A lógica das guerras assimétricas em ação no Golfo Pérsico

Por que o conflito com o Irã pode se transformar em um pesadelo estratégico para Washington

No dia 4 de março publiquei aqui no blog um texto em que listava vários elementos capazes de transformar a incursão militar da aliança EUA–Israel contra o Irã em algo semelhante a um novo Vietnã para os Estados Unidos.

Passados alguns dias, vários daqueles pontos começam a se confirmar. O primeiro deles é a própria duração do conflito, que já desmente a expectativa de uma operação rápida capaz de forçar uma mudança política interna em Teerã. A ideia de que os iranianos seriam facilmente empurrados para uma solução “à la Venezuela”, baseada em pressão externa e colapso político interno, simplesmente não se materializou.

Mesmo após intensos bombardeios sobre o território iraniano — com milhares de alvos militares atingidos segundo autoridades norte-americanas — não há sinais claros de que os objetivos estratégicos iniciais estejam próximos de ser alcançados, especialmente a chamada “decapitação” da liderança política iraniana.

O problema de muitas análises iniciais é que elas partiram de uma premissa equivocada: imaginaram que a enorme disparidade militar entre os envolvidos seria suficiente para definir rapidamente o resultado da guerra. Se isso fosse verdade, o conflito já teria terminado há muito tempo. O que estamos assistindo, na realidade, é um caso clássico de guerra assimétrica.

Nesse tipo de conflito, o lado mais fraco não tenta competir diretamente no mesmo plano militar do adversário. Ao contrário: ele se prepara exatamente para explorar a desigualdade de forças, transformando-a em instrumento estratégico. A lógica não é vencer batalhas convencionais, mas aumentar os custos políticos, econômicos e logísticos da guerra para o adversário mais poderoso.  É exatamente isso que começa a aparecer no teatro de operações.

Embora os Estados Unidos e Israel mantenham ampla superioridade tecnológica e aérea, o Irã vem respondendo de forma indireta, atingindo pontos sensíveis da presença militar e energética ocidental no Golfo. Ataques a navios e instalações energéticas, além de ações no Estreito de Hormuz, têm provocado enorme tensão no comércio global de petróleo.

Esse detalhe é fundamental. O estreito é uma das rotas marítimas mais importantes do planeta, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo. Qualquer interrupção significativa ali tem efeitos imediatos sobre os preços internacionais da energia e sobre a estabilidade econômica global. Em outras palavras: o Irã pode não ter condições de derrotar militarmente a coalizão adversária em campo aberto, mas possui capacidade suficiente para desorganizar o sistema energético que sustenta a economia mundial. É exatamente aí que a assimetria se transforma em vantagem estratégica.

Ao deslocar o campo do confronto para infraestrutura, logística e mercados energéticos, Teerã cria um cenário em que cada dia adicional de guerra passa a gerar efeitos colaterais globais. O preço do petróleo já disparou e os custos de transporte e seguro marítimo aumentaram dramaticamente. O resultado é que o conflito deixa de ser apenas militar e passa a ser também econômico e geopolítico.E esse é justamente o tipo de guerra que as grandes potências têm enorme dificuldade de vencer rapidamente.

Por isso, o desfecho permanece altamente imprevisível. O mundo já atravessava um período de desaceleração econômica antes mesmo dessa crise, e o prolongamento do conflito tende a ampliar pressões inflacionárias, perturbações logísticas e incertezas nos mercados energéticos.

Para países como o Brasil, os efeitos podem aparecer de forma indireta, mas significativa. Nossa economia depende fortemente do agronegócio exportador, cuja estrutura produtiva é intensiva em fertilizantes, insumos químicos e combustíveis. Um choque prolongado nos preços da energia e no transporte internacional tende a elevar custos de produção e pressionar preços internos.

Em outras palavras: mesmo que a guerra ocorra a milhares de quilômetros de distância, seus impactos podem chegar rapidamente à economia brasileira.  E há um agravante político.

Se o conflito continuar ao longo dos próximos meses, não é impossível que o Brasil enfrente pressões inflacionárias justamente no segundo semestre — período que coincide com o calendário eleitoral. O risco, nesse cenário, seria a combinação clássica de baixo crescimento econômico com aumento de preços, algo muito próximo de um quadro de estagflação. 

No final das contas, a grande ironia desse conflito é que ele começou sob a promessa de ser uma operação rápida e decisiva. Mas, como tantas vezes na história, guerras iniciadas com a expectativa de vitória fácil podem acabar se transformando em armadilhas estratégicas de longo prazo.  E é exatamente isso que começa a aparecer no horizonte.

Razões não faltam para o Irã se tornar um novo Vietnã estadunidense

Como muitos, venho acompanhando os desdobramentos do ataque combinado de forças dos EUA e de Israel ao Irã. Para além da mídia corporativa nacional e internacional, cuja cobertura me parece excessivamente enviesada, é necessário recorrer a outras fontes para compreender a real dimensão do conflito.

O primeiro ponto é incontornável: em termos convencionais, o Irã não tem como fazer frente ao poderio militar de EUA e Israel. Ambos operam, na prática, como uma força integrada quando se trata de guerra, com superioridade esmagadora em armamentos e capacidade de mobilização. Ainda assim, essa vantagem não encerra a questão.

A experiência histórica mostra que superioridade tecnológica não garante vitória. Como ocorreu no Vietnã e no Afeganistão, os iranianos acumulam décadas de preparação para formas heterodoxas de combate. Isso já se reflete no uso combinado de armamentos antigos e tecnologias mais avançadas. Mais do que isso, o Irã alterou a dinâmica do conflito ao atingir bases e centros estratégicos dos EUA no Golfo Pérsico, transformando uma operação que se imaginava breve em um embate de duração incerta.

O impacto financeiro dessa mudança é significativo. Um único radar, que o Irã afirma ter destruído no Qatar, é avaliado em cerca de 1,1 bilhão de dólares. A isso se somam os danos em diversas bases militares, impondo custos imediatos — como reposicionamento de equipamentos — e, sobretudo, despesas de longo prazo com reconstrução.

No plano estratégico, o simples anúncio do possível fechamento do estreito de Ormuz já produz efeitos globais. Por essa rota passa parcela relevante da produção de petróleo e gás do Golfo Pérsico. Mesmo que se trate de um blefe, o impacto sobre os preços internacionais de combustíveis é imediato, com potenciais consequências econômicas e políticas que extrapolam os países diretamente envolvidos e atingem uma economia global já fragilizada.

A possibilidade de envio de tropas terrestres ao território iraniano adiciona um elemento ainda mais delicado. Ressurge, nesse contexto, o espectro da chamada Síndrome do Vietnã: a perspectiva de um conflito prolongado, em terreno adverso, no qual forças locais exploram vantagens geográficas e táticas para desgastar um adversário tecnologicamente superior.

Diante desse cenário, a ideia de uma guerra rápida e controlada contra o Irã revela-se ilusória. Tudo indica que o conflito tende a se tornar mais complexo, prolongado e potencialmente mais sangrento do que muitos anteciparam.