Comodificação da ciência como causa primária do “trash science”

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O artigo abaixo da autoria de Thomaz Wood Jr. foi publicado pela Revista Caros Amigos e relata a posição de dois pesquisadores holandeses sobre a transformação da produção científica em mais uma commodity. A relação que Willem Haffman e Hans Radder estabelecem entre o processo de transformação da ciência em mais uma commodity e a disseminação do que eu chamo de trash science é direta. É que espremidos por princípios de performance produtivista, os pesquisadores enveredam por caminhos onde abraçar o trash science é um passo mais do que natural.

Além da leitura do artigo abaixo, eu recomendo a leitura do livro editado por Hans Radder (lamentavelmente disponível apenas em inglês) que possui o sugestivo título de “The commodification of academic research: sicence and the modern university” (Aqui!).

A questão que emerge diante dessas reflexões se refere ao fato de que casos de fraude e produção de lixo científico que tanto assombram a ciência neste momento precisam ser colocados num contexto mais amplo. Se não, vai ficar parecendo que se tratam apenas de casos isolados de desvio de caráter, quando a coisa parece ter tomado características sistêmicas

Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Por Thomaz Wood Jr.
BIBLIO
A biblioteca da universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda. O mundo corporativo chegou lá
Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.