‘Dependência europeia’ de soja transgênica desmata a América Latina, denuncia Greenpeace

soja desmatamento

Comer ovos e carne de frango ou porco na Europa aumenta o desmatamento em Brasil e Argentina, em consequência da importação maciça de soja transgênica destes países para alimentar animais, denunciou nesta terça-feira (11) o Greenpeace França.

“No Brasil e na Argentina, mais de 95% da soja produzida é geneticamente modificada”, indica um informe da ONG, que mostra também que mais da metade da soja que a UE utiliza é importada desses dois países (37% do Brasil, 29% da Argentina, 15% dos Estados Unidos e 19% do resto do mundo).

“O cultivo da soja nesses dois países leva a devastar suas florestas com o objetivo de alimentar os animais, especialmente na Europa”, resume à AFP a autora do informe, Cécile Leuba, encarregada de Florestas para o Greenpeace.

No estudo, com o título “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“, o Greenpeace indica que 87% desse grão importado para a UE é destinado à alimentação animal.

Do total das necessidades de soja da União Europeia, três quartos são destinados à criação industrial de frangos ou galinhas poedeiras (50%) ou de porcos (24%). As vacas leiteiras consomem 16% da soja importada e os bovinos cuja carne é destinada ao consumo, 7%.

“O que denunciamos é que se utiliza dois pesos e duas medidas na União Europeia. Por um lado, proibi-se os OGM e muitos pesticidas, e por outro se autoriza a importação de soja transgênica cultivada com pesticidas proibidos na Europa”, aponta Cécile Leuba.

“E o que queremos mostrar aos europeus é que em seu consumo de carne, ovos ou produtos lácteos se esconde o desmatamento, porque a maioria dos animais de criação têm soja em sua ração alimentar diária”, acrescenta.

Segundo o cálculo do Greenpeace, para obter 100 gramas de peito de frango se necessita 109 gramas de soja. Para a mesma quantidade de costela de porco, são requeridas 51 gramas de soja.

A produção de soja no Brasil “mais que quadruplicou nestes últimos 20 anos”, diz o informe.

– Reduzir 80% do consumo na Europa –

Se a Amazônia está “relativamente protegida desta expansão” graças à moratória negociada em 2006 entre ONGs, empresas e autoridades brasileiras, o cultivo de soja se desenvolveu nas savanas e florestas do Cerrado, que “perderam metade de sua vegetação original”.

A região do ‘Gran Chaco’, compartilhada entre Argentina, Bolívia e Paraguai, “também sofre uma forte pressão devido à expansão agrícola”, aponta o estudo.

Desde 1990, o uso de pesticidas por unidade de superfície “aumentou mais de 170% na Argentina e no Brasil”, estima o Greenpeace, e “mais de um terço dos pesticidas permitidos no Brasil não seriam autorizados pela UE”, principalmente o carbofurano e paraquat, assim como atrazina e imazethapyr na Argentina.

No entanto, a ONG considera impossível que a UE ou a França deslocalizem culturas não OGM para o velho continente para compensar.

Somente na França, para produzir as 3,5 milhões de toneladas de soja importadas a cada ano (incluindo 2 milhões do Brasil), seriam necessários outros 11.980 km2, ou seja, quase todas as terras agrícolas de Morbihan, Côtes d’Armor e do Finistère somadas.

E para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, a ONG defende uma “transformação do sistema agrícola” através da redução do consumo e produção de proteínas animais.

“Na Europa Ocidental, onde o consumo de carne e produtos lácteos é quase o dobro da média global, esse consumo deve ser reduzido em cerca de 80% até 2050”, diz o Greenpeace.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela SwissInfo [Aqui!].

Brasil aprova centenas de agrotóxicos proibidos na Europa

Jair Bolsonaro aprovou centenas de novos pesticidas e herbicidas, a maioria proibida na Europa, desde que tomou posse em janeiro. Um estudo conclui ainda que foram aprovados mais de mil desde 2016.

agrotóxicos

Pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP)

Uma investigação da Unearthed descobriu que, entre os mais de 1200 pesticidas e herbicidas registados no Brasil nos últimos três anos, incluem-se 193 que contêm produtos químicos proibidos na União Europeia.

De acordo com a investigação, até 21 de maio deste ano “169 produtos foram aprovados desde a eleição de Bolsonaro”. Mas já em 2018, “último ano de Temer no cargo, 450 novos produtos pesticidas foram aprovados pelo Ministério da Agricultura”, o que leva a crer que o “novo governo está a manter a mesma taxa de aprovação”.

Destes 169 novos produtos homologados, pelo menos 78 contêm ingredientes ativos (substâncias que causam um efeito biológico ou químico) classificados como altamente perigosos pela Pesticide Action Network e 24 contêm ingredientes ativos que são proibidos na UE.

“Dados oficiais mostram um aumento significativo nas aprovações de novos pesticidas ambientalmente perigosos, sob os governos de Michel Temer e do atual presidente Jair Bolsonaro”, refere o estudo.

O estudo realça ainda que ambos os líderes brasileiros “estão próximos do poderoso lobby do agronegócio no Brasil”.

O Brasil começou a acelerar as aprovações de pesticidas em setembro de 2016, quando Michel Temer assumiu a presidência. Desde então, foram sancionados 1270 pesticidas – o dobro comparativamente ao valor dos quatro anos anteriores a 2016. E a Unearth, com base nos dados do Ministério da Agricultura do Brasil, descobriu que pelo menos 193 desses produtos continham ingredientes ativos proibidos na Europa.

Além disso, “quase metade de todos os produtos aprovados desde a posse de Bolsonaro contêm ingredientes ativos apresentados na lista de pesticidas altamente perigosos da Pesticide Action Network (PAN), indicando que representam um risco para a saúde humana ou para o meio ambiente”.

“Parece que aceleraram o processo de aprovação”, disse ao jornal britâncio The Guardian o toxicologista da Universidade da Califórnia, David Eastmond. “Alguns deles são altamente perigosos e isso gera preocupação”.

A investigação da Unearthed Greenpeace adianta ter descoberto que empresas estrangeiras, como as alemãs Helm BASF ou a chinesa Adama, “registaram produtos do Brasil que contêm produtos químicos que não seriam aprovados nos seus países”.

Pesticidas proibidos causam preocupação

O Governo de Jair Bolsonaro, de extrema-direita, tem tentado alterar as regras sobre a utilização de pesticidas. Mas “o Brasil tem uma das mais ricas biodiversidades do planeta e há preocupações de que o uso disseminado de pesticidas no país possa ter grandes consequências para a vida selvagem e o meio ambiente do país”, alerta o estudo.

“Todas as semanas novos pesticidas são registados. Além de contaminar o nosso solo, a nossa água e afetar negativamente a nossa saúde coletiva, é absurdo o governo brasileiro permitir que empresas estrangeiras vendam produtos que contêm substâncias químicas proibidas nos seus mercados”, disse Sónia Guajara, uma ativista e líder da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil.

O Brasil é dos maiores compradores de pesticidas e ainda permite a utilização de muitos “agrotóxicos” que já foram proibidos nos outros países. Mas o problema não se resume ao Brasil. Várias empresas estrangeiras têm pesticidas aprovados no Brasil que são proibidos ou sujeitos a restrições nos seus próprios países, descobriu a Unearthed.

Muitos mercados e grandes consumidores estrangeiros estavam a vender produtos brasileiros que eram proibidos nos seus mercados internos.

Por exemplo, uma cadeia de supermercados sueca de produtos naturais e orgânicos suspendeu a venda de produtos brasileiros, devido à crescente aprovação de pesticidas e à “ameaça que Bolsonaro representa para a floresta amazónica”.

Já na Alemanha, a empresa Helm registou, desde setembro de 2016, nove produtos do Brasil que não tinham licença para vender no seu país. Um desses produtos era o “controverso produto químico ‘paraquat’ – proibido na Europa desde 2007 e associado à doença de Parkinson”.

No passado mês de maio, a ministra da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina Dias, disse no parlamento que os governos anteriores foram impedidos de aprovar pesticidas por um “processo ideológico”, defendendo a utilização de glifosato (um herbicida classificado como “provavelmente cancerígeno para humanos”).

O Ministério da Agricultura propôs o chamado “pacote de veneno” que visa a desregulamentação dos pesticidas, passando a ser apenas necessária a aprovação do Ministério.

No entanto, a Unearthed ressalva que não é só no Brasil que se vendem produtos proibidos na UE. Praticamente todos os produtos aprovados no Brasil foram recentemente aprovados também na China.

Um outro estudo, que considera os EUA, a UE, o Brasil e a China os quatros maiores produtores agrícolas, diz que mais de 500 pesticidas agrícolas foram identificados nestes países. 

Os pesticidas proibidos na UE representam mais de um quarto de todo o uso de pesticidas nos EUA, refere o estudo. E “dos pesticidas usados na agricultura nos EUA em 2016, 322 milhões de quilos foram de pesticidas proibidos na UE”.

Em conclusão, a Unearthed afirma que “dos produtos registados no Brasil desde que Bolsonaro assumiu o cargo, 14% contêm produtos químicos explicitamente proibidos na EU”.

O uso de pesticidas não aprovados na Europa gera preocupação tanto com o impacto do seu uso na biodiversidade como na saúde pública.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela RTP [Aqui!]

The Guardian: Jair Bolsonaro alarma ativistas do clima com discurso pró-negócios

Novo presidente brasileiro destaca necessidade de crescer na economia em Davos

Jair Bolsonaro diz que vai “abrir” a economia do Brasil em discurso pró-negócios em Davos – vídeo

Por  in Davos para o “The Guardian” [1]

O novo presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, despertou novo alarme entre ambientalistas depois de salientar que proteger o ecossistema único de seu país tem que ser consistente com o crescimento da economia.

Em comentários que fizeram pouco para amenizar os temores dos riscos que uma estratégia de crescimento representaria para a região amazônica, Bolsonaro usou sua primeira viagem ao exterior desde que assumiu o controle no início do ano para delinear uma agenda fortemente pró-negócios.

O novo discurso do presidente no Brasil, no Fórum Econômico Mundial em Davos, delineou uma agenda de privatização para redução de impostos, projetada para reduzir o tamanho do Estado e encorajar o empreendedorismo.

“Agora é nossa missão avançar na harmonização da preservação ambiental e da biodiversidade com o tão necessário desenvolvimento econômico”, disse ele.

Um dos primeiros atos de Bolsonaro foi transferir o controle da regulamentação e a criação de reservas indígenas para o ministério da agricultura, que é controlado pelo lobby do agronegócio no Brasil. Essa medida foi amplamente criticada por grupos ambientalistas, mas Bolsonaro disse a seu público de líderes empresariais que a proteção da natureza era consistente com o desenvolvimento econômico.

“A agricultura não representa mais do que 9% do nosso território e cresceu graças à tecnologia e ao trabalho árduo dos agricultores”, disse ele. “Nenhum outro país no mundo tem tantas florestas quanto nós.” A economia e o meio ambiente eram interdependentes e inseparáveis, acrescentou o presidente.

José Gregorio Mirabal, coordenador geral do Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia do Rio Amazonas (COICA), disse: “A elite econômica e política mundial em Davos hoje não deve se distrair com os esforços de Bolsonaro para acalmar os investidores interessados ​​em investir no Brasil. O ataque de Bolsonaro aos povos e florestas de seu país ameaça todos os povos e florestas da Amazônia e coloca em risco os esforços globais para enfrentar as mudanças climáticas ”.

Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace International, disse que a atitude de Bolsonaro em relação à Amazônia foi uma das maiores ameaças ao meio ambiente. “Estamos trabalhando com aliados e trabalharemos para defender tudo o que pudermos, porque a Amazônia não é apenas uma floresta incrível, é o pulmão da Terra e desempenha um papel extremamente importante no clima”, disse ela.

Bolsonaro, cujo filho Flavio está sendo investigado por supostas irregularidades financeiras, disse que seus ministros estavam comprometidos em reprimir a corrupção e a lavagem de dinheiro. “Tomei posse em meio a uma grande crise ética, moral e econômica. Estou comprometido em mudar nossa história ”, disse ele.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês [Aqui!]

França lança plano para evitar desmatamento que pode impactar soja transgênica

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Parcela da Floresta Amazônica desmatada para uso de agricultores. REUTERS/Nacho Doce

Por RFI

O governo francês adotou nesta quarta-feira (14) sua “Estratégia Nacional contra o Desmatamento Importado (SNDI)”. O plano interministerial prometido ao ex-ministro ecologista Nicolas Hulot tem como objetivo oficial “encerrar até 2030 o desmatamento causado pela importação de produtos florestais ou agrícolas não sustentáveis”, o que pode ter impacto na soja transgênica produzida no Brasil e em outros países da América Latina, destinada à alimentação do gado, além do óleo de palma do sudeste da Ásia e o cacau da África.

Um relatório recente da ONG WWF mostrou que nos últimos cinco anos a França contribuiu potencialmente para o desmatamento de 5,1 milhões de hectares apenas com a importação de sete matérias-primas, incluindo a soja, o couro e o dendê. Entre 1990 e 2015, a área florestal do planeta foi reduzida em 129 milhões de hectares, uma superfície equivalente ao dobro do tamanho do território francês. Esse desmatamento é responsável por cerca de 11% das emissões globais de gases de efeito estufa e tem consequências desastrosas para a biodiversidade.

De acordo com cálculos da ONG Envol Vert, divulgados na semana passada, os hábitos de consumo dos franceses (carne, ovos, couro, agrocombustíveis, cacau, borracha etc.) levam a um desmatamento anual massiço.

O plano de 17 medidas propõe uma mudança nas práticas de todos os atores do mercado, começando pelos países produtores dessas matérias-primas. No entanto, a iniciativa não tem caráter vinculante nem prevê sanções.

Monitoramento visual das áreas desmatadas

No início de 2019, será lançada uma plataforma onde as empresas francesas importadoras desse tipo de insumo poderão se informar sobre produtos de origem duvidosa, tendo acesso a dados de controles de fronteira aprimorados, dados alfandegários e de monitoramento por satélite da cobertura florestal. Essa plataforma também terá a missão de desenvolver até 2020 um selo de “desmatamento zero” para orientar os consumidores. O plano não prevê multas ou a proibição de importações, mas aposta numa mudança de mentalidade para reduzir o desmatamento.

As matérias agrícolas visadas inicialmente pelas medidas são soja, óleo de palma, carne bovina, cacau, borracha e madeira. Mas a lista poderá ser acrescida de outros produtos, como café, algodão, cana-de-açúcar, milho e produtos de mineração, em etapas de revisão do dispositivo previstas em 2020 e 2025.

Campanha de imagem

Em relação à soja transgênica utilizada na alimentação do gado, a intenção do governo é promover alternativas, em discussão com os produtores, para alcançar a autonomia proteica a partir de 2030. Mas nada impede que até lá atores públicos, como municípios e regiões, além de empresas, adotem a tática de “nomear para envergonhar” (“name and shame), educando os consumidores para marcas e produtos que não respeitam as florestas, disse o Ministério da Transição Ecológica.

O diretor-geral da WWF na França, Pascal Canfin, felicitou o governo pela “estratégia nacional mais completa produzida até hoje nessa área”. A iniciativa propõe “um ângulo concreto” para enfrentar o declínio da biodiversidade, afirma Canfin, um tema que ainda enfrenta lacunas jurídicas e de conteúdo político e diplomático sensíveis. Segundo Canfin, as mudanças vão depender da capacidade de liderança política e da mobilização da sociedade civil nessa direção.

Já a ONG Greenpeace considerou “tímidos” os avanços do governo e lembrou que o plano não remedia a autorização concedida à petrolídera Total para importar 550 mil toneladas de óleo de palma para sua biorefinaria de La Mède (sul). Clément Senechal, responsável pela campanha de florestas na Greenpeace França, criticou a falta de mecanismos de coerção no plano, nenhuma proibição ou regulação. “Como poderemos freiar o desmatamento dessa forma?”, questionou Senechal.

FONTE: http://br.rfi.fr/franca/20181114-franca-lanca-plano-para-evitar-desmatamento-que-pode-impactar-soja-transgenica?fbclid=IwAR0FrSGr_ODzMxxQ6uFNW4BKZZKyjOnNUVj2NaxEHekBJUB-dMoza5EywTg

 

Corais da Amazônia encontrados sobre o petróleo

Recém-descobertos pela ciência na costa norte do Brasil, corais ocupam área subaquática maior que a do estado do Rio de Janeiro. Licença para exploração de petróleo na região pode sair a qualquer momento.

Corais da Amazônia

Recife amazônico abriga mais de 40 espécies de corais, 60 de esponjas 70 de peixes, além de lagostas e estrelas-do-mar

Escondidos no fundo do Oceano Atlântico, numa das regiões de correnteza mais fortes do mundo, corais da Amazônia foram localizados em uma área que pode, a qualquer momento, ser liberada para a exploração de petróleo. A descoberta foi feita por pesquisadores brasileiros a bordo do navio Esperanza, cedido pelo Greenpeace para a missão científica.

Pesquisadores buscam evidências numa faixa da costa norte do Brasil, próxima ao Amapá e ainda sob influência das águas que o rio Amazonas despeja no mar. É exatamente ali que a empresa francesa Total aguarda licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para extrair petróleo.

“Pela primeira vez, obtivemos imagens da área com um robô. Encontramos recifes na porção mais rasa dos blocos de onde se quer extrair petróleo”, afirma Ronaldo Francini-Filho, pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPA). “Tem área de petróleo aqui que está embaixo das áreas de recife. Isso a gente não pode deixar de considerar.”

Inicialmente, estimou-se que os corais da Amazônia ocupassem uma área de 9,5 mil quilômetros quadrados, mas o cálculo mais recente indica que seu tamanho seja mais de cinco vezes maior. “O recife tem em torno de 56 mil quilômetros quadrados. Portanto, é o maior recife do Brasil e um dos maiores do mundo”, disse Fabiano Thompson, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também a bordo do navio.

Os recifes cobrem, portanto, uma área submersa maior que o estado do Rio de Janeiro, habitada por mais de 40 espécies de corais, 60 de esponjas – metade provavelmente ainda desconhecida –, 70 espécies de peixes, lagostas, estrelas-do-mar. A região também é refúgio de peixes que já desapareceram da costa brasileira, como o mero. Os detalhes dessa descoberta serão publicados num artigo científico nas próximas semanas.

A expedição a bordo do Esperanza, iniciada em 2 de abril, entrava no sexto dia quando o novo alvo foi identificado. Enquanto um robô especialmente trazido para a missão científica –equipado com três câmeras e um sistema de coleta de água e material – atingia profundidade, as imagens eram exibidas em duas telas instaladas na popa do navio.

Depois de uma detalhada análise e longos debates, os pesquisadores confirmaram: os corais da Amazônia cobrem também exatamente o local considerado nova fronteira petrolífera, na Bacia da Foz do Amazonas.

A faixa de recifes está localizada entre 70 e 220 metros de profundidade na costa ao longo dos estados de Maranhão, Pará e Amapá. Até então, os livros diziam que corais não cresciam perto da foz de grandes rios, onde a água doce chega ao mar carregada de lama, é mais escura e impede a entrada a luz – fonte usada pelos corais para produzir alimento.

Um mundo improvável e desconhecido

A jornada dos pesquisadores brasileiros em busca do improvável recife de corais começou em 2011. Mais tarde, missões científicas fizeram a coleta de dados no local. Os resultados surpreenderam o mundo num artigo publicado em 2016.

“Exatamente porque o acesso é tão difícil e as condições oceanográficas aqui são tão duras é que a gente sabe pouco sobre esse lugar”, comenta Francini-Filho sobre o impacto da descoberta.

As primeiras imagens dos corais da Amazônia foram registradas em 2017, numa viagem de submarino realizada com apoio do Greenpeace. “O pouco do conhecimento que a gente tem dessa região já indica que realmente é uma área extremamente rica, sensível à exploração de petróleo”, complementa o pesquisador, estimando que se conheçam apenas 5% da vida que o recife abriga.

Com o anúncio que surpreendeu a ciência, diante da iminência da chegada de plataformas para retirada de petróleo nessa parte do Atlântico, a conservação dos corais da Amazônia se transformou numa campanha mundial do Greenpeace.

Corais sobre o petróleo

A atual expedição, que deve se estender até maio, exigiu mais de um ano de planejamento, obteve autorização do governo brasileiro, e custou 700 mil euros – montante que veio dos doadores que mantêm o Greenpeace.

“É urgente a campanha, é urgente essa pesquisa cientifica que nós fazemos aqui pra provar que é mesmo um novo bioma, único no mundo, pouquíssimo conhecido pela ciência”, argumenta Thiago Almeida, representante da Campanha Defenda os Corais da Amazônia.

Um vazamento de petróleo traria danos irreparáveis, argumenta Almeida. “Além disso, esse petróleo chega mais perto da costa e dos rios brasileiros na Amazônia, região com um dos maiores mangues do planeta. Estamos falando de uma ameaça a diversas populações de pescadores, extrativistas, ribeirinhos e povos indígenas.”

Thompson vê grande potencial nas pesquisas. “Esse recife é considerado uma farmácia submarina. Ele pode se reverter em divisas para nosso país, se conseguirmos desenvolver a biotecnologia marinha a partir da biodiversidade que ele abriga, e gerar moléculas bioativas para novos medicamentos para tratar doenças como câncer, viroses, doenças infecciosas”, explica o pesquisador da UFRJ, citando iniciativas já em andamento em países na Europa, Estados Unidos e Japão.

Últimos passos antes da exploração

O processo de licenciamento para exploração de petróleo no local pela francesa Total e a britânica BP está em suas etapas finais. O Ibama informou que o processo conduzido pela Total está em estágio mais próximo de decisão.

Os blocos para exploração foram adquiridos em 2013, num leilão da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Estima-se que a região da Bacia da Foz do Amazonas armazene até 14 bilhões de barris de petróleo.

Questionada pela DW Brasil, a Total não respondeu se sabia da existência dos corais sobre a região que pretende explorar e se manifestou por meio de nota. “A Total respondeu, em janeiro, ao último parecer técnico do Ibama em relação ao Estudo de Impacto Ambiental da atividade de perfuração de poços que a empresa prevê realizar nos blocos que opera na Bacia da Foz do Amazonas. A empresa no momento aguarda um posicionamento do órgão, no âmbito do processo de licenciamento ambiental que está em curso.”

Os pesquisadores esperam que a ciência seja levada em conta na decisão. “Com base no conhecimento que temos até agora, a exploração de petróleo aqui será realmente uma tragédia, caso ela ocorra. Porque a gente conhece muito pouco disso que estamos chamando de megabioma: uma região da Floresta Amazônica conectada com o segundo maior rio do planeta e um dos maiores recifes do mundo”, opina Francini-Filho.

FONTE: http://www.dw.com/pt-br/corais-da-amaz%C3%B4nia-encontrados-sobre-o-petr%C3%B3leo/a-43400844

Nova expedição científica busca aumentar conhecimento sobre os recifes de corais do delta do Rio Amazonas

recife de coral

A descoberta de um rico ecossistema de recifes de corais no delta do Rio Amazonas representou uma mudança de paradigma no conhecimento científico, tendo merecido um amplo reconhecimento internacional [1, 2 e 3].

A pesquisa, que contou com a participação de pesquisadores do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), resultou num artigo publicada pela prestigiada revista Science Advances [4]

Pois bem, animados com o resultado da primeira campanha que detectou a existência desse ecossistema, os pesquisadores envolvidos no projeto estão iniciando uma nova etapa da pesquisa com a participação do navio de pesquisas da organização não governamental Greenpeace, o Esperanza.  

Nos próximos dias estarei publicando outras informações sobre o cruzeiro de pesquisa, o qual novamente contará com a presença de pesquisadores da Uenf, que o Esperanza realizará no delta do Rio Amazonas. Por ora, coloco abaixo o vídeo produzido pelo Greenpeace sobre as pesquisas que deverão ser realizadas.


[1] https://www.theguardian.com/environment/2017/jan/30/first-images-unique-brazilian-coral-reef-mouth-amazon

[2] https://www.washingtonpost.com/news/speaking-of-science/wp/2016/04/25/scientists-find-a-massive-coral-reef-just-chilling-in-the-amazon/?utm_term=.20c185530bcd

[3] http://www.latimes.com/science/sciencenow/la-sci-sn-coral-reef-amazon-river-20160422-story.html

[4] http://advances.sciencemag.org/content/advances/2/4/e1501252.full.pdf

Agricultura tóxica: Greenpeace lança relatório sobre modelo agrícola brasileiro

greenpeace

A Organização Não-Governamental Greenpeace acaba de lançar um interessante relatório que analisa o modelo agrícola brasileiro onde são levantadas as diferentes consequências ambientais e sociais que decorrem das suas práticas.

Um elemento que é tratado com especial atenção se refere ao uso intensivo e abusivo de agrotóxicos para a sustentação de um modelo fortemente ancorado em monoculturas voltadas para a exportação.

Pelo que pude analisar do conteúdo do relatório, o mesmo é daqueles que merecem uma cuidadosa leitura e mesmo disseminação ampla. É que bombardeadas pela propaganda enganosa do “Agro é pop”, a maioria dos brasileiros está diariamente consumindo alimentos contaminados por substâncias com alta toxicidade e que podem trazer graves consequências para ecossistemas naturais e para seres humanos.

Quem desejar baixar o arquivo contendo este relatório, basta clicar [Aqui!]