Pesquisa encontra agrotóxicos em biscoito maisena, macarrão instantâneo, empanado e hambúrguer à base de plantas

Idec apresenta resultados do terceiro volume do estudo ‘Tem Veneno Nesse Pacote’, que analisou 24 ultraprocessados e identificou resíduos de agrotóxicos em metade das amostras

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Por Idec

De 24 alimentos ultraprocessados produzidos no Brasil, com destaque para aqueles com apelo ao público infantil, foram encontrados resíduos de agrotóxicos em metade das amostras.

O número alarmante está no terceiro volume da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”, realizada pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) e que identifica a presença de resíduos de agrotóxicos em produtos alimentícios ultraprocessados comuns na rotina dos brasileiros. 

O estudo está disponível gratuitamente na página idec.org.br/veneno-no-pacote, juntamente com os dois primeiros volumes, lançados em 2021 e 2022. 

Na terceira edição, foram analisados 24 ultraprocessados de oito categorias: macarrão instantâneo, biscoito maisena, presunto cozido, bolo pronto sabor chocolate, sobremesa petit suisse sabor morango, bebida láctea sabor chocolate, hambúrguer à base de plantas e empanado à base de plantas com sabor de frango. 

Em cada categoria, foram selecionados os três produtos mais vendidos do mercado. Os testes foram realizados por um laboratório certificado pela Coordenação Geral de Acreditação (CGCRE) do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), credenciado junto ao Ministério da Pecuária e Abastecimento (MAPA) e utilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em testes de resíduos de agrotóxicos. 

Tem Veneno nesse Pacote | Idec - Instituto Brasileiro de Defesa do  Consumidor

O teste escolhido é um dos mais abrangentes, com capacidade de detectar resíduos de até 563 agrotóxicos diferentes. 

A coordenadora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, Laís Amaral, explica que as categorias com produtos à base de plantas foram incluídas no estudo mais recente em razão do avanço da indústria, que se apropria de uma fatia do mercado considerada “novidade”, apresentada como alternativa ao consumo de carne, enquanto vende uma variação dos mesmos ultraprocessados de sempre, e ainda utilizando matérias-primas produzidas com o uso de agrotóxicos.

“Precisamos alertar para o perigo duplo do consumo de ultraprocessados. Eles são produtos com excesso de nutrientes críticos, relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, doenças do coração e hipertensão, além da presença de aditivos alimentares. E também temos consistentemente encontrado traços de contaminação com agrotóxicos nesses produtos, ou seja, são venenos tão potentes que continuam ali mesmo depois dos processos de produção nas indústrias”, explica Amaral. 

Resultados

Ao final do estudo, 12 dos 24 produtos analisados apresentaram resíduos de agrotóxicos. Os ultraprocessados com mais traços de agrotóxicos, com quatro tipos diferentes em cada amostra, foram: 

  • biscoito maisena Marilan
  • biscoito maisena Triunfo

Foram encontrados resíduos de três agrotóxicos diferentes nos produtos: 

  • Hambúrguer à base de plantas Sadia
  • Empanado à base de plantas sabor frango Seara
  • Macarrão instantâneo Nissin
  • Macarrão instantâneo Renata
  • Bolo pronto sabor chocolate Ana Maria

Foram encontrados resquícios de dois agrotóxicos no produto: 

  • Empanado à base de plantas sabor frango Sadia

E foi identificada a presença de um tipo de agrotóxico nos seguintes produtos: 

  • Hambúrguer à base de plantas Fazenda Futuro
  • Empanado à base de plantas sabor frango Fazenda Futuro
  • Presunto cozido Aurora
  • Bolo pronto sabor chocolate Panco
  • Bebida láctea sabor chocolate Pirakids

O glifosato foi o agrotóxico que mais apareceu nos testes, em sete das 24 amostras. Laís Amaral explica que o glifosato é o herbicida mais vendido no mundo, tido como “provavelmente carcinogênico ou capaz de causar câncer”, de acordo com a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apenas a categoria de sobremesa petit-suisse sabor morango não apresentou resíduos de agrotóxicos em nenhuma das amostras analisadas.

E a farinha de trigo, encontrada tanto na crosta dos empanados, quanto no biscoito maisena e no macarrão instantâneo continua sendo um ingrediente com alta prevalência de contaminação por agrotóxicos, como já havia apontado a análise do volume 2 do “Tem Veneno Nesse Pacote”. 

“Os testes que não indicaram resíduos de agrotóxicos não significam, comprovadamente, que esses ultraprocessados não utilizam matérias-primas com uso de venenos agrícolas. Mostram apenas que as amostras analisadas não contêm resíduos de agrotóxicos”, explica Amaral. 

Leonardo Pillon, advogado do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, lembra que o instituto vem criticando a flexibilização do uso dessas substâncias há muitos anos. Junto a outras organizações, o Idec integra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. 

“Cabe a crítica também aos deputados federais e senadores que, mesmo no meio de uma catástrofe climática diretamente relacionada com o ritmo de desmatamento e a manutenção de retrocessos na legislação ambiental, derrubaram vetos no Pacote do Veneno para concentrar poderes nas mãos do MAPA. Isso deve fazer com que as decisões futuras passem a ser facilmente controladas pelo lobby ruralista e corporações de agrotóxicos, acelerando ainda mais o descontrole desses produtos”, afirma. 

O advogado do Idec reforça que quem pagará o preço é a própria população, em especial pessoas negras, periféricas, mulheres, crianças e povos originários e tradicionais, seja por serem mais atingidos em eventos climáticos extremos, ou por serem cada vez mais expostos a uma carga maior de agrotóxicos. 

Com a finalização do volume 3 do estudo “Tem Veneno Nesse Pacote”, o Idec enviou notificações para todas as empresas responsáveis pelos produtos analisados em que foram encontrados agrotóxicos. Os dados também foram enviados à Anvisa.

Os interessados em baixar apenas o Volume 3, podem clicar [Aqui!].


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Fonte: Idec

Estudo encontra altos níveis de glifosato em amostras de esperma humano

Pesquisa encontrou evidências de impactos no DNA e uma correlação entre os níveis de glifosato e o estresse oxidativo no plasma seminal, um dos fatores mais importantes na fertilidade masculina

espermaIlustração 3D de espermatozoides nadando em direção ao óvulo — Foto: Getty Images 

Por Redação, do Um Só Planeta

Um novo estudo científico conduzido a partir de dados de uma clínica de fertilidade francesa revelou que mais de 55% das amostras de esperma continham níveis elevados de glifosato, o herbicida mais comum do mundo, levantando novas questões sobre o impacto do produto químico na saúde reprodutiva.

O artigo surge num momento em que os investigadores procuram respostas para a razão pela qual as taxas de fertilidade globais estão caindo, e muitos suspeitam que a exposição a produtos químicos tóxicos como o glifosato é um fator significativo do declínio. A nova investigação também encontrou evidências de impactos no DNA e uma correlação entre os níveis de glifosato e o estresse oxidativo no plasma seminal.

O estresse oxidativo “é considerado um dos fatores mais importantes na fertilidade masculina, regulando a vitalidade e a funcionalidade dos espermatozóides dos mamíferos”, escreveram os autores.

O glifosato é usado em uma ampla variedade de culturas alimentares e em ambientes residenciais em diversos países. O produto à base de glifosato mais popular hoje é o herbicida Roundup, que tem estado no centro de batalhas legais e regulatórias nos últimos anos. Uma pesquisa do governo dos EUA de 2023 encontrou genotoxicidade em agricultores com altos níveis do herbicida no sangue, sugerindo uma associação entre ele e o câncer.

Brasil lidera consumo de agrotóxicos, incluindo produtos proibidos na Europa

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e dobrou a quantidade dessas substâncias químicas utilizadas nas lavouras do país em pouco mais de uma década: de 360 mil toneladas em 2010 saltou para 720 mil toneladas em 2021.

O país também ocupa o topo do ranking global em termos de uso por área: gastou 10,9 quilos de agrotóxicos por hectare em 2021 – mais do que o triplo dos Estados Unidos (2,8 quilos por hectare) e mais do que o dobro da Itália (5,4 quilos por hectare), segundo dados da FAO (agência da ONU para alimentação).

O glifosato é agrotóxico mais vendido no Brasil. O resíduo autorizado desse herbicida na água potável por aqui é cinco mil vezes maior do que o permitido no bloco europeu.


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Fonte: Um só planeta

Queda na locomoção e falhas no sistema imune: estudo mostra como agrotóxicos afetam abelhas nativas

Após 48 horas de exposição aos agrotóxicos imidacloprido, piraclostrobina e glifosato, insetos da espécie Melipona scutellaris apresentaram alterações morfológicas e comportamentais que podem levar ao enfraquecimento das colmeias, comprometendo a polinização e a produção de alimentos

51678O grupo de abelhas alimentado com solução contaminada caminhou menos, se movimentou mais lentamente e apresentou alterações morfológicas no corpo gorduroso (foto: Graziele Luna)

Julia Moióli | Agência FAPESP 

Estudo conduzido por pesquisadores das universidades Estadual Paulista (Unesp), Federal de São Carlos (UFSCar) e Federal de Viçosa (UFV) revelou como três agrotóxicos comumente utilizados na agricultura – imidacloprido, piraclostrobina e glifosato – afetam a espécie de abelha nativa sem ferrão Melipona scutellaris: sozinhos ou em combinação, os compostos modificam a atividade locomotora dos animais e reduzem suas defesas. Os resultados do trabalho foram publicados recentemente na revista científica Environmental Pollution.

O uso indiscriminado de agrotóxicos e suas consequências para a sobrevivência das abelhas são um tema cada vez mais debatido e estudado em todo o mundo. No entanto, a maioria dos trabalhos científicos relacionados envolve espécies europeias e norte-americanas. Aqui no Brasil, o foco tem sido espécies nativas sem ferrão, como a Melipona scutellaris, que desempenham papel vital na polinização de diversas plantas silvestres e culturas com relevância econômica.

Neste trabalho, conduzido no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP e apoiado por meio de dois projetos (17/21097-3 e 21/09996-8), um grupo de pesquisadores avaliou os efeitos subletais – ou seja, que não causam a morte – dos pesticidas imidacloprido, piraclostrobina e glifosato no comportamento, na morfologia e na fisiologia da espécie. Para isso, em laboratório, expuseram oralmente os animais às substâncias de forma isolada e em combinação por 48 horas e, em seguida, compararam os resultados aos de um grupo-controle.

O perigo desses agrotóxicos para as abelhas ficou claro: o grupo alimentado com solução contaminada caminhou menos, se movimentou mais lentamente e apresentou alterações morfológicas no corpo gorduroso, órgão relacionado ao sistema imunológico desses insetos.

“Observamos que, tanto em combinação quanto isolados, os agrotóxicos interferiram seriamente no comportamento das abelhas, causaram danos no corpo gorduroso e comprometeram as atividades tanto de proteínas importantes para o sistema imune quanto para a sobrevivência celular”, conta Cliver Fernandes Farder-Gomes, pesquisador do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFSCar e primeiro autor do estudo.

Segundo Farder-Gomes, tais resultados indicam que, mesmo que essas abelhas sobrevivam à exposição, elas passarão a ter sistemas imunes deprimidos, que não funcionam adequadamente no combate a bactérias, o que pode aumentar a propensão a infecções.

“A mortalidade das abelhas sempre causa um choque, mas é importante lembrar que, muitas vezes, sobreviver aos agrotóxicos pode ser ainda mais problemático porque enfraquece e diminui as colmeias, impactando não só a produção de mel como a de frutas e legumes, por conta do déficit de polinização”, destaca Roberta Cornélio Ferreira Nocelli, professora do CCA-UFSCar, coordenadora do grupo de trabalho para o desenvolvimento de métodos para testes de toxicidade em abelhas nativas brasileiras junto à Comissão Internacional para as Relações Planta-Polinizador (ICPPR, na sigla em inglês) e coautora do trabalho.

Políticas públicas

Para complementar esses resultados e estabelecer um panorama completo dos malefícios dos três pesticidas, os pesquisadores pretendem agora analisar sua influência na expressão de outras proteínas e também testar a ação das substâncias em espécies distintas de abelhas nativas.

De acordo com Osmar Malaspina, professor do Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Rio Claro, a ideia é que, por revelar impactos com consequências de longo prazo tanto na biodiversidade quanto na segurança alimentar, o estudo realizado por Farder-Gomes dê suporte aos órgãos públicos para o estabelecimento de políticas mais restritivas, como tem acontecido nas últimas décadas com outras pesquisas do Grupo de Pesquisa em Ecotoxicologia e Conservação de Abelhas (Leca) e o Grupo de Pesquisa Abelhas e os Serviços Ambientais (ASAs), liderados por ele e por Nocelli.

“Nossos mais de 80 artigos e livros, entre outros trabalhos, têm sido utilizados ao longo dos anos, principalmente pelo Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], para restringir o uso de agrotóxicos – foi o caso, por exemplo, do inseticida fipronil, que tem sido o maior responsável pela mortalidade de abelhas”, diz Malaspina.

Nocelli faz questão de destacar que não se trata de comprometer a agricultura brasileira – pelo contrário, a função dos estudos científicos é melhorá-la. “Nosso objetivo é sempre pensar em uma produção agrícola mais sustentável, harmonizando agricultura e conservação, pois só assim teremos segurança alimentar no futuro”, finaliza.

O artigo Exposure of the stingless bee Melipona scutellaris to imidacloprid, pyraclostrobin, and glyphosate, alone and in combination, impair its walking activity and fat body morphology and physiology pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0269749124004974?dgcid=rss_sd_all.


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Fonte: Agência Fapesp

Destino da Bayer: tudo depende do glifosato

Dados trimestrais da Bayer: os preços dos herbicidas caíram. Menos, apesar da destruição de empregos. Iniciativa legislativa da multinacional alemã visa acabar com processos judiciais nos EUA

194915O grupo sediado em Leverkusen ainda enfrenta 57 mil ações judiciais de vítimas do glifosato (aplicação de glifosato no Brasil), Foto: Adriano Machado/Reuters

Por Jan Pehrke para o “JungeWelt”

Na terça-feira, o Grupo Bayer apresentou o seu balanço financeiro do primeiro trimestre de 2024. As vendas caíram 0,6%, para 13,7bilhões de euros, e os lucros caíram de 2,17 bilhõess de euros para apenas dois bilhões de euros. O CEO Bill Anderson viu isso como uma prova de sucesso. “Só em março abordei a necessidade de ação em quatro áreas. Dois meses depois fizemos progressos em todos os lados”, explicou o norte-americano. Ele havia implementado um programa de destruição de empregos na Bayer, “o novo modelo organizacional Dynamic Shared Ownership (DSO)”, e orgulhosamente apresentou números concretos pela primeira vez. “Só no primeiro trimestre cortamos 1.500 empregos, cerca de dois terços deles em níveis gerenciais”, disse o presidente da Bayer.

O declínio nas vendas se deve em grande parte aos preços mais baixos do glifosato. O lucro foi afetado principalmente pelo aumento das taxas de juro – as dívidas da empresa ascendem a 37,5 mil milhões de euros – e “em particular pelos efeitos da hiperinflação” na Argentina”. Como houve menos pagamentos de responsabilidade de produto por danos causados ​​pelos produtos químicos “Glifosato”, “PCB”, “Dicamba” e “Essure” no primeiro trimestre de 2024,  a corporação global tem novamente mais dinheiro.

De acordo com o relatório trimestral, a Bayer ainda enfrenta 57 mil ações judiciais movidas por vítimas do glifosato. No entanto, introduziu medidas para minimizar os encargos financeiros. A Bayer nomeou Lori Schechter, uma advogada, para o conselho de supervisão que limitou com sucesso os danos da crise dos opiáceos para a empresa farmacêutica McKesson. Além disso, de acordo com relatos da mídia, a multinacional sediada em Leverkusen está examinando a proposta do novo colega do conselho de supervisão de Schechter, Jeffrey Ubben, para evitar elevados custos legais através do pedido de falência parcial no estado do Texas. A legislação societária permite tal operação; nos círculos corporativos, ela é conhecida como “Texas Two-Step”.

Como se não bastasse, o gigante agrícola também desenvolve atividades legislativas.  A Bayer quer introduzir uma lei nos EUA que tornaria a classificação do glifosato como não cancerígeno pela agência ambiental estatal EPA vinculativa para os tribunais de cada estado e, desta forma, evitar futuras decisões contra ele. A Anderson & Co. já conseguiu conquistar mais de 80 associações agrícolas como organizações preliminares. “Queremos que os legisladores ouçam a voz dos agricultores americanos”, observou hipocritamente o CEO no seu discurso de terça-feira. Trata-se de “que a agricultura dos EUA é regulada por leis baseadas na ciência – e não pela indústria dos processos judiciais”.

O trabalho na Lex Bayer consumiu a maior parte do orçamento de lobby de US$ 7,35 milhões para os EUA em 2023, como disse o CFO Wolfgang Nickl à Coordenação Contra os Perigos da Bayer em 26 de abril, na assembleia geral anual da empresa. Nickl não teve problemas com tais investimentos. “A legislação e a política moldam as condições estruturais do nosso negócio. Como empresa global, temos a responsabilidade perante a sociedade como um todo de disponibilizar ativamente as nossas competências e conhecimentos e de apoiar os processos de tomada de decisão política com os nossos especialistas”, afirmou.


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Fonte: JungeWelt

Bayer contra os direitos humanos: em denúncia à OCDE, organizações documentam graves violações cometidas na América Latina

283518Organizações de direitos humanos responsabilizam o Grupo Bayer pelas consequências catastróficas da agricultura industrial, como o cultivo de soja no Brasil. Foto: IMAGO/Pond5 Imagens

Por Hermann Pfeiffer para o “Neues Deutschland”

A empresa química e farmacêutica Bayer viola os princípios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Quatro associações latino-americanas de direitos humanos estão convencidas disso. Centro de Estudios Legales y Sociales (Argentina), Terra de Direitos (Brasil), Base-IS (Paraguai) e Fundación Tierra (Bolívia) são apoiados pela Organização de Ajuda Episcopal Misereor e pela Coordenação contra os Perigos Bayer (CBG), que tem sido existente desde 1978 para a protecção ambiental e empregos seguros no grupo Leverkusen. As organizações apresentaram recentemente uma queixa da OCDE contra a Bayer AG.

“A empresa não conseguiu abordar os graves riscos ambientais e para os direitos humanos associados ao seu modelo de negócio na região”, explica Sarah Schneider, especialista em agricultura e alimentação global da Misereor. Ela critica que os efeitos do uso de sementes geneticamente modificadas e de agrotóxicos não tenham sido adequadamente monitorados.

Segundo os reclamantes, a empresa promove um modelo agrícola que leva à insegurança alimentar, escassez de água, desmatamento extremo, perda de biodiversidade, graves impactos na saúde e conflitos de terra com comunidades indígenas e agrícolas na América do Sul. Segundo a CBG, mais de 50% das terras agrícolas no Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai são cultivadas com sementes de soja geneticamente modificadas. A Bayer AG é líder na comercialização de pesticidas como o controverso glifosato e sementes de soja  geneticamente modificadas que são resistentes a este herbicida de amplo espectro. A denúncia da OCDE documenta quatro casos específicos na Argentina, Brasil, Paraguai e Bolívia.

“Com a denúncia mostramos que as pessoas da nossa região sofrem intoxicações e doenças graves devido ao cultivo da soja”, enfatiza Abel Areco, diretor-geral da organização Base-IS. As fontes locais de água seriam contaminadas e as comunidades indígenas seriam privadas do seu território. “Isso destrói seu modo de vida e afeta seu acesso aos alimentos”, explica.

O que é notável na abordagem das organizações é o nível original de discussão. Os críticos da Bayer referem-se aos seus princípios na sua queixa à organização das nações industrializadas OCDE, em Paris. Organizações não governamentais descobriram o procedimento de reclamação associado como uma alternativa gratuita às ações judiciais nos tribunais estaduais.

As Diretrizes da OCDE contêm recomendações abrangentes para um comportamento responsável por parte das empresas multinacionais. A gama inclui, entre outras coisas, direitos humanos e aspectos ambientais, interesses do consumidor e direito da concorrência. Um total de 51 países, incluindo os Estados Unidos e quase todos os membros da UE, incluindo a Alemanha, ratificaram as directrizes.

“Em sua natureza jurídica, é soft law”, escrevem sócios do escritório de advocacia internacional Freshfields Bruckhaus Deringer em uma análise. O escritório de advocacia voltado para negócios geralmente representa empresas e governos nacionais. Segundo o escritório de advocacia, o processo não termina com uma sentença executória. Mas o ponto de contacto nacional da OCDE, neste caso localizado no Ministério Federal dos Assuntos Económicos, em Berlim, apela às empresas criticadas para que comentem. Poderá então haver mediação.

Mesmo que as empresas não respondam, a OCDE tem um relatório final que é publicado no website do ponto de contacto. As empresas afetadas que recusam ou não têm bons argumentos correm o risco de danos significativos à sua imagem. Esta é a base do verdadeiro poder de aplicação das Diretrizes da OCDE. Além disso, os relatórios finais da OCDE podem tornar-se a base para ações judiciais. Isso aconteceu por causa do acidente na barragem de Brumadinho, no Brasil, contra a alemã TÜV Süd e por causa dos casos de envenenamento na Índia contra a fabricante suíça de pesticidas Syngenta.

O CBG já tinha aproveitado a assembleia geral virtual de acionistas no final de abril para apontar os riscos dos medicamentos da Bayer, das cadeias de abastecimento e da comercialização de pesticidas proibidos em toda a UE em países do sul global. “Em palavras e atos, reais e virtuais, o conselho de administração e o conselho fiscal foram confrontados com críticas à empresa, a fim de mostrar aos gestores os efeitos colaterais de sua busca implacável por lucros”, diz o diretor-gerente da CBG, Marius Stelzmann. Antes da assembleia geral, as organizações submeteram a reclamação à OCDE. O ponto de contacto da OCDE em Berlim tem até ao final de julho para decidir sobre a admissibilidade da queixa e iniciar a mediação.


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Fonte: Neues Deutschland

Bayer é denunciada na OCDE por violações dos direitos humanos e danos ao meio ambiente

Seis organizações da sociedade civil na Alemanha apresentaram uma denúncia para esclarecer a responsabilidade da Bayer pelos impactos negativos do uso de sementes geneticamente modificadas e de agrotóxicos à base de glifosato

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Foto: Colonia Yvyp, Paraguai

Por CELS

Juntamente com uma coalizão de organizações da sociedade civil do Brasil, Paraguai, Bolívia e Alemanha, apresentamos uma queixa à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contra a Bayer AG, responsabilizando-a pelos graves impactos ao meio ambiente e aos direitos humanos que causou. gera agricultura industrial na América do Sul. A reclamação foi apresentada durante a assembleia geral da empresa.

A queixa à OCDE documenta quatro casos específicos que mostram os impactos negativos deste modelo agrícola em áreas onde a Bayer AG comercializa amplamente os seus produtos. Como parte da denúncia, o Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (Argentina), Terra de Direitos (Brasil), BASE-IS (Paraguai), Fundación TIERRA (Bolívia), Misereor e ECCHR exigem que a Bayer AG faça mudanças sustentáveis ​​em seus negócios práticas a fim de respeitar os direitos das comunidades locais e do meio ambiente.

Com base nas evidências de extensas pesquisas e inúmeras entrevistas com comunidades afetadas, verificamos que a empresa promove na América do Sul um modelo agrícola que causa insegurança alimentar, escassez de água, desmatamento extremo, perda de biodiversidade, graves consequências para a saúde e conflitos por terras com comunidades indígenas e camponesas.

“A empresa não respondeu adequadamente aos graves riscos aos direitos humanos e ao meio ambiente diretamente relacionados ao seu modelo de negócios na região. Nem foram monitorizados os impactos da utilização de sementes geneticamente modificadas e pesticidas, nem foram tomadas medidas adequadas para os prevenir e mitigar”, afirma Sarah Schneider, especialista global em agricultura e nutrição da Misereor. 

Em média, mais de 50% das terras aráveis ​​nestes países são atribuídas à soja geneticamente modificada. A Bayer afirma ser líder latino-americana na comercialização de soja resistente ao glifosato e aos pesticidas à base desta substância.

Sobre a denúncia, Abel Areco, Diretor da BASE-IS, afirma:  Mostramos que, devido ao avanço do cultivo da soja, em nossa região as pessoas sofrem com intoxicações e doenças graves; existem fontes locais de água tão contaminadas que não podem mais ser consumidas; comunidades indígenas e camponesas são desapropriadas de seus territórios, afetando seus modos de vida e alimentação; “Milhares de hectares de floresta desaparecem, ameaçando animais e plantas locais”.  

“As Diretrizes da OCDE são claras ao estabelecer deveres de devida diligência para a cadeia de valor a jusante, especialmente nos casos em que pode ser prevista a utilização indevida de um produto. Embora a lei alemã sobre cadeia de abastecimento na sua versão atual não inclua esta parte da cadeia de valor, a Bayer deve cumprir as Diretrizes da OCDE. Pedimos que, para a soja transgênica e os pesticidas à base de glifosato, a Bayer desenvolva políticas de due diligence baseadas no risco e que considerem o contexto da América Latina para contribuir para uma solução de longo prazo”, afirma Silvia Rojas Castro, Assessora Jurídica do ECCHR.

A OCDE tem agora três meses para decidir sobre a admissibilidade da denúncia e assim apoiar a mediação entre as partes afetadas e a empresa. As organizações esperam que a Bayer responda à denúncia e participe ativamente na resolução dos problemas.

Quatro países, quatro casos

Argentina: Impacto na saúde na área de soja Pergamino

Sabrina e sua família moravam no bairro Villa Alicia, em Pergamino, na divisa com os campos de soja. Em 2011 começaram a ter graves problemas de saúde, como alergias e problemas respiratórios, em consequência das fumigações. A partir dos resultados das análises descobriu-se que tanto ela como os seus filhos têm elevadas percentagens de glifosato e ampa (que é o metabolito do glifosato) na urina. Por prescrição médica eles tiveram que se mudar.

O caso de Sabrina é processado. Em setembro de 2019, foi ordenada uma medida cautelar que estabelecia a proibição da pulverização a menos de 1.095 metros de qualquer área urbana de Pergamino e a uma distância de 3.000 metros no caso de fumigação aérea. Nesse mesmo ano, três produtores rurais foram processados ​​por considerá-los “prima facie” coautores criminalmente responsáveis ​​pelo crime de “poluir o meio ambiente em geral, de forma perigosa à saúde, através da utilização de resíduos classificados como perigosos (agrotóxicos)”. e dois servidores municipais, dependentes da Secretaria de Produção e da Secretaria-Geral, pelo crime de descumprimento de deveres de funcionário público de forma continuada.

No decorrer da investigação, foram ordenadas batidas nos campos onde foram realizadas as fumigações e foram encontrados produtos – agroquímicos para fumigação – da marca comercial pertencente à Monsanto SA, hoje Bayer.

Paraguai: Agronegócio avança em terras camponesas

A Colônia Yeruti Ñu (“Colônia Yeruti”), localizada ao leste do Paraguai, no distrito de Curuguaty, a cerca de 212 km da capital do país, Assunção, é um assentamento rural criado pelo Instituto de Assistência Rural (IBR) com área total de 2.212 hectares, divididos em 223 lotes agrícolas cedidos aos beneficiários da reforma agrária, principalmente pequenos produtores camponeses, para produção de itens de autoconsumo e assentamento.

Atualmente, os cultivos mecanizados aumentaram exponencialmente em seu entorno e avançaram 60% sobre a área da colônia, às custas das famílias camponesas que vivem no local, que estão condenadas a viver em poucos hectares de terras e cercadas por grandes áreas de produção de soja, onde são realizadas constantes fumigações com agrotóxicos. Em 2011, diversas pessoas foram hospitalizadas com sinais de intoxicação por agrotóxicos. Uma das pessoas morreu e o caso foi denunciado ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, que emitiu parecer favorável às vítimas do caso.

Colonia Yvype está localizada na região nordeste do Paraguai, no distrito de Lima, departamento de San Pedro, a cerca de 245 km da capital, Assunção. Esta colônia agrícola foi fundada pelo IBR. Oficialmente, a colônia abrange uma área total de 3.889 hectares, divididos em 190 lotes agrícolas de 20 hectares cada. Esses lotes foram inicialmente cedidos a agricultores camponeses no âmbito da reforma agrária, com o objetivo de desenvolver a Agricultura Familiar Camponesa. Atualmente a colônia é cercada e penetrada pela monocultura da soja impulsionada por grandes e médios produtores que se dedicam ao agronegócio, expulsando à força os moradores do local e as famílias camponesas que resistem ao avanço das lavouras mecanizadas, são despejadas e criminalizadas.

Em ambas as comunidades rurais individualizadas, as escolas foram fechadas pelo Ministério da Educação e Ciência, por falta de alunos, situação dada pela expulsão das famílias camponesas para dar lugar aos setores mercantis. O encerramento destes centros educativos gera enormes dificuldades às famílias que têm filhos em idade escolar e ainda residem nos bairros.

Brasil: Poluição do povo indígena Avá-Guarani

No Brasil, a Bayer lidera o mercado de sementes geneticamente modificadas e pesticidas. Num cenário em que 95% da soja cultivada no Brasil é geneticamente modificada, as sementes Intacta foram utilizadas em 80% das plantações. Juntas, a Bayer-Monsanto representa 9 das 18 variedades de sementes geneticamente modificadas autorizadas para cultivo comercial, segundo Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio (2022). De 2010 a 2021, o uso de agrotóxicos no Brasil dobrou. São vendidos pelo menos 50 pesticidas proibidos na União Europeia. O glifosato é o ingrediente ativo mais vendido. Só em 2022, foram comercializadas 230.519 toneladas de glifosato no país e 31.270 toneladas no Paraná.

O Paraná é o segundo estado produtor de soja do Brasil. Nos municípios de Guaíra e Terra Roxa o uso de agrotóxicos é predominante: 509 dos 661 estabelecimentos agropecuários de Guaíra e 921 dos 1.209 estabelecimentos agropecuários de Terra Roxa relataram uso de agrotóxicos. Nestes dois municípios, onde predominam o plantio de soja e milho, estão localizadas três aldeias indígenas, aldeias Avá-Guaraní. A relação entre indígenas e agricultores é tensa.

O uso intensivo de agrotóxicos contaminou rios, alimentos, animais e povos indígenas. Os pesticidas são até usados ​​como arma química para confinar os povos indígenas a uma faixa de terra cada vez menor. Dependentes de rios e nascentes para acesso à água, as aldeias relatam doenças frequentes como vômitos, dores de cabeça, abortos espontâneos, dificuldade para respirar, entre outras, principalmente entre idosos e crianças. Relatam também o desaparecimento de espécies silvestres de pássaros, abelhas, borboletas, animais de caça e diminuição do número de peixes nos rios e perda da capacidade de produção de alimentos devido às águas e rios contaminados, gerando impactos na soberania alimentar dessas pessoas. Existem áreas fumigadas com agrotóxicos próximas às casas ou estradas indígenas. Em testes laboratoriais, foi verificada a presença do glifosato e de seu principal metabólito, o ácido aminometilfosfônico (AMPA), em mananciais das aldeias (Y’Hovy, Pohã Renda e Ocoy).

Bolívia: A Bayer/Monsanto é responsável pelo desmatamento para o cultivo de soja geneticamente modificada

Na Bolívia, o cultivo de soja geneticamente modificada ocupa 50% das terras cultivadas de Santa Cruz, departamento que concentra 7 em cada 10 hectares de terras agrícolas do país. Na última década (2011-2022), cerca de 436 mil hectares de floresta foram desmatados diretamente para o cultivo de soja, o que mostra que o modelo se sustenta graças à incorporação permanente de novas terras em detrimento das florestas tropicais e primárias.

Nessa transformação, a Bayer/Monsanto participou de forma decisiva não só na expansão territorial do modelo soja, mas também na abertura legal do uso da semente de soja RR1. Desde o final da década de 1990, a Monsanto exerceu pressão sobre o governo central para aprovar uma medida definitiva em 2005 (Decreto Supremo nº 28.225) em favor desta empresa agroquímica. Hoje, a Bayer/Monsanto continua sendo o maior importador e comerciante do herbicida Roundup Ready. Durante 2011-2022, forneceu em média 17% do glifosato (25 milhões de quilogramas), sendo parte utilizada em áreas de desmatamento recente. 


Fonte: CELS

Glifosato reduz sequestro de carbono nos oceanos e danifica recifes de corais – mostra novo estudo

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Por Sustainable Pulse

Grandes foraminíferos bentônicos (LBF), um organismo unicelular encontrado em recifes de coral, enfrentam impactos metabólicos adversos após exposição ao herbicida glifosato e ao inseticida imidaclopride, de acordo com um estudo liderado por cientistas da Universidade de Viena, na Áustria, e publicado na Marine Pollution Bulletin.

Os LBFs são normalmente utilizados como bioindicadores da saúde dos corais porque são encontrados em quantidades substanciais e a recolha de dados sobre eles não é intrusiva nem prejudicial para a saúde dos recifes.

Os autores do estudo afirmaram que “a concentração de substâncias ativas de agrotóxicos que podem ser encontradas no meio ambiente não é um fator 10 menor que a nossa testada, são aproximadamente a mesma concentração ou até 10 vezes maior. A área fotossintética diminuiu à medida que a quantidade de pesticida adicionado aumentou e o tempo de incubação aumentou.” O Roundup à base de glifosato, em particular, “causou uma redução da área fotossintética em todos os foraminíferos, independentemente da concentração”.

Os cientistas também descobriram que “ a absorção de 13 C pelo foraminífero [carbono inorgânico] foi significativamente reduzida na concentração mais alta de pesticidas em comparação com o controle ( p  < 0,001). O herbicida e o fungicida apresentaram reduções comparáveis ​​na absorção de  13 C ( p  = 0,945), a redução causada pelo inseticida foi menos pronunciada.”

Este estudo original descobriu que mesmo baixas concentrações de agrotóxicos podem ter um impacto negativo no metabolismo dos organismos marinhos. Isto se aplica não apenas ao hospedeiro foraminífero, mas também aos seus simbiontes. Ao examinar as diferenças na absorção de nitrogênio e carbono, o estudo mostrou que o fungicida Pronto©Plus (tebuconazol) é tóxico tanto para o hospedeiro quanto para seu simbionte, enquanto o herbicida Roundup (glifosato) e o inseticida Confidor (imidaclopride) têm principalmente efeitos negativos sobre o simbiontes. No entanto, como os simbiontes são obrigatórios, a morte do simbionte (branqueamento) acaba por levar também à morte dos foraminíferos.

Já hoje, as alterações climáticas provocam fortes tempestades e chuvas intensas ao longo das zonas costeiras, o que, juntamente com o aumento da utilização de agrotóxicos devido à agricultura intensiva, pode levar a um aumento significativo das concentrações desse tipo de substância química no mar em um futuro próximo. O estudo mostra também que esse efeito negativo dos agrotóxicos pode ser observado nos foraminíferos. Também está presente em corais e outros organismos que hospedam simbiontes protistas fototróficos obrigatórios.

Os autores do estudo concluíram; “a descarga de agrotóxicos no mar pode ter impactos negativos graves sobre os foraminíferos, mesmo em baixas concentrações, tornando estes compostos uma séria ameaça à saúde dos recifes marinhos.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Sustainable Pulse” [Aqui!].

México prova que é possível produzir alimentos sem glifosato, pois existem alternativas e evidências científicas

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Por Conahcyt

Em resposta ao integral cumprimento do decreto presidencial vigente de 13 de fevereiro de 2023, que estabelece diversas ações relativas ao glifosato e ao milho geneticamente modificado, o governo federal, por meio do Conselho Nacional de Humanidades, Ciências e Tecnologias (Conahcyt), bem como outras órgãos mandatados, divulgaram resultados científicos e tecnológicos das ações testadas em diversos territórios do país que confirmam que é possível produzir alimentos sem glifosato, e a existência de alternativas viáveis ​​a este agrotóxico. 

Na coletiva de imprensa “Atenção ao decreto de dispensa do glifosato no México. É possível produzir alimentos sem agrotóxicos, alternativas viáveis ​​ao glifosato”, participaram: o Porta-Voz do Governo do México, Conahcyt e das Secretarias de Bem-Estar, através da Subsecretaria de Inclusão Produtiva e Desenvolvimento Rural; da Agricultura e Desenvolvimento Rural (Sader), por meio da Subsecretaria de Autossuficiência Alimentar; e Desenvolvimento Agrário, Territorial e Urbano (Sedatu), junto à Procuradoria Agrária (PA). Além disso, pessoas da comunidade científica responsáveis ​​pelos 85 projetos científicos no interior do México. 

Alternativas ao glifosato 

Conahcyt informou que foi concluído o desenvolvimento de 3 novas formulações , 100% mexicanas com eficiências superiores a 90 por cento e que estão em processo de expansão para um nível industrial. Um desses novos herbicidas conta com pareceres técnicos de eficácia biológica do Serviço Nacional de Segurança, Saúde e Qualidade Agroalimentar (Senasica), foi enviado ofício à Comissão Federal de Proteção de Riscos Sanitários (Cofepris), que em breve ser O dossiê será submetido para aprovação. 

Além disso, três bioherbicidas mexicanos disponíveis comercialmente e três no mundo foram identificados e testados, todos com eficiências de até mais de 90% nas fases pré e pós-emergência. São eles Beloukha, Burn Out Formula 2 e Weed Zap, que são aprovados tanto na União Europeia quanto nos Estados Unidos. Os três bioherbicidas nacionais disponíveis comercialmente estão prestes a iniciar processos de aprovação regulatória. 

Todos estes desenvolvimentos pré-existentes e novos estão em condições de escala industrial com uma produção inicial de pelo menos três milhões de litros, que será possível aumentar, através de transferências de tecnologia, de acordo com a procura nacional.

A importância da produção comunitária de bioinsumos também foi destacada. Em coordenação com a Produção para o Bem-estar (PPB, Sader) e Sembrando Vida (Bem-estar), foram produzidos 67,8 milhões de litros de bioinsumos líquidos e 350 mil toneladas de bioinsumos sólidos , dos quais 45,8 milhões de litros e 231 milhões de toneladas, respectivamente, provenientes de as biofábricas Sembrando Vida. Além disso, há capacidade para dar continuidade e ampliar a produção por meio das mais de 18,2 mil Comunidades Camponesas de Aprendizagem (CAC) do programa Sembrando Vida, que conta com quatro mil escolas do campo do PPB, 30.290 espaços de produção de bioinsumos em todo o país e mais de 688 mil produtores capacitados no preparo e aplicação de bioinsumos e implementação de práticas agroecológicas.

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Produção sem glifosato, uma realidade e sem riscos

Diante de um contexto em que o planeta, o campo e a humanidade não podem mais tolerar o modelo industrial neoliberal de produção agrícola, que tem causado a emissão de gases de efeito estufa, a apropriação de terras, a destruição da saúde humana e animal e a perda de biodiversidade, o presidente decreto coloca a saúde e o meio ambiente como prioridades. A sua aplicação e outros programas do Governo do México lançaram de facto uma transição agroecológica sem precedentes. 

Em total cumprimento ao decreto presidencial, com Produção para o Bem-Estar e Semear Vida em cinco milhões e 200 mil hectares e com um milhão e 950 mil produtores, já foram estabelecidos sistemas agroecológicos e muitos litros de glifosato deixaram de ser utilizados . Além disso, no México existem 658 mil hectares de agricultura orgânica certificada, da qual participam 215 mil produtores. 

Semeando Vida mostra como é possível reflorestar e, ao mesmo tempo, produzir alimentos e gerar empreendimentos sociais baseados na organização comunitária e autossustentável, que transformam os agricultores em sujeitos sociais que geram bem-estar e salvaguardam dezenas de espécies que fazem parte da riqueza biocultural do México, que por sua vez representa uma proporção muito elevada da biodiversidade global e dos alimentos consumidos no país e no mundo. 

Foi relatado que os pequenos produtores contribuem com cerca de 60 por cento da produção nacional de milho para consumo humano. As comunidades camponesas e os pequenos produtores são detentores de conhecimentos antigos e são eles que forneciam alimentos antes da chegada dos OGM e do glifosato. São eles que desempenham papel fundamental na preservação de espécies e variedades nativas, na provisão da megabiodiversidade nacional e nos sistemas agroflorestais incompatíveis com o glifosato.

Utilizando dados públicos, foi apresentado que a diminuição do nível de importação de glifosato, desde 2019, não implicou queda na produção de alimentos como milho e outros, portanto não há evidências de risco na produção de alimentos sem glifosato até 2024. A Subsecretaria de Autossuficiência Alimentar indicou que o ciclo de semeadura primavera-verão 2024 começou sem contratempos, que a maioria dos pequenos e médios produtores utiliza sementes nativas no sistema milpa, milho intercalado com árvores frutíferas e sistemas agroflorestais.

Foi detalhado que a maioria desses produtores não utiliza glifosato ou está, há cinco anos, sob sistemas de transição agroecológica que lhes permitiram dispensar ou reduzir ao máximo o uso de glifosato e outros agrotóxicos, aumentando a produtividade e reduzindo custos de produção e impactos em ambientes indesejados. 

Desta forma, com base nos resultados da Pesquisa Nacional sobre o Uso do Glifosato (ENUG), desenvolvida pela Conahcyt em conjunto com a PA, foi determinado que o uso nacional do glifosato é de pouco mais de dois milhões de litros e a maioria dos produtores nos centros agrícolas ainda produzir sem esse agrotóxico. Mesmo tanto os que utilizam quanto os que não utilizam o glifosato, independentemente de serem de grande, médio ou pequeno porte, também incorporam práticas adicionais como capina com facão e manual, preparo do solo com animais, rotação de culturas, uso de roçadora, associação de culturas, controle pelo fogo, semeadura antecipada e uso de outros herbicidas.

Isto mostra que as práticas tradicionais, manuais ou o uso de máquinas podem continuar a ser a base do manejo de ervas daninhas, independentemente do glifosato. A segurança alimentar e a soberania do México nunca dependeram nem deveriam depender de um agroquímico importado. 

Os dados da ENUG, baseados em 7.988 inquéritos válidos e eficazmente aplicados que implicam representatividade e equidade de amostragem com um nível de confiança de 95 por cento, revelam que apenas 44% dos produtores inquiridos utilizam glifosato , dos quais apenas 8,7 por cento correspondem à produção em grande escala. uso, 34,1% para média escala e 57,2% para pequena escala; Veracruz, Chiapas, Campeche, Guerrero e Tabasco são os estados que reportam maior penetração do uso do glifosato no cultivo de milho híbrido e nativo, apesar de não ser autorizado

Ações e evidências de alternativas 

As intervenções de servidores públicos e especialistas confirmaram que não há dúvidas: pode ser produzido com maiores rendimentos, lucros, benefícios ambientais e de saúde sem glifosato e sem agrotóxicos. As conclusões da plataforma de ações com abordagem integral para dispensa do glifosato, que inclui 85 projetos de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação soberana, nos quais participaram mais de 700 pesquisadores e tecnólogos, e mais de 100 instânciasrespondem por isso, , articuladas de maneira virtuosa sob o modelo mexicano de inovação soberana para o bem-estar.

Os especialistas relataram o inédito processo de validação científica e tecnológica, no qual foram validados 87 planos de manejo agroecológico em 17 mil hectares em 22 estados do país, com o trabalho conjunto de 18 mil pequenos produtores (<5 ha) e grande escala (até 3 mil ha) , demonstrando que a produção agroecológica sem glifosato proporcionou maiores rendimentos, lucros e benefícios ambientais .

Foi relatado que o México possui o diário informativo Manejo Ecológico Abrangente de Ervas Daninhas no México (MEIA) da Conahcyt , que está publicado desde 12 de outubro de 2021, com 27 números contendo mais de cem artigos. A gazeta MEIA é um canal de divulgação para todos os públicos e um órgão ágil de diálogo de conhecimentos que visibiliza, protege e promove o desenvolvimento de alternativas viáveis ​​e com eficácia comprovada, como o manejo agroecológico de ervas daninhas. Todas as edições estão disponíveis publicamente e gratuitamente neste link em formato digital .

As intervenções na conferência de imprensa mostraram conclusivamente que os agroquímicos não são a base de uma agricultura saudável, eficaz e produtiva , e que, com excepção das culturas de algodão geneticamente modificado, as unidades de produção camponesas estão preparadas para prescindir do glifosato com práticas alternativas, pelo que a validade da O decreto presidencial não implica riscos para o campo mexicano, para a segurança alimentar nacional e para a soberania. 

As agências mandatadas no decreto presidencial concordaram que esta mudança de paradigma na produção – que transcende a substituição de um produto por outro para uma plataforma abrangente de ações – fornece contribuições sólidas, colocando a saúde e os cuidados das pessoas no centro. rendimentos ou a soberania alimentar do país. 

A participação do Porta-voz enfatizou que o Governo do México, através do decreto atual, está comprometido com a saúde, a vida e a capacidade do seu povo para produzir alimentos de forma saudável, próspera e em condições mais dignas, sustentáveis ​​e lucrativas para aqueles que Eles vivem no campo; Esta é a base para a busca de alternativas ao glifosato e às sementes transgênicas que prejudicam a saúde, a capacidade de produção, o meio ambiente e a nossa soberania.

Por fim, foi reiterado pela Direção Geral de Conahcyt que, dado o trabalho coordenado entre todos os órgãos do Governo do México envolvidos na resposta ao decreto presidencial, está garantido que os processos necessários para a maior massificação dos avanços tecnológicos e para o registo e autorização por parte do Senasica e do Cofepris, prosseguirá eficazmente em favor da soberania alimentar, do cuidado com o ambiente e da saúde do nosso país. 

Participaram da coletiva de imprensa pesquisadores de instituições como: Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Universidade Autônoma de Chapingo (UACh), Associação Nacional de Empresas de Comercialização de Produtores Rurais (ANEC), Colégio de Pós-Graduados (Colpos). e a empresa Altus Biotech.

As intervenções, argumentos e apresentações da coletiva de imprensa sobre “Atenção ao decreto de dispensa do glifosato no México”, podem ser consultadas no seguinte link: https://bit.ly/4cuUVsS . As conclusões dos projetos que promovem a soberania alimentar estão disponíveis em Alimentacion.conahcyt.mx/

Coordenação de Comunicação  e Cooperação Internacional
comunicacion@conahcyt.mx
conahcyt.mx


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pelo “Conahcyt” [Aqui!].

Bayer é condenada a pagar R$ 11,1 bi por agrotóxico que teria causado câncer

John McKivison, que foi diagnosticado com linfoma não Hodgkin, processou a empresa, dizendo que desenvolveu o câncer depois de usar o Roundup]

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Por Zenebou Sylla e Elizabeth Wolfe para a CNN 

Um júri da Pensilvânia condenou a Monsanto e a Bayer a pagar R$ 11,1 bilhões depois de determinar que o seu produto herbicida Roundup causou câncer em homem, anunciaram os advogados.

John McKivison, 49, que foi diagnosticado com linfoma não Hodgkin, processou a empresa, dizendo que desenvolveu o câncer depois de usar o Roundup em sua propriedade por duas décadas, disseram seus advogados no escritório de advocacia Kline & Specter em um comunicado à imprensa na segunda-feira (29).

O júri deu seu veredicto, que inclui R$ 9,9 bilhões em danos punitivos, no Tribunal Comum de Apelações da Filadélfia na sexta-feira (26), depois de concluir que o Roundup “é um produto defeituoso e causador de câncer, que a Monsanto foi negligente e que a Monsanto não alertou sobre os perigos” do herbicida, disse o escritório de advocacia.

“O veredito unânime do júri foi uma condenação de 50 anos de má conduta da Monsanto e uma declaração de que sua má conduta foi um desrespeito imprudente à segurança humana e uma causa substancial do câncer de John McKivison”, disseram os advogados de McKivison, Tom Kline e Jason Itkin, em um comunicado.

A Bayer, que adquiriu a gigante agroquímica Monsanto em 2018, disse que recorrerá do veredicto e acredita que será capaz de eliminar ou reduzir a “indenização por danos inconstitucionalmente excessivos”.

“Embora tenhamos grande simpatia pelo demandante neste caso, estamos confiantes de que nossos produtos podem ser usados ​​com segurança e não são cancerígenos, de acordo com as avaliações de reguladores especializados em todo o mundo”, disse a empresa em comunicado na sexta-feira.

Pacientes com linfoma não Hodgkin começaram a processar a Monsanto aos montes depois que um relatório da Organização Mundial da Saúde de 2015 sugeriu que o glifosato, o principal ingrediente do Roundup, poderia causar câncer.

O relatório, da Agência Internacional de Investigação sobre o Câncer da OMS, afirma que o glifosato é “provavelmente cancerígeno para os seres humanos”.

Mas a Monsanto continuou a vender o herbicida. A empresa afirma que o Roundup não causa câncer e refutou o relatório da IARC, alegando que o número é muito inferior aos estudos que afirmam que o glifosato é seguro.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA disse em 2020 que não encontrou “nenhum risco preocupante para a saúde humana quando o glifosato é usado de acordo com seu rótulo atual” e que é “improvável que o produto químico seja um carcinógeno humano”. A Comissão Europeia também determinou no ano passado que “não há provas que classifiquem o glifosato como cancerígeno”.

A American Cancer Society afirma que a causa da maioria dos linfomas é desconhecida, mas o linfoma não Hodgkin tem sido associado a fatores de risco, incluindo a exposição a certos produtos químicos em herbicidas e inseticidas. A organização observou que a investigação para “esclarecer” as potenciais ligações ainda está em curso.

Ao longo dos anos, a empresa com sede na Alemanha pagou mais de US$ 10 bilhões em indenizações a milhares de pacientes com câncer que processaram a Monsanto, alegando que o Roundup causa o linfoma não Hodgkin e acusando a empresa de não alertar adequadamente os consumidores sobre o risco.

Muito poucos dos processos relacionados ao Roundup foram a julgamento. Nos casos dos pacientes com câncer Dewayne Johnson, Edwin Hardeman e Alva e Alberta Pilliod, o júri apoiou os demandantes e concederam-lhes dezenas de milhões – e até bilhões – de dólares, embora os juízes tenham posteriormente reduzido esses montantes, dizendo que eram excessivos.


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Este artigo foi inicialmente publicado pela CNN [Aqui!].

A mentira da soja: o principal agente do desmatamento não é cultivado para humanos, mas para a pecuária

“Os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de 1,5°C”, escreve Javier H. Rodríguez, em artigo publicado por El Salto, 03-01-2024. 

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A agricultura comercial em nível industrial foi a causa de pouco mais de 40% do desmatamento das florestas tropicais entre 2000 e 2020 através de três agentes principais: a pecuária, o cultivo deóleo de palma e as plantações de soja, também utilizada principalmente para a pecuária intensiva. Os dados consolidados obtidos graças ao cruzamento de centenas de bases de dados governamentais foram fornecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) há apenas algumas semanas. A mesma monitorização atualiza a distribuição do território: as florestas são o habitat de 80% das espécies de anfíbios, 75% das aves e 68% dos mamíferos e essas mesmas florestas tropicais dizimadas albergam cerca de 60% de todas as espécies de plantas vasculares. Ou seja, a grande maioria tanto em número de espécies quanto em número de indivíduos, já que apenas musgos e algas ficariam de fora desse guarda-chuva.

Com o agravamento da crise climática e tendo em conta não só o desmatamento como também a produção alimentar representam mais de um quarto (26%) das emissões globais de gases do efeito de estufa, diversas correntes dentro do ambientalismo contemporâneo defendem uma mudança na dieta humana para orientá-la a opções baseado no vegetarianismo e no veganismo. Os impactos das mudanças alimentares nas emissões de gases do efeito de estufa, na utilização dos solos, na utilização da água e na saúde emergiram como centrais para a equação do aquecimento global, apesar da reação do lobby da carne com dezenas de propostas para limitar estes mercados emergentes.

As principais fontes de emissões de gases do efeito de estufa encontram-se nos setores da energia e da produção alimentar. Às vezes é sugerida a ideia de focar exclusivamente em um desses aspectos, mas essa perspectiva é enganosa. Enfrentar as alterações climáticas envolve necessariamente reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis.

Da mesma forma, conforme explicado neste artigo, é crucial abordar a produção global de alimentos para alcançar os objetivos climáticos delineados pelo  Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e mesmo os menos ambiciosos apoiados pela comunidade internacional através dos acordos da Cúpula do Clima. Na verdade, os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de carbono de 1,5°C, deixando pouco espaço para atingir a meta de 2°C. Grandes revistas médicas de impacto global, como a britânica The Lancet, também alertam sobre isso há anos, como no mais que citado relatório Dietas saudáveis ​​a partir de sistemas alimentares sustentáveis

Foto: Reprodução El Salto

Nesse trabalho, com a participação de investigadores das principais escolas médicas do Reino Unido, já se propunha uma diminuição de 81% no consumo de carne até 2050, limitando a ingestão a um máximo de 300 gramas de produtos cárneos por pessoa e por semana. Se este ajustamento não for alcançado, o relatório sugere que alcançar o objetivo do Acordo de Paris, de manter as temperaturas abaixo de 1,5ºC, seria “extremamente desafiador ou praticamente impossível”.

Na verdade, segundo um trabalho publicado em 2019 a transição para uma dieta baseada em vegetais apresenta-se como uma condição essencial para alcançar um sistema alimentar sustentável. Mas nos últimos artigos científicos a este respeito as mesmas teses tornam-se cada vez mais palpáveis. Em Environmental Impacts of Food Production, assinado por investigadores da Universidade de Oxford, estimou-se que 50% das terras habitáveis ​​são utilizadas para agricultura e que, dessa percentagem, 77% são utilizadas para produção pecuária, como pastagens que são destinadas à produção de rações, e apenas 23% ao resto das culturas, incluindo alimentação humana direta.

Os dados também são cristalinos em um nível energético. Aproximadamente 36% das calorias provenientes das culturas em todo o mundo vão para a alimentação do gado, enquanto essa percentagem sobe para 55% para a população humana em geral. Esta proporção reflete uma enorme extensão de terras agrícolas dedicadas exclusivamente à produção de ração animal, principalmente a partir da soja, o que resultou na perda de milhares de hectares de florestas, especialmente na região Amazônica.

A maior parte da soja consumida é transgênica

Além de ser produzida principalmente para consumo animal, mais de 90% da produção de soja no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina, principais exportadores para Espanha e União Europeia, é de origem transgênica. Em outras palavras, a soja foi geneticamente modificada, incorporando genes de outros organismos através da engenharia genética. Esta abordagem, embora proporcione propriedades como a resistência a herbicidas, também acarreta riscos imprevistos para a saúde, o ambiente e a segurança alimentar, uma vez que a manipulação genética pode desencadear efeitos indesejados, conforme abordado e documentado pela organização Ecologistas en Acción durante a sua campanha Crops that Kill.

A característica distintiva da soja transgênica é fundamentalmente sua resistência a herbicidas, especialmente ao glifosato, amplamente utilizado para eliminar plantas concorrentes por recursos como água e nutrientes. Na última década foram desenvolvidas variedades transgênicas que resistem a herbicidas mais potentes, como o glufosinato e o Agente Laranja, autorizados nos três países mencionados e, indiretamente, também na União Europeia e na Espanha. Num bom número de casos, uma única variedade pode tolerar múltiplos herbicidas.

A aplicação massiva de um único herbicida nas monoculturas de soja transgênica tem levado ao surgimento de plantas daninhas resistentes a esses produtos. A resistência ao glifosato, por exemplo, foi identificada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1998 e, até o fim de 2020, 53 casos haviam sido confirmados em todo o mundo, sendo 19 deles no Brasil. Em resposta, decidiu-se desenvolver variedades de soja resistentes a diversos herbicidas, incentivando o uso de combinações de herbicidas mais tóxicos.

O modelo de produção da soja transgênica depende em grande parte do uso de agrotóxicos, atingindo cerca de 500 milhões de litros por ano somente na Argentina. O abuso destes produtos químicos é tão pronunciado que, segundo a organização Nature of Rights, pode-se afirmar que na Argentina “está chovendo glifosato”. Tanto o glifosato quanto a atrazina, os herbicidas mais utilizados no cultivo da soja argentina, são detectados em 80% das amostras de água pluvial analisadas no país latino-americano.


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Este texto foi inicialmente publicado em português pelo Instituto Humanitas Unisinos [Aqui!].