2019: o ano mais tóxico da última década

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na AmazôniaSemana é marcada pelo ioiô dos agrotóxicos: Justiça veta o registro de 63 produtos na última segunda e MAPA libera hoje 57 produtos

Apenas dois dias depois de acatar uma decisão judicial que revogou o registro de 63 agrotóxicos, na última segunda-feira, 25 de novembro, o Ministério da Agricultura (MAPA) libera, hoje, o registro de mais de 57 produtos. Com isto, atingimos a marca de 467 agrotóxicos liberados em 2019. Mesmo ainda faltando 34 dias para o ano acabar, este já é o período com mais liberações desses produtos nos últimos dez anos.

A agenda anti ambiental promovida pelo Governo têm desenvolvido meios de impactar toda população. A proteção de nossos recursos naturais têm sido colocada sob risco, o trabalho de quem defende a natureza tem sido desqualificado ou criminalizado, as populações tradicionais têm enfrentado um aumento de violência e nossas refeições têm sido recheadas de veneno.

2019 também já ficou marcado pela suavização do rigor das análises toxicológicas, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela alteração nas classificações que apenas considera como “extremamente tóxicos” venenos que têm efeito fatal.

Segundo Marina Lacôrte, da Campanha de a Agricultura e Alimentação do Greenpeace, esta é uma ação irresponsável de Teresa Cristina, atual Ministra da Agricultura. “Nosso sentimento é que ela parece estar alheia a realidade do nosso País, que tem pessoas passando fome, onde ainda luta-se por reforma agrária e onde esquecem-se – ou fingem não saber – que Agricultura e Amazônia são duas questões intimamente ligadas.

O ritmo e o conteúdo das liberações nos distanciam cada vez mais de uma agricultura sustentável e mais saudável e coloca em risco as gerações atuais e futuras, que sofrerão com problemas de saúde e a destruição do meio ambiente. Atualmente, quem está bem contente é a indústria dos agrotóxicos e a bancada ruralista. Mas, apesar do descaso, não vamos parar de lutar contra medidas que coloquem sob risco nosso ambiente e nossa sociedade” conclui Lacôrte.

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Ricardo Salles queria se tornar uma câmara de livre comércio em Berlim. Mas o Greenpeace não deixou

A reunião do ministro Bolsonaro Salles com BASF, Bayer e VW foi suspensa. O Greenpeace bloqueou o acesso à Câmara de Comércio e Indústria da Alemanha

protesto berlim50 protetores climáticos do Greenpeace bloquearam o acesso à Câmara de Comércio e Indústria de Berlim na segunda-feira de manhã. FONTE:MARIO SCHENK / AMERIKA21

Por Mario Schenck para o Amerika21

Berlin. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, encontrou considerável resistência durante sua visita a Berlim. Um bloqueio da organização ambiental Greenpeace em frente à Câmara de Indústria e Comércio (IHK) e o protesto registrado de ativistas brasileiros do grupo Gira impediram Salles de encontrar representantes de empresas alemãs ontem (30/09). Cerca de 50 ambientalistas haviam se acorrentado na entrada e enrolado um tronco de madeira tropical carbonizado de seis metros de comprimento da Amazônia em frente ao prédio. Ao mesmo tempo, o navio de ação do Greenpeace “Beluga 2” estava ancorado nas proximidades do Spree.

A reunião entre Salles e representantes da BASF, Bayer, VW e outros teve que ser transferida para um local desconhecido. O encontro na embaixada brasileira também não ocorreu por medo de protestos. Anteriormente, o portal investigativo “The Intercept” divulgou a agenda do ministro do Meio Ambiente. Nesse sentido, estavam em pauta reuniões com os ministros alemães de cooperação, Gerd Müller (CSU) e meio ambiente, Svenja Schulze (SPD).

O ministro brasileiro está em turnê há dias nos EUA e na Europa, onde quer suavizar as ondas de protesto após o incêndio na Amazônia. Na preparação,  Ricardo Salles deixou alguma autocrítica no ar. Ele disse que o Brasil não tem problemas com cortes e queimadas. Pelo contrário, o governo cometeu erros na comunicação. “O Brasil não entendeu como se apresentar como pioneiro em proteção ambiental”, disse Salles ao site de notícias de  O Globo . No passado, Salles não escondia o fato de que ele vê a proteção ambiental como um obstáculo ao desenvolvimento econômico quer abrir a região amazônica brasileira para a exploração econômica. Já o debate sobre mudanças climáticas que ele descreveu recentemente como “enigmático”. Além disso, ficou público que Salles cortou os fundos do Ibama para combate a incêndios em 30%. Os equipamentos inadequados do Ibama foram uma das razões pelas quais os incêndios não puderam ser contidos em seu princípio.

Em seu tour que abrange Paris e Berlim, Ricardo Salles  quer promover o controverso acordo de livre comércio entre a UE e a aliança econômica sul-americana Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai). O acordo visa facilitar o acesso ao mercado europeu da indústria brasileira de carne bovina. Em troca, as tarifas para carros e peças de carros da UE serão abolidas. A Alemanha é o maior exportador da UE nos países do Mercosul em termos de vendas de mais de 2,1 bilhões de euros em 2018.

PROTESTO 2Não há acesso ao ministro reacionário do Brasil, Salles. A entrada do IHK foi bloqueada. “Pare o genocídio dos índios” FONTE:MARINA SILVA

“Ambas as indústrias estão destruindo o clima: no Brasil, a selva está queimando para o plantio de mais pastagens, e na Alemanha uma indústria automobilística está buscando novos mercados de vendas para suas máquinas produtoras de CO2”, disse Jürgen Knirsch, especialista em comércio do Greenpeace. Os ativistas do Greenpeace exigiram que a proteção da floresta e do clima não seja sacrificada em nome de interesses econômicos e que a floresta amazônica não fosse desmatada para plantações de soja e gado. O acordo proposto para o Mercosul deve ser suspenso, segundo o Greenpeace.

protesto 3“O acordo do Mercosul com a União Europeia destrói o clima”FONTE:MARIO SCHENK / AMERICA21

A ativista ambiental Marina Dias, do Grupo Gira,  apontou à Amerika21 o fato de que a destruição da Amazônia destrói não apenas um dos biomas mais valiosos, mas também culturas e vidas inteiras. “As políticas destrutivas do governo Bolsonaro se concentram nos povos indígenas, comunidades afro-descendentes de quilombolas e camponeses, que o governo considera um obstáculo ao desenvolvimento e uma riqueza cultural para a humanidade, não apenas o Brasil”, diz Dias. O próprio Salles é um “criminoso ambiental”. No passado, ele violou repetidamente as leis relativas à conservação da natureza.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão no site da revista Amerika 21 [Aqui!].

Corais da Amazônia estão vivos e crescem, revela novo estudo

Após críticas de políticos e cientistas, novo estudo aponta que algas, esponjas e corais de recifes na foz do Amazonas seguem em expansão. Especialistas pedem preservação na região cobiçada pela indústria do petróleo.

Foto tirada a 100m de profundidade é a primeira em alta definição que mostra corais nos recifes da Amazônia. À esquerda, algas vermelhas; no centro, corais em forma de cilindros esponjosos brancos, de diferentes tamanhos; e à direita, algas verdes e marrons, similares a galhos de coníferas.Primeira foto em alta definição mostra corais nos recifes da foz do Amazonas

Desde que foi descrito como um dos ecossistemas mais importantes num local pouco provável do oceano Atlântico, o grande complexo de recifes da Amazônia despertou crítica no mundo científico e político. A região onde está localizado, na foz do rio Amazonas, é cobiçada pela indústria do petróleo com uma reserva estimada em até 14 bilhões de barris

Novas descobertas agora revelam mais detalhes sobre os recifes: estão vivos e em expansão. É a conclusão de um artigo científico publicado na revista Nature Scientific Reports nesta segunda-feira (23/09).

“O que nós fizemos foi determinar as idades da estrutura da área e mostramos que as idades são atuais, ou seja, os recifes continuam crescendo, mesmo abaixo da pluma [de sedimentos transportada pelo Amazonas]”, afirma a DW Brasil Michel Mahiques, do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), e primeiro autor do artigo.

Para muitos políticos e cientistas não envolvidos no estudo, seria impossível encontrar esse tipo de vida abaixo da pluma do Amazonas, que carrega materiais depositados pela floresta por centenas de quilômetros depois de encontrar o Atlântico. Essas características influenciam a composição da água salgada e luminosidade que chega ao fundo do mar.

Em dezembro passado, a Fiepa, Federação das Indústrias do Pará, organizou um seminário em que classificou como “falsos” os estudos previamente publicados e que ONGs estariam “interferindo no desenvolvimento da Amazônia”.

No entanto, análises feitas por pesquisadores de diferentes instituições brasileiras e publicadas em revistas científicas apontam que há recifes espalhados por uma área que chega a 900 km de comprimento, que se estende pela costa norte brasileira, na faixa dos estados do Pará e Maranhão, até a Guiana FrancesaEstima-se que o recife tenha cerca de 56 mil km².

Formados por algas, esponjas e corais, esses recifes chegam a até 220 metros de profundidade, começaram a ser formados há cerca de 13 mil anos e se desenvolveram sob diferentes condições de luminosidade até se espalharem pela porção sul do Atlântico, afirma o artigo.

Segundo os autores, a análise dos materiais coletados no local em 2017 e 2019, feita com a técnica baseada no uso do Carbono 14, apontou idades modernas. “São mais jovens que 1950, que é a idade de referência do radiocarbono”, pontua Mahiques. Com a técnica de datação baseada no carbono radioativo é possível rastrear materiais de até 45 mil anos de idade.

“É preciso lembrar que uma porção muito pequena dos recifes foi mapeada até o momento”, ressalta Mahiques. “A importância dele reside muito mais na biodiversidade do que na existência de corais”, complementa.

Ciência e discórdia

A possibilidade de existência desse ecossistema na região da foz do rio Amazonas é citada por cientistas desde de meados de 1970. Por outro lado, foi só em 2016 que um estudo reuniu dados suficientes para comprovar a hipótese, que causou grande repercussão.

Em 2018, uma expedição científica a bordo do navio Esperanza, do Greenpeace, comprovou a existência de recifes sobre a faixa onde empresas de petróleo aguardavam autorização do governo brasileiro para perfurar. Além das estruturas recém-descobertas, a região tem uma das correntes mais fortes do mundo, que impõe dificuldades técnicas para instalação de plataformas de petróleo e poderia causar grandes estragos em caso de vazamento.

Ronaldo Francini-Filho, pesquisador da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), participou daquela missão. “Não acreditar que o Recife do Amazonas existe é o mesmo que não acreditar em mudanças climáticas”, diz sobre os questionamentos feitos após a comprovação da existência das estruturas.

Na avaliação de Francini-Filho, um dos autores do artigo da Nature Scientific Reports, o negacionismo científico tem sido usado para justificar projetos que promovem elevada degradação ambiental em todo o mundo.

Corais da Amazônia registrados em 2018: imagem submarina feita por robô mostra corais amarelos e esponjas coloridas sobre pedras e areia branca em tons de azul por causa da água; ao fundo, diversos peixes de diferentes cores.Especialistas pedem preservação da região alvo de indústrias petrolíferas

“Enquanto que uma maioria de cientistas indica que o aquecimento global está sendo causado principalmente pela ação humana, setores interessados na expansão de fontes de energia que emitem grande quantidade de gases de efeito estufa, como queima de petróleo, negam que existam mudanças climáticas”, argumenta Francini-Filho.

O pesquisador ressalta que diferentes trabalhos científicos nos últimos dez anos têm apontado a existência de recifes de corais vivos até abaixo de 150 metros de profundidade. “No caso do Amazonas, temos um trabalho de sensoriamento remoto demonstrando que existe luz suficiente para o crescimento de corais e outros organismos construtores em áreas profundas da plataforma norte do Brasil, mesmo com a alta turbidez da água”, argumenta, fazendo referência ao artigo divulgado na publicação científica especializada em ambientes marinhos em águas superficiais Continental Shelf Research.

Interesse da indústria do petróleo

Por causa da reserva de petróleo estimada na foz do Amazonas, empresas internacionais e brasileiras tentam há anos obter licença para exploração. No fim de 2018, um parecer do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) barrou definitivamente o processo de licenciamento da Total. O da britânica BP continua em andamento.

Após as revelações da ciência e na tentativa de preservar o ecossistema ainda pouco conhecido, a ONG Greenpeace lançou a campanha internacional “Defenda os Corais da Amazônia”. No início de setembro, uma equipe de profissionais realizou o primeiro mergulho profundo no local. Até então, o fundo do mar naquela porção tinha sido “visitado” por um submarino e um robô.

“Não podemos nos dar ao luxo de perfurar e queimar mais petróleo. Como uma comparação, mesmo se o desmatamento da Amazônia acabasse amanhã, se as reservas estimadas na região dos Corais da Amazônia forem queimadas, seria o mesmo que continuar a desmatar por mais oito anos”, diz Thiago Almeida, coordenador da campanha do Greenpeace.

Diante da polêmica, Fabiano Thompson, cientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos autores do estudo, ressalta que há um grande potencial para criar novas soluções baseadas na biodiversidade dos recifes do Amazonas, e que é preciso saber respeitar resultados científicos.

“Precisamos desenvolver pesquisa científica independente. E as empresas precisam aprender a desenvolver a cultura de tomada de decisões com base em evidências científicas”, afirmou à DW Brasil, citando que essa abordagem é comum para a criação de políticas públicas na Europa. “É importante parar esta atitude predatória e que compra cumplicidade de certos ‘pesquisadores’ para avalizar atividades sem evidência científica”, opina Thompson.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!]. 

 

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

‘Dependência europeia’ de soja transgênica desmata a América Latina, denuncia Greenpeace

soja desmatamento

Comer ovos e carne de frango ou porco na Europa aumenta o desmatamento em Brasil e Argentina, em consequência da importação maciça de soja transgênica destes países para alimentar animais, denunciou nesta terça-feira (11) o Greenpeace França.

“No Brasil e na Argentina, mais de 95% da soja produzida é geneticamente modificada”, indica um informe da ONG, que mostra também que mais da metade da soja que a UE utiliza é importada desses dois países (37% do Brasil, 29% da Argentina, 15% dos Estados Unidos e 19% do resto do mundo).

“O cultivo da soja nesses dois países leva a devastar suas florestas com o objetivo de alimentar os animais, especialmente na Europa”, resume à AFP a autora do informe, Cécile Leuba, encarregada de Florestas para o Greenpeace.

No estudo, com o título “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“, o Greenpeace indica que 87% desse grão importado para a UE é destinado à alimentação animal.

Do total das necessidades de soja da União Europeia, três quartos são destinados à criação industrial de frangos ou galinhas poedeiras (50%) ou de porcos (24%). As vacas leiteiras consomem 16% da soja importada e os bovinos cuja carne é destinada ao consumo, 7%.

“O que denunciamos é que se utiliza dois pesos e duas medidas na União Europeia. Por um lado, proibi-se os OGM e muitos pesticidas, e por outro se autoriza a importação de soja transgênica cultivada com pesticidas proibidos na Europa”, aponta Cécile Leuba.

“E o que queremos mostrar aos europeus é que em seu consumo de carne, ovos ou produtos lácteos se esconde o desmatamento, porque a maioria dos animais de criação têm soja em sua ração alimentar diária”, acrescenta.

Segundo o cálculo do Greenpeace, para obter 100 gramas de peito de frango se necessita 109 gramas de soja. Para a mesma quantidade de costela de porco, são requeridas 51 gramas de soja.

A produção de soja no Brasil “mais que quadruplicou nestes últimos 20 anos”, diz o informe.

– Reduzir 80% do consumo na Europa –

Se a Amazônia está “relativamente protegida desta expansão” graças à moratória negociada em 2006 entre ONGs, empresas e autoridades brasileiras, o cultivo de soja se desenvolveu nas savanas e florestas do Cerrado, que “perderam metade de sua vegetação original”.

A região do ‘Gran Chaco’, compartilhada entre Argentina, Bolívia e Paraguai, “também sofre uma forte pressão devido à expansão agrícola”, aponta o estudo.

Desde 1990, o uso de pesticidas por unidade de superfície “aumentou mais de 170% na Argentina e no Brasil”, estima o Greenpeace, e “mais de um terço dos pesticidas permitidos no Brasil não seriam autorizados pela UE”, principalmente o carbofurano e paraquat, assim como atrazina e imazethapyr na Argentina.

No entanto, a ONG considera impossível que a UE ou a França deslocalizem culturas não OGM para o velho continente para compensar.

Somente na França, para produzir as 3,5 milhões de toneladas de soja importadas a cada ano (incluindo 2 milhões do Brasil), seriam necessários outros 11.980 km2, ou seja, quase todas as terras agrícolas de Morbihan, Côtes d’Armor e do Finistère somadas.

E para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, a ONG defende uma “transformação do sistema agrícola” através da redução do consumo e produção de proteínas animais.

“Na Europa Ocidental, onde o consumo de carne e produtos lácteos é quase o dobro da média global, esse consumo deve ser reduzido em cerca de 80% até 2050”, diz o Greenpeace.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela SwissInfo [Aqui!].

Brasil aprova centenas de agrotóxicos proibidos na Europa

Jair Bolsonaro aprovou centenas de novos pesticidas e herbicidas, a maioria proibida na Europa, desde que tomou posse em janeiro. Um estudo conclui ainda que foram aprovados mais de mil desde 2016.

agrotóxicos

Pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP)

Uma investigação da Unearthed descobriu que, entre os mais de 1200 pesticidas e herbicidas registados no Brasil nos últimos três anos, incluem-se 193 que contêm produtos químicos proibidos na União Europeia.

De acordo com a investigação, até 21 de maio deste ano “169 produtos foram aprovados desde a eleição de Bolsonaro”. Mas já em 2018, “último ano de Temer no cargo, 450 novos produtos pesticidas foram aprovados pelo Ministério da Agricultura”, o que leva a crer que o “novo governo está a manter a mesma taxa de aprovação”.

Destes 169 novos produtos homologados, pelo menos 78 contêm ingredientes ativos (substâncias que causam um efeito biológico ou químico) classificados como altamente perigosos pela Pesticide Action Network e 24 contêm ingredientes ativos que são proibidos na UE.

“Dados oficiais mostram um aumento significativo nas aprovações de novos pesticidas ambientalmente perigosos, sob os governos de Michel Temer e do atual presidente Jair Bolsonaro”, refere o estudo.

O estudo realça ainda que ambos os líderes brasileiros “estão próximos do poderoso lobby do agronegócio no Brasil”.

O Brasil começou a acelerar as aprovações de pesticidas em setembro de 2016, quando Michel Temer assumiu a presidência. Desde então, foram sancionados 1270 pesticidas – o dobro comparativamente ao valor dos quatro anos anteriores a 2016. E a Unearth, com base nos dados do Ministério da Agricultura do Brasil, descobriu que pelo menos 193 desses produtos continham ingredientes ativos proibidos na Europa.

Além disso, “quase metade de todos os produtos aprovados desde a posse de Bolsonaro contêm ingredientes ativos apresentados na lista de pesticidas altamente perigosos da Pesticide Action Network (PAN), indicando que representam um risco para a saúde humana ou para o meio ambiente”.

“Parece que aceleraram o processo de aprovação”, disse ao jornal britâncio The Guardian o toxicologista da Universidade da Califórnia, David Eastmond. “Alguns deles são altamente perigosos e isso gera preocupação”.

A investigação da Unearthed Greenpeace adianta ter descoberto que empresas estrangeiras, como as alemãs Helm BASF ou a chinesa Adama, “registaram produtos do Brasil que contêm produtos químicos que não seriam aprovados nos seus países”.

Pesticidas proibidos causam preocupação

O Governo de Jair Bolsonaro, de extrema-direita, tem tentado alterar as regras sobre a utilização de pesticidas. Mas “o Brasil tem uma das mais ricas biodiversidades do planeta e há preocupações de que o uso disseminado de pesticidas no país possa ter grandes consequências para a vida selvagem e o meio ambiente do país”, alerta o estudo.

“Todas as semanas novos pesticidas são registados. Além de contaminar o nosso solo, a nossa água e afetar negativamente a nossa saúde coletiva, é absurdo o governo brasileiro permitir que empresas estrangeiras vendam produtos que contêm substâncias químicas proibidas nos seus mercados”, disse Sónia Guajara, uma ativista e líder da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil.

O Brasil é dos maiores compradores de pesticidas e ainda permite a utilização de muitos “agrotóxicos” que já foram proibidos nos outros países. Mas o problema não se resume ao Brasil. Várias empresas estrangeiras têm pesticidas aprovados no Brasil que são proibidos ou sujeitos a restrições nos seus próprios países, descobriu a Unearthed.

Muitos mercados e grandes consumidores estrangeiros estavam a vender produtos brasileiros que eram proibidos nos seus mercados internos.

Por exemplo, uma cadeia de supermercados sueca de produtos naturais e orgânicos suspendeu a venda de produtos brasileiros, devido à crescente aprovação de pesticidas e à “ameaça que Bolsonaro representa para a floresta amazónica”.

Já na Alemanha, a empresa Helm registou, desde setembro de 2016, nove produtos do Brasil que não tinham licença para vender no seu país. Um desses produtos era o “controverso produto químico ‘paraquat’ – proibido na Europa desde 2007 e associado à doença de Parkinson”.

No passado mês de maio, a ministra da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina Dias, disse no parlamento que os governos anteriores foram impedidos de aprovar pesticidas por um “processo ideológico”, defendendo a utilização de glifosato (um herbicida classificado como “provavelmente cancerígeno para humanos”).

O Ministério da Agricultura propôs o chamado “pacote de veneno” que visa a desregulamentação dos pesticidas, passando a ser apenas necessária a aprovação do Ministério.

No entanto, a Unearthed ressalva que não é só no Brasil que se vendem produtos proibidos na UE. Praticamente todos os produtos aprovados no Brasil foram recentemente aprovados também na China.

Um outro estudo, que considera os EUA, a UE, o Brasil e a China os quatros maiores produtores agrícolas, diz que mais de 500 pesticidas agrícolas foram identificados nestes países. 

Os pesticidas proibidos na UE representam mais de um quarto de todo o uso de pesticidas nos EUA, refere o estudo. E “dos pesticidas usados na agricultura nos EUA em 2016, 322 milhões de quilos foram de pesticidas proibidos na UE”.

Em conclusão, a Unearthed afirma que “dos produtos registados no Brasil desde que Bolsonaro assumiu o cargo, 14% contêm produtos químicos explicitamente proibidos na EU”.

O uso de pesticidas não aprovados na Europa gera preocupação tanto com o impacto do seu uso na biodiversidade como na saúde pública.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela RTP [Aqui!]

The Guardian: Jair Bolsonaro alarma ativistas do clima com discurso pró-negócios

Novo presidente brasileiro destaca necessidade de crescer na economia em Davos

Jair Bolsonaro diz que vai “abrir” a economia do Brasil em discurso pró-negócios em Davos – vídeo

Por  in Davos para o “The Guardian” [1]

O novo presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, despertou novo alarme entre ambientalistas depois de salientar que proteger o ecossistema único de seu país tem que ser consistente com o crescimento da economia.

Em comentários que fizeram pouco para amenizar os temores dos riscos que uma estratégia de crescimento representaria para a região amazônica, Bolsonaro usou sua primeira viagem ao exterior desde que assumiu o controle no início do ano para delinear uma agenda fortemente pró-negócios.

O novo discurso do presidente no Brasil, no Fórum Econômico Mundial em Davos, delineou uma agenda de privatização para redução de impostos, projetada para reduzir o tamanho do Estado e encorajar o empreendedorismo.

“Agora é nossa missão avançar na harmonização da preservação ambiental e da biodiversidade com o tão necessário desenvolvimento econômico”, disse ele.

Um dos primeiros atos de Bolsonaro foi transferir o controle da regulamentação e a criação de reservas indígenas para o ministério da agricultura, que é controlado pelo lobby do agronegócio no Brasil. Essa medida foi amplamente criticada por grupos ambientalistas, mas Bolsonaro disse a seu público de líderes empresariais que a proteção da natureza era consistente com o desenvolvimento econômico.

“A agricultura não representa mais do que 9% do nosso território e cresceu graças à tecnologia e ao trabalho árduo dos agricultores”, disse ele. “Nenhum outro país no mundo tem tantas florestas quanto nós.” A economia e o meio ambiente eram interdependentes e inseparáveis, acrescentou o presidente.

José Gregorio Mirabal, coordenador geral do Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia do Rio Amazonas (COICA), disse: “A elite econômica e política mundial em Davos hoje não deve se distrair com os esforços de Bolsonaro para acalmar os investidores interessados ​​em investir no Brasil. O ataque de Bolsonaro aos povos e florestas de seu país ameaça todos os povos e florestas da Amazônia e coloca em risco os esforços globais para enfrentar as mudanças climáticas ”.

Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace International, disse que a atitude de Bolsonaro em relação à Amazônia foi uma das maiores ameaças ao meio ambiente. “Estamos trabalhando com aliados e trabalharemos para defender tudo o que pudermos, porque a Amazônia não é apenas uma floresta incrível, é o pulmão da Terra e desempenha um papel extremamente importante no clima”, disse ela.

Bolsonaro, cujo filho Flavio está sendo investigado por supostas irregularidades financeiras, disse que seus ministros estavam comprometidos em reprimir a corrupção e a lavagem de dinheiro. “Tomei posse em meio a uma grande crise ética, moral e econômica. Estou comprometido em mudar nossa história ”, disse ele.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês [Aqui!]