Brasil, no caminho do Tsunami de Jair Bolsonaro

tsunami bolsonaro

Quando o presidente Jair Bolsonaro anunciou de forma críptica que o Brasil (ou seria seu governo?) enfrentaria um tsunami, muitos analistas começaram a especular sobre o que ele estava falando. A notícia veiculada ontem pela mídia corporativa de que a justiça finalmente decidiu quebrar o sigilo bancário do filho primogênito e senador pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, e de outras 89 pessoas (incluindo o dublê de motorista e gerente de pessoal, Fabrício Queiróz) levou a que muitos vejam nesse desdobramento a chegada do Tsunami previsto pelo presidente Bolsonaro.

Eu particularmente penso que o tsunami de Bolsonaro possui muitas outras facetas com potencial ainda maior de deixar o seu governo em uma condição política muito semelhante a que afogou o da ex-presidente Dilma Rousseff.  A razão para isso, obviamente, é a combinação de uma situação econômica precária com medidas que apenas aprofundam o estado comatoso em que se encontra o Brasil. 

Além disso, graças a um ministério selecionado a dedo para não conseguir fazer nada certo, as áreas de aresta dentro e fora do Brasil não param de aumentar. Desde as justificativas algebricamente erradas de Abraham Weintraub para os cortes feitos nos orçamentos de universidades e institutos federais, passando pela “denúncia” feita por Damares Alves de que a princesa Elsa do filme infantil “Frozen” seria gay, e chegando no cancelamento de mais uma reunião sobre as mudanças climáticas que ocorreria em Salvador pelo agroboy Ricardo Salles que temia manifestações contrárias à sua gestão à frente do Ministério do Meio Ambiente, o governo Bolsonaro só acumula desgastes e pouco avança (felizmente) em áreas em que prometeu mundos e fundos para seus apoiadores corporativos.

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Percepção externa de que Ricardo Salles e Jair Bolsonaro estão desmanchando governança ambiental é cada vez mais negativa.

Como para toda ação há uma reação, o governo Bolsonaro passará amanhã pelo seu primeiro teste real nas ruas com a anunciada greve nacional da educação.  Esse movimento, muito provavelmente, iria ser mais daqueles com pouco adesão que ocorreram no Brasil nos últimos anos.  Entretanto, graças aos cortes draconianos que foram operados no orçamento do Ministério da Educação, agora abundam sinais de que teremos manifestações importantes em diferentes partes do território nacional.  Este será uma espécie de ensaio geral para a greve geral que as centrais sindicais convocaram para o dia 14 de junho. 

Mas o Tsunami também tem importantes componentes externos, a começar pela guerra comercial EUA-China que já jogou partes das bolsas mundiais, incluindo as de mercadorias e futuros numa espiral de grave incertezas e derrubando preços de commodities estratégicas como a soja. Entretanto, a principal consequência do que foi iniciado pelo governo dos EUA é a fuga de capitais especulativos, o que já começou a causar uma aceleração no preço da moeda estadunidense e queda nas bolsas mundiais.

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Mercados mundiais respondem negativamente ao recrudescimento da guerra comercial entre EUA e China.

A combinação desses fatores pega a economia brasileira e seus principais indicadores em posição de extrema fragilidade.  Tal fragilidade somada à receita ultraneoliberal do ministro Paulo Guedes e sua equipe de “Chicago Boys” oferece um caldo de cultura altamente promissor para que tenhamos uma degradação ainda mais acelerada dos índices de popularidade um governo que ainda nem completou cinco meses de existência e já aparece altamente envelhecido e sem capacidade de gerar alternativas estratégicas para resolver os muitos problemas que nos afligem.

E o resultado disso é a formação do Tsunami que o presidente Jair Bolsonaro previu. Resta saber se ele mesmo não será engolido no processo. É que em condições de mares revoltos, não há espaço para improvisação.

Preço da soja cai ao mais baixo em uma década à medida que a guerra comercial EUA-China se intensifica

A China disse que aumentará as tarifas de alguns produtos norte-americanos a partir de junho. Produtos agrícolas dos EUA atingidos vão da carne de porco ao retiro de algodão

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A soja é colhida em Tiskilwa, Illinois. Fotógrafo: Daniel Acker / Bloomberg

Por Michael Hirtzer para a Bloomberg News

Os valores futuros da soja caíram para o nível mais baixo em uma década, com a escalada da guerra comercial entre os EUA e a China enfraquecendo as esperanças de que o país asiático retome as compras de grãos americanos para facilitar o excesso de oferta.

As commodities agrícolas da carne suína ao algodão caíram na segunda-feira, com a soja caindo para US $ 8 por bushel pela primeira vez desde 2008 em Chicago, depois que a China anunciou que aumentará as tarifas de alguns produtos americanos a partir de 1º de junho. e a Bunge Ltd. também recuou.

O  aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, o maior importador do mundo, tem agitado as perspectivas para a demanda de soja, à medida que os agricultores americanos semeiam a próxima safra. A China comprou várias rodadas de soja no início deste ano como gestos de boa vontade nas negociações comerciais.

“Claramente, há incerteza sobre para onde estamos indo”, disse Ken Morrison, analista independente de St. Louis. “Ambas as partes se apoiaram em um canto.”

A quebra nas negociações também aumenta a probabilidade de que algumas compras de produtos americanos, como soja e carne suína, sejam canceladas antes da entrega, disse Morrison. A China comprou cerca de 7,4 milhões de toneladas de grãos dos EUA que ainda não foram embarcados, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

As últimas negociações entre os dois países terminaram sem uma resolução, levando o presidente Trump na semana passada a prometer que as compras de safras americanas compensariam as vendas mais lentas para a China. Ainda assim, não está claro até que ponto isso iria resolver o atual excesso de oferta.

O conflito surge no momento em que a peste suína africana praga os produtores de suínos na China e nos países vizinhos, com as perdas de suínos no Vietnã chegando a 4% de seu rebanho doméstico. A febre alastrante pode reduzir ainda mais a demanda por soja e outros alimentos para gado.

Os fazendeiros americanos estão enfrentando dificuldades porque o problema tarifário que começou há um ano atrapalhou as exportações de soja, derrubando os preços e prejudicando a renda dos agricultores. A escalada das tensões reduz as esperanças de um acordo rápido e coloca o foco de volta em mercados bem supridos.

Na sexta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou sua perspectiva mensal de safra, que prevê a elevação dos estoques domésticos em sua primeira orientação para a próxima temporada.

“O relatório do USDA tem sido bastante pessimista na última sexta-feira e contribuiu para a atmosfera sombria em vigor sobre commodities agrícolas devido às intermináveis ​​e tensas discussões comerciais entre EUA e China”, disse Agritel em nota.

PREÇOS OLEOSOS

  • Valores futuros de soja para entrega em julho caíram 2,3%, para US $ 7,91 o bushel, na Bolsa de Chicago.
  • Esse é o menor valor para contratos ativos desde o final de 2008.
  • Os preços caíram 11% até agora este ano.
  • Farinha de soja -1,3% para US $ 283,60 por 2.000 libras.

MERCADOS DE GRÃOS

  • Futuros de trigo para entrega em julho -0,7% para US $ 4,21 3/4 por bushel na CBOT.
  • Esse é o menor valor desde janeiro de 2018 para contratos ativos
  • Os valores futuros de trigo para moagem em dezembro também caem em Paris, com os preços atingindo uma baixa de contrato de EU 171,75 /t.
  • Os valores futuros de milho seguem para a quarta queda direta na CBOT.

 

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg News [Aqui!].

A guerra comercial China-EUA poderá ampliar a recessão brasileira

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Os mercados mundiais amanheceram hoje em ritmo frenético por causa da imposição de novas tarifas pelo governo de Donald Trump e a esperada reação chinesa de também impor este mesmo tipo de ação punitiva sobre os produtos estadunidenses (ver imagem abaixo que reproduz manchete da Bloomberg News).

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Esse aumento das tensões comerciais entre as duas maiores economias do mundo poderá ter efeitos devastadores sobre a economia brasileira que já não anda muito bem das pernas após quase 4 anos de medidas ultraneoliberais impostas por Michel Temer e Jair Bolsonaro, estando em virtual processo de recessão com milhões de desempregados e sem perspectivas de recuperação imediata.

A situação brasileira poderá ser ainda mais complicada em função das manifestações que poderão ser emanadas pelo presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores que têm tido posições pró-EUA em vários assuntos, secundarizando os interesses comerciais brasileiros que tem na China o seu principal parceiro.

Por isso, mesmo que em alguns aspectos pontuais, a guerra comercial sino-estadunidense favoreça alguns grupos de interesse, a começar pelos vendedores de soja, em aspectos globais, o Brasil poderá se afundar ainda mais na recessão em que se encontra, especialmente se a dupla Bolsonaro e Araújo optarem pela submissão à Casa Branca em detrimento dos interesses econômicos nacionais. 

Por outro lado, é importante que quaisquer análises que sejam feitas sobre a realidade brasileira passe a levar em conta o complicado cenário mundial. É que tenho visto a preponderância de análises que passam ao largo das articulações existentes entre crise econômica e alinhamentos geopolíticos que hoje determinam fortunas e misérias na economia global. Nesse caso, se houver um alinhamento político por parte do governo Bolsonaro, não como o Brasil não sair duramente chamuscado no plano econômico.  Apesar de ser simples de se concluir, tenho dúvidas sobre qual lado o atual governo escolherá dados os perfis altamente ideológicos dos seus principais tomadores de decisões.