Exposição ao glifosato pode levar à demência, mostra estudo

A exposição ao glifosato, presente nos herbicidas, ameaça a cognição e a lucidez, além de aumentar a ansiedade, mostram estudos. Os que correm mais riscos são os trabalhadores rurais e profissionais que atuam diretamente no campo

glifosato cérebro

Glifosato, amplamente usados, é pulverizado em plantações nas pesquisas com camundongos, surge concentrado em áreas específicas do cérebro, causando efeitos associados ao Alzheimer – (crédito: Gráfico por Jason Drees)

Por Isabella Almeida para o Correio Braziliense

O cérebro tem uma grande capacidade de adaptação. No entanto, uma nova pesquisa, liderada pela Universidade Estadual do Arizona e pela City of Hope, nos Estados Unidos, revela que até mesmo uma breve exposição a um defensivo agrícola comum pode causar danos cerebrais que persistem por um longo período. Os cientistas demonstraram, em camundongos, que o glifosato, um dos herbicidas mais comuns no mundo, promove uma inflamação significativa no sistema nervoso, associada a doenças neurodegenerativas.

O estudo, publicado no Journal of Neuroinflammation, identificou uma relação glifosato e sintomas de neuroinflamação em ratos, além de uma condição de neurodegeneração acelerada, semelhante ao que é observado na doença de Alzheimer, em humanos. Os pesquisadores rastrearam a presença e o impacto dos subprodutos do agrotóxico no cérebro, mesmo após o fim da exposição e identificaram uma série de efeitos persistentes que prejudicam a saúde neural.

Os camundongos submetidos ao herbicida também morreram prematuramente e apresentaram comportamentos semelhantes aos de ansiedade. No entanto, os cientistas ficaram surpresos ao notar que esses sintomas persistiram mesmo após um período de recuperação de seis meses.

A pesquisa mostrou também que um subproduto do glifosato —o ácido aminometilfosfônico —acumulou-se no tecido cerebral, levantando sérias preocupações sobre a segurança do produto químico para os seres humanos. “Nosso trabalho contribui para a crescente literatura que destaca a vulnerabilidade do cérebro ao glifosato”, afirmou Ramon Velazquez, cientista da Arizona State University. “Dada a crescente incidência de declínio cognitivo na população idosa, particularmente em comunidades rurais onde a exposição ao glifosato é mais comum devido à agricultura em larga escala, há uma necessidade urgente de mais pesquisas básicas sobre os efeitos deste herbicida.”

Para o trabalho, a equipe realizou experimentos com camundongos expostos a duas doses de glifosato: uma dose alta, similar aos níveis usados em estudos anteriores, e uma dose mais baixa, próxima do limite considerado seguro para humanos. Mesmo a quantidade menor causou efeitos nocivos no cérebro dos animais, desencadeando inflamação persistente no cérebro e no sangue, mesmo após a interrupção da exposição por meses.

Os dados indicam que a exposição ao glifosato pode resultar em danos neurológicos significativos, com inflamação prolongada que pode impulsionar a progressão de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

Efeitos adversos

Os experimentos foram realizados ao longo de 13 semanas, seguidos por um período de recuperação de seis meses. O principal metabólito do glifosato, o ácido aminometilfosfônico, foi detectado nos cérebros dos camundongos, tanto em camundongos normais quanto em camundongos modelos da Alzheimer. Mesmo com o fim da exposição, os efeitos adversos persistiram.

Conforme os autores, estudos como esse são importantes porque mostram que trabalhadores rurais e outros profissionais da agricultura têm maior probabilidade de ser expostos ao glifosato por inalação ou contato com a pele. Além disso, as descobertas indicam que a ingestão de resíduos em alimentos pulverizados com o herbicida pode representar um risco à saúde. De acordo com os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a maioria das pessoas nos Estados Unidos foi exposta ao glifosato em algum momento da vida.

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Dasa, destaca haver teorias que propõem que todo esse processo de neurodegeneração começaria com infecções por microrganismos, ou tem a ver com um processo inflamatório cerebral. “Há muito tempo se propõe que seja desencadeado pela exposição a toxinas, inclusive, metais pesados, ou outro tipo de materiais tóxicos. Agora vemos o glifosato, são resultados interessantes.

No entanto, Uribe pondera que ainda não é possível extrapolar os resultados do estudo para seres humanos. “Mas esse tipo de pesquisa é muito importante para abrir novas perspectivas, começar a investigar se realmente existe um efeito tóxico a longo prazo, e qual seria o tipo de exposição que desencadearia. Qual dose seria tóxica mesmo, uma série de coisas.”

Os pesquisadores reforçam a necessidade de mais estudos sobre os efeitos neurológicos do glifosato, já que as descobertas anteriores demonstraram que o herbicida atravessa a barreira hematoencefálica — camada protetora que normalmente impede que substâncias potencialmente prejudiciais entrem no cérebro. Após a travessia, o produto pode interagir com o tecido cerebral e contribuir para a neuroinflamação e outros danos na função neural.

“Essas descobertas destacam que muitos produtos químicos que encontramos regularmente, antes considerados seguros, podem representar riscos potenciais à saúde. No entanto, mais pesquisas são necessárias para avaliar completamente o impacto na saúde pública e identificar alternativas mais seguras”, frisou Patrick Pirrotte, autor sênior do estudo e pesquisador da City of Hope.


Fonte: Correio Braziliense 

Na Argentina, formas de violência lenta avançam a fronteira da soja e dos agrotóxicos venenosos

296776Nancy López é uma líder indígena. Seu neto nasceu de cesariana após uma reação de choque aos agrotóxicos. Foto de : Naomi Hennig

Por Naomi Hennig para o Neues Deutschland 

Há alguns anos, um anúncio da empresa de produtos químicos agrícolas Syngenta proclamava a “República Unida da Soja”, uma ficção nascida do imaginário do setor agrícola que parece tornar-se cada vez mais real com o passar dos anos. Estende-se por várias fronteiras nacionais no Cone Sul da América do Sul, a área ao redor do Trópico de Capricórnio. Desde a década de 1990, o feijão asiático tem desfrutado de uma marcha triunfante em toda a região. E com ele os intervenientes no pacote tecnológico associado: grandes empresas agrícolas, empresas químicas e de sementes, comerciantes agrícolas globais, investidores. Nos limites da república da soja, na região do Chaco, no noroeste da Argentina, que está ameaçada pelo desmatamento, o lado obscuro deste modelo de desenvolvimento é particularmente evidente.

Num dia quente e úmido de fevereiro – é verão no hemisfério sul e estação chuvosa no Chaco – encontro Isaías Fernandez e Nancy López, líderes indígenas dos pequenos assentamentos Wichí-Weenhayek de Quabracho e Oka Puckie, para uma entrevista. Algumas das cabanas de madeira parecem bastante danificadas depois de uma tempestade na noite anterior, mas as pessoas com quem falo permanecem impassíveis. Há coisas mais importantes para relatar. Agora, na época das chuvas, as empresas agrícolas locais começam a cultivar os campos. Para os moradores dos assentamentos, isso significa sofrer os efeitos nocivos dos agrotóxicos pulverizados nas plantações de soja vizinhas.

As duas comunidades se estabeleceram há anos ao longo da estrada arterial, na periferia da pequena cidade de Tartagal: 24 famílias em 95 hectares de terra. A comunidade vive num conflito permanente pelas suas terras – existe atualmente outro aviso de despejo e as pessoas estão gravemente ameaçadas de perder suas terras. A vida aqui é difícil, o dia a dia é caracterizado por muitos obstáculos. Como não há ligação de água potável, a água é transportada em recipientes plásticos. Se você olhar de perto poderá ver a caveira e o aviso “Veneno”. São latas de agrotóxicos recicladas que as fazendas vendem para as pessoas da região.

Pouco antes, houve outra campanha noturna de pulverização bem próximo ao assentamento. A filha grávida de Nancy sofreu convulsões e teve que ser levada ao hospital onde foi realizada uma cesariana. Seu filho nasceu como resultado de uma reação de choque aos agrotóxicos. Como será o futuro para um recém-nascido que vem ao mundo sob tais circunstâncias?

Isaías está ciente de que viver num ambiente tão poluído tem consequências para a saúde a longo prazo. Aqui e também no próximo assentamento maior, Misión Kilómetro 6, as pessoas relatam doenças tumorais, problemas respiratórios e de pele, além de nascimentos prematuros e abortos espontâneos. A certa altura, os moradores de Oka Puckie e Quebracho decidiram que já estavam fartos e confrontaram o motorista de um caminhão pulverizador que circulava no campo de soja ao lado, sob o manto da escuridão. O subcontratado, que nada sabia da existência do assentamento vizinho, teve uma ideia e desligou a máquina – por enquanto.

Hoje eles estão nos matando com papéis

A identidade da população indígena do Chaco foi moldada pela experiência histórica de colonização da Conquista Espanhola e posteriormente do Estado-nação argentino, explica Nancy. A incursão do agronegócio e o desmatamento associado na região levaram a numerosos conflitos sobre direitos de uso da terra e títulos de propriedade, chamados simplesmente de “papeles” (papéis) no jargão local. Ela descreve as expulsões e a precarização da população indígena como uma nova onda de colonização, como uma ameaça aguda: “Se você perde a floresta, você perde a sua cultura. Se as empresas vierem e derrubarem a floresta, perderemos tudo. Eles costumavam nos matar com armas – agora nos matam com papéis.”

A partir da década de 2000, durante o período do boom das matérias-primas e dos elevados preços do mercado mundial, a agricultura argentina expandiu-se para além da fértil região dos Pampas e levou a um desmatamento alarmante na região do Chaco, a norte. Os campos de soja consumiram áreas florestais que foram utilizadas pela primeira vez para a agricultura. Ocorreram cenas de destruição que, para muitos moradores do Chaco, representaram um apocalipse: escavadeiras, protestos e despejos. O fim da auto-suficiência local destruiu modos de vida e comunidades.

As duras condições desta região impediram que os espanhóis conquistassem todo o Chaco. Na época das chuvas tudo se transforma numa paisagem lamacenta, pequenas estradas rurais e estradas agrícolas tornam-se intransitáveis ​​e muitas aldeias e quintas ficam isoladas do mundo exterior. No verão, as temperaturas às vezes ultrapassam os 40 graus, o que torna impossível trabalhar ao ar livre. No entanto, há muito investimento acontecendo aqui. Enormes silos operados por comerciantes internacionais de grãos como Cargill, Bunge e Cofco estão sendo construídos ao longo de estradas rurais. A concentração de terras aqui no norte é particularmente elevada; as operações agrícolas com dezenas de milhares de hectares dominam o negócio. Ocasionalmente você vê pequenos assentamentos improvisados, escolas abandonadas ou cemitérios. Parecem irritações breves entre os imensos e monótonos campos de soja e milho que se estendem até ao horizonte. Esta região remota e muitas vezes referida como marginal está totalmente ligada às cadeias de valor globais da indústria alimentar.

O crescimento das exportações agrícolas e de matérias-primas foi a salvação financeira para a economia argentina, que conseguiu reestruturar-se rapidamente após a falência nacional em 2001 e libertar-se brevemente do endividamento excessivo. Com taxas de exportação superiores a 30 por cento, o boom da soja representou uma fonte lucrativa de divisas estrangeiras. Mas hoje os sacrifícios que o modelo de produção de soja exige dificilmente podem ser ignorados. As pessoas nas zonas rurais da Argentina estão a organizar-se e a formar redes de ativistas como os Pueblos Fumigados, as aldeias pulverizadas. Em Tartagal, a rádio comunitária Voz Indígena desempenha um papel importante. Principalmente as mulheres das comunidades indígenas participam de oficinas e produzem seus próprios programas de rádio. Foi aqui que ela “acordou”, diz Mónica Medina, de Quebracho. Não pode mais ser pulverizado com pesticidas ou distribuído.

Responsabilidade dos fabricantes de agrotóxicos

É um dia frio de abril no Hemisfério Norte, a 12 mil quilômetros de Tartagal. Numerosos convidados estão reunidos na sala de eventos da organização de direitos humanos ECCHR, em Berlim, representantes de organizações parceiras do Paraguai, Brasil, Bolívia e Argentina, bem como de organizações ambientais alemãs. Trata-se da responsabilidade da Bayer AG alemã e da exigência de que a empresa cumpra o seu dever de cuidado para limitar os efeitos nocivos de produtos como o glifosato nas pessoas e no ambiente. Ao mesmo tempo que a assembleia de acionistas da Bayer, no final de abril, a aliança apresentou uma reclamação ao ponto de contato alemão para as Diretrizes da OCDE, acompanhada de numerosos eventos informativos. Trata-se do pacote tecnológico que a Bayer tem vendido desde que assumiu o controle do Grupo Monsanto: sementes de soja geneticamente modificadas e agrotóxicos adaptados a elas. E trata-se de práticas empresariais num ambiente social caracterizado por inúmeros conflitos devido ao avanço do setor agrícola.

Soja geneticamente modificada e pesticidas na América do Sul

Em 1996, as sementes de soja da Monsanto foram o primeiro organismo geneticamente modificado (OGM) a ser aprovado na Argentina e desde então se espalharam por toda a região. Um gene patenteado foi inserido no DNA das sementes de soja da Monsanto (marca RoundupReady) que as torna resistentes ao herbicida Roundup, também produzido pela Monsanto. O herbicida, à base de glifosato, mata todas as plantas daninhas, mas deixa a planta de soja RoundupReady resistente a este agrotóxico.

A denúncia se baseia em um dossiê detalhado, em pesquisas meticulosas sobre as estruturas de vendas da Bayer Crop Science em quatro países do Cone Sul (Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai), bem como em relatórios e entrevistas com pessoas das regiões rurais afetadas por pesticidas.  Deriva, águas poluídas, fontes de água potável inutilizáveis ​​e graves consequências para a saúde decorrentes do contato com agrotóxicos. Metade da área agrícola total da Argentina é utilizada para o cultivo de soja, bem como enormes áreas para o cultivo de milho geneticamente modificado. O glifosato e outros pesticidas são usados ​​quase incontrolavelmente em todas estas áreas – em média, os agricultores argentinos usam o dobro da quantidade de pesticidas por hectare em comparação com os EUA, de 12 a 15 litros. É semelhante nos países vizinhos.

Abel Areco, o advogado que viajou do Paraguai e chefe da organização BASE-IS, fala sobre a morte de Rubén Portillo: O pequeno agricultor da Colônia Yerutí, no leste do Paraguai, morreu em 2011 devido a agrotóxicos, e outras 20 pessoas foram envenenadas. As fazendas locais descartaram recipientes de agrotóxicos de maneira inadequada; o veneno entrou nos poços dos moradores vizinhos. A organização da Areco trabalha há anos com pequenos agricultores e comunidades indígenas afetados e tem acompanhado muitos desses casos. María José Venancio, da organização argentina de direitos humanos CELS, também relata seu trabalho como advogada em Santiago del Estero, uma província do norte da Argentina. Ao falar dos inúmeros conflitos que cercam a expansão do agronegócio em sua região, ela se consome de raiva.

O autor Rob Nixon descreve esta violência quotidiana contra as pessoas e a natureza, em muitas pequenas etapas ao longo das cadeias de abastecimento de produtos agrícolas e produção alimentar, como violência lenta – violações dos direitos humanos através da poluição e da extração de recursos que normalmente não produzem quaisquer notícias espectaculares. É uma violência lenta que se espalha territorialmente, que está distante e absolutamente normalizada. Uma violência da qual muitos na Europa dificilmente suspeitam e que pessoas como Nancy e Isaías, na distante Tartagal, há muito analisam. Resta ainda saber se o ponto de contacto alemão da OCDE também concorda com a sua análise.


Fonte: Neues Deutschland

Estudo inédito mostra que 22 agrotóxicos de uso abundante estão associados ao câncer de próstata

prostate cancer pesticides

Por Douglas Main para o The New Lede

Uma nova pesquisa acrescenta evidências de que vários tipos de agrotóxicos— incluindo os herbicidas amplamente utilizados 2,4-D e glifosato — podem aumentar o risco de câncer de próstata.

Um estudo publicado em 4 de novembro no periódico Cancer examinou a relação entre a quantidade de agrotóxicos usados ​​em condados dos EUA em certos períodos de tempo e as taxas de câncer de próstata 14 anos depois. Quase duas dúzias desses produtos químicos foram consistentemente associados a um risco elevado da doença, que é o câncer mais comum em homens e é considerado o segundo mais mortal .

Os resultados sugerem que mais pesquisas são necessárias urgentemente para entender melhor o papel que agrotóxicos podem desempenhar no desenvolvimento deste e de outros tipos de câncer, escreveram os autores.

“Muitos agrotóxicos não foram suficientemente estudados quanto aos seus potenciais efeitos cancerígenos, particularmente em relação ao câncer de próstata”, disse o coautor do estudo Simon Soerensen , pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Stanford.

As descobertas aumentam as preocupações sobre os impactos à saúde da exposição crônica a agrotóxicos e são apenas as mais recentes em anos de pesquisa que relacionam produtos químicos usados ​​na agricultura a diferentes tipos de câncer e outras doenças.

A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o 2,4-D como “possivelmente” cancerígeno para humanos, por exemplo. E seis outros agrotóxicos analisados ​​no estudo são atualmente classificados como “potenciais cancerígenos humanos” pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). A EPA classifica o herbicida diuron em particular como um cancerígeno conhecido/provável.

O estudo também identificou quatro produtos químicos que estavam ligados não apenas à incidência de câncer de próstata, mas também à morte por ele. Entre eles estão três herbicidas, conhecidos como cloransulam-metil, diflufenzopir e trifluralina, e um inseticida chamado tiametoxam, que foi proibido para uso externo na União Europeia devido à sua toxicidade para abelhas.

Um dos herbicidas consistentemente associados ao câncer de próstata no artigo foi o 2,4-D. Essa descoberta se destaca por ser amplamente usada, disse John Leppert , urologista e pesquisador, também em Stanford.

O uso de 2,4-D em fazendas aumentou nos últimos anos, à medida que espécies de ervas daninhas desenvolveram resistência crescente a outros herbicidas, como o glifosato, o ingrediente ativo do Roundup e outras marcas desenvolvidas pela antiga Monsanto Co., levando os agricultores a aplicar alternativas ao glifosato.

O desenvolvimento de culturas que toleram ser pulverizadas com 2,4-D acelerou o uso nos últimos anos. Existem agora milhões de hectares de milho e soja plantados nos EUA que são geneticamente modificados para serem resistentes ao 2,4-D. O produto químico também é encontrado em produtos herbicidas comuns de quintal.

Um estudo de 2022 descobriu que quase um terço dos 14.395 participantes tinham níveis mensuráveis ​​de herbicida 2,4-D na urina.

No artigo sobre o câncer , os pesquisadores analisaram o uso de dezenas de agrotóxicos em nível de condado de 1997 a 2001 e, então, procuraram ver, para cada produto químico, se parecia haver uma ligação com casos de câncer no condado 14 anos depois, de 2011 a 2015. Eles fizeram a mesma coisa por um segundo período de tempo, analisando o uso de 2002 a 2006 e casos de câncer e mortes de 2016 a 2020.

Todos os 22 pagrotóxicos foram consistentemente associados ao câncer de próstata ao longo do tempo e do espaço. O artigo tentou quantificar essas ligações observando o quanto um aumento discreto no uso de qualquer produto químico dado em um condado comparado ao aumento da incidência de câncer de próstata lá.

Ele encontrou as ligações mais fortes para os herbicidas trifluralina, cloransulam-metil e tribenuronm; o fungicida propiconazol; e o inseticida paration. (Paration é um inseticida organofosforado altamente tóxico que foi proibido em muitos, se não na maioria dos países, incluindo os Estados Unidos .)

O estudo mostra que um aumento no desvio padrão do uso do herbicida trifluralina em condados, por exemplo, foi associado a sete casos adicionais de câncer de próstata por 100.000 indivíduos.

Como o câncer de próstata é tão comum e pode ser agressivo, é uma “tremenda preocupação de saúde” cujos fatores de risco ambientais subjacentes ainda são pouco compreendidos, disse Leppert.

“Acho que precisamos estar mais conscientes de que o que está no ambiente pode contribuir para o risco de câncer em um homem”, acrescentou.

Agrotóxicos associados ao câncer de próstata

Os 22agrotóxicos identificados incluem herbicidas (2,4-D, glifosato, trifluralina, cloransulam-metil, tribenuron, diflufenzopir, diuron, hexazinona, linuron, pendimetalina, sulfosato, tifensulfuron), inseticidas (paration, tiametoxam, acefato, bifentrina, carbaril, cialotrina-lambda), fungicidas (propiconazol, azoxistrobina, trifloxistrobina) e fumigantes de solo (cloropicrina).


Fonte: The New Lede

Artigo na Science mostra que agrotóxicos são mais venenosos para insetos do que pensado

abelhas ameaçadas

Abelhas são vistas se alimentando do melado de moscas-brancas em árvores cítricas. Traços de neonicotinoides, uma família de agrotóxicos, apareceram no melado, uma importante fonte de alimento para outros insetos.

Por Douglas Main para o “The New Lede”

Uma nova pesquisa fornece evidências de que os produtos químicos usados ​​na agricultura podem ser mais prejudiciais aos insetos do que se pensava anteriormente, contribuindo para o declínio mundial de espécies importantes.

Em um estudo abrangente e inédito  publicado  em 24 de outubro na revista  Science , cientistas descobriram que concentrações extremamente pequenas e subletais de mais de 580 agrotóxicos, herbicidas, fungicidas e outros produtos químicos podem ter sérios impactos negativos no comportamento e na sobrevivência subsequente de certos insetos.

Os cientistas testaram alguns dos produtos químicos em larvas de moscas-das-frutas, mosquitos e borboletas.

Os resultados foram “muito chocantes”, disse o coautor do estudo  Justin Crocker , pesquisador do Laboratório Europeu de Biologia Molecular em Heidelberg, Alemanha.

O estudo reforça a ideia de que os  agrotóxicos desempenham um papel importante na queda populacional de insetos, um fenômeno que pode prejudicar gravemente a produção de alimentos, já que certos insetos são necessários para polinizar culturas alimentares importantes.

“Um pouco assustador”

No artigo, pesquisadores expuseram 75 larvas de moscas-das-frutas a três concentrações de 1.024 agroquímicos diferentes. O menor nível testado (2 micromoles) está bem dentro da faixa encontrada no mundo real; por exemplo, não é incomum encontrar essa concentração do herbicida glifosato em riachos perto de campos de cultivo.

Após apenas 16 horas de exposição, eles transferiram os insetos para frascos contendo alimentos sem produtos químicos e filmaram seu comportamento. Mais da metade dessas substâncias causaram mudanças perceptíveis no comportamento dos insetos em desenvolvimento.

Essas mudanças comportamentais incluíam mudanças na maneira como as larvas rastejavam, viravam ou movimentavam seus corpos. Mais de 380  agrotóxicos não inseticidas afetaram muitas dessas características, bem como uma tendência à “peregrinação anormal”, que está ligada a uma menor probabilidade de sobrevivência a longo prazo.

“Foi definitivamente um pouco assustador para nós”, disse Crocker, especialmente ao imaginar a escala massiva do que está acontecendo com os insetos no mundo real.

Os autores também testaram alguns dos produtos químicos em temperaturas ambientes mais altas e descobriram que os efeitos foram muito mais pronunciados.

Alguns desses produtos químicos não tiveram efeito sobre a aptidão em temperaturas mais baixas, mas quando o ambiente do estudo foi aquecido alguns graus, “ele se tornou letal absoluto”, disse Crocker. “Essas não são diferenças sutis.”

Esse resultado chamou a atenção de Charlie Outhwaite , pesquisador da Sociedade Zoológica de Londres que não estava envolvido no artigo.

“Dado o aquecimento climático que já ocorreu e que continuará a ocorrer, parece provável que os impactos reais das aplicações de agrotóxicos aumentem consideravelmente se mudanças não forem feitas”, disse ela.

Um estudo marcante

Vários outros pesquisadores externos ficaram surpresos com o artigo e o que ele significa para o chamado “apocalipse dos insetos”.

“Eu conduzi pesquisas sobre o impacto de toxinas em insetos nos últimos 48 anos e estou chocado com a gravidade dos efeitos que uma alta porcentagem dos 1.024 produtos químicos testados têm”, disse  Philip Batterham , um toxicologista da Universidade de Melbourne que não estava envolvido no artigo. “Esta é uma publicação histórica.”

A maioria desses produtos químicos não são considerados inseticidas, mas têm atividade inseticida pronunciada, disse o pesquisador  Francisco Sanchez-Bayo , que acrescentou que ficou “surpreso com o grande número de produtos químicos não inseticidas que têm efeitos sérios na reprodução”. O que é, claro, vital para a sobrevivência das populações animais.

Sanchez-Bayo foi coautora de um  estudo de 2019  no periódico  Biological Conservation que investigou as causas do declínio global de insetos, concluindo que a perda de habitat causada pela conversão de terras para agricultura intensiva foi uma causa primária, com os agrotóxicos também desempenhando um papel importante.

As populações e declínios de insetos variam muito de um lugar para outro, e algumas reservas naturais  parecem ter experimentado pouca mudança  nas últimas décadas. Mas uma queda geral é inconfundível, especialmente na Europa. Na Alemanha, por exemplo,  pesquisas sugerem que a massa de insetos voadores diminuiu mais de 70% nas últimas décadas.

A longo prazo, Crocker e colegas querem criar uma nova plataforma para medir a toxicidade química. No passado, muitas substâncias foram julgadas com base em medidas muito mais contundentes, como a LD50 — a quantidade que mata 50% de qualquer população de animais.

“Os insetos estão claramente em declínio ao nosso redor, e esses [agrotóxicos] são claramente um fator determinante”, diz Crocker. “Se você está mudando o comportamento nesses sistemas, não deveria ser muito difícil dizer que isso está impactando as populações.”


Fonte: The New Lede

Relatório afirma que os novos produtos Roundup da Bayer são mais tóxicos do que as formulações anteriores

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Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Novos tipos de produtos herbicidas Roundup comercializados para consumidores dos EUA contêm produtos químicos que representam maiores riscos à saúde das pessoas do que formulações anteriores suspeitas de causar câncer, de acordo com uma análise de um grupo de defesa da saúde ambiental. O relatório foi contestado pela Bayer, que chamou a análise de “profundamente falha”.

A Friends of the Earth (FOE) informou na terça-feira que descobriu que quatro produtos químicos foram adicionados recentemente aos produtos Roundup e que comprovadamente causam uma variedade de problemas de saúde, incluindo defeitos reprodutivos, danos renais e hepáticos e neurotoxicidade.

A análise foi feita depois que a empresa agroquímica Bayer prometeu que removeria o glifosato de seus populares produtos herbicidas Roundup, vendidos para uso residencial em gramados e jardins a partir de 2023.

A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, fez a mudança para tentar reduzir o registro de futuros litígios enquanto enfrenta milhares de ações judiciais movidas contra a Monsanto por pacientes com câncer que alegam ter desenvolvido linfoma não-Hodgkin pelo uso do Roundup da Monsanto e outros herbicidas à base de glifosato.

Mas a FOE disse que descobriu que os produtos químicos usados ​​nas novas formulações do Roundup são, em média, 45 vezes mais tóxicos para humanos com exposição crônica do que o Roundup à base de glifosato. Os produtos químicos eram aproximadamente quatro vezes mais agudamente tóxicos, disse o grupo.

Notavelmente, todos os quatro produtos químicos adicionados apresentam maior risco de problemas de saúde reprodutiva e/ou de longo prazo do que o glifosato, com base na avaliação de estudos de segurança da Agência de Proteção Ambiental (EPA), disse a FOE.

Dos quatro produtos químicos encontrados nos produtos – diquat dibromide, fluazifop-P-butyl, triclopyr e imazapic – o “pior infrator”, de acordo com a FOE, é o diquat dibromide. Ele é 200 vezes mais tóxico do que o glifosato quando a exposição ocorre por um longo período de tempo, disse o grupo, e é proibido na União Europeia . Ele é 27 vezes mais tóxico em exposições agudas, disse o grupo.

Kendra Klein, vice-diretora de ciências da FOE e autora do relatório, disse que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) deveria fornecer uma supervisão mais forte.

“As pessoas precisam perceber que a EPA há muito tempo coloca os lucros de empresas como a Bayer à frente de sua saúde quando se trata de pesticidas”, disse Klein. “E agora, eles permitiram que a Bayer trocasse silenciosamente os produtos químicos do Roundup, tornando-o muito mais tóxico para a saúde das pessoas, sem alterar a embalagem ou alertar os consumidores sobre os riscos aumentados.”

A Bayer disse que o relatório estava factualmente errado e fora de sintonia com as avaliações regulatórias para medição de risco.

Em uma declaração, a empresa disse: “Um relatório recente e profundamente falho contém alegações falsas sobre os ingredientes ativos nos produtos Roundup Lawn & Garden. Os ingredientes ativos em todos os produtos Roundup Lawn & Garden foram cuidadosamente estudados, revisados ​​e aprovados por especialistas independentes da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e usados ​​com segurança e eficácia em muitos produtos diferentes de controle de ervas daninhas de uma variedade de empresas por décadas. O relatório chega à sua conclusão enganosa por meio de uma metodologia que é totalmente inconsistente com a forma como os principais especialistas regulatórios e de saúde medem o risco em como as pessoas usam esses produtos no mundo real e de acordo com o rótulo. Simplificando, os consumidores podem se sentir confiantes usando os produtos Roundup com segurança.”

A EPA não respondeu a um pedido de comentário.

Comparando os dados

Ao conduzir sua análise, a FOE disse que coletou informações sobre ingredientes dos rótulos dos produtos Roundup vendidos na Lowe’s e na Home Depot — dois dos maiores varejistas de gramados e jardins dos EUA — entre junho e o final de setembro deste ano.

Vários produtos Roundup nas prateleiras das lojas ainda continham glifosato, disse a organização. Mas oito produtos herbicidas da marca Roundup foram feitos sem glifosato.

A FOE disse que sua análise comparativa da toxicidade dos ingredientes químicos ativos nas formulações novas e antigas do Roundup é baseada na avaliação da EPA da toxicidade crônica de ingredientes ativos de pesticidas individuais. A EPA não avalia rotineiramente as combinações de produtos químicos frequentemente usadas nas formulações acabadas vendidas aos clientes, destacou a FOE.  

Mas ele define o que chama de “dose de referência crônica” para produtos químicos individuais. A agência define uma dose de referência como uma exposição oral diária que os humanos podem experimentar por um longo período de tempo sem qualquer “risco apreciável” de efeitos nocivos. A medição é o único dado disponível da EPA sobre toxicidade crônica dos diferentes produtos químicos, disse a FOE.

Fonte: Amigos da Terra

Além de comparar os dados de dose de referência crônica, a FOE disse que levou em consideração os níveis de concentração de cada um dos ingredientes químicos ativos nas formulações.

As novas formulações do Roundup também são mais prejudiciais ao meio ambiente do que os produtos à base de glifosato, de acordo com a FOE. Os produtos químicos que substituem o glifosato são “significativamente mais propensos a prejudicar abelhas, pássaros, peixes, minhocas e organismos aquáticos”, disse o grupo.

 Um produto generalizado 

O glifosato é o herbicida mais aplicado na história, tanto nos EUA quanto globalmente, e tem sido usado por fazendeiros e consumidores por mais de 40 anos. O produto químico tem sido tão amplamente usado que os resíduos são disseminados no meio ambiente – estudos o encontraram em alimentos e água potável, até mesmo na chuva . Também é comumente encontrado na urina humana .

Um novo estudo publicado em outubro ressaltou a natureza ubíqua do produto químico, encontrando o produto químico herbicida presente em cada uma das 99 amostras de ar coletadas dentro de residências urbanas em Nova York e 15 outros estados. Estudos anteriores também encontraram resíduos de glifosato na poeira doméstica, apesar do fato de o produto químico não ser usado em ambientes fechados.

Autoridades da Monsanto e da Bayer sempre garantiram ao público e aos reguladores que, quando usado conforme as instruções, a exposição ao herbicida não representa uma ameaça à saúde humana.

Mas dezenas de estudos descobriram o contrário, e em 2015 a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) classificou-o como um provável carcinógeno humano. Mais de 100.000 pessoas entraram com ações judiciais após a decisão da IARC culpando seus cânceres pelo uso dos produtos de glifosato da Monsanto/Bayer, como o Roundup. A Bayer resolveu milhares de casos, e ganhou e perdeu vários outros em julgamentos nos EUA.

Em julho deste ano, a Bayer havia resolvido cerca de 114.000 dos 172.000 casos de câncer relacionados ao Roundup.

No ano passado, uma coalizão de trabalhadores rurais, defensores da saúde pública e do meio ambiente entrou com uma petição legal na Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) exigindo que a agência suspendesse a autorização do glifosato. A petição afirma que o produto químico não atende ao padrão de segurança exigido pela lei federal.

A EPA apoia a posição da Bayer de que o glifosato é seguro quando usado conforme as instruções.


Fonte: The New Lede

O poderoso lobby tóxico da Bayer é desmascarado

lobby bayer

Por Hans van Scharen para o “The New Lede”

Grandes empresas de combustíveis fósseis como Shell, Exxon, BP ou Total não são sua fonte confiável para obter conselhos sólidos sobre como impedir urgentemente que o clima mude cada vez mais rápido. Mas para deter a disseminação do câncer e de todos os tipos de doenças degenerativas, ajudar fazendeiros a saírem de seus pesadelos socioeconômicos coletivos, combater a fome ou como evitar um colapso ainda maior da biodiversidade , os formuladores de políticas acham completamente normal se envolver com poderosas empresas agroquímicas como Bayer e BASF. 

No entanto, essas empresas produzem muitos produtos químicos que são ruins para a nossa saúde, para o meio ambiente e, cada vez mais, para a própria democracia, como mostra o novo relatório Bayer’s Toxic Trails , do Corporate Europe Observatory .

Seja sobre glifosato,  organismos geneticamente modificados ou aquecimento global, mostramos como a empresa tenta capturar políticas públicas para perseguir seus interesses privados. 

A Bayer tenta legitimar esse lobby caro sendo mais ou menos transparente sobre ele e chamando-o de “ advocacia política ”. Na verdade, é graças aos seus bolsos fundos e influência econômica que ela é capaz de mudar leis e regulamentos que devem servir ao interesse geral. A Bayer simplesmente quer manter o controle monopolista dos mercados de sementes e  agrotóxicos, e luta contra os desafios regulatórios de seus produtos tóxicos, enquanto tenta limitar sua responsabilidade legal e exerce influência política .

Primeiro, há o elemento do poder de mercado global e a concentração cada vez maior, tornando-os uma parte essencial de um pequeno clube de Food Barons globais . Apenas quatro dessas multinacionais – Bayer, BASF , Corteva e Syngenta – controlam mais de 65% do comércio global de agrotóxicos e pelo menos metade do comércio mundial de sementes. Isso representa um mercado multibilionário de euros, co-controle sobre a produção mundial de alimentos e profunda influência política nas políticas agrícolas e ambientais. 

Só para constar: a bem-sucedida campanha de lobby para derrubar a estratégia do Prado ao Prato, uma parte crucial do Acordo Verde da União Europeia (UE), foi trabalho dessas empresas, suas consultorias e associações comerciais como a Croplife (com uma pequena ajuda de seus amigos políticos , é claro).  

A Bayer e seus aliados também estavam liderando a campanha para prolongar a autorização da  UE para o glifosato por mais 10 anos, apesar de uma série de indicações científicas que mostram que o produto é um desastre para a saúde, a biodiversidade, o solo e a água .

Vários estudos científicos independentes mostram que o glifosato pode ser cancerígeno. Como escreveu a Pesticide Action Network (PAN), “reaprovar o glifosato é uma violação da Lei de Pesticidas da UE que diz que a saúde e o meio ambiente devem vir em primeiro lugar”. Várias ONGs estão levando a Comissão Europeia ao tribunal sobre a decisão do glifosato.  

A Bayer e seus amigos poderosos gostam de falar sobre “inovação” e ” políticas baseadas na ciência “, desde que consigam determinar o que é ciência correta e o que não é.

Em uma carta aberta de abril deste ano, a Bayer chama todas as descobertas independentes de cientistas sobre o glifosato, incluindo aquelas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), de “ciência lixo”. É um lembrete da campanha ativa e cara da Monsanto  para fabricar “indignação”  contra a IARC sobre sua classificação de câncer. 

As táticas de lobby da Bayer incluem  manipular a ciência , financiar campanhas de desinformação , influenciar reguladores, usar a política comercial como uma forma de intimidar terceiros países a mudar suas leis e atrasar e distrair os formuladores de políticas com promessas de investimento. A Bayer, que comprou a Monsanto, sediada nos EUA, em 2018, fez lobby duro (às vezes com sucesso) para mudar ou influenciar leis, regulamentos e políticas, não apenas na UE, mas também na Tailândia , México , África e agora também nos EUA .

A campanha de lobby intensiva que a Bayer encenou nos EUA é ultrajante de uma perspectiva democrática. A Bayer está ativamente fazendo lobby para mudar a lei dos EUA . De acordo com relatos da mídia, ela coescreveu algumas emendas, tanto em nível federal quanto estadual, para evitar mais litígios do RoundUp movidos por pacientes com câncer.

Como os rótulos dos produtos que contêm glifosato não alertaram suficientemente os usuários sobre seus perigos potenciais, a Bayer/Monsanto enfrenta nada menos que 170.000 processos até agora, dos quais 60.000 ainda estão pendentes. A empresa concordou em pagar mais de US$ 11 bilhões em acordos e foi condenada a pagar grandes somas adicionais pelos júris.

Bayer lobbies Congress to help fight lawsuits tying Roundup to cancer - The  Washington Post

Uma nova investigação da mídia global acaba de revelar que “os contribuintes dos EUA financiaram uma campanha secreta para minimizar os riscos dos  agrotóxicos e desacreditar ambientalistas na África, Europa e América do Norte”. O The New Lede e outros veículos revelaram como uma empresa do Missouri fundada por um ex-executivo da Monsanto ajudou a tentar conter os críticos dos pesticidas e outros, incluindo cientistas ambientais ou ativistas da sustentabilidade. 

Todo esse tipo de batalha jurídica e operações de lobby custam muito dinheiro, o que seus acionistas não apreciam. 

Nos últimos dois anos, a Bayer se tornou um dos maiores gastadores de lobby na UE e no mundo.

De acordo com o registro de lobby da UE, a Bayer AG gastou entre € 7 milhões e € 8 milhões em 2023 em lobby para influenciar decisões da União Europeia.

Para o ano de 2022, a empresa autodeclarou ter gasto € 6,5 milhões em lobby na UE, € 2,5 milhões na Alemanha e € 4 milhões em taxas para associações comerciais e de lobby baseadas na UE, como a Croplife Europe. Isso faz com que o orçamento total estimado para lobby na UE seja bem acima de € 10 milhões. 

Para o ano de 2022, a Bayer declarou gastar € 49 milhões em lobby no mundo todo, além de € 26 milhões extras em taxas de associações comerciais, o que totaliza impressionantes € 75 milhões (embora a empresa não indique claramente as taxas como custos de lobby, o que é exigido pelo Registro de Transparência da UE).

A Bayer fabrica produtos que são ruins para nossa saúde e ecossistemas e, ao defender agressivamente seus interesses comerciais, também está prejudicando a democracia. Não deve ser permitido que continue seu negócio destrutivo, na UE ou em outro lugar. É hora de uma política livre de tóxicos.

Hans van Sharen é pesquisador e ativista do Corporate Europe Observatory, especializado em agronegócio e alimentos, pesticidas, OGM e lobby na União Europeia.

As colunas de opinião publicadas no The New Lede representam as opiniões dos indivíduos que as escrevem e não necessariamente as perspectivas dos editores da TNL .)


Fonte: The New Lede

Monsanto Papers: mensagens revelam quem são os cientistas de confiança da Bayer no Brasil

A Repórter Brasil teve acesso aos “Monsanto Papers”, série de documentos internos da empresa comprada em 2016 pela multinacional alemã Bayer; Mensagens revelam estratégia de encontrar cientistas aliados para a defesa do glifosato, agrotóxico mais vendido no Brasil

cientistas da monsanto

Por Carla Ruas e Sílvia Lisboa, edição de Paula Bianchi, para a Repórter Brasil

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) classificou o agrotóxico glifosato como “provável cancerígeno”. Menos de cinco anos depois, no entanto, o Brasil rebaixou o grau de toxicidade do pesticida banido em países como Áustria e Alemanha. Por aqui, o glifosato segue campeão de vendas.

O lobby por trás dessa decisão, contrária à da agência ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), só agora começa a ser revelado, com a análise pela Repórter Brasildos chamados “Monsanto Papers”, originalmente divulgados em 2019. Até hoje, os documentos que mostram os bastidores da atuação no Brasil da principal fabricante do glifosato não haviam sido investigados.   

E-mails internos da Monsanto, comprada pela multinacional alemã Bayer em 2016, mostram que a companhia fez uma lista de cientistas brasileiros que poderiam atuar contra eventuais restrições ao herbicida. Tratava-se de uma estratégia comum, segundo documentos da empresa.

Em mensagens de 2012 e 2013, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona quatro nomes de confiança no país: o médico Flávio Zambrone, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a toxicologista Silvia Berlanga Moraes de Barros, da Universidade de São Paulo (USP), o patologista João Lauro Viana de Camargo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, também da Unesp e presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do governo federal. 

Em e-mail, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona cientistas brasileiros convidados para evento da empresa (Reprodução: Monsanto Papers)
Em e-mail, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona cientistas brasileiros convidados para evento da empresa (Reprodução: Monsanto Papers)

Os Monsanto Papers vieram a público em 2019, durante uma leva de processos judiciais contra o glifosato nos Estados Unidos, e foram fundamentais para condenações que já somam US$ 11 bilhões (R$ 60 bilhões). Há milhares de ações na Justiça norte-americana em que agricultores afirmam ter contraído câncer devido ao uso do herbicida da empresa.

Os documentos vazados não trazem os posicionamentos dos cientistas brasileiros. Mas indicam como a empresa buscava a participação deles em audiências públicas e congressos acadêmicos, além de sugerir até mesmo edições em artigos científicos.   

Procurada, a Bayer não retornou até a publicação desta reportagem.

Diretor da Monsanto sugeriu edições em artigo científico de brasileiro

Citado nos Monsanto Papers, o médico João Lauro Viana de Camargo é professor aposentado de Patologia da Unesp. Em 2015, enquanto o uso do glifosato estava sob reavaliação no Brasil, a Monsanto foi surpreendida pela decisão da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) de classificar o glifosato como um “provável cancerígeno para humanos”. O anúncio levou a empresa a montar uma estratégia global de redução de danos.

O plano incluía montar um grupo de especialistas, incluindo Camargo, para realizar estudos refutando as afirmações da Iarc. Em um documento de planejamento, a empresa diz que seu objetivo era “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup (nome comercial do agrotóxico da empresa), comunicando a segurança do glifosato”. A estratégia também falava em “fornecer cobertura para que as agências reguladoras continuem a tomar decisões de recadastramento com base na ciência.”

Trecho de documento de planejamento da empresa, em que ela fala em  “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup (nome comercial do agrotóxico da empresa), comunicando a segurança do glifosato”.

Em trecho de documento de planejamento, empresa fala em “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup [produto da Bayer], comunicando a segurança do glifosato” (Foto: Reprodução/Monsanto Papers)

A ofensiva da Monsanto resultou em uma série de artigos científicos publicados no periódico Critical Reviews of Toxicology. Dois deles foram assinados por Camargo, em conjunto com outros cientistas. Apesar de a empresa negar qualquer envolvimento nas pesquisas, ofícios internos mostram que a Monsanto teria participado ativamente da produção dos artigos, da redação de manuscritos à edição final por parte de executivos da empresa. 

Em um email interno, o Diretor de Estratégia de Avaliação de Segurança de Produtos, William Haydens, admite que analisou um dos artigos coescritos por Camargo e indicou “o que acho que deveria ficar, o que pode ir, e em alguns pontos eu fiz uma pequena edição.”

Em e-mail, executivo da Monsanto sugere modificações em artigo que teve o professor Camargo como um dos autores. A referência ao artigo consta da troca de mensagens (Reprodução: Monsanto Papers)
Em e-mail, executivo da Monsanto sugere modificações em artigo que teve o professor Camargo como um dos autores. A referência ao artigo consta da troca de mensagens (Reprodução: Monsanto Papers)

A Monsanto pagou US$ 350 mil (R$ 1,9 milhão) para uma consultoria científica contratar os especialistas e coordenar o trabalho. Em memorando de comunicação interno analisado pela reportagem, a Monsanto admite que muitos, incluindo Camargo, já haviam trabalhado como consultores pagos pela empresa. Apesar do esforço, a Iarc manteve a classificação do glifosato como potencialmente cancerígeno.

A decisão repercutiu na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que desde 2008 estava reavaliando o glifosato. Em 2016, a agência contratou um parecerista técnico externo pelo valor de R$ 10 mil. Quem ganhou o edital foi a pesquisadora Marize Solano, orientanda de mestrado e doutorado de Camargo, na Unesp. No laudo, Solano discorda da Iarc e diz considerar “pouco provável” que o glifosato seja cancerígeno. 

Em nota, a Anvisa afirmou que a contratada cumpriu exigências profissionais e de formação acadêmica, mas não respondeu se tinha conhecimento do vínculo com Camargo. Procurada, Solano não aceitou dar entrevista. Camargo também não respondeu a perguntas sobre sua relação com a Monsanto.

O parecer foi decisivo para a decisão final da Anvisa sobre o glifosato, finalmente anunciada em 2019. Embora tenha aprovado mudanças nas recomendações sobre o uso do produto, a agência não proibiu o glifosato no Brasil e abrandou seu grau de toxicidade. Hoje, o princípio ativo considerado um provável cancerígeno pela agência da OMS é classificado no Brasil como pouco tóxico para humanos.

Médico representou a Monsanto em audiências sobre o glifosato

Já o médico Flávio Zambrone é um velho conhecido da Monsanto. O toxicologista e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fundou a consultoria privada Planitox nos anos 1990, que ainda hoje presta serviço para fabricantes de insumos agrícolas. Ele representou a Monsanto e outras 38 empresas de agrotóxicos durante a reavaliação do glifosato pela Anvisa. 

“As empresas se unem e contratam um toxicologista de confiança para que organize os seus dados e suas informações”, afirmou Zambrone em uma audiência pública sobre o processo no Congresso Nacional, em 2019. “Essas informações são fornecidas para a Anvisa usar nas suas avaliações e tomar decisões”, explicou sobre o seu papel. 

O médico também defendeu a indústria nas reavaliações de outros dois agrotóxicos: o 2,4 D – usado no cultivo da soja e milho – e o clorotalonil, fungicida utilizado em diferentes plantações, como batata e trigo. 

Enquanto a Anvisa avaliava o glifosato, Zambrone fundou outras duas organizações para respaldar o uso de agrotóxicos no país: o Instituto Brasileiro de Toxicologia (IBTox), responsável por treinamentos para produtores rurais e profissionais de toxicologia, e o Grupo de Informações e Pesquisas sobre Glifosato (Gipeg), criado para defender o glifosato, principalmente na imprensa.

Em todas essas organizações, o médico contou com o apoio da filha, Maria Vitória Zambrone, especialista em comunicação corporativa e sócia do pai na Planitox. Maria Vitória também criou o serviço de checagem de notícias “Drops”, utilizado pelo portal do médico e comunicador Drauzio Varella, e encerrado em 2020. 

Em uma das checagens, o Drops afirmou ser “insustentável” a notícia de que o  glifosato tem relação com autismo, sem expor aos leitores a associação direta de sua fundadora com a indústria de agrotóxicos.  

Procurado pela reportagem, o Portal Drauzio afirmou, em nota, desconhecer qualquer envolvimento de Maria Vitória Zambrone com as empresas de seu pai. O texto afirma que, “visto a situação atual, que chegou ao nosso conhecimento através desta reportagem, iremos retirar o conteúdo citado do ar”. 

O agrônomo e ex-gerente de toxicologia da Anvisa, Luiz Claudio Meirelles, lembra que Flávio Zambrone estava sempre na agência defendendo o lado das empresas. “Ele (Zambrone) usa do prestígio de uma universidade pública para defender interesses privados. Esse viés é inaceitável, na minha opinião”, diz Meirelles, atualmente pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Universidade pública deve servir ao bem comum, ao interesse de todos”, complementa. 

Procurados, Flávio e Maria Vitória Zambrone não responderam aos questionamentos da Repórter Brasil. 

O médico já precisou dar explicações sobre outros possíveis conflitos de interesses em sua atuação. Em 2009, o Ministério Público do Trabalho (MPT) questionou a conduta do toxicologista diante do vazamento de uma fábrica de agrotóxicos da Shell e da Basf em Paulínia, interior de São Paulo. 

O então pesquisador da Unicamp foi chamado para aferir os níveis de contaminação da população local, como parte de um convênio entre a universidade e a indústria. Mas, na época, Zambrone também prestava serviços de consultoria em toxicologia para a Shell e grandes empresas fabricantes de agrotóxicos, por meio da Planitox.

No documento, a procuradora Márcia Kamei Lopes Aliaga afirma que atuação nas duas frentes “deixa entrever que o interesse público e o privado se mesclam, não havendo clara distinção, no caso, sobre tais conceitos”. A procuradora explica que a prestação de serviço de consultoria privada por um professor de universidade pública pode “comprometer a produção científica, tais questões podem ferir princípios éticos e legais da Administração Pública.”

Na época, moradores da região e ex-funcionários da fábrica acusaram o médico de favorecer a Shell, ao produzir laudos técnicos dizendo que não havia indícios de contaminação humana. Outra análise realizada pela prefeitura detectou substâncias intoxicantes em 86% das amostras de sangue analisadas.

‘A guardiã da toxicologia’ e o defensor dos transgênicos

Os outros dois cientistas citados nos Monsanto Papers são a toxicologista Silvia Berlanga de Moraes Barros, professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, professor da Unesp – Campus Botucatu. 

Berlanga foi presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) nos anos 1990 e continua influente na entidade, que hoje tem a Bayer como  “sócia institucional”. 

A aproximação da entidade com a fabricante do glifosato teria ocorrido em 2015, no mesmo ano em que a Iarc classificou o glifosato como provável cancerígeno. 

Naquele ano, a SBTox chamou a associação que então representava a indústria de agrotóxicos no Brasil, a Andef, para organizar a “agenda científica” do seu congresso anual. Executivos da Bayer, Basf, Syngenta e Dow Agroscience foram palestrantes do evento científico. O episódio gerou uma onda de desfiliações e notas de repúdio entre toxicologistas. 

Repórter Brasil questionou a SBTox sobre a parceria com a Bayer, mas não obteve retorno. Berlanga também foi perguntada sobre sua relação com a multinacional e sobre as críticas de seus pares quanto à proximidade com fabricantes de agrotóxicos. A cientista  se negou a dar entrevistas e disse “não ter gostado das afirmações” a seu respeito. 

Já o agrônomo Edivaldo Velini é um dos principais defensores do uso de sementes transgênicas no país, outro filão de mercado da Bayer. Essas plantas são mais resistentes ao uso de agrotóxicos e consomem mais dessas substâncias.

Velini foi presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação responsável pela avaliação e aprovação de sementes transgênicas. 

A nomeação de Velini para o cargo gerou manifestações de repúdio de organizações ambientalistas por causa de declarações favoráveis ao glifosato. Em entrevista ao site institucional da Monsanto em 2011, o professor afirmou que “ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor”.

A primeira semente transgênica comercializada no país foi a Soja Roundup Ready, da então Monsanto, no final da década de 1990. O grão foi desenvolvido para gerar maior produtividade com a aplicação do glifosato da companhia e chegou a ter sua venda proibida pela Justiça federal.

Em março de 2005, com a promulgação da Lei de Biossegurança a CTNBio se tornou responsável por solicitar ou dispensar estudos e relatórios de impacto ambiental para transgênicos. Até então, o Ministério do Meio Ambiente era o responsável por exigir a apresentação desses estudos. Até hoje, no entanto, a Monsanto nunca teve de apresentar os estudos das sementes transgênicas resistentes ao glifosato.

No ano passado, ao receber o Prêmio Personagem Soja Brasil, da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), entidade que mantém na sua diretoria infratores ambientais e acusados de participação nos atos golpistas de 08 de janeiro de 2023, Velini discursou: “Acredito que a minha indicação decorre muito do meu trabalho na CTNBio”, afirmou.

À Repórter Brasil, o professor da Unesp disse que produzir e difundir informações sobre os métodos de controle de ervas daninhas fazem parte das suas atribuições. “Esta é uma atividade que realizo em rotina e que não pode ser reduzida ao termo ‘apoiar agrotóxicos’”, disse.


Contaminação por glifosato atinge municípios a quilômetros de distância das lavouras

avião agrotóxico

Por Fernanda Wenzel para a Mongabay 

O Brasil é um dos maiores produtores de soja do mundo. Uma potência agrícola movida a toneladas e mais toneladas de agrotóxicos, que colocam o Brasil no topo do ranking mundial de consumos de agrotóxicos. Quase um terço desse consumo se concentra em apenas uma substância: o glifosato, um herbicida usado para matar as outras plantas que insistem em crescer junto aos pés da oleaginosa.

Em 2015, a Organização Mundial de Saúde concluiu que o glifosato era “provavelmente cancerígeno” para humanos. Mesmo assim, quatro anos depois, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavaliou para baixo o nível de toxicidade do agrotóxico, até então classificado como “extremamente tóxico”.

À época, a agência justificou que “o glifosato apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas a estas áreas”, sugerindo que medidas de proteção na hora da aplicação seriam suficientes para garantir o uso seguro do agrotóxico. Afirmação reforçada pelos produtores do agrotóxico, que afirmam que o produto é rapidamente absorvido no ambiente, limitando sua dispersão.

 Cada vez mais estudos, no entanto, mostram que os efeitos do herbicida podem ser sentidos a dezenas de quilômetros dos locais de aplicação. Pesquisadores já detectaram a presença do agrotóxico em rios do Brasil, Argentina e Estados Unidos, os três maiores produtores de soja do mundo. Na Argentina, a substância foi encontrada mesmo em locais distantes das plantações, enquanto nos Estados Unidos um estudo encontrou a substância em 74% das amostras analisadas.

“O glifosato impacta toda a região, porque, além de contaminar a água superficial, contamina o lençol freático, o ar e a chuva”, afirma Wanderlei Pignati, médico e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

Estudo publicado na Review of Economic Studies relacionou a contaminação da água por glifosato a um aumento de 5% nas taxas de mortalidade infantil. Foto: charlesricardo via Pixabay (domínio público)

Uma nova evidência vem de um artigo publicado no final do ano passado na Review of Economic Studiesque analisou as taxas de mortalidade infantil em municípios que não necessariamente produzem soja, mas que são abastecidos por rios vindos de áreas com uso intensivo de glifosato.

“Vimos que, a partir do momento em que algumas regiões a montante utilizam o produto, a mortalidade infantil aumenta rio abaixo. Esse estudo sugere que esse efeito é carregado através de corpos d’água”, afirma Rudi Rocha, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), e autor do estudo ao lado de Mateus Dias e Rodrigo Soares.

A conclusão é que a contaminação pelo agrotóxico levou a um aumento de 5% nas taxas de mortalidade infantil, o equivalente a 503 bebês mortos por ano. A pesquisa reforça estudos anteriores que apontaram para a contaminação pelo glifosato de células da placenta e do embrião, impactando o desenvolvimento do bebê ainda na barriga da mãe, e também através do leite materno.

Segundo Rocha, o glifosato pode ser carregado pelas águas dos rios por até 100 quilômetros, e a contaminação aumenta em períodos de muita chuva ou em regiões com maior erosão do solo. “Todas as hipóteses foram sendo testadas e concluímos que, de fato, o uso maior do glifosato afeta a saúde infantil de populações que estão rio abaixo.”

Lobby fala mais alto

 Rocha e seus colegas analisaram as taxas de mortalidade de bebês de até um ano de idade em 1.119 municípios das regiões Sul e Centro-Oeste do país entre os anos de 2000 e 2010. No meio deste período, em 2004, o Brasil aprovou o uso de uma semente de soja transgênica resistente ao glifosato.

A tecnologia permitiu a aplicação do veneno não apenas antes, mas também durante o cultivo — com a semente anterior, os pés de soja teriam morrido junto com as plantas indesejadas. A produtividade no campo explodiu, assim como o consumo do glifosato. Segundo algumas estimativas, o uso do produto em todo o mundo aumentou em 15 vezes após a disseminação da semente transgênica.

Liberação de semente resistente ao glifosato aumentou em 15 vezes o uso do pesticida em todo o mundo. Foto: © Bruno Kelly/Greenpeace.

“A adoção de novas tecnologias pode ser capaz de gerar ganhos enormes de produtividade, renda, crescimento econômico, mas é muito difícil medir as consequências disso”, afirma Rocha, que defende uma análise mais criteriosa das substâncias utilizadas no Brasil. “Tem um custo que é relativamente alto, e estamos falando da saúde da população”. 

O que se tem visto no país, no entanto, é um afrouxamento da regulação do uso de agrotóxicos. Após o libera-geral do governo de Jair Bolsonaro, que aprovou 2.182 pesticidas em quatro anos, em 2023 o Congresso brasileiro aprovou o chamado PL do Veneno, projeto de lei que limita o papel da Anvisa e do Ibama no registro de novos agrotóxicos. 

Os pontos mais polêmicos do PL chegaram a ser vetados pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas os vetos foram derrubados pelos parlamentares. “Tem um Congresso dominado pelo agro e que está aprovando estas leis”, lamenta Pignati. “O agro não quer saber se está contaminando água, matando gente, causando má formação, câncer. O agro quer lucro.”

Acoplada à bancada ruralista, a indústria dos agrotóxicos tem um dos lobbies mais fortes de Brasília. Segundo um levantamento da Fiquem Sabendo em parceria com O Joio e O Trigo, representantes do governo federal tiveram 752 encontros com empresas, associações e lobistas do setor entre outubro de 2022 e julho de 2024, o equivalente a um encontro a cada 4 horas e 48 minutos. 

Em meados de agosto, um grupo de ONGs, partidos políticos e sindicatos protocolou uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a derrubada do PL do Veneno.


Fonte: Mongabay

O lobby mortal da indústria de agrotóxicos

Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada em propriedades rurais estava fortemente associada à incidência de câncer. Isso vem logo após um forte lobby da indústria de pesticidas para limitar sua responsabilidade nos processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos

danger pesticides

Um aviso colocado na borda de um campo de aipo para indicar que o campo não era seguro para entrada pouco depois da aplicação de pesticidas no Vale de Salinas, Califórnia, no dia 7 de julho de 2023. (Jack Clark / Design Pics Editorial / Universal Images Group via Getty Images)

Por Lois Parshley, Tradução Sofia Schurig, para a “Jacobina” 

Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada nas fazendas estava fortemente associada à incidência de muitos tipos de câncer — não apenas para os agricultores e suas famílias, mas para comunidades inteiras. Isso vem logo após lobby significativo da indústria de agrotóxicos na primavera para limitar sua responsabilidade por processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos.

A análise recém-lançada mostrou que “os agrotóxicos agrícolas podem aumentar seu risco para alguns tipos de câncer tanto quanto o tabagismo”, diz o coautor Isain Zapata, professor associado de pesquisa e estatísticas na Rocky Vista University, no Colorado. Por exemplo, viver em lugares com alto uso de pesticidas aumentou o risco de câncer de cólon e pâncreas em mais de 80%, resultados que surpreenderam até mesmo os pesquisadores.

“Na minha opinião, isso é loucura”, disse Zapata, acrescentando que eles não esperavam encontrar uma associação tão significativa.

A ideia para a pesquisa surgiu de um dos alunos de Zapata, um estudante de medicina que cresceu em uma fazenda. Os cientistas obtiveram dados sobre o uso de sessenta e nove pesticidas diferentes a partir de pesquisas conduzidas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Eles então compararam esses dados com as taxas de incidência de câncer por condado em todo o país, utilizando bases de dados do Instituto Nacional de Saúde e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças de 2015 a 2019.

Finalmente, ajustaram a análise para outros fatores que poderiam ter contribuído, incluindo disparidades socioeconômicas. Os resultados foram publicados na quinta-feira no jornal acadêmico Frontiers in Cancer Control and Society (Fronteiras no Controle do Câncer e na Sociedade).

Os pesquisadores afirmam que este estudo é a primeira avaliação abrangente do risco de câncer associado aos agrotóxicos em nível populacional. Zapata explicou que eles foram cuidadosos para não atribuir danos a compostos ou empresas específicas, pois na realidade as pessoas frequentemente estão expostas a múltiplos agrotóxicos, complexos “coquetéis” que podem ter impacto muito além do local onde foram aplicados originalmente. O vento pode levar resíduos dos campos ou a água da chuva pode carregar substâncias químicas para o lençol freático, ele explica.

“Pense nisso como o escapamento em uma cidade”, diz ele. “Você pode ser exposto a ele mesmo sem estar dirigindo.”

Os pesticidas são atualmente parte integrante do sistema agrícola industrializado do país: de acordo com o USDA, cerca de um bilhão de libras de agrotóxicos são usados a cada ano, em quase todos os estados do país.

A indústria argumenta que as regulamentações atuais de pesticidas são rigorosas e que o governo deveria “controlar as ervas daninhas, não a agricultura”. No entanto, trabalhadores rurais relataram lesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados. Enquanto isso, produtos químicos associados à infertilidade são amplamente encontrados em alimentos como Cheerios.

“Trabalhadores rurais relataram lesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados.” 

O novo estudo contribui para um longo debate científico sobre quão prejudiciais os pesticidas podem ser, um corpo de pesquisa que alguns cientistas afirmam ter sido prejudicado pela indústria, retardando a regulamentação. Leland Glenna, um professor que estuda os impactos sociais e ambientais da ciência e tecnologias agrícolas na Penn State, e que não esteve envolvido no estudo da Frontiers, disse que esse tipo de análise epidemiológica é crucial porque é “difícil contestar tendências populacionais amplas”.

Frequentemente, a toxicidade dos pesticidas é determinada em estudos controlados com animais, já que existem preocupações éticas com testes de produtos químicos em pessoas. Mas expor ratos de laboratório a pesticidas não necessariamente demonstra o que essas substâncias podem fazer com seres humanos que vivem e trabalham regularmente com elas.

Para complicar ainda mais, a Agência de Proteção Ambiental (Environmental Protection Agency – EPA), que monitora e aprova pesticidas, estuda apenas ingredientes ativos isoladamente. Eles ignoram outros ingredientes inertes que podem ainda conter substâncias nocivas como PFAS (conhecidos como “produtos químicos eternos”) e não examinam as formulações finais do produto — apesar de evidências substanciais de que a combinação de ingredientes pode torná-los mais tóxicos.

Veneno sob medida

Um dos pesticidas mais controversos em uso hoje é o glifosato, também conhecido pelo nome comercial Roundup. Sua fabricante original, a Monsanto, sediada no Missouri, foi adquirida pela empresa multinacional de biotecnologia Bayer em 2018, desenvolvendo interesse por herbicidas durante os anos 1960.

Eles foram um dos principais fabricantes do Agente Laranja, um desfolhante amplamente utilizado durante a Guerra do Vietnã para eliminar a cobertura vegetal para o Viet Cong, que o Exército dos EUA estava combatendo. (Cientistas levantaram preocupações sobre o Agente Laranja já em 1965; mais tarde foi comprovado que causava impactos severos à saúde, incluindo defeitos de nascimento e câncer. Um dos ingredientes do Agente Laranja, o 2,4-D, ainda é amplamente usado como herbicida nos Estados Unidos, incluindo em produtos comuns de cuidado com o gramado.)

Após a guerra, a Monsanto desenvolveu o Roundup, que foi promovido como uma alternativa mais segura a outros herbicidas. O glifosato mata as plantas inibindo uma enzima que as plantas usam para produzir energia. Embora os humanos não possuam essa enzima, algumas pesquisas descobriram que ela compartilha caminhos com as bactérias intestinais, perturbando nosso microbioma. Isso pode levar à inflamação e estresse oxidativo, danificando o DNA celular.

Com o tempo, esses danos podem se acumular, desencadeando mutações que causam câncer. Mesmo em níveis muito baixos de exposição, o glifosato pode perturbar o sistema endócrino, acelerando o crescimento de tumores.

Nos anos 1990, a Monsanto começou a vender sementes geneticamente modificadas para que os agricultores pudessem pulverizar o Roundup sobre as colheitas, e apenas as ervas daninhas morressem. Quanto à toxicidade de pesticidas, diz Lori Ann Burd, diretora do programa de saúde ambiental da organização sem fins lucrativos Center for Biological Diversity, o glifosato está longe de ser o pior. Mas ela acrescenta que o veneno está na quantidade da dose. “Desenvolvemos todo um sistema agrícola em torno das culturas resistentes ao Roundup”, diz Burd, “e por causa disso, usamos uma quantidade tão absurdamente grande que está causando danos enormes”.

O glifosato é agora o  agrotóxico mais usado nos EUA, com um mercado global de 10 bilhões de dólares. Ele foi detectado em níveis inseguros em águas pluviais e em mulheres grávidas sem exposição conhecida. E assim como o Agente Laranja, a Monsanto negou publicamente os riscos associados por muitos anos — mesmo que documentos internos da empresa mostrem que tinha razões para acreditar que o glifosato era perigoso desde pelo menos 1983.

Em um estudo de 2021, Glenna da Penn State descobriu que a Monsanto, agora de propriedade da Bayer, anteriormente tentou manipular o processo de revisão por pares científicos. Ele documentou os esforços da empresa usando e-mails internos divulgados durante um processo judicial, mostrando que a Monsanto usou autores fantasmas e conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas, com o objetivo aparente de “manipular o processo regulatório para poder continuar vendendo um produto que a pesquisa da própria empresa indicava ser perigoso”.

“A Monsanto utilizou autores fantasmas e conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas.” 

Em resposta a um pedido de comentário, Jessica Christiansen, chefe de comunicações de ciência da colheita da Bayer, escreveu em uma declaração por e-mail: “Nós apoiamos um sistema regulatório previsível e baseado na ciência e a certeza e disponibilidade que ele proporciona aos agricultores americanos”.

Glenna explicou que tanto o público quanto os reguladores tendem a confiar em estudos revisados por pares e desconfiar de pesquisas patrocinadas por empresas. Por isso, em um e-mail, um funcionário da Monsanto explicitamente diz que o objetivo de não listar pessoas da empresa como autores é “ajudar a aumentar a credibilidade”. Outros e-mails mostram interpretações seletivas de resultados de toxicidade e mais preocupação em evitar estudos de acompanhamento do que com a segurança pública.

A EPA baseou-se nesses tipos de estudos quando concluiu em 2016 que o glifosato “provavelmente não é carcinogênico para os humanos” e emitiu uma decisão de reaprovação do agrotóxico em 2020. Isso contradiz diretamente a pesquisa das principais autoridades globais na Organização Mundial da Saúde (OMS), que encontraram o glifosato como um provável carcinógeno em 2015. A EPA dependeu muito de estudos regulatórios não publicados, enquanto a organização de saúde internacional baseou-se principalmente em trabalhos revisados por pares.

Em 2022, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito determinou que a decisão da EPA foi baseada em procedimentos defeituosos, observando que o próprio painel consultivo científico da agência havia criticado os critérios que ela utilizou. Eles exigiram que a EPA reavaliasse o pesticida; dois anos depois, isso ainda não foi feito.

Liberdade sem fiscalização

Essas revisões de registro de agrotóxico são rotineiramente atrasadas. Parte do problema, segundo Glenna, é que os reguladores precisam depender das indústrias para liberar informações toxicológicas porque estas são consideradas informações proprietárias. “[É] propriedade intelectual”, diz ele, “então cientistas de universidades ou financiados pelo público simplesmente não têm a capacidade de realizar essa pesquisa”.

Quando um agrotóxico é registrado pela primeira vez com os reguladores federais, a grande maioria das informações disponíveis sobre ele é científica e conduzida pela empresa que o fabricou. “A presunção nos EUA é a favor da segurança do produto químico”, diz Burd. Em outros lugares, como na União Europeia, “os produtos químicos não são considerados seguros por padrão; adotam uma abordagem muito mais precaucionária”.

Na verdade, dacordo com a legislação federal, a EPA só pode recusar o registro de um pesticida se seus riscos forem maiores do que os benefícios que ele proporciona, medidos pela produtividade ou qualidade das colheitas. Como resultado, cerca de um terço do uso de agrotóxicos nos EUA envolve produtos químicos proibidos na China, Brasil e União Europeia.

Há também uma porta giratória entre a agência e a indústria que regula. Alexandra Dunn, ex-administradora assistente do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição, por exemplo, agora lidera a CropLife America, o principal grupo de lobby da indústria de pesticidas. Ela é apenas a mais recente; desde 1974, todos os diretores do escritório passaram a trabalhar para empresas de agrotóxicos.

Esta influência da indústria dentro da agência é exacerbada pelo fato de que cerca de 40% do financiamento do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA vem de taxas de registro — pagas pelas próprias empresas.

“O Projeto 2025 deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam ‘baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos’.”

Monsanto descreveu a maneira como aproveitou esse ambiente regulatório como “Liberdade para Operar”, um princípio operacional que definiu em e-mails internos da empresa como “as ações regulatórias, técnicas, de marketing e comunicação para estabelecer um ambiente mais favorável para garantir as autorizações de nossos produtos e tecnologias”.

Essas ações incluíram premiar funcionários por defender a empresa após a designação do Roundup como cancerígenos pela OMS, e manipular relatórios de exposição no local de trabalho de funcionários doentes.

Os reguladores podem em breve estar dando um passo adicional para trás. O Projeto 2025, um relatório de políticas conservadoras desenvolvido por interesses corporativos para moldar uma futura administração de Donald Trump, afirma que os programas da EPA “são constantemente pressionados para banir o uso de certos produtos químicos, geralmente baseados no medo como resultado de ciência mal caracterizada ou incompleta”. Ele deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam “baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos”.

Em última análise, ele advoga que “[os] agricultores e o sistema alimentar devem estar livres de qualquer intervenção governamental desnecessária” e que os reguladores agrícolas deveriam priorizar “a liberdade pessoal, a propriedade privada e o Estado de Direito”.

Ameaça existencial

Embora a Bayer insista que o produto que herdou de sua fusão de 2018 com a Monsanto é seguro, enfrenta mais de 170.000 processos judiciais relacionados ao glifosato, mesmo após um acordo de $10 bilhões em 2020 com milhares de vítimas que afirmam que o pesticida causou suas doenças. Nesta primavera, a gigante de biotecnologia tem feito lobby no Congresso para restringir sua responsabilidade por processos judiciais relacionados à exposição ao glifosato, incluindo o trabalho para redigir uma linguagem sobre o assunto no próximo projeto de lei agrícola.

Segundo o Washington Post, os deputados Dusty Johnson (R-SD) e Jim Costa (D-CA) trabalharam em estreita colaboração com a empresa para redigir a medida que impede futuros pagamentos por processos judiciais relacionados ao glifosato, que foi posteriormente adicionada ao projeto de lei agrícola, responsável por definir a política agrícola do país a cada cinco anos e previsto para votação neste outono. O comitê de ação política da empresa também contribuiu para as campanhas de Johnson e Costa por várias eleições.

Durante um discurso em uma conferência nesta primavera, o CEO da Bayer, Bill Anderson, chamou a potencial responsabilidade legal pelos impactos à saúde de seus pesticidas de uma “ameaça existencial”. Agora, está considerando usar uma estratégia chamada Texas two-step“. Nesse movimento legal, uma empresa se divide em duas, sendo que uma metade mantém os ativos e a outra os passivos. Esta última então entra com pedido de falência, forçando as pessoas que buscam compensação a entrar na justiça de falências, o que frequentemente resulta em acordos adiados ou menores.

Além de seu lobby federal, a Bayer intensificou seus esforços de lobby estado por estado. Ela forneceu linguagem semelhante para projetos de lei apresentados este ano eMissouriFlóridaIdaho e Iowa, que protegeriam as empresas de pesticidas de futuros processos judiciais relacionados ao glifosato, em parte excluindo essas empresas dos requisitos estaduais de informação sobre seus potenciais perigos ou riscos.

Em sua declaração ao Lever, Christiansen da Bayer escreveu que o “apoio da empresa a legislações como essa, tanto em nível federal quanto estadual, ajuda a proteger a integridade do processo regulatório e garante que as conclusões minuciosas e baseadas cientificamente da EPA sejam a base para os rótulos de proteção de cultivos”.

Em Idaho, o vice-presidente de assuntos governamentais estaduais e locais da Bayer apresentou pessoalmente o projeto de lei que a empresa esperava aprovar em um comitê do Senado. Para angariar apoio ao projeto de lei, a empresa aumentou seus gastos no estado, gastando mais de US$8.000 e empregando pelo menos três pessoas. Ela veiculou anúncios em jornais locais proclamando: “Apoie os Agricultores de Idaho, Não Advogados de Julgamento”. A Bayer também criou uma coalizão multiestadual chamada Modern Ag Alliance, afirmando que oitocentos empregos em Idaho estão ligados à produção de glifosato, juntamente com quinhentos em Iowa.

As iniciativas legislativas foram derrotadas em Idaho e Flórida, mas passaram pelo Senado estadual em Iowa e ainda estão tramitando na casa legislativa de Missouri.

Essas táticas fazem parte do plano de cinco partes da empresa para lidar com sua responsabilidade, o qual está sendo usado para tranquilizar acionistas preocupados. Segundo documentos da empresa, o primeiro passo é “buscar uma decisão positiva da Suprema Corte dos EUA”.

Assim como em seus projetos de lei estaduais propostos, a empresa argumenta que, como a EPA até agora concluiu que o glifosato não causa câncer e não exige um rótulo de aviso, as leis estaduais de falha em avisar devem ser preteridas. Eles entraram com duas ações judiciais federais com esse objetivo, que atualmente estão em tramitação nos tribunais.

Burd diz que não está surpresa com as manobras da Bayer, mas “o que é decepcionante é que há tantos legisladores dispostos a apoiá-las”.

Embora o glifosato tenha um perfil alto, Zapata, da Rocky Vista University, diz que o problema final é muito mais complexo do que apenas um pesticida, ou mesmo uma empresa tão influente como a Bayer.

“O fato de não ouvirmos sobre outras coisas não significa que não seja um problema”, ele diz. É por isso que seu estudo recente tentou capturar o quadro geral de como, coletivamente, esses compostos estão de fato influenciando a saúde das pessoas.

Ele afirma que suas motivações são apolíticas — e que há muita responsabilidade a ser compartilhada. “Se queremos ir ao supermercado e comprar tomates baratos, provavelmente eles serão produzidos usando um sistema muito industrializado”, ele diz.

Ao mesmo tempo, ele reconhece que divulgar esse tipo de risco tem um valor econômico e ético. “Se você compra terra em uma área com alta capacidade agrícola, está assumindo também parte desse risco”, ele explica. E as pessoas que têm a capacidade de escolher viver em outro lugar, ou que têm recursos suficientes para não precisar trabalhar em empregos mal remunerados com maior exposição, estão simplesmente terceirizando esse perigo.

“Se você não mora naquele lugar, outra pessoa terá que morar”, diz Zapata.


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Sobre a autora:  Lois Parshley é uma jornalista investigativa premiada. Seu trabalho já foi publicado na New Yorker, no New York Times, na Harper’sNational Geographic e mais.


Fonte: Jacobina

Exposição a agrotóxicos é tão arriscada quanto fumar para a contração de câncer, mostra estudo

agrotoxico-brasilPor Shannon Kelleher para o “The New Lede”

Pessoas que não cultivam, mas vivem em comunidades agrícolas dos EUA onde agrotóxicos são usados ​​nas fazendas, enfrentam um risco maior de câncer, tão significativo quanto se fossem fumantes, de acordo com um novo estudo.

O estudo , publicado em 25 de julho no periódico Frontiers in Cancer Control and Society , analisou dados de incidência de câncer de quase todos os condados dos EUA e observou como esses dados correspondiam aos dados federais sobre o uso de agrotóxicos . Os pesquisadores relataram que descobriram que quanto maior o uso de agrotóxicos, maior o risco para cada tipo de câncer que os pesquisadores analisaram.

cancer risk

“O uso de agrotóxicos tem um impacto significativo em todos os tipos de câncer avaliados neste estudo (todos os cânceres, câncer de bexiga, câncer de cólon, leucemia, câncer de pulmão, linfoma não-Hodgkin e câncer de pâncreas); e essas associações são mais evidentes em regiões com alta produtividade agrícola”, afirma o estudo.

“Cânceres associados a agrotóxicos parecem estar no mesmo nível de vários tipos de câncer associados ao tabagismo”, afirma o estudo. Está bem estabelecido que fumar aumenta o risco de câncer, com pelo menos de 70 dos milhares de produtos químicos na fumaça do tabaco considerados cancerígenos.

As descobertas se somam a uma riqueza de pesquisas sobre pesticidas e riscos à saúde humana que apontam para deficiências nas regulamentações de pesticidas dos EUA, disse Dana Barr, pesquisadora de saúde ambiental da Universidade Emory que não estava envolvida no estudo.

“No momento, não acho que as regulamentações para agrotóxicos sejam as mais protetoras da saúde, e elas parecem presumir que um produto químico é seguro até que seja provado que é tóxico, e não o contrário”, disse ela. “Acho que precisamos de uma reforma política que coloque o ônus sobre os fabricantes para fazer um trabalho melhor de avaliação da segurança antes de permitir novos registros.”

Os autores disseram que analisaram dados do Serviço Geológico dos EUA (USGS) disponíveis para 69 pesticidas em milhares de condados, juntamente com dados sobre câncer dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e dos Centros de Controle de Doenças (CDC).

“Ingenuamente, pensamos que algumas das taxas de [risco] de câncer não seriam afetadas”, disse Isain Zapata, professor associado da Rocky Vista University, College of Osteopathic Medicine no Colorado e um dos autores do estudo. “Foi aí que encontramos nossa surpresa”, disse ele.

“Falamos sobre pesticidas serem ruins, temos exemplos de agrotóxicos específicos tendo alguns efeitos muito extremos”, disse Zapata. Mas isso não afeta apenas pessoas que são expostas diretamente enquanto trabalham com [pesticidas].”

Além dos agricultores

Pesquisas anteriores associaram agrotóxicos a vários tipos de câncer.

O glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup e o herbicida mais utilizado no mundo, foi classificado como um provável carcinógeno humano pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC).

Mais de 100.000 demandantes processaram a Monsanto e sua proprietária Bayer AG alegando que a exposição ao Roundup e produtos relacionados os fez desenvolver NHL. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) afirma que não há evidências de que o glifosato cause câncer em humanos.

Dicamba, um ingrediente ativo em vários outros herbicidas populares, foi associado a vários tipos de câncer em um estudo do NIH de 2020. Em fevereiro, um juiz federal no Arizona proibiu três herbicidas à base de dicamba feitos pela Bayer, BASF e Syngenta e decidiu que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) violou a lei ao permitir seu uso.

O novo estudo publicado hoje não faz parte do Agricultural Health Study de longa duração , que é uma colaboração do National Cancer Institute, do National Institute of Environmental Health Sciences e da EPA. Desde 1993, o AHS estuda câncer e outros resultados de saúde em 89.000 fazendeiros licenciados para pulverizar pesticidas na Carolina do Norte e Iowa, bem como em seus cônjuges.

Em 2022, um estudo da AHS descobriu maiores taxas de câncer renal em agricultores que usavam frequentemente certos agrotóxicos , incluindo clorpirifós, paraquate e atrazina, bem como maiores taxas de câncer de tireoide em agricultores que pulverizavam o inseticida lindano e naqueles que usavam o fungicida metalaxil.

Mas, embora o Estudo de Saúde Agrícola tenha feito muitas contribuições ao conhecimento sobre a ligação entre pesticidas e câncer em agricultores, ele não leva em consideração as pessoas que vivem em áreas agrícolas, mas não cultivam.

“Nosso estudo visa preencher essa lacuna”, afirma a nova avaliação.

“Poucas áreas poupadas”

Para entender o quanto o uso de agrotóxicos contribui para o risco de câncer em diferentes regiões dos EUA, Zapata e colegas primeiro executaram uma análise estatística para mapear padrões de uso de pesticidas agrícolas nos EUA usando dados de nível de condado do USGS. Em seguida, eles usaram dados do CDC e do NIH para determinar como esses padrões de uso de agrotóxicos correspondiam às incidências de câncer.

Eles observaram o maior risco elevado em estados conhecidos pela alta produção de milho, incluindo o principal estado produtor de milho dos EUA, Iowa, juntamente com Illinois, Nebraska, Missouri, Indiana e Ohio.

O estudo observou, no entanto, que os efeitos da exposição a agrotóxicos estavam “espalhados por todo o país, com poucas áreas poupadas”.

Embora os estudos tenham se concentrado no uso de agrotóxicos como um todo, eles também descobriram que alguns produtos químicos específicos contribuíram mais para o risco de câncer de um condado do que outros. Por exemplo, riscos maiores de câncer de cólon e pâncreas foram encontrados em regiões onde o dicamba era popular, enquanto riscos maiores de câncer em geral, bem como câncer de cólon e pâncreas, especificamente, foram observados em regiões onde o glifosato era amplamente usado.

“Precisamos educar as pessoas”, disse Zapata. “Precisamos continuar fazendo pesquisas para termos melhores maneiras de usar esses produtos ou avaliar os efeitos desses produtos.”


Fonte: The New Lede