E se a Grécia entrar em moratória?

greece

Enquanto aqui no Brasil o congresso do PT termina numa melancólica reafirmação das políticas neoliberais da dupla Rousseff/Levy, na Grécia o Syriza tenta manter o respeito dos seus leitores ao rejeitar mais medidas draconianas das agências multilaterais que procuram impor pela força, o que no Brasil é feito de forma voluntária por um partido que se diz dos trabalhadores.

A recusa do Syriza em aceitar mais desregulamentação dos direitos trabalhistas e restrições ao pagamento de aposentadorias simboliza a recusa a um receituário que já se provou ineficaz e contraproducente. Por isso, o seu governo é alvo dos mais variados e covardes tipos de pressão por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu (BCE).

Uma coisa que a mídia corporativa normalmente omite é que a maioria dos desembolsos feitos pelo FMI e pelo BCE serviram para que os bancos gregos pagassem suas dívidas com bancos europeus, principalmente alemães. Assim, o que está por detrás dessa pressão toda não é solidez dos bancos gregos, mas principalmente do sistema bancário europeu. Se nenhum dos outros motivos existentes servisse para justificar a recusa do Syriza em aceitar mais um pacote de maldades contra o povo grego, essa já seria uma razão mais do que justa.

E se o Syriza não piscar, o final desta semana deverá trazer enormes transformações na ordem econômica que mantem não apenas gregos, mas espanhóis e portugueses, enredados num ciclo vicioso de medidas de austeridade levando a mais pobreza e causando mais depressão econômica. A ver!

Depois do Syriza na Grécia, Podemos abala estruturas de poder na Espanha

podemos

Enquanto no Brasil vivemos um período de supremacia parlamentar da direita e de manifestações neofascistas pelas principais capitais, a Espanha viveu ontem um dia de terremoto político. O Podemos, um dos partidos nascidos após as massivas manifestações anti-austeridade de 2011.  Os primeiros resultados apontam que o Podemos venceu as eleições para Barcelona e ainda poderá assumir o governo de Madrid em aliança com o PSOE. Essa situação de mudança poderá ter ainda reflexo em Portugal, pois também ali há um processo de reorganização semelhante das forças de esquerda.

Para mim, a principal lição que está sendo dada pelo Syriza e pelo Podemos é que não é necessário amainar discursos para ganhar eleições para se chegar ao poder. O fundamental é ter um programa político que ultrapasse a sustentação do sistema de poder capitalista, e que hoje implica na aplicação de agendas de austeridade e retirada de direitos dos trabalhadores. 

Mas o essencial que essa vitória do Podemos aponta é que não é necessário cair na armadilha de que é preciso votar no mal menor, o que no Brasil é hoje representado pelo PT. Na verdade, a maior preocupação dos trabalhadores e da juventude é ter partidos políticos que reflitam suas necessidades reais de justiça social e democracia. 

Abaixo um vídeo com um dos líderes do Podemos, o professor universitário Pablo Iglesias, em um comício de preparação para as eleições municipais, o qual foi feito em janeiro de 2015. As palavras de Iglesias agora soam como proféticas.

https://youtu.be/b4WoMdxJUwc

Grécia: Presidente do Parlamento anuncia auditoria da dívida

Serão formadas três comissões: além da auditoria, serão investigadas as responsabilidades pela assinatura do primeiro resgate, e também o pedido de reparação à Alemanha pela Segunda Guerra Mundial.

A presidente do Parlamento da Grécia, Zoe Konstantopoulou. Foto left.gr
A presidente do Parlamento da Grécia, Zoe Konstantopoulou. Foto left.gr

A presidente do Parlamento da Grécia, Zoe Konstantopoulou, anunciou a constituição de uma comissão de auditoria da dívida grega. Para Zoe Konstantopoulou, a auditoria será “uma ferramenta que permitirá reparar uma grande injustiça cometida para com o povo grego”.

Além dessa comissão de auditoria, o Parlamento deverá constituir outras duas comissões: uma para investigar a situação que deu origem ao primeiro plano de resgate à Grécia de maio de 2010; e outra para examinar os pedidos de reparação à Alemanha pela Segunda Guerra Mundial.

O anúncio foi feito depois de um encontro entre a presidente do Parlamento e o seu homólogo cipriota, Yiannakis Omirou, em que Zoe Konstantopoulou afirmou que os memorandos da troika levaram os Parlamentos de ambos os países a serem chantageados. Konstantopoulou prometeu ajuda ao Parlamento cipriota para levantar a verdade sobre as causas que levaram ao memorando para Chipre.

FONTE: http://www.esquerda.net/artigo/grecia-presidente-do-parlamento-anuncia-auditoria-da-divida/35994

Tsipras começa a desmontar a austeridade

Primeiro-ministro diz que “não tem o direito de desiludir os eleitores” e define as prioridades: pôr fim à crise humanitária e abrir as negociações sobre a dívida. Primeiras medidas são o cumprimento das promessas eleitorais.

Primeira reunião do governo grego. Foto Left.gr

Ao abrir a primeira reunião do novo governo na manhã desta quarta-feira, o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, começou a demolir a política de austeridade que mergulhou o país numa das maiores crises da sua história. “Vamos prosseguir o nosso plano”, assegurou Tsipras, até porque “não temos o direito de desiludir os nossos eleitores”. A sua intenção, esclareceu, é “fazer uma mudança radical na forma como a política e a administração são conduzidas no país”.

A principal prioridade do governo, definiu, será pôr fim à crise humanitária, mas também abrir as negociações sobre a insustentável dívida. Sobre esta questão, o líder do Syriza afirmou que “não vamos entrar num choque mutuamente destrutivo”, mas assegurou que “não vamos prosseguir uma política de sujeição”.

Fim das privatizações

Antes ainda da reunião do gabinete, os ministros respetivos já tinham anunciado o fim dos planos de privatização da Empresa Pública de Energia (DEH, sigla em grego), do Porto do Pireu e de 14 aeroportos regionais. As 300 mil famílias que tiveram a eletricidade cortada por falta de pagamento, vão recebê-la gratuitamente.

Salário mínimo volta aos 751 euros

Por seu lado, o ministro do Trabalho, Panos Skourletis, anunciou que a subida do salário mínimo para 751 euros será uma das primeiras leis do governo. Era esse o seu valor em fevereiro de 2012, quando, por imposição da troika, foi cortado para 586 euros, com o argumento de “aumentar a competitividade”.

Serão reintegrados todos os funcionários públicos despedidos através de medidas inconstitucionais

O vice-ministro da Reforma Administrativa, Giorgos Katrougalos, disse que serão reintegrados todos os funcionários públicos despedidos através de medidas inconstitucionais, dando como exemplo o famoso caso das mulheres da limpeza do Ministério das Finanças, de professores e de funcionários de escolas.

O ministro da Saúde, Panagiotis Kouroumplis, anunciou que todos os gregos voltarão a ter acesso à saúde pública.

Imigrantes serão legalizados

A vice-ministra da Política de Migração, Tasia Christodoulopoulou, anunciou a aplicação do “jus soli”, afirmando, num programa de rádio, que o Estado dará nacionalidade a todos os filhos dos imigrantes que tenham nascido e crescido no país. “E mesmo àqueles que não nasceram, mas vieram para a Grécia muito novos”.

Yanis Varoufakis sem papas na língua. Foto Left.gr
Yanis Varoufakis sem papas na língua. Foto Left.gr

Ministro das Finanças

Mas o evento mais aguardado do dia era conferência de imprensa de Yanis Varolufakis, o novo ministro das Finanças.

Ao contrário do que fez o primeiro-ministro derrotado Antonis Samaras, que não apareceu para a transmissão da pasta e deixou a sede do governo totalmente vazia – nem a senha do Wi-Fi deixou! – Gikas Hardouvelis veio passar o cargo e desejar felicidades ao seu sucessor.

Segundo o relato da correspondente do Guardian, a cara do já ex-ministro começou a mostrar incredulidade quando Varoufakis, sem papas na língua, demoliu a filosofia da austeridade, que definiu como “um erro altamente tóxico que foi cometido neste mesmo edifício”.

O professor de economia disse que não é preciso ser-se economista para perceber que a lógica da austeridade só podia fracassar.

Varoufakis anunciou que a sua intenção é dar um “reboot” às economias não só da Grécia, como de todo o continente, e que tentará fazer um New Deal pan-europeu. Para pôr a cereja no topo do bolo, disse que ia dispensar assessores e consultores que recebem altos salários e contratar as mulheres da limpeza, em luta há quase um ano.

FONTE: http://www.esquerda.net/artigo/tsipras-comeca-desmontar-austeridade/35602

Syriza e Podemos: mostra que ainda espaço para utopia no “realpolitik”

Tem algum tempo que cansei de ouvir as lamúrias pragmáticas e anti-utópicas que são disseminadas pelos militantes e simpatizantes do PT (ou neoPT como alguns gostam), É que se prestarmos um pouco de atenção nas lamúrias que são jogadas para explicar a guinada à direita do partido, o que veremos é a defesa dos limites de uma política real que deixaria Harry Fukuyama (aquele que previu o fim da história após o desmantelamento do Muro de Berlim) feliz demais. É que, por detrás as lamúrias pragmáticas, o que se tem é a decretação cínica do  fim das utopias e das possibilidades de algo mais do que gerir bem o Estado burguês no horizonte dos partidos que se proclamam de esquerda.

Como estava dentro do PT quando o Muro de Berlim virou poeira, lembro bem desse chorôrô. É que mal tinham acabado de voltar de um curso de formação política na Alemanha Oriental, Lula e Zé Dirceu tiveram que se defrontar com o fim do falso socialismo, e a abertura de chances reais de ser rediscutida a construção de uma nova sociedade. Ali enquanto os trotskistas como eu viam a abertura de uma chance real de construção do socialismo, os pais do neopetismo viram uma derrota histórica e desmoralizante.

De lá para cá, o que se viu foi a contínua concessão aos ditames do mercado por um lado e, de outro, a completa adesão aos piores elementos da política burguesa e nas suas formas mais abjetas dentro da forma atrasada de desenvolvimento do Estado burguês no Brasil. 

E em função disso, é que temos todo tipo de ataque aos que ousam dizer que o realismo do PT não serve ao interesse dos trabalhadores, camponeses e à juventude do Brasil.  Qualquer sinal de crítica é logo tachado de ultra-esquerdismo e por ai vai.

Agora, me parece que o PT está para se defrontar um novo Muro de Berlim, só que agora saído das eleições gerais na Espanha e na Grécia. É que nesses países devem emergir vitoriosos partidos políticos que lembram muito o PT no seu nascedouro, e com muitas das mesmas contradições que o partido então tinha. E o mais interessante é que o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha resultam de um cansaço extremo com a mesma lógica de “realpolitik” abraçada por forças tradicionais da esquerda espanhola e grega, e que foi a mesma à qual o PT abraçou no Brasil.

Alguns dos “teóricos” neopetistas vão querer dizer que Espanha e Grécia não possuem a mesma importância geopolítica do Brasil, e outros trololós, o que condena Syriza e Podemos à inexpressividade. Tudo besteira, já que posicionados na periferia imediata dos mercados centrais, Espanha e Grécia poderão causar sérios abalos na ordem geopolítica comandada pela aliança EUA-Alemanha, e que hoje mantem a Europa numa condição de quase Estado de sítio. 

O fato é que se as pesquisas eleitorais que hoje dão vitórias para Syriza e Podemos se confirmarem, e esses partidos não abandonarem suas bandeiras políticas como fez o PT, o que deveremos ter é um abalo sistêmico no sistema político europeu e, por extensão, mundial.

Dai será só esperar as explicações estapafúrdias que os neopetistas irão tentar dar. A ver!

Reuters: Esquerda grega declara “vitória histórica” contra políticas de austeridade

ATENAS (Reuters) – O líder da oposição grega de extrema-esquerda Alexis Tsipras declarou vitória sobre As políticas de austeridade do governo, nesta segunda-feira, depois que os resultados das eleições para o Parlamento Europeu apontaram seu partido, que é contra os planos de regaste, como vencedor.

A vitória do partido Syriza marca a primeira vez que uma legenda da esquerda radical vence uma eleição em nível nacional na Grécia moderna, ainda que tenha ficado aquém dos 5 pontos percentuais de margem de vitória, que poderiam sacudir o frágil governo de coalizão.

“Esta é uma vitória histórica”, disse Tsipras, líder do Syriza, a uma multidão nas primeiras horas desta segunda-feira. “Hoje, toda a Europa está falando da Grécia, que condenou a austeridade”.

Em toda a União Europeia os partidos de extrema direita e esquerda que são contra o bloco europeu obtiveram ganhos significativos nas eleições. Suas pontuações foram amplificadas por um baixo comparecimento às urnas.

Com 95 por cento dos votos contados na Grécia, o Syriza estava com 26,5 por cento, à frente dos conservadores da Nova Democracia, do primeiro-ministro Antonis Samaras, que conseguiram 22,8 por cento, segundo informações oficiais.

O partido também ganhou as eleições para governador da região metropolitana de Atenas, que abriga cerca de um terço da população, conseguindo uma nova vitória nas eleições locais realizadas simultaneamente.

A votação de domingo foi vista como um teste decisivo sobre o apoio a Samaras, cujo governo impôs cortes salariais e de aposentadorias, a pedido dos credores da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, que financiam a Grécia desde que ele assumiu o poder em 2012.

FONTE: http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0E619320140526