Estudo do Insper constata relação entre discurso na internet e ‘dia do fogo’ na Amazônia

Aumento da procura por termos precedeu série de incêndios em agosto de 2019

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Por Insper – Assessoria de imprensa 

A drástica elevação de queimadas na Amazônia Legal, em agosto de 2019, foi precedida por um aumento de buscas na internet por termos relacionados a ataques do presidente do Brasil a nações estrangeiras que financiam a proteção da floresta tropical brasileira.

Em torno do episódio que ficou conhecido como “dia do fogo”, em 11 de agosto de 2019, na Amazônia brasileira, o pesquisador Marco Antonio Leonel Caetano indagou se a celeuma despertada por Jair Bolsonaro ao criticar Alemanha e Noruega, doadoras do Fundo Amazônia de proteção à floresta, pode ter servido de incentivo a ações incendiárias naquele período.

Variações súbitas no interesse de internautas por certos assuntos, detectadas por ferramentas como o Google Trends , têm sido exploradas na investigação acadêmica para projetar acontecimentos e comportamentos em saúde , eleições e nos mercados financeiro , de trabalho e consumidor , entre outros.

Para tanto, o professor do Insper avaliou como evoluíram as buscas no Google pelos termos “Alemanha”, “Noruega” e “fogo + Amazônia”, de um lado, e os alertas diários de novos focos de incêndio na região informados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) naquele período, do outro.

Sua pesquisa incluiu registros do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os do primeiro mostravam a ocorrência de chuvas em Altamira e Belém, no Pará, Manaus e Lábrea, no Amazonas, e Rio Branco, no Acre, todas cidades que fazem parte da região conhecida como Amazônia Legal. Já os do segundo se referiam ao orçamento do órgão e à fiscalização e punição relacionadas a incêndios ilegais.

Ao todo, os pontos de dados analisados e processados somaram mais de 3 milhões.

A fim de amortecer o peso de sazonalidades, como fenômenos climáticos, nos incêndios florestais e focalizar os ciclos da política, foram utilizadas a mediana -valor que divide as observações em duas metades iguais- e as volatilidades com o desvio padrão, que cria bandas de confianças de previsão ao longo dos anos, do quadriênio encerrado no ano de interesse, além de leituras auxiliares que permitem enxergar a dispersão dos dados.

Por esse método, o estudo constatou uma tendência de queda nos incêndios florestais na Amazônia Legal de 2010 até 2013, seguida, a partir de 2015, de um movimento de alta. Considerados apenas os meses de agosto, a mediana de queimadas no quadriênio 2016-2019 superou em 87% o que foi registrado no período 2012-2015.

O argumento da gestão Bolsonaro de que um período excepcional de seca teria contribuído para o surto de queimadas do segundo semestre de 2019 não se comprovou no estudo de Caetano. Por meio da análise de variância (Anova), técnica estatística que permite concluir se três ou mais grupos de observações diferem significativamente entre si, o pesquisador não detectou contraste entre os níveis pluviométricos do Inmet de julho e agosto ao longo dos anos de 2017, 2018 e 2019.

Outra técnica estatística, a correlação cruzada, foi empregada na pesquisa para testar a força e a dilação temporal entre as buscas na internet pelos termos de interesse e a eclosão de focos de queimada na Amazônia Legal.

Para a expressão “Alemanha”, a análise constatou correlação de 55,7% com defasagem temporal de sete dias -resultados acima de 50% indicam uma forte tendência de ligação entre os acontecimentos observados. A curva de queimadas acompanhou mais intensamente a de buscas com uma semana de atraso.

O resultado é compatível com a diferença de dias entre os ataques de Bolsonaro à Alemanha e à sua chanceler, Angela Merkel, concentrados de 2 a 9 de agosto, e o “dia do fogo” (11) -explosão de queimadas supostamente conduzidas por apoiadores do presidente brasileiro como demonstração de força. A alta de incêndios na Amazônia Legal entre os dias 4 e 11 de agosto foi de 73%.

Verificou-se correlação maior, de 72,87%, nas buscas por “Alemanha” e “Altamira+fogo+BR163”. O interesse relacionado à cidade paraense ganhou força em 3 de agosto de 2019, embora a localidade ainda não estivesse em destaque na imprensa em razão das queimadas. A procura voltaria a se intensificar nos dias 9 e 10. Apenas no dia 11 a região acumularia seu maior número de focos de incêndio.

Segundo Caetano, os dados indicam, com 95% de confiança, que a troca de palavras sobre a Alemanha e o Brasil incentivou os episódios que culminariam no “dia do fogo”.

O desaparelhamento da fiscalização na Amazônia sai reforçado do estudo como hipótese para explicar a elevação das queimadas ilegais nos últimos anos. Enquanto os focos de incêndio na região crescem desde 2015, as autuações por queimadas ilegais feitas pelo Ibama, a autoridade ambiental federal, marcham na contramão.

Sobre o Insper

O Insper é uma instituição independente e sem fins lucrativos, que busca ser referência em educação e geração de conhecimento por meio do ensino de excelência e pesquisas nas áreas de Administração, Economia, Direito, Engenharia, Políticas Públicas e Comunicação. No portfólio, cursos para várias etapas de uma trajetória profissional: graduação (Administração, Economia e Engenharias), pós-graduação lato e stricto sensu (Certificates, MBAs, programas da área de Direito, Mestrados Profissionais e Doutorado) e Educação Executiva (programas de curta e média duração, e customizados de acordo com as necessidades das empresas). No âmbito da produção de conhecimento, o Insper atua por meio de cátedras e centros de pesquisa que reúnem pesquisadores em estudos e projetos dirigidos a políticas públicas, agronegócio, educação, inovação, finanças e gestão. Tem as certificações de qualidade da Association to Advance Collegiate Schools of Business (AACSB), Association of MBAs (AMBA) e Associação Nacional de MBA (Anamba).

ONGs cobram transparência em conversas entre Brasil e EUA sobre meio ambiente

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Um grupo de quase 200 organizações da sociedade civil brasileira – entre elas, o ClimaInfo – divulgou ontem (6/4) uma carta ao presidente dos EUA, Joe Biden, alertando sobre a falta de transparência nas conversas com o Brasil em torno de questões ambientais. Segundo a carta, qualquer negociação com o Brasil deve envolver a sociedade, os governos subnacionais, a Academia e o setor privado. O documento também ressalta o risco de se estabelecer um acordo ambiental antes do governo Bolsonaro reduzir o desmatamento na Amazônia e reverter os inúmeros retrocessos ambientais realizados nos últimos anos. “Negociações e acordos que não respeitem tais pré-requisitos representam um endosso à tragédia humanitária e ao retrocesso ambiental e civilizatório imposto por Bolsonaro”, argumentaram as ONGs na carta. “Não é razoável esperar que as soluções para a Amazônia e seus povos venham de negociações feitas a portas fechadas com seu pior inimigo.” A iniciativa foi repercutida por G1Globo RuralUOL e Valor, entre outros.

Nas últimas semanas, as conversas entre Brasil e EUA se intensificaram, com o objetivo de anunciar um acordo bilateral na cúpula climática marcada para os próximos dias 22 e 23, encabeçada pelo governo Biden. Especula-se que esse acordo poderá prever a transferência de recursos financeiros para o governo brasileiro; durante a campanha presidencial no ano passado, Biden chegou a falar em montantes da ordem de US$ 20 bilhões para ajudar o Brasil a proteger a Amazônia e combater o desmatamento.

No entanto, Daniela Chiaretti informou no Valor que as conversas estão em um impasse por causa da falta de confiança entre os dois governos. Segundo a reportagem, a Casa Branca quer um acordo claro, com metas tangíveis, um compromisso para zerar o desmatamento ilegal até 2030 e ações concretas de fiscalização e penalização àqueles que cometem ilegalidades, além da participação de outros atores importantes nessa agenda, como os Povos Indígenas, as Comunidades Tradicionais e a sociedade civil. Já o Palácio do Planalto, sob a justificativa surrada da “soberania nacional” sobre a Floresta Amazônica, deseja um acordo que lhe reserve mais autonomia para decidir como os recursos serão aplicados e não quer condicionar a liberação do dinheiro a metas específicas. O Correio Braziliense apurou que Ricardo Salles está preparando mais uma viagem aos EUA nas próximas semanas para reforçar as negociações com a Casa Branca e mostrar serviço, em meio às especulações sobre uma possível demissão do ministério do meio ambiente na esteira da reforma ministerial da semana passada.

ClimaInfo, 7 de abril de 2021.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Artigo na Science denuncia aumento de hostilidades a cientistas brasileiros pelo governo Bolsonaro

Um ambiente hostil.’ Cientistas brasileiros enfrentam crescentes ataques do regime de Bolsonaro

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O presidente brasileiro Jair Bolsonaro (ao centro), cumprimentando seus apoiadores sem usar máscara, tem uma relação gelada com a comunidade científica do país. ALAN SANTOS / PR

Por Herton Escobar para a Science

Na semana passada, cientistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), principal agência brasileira para estudar e administrar as vastas áreas protegidas do país, tiveram que começar a obedecer a uma nova regra indesejável. Dá a um dos principais funcionários do ICMBio a autoridade para revisar todos os “manuscritos, textos e compilações científicas” antes de serem publicados.

Os pesquisadores temem que o governo do presidente Jair Bolsonaro, que tem uma relação marcadamente hostil com a comunidade científica brasileira, use as análises para censurar estudos que conflitam com seus esforços contínuos para enfraquecer as proteções ambientais. O governo diz que essa não é a intenção. Mas a mudança se soma aos desenvolvimentos recentes que abalaram muitos cientistas brasileiros e deixaram aqueles que criticam as políticas do Bolsonaro temendo por seus empregos e até mesmo por sua segurança física.

“A ciência está sendo atacada em várias frentes”, diz Philip Fearnside, ecologista veterano do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). “Há negação da pandemia, negação das mudanças climáticas, negação do desmatamento; para não mencionar os cortes no orçamento. ”

As queixas de Bolsonaro com cientistas remontam ao início de seu governo em 2019. Em seguida, acusou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de “mentir” sobre dados de satélite que mostravam o aumento do desmatamento na Amazônia e demitiu seu diretor, o físico Ricardo Galvão, após defender os números. Desde então, Bolsonaro tem entrado em confronto com pesquisadores por questões que incluem sua rejeição persistente de estratégias baseadas na ciência para combater a pandemia COVID-19, que matou pelo menos 330.000 brasileiros. Mas o relacionamento parece ter entrado em uma fase ainda mais tensa nos últimos meses.

Um exemplo veio em fevereiro, quando a principal agência anticorrupção do Brasil, a Controladoria-Geral da União, informou ao epidemiologista Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, que ele poderia perder o emprego por causa das críticas que fez ao Bolsonaro em janeiro durante um evento online. Hallal, que coordena o maior projeto de pesquisa em epidemiologia COVID-19 do Brasil, chamou o Bolsonaro de “desprezível”, citando a retórica antivacinação do presidente e sua interferência política na seleção dos reitores das universidades.

Poucas semanas antes, o Ministério da Educação de Bolsonaro ordenou aos reitores de todas as 69 universidades federais, que empregam a maioria dos cientistas brasileiros, que “previnam e punam atos político-partidários” de funcionários. Depois de protestos, o ministério retirou a ordem no mês passado e Hallal finalmente chegou a um acordo com o escritório do controlador, prometendo não “promover a expressão de apreço ou desaprovação no local de trabalho” por 2 anos.

Hallal permanece desafiador. “Se a ideia era me silenciar, tenho que dizer que saiu pela culatra”, diz ele. “Isso está me motivando a ser ainda mais crítico e dizer o que precisa ser dito.” Mas ele teme que o clima político esteja silenciando alguns de seus colegas. “Muitas pessoas estão dizendo menos do que gostariam, por medo de retaliação”.

Os cientistas também estão reconsiderando o que estudam e publicam, diz Marcus Lacerda, especialista em doenças infecciosas da Fundação Oswaldo Cruz. No ano passado, ele enfrentou intensas investigações do Ministério Público Federal – e recebeu ameaças de morte – depois de publicar um trabalho destacando os riscos à saúde de se administrar a droga cloroquina a pacientes com COVID-19 . (Bolsonaro promoveu fortemente a cloroquina, apesar dos estudos concluírem que ela é ineficaz contra o COVID-19.) “Muitas pessoas têm medo de publicar depois do que aconteceu comigo”, diz Lacerda. Colegas abandonaram a pesquisa do coronavírus, acrescenta ele, para evitar o assédio online pelo que é conhecido como “milícia digital” de Bolsonaro.

Em um caso, o assédio online parece ter escalado para um ataque físico. Depois que o biólogo Lucas Ferrante, candidato a doutorado do INPA, publicou artigos em periódicos de destaque (incluindo  Science ) criticando as políticas ambientais e de saúde de Bolsonaro, suas contas de celular e redes sociais se iluminaram com mensagens ameaçadoras. Então, em novembro de 2020, ele diz que foi atacado por um homem que dirigia o que ele pensava ser um veículo Uber que ele havia saudado; o homem disse a Ferrante que ele “precisava calar a boca” e deu um soco nele. Desde então, Ferrante diz que tem medo de sair de casa e leva um celular que não tem ligação com seu nome.

Nesta semana, um grupo de pesquisadores brasileiros citou preocupações com a segurança ao explicar por que eles não assinaram seus nomes em  um white paper,  publicado pela Climate Social Science Network da Brown University, que descreve os esforços de Bolsonaro para desmantelar as proteções ambientais. Eles decidiram permanecer anônimos “por razões de segurança e considerando o atual cenário político no Brasil”, escreveram.

No ICMBio, a nova regra de supervisão dá autoridade de revisão ao diretor de pesquisa em biodiversidade do instituto, um dos quatro diretores do ICMBio que atuam sob o presidente do instituto. Em um comunicado, funcionários do instituto retrataram a ordem simplesmente como uma mudança burocrática, observando que o presidente do ICMBio anteriormente tinha autoridade de revisão. “Não há censura”, afirma. Mas os pesquisadores observam que nenhum dos principais funcionários do ICMBio é um cientista treinado para conduzir revisões técnicas; todos são ex-policiais militares ou bombeiros.

Uma regra semelhante foi emitida no mês passado no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do Brasil, uma importante instituição federal de pesquisa.

Os cientistas brasileiros também enfrentam uma crise de financiamento cada vez mais profunda. Os gastos do governo em pesquisa diminuíram em mais de 70% desde o pico de 2014, e o governo Bolsonaro cortou recentemente 34% do orçamento de investimento do ministério da ciência para este ano. A principal agência de financiamento federal do país, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, deve ter menos de US $ 4 milhões disponíveis para bolsas de pesquisa este ano.

Os problemas de financiamento e os conflitos constantes estão desgastando os pesquisadores brasileiros, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília e cofundadora da Coalizão Ciência e Sociedade, grupo criado em 2019 para promover políticas baseadas na ciência. “Estou tão cansada de ter que me defender o tempo todo”, diz ela. “Enquanto isso, todas as questões importantes que realmente deveríamos enfrentar estão sendo deixadas para trás.”

A maioria dos cientistas brasileiros “não está acostumada a funcionar em ambientes hostis”, acrescenta Atila Iamarino, microbiologista e proeminente comunicador científico. “Eles são treinados para argumentar contra os fatos, mas isso não é o que mais importa nessas situações.”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Science [Aqui!].

A resposta catastrófica do Brasil à COVID-19 pode representar um crime contra a Humanidade

Os casos de COVID-19 estão aumentando no Brasil, à medida que a variante P1 mais transmissível se espalha pelo país.

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Por Deisy Ventura, Fernando Aith e Rossana Reis para o British Medicine Journal

No Brasil, a abordagem do governo federal para a pandemia da COVID-19 tem sido tentar obter imunidade coletiva por meio do contágio. Até agora, isso resultou na morte evitável de centenas de milhares de cidadãos. Em 5 de março, publicamos um artigo explicando a estratégia para permitir a disseminação da COVID-19, liderado por Jair Bolsonaro, o próprio presidente brasileiro. [1] Desde então, como esperado, o Brasil mergulhou em uma catástrofe de saúde sem precedentes.

Na semana passada, quase um terço de todas as mortes diárias de COVID-19 no mundo ocorreram no Brasil, embora o Brasil represente apenas 2,7% da população mundial. Em 2 de abril, ocorreram 12,8 milhões de casos e mais de 325 mil mortes. Na semana de 21 a 27 de março, houve um aumento diário de 0,8% nos casos e 1,9% nas mortes; a letalidade aumentou de 2% para 3,3% desde o final de 2020 . [2] As novas variantes que circulam no Brasil têm se tornado um sério motivo de preocupação para os países vizinhos . [3]

A catástrofe poderia ser muito pior se não houvesse um Sistema Único de Saúde (SUS), com cobertura universal. No entanto, o sistema atingiu o ponto de colapso.

Em 29 de março de 2021, 17 dos 27 estados federais alcançaram taxas de ocupação de leitos de UTI para adultos de 90% ou mais; das 27 capitais, 21 apresentavam as mesmas taxas, sendo que sete delas haviam atingido sua capacidade total ou estavam trabalhando acima dela . [4] Na maioria dos pontos de atendimento, o número de leitos disponíveis, embora insuficiente, resulta de expansões sucessivas devido à alta demanda. Apesar desses esforços, até 25 de março, 6.371 pessoas aguardavam um leito de UTI . [5] Em março, 496 pessoas perderam a vida enquanto aguardavam na lista de espera para UTI somente no estado de São Paulo. [6]

Os estoques de medicamentos usados ​​para a intubação do paciente estão quase esgotados . [7] A escassez de oxigênio, a partir de janeiro no estado do Amazonas, afetou várias outras cidades e ameaça o resto do país.  

O colapso do sistema de saúde está resultando em taxas de mortalidade mais altas, tanto por COVID-19 quanto por outras doenças, inclusive devido à falta de atendimento disponível. Em 2020, as taxas de mortalidade hospitalar já eram altas: 59% entre os pacientes da UTI e 80% entre os que necessitaram de suporte ventilatório mecânico . Em 2020, 9.311 brasileiros morreram sem ajuda em casa desde o covid-19 . [8,9]

Nesse contexto, quase todos os estados que compõe a federação brasileira adotaram medidas restritivas para conter a circulação da COVID-19. Eles enfrentaram forte oposição do governo federal.

Bolsonaro já entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal contra três governadores, que haviam suspendido temporariamente as atividades comerciais . [10] O caso foi arquivado por inconsistências jurídicas básicas. Ele ainda mantém uma falsa oposição entre economia e saúde e afirma que medidas de bloqueio causariam fome, desemprego e caos social.

A fome, no entanto, é resultado da negligência do próprio governo federal. O apoio financeiro oferecido a famílias de baixa renda, permitindo-lhes ficar em casa durante a pandemia, cessou em dezembro de 2020, obrigando milhões a retomar o trabalho. Um novo programa de ajuda foi anunciado, mas reduzido de 600 para 150 reais (19,25 libras) e, no auge da pandemia, ainda não foi implementado. O auxílio financeiro às pequenas e médias empresas é escasso, o que tem levado alguns de seus proprietários a se oporem ao fechamento temporário de negócios. Funcionários foram incitados a participar de manifestações de rua contra governadores e prefeitos que adotam quarentenas, muitas vezes sem máscaras.

Bolsonaro continua realizando reuniões públicas, promovendo a negação científica e defendendo o uso precoce de drogas ineficazes contra a COVID-19. O chamado “kit Covid”, promovido pelo governo federal, inclui hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e anticoagulantes e pode causar hemorragia, insuficiência renal e arritmias. Em São Paulo, pelo menos cinco pacientes que receberam o “tratamento precoce” entraram na fila de transplante de fígado e três morreram de hepatite . [11

Em 23 de março de 2021, um novo ministro da saúde assumiu o cargo. O general Eduardo Pazzuelo, que deixou o cargo, foi acusado de diversos crimes de acordo com o código penal brasileiro, entre os quais a violação de medidas preventivas de saúde e desvio de dinheiro público. [12] O novo ministro da saúde, Marcelo Queiroga, médico, prometeu providenciar a vacinação contra a COVID-19. A implantação da vacinação segue lenta, enquanto os presidentes da Câmara Baixa e do Senado defendem a obtenção de vacinas pela iniciativa privada para inocular proprietários de empresas, seus familiares e funcionários . [13] Isso poderia prejudicar a eficiência do plano nacional de imunização ao subverter a ordem de prioridade e aumentar as desigualdades e divisões na saúde. Bolsonaro, que se opôs a vacinação, há meses, começou a apoiá-la, devido à adesão geral do público à campanha montada pelos governos locais e à escalada da crise covid-19.  

A resposta à pandemia entre os militares seguiu com mais rigor as recomendações da OMS, como o uso de máscaras e o distanciamento físico, conforme descrito pelo atual Comandante do Exército, General Paulo Sérgio, em entrevista recente . [14]

No final de março, uma suposta tentativa de “autogolpe” de Bolsonaro fracassou contra a resistência das Forças Armadas , que se opunham à intenção do presidente de intervir militarmente nos estados que adotassem medidas de quarentena. [15] No entanto, o presidente ainda se envolve em uma guerra total contra governadores e prefeitos, a quem rotula como “ditadores” que violam os direitos dos cidadãos e prejudicam a economia . [16]

Em nossa opinião, a postura do governo federal pode constituir um crime contra a humanidade. Segundo a jurisprudência penal internacional, o uso massivo e sistemático de pressões para induzir o público a se comportar de determinada maneira, segundo um plano pré-concebido, que emprega consideráveis ​​meios públicos e privados, pode constituir um atentado à população civil. 

O fato é que, se a decisão de tentar obter imunidade coletiva contra a COVID-19, permitindo que o contágio se espalhe sem controle, permanecer impune, é provável que se torne um meio extraordinário para futuros governantes prejudicarem populações vulneráveis ​​por meio do negligenciamento de medidas de saúde pública. 

Deisy Ventura , Professora, Diretora do Programa de Doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da Escola de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, Brasil

Fernando Aith , Professor, Diretor do Centro de Pesquisas em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo

Rossana Reis , Professora Associada do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Conflito de interesses : nenhum declarado.

Referências :

1] https : // blogs . bmj . com / BMJ / 2021 / 03 / 05 / covid – 19 – em – Brasil – a – governo – tem – falhou – a – evitar – a – propagação – de – covid – 19 /
2]https : // portal . fiocruz .br / sites / portal . fiocruz . br / files / documentos / boletim _ extraordinario _ 2021 – marco – 30 – red . pdf
3] https : // internacional . estadao . com . br / noticias / geral , descontrole – da – pandemia – não – brasil -assusta – america – do – sul , 70003654733
4] https : // portal . fiocruz . br / sites / portal . fiocruz . br / files / documentos / boletim _ extraordinario _ 2021 – marco – 30 – red . pdf
5] https : // www . cnnbrasil . com .br / saude / 2021 / 03 / 26 de / Brasil – MET – Mais – de – 6300 – PESSOAS – nd – fila – POR – leitos – de – uti
6] https : // g1 . globo . com / sp / sao – paulo / noticia / 2021 / 04 / 01/ quase – 500 – pessoas – com – covid – 19 – morreram – a – espera – de – um – leito – de – uti – em – marco – no – estado – de – sp . ghtml
7] https : // saude . ig . com . br / 2021 -03 – 25 / estoque – de – medicamentos – para – intubação – da – rede – privada – deve – acabar – em – 4 – dias . html
8] https : // www . thelancet . com / journals / lanres / article / PIIS2213 – 2600 ( 20 ) 30560- 9 / texto completo
9] http : // www . arpenbrasil . org . br / sala _ imprensa _ materia . php ? id = 9
10] https : // www . cnnbrasil . com . br / politica / 2021 / 03 / 19 de / Bolsonaro – Entra – com – acao – não- stf – contra – restricoes – de – governadores – do – df – ba – e – rs
11] https : // saude . estadao . com . br / noticias / geral , apos – uso – de – kit – covid – pacientes – vao – para – fila – de- transplante – ao – menos – 3 – morrem , 70003656961
12] https : // www . cartacapital . com . br / justica / oab – pede – a – pgr – que – pazuello – responda – por – crimes – contra – a – saude – e – prevaricacao /
13] https : // www . nexojornal . com . br / expresso / 2021 / 04 / 01 / Como – investidas – para – permitir – um – Vacina % C3 % A7 % C3 % A3o – Privada – nenhum – Brasil
14] https : // www . correiobraziliense . com .br / politica / 2021 / 03 / 4914583 – geral – paulo – sergio – Diz – Que – exercito – ja – espera – 3 – onda – da – covid . html
15] https : // www . theguardian . com / mundo / 2021 / mar / 30 / brasil -militares – chefes – renúncia – bolsonaro – incêndios – defesa – ministro
16] https : // noticias . uol . com . br / saude / ultimas – noticias / Redação / 2021 / 03 / 18 / Bolsonaro – Diz – Que – Entrou – com – acao – nenhum – stf- contra – decretos – de – governadores . htm

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo British Medicine Journal [Aqui!].

JBS estende imunidade aos desmatadores para alimentar sua cadeia de suprimentos até pelo menos 2035 em um ‘compromisso global’ surreal

“Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso.”

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Por Katie Nelson para o Greenpeace

Londres, Inglaterra –  Em resposta ao anúncio da JBS de planejar enfrentar o desmatamento ilegal até 2030, eliminar o desmatamento até 2035 e atingir emissões líquidas zero até 2040, Daniela Montalto, ativista florestal e alimentar do Greenpeace no Reino Unido, disse:

“Por suas margens de lucro, a JBS continua sacrificando o clima, a biodiversidade e o cumprimento da legislação. Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia e além por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso. Neste ponto, as instituições financeiras e compradores que continuam a negociar ou investir na JBS estarão zombando de quaisquer compromissos de sustentabilidade. Além do mais, eles serão conscientemente cúmplices em alimentar a catástrofe ambiental que ameaça nosso planeta. ”

A declaração da empresa não se compromete a atacar a fonte fundamental de sua pegada de carbono – a produção de carne. O anúncio é um grande retrocesso em relação à promessa feita originalmente em 2009 de entregar desmatamento zero em toda a base de abastecimento da Amazônia até 2011, demonstrada por total transparência. O anúncio atual aborda apenas o desmatamento ilegal no Brasil até 2030, e qualquer desmatamento não antes de 2035. A proibição do uso deliberado do fogo, legal ou não, não é mencionada.

Mesmo em meio ao caos e turbulência econômica causados ​​pela pandemia global COVID-19, e como a agenda anti-ambiental do presidente Bolsonaro continua a causar estragos na Amazônia, [2] as exportações de carne bovina do Brasil estabeleceram um novo recorde histórico em 2020 .

No início deste mês, o Greenpeace International publicou uma investigação expondo o maior processador de carne do mundo JBS e seus principais concorrentes Marfrig e Minerva abatidos bovinos comprados de fazendeiros ligados aos incêndios de 2020que destruíram um terço do maior pântano interior do mundo na região do Pantanal. 

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“Com a estação seca de 2021 e provavelmente uma nova crise de incêndios se aproximando rapidamente, a JBS está quase distribuindo os fósforos. Ao continuar lucrando com a destruição, está efetivamente prejudicando os esforços globais para impedir o colapso da Amazônia e de outros biomas. O setor industrial de carne bovina é um passivo. Países importadores, financistas e compradores de carne como McDonald’s, Burger King ou os grupos franceses Carrefour e Casino devem acabar com sua cumplicidade nesta catástrofe que se desenrola. Fechar o mercado para destruidores de florestas não é suficiente – é hora de eliminar a carne industrial ”, disse Montalto.

Governos, finanças e empresas de consumo devem mudar de carnes industriais e fechar mercados para empresas que contribuem para a destruição de florestas e ecossistemas e a transição para um sistema alimentar que não seja uma força motriz de desmatamento, mudança climática e risco futuro de pandemia.

Notas:

[1] Declaração JBS completa: https://www.3blmedia.com/News/JBS-Makes-Global-Commitment-Achieve-Net-Zero-Greenhouse-Gas-Emissions-2040

[2] O chamado ‘pacote de destruição’ atualmente em pauta no Congresso Nacional Brasileiro e ordenado pelo gabinete do presidente Bolsonaro, é composto por propostas legislativas sobre os seguintes temas: mineração em terras indígenas (Projeto de Lei nº 191/2020, proposto pela Câmara dos Representantes); licenciamento ambiental (Projeto de Lei nº 3.729 / 2004 e aditivos, em tramitação na Câmara dos Deputados, e Projeto de Lei do Senado nº 168/2018); e regularização fundiária (Projeto de Lei nº 2.633 / 2020 da Câmara dos Deputados e Projeto de Lei nº 510/2021 do Senado Federal). A sociedade civil brasileira assinou carta contrária às iniciativas. A carta publicada em março de 2021 está disponível aqui: https://www.greenpeace.org.br/hubfs/carta_Nao_Ao_Atropelo_do_Processo_Legislativo_ingles.pdf

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Greenpeace [Aqui!].

Washington Post rotula Brasil como um “super spreader event” de COVID-19 que ameaça toda a América do Sul

Em um artigo publicado nesta segunda-feira (05/04), o jornal “The Washington Post” classificou o Brasil como um “super spreader event (ou em um bom português, um super evento de disseminação) da COVID-19 para toda a América do Sul. Assim, o papel de pária global que o Brasil passou o ocupar por outras ações desastradas do governo Bolsonaro ganha agora o reforço do papel cumprido pelo nosso país no agravamento da pandemia da COVID-19 em toda a América do Sul.

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A matéria assinada pelos jornalistas Lucien Chauvin, Anthony Faiola e Terrence McCoy mostra, por exemplo, a situação dramática instalada no Paraguai pela rápida penetração da variante P1 surgida em Manaus em território paraguaio já que é quase impossível impedir a circulação de pessoas contaminadas na fronteira de mais de 1.000 km que separa os dois países. O mesmo problema se repete em todos os países que possuem fronteiras com o Brasil.

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As pessoas passaram pela Praça Internacional no mês passado na divisa entre Santana do Livramento, no Brasil, e Rivera, no Uruguai. (Diego Vara / Reuters)

A situação no Peru, que também possui uma fronteira considerável com o Brasil, também é dramática com o sistema hospitalar peruano chegando ao ponto de colapso por causa da virulência da variante P1.  César Salomé, um médico peruano que atua na linha de frente do combate à COVID-19 em um hospital localizado em Lima, o caos que está sendo disseminado a partir do Brasil deixou de ser um problema só dos brasileiros, para se tornar um problema global. 

A reportagem aponta ainda que a variante P1 está se espalhando rapidamente por todos os países da América do Sul, apesar dos crescentes esforços para fechar as fronteiras com o Brasil.  O aumento dramático dos casos de contaminação pela P1 certamente é apenas um dos muitos elementos decorrentes da política negacionista adotada pelo governo Bolsonaro desde o início da pandemia.  O problema agora é saber como nossos vizinhos reagirão ao fato de que seus sistemas de saúde irão colapsar por causa do descaso do governo brasileiro com o controle da pandemia.

Enquanto isso, aqui no Brasil ainda temos que assistir à disputas incríveis por parte daqueles que querem templos e escolas de frequentadores. Do jeito que a coisa vai, os brasileiros vão ficar isolados dentro do território nacional por muito tempo.

Qual o legado da operação militar para a proteção da Amazônia?

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  • Em 30 de abril, o governo federal encerra oficialmente a operação Verde Brasil, ação militar de fiscalização iniciada em agosto de 2019 para combater o pico de queimadas ilegais na Amazônia.
  • Desde então, os militares vêm ganhando força cada vez maior nas políticas ambientais aplicadas à Amazônia — inclusive sobrepondo-se a órgãos como Ibama e ICMBio no trabalho de fiscalização e ocupando cargos-chave nessas agências.
  • Especialistas criticam o gasto elevado da operação (cinco vezes maior que o orçamento do Ibama), empregado sobretudo na fiscalização de áreas já demarcadas ou registradas — ignorando as terras em disputa, mais suscetíveis à exploração ilegal.
  • Enquanto isso, o governo federal põe em prática seu plano nacional de desenvolvimento para a Amazônia para esta década, focando na expansão das cadeias produtivas e da atividade industrial. “A modernidade e o progresso estão na ordem do dia desde o governo imperial”, prega o plano.
Por  Caio de Freitas Paes para o Mongabay

O protagonismo dos militares na gestão da Amazônia se destaca desde 2019. Eles foram acionados pelo presidente Jair Bolsonaro em agosto daquele ano, após o “Dia do Fogo”, rompante de queimadas ilegais que balançou as relações do mundo com o Brasil. O presidente lhes concedeu força máxima, incluindo até a subordinação de agências ambientais federais, como Ibama e ICMBio. Não faltaram recursos nem pessoal para a chamada operação Verde Brasil. Sem tanto alarde, porém, os militares estão saindo de cena.

No último dia 11 de fevereiro, o vice-presidente Hamilton Mourão anunciou o encerramento da fiscalização por eles conduzida na maior floresta tropical do mundo. O fim da operação ocorre em 30 de abril de 2021, prorrogada por três meses após o término previsto.

Daqui em diante, o foco das ações será mais restrito, segundo os responsáveis. “Levantamos que 70% do desmatamento, ou dos crimes ambientais, ocorrem em 11 municípios que elencamos como área prioritária”, disse o vice-presidente Mourão.

Isso não é novidade. Uma lista com estas áreas de proteção prioritárias consta num processo do Ministério Público Federal (MPF), protocolado em abril de 2020 e consultado pela Mongabay. Ou seja, o MPF divulgou a informação mencionada por Hamilton Mourão um mês antes de uma das renovações da operação militar, em maio do ano passado.

Na lista constam áreas como São Félix do Xingu, no Pará, campeã em emissão de gases de efeito estufa no país graças ao desmatamento, municípios no sul do Amazonas e em outros pontos próximos, no Mato Grosso e em Rondônia.

Apresentar dados conhecidos – e aparentemente ignorados – é só um dos argumentos por trás das críticas sobre a operação Verde Brasil. O desmatamento segue elevado, como aponta a ONG Greenpeace, e prospera um milionário mercado clandestino de terras públicas, com compra e venda dentro de áreas indígenas. Enquanto isso, a fiscalização retorna às agências ambientais, fragilizadas sob a gestão Bolsonaro, e militares anunciam planos econômicos para a Amazônia. Como fica, afinal, a proteção à floresta e seus povos após quase dois anos sob a tutela verde-oliva?

patrulha 1Patrulha da operação Verde Brasil no porto de Belém (PA). Foto: Comando Militar do Norte.

Conflitos seguem intensos, até com investigação sobre militares

Não é segredo que a Amazônia está à mercê daqueles que a devastam. Um povo indígena já foi extinto graças à covid-19 – os Juma, em Rondônia – e o Ministério Público investiga o uso de um avião militar para levar garimpeiros a reuniões no Planalto em novembro de 2020.

Para Marcela Vecchione, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos na Universidade Federal do Pará (UFPA), a operação Verde Brasil foi um fracasso do ponto de vista socioambiental. “Os conflitos explodem quando se mantém um estado de exceção permanente, como vimos nas recentes operações na Amazônia”, diz.

A professora da UFPA ressalta que, desde o início, a fiscalização conduzida pelo Exército privilegiou áreas já demarcadas ou registradas, tanto indígenas quanto de quilombolas e ribeirinhos. Para ela, este é um erro grave em si.

“Quando operações se concentram apenas nas terras ‘oficiais’, as áreas em disputa ficam vulneráveis, ou seja, sob esse ponto de vista a operação foi muito ineficaz”, afirma Vecchione.

Agências ambientais sem dinheiro e militarizadas

A operação Verde Brasil moveu recursos milionários – algo em torno de R$400 milhões, segundo Hamilton Mourão. “Houve comentários de algumas agências dizendo que, se tivessem esse dinheiro, fariam muito melhor. Isso faz parte do debate”, disse o vice-presidente, como relatado pelo portal Poder360.

Mourão referia-se ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ambos em penúria fiscal.

“Como comparação, os gastos do Ibama para fiscalizações em todo o país não atingiram sequer R$80 milhões em 2020”, diz Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e especialista em políticas públicas na coalizão Observatório do Clima.“O recurso usado na operação foi mal empregado, a meu ver”, afirma.

A coalizão que Araújo integra defende mais repasses aos órgãos ambientais. Segundo o Observatório do Clima, o orçamento hoje disponível para Ibama, ICMBio e ministério do Meio Ambiente é o menor dos últimos 20 anos.

Enquanto faltam recursos, sobram oficiais em postos de comando.

Em novembro de 2020 havia pelo menos 22 militares em funções-chave no Ibama, no ICMBio e também no ministério do Meio Ambiente, provenientes da Aeronáutica, do Exército e da Marinha. Os dados foram compilados pela agência Fiquem Sabendo, especializada na Lei de Acesso à Informação brasileira.

“Fiscais tanto do Ibama quanto do ICMBio têm uma expertise única, sabem quando é mais indicada uma operação do tipo ‘presença’ (mais contundente, com apoio armado) ou se é preferível monitorar via satélite e multar à distância”, diz Suely Araújo.

Para ela, o destacamento de militares acentua a desconfiança interna e aumenta o medo de represálias contra servidores nestas agências.

“Existe uma narrativa de descrédito [sobre as agências], um mito sobre a ‘indústria da multa’: este discurso é o grande responsável pelo desmatamento. O governo precisa parar com essa narrativa, algo que infelizmente não deve ocorrer”, afirma a ex-presidente do Ibama.

patrulha 2Patrulha da operação Verde Brasil na Amazônia. Foto: Exército Brasileiro.

Governo quer “ambientalismo de resultado”

“O grande inimigo do meio ambiente é a pobreza”, disse o ministro da Economia, Paulo Guedes, em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, ainda no início de 2020.

O plano do vice-presidente e dos militares para a floresta daqui em diante segue a mesma toada.“Precisamos chegar a um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia”, disse Mourão em fevereiro deste ano, enquanto anunciava o fim das fiscalizações militares na região.

Como presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL), Hamilton Mourão tem defendido um “ambientalismo de resultado”, que possa “mapear e expandir as cadeias produtivas, as cadeias de valor, facilitando que haja um adensamento da atividade industrial”.

“Ou seja, eles resgatam uma antiga visão militar de levar o ‘progresso’ à Amazônia, mantendo apenas algumas ilhotas de preservação enquanto avançam sobre os povos da floresta”,diz Marcela Vecchione, da UFPA.

O “ambientalismo de resultado” é um dos objetivos do plano nacional para o controle do desmatamento e recuperação da vegetação nativa entre 2020 e 2023. O documento foi elaborado pelo ministério do Meio Ambiente, alinhado ao discurso do vice-presidente sobre o tema.

Segundo o ministério, “(…) é necessário desenvolver mecanismos econômicos e jurídicos robustos, de modo que forneça incentivos para quem pretende empreender de forma sustentável”.

Mas, para a professora da UFPA, o modelo proposto pelo governo e pelos militares ignora um patrimônio imaterial da floresta: seus povos.

“Tome o exemplo das culturas de açaí em torno de Belém (PA), manejadas do mesmo jeito há séculos: sua riqueza e variedade são frutos dos saberes tradicionais, opostos a qualquer modelo de desenvolvimento proposto hoje”, afirma a professora da UFPA.

A opinião de Suely Araújo, do Observatório do Clima, é similar. “Tanto militares quanto o governo federal destacam a questão da pobreza, mas não dizem que o desenvolvimento que eles propõem é, no fim das contas, em prol de grandes empresas, não dos mais pobres”, diz.

Desenvolvimento militar fortalece elites locais, diz pesquisador

“A modernidade e o progresso estão na ordem do dia desde o governo imperial”: assim começa o plano estratégico 2020-2030 do Conselho Nacional da Amazônia Legal, divulgado em novembro passado. Nele, o conselho exibe suas diretrizes para o desenvolvimento da Amazônia.

O documento, consultado pela Mongabay, mostra o receio diante da influência chinesa e um desejo de “fomentar o ambiente de negócios” e de “integrar a infraestrutura regional”. Para tal, o conselho avalia como necessária a “segurança jurídica” na Amazônia, com um novo “ordenamento territorial” e a “regularização fundiária”.

“Para os militares, a Amazônia deve ser uma espécie de projeção dos grandes centros, espelhada no que é a sociedade urbana, ‘civilizada’. É uma ideologia sem espaço para os povos da floresta, suas culturas e modos de vida”, diz Lício Monteiro, professor de Geografia na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Monteiro pesquisa o papel militar na defesa e manutenção das fronteiras nacionais na Amazônia, o que inclui ao menos um projeto de desenvolvimento socioeconômico: o Calha Norte, vigente desde 1985.

Quase desconhecida, a iniciativa foi recentemente agraciada pelo governo federal. No início de janeiro, a gestão Bolsonaro aumentou em mais de 150% o valor máximo para compra de equipamentos e elevou em outros 50% o teto para obras de engenharia via Calha Norte.

Segundo o professor da UFF, esta iniciativa aproximou militares das elites políticas e regionais com o passar dos anos. “Há uma presença relevante de militares na Amazônia, então eles participam da política, recebem homenagens de prefeitos, vereadores, deputados”, afirma.

“Os militares seguem com a mesma visão de 40, 50 anos atrás, de ‘integrar para não entregar’. Então, a eficácia de suas ações ou com quem as desenvolvem não importa muito: o que eles querem é retomar protagonismo e, para isso, precisam esvaziar o trabalho feito pelos civis desde a Constituição de 1988”, diz o professor da UFF.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site Mongabay [Aqui!].

Investidores católicos pedem ao governo brasileiro que proteja melhor a Amazônia e os povos Indígenas

Uma coalizão de instituições católicas enviou uma carta nesta segunda-feira (29/03) ao alto escalão de autoridades brasileiras, incluindo o Presidente Jair Bolsonaro e o Vice-Presidente Hamilton Mourão, com demandas concretas para a proteção da floresta tropical e das populações indígenas.

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A Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Movimento Católico Global pelo Clima (GCCM), e o banco alemão da Igreja Católica, Bank für Kirche und Caritas (BKC), lideram um grupo internacional de quase 100 Instituições Católicas de 18 países e convidam o governo brasileiro a fazer mais para proteger a Amazônia e os povos indígenas que ali vivem.

A carta também apela a um maior diálogo com o governo brasileiro, na esperança de que os representantes, no país de maioria católica, ouçam os brasileiros e cuidem melhor de nossa casa comum.

Uma pesquisa de 2019 descobriu que sete em cada dez católicos no Brasil acham que preservar a Amazônia é “muito importante” e 85% responderam que consideram o ataque à floresta amazônica um pecado.

A destruição da Floresta Amazônica, essencial para a proteção do clima global, voltou a aumentar durante a atual gestão, levando à privação de direitos, deslocamentos e assassinatos de Povos Tradicionais que ali vivem.

“Esse modelo de desenvolvimento capitalista que mata a vida humana e o meio ambiente está em total contraste com o ensinamento cristão sobre Integridade da Criação e com encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco”, disse Dom Vicente de Paula Ferreira, Secretário da Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração da Conferência do Bispos do Brasil.

Entre as exigências feitas pelo grupo católico está a implementação de um plano coerente para combater o desmatamento, incluindo um orçamento específico e metas intermediárias mensuráveis.

O grupo católico também defende a ampliação dos recursos de combate a incêndios e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiental e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) na região amazônica.

Com fundamento nos ensinamentos do Papa Francisco na Laudato Si’ e Querida Amazônia, as organizações católicas pediram ao governo brasileiro que respeite os direitos de posse da terra e os direitos humanos dos povos indígenas.

Tommy Piemonte, Chefe de Pesquisa de Investimentos Sustentáveis da BKC, disse: “Estamos convencidos da necessidade de fazer pleno uso de nossas possibilidades como participantes católicos do mercado financeiro e de levantar nossa ‘voz’, iniciando um diálogo de engajamento com o governo brasileiro e tentando motivá-lo a finalmente respeitar os direitos humanos e ambientais na Amazônia”.

No último ano, investidores institucionais convencionais começaram diálogos com o Governo brasileiro. A recém-formada coalizão Católica está agora procurando se articular a fim de aumentar a pressão dos investidores.

“Como uma grande aliança Católica, podemos certamente dar uma contribuição útil para o esforço conjunto. Em um país de maioria católica como o Brasil, talvez uma ‘voz católica’ seja ouvida e aumente a pressão sobre o governo”, disse Tomás Insua, Diretor Executivo do Movimento Católico Global pelo Clima.

Piemonte acrescentou: “Queremos iniciar um diálogo construtivo para implementar nossas demandas. Mas se o governo brasileiro não tomar uma posição firme contra o desmatamento da floresta tropical e a privação de direitos dos povos indígenas, nós, como investidores católicos, veremos cada vez mais nossa base de investidores institucionais, atuais e potenciais, retirar os investimentos em títulos do governo brasileiro e empresas em certos setores.”

Você pode encontrar a carta completa e os nomes de todos os signatários em www.bkc-paderborn.de/engagement-brazil 

Avaliação EXAME/Idea mostra derretimento da imagem do governo Bolsonaro

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A mais recente pesquisa de opinião liberada sobre o desempenho do governo Bolsonaro, que foi feita pela parceria Exame/Idea, traz várias más noticias para o presidente Jair Bolsonaro, muito em função do mau desempenho no controle da pandemia da COVID-19 e da péssima performance da economia brasileira em meio ao avanço do número de mortes.

Um primeiro dado importante que eu selecionei do relatório se refere ao desempenho pessoal do presidente Jair Bolsonaro que agora atingiu 49% de aprovação em um processo de escalada que se aproxima dos piores níveis de performance obtidos em meados do ano passado (ver figura abaixo).

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Outro dado é que, ao contrário do defendido por Jair Bolsonaro e pelos setores mais “raiz” do Bolsonarismo, a maioria da população brasileira concorda com as medidas de isolamento social que visam diminuir a curva contaminação do Sars-Cov-2, em uma proporção que chega praticamente a quatro vezes o número dos que se opõe às ações restritivas (ver figura abaixo).

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Para piorar ainda mais a situação do presidente Jair Bolsonaro, uma maioria significativa (71%) dos que participaram da pesquisa da Exame/Idea, são favoráveis à abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os responsáveis pela má gestão da Saúde durante a pandemia da COVID-19 e, em específico, a crise que se abateu sobre a cidade de Manaus, um dos principais epicentros da doença em todo o planeta (ver figura abaixo).

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O problema para o presidente Jair Bolsonaro e seu governo fica ainda mais grave quando essas 3 questões são colocadas em conjunto, pois demonstra não apenas que o descrédito em relação ao presidente da república está em processo de aceleração, como há também uma tendência a apoiar as medidas restritivas e, pior, para eventual encontrar culpados pela gravíssima situação em que o Brasil se encontra neste momento.

Se as pesquisas de opinião continuarem captando esse nível de desgaste, a pressão política sobre o presidente Bolsonaro irá certamente aumentar, com resultados ainda imprevisíveis.

Quem desejar ler a pesquisa da Exame/Idea na sua integra, basta clicar [Aqui!]

“Haverá mais mutações (do coronavírus) no Brasil”

Primeiro Manaus, agora todo o Brasil: por trás do aumento maciço de pessoas mortas e infectadas por corona no Brasil estão provavelmente outras variantes do Sars-CoV-2

nzz 1Um coveiro cava sepulturas para vítimas de COVID-19 em Manaus. Bruno Kelly / Reuters

Por Alexander Busch, em Salvador, para o Neue Zürcher Zeitung

Primeiro, foi a metrópole amazônica de Manaus que registrou um aumento maciço de pessoas infectadas e mortas em janeiro. Exatamente como há um ano. Mas agora todo o Brasil se tornou uma área de desastre da COVID-19. Com mais de 12 milhões de infectados, o Brasil é o país com o maior número de portadores de COVID-19 no mundo, depois dos EUA. Com 354 infectados por milhão de habitantes, menos pessoas estão infectadas atualmente no Brasil do que na Itália. Mas o sistema de saúde do país amazônico está chegando ao limite. As unidades de terapia intensiva estão sobrecarregadas em quase todo o Brasil. Mais de 3.200 pessoas morrem atualmente de Covid-19 todos os dias. A estimativa do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Estado do Rio de Janeiro, não pode ser descartada entre 4 mil e 5 mil mortes por dia.

“A capacidade de mutação e a velocidade do coronavírus são extremamente altas”, disse em entrevista Marilda Mendonça Siqueira, chefe do laboratório de vírus respiratórios e sarampo da Fiocruz. Em uma sociedade como a brasileira, que desenvolveu poucos anticorpos fora dos hot spots como Manaus e quase não é vacinada, o vírus se espalha mais rápido e inevitavelmente desenvolve novas mutações. “Isso significa que o clima no Brasil para o desenvolvimento de novas variantes do Sars CoV-2 continua favorável”, diz ela.

Novas variantes com defesa imunológica mais fraca?

A nova variante Sars-CoV-2 chamada P.1, que só foi descoberta em novembro, agora dominaria em muitos estados brasileiros. Mas também uma nova variante P.2 agora pode ser comprovada com cada vez mais frequência. Uma nova variante foi descoberta na semana passada, até agora denominada provisoriamente de N9 no instituto. É uma mutação da mutação E484K, que também ocorre na variante do vírus britânico (B.1.1.7) e no P.1, que foi descoberto pela primeira vez em Manaus. Esta mutação E484K provavelmente enfraquece o sistema imunológico humano porque torna os anticorpos menos responsivos.

nzz2Técnico de laboratório se prepara para fabricar a vacina AstraZeneca no Brasil.  Wagner Meier / Getty

O instituto de pesquisas com sede no Rio tem grande reputação internacional e uma longa tradição no combate a vírus e no desenvolvimento de vacinas nos trópicos: foi fundado em 1900 para combater a epidemia de peste. Em sua história, o instituto desenvolveu vacinas próprias contra febre amarela e varíola. A Fiocruz agora também está produzindo uma vacina para brasileiros em colaboração com a Oxford /AstraZeneca. Junto com o Instituto Butantan de São Paulo, que também produz suas próprias vacinas em conjunto com a chinesa Sinopharm, o Brasil é um dos pouco menos de uma dezena de países do mundo que podem produzir eles próprios vacinas contra o coronavírus.

O Brasil já podia vacinar muito mais há muito tempo. Mas no ano passado o presidente Jair Bolsonaro boicotou tanto a compra de soros quanto as ofertas de empresas farmacêuticas internacionais para trabalhar com os dois laboratórios. Só depois que o número de casos explodiu novamente é que o governo Bolsonaro cedeu no final de janeiro e não mais obstruiu ativamente a produção de vacinas no Brasil.

O farmacologista e bioquímico Siqueira hesita em explicar o aumento explosivo do número de infecções no Brasil com as novas mutações. “Ainda não temos séries de números homogêneas e confiáveis ​​para que possamos estabelecer uma relação causal entre P.1 ou P.2 e o curso da infecção.”

Um grupo de pesquisa brasileiro-britânico (Cadde) afirmou recentemente que o P.1 de Manaus é transmitido mais facilmente por um fator de 1,4 a 2,2 do que as variantes convencionais do vírus. Por isso, apesar da suspeita de imunidade de rebanho ali, após o alto número de infecções há um ano, houve novamente um aumento maciço de infecções em Manaus. De acordo com um estudo de anticorpos, dois terços das pessoas na metrópole isolada de Manaus foram infectadas em abril e maio do ano passado e, portanto, devem estar imunes.

Siqueira, por outro lado, explica o alto número de infecções e mortes em Manaus dizendo que o governo cortou as capacidades adicionais de tratamento e análise lá em um estágio inicial. Além disso, grande parte da população negligenciou quase completamente o distanciamento social mêses atrás. Essa combinação é fatídica e se aplica a todo o Brasil.

nzz3Apesar da pandemia, as pessoas estão se divertindo na praia do Rio de Janeiro.  Pilar Olivares / Reuters

Siqueira também não quer confirmar a suposição de que as novas variantes do vírus estão infectando mais jovens. É difícil comparar a primeira fase da infecção com a atual: “Há um ano tivemos um bloqueio extremamente difícil por mais de três meses”, explica Siqueira. Agora as pessoas voltariam a viajar, as escolas estavam parcialmente abertas. “Aqui no Rio de Janeiro os bares ficam lotados até as seis da tarde.” Portanto, todas as informações sobre maiores taxas de infecção e transferibilidade com imunidade anterior são bastante especulativas, diz Siqueira. “As condições são completamente diferentes hoje.” Mesmo que se possa presumir uma taxa de infecção mais alta, isso é difícil de provar. “Simplesmente não temos uma série homogênea e confiável de números sobre o curso das várias mutações do vírus.”

Na verdade, comparativamente poucas amostras de pessoas infectadas são sequenciadas no Brasil. Isso deixa uma imagem incompleta de quantas novas variantes do vírus estão se espalhando. As amostras foram enviadas para sequenciamento em apenas 0,03% dos casos da COVID-19, de acordo com a Gisaid, uma plataforma com dados sobre genomas de coronavírus. Em outros países, como o Reino Unido, essa taxa chega a 5%. A variante P.1 circulando na Amazônia também foi detectada pela primeira vez no Japão.

No entanto, Siqueira rejeita as críticas à insuficiência de pesquisas no Brasil – mesmo que ela mesma aponte para a falta de séries de dados. No Brasil, por exemplo, a variante do vírus P.2 foi descoberta pela primeira vez e agora o N9. Além disso, poucos países são tão transparentes em suas pesquisas quanto o Instituto Fiocruz estadual, que atualiza constantemente seus dados e os torna públicos.

Vacina chinesa eficaz contra o vírus de Manaus

Por exemplo, a Fiocruz publicou dados de pesquisa no site no final da semana passada indicando que a vacina AstraZeneca/Oxford protege contra a variante brasileira P.1 do novo coronavírus, semelhante à cepa britânica (B.1.1.7). Em outro estudo, a Fiocruz já havia verificado que a vacina Coronavac da China, amplamente utilizada no Brasil, é eficaz contra a variante P.1.

A eficácia das vacinas para as variantes brasileiras também dá esperança: embora o presidente Jair Bolsonaro tenha negado a pandemia como uma “gripe inofensiva” por meses e boicotado o trabalho das autoridades de saúde, o Brasil agora foi capaz de aumentar as vacinações com uma rapidez surpreendente. As campanhas de vacinação só começaram em meados de janeiro. Apesar disso, já foram distribuídas cerca de 16 milhões de doses de vacinas. Isso corresponde a cerca de 7% da população adulta. Siqueira destaca que as vacinações que já foram concluídas para os brasileiros mais velhos (acima de 70 anos) podem ter levado a um aumento comparativamente maior nos infectados mais jovens.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].