi o 2,4-D. Essa descoberta se destaca por ser amplamente usada, disse John Leppert , urologista e pesquisador, também em Stanford.

O uso de 2,4-D em fazendas aumentou nos últimos anos, à medida que espécies de ervas daninhas desenvolveram resistência crescente a outros herbicidas, como o glifosato, o ingrediente ativo do Roundup e outras marcas desenvolvidas pela antiga Monsanto Co., levando os agricultores a aplicar alternativas ao glifosato.

O desenvolvimento de culturas que toleram ser pulverizadas com 2,4-D acelerou o uso nos últimos anos. Existem agora milhões de hectares de milho e soja plantados nos EUA que são geneticamente modificados para serem resistentes ao 2,4-D. O produto químico também é encontrado em produtos herbicidas comuns de quintal.

Um estudo de 2022 descobriu que quase um terço dos 14.395 participantes tinham níveis mensuráveis ​​de herbicida 2,4-D na urina.

No artigo sobre o câncer , os pesquisadores analisaram o uso de dezenas de agrotóxicos em nível de condado de 1997 a 2001 e, então, procuraram ver, para cada produto químico, se parecia haver uma ligação com casos de câncer no condado 14 anos depois, de 2011 a 2015. Eles fizeram a mesma coisa por um segundo período de tempo, analisando o uso de 2002 a 2006 e casos de câncer e mortes de 2016 a 2020.

Todos os 22 pagrotóxicos foram consistentemente associados ao câncer de próstata ao longo do tempo e do espaço. O artigo tentou quantificar essas ligações observando o quanto um aumento discreto no uso de qualquer produto químico dado em um condado comparado ao aumento da incidência de câncer de próstata lá.

Ele encontrou as ligações mais fortes para os herbicidas trifluralina, cloransulam-metil e tribenuronm; o fungicida propiconazol; e o inseticida paration. (Paration é um inseticida organofosforado altamente tóxico que foi proibido em muitos, se não na maioria dos países, incluindo os Estados Unidos .)

O estudo mostra que um aumento no desvio padrão do uso do herbicida trifluralina em condados, por exemplo, foi associado a sete casos adicionais de câncer de próstata por 100.000 indivíduos.

Como o câncer de próstata é tão comum e pode ser agressivo, é uma “tremenda preocupação de saúde” cujos fatores de risco ambientais subjacentes ainda são pouco compreendidos, disse Leppert.

“Acho que precisamos estar mais conscientes de que o que está no ambiente pode contribuir para o risco de câncer em um homem”, acrescentou.

Agrotóxicos associados ao câncer de próstata

Os 22agrotóxicos identificados incluem herbicidas (2,4-D, glifosato, trifluralina, cloransulam-metil, tribenuron, diflufenzopir, diuron, hexazinona, linuron, pendimetalina, sulfosato, tifensulfuron), inseticidas (paration, tiametoxam, acefato, bifentrina, carbaril, cialotrina-lambda), fungicidas (propiconazol, azoxistrobina, trifloxistrobina) e fumigantes de solo (cloropicrina).


Fonte: The New Lede