Entre drones, agrotóxicos e monoculturas: a escalada da guerra química contra os camponeses no Maranhão

O avanço do agronegócio no Matopiba e a disseminação da pulverização aérea intensificam disputas territoriais, ampliam riscos ambientais e expõem os limites da regulação sobre o uso de agrotóxicos em comunidades rurais, quilombolas e indígenas

O Maranhão tornou-se, nos últimos anos, um dos principais laboratórios da expansão acelerada do agronegócio no Matopiba — fronteira agrícola que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nesse processo, a incorporação de novas áreas para monoculturas de soja, milho e eucalipto vem sendo acompanhada por um aumento expressivo do uso de agrotóxicos e da pulverização aérea, incluindo a utilização crescente de drones agrícolas. O que antes era apresentado como símbolo de modernização tecnológica passou a suscitar um debate mais amplo sobre seus impactos sociais, ambientais e sanitários, especialmente em regiões ocupadas por comunidades rurais, quilombolas, indígenas e assentamentos da reforma agrária.

Dados recentemente divulgados pela Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), por meio do chamado “Mapa do Veneno”, indicam que somente nos quatro primeiros meses de 2026 foram registradas 239 ocorrências de pulverização aérea de agrotóxicos em 31 municípios maranhenses. Segundo o levantamento, aproximadamente 200 comunidades teriam sido afetadas por episódios envolvendo deriva de produtos químicos, contaminação de fontes de água, danos a plantações de subsistência e relatos de intoxicação humana. Ainda que os números dependam de investigação detalhada pelos órgãos públicos competentes, eles ajudam a revelar a dimensão territorial do conflito em torno do atual modelo agrícola em expansão no estado.

O caso do município de Duque Bacelar tornou-se emblemático. Moradores do povoado Santo Antônio relataram que um drone agrícola realizou pulverização próxima às residências, atingindo áreas de uso comunitário, cacimbões e pequenas lavouras familiares. O episódio ganhou maior repercussão porque o município possuía legislação restritiva ao uso desse tipo de pulverização em determinadas áreas, posteriormente revogada pela administração municipal. O episódio expõe como a rápida incorporação de novas tecnologias agrícolas frequentemente ocorre antes da consolidação de mecanismos robustos de fiscalização, monitoramento ambiental e proteção das populações potencialmente expostas.

Situação semelhante vem sendo denunciada em comunidades de Vila Nova dos Martírios, onde moradores associam o avanço das plantações de eucalipto aos episódios de pulverização aérea e à alteração da qualidade da água e dos ecossistemas locais. Empresas do setor florestal argumentam, por outro lado, que suas atividades seguem os parâmetros legais e técnicos estabelecidos pelos órgãos reguladores. Ainda assim, os relatos de mortandade de peixes, adoecimento de moradores e perda de roças tradicionais revelam um cenário de crescente tensão socioambiental em áreas onde a presença do agronegócio avança sobre territórios historicamente ocupados por populações camponesas.

Outro aspecto importante destacado pelo levantamento da RAMA é a recorrência dos episódios. Segundo os dados divulgados, ao menos 36 comunidades teriam sido atingidas mais de uma vez em poucos meses. Essa repetição indica que não se trata apenas de eventos isolados, mas da consolidação de uma dinâmica territorial marcada pela convivência conflituosa entre grandes empreendimentos agroindustriais e modos de vida tradicionais. A expansão das monoculturas intensivas em agrotóxicos tende a aumentar a proximidade física entre áreas de produção empresarial e comunidades vulneráveis, ampliando o risco de deriva química e de contaminação ambiental.

Ao mesmo tempo, a disseminação do uso de drones agrícolas inaugura um novo desafio regulatório. Embora frequentemente apresentados como alternativa mais precisa e eficiente em comparação à pulverização aérea convencional, os drones ainda operam em um contexto de fiscalização limitada e de ausência de protocolos amplamente consolidados para áreas próximas a moradias, escolas rurais, rios e territórios coletivos. A velocidade da adoção tecnológica parece superar a capacidade do Estado de construir mecanismos efetivos de controle e responsabilização.

O debate em torno da pulverização aérea no Maranhão ultrapassa, portanto, a questão técnica do uso de agrotóxicos. Ele remete a um modelo de desenvolvimento rural baseado na expansão contínua de commodities agrícolas voltadas ao mercado internacional, frequentemente em regiões marcadas por elevada vulnerabilidade social e baixa capacidade institucional de monitoramento ambiental. Nesse contexto, a disputa em torno do território passa também pelo controle da água, da terra e das condições mínimas de permanência das populações tradicionais em seus espaços históricos.

Mais do que um conflito localizado, o que ocorre no Maranhão oferece um retrato das contradições presentes na atual expansão do agronegócio brasileiro. De um lado, um setor altamente mecanizado, financeirizado e dependente de pacotes químicos e tecnológicos cada vez mais sofisticados. De outro, comunidades que reivindicam proteção ambiental, segurança sanitária e reconhecimento territorial. Entre esses dois polos, permanece em aberto a questão central: quais são os limites sociais, ambientais e políticos aceitáveis para a continuidade desse modelo de expansão agrícola?

Guerra química: agrotóxicos viram arma de guerra nas áreas de expansão do agronegócio, mostra relatório da CPT

Dados divulgados pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) relativos ao primeiro semestre de 2024 indicam crescimento de disputas nas áreas conhecidas como Amacro, Matopiba e Amazônia Legal, fronteiras do agronegócio. Explosão de casos de contaminação por agrotóxicos no Maranhão chama a atenção

Pulverização aérea de agrotóxicos tem causado aumento de casos de contaminação no Maranhão (Foto: Reprodução/Academia do Agronegócio)

Por Igor Ojeda para a Repórter Brasil 

Os conflitos de terra se acirraram durante o primeiro semestre de 2024 em regiões do Brasil onde o agronegócio tem avançado, revelam dados divulgados nesta segunda-feira (2) pela CPT (Comissão Pastoral da Terra). 

O levantamento aponta queda no número total de conflitos em relação ao mesmo período de 2023, mas aumento de disputas no campo na Amazônia Legal e nas áreas conhecidas como Amacro – que abrange 45 milhões de hectares na divisa entre o Amazonas, Acre e Rondônia – e Matopiba – que se estende por territórios dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. São regiões marcadas pela expansão do agronegócio nas últimas décadas.

Segundo os dados parciais levantados pela CPT, entidade vinculada à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), foram 1.056 ocorrências de conflitos no campo entre janeiro e junho de 2024, uma queda de 6% em relação às 1.127 registradas no primeiro semestre do ano anterior. 

No entanto, o índice deste ano é o segundo maior desde 2015. Do total de ocorrências em 2024, foram 872 conflitos por terra, 125 conflitos por água e 59 casos de trabalho escravo. 

“O semestre apresentou menos vítimas da violência no campo em relação ao mesmo período no último ano, mas a conflitividade continua elevada, somada aos danos sofridos pelas comunidades rurais devido à crise climática e aos incêndios criminosos em seus territórios”, diz a CPT.

Os números parciais divulgados nesta segunda integrarão o Caderno Conflitos no Campo 2024, que será lançado pela entidade em abril de 2025. O relatório, que já teve 38 edições, é um dos mais importantes registros da violência e da resistência no campo brasileiro. 

“Quando se olha os últimos dez anos, há uma crescente que se mantém. Houve uma diminuição muito leve de casos em 2024, mas, ao mesmo tempo, ainda existe um índice muito alto de violência contra a pessoa e um crescimento de outras formas de violência”, avalia Cecília Gomes, da Coordenação Nacional da CPT.

Para ela, o aumento da conflitividade em áreas de expansão das fronteiras agrícolas “indicam que o campo ainda não é um lugar seguro pra se viver”. “O campo é um lugar onde há um desrespeito extremo aos direitos humanos e à vida digna. Vivemos momentos de ataques crescentes aos povos da terra, das águas e das florestas”, diz.

Entre os 872 casos relativos a conflitos por terra, a maior parte (824) foi de casos de violência contra a ocupação e posse, o terceiro maior índice dos últimos dez anos. O restante dos casos (48) deve-se a ações de resistência: ocupações, retomadas e acampamentos.

Apesar de ter ocorrido redução no registro de formas de violência como grilagem, invasão, expulsão concretizada, pistolagem e omissão/conivência das autoridades, houve aumento significativo das ocorrências de ameaça de expulsão, que passaram de 44, em 2023, para 77, em 2024, revela a CPT. Em relação à pistolagem, apesar da redução de 150 para 88 casos, é o segundo maior índice da última década. 

Entre os casos de assassinatos, os dados revelam que houve uma diminuição no número de vítimas: 6 no primeiro semestre – o menor número em dez anos. Mas a CPT alerta que já são 11 mortes confirmadas até o final de novembro. Destas, quase metade foi cometida por fazendeiros. Segundo a entidade, em quatro dos casos, forças policiais atuaram como executoras ou apoiadoras aos executores. . 

Explosão de casos de contaminação por agrotóxicos 

Um dos índices que mais chamam a atenção nos dados divulgados pela CPT é o crescimento acentuado de ocorrências de contaminação por agrotóxicos. De 19 casos registrados no primeiro semestre de 2023, houve um salto para 182 no mesmo período de 2024 – alta de 857%. A maioria dos casos (156) aconteceu no Maranhão. 

Na avaliação de Gomes, esse dado é reflexo de uma diversificação nas formas de opressão e violência no campo. “As populações de comunidades camponesas e tradicionais estão sendo atingidas diretamente pelas pulverizações aéreas de agrotóxicos. Estão sendo diretamente envenenadas. Quando não se expulsa pela força, se expulsa por banhos de veneno”, denuncia.

agrotóxicos

A violência decorrente da contaminação por agrotóxicos teve um crescimento alarmante, passando de 19 ocorrências em 2023 para 182 em 2024. A maior parte desses casos (156) ocorreu no estado do Maranhão, onde comunidades estão sofrendo severas consequências da pulverização aérea de veneno. 

O uso dos agrotóxicos como arma para expulsar moradores no contexto de disputa de terras tem crescido nos últimos, alertam comunidades rurais e organizações da sociedade civil. 

O fim da pulverização aérea de venenos agrícolas tem sido discutido em vários estados do país. No Brasil, por enquanto, só o Ceará tem uma legislação que veda a prática — a “Lei Zé Maria do Tomé”, batizada em homenagem a um ativista ambiental assassinado em 2010, no interior do estado. 

A Repórter Brasil mostrou na semana passada que duas comunidades próximas a lavouras de frutas no Ceará – Tomé, em Limoeiro do Norte, e Assentamento Maceió, em Itapipoca – continuam registrando mortes de crianças que poderiam ser atribuídas à exposição aos agrotóxicos, mas que não são investigadas por órgãos de vigilância.

Para Cecília Gomes, o Maranhão tem sido palco de uma disputa territorial e de uma “corrida por bens naturais”. Segundo os dados do CPT, o Matopiba registrou um aumento em diversas formas de violência. O desmatamento ilegal teve crescimento de 16%, a destruição de roçados, de 30%, as ameaças de despejo aumentaram em 60% e as ameaças de expulsão saltaram 150%. 

Nessa região, diferentemente do registrado no Amacro e na Amazônia Legal, também houve aumento na quantidade de vítimas de violência contra a pessoa.

Vítimas e causadores

Os posseiros, ou seja, famílias de comunidades tradicionais que ainda não têm a titulação da terra, foram as maiores vítimas dos conflitos por terra (235), seguidos por povos indígenas (220), quilombolas (116) e sem-terra (92), revelam os dados.

Já em relação aos causadores da violência, a CPT aponta os fazendeiros (339) como principal força, seguidos por empresários (137), governo federal (88), governos estaduais (44) e grileiros (33).

Em relação aos conflitos por água, as maiores vítimas foram os povos indígenas (35 casos). Em seguida, vêm os quilombolas (24), posseiros (21), ribeirinhos (18) e pescadores (13). Nessa categoria, os causadores das violências são os empresários (32), fazendeiros (26), hidrelétricas (23), mineradoras (19) e governo federal.

Áreas de Cerrado na Bahia ocupadas por plantações de soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Trabalho escravo

Segundo o levantamento da CPT, o primeiro semestre de 2024 apresentou uma redução significativa do número de casos de trabalho escravo e pessoas resgatadas, após três anos consecutivos de crescimento. 

Foram 59 casos e 441 trabalhadores rurais resgatados, em comparação a 98 casos e 1.395 resgatados em 2023. 

As atividades com maior concentração de pessoas resgatadas foram as lavouras permanentes (209), desmatamento (75), mineração (70), produção de carvão vegetal (44) e a pecuária (39), números que demonstram “a grande contribuição do agronegócio e da mineração para a perpetuação do trabalho análogo à escravidão”, diz a CPT.

Crise climática

Embora não contem como violência do campo, a CPT levantou dados sobre os impactos sentidos pelas comunidades camponesas, quilombolas e indígenas em três eventos relacionados à crise climática: enchentes na região Sul, secas na Amazônia e incêndios em todo o país.

No Rio Grande do Sul, mais de 300 famílias camponesas, 145 comunidades quilombolas e nove aldeias do povo Guarani foram afetadas. Em relação aos incêndios, os povos indígenas foram os que mais sofreram. Ao todo, 37% dos casos de desmatamento ilegal registrados foram em territórios indígenas. Segundo a CPT, fazendeiros foram responsáveis por metade dos casos identificados de incêndios criminosos. 


Fonte: Repórter Brasil e CPT

Divulgando livro que trata a questão dos agrotóxicos de forma integrada

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A questão dos agrotóxicos é certamente um dos pontos de maior interesse deste blogueiro, pois considero que o Brasil é hoje o lócus de um experimento avançado das corporações químicas globais que fizeram do nosso país um ponto estratégico para a geração de lucros estratosféricos às custas da saúde dos brasileiros.

Em função disso é com satisfação que estou disponibilizando hoje a obra “Desastres sócio-sanitário-ambientais do agronegócio e resistências agroecológicas no Brasil” que tem o professor Wanderlei Antonio Pignati da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), um dos maiores conhecedores dos impactos terríveis que o uso amplo, geral e irrestrito de agrotóxicos está causando na saúde humana no Brasil.

livro pignati

A partir de um enfoque multidisciplinar, este livro permite aos seus leitores entender não apenas as consequências devastadoras dos agrotóxicos sobre os brasileiros, mas também oferece alicerces teóricos e metodológicos para que novos estudos sejam realizados, de forma a ampliar o conhecimento existente sobre a guerra química que está em curso no Brasil neste momento.

Os interessados em baixar o arquivo contendo a íntegra desta importante obra, basta clicar [Aqui!].