Aumento do desmatamento e grilagem ameaçam indígenas isolados na TI Ituna-Itatá em meio a pandemia

Invasão da TI e pedidos de registro de CAR chegam a 94% do território, sendo um terço com mais de 1000 hectares

ituna itatáFoto: Fábio Nascimento / Greenpeace. Ituna – Sobrevoo pela Amazônia 2019 no estado do Pará

São Paulo, 11 de maio de 2020 – Enquanto muitos ficam em casa em respeito às medidas de isolamento social recomendadas pelos órgãos de saúde, invasores continuam destruindo a floresta amazônica e condenando ao extermínio aqueles que cuidam da biodiversidade e, por consequência, da saúde planetária. Um exemplo dessa destruição é o que ocorre na Terra Indígena (TI) Ituna-Itatá, como apontado em um estudo de caso divulgado hoje pelo Greenpeace.

Conhecida por ser a TI mais desmatada em 2019, segundo dados do PRODES, registrou entre agosto de 2018 e julho de 2019, impressionantes 119,9 Km² (equivalente a mais de 115 mil campos de futebol) desmatados, o que representa quase 30% do desmatamento de todas as terras indígenas na Amazônia neste período. Em 2020, a TI continua na triste liderança e a floresta continua sendo duramente desmatada, mesmo no período chuvoso, quando, em geral, o índice é bem menor ou inexistente. Somente nos quatro primeiros meses deste ano na Amazônia, já foram identificados 5.666 km² de desmatamento, contra 2.914 km² no mesmo período do ano passado, de acordo com o DETER/ PRODES, o que representa um aumento de 94%.

Com a presença comprovada de indígenas isolados, a TI foi interditada pela FUNAI, ou seja, é uma área sob restrição de ingresso, onde é proibida locomoção e permanência de pessoas estranhas aos quadros do órgão. Isso, no entanto, não ocorre na prática. Ao invés de ser demarcada, a região que constitui a terra indígena tem sido loteada para virar pasto para a pecuária.
“Ituna-Itatá é um caso emblemático da agenda anti indígena do governo Bolsonaro: se os grileiros forem vitoriosos e conseguirem evitar a identificação do grupo isolado e consequentemente a demarcação do território, será aberto um precedente capaz de promover o extermínio dos mais de 100 grupos sob a mesma condição no Brasil”, explica Adriana Charoux, da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Após uma série de cruzamento de dados, o Greenpeace identificou que a Ituna-Itatá foi palco para triangulação de gado e lavagem de madeira. Embora protegida por lei, a TI tem 94% da área registrada por produtores no Cadastro Ambiental Rural (CAR), registros que têm sido utilizados também como instrumento de grilagem de terras públicas. O Greenpeace Brasil identificou que um terço desses CARs corresponde a áreas de mais de 1000 hectares, ou seja, os verdadeiros beneficiários dessas invasões são grandes proprietários e grileiros de terra, focados na especulação imobiliária.

Alguns desses cadastros está, inclusive, em nome de produtores que repassam animais para fornecedores diretos que comercializam animais com os maiores frigoríficos do país, sendo que alguns são signatários do compromisso Público com o Desmatamento Zero, como Marfrig, Frigol e JBS. Esse é o caso, por exemplo, dos 2 CARs registrados em nome de um pecuarista, em 2015, quatro anos depois da interdição da área, que comercializou animais para outra fazenda, que é fornecedora desses grandes frigoríficos. Ou seja, um gado que nasceu ou transitou após a cria em fazendas com desmatamento e no momento de seu abate é fornecido por uma fazenda “ficha limpa”, sem histórico de irregularidade, escondendo o rastro de destruição, ocultado por conta do ciclo final de fornecimento ter sido “lavado”. Isso acaba podendo contaminar toda a cadeia de abastecimento e chegando até a mesa do consumidor do Brasil e de outros países.

Outra irregularidade praticada na Ituna-Itatá é o licenciamento para o plano de manejo florestal concedido pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMAS-PA) para a extração de madeira. Em 2016, um fazendeiro conseguiu o licenciamento, sem que a SEMA constatasse a sobreposição com área interditada, mesmo que a licença tenha sido expedida cinco anos após a interdição da TI.

As ilegalidades identificadas em Ituna-Itatá ganham ar de legitimidade com as medidas recentes do governo, como a InstruçãNormativ0e a MedidProvisóri910/2019. “Já que a IN acaba por também reconhecer os limites de posses privadas em oposição aos direitos indígenas sobre territórios em processo de reconhecimento, e a MP 910 além de anistiar e facilitar a titulação de médias e grandes invasões até 2018, passa a mensagem aos que lucram invadindo terras que esse tipo de crime compensa, porque em algum momento novas invasões podem ser novamente regularizadas”, afirma Adriana.

“A situação da Ituna-Itatá é uma tradução extrema do quanto as declarações de Bolsonaro sobre o desejo de rever terras indígenas e de não demarcar novos territórios têm impulsionado uma onda de grilagem sob áreas chave para a sobrevivência de povos indígenas, para a preservação da floresta Amazônica, sua biodiversidade e para a contenção da emergência climática que já está afetando a população, particularmente os mais pobres”, finaliza Charoux.

Greenpeace se posiciona contra a aprovação da MP da Grilagem

Posicionamento – Aumento de alertas de desmatamento em abril

Além da calamidade sanitária que vivemos, por conta da COVID-19, os alertas de desmatamento – DETER/INPE apontam para a tendência de um aumento do desmatamento explosivo nos últimos meses na Amazônia. Abril registrou 24,2% mais alertas do que o mês anterior. Somente entre janeiro e abril, deste ano, o aumento dos alertas de desmatamento é de quase 55,5%, em relação ao mesmo período do último ano. Vale destacar que esse período é chuvoso, o que costuma diminuir o ímpeto dos destruidores de floresta e já sob influência da pandemia de Covid-19, porém, ainda assim, os crime continuam acontecendo.

Este cenário, que já é grave, pode piorar muito caso o Congresso vote a MP 910/2019, que premia a grilagem e roubo de terra pública. “Os alertas apontam para  um aumento expressivo do desmatamento na Amazônia e provam que a mensagem do governo ao promover medidas que legalizam o roubo de terras públicas, como a MP 910, alimenta os ânimos dos criminosos que avançam sobre a floresta na esperança de terem suas invasões legalizadas em algum momento. A MP foi editada em dezembro e basta olhar para os dados de janeiro até agora para ver o resultado disso. Se aprovada, permitirá que um pedaço gigantesco de terras públicas invadidas e desmatadas na Amazônia seja legalizado, tornando-se a maior anistia para roubo de terra pública desde o fim da ditadura militar no país”, afirma Rômulo Batista da campanha da Amazônia Greenpeace Brasil.

Enquanto o Poder Executivo, alguns governadores e  bancada ruralista pressionam o Congresso para pôr em votação a MP 910, que nada tem a ver com o que deveria ser a única prioridade de todos os dignitários deste país – o combate à pandemia -, os satélites só mostram o que os povos indígenas já sentem no chão da floresta. Os alertas de desmatamento dentro de Terras Indígenas aumentou 59,4% até o dia 23 de abril, o maior índice dos últimos quatro anos, e 172% nas Unidades de Conservação nos primeiros meses deste ano.

Não bastasse a ameaça de levar o vírus aos povos indígenas, desmatadores e grileiros estão se sentindo ainda mais impulsionados para cometer seus crimes. Já estamos observamos a volta de grandes desmatamentos, com mais de 1000 hectares, ocorridos entre janeiro e abril deste ano. Além da MP 910, o governo ainda tira proteção de terras indígenas, como feito pela FUNAI por meio da IN 09/2020 e promove o sucateamento dos órgãos de fiscalização. Infelizmente, o que podemos esperar para este ano são mais recordes de queimadas e desmatamento”, completa Rômulo.

Se analisarmos os dados do DETER do período de agosto de 2019 a abril de  2020, os alertas apontam para uma área desmatada de 5.483 Km². Este é o maior índice dos últimos cinco anos e 88% maior do que o registrado no ano passado no mesmo período. Se os alertas forem confirmados pelo PRODES, que é a taxa oficial do desmatamento na amazônia, que usa como base o desmatamento ocorrido entre agosto de um ano e julho do próximo, teremos, infelizmente, mais um ano de um triste recorde.

desmatamentoFigura 1: Alertas de desmatamento acumulado de agosto a 23 de abril do ano seguinte.

Desmatamento em terras indígenas aumenta 59% durante a pandemia da Covid-19

Governo ignora dados do Deter, elabora pacote de ações para regularizar invasões de terras públicas e pode colocar MP da Grilagem em votação no Congresso

São Paulo, 6 de maio de 2020 – O desmatamento e a Covid-19 avançam sobre a floresta e os povos que vivem nela e dela com velocidade avassaladora e previsões catastróficas. Uma análise dos dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostra que nos quatro primeiros meses de 2020, os alertas de desmatamento em terras indígenas da Amazônia brasileira aumentaram 59%, em comparação ao mesmo período do ano passado. De acordo com os dados do Deter, os alertas de desmatamento em Terras Indígenas (TIs) chegou a 1.319 hectares nos quatro primeiros meses deste ano – o equivalente a 1.800 campos de futebol -, enquanto no mesmo período do ano passado esse número era de 827 hectares.

O mapa abaixo mostra como o desmatamento está atingindo as Terras Indígenas:

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Esses dados reforçam o alerta que madeireiros, grileiros e garimpeiros avançam de forma descontrolada na floresta, além de poderem ser a porta de entrada para que o vírus chegue nas comunidades. Na contramão da busca por soluções, temos presenciado o total descaso do governo que, até o momento, não tomou ações para proteger os povos indígenas e as florestas brasileiras e ainda aproveita o momento para promover a diminuição da fiscalização, com a exoneração de profissionais do Ibama , enfraquecendo, ainda mais, a fiscalização.

Além disto, promove, estímulos à invasão de terras indígenas ainda em processo de demarcação com a Instrução Normativa 09 da Funai e a Medida Provisória (MP) 910/2019 – que promete a regularização de terras públicas que tenham sido invadidas até 2018. A MP tem até o dia 19 de maio para ser votada para não caducar.

“Estamos testemunhando a pandemia se espalhar pela Amazônia de maneira bastante rápida, o que pode causar um outro genocídio indígena, enquanto o governo fecha os olhos para os que cometem crimes na floresta. Isso é inaceitável. Precisamos agir – com a urgência que se faz necessária – para cuidar de quem cuida da floresta. Diante da ausência do Estado vamos continuar exercendo um importante papel para manutenção do espaço democrático, prosseguiremos monitorando e denunciando, juntamente com parceiros, atividades que colocam em risco a saúde e o territórios dos povos indígenas”, informa Carolina Marçal, porta-voz da campanha de Florestas do Greenpeace Brasil.

Festival AmazôniaS Online será transmitido neste final de semana

Programação especial nos dias 17, 18 e 19 de abril

• Evento terá Ailton Krenak, Sônia Guajajara, Roberta Carvalho, Uýra Sodoma, Tulipa Ruiz e Anelis Assumpção, entre outros artistas e ativistas

O Festival AmazôniaS Online chega neste fim de semana, de 17 a 19 de abril para pensar possibilidades de resistência e de vida em tempos de pandemia. Esse intercâmbio entre ativistas e artistas do Norte do país e de São Paulo trará rodas de conversa, shows e exibição de filmes, com transmissão ao vivo pelas redes sociais.

Com a presença de lideranças indígenas e quilombolas, músicos e cineastas, o evento se inicia na sexta-feira, às 22 horas, em parceria com a Greve Mundial pelo Clima, com a Festa do Clima, uma celebração à vida através da música com o músico produtor Daniel Ganjaman como o DJ da noite.

Festival AmazôniaS – Divulgação

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No sábado, a programação começa Ailton Krenak falando sobre suas ideias para adiar o fim do mundo, às 15h. A programação segue com Tati dos Santos, Nega Lu, Marlena Soares, Áurea Sena e Thalita Silva, mulheres negras e quilombolas da Amazônia que fazem uma roda de conversa às 17h. E o dia termina com um bate papo entre as artistas Uýra Sodoma e Roberta Carvalho comentando os ativismos entre Manaus e São Paulo e as performances no isolamento, às 19

No domingo, dia 19, haverá a exibição dos documentários do cineasta André D’Elia sobre o acampamento Terra Livre, seguido por uma conversa ao vivo entre ele e Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), às 15 horas. Logo após, às 17 horas, Matsipaya Waura Txucarramãe, Kayapó neto do Cacique Raoni, conversa com sua mãe, Kamiha, pajé e grande conhecedora das medicinas tradicionais, e sua irmã Mayalu, que trabalha hoje na Saúde Indígena, sobre os desafios e a resistência indígena em tempos de coronavírus

O evento termina às 19 horas, com um show ao vivo das cantoras Tulipa Ruiz e Anelis Assumpção, mostrando como a arte é também uma ferramenta essencial para lidarmos com esses novos tempos.

O evento é realizado pelo Engajamundo, Escola de Ativismo, Greenpeace, Goethe-Institut e Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo. A edição física do festival, que era prevista para ocorrer de 17 a 21 de abril, segue nos planos, com nova data sendo anunciada o mais breve possível.

Saiba mais pelo perfil @festivalamazonias (Facebook e Instagram).

Greenpeace Brasil
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Está nas mãos dos ministros do STF decidir o que é mais importante ao país: o lucro do mercado do veneno ou a saúde da população

Locals Trade Fruit and Vegetables at a Food Market in São Paulo, BrazilFarra do veneno: bom para as empresas de agrotóxicos, péssimo para a população © Bárbara Veiga/ Greenpeace

Por Greenpeace Brasil

A necessidade de cortes nos gastos públicos é um elemento central no discurso do atual governo  —  a bola da vez é a reforma tributária. E é isso que faz parecer tão absurdo o fato de que o mesmo Brasil que quer cortar gastos ou aumentar impostos às custas do bem-estar da população, há tempos, deixa de arrecadar impostos na comercialização de agrotóxicos. Isso precisa mudar!

No próximo dia 19/02, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) irão julgar se algumas das medidas que possibilitam a isenção fiscal aos agrotóxicos são mesmo constitucionais. A ação que questiona esses benefícios (ADI 5553) argumenta que agrotóxicos provocam grandes impactos na nossa saúde e no meio ambiente, o que vai contra a Constituição Federal de 1988. Por isso, não poderiam ser considerados produtos fundamentais ao desenvolvimento do país nem ter seu comércio facilitado.  

Para se ter uma ideia, apenas em 2017 o país deixou de arrecadar cerca de R$ 10 bilhões em impostos federais e estaduais, segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Esse valor é cerca de quatro vezes o orçamento total previsto para o Ministério do Meio Ambiente para 2020 (R$ 2,7 bilhões) e mais que o dobro do que o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou em 2017 para tratar pacientes com câncer (R$ 4,7 bilhões).

Essa aliança entre o poder público e as agroquímicas beneficia poucos e afeta toda a população. Uma estimativa aponta que cada dólar gasto com agrotóxicos (o equivalente a R$ 4,36 na cotação de hoje) gera um custo de até US$ 1,28 na saúde (R$ 5,58), somente para tratamento de casos de intoxicação aguda, cujos efeitos são imediatos. 

Nós do Greenpeace apoiamos a ADI 5553, por também entendermos que facilidades dadas a agrotóxicos mantêm o Brasil na contramão de uma agricultura mais justa e saudável. Enquanto o governo deixa de arrecadar bilhões de reais com subsídios para esses venenos, os gastos com saúde pública aumentam, assim como os danos ao meio ambiente, e só quem ganha com isso são as empresas de químicos.

Se a isenção acabar, minha comida ficará mais cara?

Locals Trade Fruit and Vegetables at a Food Market in São Paulo, Brazil

Mais saúde, menos agrotóxicos. Foto: Bárbara Veiga/Greenpeace

Não é verdade que a nossa comida ficará mais cara se as isenções fiscais aos agrotóxicos acabarem. Esse argumento tem sido utilizado pelos defensores da medida e do agronegócio, para desqualificar o debate. 

Em primeiro lugar, a maior parte do veneno usado na agricultura brasileira é destinada às chamadas commodities, ou seja, produtos que são exportados, como soja, milho, cana-de-açúcar e algodão. 

Portanto, mexer com o imposto é mexer com o lucro de quem comercializa agrotóxicosnão de quem compra o alimento básico de cada dia, como o arroz e o feijão. Como são commodities, o preço é regulado pelo mercado lá fora. Não há como repassar o custo para o preço do produto. 

Em segundo lugar, precisamos corrigir uma lógica equivocada. Esses benefícios fiscais só existem porque, atualmente, agrotóxicos são considerados produtos essenciais à população. Mas o correto seria o governo conceder mais subsídios aos alimentos que vão para o prato dos brasileiros e, claro, criar políticas de incentivo e benefícios fiscais a produtores que produzem com menos agrotóxicos, o que garantiria preços justos para toda a população. 

“Acabar com parte desses benefícios aos venenos seria um avanço imenso rumo a políticas agrícolas melhores. É assim que construímos uma agricultura mais moderna, mudando velhas regras que não fazem sentido para o bem comum, e abrindo espaço para o novo e para medidas mais justas”, avalia Marina Lacôrte, coordenadora da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace. 

O que você pode fazer?

1. Escreva para os ministros do STF pedindo que julguem inconstitucionais as normas que concedem benefícios fiscais para o mercado de agrotóxicos. É pela nossa saúde, pelo meio ambiente e pela economia do Brasil. 

Ministro Celso de Mello: gabcob@Stf.Jus.Br 

Ministro Marco Aurélio: audienciagabmmam@stf.jus.br   

Ministro Gilmar Mendes: memoriaisgilmarmendes@stf.jus.br 

Ministro Ricardo Lewandowski: gabinete.mrl@stf.jus.br 

Ministra Cármen Lúcia: gabcarmen@stf.jus.br 

Ministro Luiz Fux: gabineteluizfux@stf.jus.br 

Ministra Rosa Weber: convites-minrosaweber@stf.jus.br 

Ministro Luís Roberto Barroso: gabmlrb@stf.jus.br 

Ministro Edson Fachin: gabineteedsonfachin@stf.jus.br 

Ministro Alexandre de Moraes: gabmoraes@stf.jus.br 

ADI 5553 – Entenda o caso no STF

Em 2016, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5553 foi protocolada pelo PSOL questionando alguns dos benefícios aos agrotóxicos que se valem da máxima de que esses produtos devem ser considerados fundamentais ao desenvolvimento do país e, por isso, devem ter seu comércio facilitado.

Essa ação questiona se os benefícios concedidos a um produto dessa natureza estão alinhados aos princípios da nossa Constituição. Segundo a ADI 5553, o subsídio a substâncias tóxicas estimula um consumo intensivo que viola os direitos fundamentais à saúde e ao ambiente equilibrado, além de onerar os cofres públicos.A ADI 5553 é apoiada por organizações como Terra de Direitos, Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida; Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco); Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec); Associação Brasileira de Agroecologia (ABA); Fian Brasil; Defensoria Pública de São Paulo e Greenpeace.O que é uma ADI?

Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) servem para contestar uma norma ou lei ativa, caso algo esteja em desacordo com o principal conjunto de normas que rege nossa sociedade — nossos direitos e deveres: a Constituição Brasileira.

Entenda, neste blog, quais os tipos de isenções fiscais que os agrotóxicos têm: greenpeace.org/brasil/blog/um-privilegio-toxico-e-perigoso

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Greenpeace lança filme de animação sobre a situação dos oceanos com participação de ganhadoras do Oscar

journeyAnimação Jornada das Tartarugas – Estúdio Aardman Animations

São Paulo, 15 de janeiro de 2020 – Olivia Colman e Helen Mirren – atrizes ganhadoras do Oscar, juntamente com Bella Ramsey, de Game of Thrones, David Harbour, de Stranger Things, e a brasileira Giovanna Lancellotti estrelam uma nova animação que destaca a situação dos oceanos, divulgada, hoje, pelo premiado estúdio Aardman Animations e o Greenpeace do Reino Unido.

O poderoso curta-metragem mostra as ameaças que nossos oceanos estão enfrentando e a importância de protegê-los por meio da história comovente de uma família de tartarugas tentando chegar em casa em um oceano que está sob a crescente ameaça das mudanças climáticas, poluição por plásticos, perfuração de petróleo e pesca excessiva.

Olivia Colman, que dubla a tartaruga mãe, afirma que ficou muito feliz em ter participado. “Estou emocionada por ter trabalhado nesse comovente filme com o Greenpeace e a Aardman. Nossos oceanos enfrentam tantas ameaças, algumas das quais eu nem sabia antes de fazer esse curta… Espero que isto seja uma inspiração para que mais pessoas possam tomar medidas para proteger nossos mares”, afirma.

A atriz Giovanna Lancellotti, embaixadora dos Oceanos pelo Greenpeace Brasil, deu voz a estrela-do-mar. Ela já esteve com o Greenpeace no navio Esperanza e pôde entender todo o processo de pesquisa e proteção dos mares, por isto, faz um alerta: “Eu me sinto cada vez melhor em fazer parte de movimentos que pensem no nosso futuro, no futuro dos animais e, principalmente, do nosso planeta. O Greenpeace tem me abraçado muito nessa busca. E essa animação mostra, de forma simples e real, como os bichinhos são subestimados e sujeitos a situações horríveis graças às ações humanas. Espero que essa consciência global continue crescendo e que possamos, juntos, proteger os oceanos e respeitar os animais como eles merecem.”

“Os governos conversaram por muito tempo, sem oferecer o nível de proteção que nossos mares precisam para recuperar a saúde, após décadas de atividade humana destrutiva. O tempo de conversar acabou. Agora, precisamos de uma ação global urgente para proteger totalmente 30% dos oceanos do mundo – uma meta acordada pelos cientistas como o mínimo que a vida marinha precisa para se recuperar. Os governos têm a chance de transformar palavras retóricas e vazias em ação nas Nações Unidas este ano, quando se reunirem para acordar um novo Tratado Global dos Oceanos. Algo robusto fornecerá a estrutura de que nossos mares precisam para termos santuários marinhos totalmente protegidos”, alerta Will McCallum, diretor da campanha de oceanos do Greenpeace do Reino Unido.

Outras citações de apoio dos atores do filme:

Bella Ramsey, atriz de Game of Thrones e a voz da filha da família das tartarugas, disse:
“Quando eu for mais velha, como serão os oceanos? Quero que minha geração e todas as gerações futuras tenham oceanos saudáveis e prósperos, cheios de vida e que sejam um lar seguro para criaturas bonitas e importantes, como as tartarugas. Mas estou preocupada que isso não seja possível. Em minha curta vida, nosso oceano já foi danificado em uma escala que muitas pessoas não pensavam ser possível quando eu nasci. Precisamos agir ou será tarde demais! As gerações futuras viverão as consequências do que fizermos ou não fizermos agora. Os governos continuarão a fazer nada enquanto nossos oceanos são destruídos ou deixarão um legado de oceanos saudáveis e protegidos que podem ser admirados por todos, agora e no futuro? Os olhos do mundo e de todos os nossos descendentes estão em nossos governos. Cada um de nós precisa fazer nossa parte, mas eles, coletivamente, devem agir agora para criar mudanças positivas, duradouras e fortes. Não basta ouvir, façam algo sobre isso!”

Helen Mirren, atriz vencedora do Oscar e a voz da avó da família das tartarugas, disse:
“Durante a minha vida, vi a natureza sendo destruída em uma escala inimaginável pela atividade humana. Fico triste por nossa geração deixar para as futuras gerações um planeta danificado, que já perdeu muito da biodiversidade que o torna especial. No entanto, temos a chance de fazer algo agora e deixar um legado de oceanos adequadamente protegidos para todas as pessoas que vierem depois de nós. Não podemos trazer de volta o que já perdemos, mas podemos proteger o que ainda temos. Espero que este filme ajude a fazer com que mais pessoas percebam que vale a pena proteger os oceanos e nos inspire a agir antes que seja tarde demais.”

Jim Carter, de Downton Abbey, e a voz do avô da família das tartarugas disse:
“Essa história comovente de uma família de tartarugas tentando chegar em casa em um oceano em crise vai tocar a todos que a assistirem. Todos vivemos em um mundo que mudou enormemente com a atividade humana, e essa realidade é tão verdadeira para os animais marinhos, como as tartarugas marinhas de Jornada das Tartarugas, como para nós, humanos, que vivemos na terra.”

Relatório do Greenpeace International sobre os oceanos: 30×30: A Blueprint for protection

Clique aqui para ver a animação.

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Fonte: Assessoria de Imprensa – Greenpeace Brasil
Vanusa Costa
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2019: o ano mais tóxico da última década

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na AmazôniaSemana é marcada pelo ioiô dos agrotóxicos: Justiça veta o registro de 63 produtos na última segunda e MAPA libera hoje 57 produtos

Apenas dois dias depois de acatar uma decisão judicial que revogou o registro de 63 agrotóxicos, na última segunda-feira, 25 de novembro, o Ministério da Agricultura (MAPA) libera, hoje, o registro de mais de 57 produtos. Com isto, atingimos a marca de 467 agrotóxicos liberados em 2019. Mesmo ainda faltando 34 dias para o ano acabar, este já é o período com mais liberações desses produtos nos últimos dez anos.

A agenda anti ambiental promovida pelo Governo têm desenvolvido meios de impactar toda população. A proteção de nossos recursos naturais têm sido colocada sob risco, o trabalho de quem defende a natureza tem sido desqualificado ou criminalizado, as populações tradicionais têm enfrentado um aumento de violência e nossas refeições têm sido recheadas de veneno.

2019 também já ficou marcado pela suavização do rigor das análises toxicológicas, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela alteração nas classificações que apenas considera como “extremamente tóxicos” venenos que têm efeito fatal.

Segundo Marina Lacôrte, da Campanha de a Agricultura e Alimentação do Greenpeace, esta é uma ação irresponsável de Teresa Cristina, atual Ministra da Agricultura. “Nosso sentimento é que ela parece estar alheia a realidade do nosso País, que tem pessoas passando fome, onde ainda luta-se por reforma agrária e onde esquecem-se – ou fingem não saber – que Agricultura e Amazônia são duas questões intimamente ligadas.

O ritmo e o conteúdo das liberações nos distanciam cada vez mais de uma agricultura sustentável e mais saudável e coloca em risco as gerações atuais e futuras, que sofrerão com problemas de saúde e a destruição do meio ambiente. Atualmente, quem está bem contente é a indústria dos agrotóxicos e a bancada ruralista. Mas, apesar do descaso, não vamos parar de lutar contra medidas que coloquem sob risco nosso ambiente e nossa sociedade” conclui Lacôrte.

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Ricardo Salles queria se tornar uma câmara de livre comércio em Berlim. Mas o Greenpeace não deixou

A reunião do ministro Bolsonaro Salles com BASF, Bayer e VW foi suspensa. O Greenpeace bloqueou o acesso à Câmara de Comércio e Indústria da Alemanha

protesto berlim50 protetores climáticos do Greenpeace bloquearam o acesso à Câmara de Comércio e Indústria de Berlim na segunda-feira de manhã. FONTE:MARIO SCHENK / AMERIKA21

Por Mario Schenck para o Amerika21

Berlin. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, encontrou considerável resistência durante sua visita a Berlim. Um bloqueio da organização ambiental Greenpeace em frente à Câmara de Indústria e Comércio (IHK) e o protesto registrado de ativistas brasileiros do grupo Gira impediram Salles de encontrar representantes de empresas alemãs ontem (30/09). Cerca de 50 ambientalistas haviam se acorrentado na entrada e enrolado um tronco de madeira tropical carbonizado de seis metros de comprimento da Amazônia em frente ao prédio. Ao mesmo tempo, o navio de ação do Greenpeace “Beluga 2” estava ancorado nas proximidades do Spree.

A reunião entre Salles e representantes da BASF, Bayer, VW e outros teve que ser transferida para um local desconhecido. O encontro na embaixada brasileira também não ocorreu por medo de protestos. Anteriormente, o portal investigativo “The Intercept” divulgou a agenda do ministro do Meio Ambiente. Nesse sentido, estavam em pauta reuniões com os ministros alemães de cooperação, Gerd Müller (CSU) e meio ambiente, Svenja Schulze (SPD).

O ministro brasileiro está em turnê há dias nos EUA e na Europa, onde quer suavizar as ondas de protesto após o incêndio na Amazônia. Na preparação,  Ricardo Salles deixou alguma autocrítica no ar. Ele disse que o Brasil não tem problemas com cortes e queimadas. Pelo contrário, o governo cometeu erros na comunicação. “O Brasil não entendeu como se apresentar como pioneiro em proteção ambiental”, disse Salles ao site de notícias de  O Globo . No passado, Salles não escondia o fato de que ele vê a proteção ambiental como um obstáculo ao desenvolvimento econômico quer abrir a região amazônica brasileira para a exploração econômica. Já o debate sobre mudanças climáticas que ele descreveu recentemente como “enigmático”. Além disso, ficou público que Salles cortou os fundos do Ibama para combate a incêndios em 30%. Os equipamentos inadequados do Ibama foram uma das razões pelas quais os incêndios não puderam ser contidos em seu princípio.

Em seu tour que abrange Paris e Berlim, Ricardo Salles  quer promover o controverso acordo de livre comércio entre a UE e a aliança econômica sul-americana Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai). O acordo visa facilitar o acesso ao mercado europeu da indústria brasileira de carne bovina. Em troca, as tarifas para carros e peças de carros da UE serão abolidas. A Alemanha é o maior exportador da UE nos países do Mercosul em termos de vendas de mais de 2,1 bilhões de euros em 2018.

PROTESTO 2Não há acesso ao ministro reacionário do Brasil, Salles. A entrada do IHK foi bloqueada. “Pare o genocídio dos índios” FONTE:MARINA SILVA

“Ambas as indústrias estão destruindo o clima: no Brasil, a selva está queimando para o plantio de mais pastagens, e na Alemanha uma indústria automobilística está buscando novos mercados de vendas para suas máquinas produtoras de CO2”, disse Jürgen Knirsch, especialista em comércio do Greenpeace. Os ativistas do Greenpeace exigiram que a proteção da floresta e do clima não seja sacrificada em nome de interesses econômicos e que a floresta amazônica não fosse desmatada para plantações de soja e gado. O acordo proposto para o Mercosul deve ser suspenso, segundo o Greenpeace.

protesto 3“O acordo do Mercosul com a União Europeia destrói o clima”FONTE:MARIO SCHENK / AMERICA21

A ativista ambiental Marina Dias, do Grupo Gira,  apontou à Amerika21 o fato de que a destruição da Amazônia destrói não apenas um dos biomas mais valiosos, mas também culturas e vidas inteiras. “As políticas destrutivas do governo Bolsonaro se concentram nos povos indígenas, comunidades afro-descendentes de quilombolas e camponeses, que o governo considera um obstáculo ao desenvolvimento e uma riqueza cultural para a humanidade, não apenas o Brasil”, diz Dias. O próprio Salles é um “criminoso ambiental”. No passado, ele violou repetidamente as leis relativas à conservação da natureza.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão no site da revista Amerika 21 [Aqui!].

Corais da Amazônia estão vivos e crescem, revela novo estudo

Após críticas de políticos e cientistas, novo estudo aponta que algas, esponjas e corais de recifes na foz do Amazonas seguem em expansão. Especialistas pedem preservação na região cobiçada pela indústria do petróleo.

Foto tirada a 100m de profundidade é a primeira em alta definição que mostra corais nos recifes da Amazônia. À esquerda, algas vermelhas; no centro, corais em forma de cilindros esponjosos brancos, de diferentes tamanhos; e à direita, algas verdes e marrons, similares a galhos de coníferas.Primeira foto em alta definição mostra corais nos recifes da foz do Amazonas

Desde que foi descrito como um dos ecossistemas mais importantes num local pouco provável do oceano Atlântico, o grande complexo de recifes da Amazônia despertou crítica no mundo científico e político. A região onde está localizado, na foz do rio Amazonas, é cobiçada pela indústria do petróleo com uma reserva estimada em até 14 bilhões de barris

Novas descobertas agora revelam mais detalhes sobre os recifes: estão vivos e em expansão. É a conclusão de um artigo científico publicado na revista Nature Scientific Reports nesta segunda-feira (23/09).

“O que nós fizemos foi determinar as idades da estrutura da área e mostramos que as idades são atuais, ou seja, os recifes continuam crescendo, mesmo abaixo da pluma [de sedimentos transportada pelo Amazonas]”, afirma a DW Brasil Michel Mahiques, do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), e primeiro autor do artigo.

Para muitos políticos e cientistas não envolvidos no estudo, seria impossível encontrar esse tipo de vida abaixo da pluma do Amazonas, que carrega materiais depositados pela floresta por centenas de quilômetros depois de encontrar o Atlântico. Essas características influenciam a composição da água salgada e luminosidade que chega ao fundo do mar.

Em dezembro passado, a Fiepa, Federação das Indústrias do Pará, organizou um seminário em que classificou como “falsos” os estudos previamente publicados e que ONGs estariam “interferindo no desenvolvimento da Amazônia”.

No entanto, análises feitas por pesquisadores de diferentes instituições brasileiras e publicadas em revistas científicas apontam que há recifes espalhados por uma área que chega a 900 km de comprimento, que se estende pela costa norte brasileira, na faixa dos estados do Pará e Maranhão, até a Guiana FrancesaEstima-se que o recife tenha cerca de 56 mil km².

Formados por algas, esponjas e corais, esses recifes chegam a até 220 metros de profundidade, começaram a ser formados há cerca de 13 mil anos e se desenvolveram sob diferentes condições de luminosidade até se espalharem pela porção sul do Atlântico, afirma o artigo.

Segundo os autores, a análise dos materiais coletados no local em 2017 e 2019, feita com a técnica baseada no uso do Carbono 14, apontou idades modernas. “São mais jovens que 1950, que é a idade de referência do radiocarbono”, pontua Mahiques. Com a técnica de datação baseada no carbono radioativo é possível rastrear materiais de até 45 mil anos de idade.

“É preciso lembrar que uma porção muito pequena dos recifes foi mapeada até o momento”, ressalta Mahiques. “A importância dele reside muito mais na biodiversidade do que na existência de corais”, complementa.

Ciência e discórdia

A possibilidade de existência desse ecossistema na região da foz do rio Amazonas é citada por cientistas desde de meados de 1970. Por outro lado, foi só em 2016 que um estudo reuniu dados suficientes para comprovar a hipótese, que causou grande repercussão.

Em 2018, uma expedição científica a bordo do navio Esperanza, do Greenpeace, comprovou a existência de recifes sobre a faixa onde empresas de petróleo aguardavam autorização do governo brasileiro para perfurar. Além das estruturas recém-descobertas, a região tem uma das correntes mais fortes do mundo, que impõe dificuldades técnicas para instalação de plataformas de petróleo e poderia causar grandes estragos em caso de vazamento.

Ronaldo Francini-Filho, pesquisador da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), participou daquela missão. “Não acreditar que o Recife do Amazonas existe é o mesmo que não acreditar em mudanças climáticas”, diz sobre os questionamentos feitos após a comprovação da existência das estruturas.

Na avaliação de Francini-Filho, um dos autores do artigo da Nature Scientific Reports, o negacionismo científico tem sido usado para justificar projetos que promovem elevada degradação ambiental em todo o mundo.

Corais da Amazônia registrados em 2018: imagem submarina feita por robô mostra corais amarelos e esponjas coloridas sobre pedras e areia branca em tons de azul por causa da água; ao fundo, diversos peixes de diferentes cores.Especialistas pedem preservação da região alvo de indústrias petrolíferas

“Enquanto que uma maioria de cientistas indica que o aquecimento global está sendo causado principalmente pela ação humana, setores interessados na expansão de fontes de energia que emitem grande quantidade de gases de efeito estufa, como queima de petróleo, negam que existam mudanças climáticas”, argumenta Francini-Filho.

O pesquisador ressalta que diferentes trabalhos científicos nos últimos dez anos têm apontado a existência de recifes de corais vivos até abaixo de 150 metros de profundidade. “No caso do Amazonas, temos um trabalho de sensoriamento remoto demonstrando que existe luz suficiente para o crescimento de corais e outros organismos construtores em áreas profundas da plataforma norte do Brasil, mesmo com a alta turbidez da água”, argumenta, fazendo referência ao artigo divulgado na publicação científica especializada em ambientes marinhos em águas superficiais Continental Shelf Research.

Interesse da indústria do petróleo

Por causa da reserva de petróleo estimada na foz do Amazonas, empresas internacionais e brasileiras tentam há anos obter licença para exploração. No fim de 2018, um parecer do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) barrou definitivamente o processo de licenciamento da Total. O da britânica BP continua em andamento.

Após as revelações da ciência e na tentativa de preservar o ecossistema ainda pouco conhecido, a ONG Greenpeace lançou a campanha internacional “Defenda os Corais da Amazônia”. No início de setembro, uma equipe de profissionais realizou o primeiro mergulho profundo no local. Até então, o fundo do mar naquela porção tinha sido “visitado” por um submarino e um robô.

“Não podemos nos dar ao luxo de perfurar e queimar mais petróleo. Como uma comparação, mesmo se o desmatamento da Amazônia acabasse amanhã, se as reservas estimadas na região dos Corais da Amazônia forem queimadas, seria o mesmo que continuar a desmatar por mais oito anos”, diz Thiago Almeida, coordenador da campanha do Greenpeace.

Diante da polêmica, Fabiano Thompson, cientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos autores do estudo, ressalta que há um grande potencial para criar novas soluções baseadas na biodiversidade dos recifes do Amazonas, e que é preciso saber respeitar resultados científicos.

“Precisamos desenvolver pesquisa científica independente. E as empresas precisam aprender a desenvolver a cultura de tomada de decisões com base em evidências científicas”, afirmou à DW Brasil, citando que essa abordagem é comum para a criação de políticas públicas na Europa. “É importante parar esta atitude predatória e que compra cumplicidade de certos ‘pesquisadores’ para avalizar atividades sem evidência científica”, opina Thompson.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!]. 

 

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].