As greves, os movimentos sociais e o Estado no Brasil

A conjuntura brasileira exige atenção e uma avaliação cuidadosa dos setores vinculados às políticas nacionais-democráticas e de emancipação popular. Não se poderá combater a extrema-direita sem conflitos e lutas contra as estruturas seculares da opressão do povo brasileiro que se aprofundam. Qualquer alternativa que busque contornar esta necessidade poderá desmoralizar as esquerdas e gerar resultados bastante negativos.

Os gráficos do Dieese sobre número de horas e dias parados entre 1983-2023 revelam quarenta anos de história dos movimentos sociais e populares no Brasi (ver abaixo). São extremamente úteis para indicar a centralidade que o seu ativismo assume no país ao condicionar as estratégias de acumulação das classes dominantes a partir das respostas que lhe dão. Tais respostas marcam pontos de inflexão, mudanças no padrão de acumulação e nos arranjos entre o Estado e as frações dominantes do capital que se estabelecem como reação aos momentos mais agudos das mobilizações populares. 

Os gráficos indicam tanto o caráter acelerado, vertiginoso e concentrado do avanço da consciência popular, que se traduz na conexão entre as reivindicações econômicas e políticas e em formulações de mudanças substantivas nas políticas de Estado, como a sua brusca interrupção, provocada pela ação efetiva das frações dominantes do grande capital para destruí-la, produzindo grande regressão e flutuação, ao atingir suas bases sociais de organização, suprimindo-as parcialmente.  Isso denota que a consciência política e ideológica, antes que individual, é um produto coletivo da práxis social. Esta por sua vez é condicionada pelo desenvolvimento e descontinuidades dos padrões de acumulação de capital e sua articulação com o Estado. No fomento às ondas de protestos sociais há uma dinâmica material, oriunda do próprio movimento do capital e seus processos de acumulação, outra procedente da ação consciente e capacidade de organização das classes populares e uma dimensão referente à interação dinâmica de seus vários segmentos. Rosa Luxemburgo e Lênin abordaram extensamente essas questões, dedicando-se Rosa Luxemburgo à primeira e à terceira dimensão, e Lênin à segunda, dando centralidade ao papel do partido político. A resistência das classes dominantes brasileiras a formas estáveis de avanço de consciência popular e o seu caráter acelerado abrupto, descontínuo e flutuante demonstram os limites do projeto de democracia liberal e de sua capacidade de articular o consenso e o nacional-popular em um país dependente.

A onda de greves e protestos que se estabeleceu entre 1978-90 foi resultado da modernização industrial impulsionada pela ditadura militar do grande capital nos anos 1970 e da redemocratização iniciada em 1979. Os trabalhadores dos segmentos automobilístico e metalúrgico do ABCD jogaram papel central neste processo expressando a liderança da indústria de transformação, sediada no Estado de São Paulo, no desenvolvimento nacional. Diferentemente das ditaduras chilenas e argentinas que apostaram na desindustrialização para destruir a base sindical dos cordões operários e do peronismo, a brasileira apostou na criação de uma nova classe trabalhadora vinculada à indústria manufatureira privada para romper o protagonismo da herança trabalhista, fortemente apoiada em trabalhadores de empresas estatais, de serviços e de transportes. As greves de 1978-80 aceleraram a redemocratização e se vincularam a uma onda de paralisações e protestos que cresceu durante a década de 1980 e se expressou na luta pelas eleições diretas, pela assembleia nacional constituinte e contra a política recessiva que pretendeu financiar a crise de gestão da dívida externa. Neste contexto se formou o Partido dos Trabalhadores e Lula, sua principal liderança, quase foi eleito Presidente da República após disputa acirrada com Leonel Brizola para definir o candidato das esquerdas no segundo turno das eleições de 1989. O número de horas paradas se multiplicou de aproximadamente 8.000 para cerca de 110.000 entre 1983-1990, com o pico de quase 130.000, em 1989. No mesmo intervalo, o número de greves saltou de pouco mais de 200 para cerca de 1.800, com o auge de quase 2.000 em 1989.

Frente a este formidável movimento de massas e a aproximação entre as principais lideranças do trabalhismo e do novo sindicalismo, a grande burguesia brasileira, o capital estrangeiro e o imperialismo decidiram abandonar os projetos desenvolvimentistas no país e impulsionar o desmonte das bases sindicais da indústria manufatureira por meio da desindustrialização. O Plano Collor marcou uma tentativa confusa de transição para a nova etapa por meio de uma recessão planejada, mas o novo período se consolidou com a adesão do Estado à financeirização e ao neoliberalismo por meio do Consenso de Washington, do Plano Brady e do Plano Real. Os efeitos sobre a organização dos trabalhadores foram drásticos: eliminação de empregos qualificados e formais, precarização do trabalho, aumento do desemprego e da superexploração, perda de direitos sociais, reformas previdenciária e administrativa e queda expressiva nas greves, paralisações e protestos. Após uma tentativa moderada de resistência em 1995-96, o número de horas paradas e de greves voltou a despencar para atingir cerca de 18.000 e de 300, respectivamente, em 2002.

A liderança do Partido dos Trabalhadores que emergiu do desmonte do movimento sindical é bastante diferente da que se constitui nos anos 1980. Partindo de uma concepção basista de transformação social que nega o papel estruturante e de liderança da vanguarda, o PT se opôs ao modelo de liderança política do trabalhismo e dos partidos comunistas. Seus documentos fundacionais na década de 1980 destacaram a importância da auto-organização dos trabalhadores, mas os da década de 1990 já a substituíram pela noção de organização da sociedade civil, onde também se destacam os poderes burgueses. Com a perda de força do movimento sindical nos anos 1990, a correlação de forças na sociedade civil se inclinou fortemente para os poderes do grande capital, alterando as metas, a estratégia e a tática do Partido dos Trabalhadores. A Carta ao povo brasileiro, produzida em 22 de junho de 2002, não teve por objetivo garantir a vitória de Lula, pois este já havia alcançado 40% das intenções de voto no primeiro turno nas pesquisas eleitorais (vide o Datafolha), mas sim estabelecer o centrismo como a estratégia política escolhida pelo PT. Nela se reivindica uma lúcida transição fundada em ampla negociação nacional para estabelecer novo contrato social. Esta transição deveria respeitar os contratos e as obrigações do país, gerar superávits primários para conter a dívida interna, apoiar o agronegócio e estabelecer superávits comerciais para reduzir a vulnerabilidade externa e as taxas de juros. Suas premissas determinam os limites do seu alcance e enredam o Partido dos Trabalhadores na gestão do neoliberalismo no Brasil.

A ascensão do “progressismo”, conjunto de forças que reuniu desde a centro-esquerda moderada até forças mais radicais, nacional-populares e latino-americanistas, a partir da crise do neoliberalismo na virada do século XXI, e a conjuntura internacional favorável marcada pelo boom das commodities e pelo forte ingresso de capitais estrangeiros reestabeleceram a dinâmica de crescimento econômico. Proporcionaram a elevação do emprego qualificado e formal, do salário-mínimo e do emprego público possibilitando uma nova ofensiva dos movimentos sociais no Brasil que se iniciou em 2008 e se prolongou até 2015/16, despencando com o golpe de Estado. Nessa nova ofensiva, os trabalhadores da educação e da saúde públicas cumpriram papel estratégico lançando uma expressiva ofensiva político e ideológica contra o neoliberalismo. Eles colocaram em xeque a herança neoliberal dos governos de Fernando Henrique Cardoso incorporada nos governos petistas e manifesta no tripé macroeconômico: superávits fiscais para pagar juros da dívida, taxas de juros muito superiores ao crescimento do PIB e câmbio flutuante e sobrevalorizado. As greves de 2012, impulsionadas pelos servidores públicos, alcançaram o movimento estudantil e o setor privado provocando as explosões de massa de 2013, nas quais a reivindicação da gratuidade do transporte público para estudantes cumpriu o papel detonador. O número de horas paradas saltou de aproximadamente 25.000 para cerca de 90.000 entre 2008-2012, e se estendeu para mais de 110.000 em 2013. E o número de greves subiu de aproximadamente 400 para 900 entre 2008 e 2012, alcançado mais de 2.000 em 2013.

Atemorizada com a nova ofensiva popular, Dilma derrotou as paralisações do funcionalismo federal, ameaçou instituir uma lei de greve para o setor público e elevou sistematicamente as taxas de juros Selic para produzir uma recessão e reduzir a pressão social. Em contradição com a campanha eleitoral de 2014, em seu segundo mandato, a Presidente impulsionou a financeirização. Ela nomeou um antigo secretário de política econômica do governo FHC, Joaquim Levy, como seu ministro da Fazenda, e elevou a taxa de juros Selic, entre maio de 2013 e dezembro de 2014, de 8% a.a. a 11% a.a., mantendo a trajetória de subida até agosto de 2015, quando atingiu 14,25%. A taxa de desemprego saltou de 6,6%, no trimestre das eleições presidenciais, para 9,1%, em outubro-dezembro de 2015, quando se iniciou o processo de impeachment, e alcançou 11,9% quando esse se concluiu. O PIB per capita decresceu em 2,38% a.a. em 2014-15, em dólares constantes de 2015 (UNCTAD) e o país chegou a pagar 10,2% do PIB em juros anualizados de dezembro de 2015, caindo para 9,5% em agosto de 2016. A ofensiva do movimento popular seguiu até 2016 quando o golpe de Estado e a aprovação da Emenda Constitucional 95, que pretendeu congelar por 20 anos os gastos públicos primários, limitando-os à variação da inflação, converteram a recessão em política de Estado. As horas paradas alcançaram o máximo em 2016, quando superaram 140.000, e a quantidade de greves se aproximou de 2.200, desmoronando a seguir.

Sem o suporte do gasto público, a economia brasileira estagnou no período de crise orgânica do neoliberalismo, a partir de 2015, quando este perdeu o suporte do dinamismo do mercado internacional e dos fluxos internacionais de capitais. Se entre 2016-2022, o PIB per capita da economia brasileira cresceu 0,08% a.a., entre 2003-2014 o fez em 2,45% a.a. (UNCTAD). Se tomarmos como referência o intervalo de 2014-2022, a taxa de decrescimento anual é de 0,47%.  A eleição de Jair Bolsonaro, a gestão ultraneoliberal de Paulo Guedes e a repressão e intimidação dos movimentos sociais aprofundaram o descenso da onda de greves, paralisações e protestos. A taxa de desemprego aberto alcançou o seu valor máximo em julho-setembro de 2020, quando atingiu 14,9%, impulsionada pela resistência de Bolsonaro e Guedes em tomar as medidas de expansão do gasto público para conter os efeitos sociais e econômicos deletérios da pandemia. As horas paradas caíram para aproximadamente 45.000 em 2019 e 20.000 em 2020 e o número de greves desabou para pouco mais de 1.100 em 2019 e quase 700 em 2020.

As pressões sociais para o aumento do gasto público incidiram sobre o governo federal e o Parlamento e possibilitaram furos no teto de gasto para gerir a situação de calamidade pública, permitindo alguma recuperação da economia. Esse cenário se combinou com a crise política do governo Bolsonaro e as eleições presidenciais de 2022 para estabelecer uma retomada ainda incipiente do ativismo dos movimentos sociais. As horas paradas mais que duplicaram para cerca de 55.000 e o número de greves alcançou mais de 1.100 em 2022. No descenso e na recuperação do número de horas paradas e de greves cumpriu papel principal a atuação do funcionalismo público, a sua retração ou retomada. Entretanto, essa reativação se choca com a estratégia de Lula e do núcleo dirigente do Partido dos Trabalhadores para o Estado brasileiro.

Lula e o círculo dirigente do PT centraram sua estratégia de governabilidade na aliança com as principais frações do grande capital, os neoliberais, os militares  e até mesmo no acercamento a forças emergentes, como as empresas neopentecostais. Sua leitura é de que as falhas no diálogo e aproximação com estes grupos estão entre as principais razões do golpe de Estado. Na disputa dessa aliança com os fascistas, Lula oferece paz e tranquilidade política, o que exige desmontar as pressões sociais que pedem o combate ao neoliberalismo, a transformação do padrão de acumulação hegemônico e mudanças nas estruturas organizacionais do Estado brasileiro que desafiem os privilégios do capital financeiro, do rentismo, do agronegócio e do monopólio midiático, o poder burguês na sociedade civil, a superexploração dos trabalhadores, o vínculo das forças armadas ao golpe de 1964 e a teologia da prosperidade. Torna-se crucial nessa perspectiva impedir uma nova ofensiva dos movimentos sociais, similar a que ocorreu entre 1983-90 e 2008-16. O governo dedica-se então a cooptar lideranças, desmobilizar organizações, pressionar e desqualificar movimentos sociais e abandonar temas históricos dos movimentos populares. O descarte do projeto do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, a desmobilização do ato das centrais sindicais no 1º maio, as metas agressivas de austeridade fiscal maiores que as expectativas do Congresso Nacional e do mercado financeiro, as articulações para desvincular os gastos em saúde e educação de um percentual fixo da arrecadação da União, a mediocridade do orçamento destinado às universidades federais, e a tentativa de desqualificar as greves dos trabalhadores da educação pública, desautorizando o ANDES, sindicato dos docentes de ensino superior, são evidências dessas diretrizes. Na negociação com as greves no ensino superior, Lula apresentou índices extremamente reduzidos de recomposição das perdas salariais acumuladas no segundo mandato de Dilma e nos governos Temer e Bolsonaro. Propôs em seu quadriênio um reajuste muito mais próximo do congelamento de perdas que da recuperação do poder aquisitivo dos salários. Caso a inflação de 2023 se repita nos próximos anos do mandato de Lula, o governo terá proposto um reajuste médio de 5%, bastante abaixo dos 26% a 30% necessários para recompor os salários dos professores de ensino superior aos valores de março de 2014.

Lula reaparece em seu terceiro mandato como um personagem com escassa relação com o seu passado de lutas, expressas em sua atuação como líder sindicalista das greves do ABC de 1978-80, deputado federal constituinte e candidato a Presidente da República de 1989. Se naquele período apoiou as lutas de massas para transformar a institucionalidade, agora ressurge buscando controlá-las e limitá-las e defendendo um conceito de democracia restrita, de baixa densidade social, muito próximo ao reivindicado por Fernando Henrique Cardoso para países periféricos e dependentes. Para Cardoso as democracias latino-americanas devem ser protegidas de lideranças populistas e de qualquer iniciativa que indique capitalismo de Estado, isto é, um padrão de acumulação no qual o Estado atue com relativa independência para exercer papel estruturante e promotor do desenvolvimento de setores, produtos e serviços que não interessem ao grande capital em seu conjunto oferecer.  Se em seu segundo mandato, Lula impulsionou uma expansão anual dos investimentos federais de 27,6% garantindo para o Estado um papel de indutor do desenvolvimento, a partir da ascensão do movimento de massas e das críticas da oposição liberal, em que se destacou a voz do próprio ex-presidente da República do PSDB, o petismo hegemônico cedeu. Frente às pressões crescentes dos movimentos populares, Cardoso requentou suas teses clássicas dos anéis burocráticos, que associam o autoritarismo na América Latina a um suposto domínio do corporativismo estatal sobre a sociedade civil, para condenar a expansão do gasto público em favor de elites empresariais específicas, setores mais pobres da população e dos projetos de permanência da liderança político-partidária petista. O governo Dilma reduziu em seu primeiro mandato os investimentos federais à expansão anual de 1,0% e em seu segundo mandato a um decrescimento de -28,4% ao ano. O resultado não foi a democracia, mas o golpe de Estado do qual o próprio Fernando Henrique Cardoso participou como ideólogo e articulador. 

Lula voltou à vida política eleitoral para o seu terceiro mandato presidencial dando centralidade à austeridade fiscal, descartando qualquer perspectiva de capitalismo de Estado e aprofundando a política de compressão e cortes ao custeio da máquina administrativa federal. Mesmo a nova política industrial, financiada pelo BNDES, maneja recursos modestos. Sabemos que estamos avançando para novas etapas da revolução científico-técnica e que o setor de serviços assume protagonismo no mundo contemporâneo, tanto na produção de bens e serviços quanto nas lutas sociais. Dois são os projetos em confronto para a economia política do século XXI: um prioriza a saúde, a educação, a ciência, a tecnologia, a infraestrutura, a ecologia e o lazer e está baseado nas lutas nacionais e populares dos trabalhadores e em sua internacionalização; outro prioriza o capital financeiro, o rentismo, seus lucros extraordinários e fictícios, submetendo o mundo da vida, isto é, dos trabalhadores e das pequenas e médias empresas, à expropriação para a realização de suas expectativas de rentabilidade. Ao optar por uma estratégia de governabilidade pelo alto para supostamente garantir a estabilidade da democracia liberal brasileira, Lula e o núcleo dirigente do PT desenham para o seu partido o lugar de braço operário do grande capital no país. O fazem, todavia, em um país dependente que sofre transferências negativas de mais-valor e durante uma conjuntura internacional de crise orgânica e terminal do padrão neoliberal. Trata-se do projeto de uma tecnoburocracia de origem operária que prioriza a partilha da gestão do Estado com o grande capital e os cargos e salários a que esta dá acesso. Afasta qualquer interesse popular que crie turbulências políticas e lhe prejudique na disputa com o fascismo por essa aliança. Os montantes destinados às universidades públicas no orçamento federal, inferiores aos do governo Temer e à média do governo Bolsonaro, não apenas aprofundam a dependência científico-tecnológica, mas atingem a reprodução de um dos segmentos da classe trabalhadora mais capacitados para produzir uma alternativa à hegemonia das políticas neoliberais no Brasil. Este segmento junto com os demais trabalhadores da educação, os trabalhadores  da saúde e demais serviços públicos têm liderado as paralisações no Brasil no século XXI.  

Entre as principais condições para a ascensão do fascismo estão o declínio do liberalismo político e a submissão das esquerdas às suas políticas públicas e projetos. A aproximação do PT às concepções estratégicas da social-democracia europeia que vem se submetendo ao neoliberalismo e ao imperialismo liberal estadunidense indicam que o caminho escolhido para combater o fascismo é equivocado. Entre 2004 e 2024, a participação da social-democracia no parlamento europeu caiu sistematicamente, desabando de 27,3% para 18,8%, enquanto a extrema-direita cresceu, principalmente na França, na Itália e na Alemanha. As contradições entre as massas e uma política social-democrata subordinada à austeridade se agravam em um país cujo padrão de acumulação se baseia na superexploração dos trabalhadores. A aproximação do PT com os neoliberais, cuja impopularidade impediu que o PSDB e o PFL/DEM lançassem candidatos competitivos à Presidência da República desde o fim do governo FHC, abre o espaço para que o fascismo utilize sua retórica demagógica sobre as massas desorganizadas para se colocar como antissistêmico, aprofundando o neoliberalismo, mas se lançando contra a democracia política, alvejada pelos acordos de cúpula que suas formas liberais-oligárquicas têm ensejado no país.

A conjuntura brasileira exige atenção e uma avaliação cuidadosa dos setores vinculados às políticas nacionais-democráticas e de emancipação popular. Não se poderá combater a extrema-direita sem conflitos e lutas contra as estruturas seculares da opressão do povo brasileiro que se aprofundam. Qualquer alternativa que busque contornar esta necessidade poderá desmoralizar as esquerdas e gerar resultados bastante negativos.

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Carlos Eduardo Martins é professor associado UFRJ, editor de Reoriente: estudos sobre marxismo, sistemas-mundo e dependência e pesquisador do CLACSO. Membro do conselho editorial da revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, é autor, entre outros, de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção, em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009).


Fonte: Blog da Boitempo

O cálculo de Lula, o espantalho

lula greve

Por Douglas Barreto da Mata

Não há surpresa na ação de Lula em relação aos movimentos paredistas dos servidores federais da educação.  Sinto muitíssimo em dizer isso.  Não é um lapso ou um simples erro.  Não é um resultado de derrota frente às forças que o antagonizam, porque Lula e seu governo sequer disputaram alguma coisa. Não é uma concessão, é rendição mesmo. É deliberado.

Quem lê, vê ou ouve as justificativas do presidente, as chamadas restrições fiscais ou pior, a “troca” de direitos por obras, não pode afastar a conclusão, sob pena de parecer um néscio, de que o governo do PT busca se aproximar daquilo que imagina ser o “centro” da política brasileira, mas que para o PT e para Lula será o precipício.

As frustradas tentativas de agradar o Pantagruel pós capitalista (neoliberal, dizem uns) são a prova acabada do que digo.  Ora cedendo aos nazipentecostais, ora cedendo aos empresários que preferem sangrar um filho a pagar impostos, ora, enfim, dando tudo para o RS (incluindo corpo e alma para evitar metáforas mais pesadas), sem cobrar nenhuma reparação, política que seja, dos agrokillers do meio ambiente, ou do desgovernador ultraneoliberal que os serve.

Lula e seu núcleo duro acham que se endireitando serão aceitos pela direita. Não entenderam nada, não é? Por isso, vos digo, que venha logo Jair Bolsonaro de novo, porque pelo menos teremos a esperança de coesão e reação da esquerda (ou o que sobrou dela) para disputar algum espaço no cenário político. Aliás, o que o próprio movimento dos servidores das universidades e institutos federais já mostra muito bem.

Manifestação em defesa da educação obriga Lula a se pronunciar sobre a greve  em visita a Alagoas - Sintietfal

Do jeito que está, não dá.  Não dá para tratar como aliado, ou até como mal necessário esse cadáver insepulto que é o governo Lula. Lula hoje é um mal desnecessário, que só serve para engrossar as fileiras da direita pelo arquétipo que representa.  Um espantalho.

Governo Lula escorrega pelo campo pantanoso do ultraneoliberalismo e pode trazer Bolsonaro de volta ao poder

lula grevista

De líder à coveiro de greves, essa é a trajetória escolhida por Lula

Aparentemente há no governo Lula uma insistência em ignorar os sinais que brotam em diversas partes do mundo sobre a relação entre a obediência extrema aos canones ultraneoliberais e a as vitórias eleitorais da extrema-direita.   O problema é que ao optar pela cegueira deliberada, o presidente Lula e seu governo estão claramente terraplanando o caminho para a volta de Jair Bolsonaro (ou algum escolhido para substituí-lo em caso de impedimento) ao Palácio do Planalto em 2026.

O governo Lula e, surpreendentemente, o próprio presidente que o comando estão se esmerando em erros absurdos que estão tendo o primor de enfraquecer o apoio político nos segmentos de esquerda da sociedade, enquanto não alteram em nada a rejeição do segmentos de direita.

Exemplos dessa ação desastrosa estão por todos os lados. Uma hora é a tentativa de esmagar políticamente a greve de professores e servidores técnicos das universidades e institutos federais, outra hora é o apoio à exploração do petróleo na Foz do Amazonas, complementado pela decisão de ir adiante com a equivocada pavimentação da BR-319.

Mas para quem acha que a trilha de ações desastradas para por aí, ainda temos a decisão de rebaixar os índices constitucionais de financiamento da saúde e da educação por parte do ministro Fernando Haddad. Essa decisão, pasmemos todos, não foi tentada sequer pelo incrível ministro Paulo Guedes. Aliás, para quem achava que Guedes era o fundo do poço, Haddad veio mostrar que o fundo sempre pode ser bem mais fundo.

Vejo de tempos em tempos críticas ao seria a esquerda brasileira por ser incapaz de fazer frente aos avanços da extrema-direita no congresso nacional. Ora, quando se vê que determinadas propostas passam facilmente não por falta de coordenação entre o que seria a esquerda, mas basicamente porque a articulação do governo opta por acordos diretamente com seus aliados do centrão. Aí, convenhamos, não há como impedir que, por exemplo, o rebaixamento dos índices constitucionais de financiamento da saúde e da educação venha a ser facilmente aprovado em um futuro próximo.

E tudo isso para quê? Obviamente para manter os grandes detentores da dívida pública brasileira, principalmente os grandes bancos e fundos privados, felizes, enquanto o povo trabalhador se afunda nas dificuldades cotidianas.

A saída para este imbróglio passa por se encerrar qualquer ilusão de que Lula e seu terceiro mandato estão sob disputa. A opção de Lula e seu partido é por manter uma rota ajustada ao morimbundo Consenso de Washington.  A saída, como sempre, terá de ser pela esquerda, região onde nem Lula ou o PT se encontram neste momento.

Em 2023, os sindicatos dos EUA voltaram ao seu antigo radicalismo

Os sindicatos nos EUA podem lutar novamente. Eles têm grandes planos para o futuro

Ainda há muito pelo que lutar nos estados do sul dos EUA: manifestação de greve em frente à fábrica da Ford em Louisville, Kentucky

Ainda há muito pelo que lutar nos estados do sul dos EUA: manifestação de greve em frente à fábrica da Ford em Louisville, Kentucky. Foto: imago/USA Today Network

Por Julian Hitschler para o Neues Deutschland

Para o movimento sindical dos EUA, está a chegar ao fim um ano que trouxe uma viragem da defensiva para a ofensiva: a classe trabalhadora organizada nos EUA abraçou uma nova militância que parecia impensável há apenas alguns anos. E este novo movimento não é um lampejo, mas baseia-se em anos de trabalho preparatório realizado por membros ativos, que desencadeou agora uma dinâmica que não será abrandada tão rapidamente.

“A vitória leva à vitória, e o público está por trás dela”, é como o experiente jornalista sindical Alex Press resume a situação do movimento no portal de notícias “Business Insider”. E, de fato, a lista de litígios laborais bem-sucedidos em 2023 é impressionante: no prestador de serviços de logística UPS, uma mera ameaça de greve foi suficiente para alcançar uma conclusão recorde. Na empresa de saúde Kaiser Permanente, enfermeiros e outros funcionários defenderam-se das suas intoleráveis ​​condições de trabalho – com sucesso.

Para milhões de pessoas, 2023 foi marcado por guerras, refugiados e insegurança material. O discurso de ódio contra os supostamente outros é desenfreado. A União Europeia exclui cada vez mais os refugiados. Enquanto isso, os aluguéis aumentam e os salários caem. Mas em 2023 também houve movimentos que se opuseram a tudo isto.

Os russos estão a virar-se contra a guerra, os trabalhadores estão em greve em conjunto pelos seus direitos, os inquilinos estão lutando por habitação acessível.

A greve de um mês na indústria cinematográfica e televisiva recebeu atenção mundial. Inicialmente houve grandes temores quando o contrato dos roteiristas com os estúdios de Hollywood expirasse. A preocupação é que a inteligência artificial e a precarização possam agora arruinar o que outrora foi uma profissão criativa atraente para os trabalhadores. As coisas aconteceram de forma diferente. Pela primeira vez na história, os atores do SAG-AFTRA entraram em greve com os seus colegas. O resultado após vários meses de greve: direitos abrangentes de propriedade criativa e um acordo coletivo atraente para ambos os grupos profissionais.

Mas quase nenhuma disputa industrial manteve os EUA em suspense em 2023 como a greve dos United Auto Workers (UAW).  A UAW travou batalha defensiva após batalha defensiva nos últimos anos. Mas em março, os membros estabeleceram um limite e elegeram um novo líder do UAW, Shawn Fain, que defendeu uma atitude mais conflituosa.

Fain venceu com a promessa de colocar a base sindical de volta no comando. A disputa foi extremamente acirrada: apenas cerca de 500 votos separaram Fain de seu concorrente moderado. Uma mudança na liderança também foi crucial para o sucesso da negociação coletiva na UPS. O sindicato da Irmandade Internacional dos Caminhoneiros já havia eleito uma nova liderança em 2022, que prometia um rumo mais radical. Fain não apenas atendeu às expectativas de um UAW combativo, mas também superou tudo o que os observadores esperavam: pela primeira vez em sua história, funcionários das três principais empresas automobilísticas dos EUA, General Motors, Ford e Stellantis (anteriormente Chrystler), pararam de trabalhar ao mesmo tempo. Uma estratégia arriscada que funcionou: não só o fundo de greve do UAW estava cheio até ao limite após anos de contenção. Fain e a liderança do UAW também conservaram os seus cofres através da tática de greves contínuas, que atingiram pontos particularmente sensíveis nas cadeias de abastecimento empresariais de formas imprevisíveis.

O resultado final não foi apenas um acordo coletivo recorde, mas foi também profundamente influenciado pela ideia de solidariedade: os maiores aumentos salariais foram para trabalhadores temporários mal remunerados, que agora recebem um estatuto de emprego regular muito mais rapidamente. O UAW resistiu conscientemente – e com sucesso – à estratégia de divisão entre forças de trabalho principais e temporárias que causou tantos danos no passado.

Apesar de todos os sucessos, os sindicatos dos EUA não estão numa posição confortável. Os funcionários da Amazon e da Starbucks devem continuar a lutar pelo seu primeiro acordo coletivo; organizar novas indústrias continua a ser uma tarefa gigantesca que requer muita perseverança. Novas startups, como o Sindicato dos Trabalhadores da Amazon, liderado pelo carismático trabalhador de armazém Chris Smalls, de Nova Iorque, continuam a passar por momentos difíceis, mas o movimento provou que também pode vencer batalhas longas e cansativas. E tem objetivos ambiciosos para o próximo ano: a UAW pretende seguir atingindo as fábricas de fabricantes de automóveis não sindicalizados nos EUA, como a Toyota, a VW e a Tesla. Esta poderia ser a disputa trabalhista definitiva nos EUA em 2024.

E Fain e o UAW também têm planos para o período seguinte: o sindicato automobilístico definiu a data final dos seus atuais acordos coletivos como 1º de maio de 2028 e apelou a outros sindicatos para seguirem o seu exemplo. Ao fazê-lo, a UAW está a lançar as bases para uma greve geral que poderá alterar irrevogavelmente o equilíbrio de poder nos EUA a favor dos trabalhadores.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Indústria automobilística dos EUA – vale a pena fazer greve

O sindicato UAW obteve um importante sucesso parcial na disputa trabalhista na indústria automobilística dos EUA

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Membros do UAW em um comício fora da fábrica da Ford em Louisville, Kentucky. Foto: Rede IMAGO / USA TODAY
Por Julian Hitschler para o “Neues Deutschland”

“Lutamos por concessões que ninguém imaginaria serem possíveis”, disse o presidente do sindicato automobilístico norte-americano United Auto Workers (UAW), Shawn Fain, sobre o acordo preliminar para um novo contrato coletivo com a Ford. Ele tem razão, porque o acordo pode ser impressionante: dentro do período de contrato de três anos, os salários regulares aumentarão num total de 25%. A oferta original da Ford era de 9%. Além disso, há um reajuste inflacionário, que foi abolido após a crise financeira de 2008. A sua reintegração é uma das muitas concessões que o UAW conseguiu obter.

No entanto, as melhorias para os trabalhadores que não fazem parte da força de trabalho permanente são absolutamente revolucionárias: os salários iniciais deverão aumentar 68%. Para os trabalhadores temporários, os salários mais que duplicarão. No entanto, o UAW não conseguiu fazer com que o sistema de escala móvel, que coloca os funcionários com menos experiência profissional numa posição significativamente pior, fosse abolido em toda a empresa. No entanto, em certas empresas deve ser descontinuado.

O sucesso do UAW mostra que vale a pena lutar pelos trabalhadores, especialmente numa altura em que o aumento dos lucros empresariais está impulsionando o aumento da inflação. “Lucros recordes significam acordos recordes”, como enfatizou repetidamente o UAW. Com o acordo agora alcançado, após semanas de greves contínuas em que a liderança sindical fechou estratégica e cuidadosamente fábricas individuais, os trabalhadores da Ford estão recuperando uma parte considerável dos salários e, portanto, aumentando também a pressão sobre as empresas automóveis  GM e Stellantis cujos trabalhadores ainda estão em greve. Este sucesso, semelhante aos acordos de negociação colectiva do grupo hospitalar Kaiser Permanente ou do prestador de serviços logísticos UPS, mostra que os sindicatos dos EUA estão novamente prontos para desafiar seriamente as empresas.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal Neues Deustchland [Aqui!].

A greve é o único remédio que pode retirar a Uenf do coma em que foi colocada pelo (des) governo do RJ

Em Medicina a definição de coma seria o de um estado caracterizado por perda total ou parcial da consciência, da motricidade voluntária e da sensibilidade, gerado devido a lesões cerebrais, intoxicações, problemas metabólicos e endócrinos, no qual, dependendo da gravidade, as funções vitais são mantidas em maior ou menos grau.

Pois bem, se olharmos a situação por que passa a Universidade Estadual do Norte (Uenf), e por extensão a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo), eu diria que experimentamos um estado de coma institucional após anos de sucateamento promovido pelos (des) governo do Rio de Janeiro. Como em um organismo vivo, a Uenf vive um processo comatoso que impede a sua morte a partir de um esforço coletivo de manter as funções vitais funcionando, ainda que numa velocidade mais baixa.

Ainda que já tenha sido noticiado, é importante frisar que o (des) governo comandado por Pezão/Dornelles não paga nenhuma conta devida pela Uenf desde o longínquo mês de Outubro de 2015, o que resulta numa dívida acumulada de mais de R$ 15 milhões. Com isso, os serviços telefônicos foram cortados, e o mesmo pode ocorrer a qualquer momento com outros serviços essenciais como água e luz, e com o fornecimento de gases. Também por conta da falta de pagamentos, professores e estudantes estão dependendo de doações para alimentar animais usados em pesquisas, além de terem de usar recursos pessoais para evitar o colapso total de suas pesquisas.

Para mim que estou na Uenf desde janeiro de 1998, o que mais impressiona nessa situação toda é o completo cinismo por parte dos membros do (des) governo estadual com o que está ocorrendo numa das principais universidades brasileiras. A completa indisposição para qualquer medida elementar que tire a Uenf (e a Uerj e a Uezo) do coma é algo inédito. E note-se que desde 1998 já experimentei as políticas de Marcelo Alencar, Anthony e Rosinha Garotinho, e de Sérgio Cabral  Mas de longe, o governo Pezão/Dornelles é o que tem tido a posição mais antagônica e indiferente com as universidades estaduais.

Em função disso é que considero as greves em curso nas universidades estaduais a única saída para enfrentarmos de forma efetiva a política de sucateamento que é a ponta de lança da privatização das universidades estaduais. Ainda que as greves causem problemas para o andamento das universidades, não há como negar que sem elas a Uenf já teria passado de um estado comatoso para a morte.  É que as greves, com todos os defeitos que tenham, possibilitam que a verdadeira situação que vivemos não seja camuflada em fotos de ocasião e em compromissos vazios de políticos que efetivamente são mais parte do problema do que da solução.

Mas para que o movimento de greve possa vencer a indiferença do (des) governo estadual é fundamental que a população entendo que o ataque às universidades estaduais é, na verdade, contra o futuro do Rio de Janeiro.  Mas não será ocultando a gravidade do problema que vamos conseguir fazer esse convencimento. Assim, temos que continuar explicando incansavelmente o coma induzido pelo (des) governo do Rio de Janeiro e o papel da greve na cura.

# SOS UENF!

Onda de greves na Alemanha: A desintegração do “modelo alemão”

O país está a viver uma “ampla erosão das normas salariais formais e informais que por várias décadas mantiveram a paz no capitalismo alemão”, afirma o sociólogo económico Wolfgang Streeck, sublinhando que a vaga de paralisações “é mais do que um episódio conjuntural: é outra faceta da desintegração inexorável do que costumava ser o ‘modelo alemão’”.

Foto der_dennis/Flickr

“Este ano, a maior economia da Europa está prestes a bater um novo recorde de greves, com todos os trabalhadores – desde os maquinistas aos professores de jardins de infância e creches e trabalhadores dos correios – a promoverem paralisações nos últimos tempos. Esta onda de greves é mais do que um episódio conjuntural: é outra faceta da desintegração inexorável do que costumava ser o ‘modelo alemão’”, assinala Wolfgang Streeck num artigo publicado no Guardian.

“Os sindicatos das prósperas indústrias de exportação não são os únicos que estão em greve nos dias de hoje”, refere o sociólogo económico, exemplificando com as paralisações nos serviços domésticos, especialmente no setor público, que aparentam “ter vindo para ficar”.

Lembrando que “a concorrência internacional já não é apenas sobre a quota de mercado, mas também sobre o emprego”, o que veio, por exemplo, condicionar a ação dos sindicatos metalúrgicos, Wolfgang Streeck assinala que a contestação deslocou-se para os serviços, já que, neste caso, “a exportação do trabalho é mais difícil”.

O sociólogo refere também que “os empregadores públicos, na prossecução da consolidação orçamental, romperam o peculiar regime de contratação coletiva do setor público da Alemanha” que assegurava, no essencial, os mesmos aumentos salariais anuais para todos os trabalhadores. Por outro lado, Wolfgang Streeck aponta que várias ocupações – incluindo a dos maquinistas, professores e trabalhadores dos correios – deixaram de ser reguladas pela legislação específica da Função Pública.

“Além disso, a privatização progressiva dos serviços públicos, combinada com o desemprego e a de-sindicalização que veio com o mesmo, colocou cada vez mais os salários do sector público sob concorrência, levando a problemas até então desconhecidos para os sindicatos, desencadeados por aquilo que rapidamente se estava a tornar num sistema de dois níveis salariais”, avança.

Outro desenvolvimento que, segundo o sociólogo, contribuiu para o conflito laboral tem a ver com o surgimento de novas ocupações, especialmente as relacionadas com a educação dos filhos e cuidados com os idosos. Estes trabalhadores são mal pagos e precários, não obstante “a retórica do Governo sobre a indispensabilidade e a virtude moral do seu trabalho”, vinca Wolfgang Streeck.

A somar a estes fatores surge a forma como o patronato se serve do progresso tecnológico para exercer pressão sobre ocupações anteriormente privilegiadas, como pilotos de avião, controladores de tráfego aéreo e maquinistas, pondo em causa direitos já conquistados.

“Tudo isto resulta numa ampla erosão das normas salariais formais e informais que por várias décadas mantiveram a paz no capitalismo alemão”, salienta o sociólogo económico alemão.

A par da deterioração das condições de trabalho, da perda de rendimentos e dos cortes nos serviços públicos e prestações sociais a que é sujeita a maioria das famílias, os salários dos gestores de topo crescem “especialmente, mas não exclusivamente, na área financeira”, refere Streeck, que assinala um aumento das desigualdades salariais.

“O sistema de fixação dos salários alemã está a aproximar-se de uma condição de ausência de normas, semelhante ao que a Grã-Bretanha experimentou na década de 1970. À época, o sociólogo John Goldthorpe Oxford diagnosticou um estado de anomia laboral: uma ausência fundamental de consenso sobre os princípios legítimos de distribuição entre capital e trabalho, bem como entre grupos de trabalhadores”, afirma.

Segundo Wolfgang Streeck, “o governo alemão, com o seu ministro do Trabalho social-democrata, está a tentar suprimir a vaga de conflitos laborais reduzindo o direito de organização e de greve, ilegalizando as greves de sindicatos setoriais – como os maquinistas”.

“Mas isso irá falhar, muito provavelmente no Tribunal Constitucional e, certamente, na prática, num mundo em que a estrutura das empresas e sectores não é mais favorável ao sindicalismo que se baseia na doutrina ‘um local de trabalho, um sindicato’, e onde os maquinistas, pilotos e outros vão sentir-se no direito de se defender, se necessário, entrando em greve, diga a lei o que disser”, remata.

FONTE: http://www.esquerda.net/artigo/onda-de-greves-na-alemanha-desintegracao-do-modelo-alemao/37180?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook