Helcida

Por Ismael Machado

A data vai entrar para a minha memória pessoal. No dia 1º de abril de 2026, durante o lançamento de meu mais recente livro Filhos Dessa Raça: mãe e filhos unidos na luta contra a ditadura, no auditório Benedito Nunes (UFPA), Hecilda Veiga é chamada para ocupar seu lugar no palco do auditório. Auxiliada por João, seu filho mais novo, Hecilda caminha a passos lentos, tomando cuidado nos degraus. É aplaudida de pé por vários minutos. Ali, de meu canto, senti uma lágrima vir tranquila em meus olhos. Nada vai me tirar esse prazer e honra de ser uma das pessoas a tornar real aquela homenagem para o futuro, para a história.

O livro recoloca no centro da memória amazônica duas trajetórias atravessadas pela violência política e pela persistência da luta a favor da ditadura. A de Paulinho Fonteles e sua mãe, Hecilda, que se impõe como uma dessas presenças que, mesmo quando não ocupam os holofotes, sustentam a espinha dorsal da história. O Brasil precisa conhecê-la.

Hecilda não é apenas personagem de um tempo. No meu entendimento e avaliação, ela é síntese de uma geração de mulheres que enfrentaram a ditadura, o latifúndio, a pistolagem e o silêncio institucional no Pará. Sua vida se entrelaça com a de Paulo Fonteles, advogado, deputado estadual e defensor dos trabalhadores rurais, assassinado em 1987. Mas reduzir Hecilda à condição de coadjuvante seria repetir a violência simbólica que tantas vezes apaga o protagonismo feminino na história política brasileira.

O que impressiona em sua trajetória é a travessia. Da militância compartilhada com Paulo e tudo o que isso acarretou, com sequestro, tortura em sua forma mais abjeta e prisão, à resistência cotidiana em favor de um ideal democrático, Hecilda carregou consigo a memória de um projeto político interrompido à bala, no caso do pai de seus três filhos, que era o projeto de uma Amazônia onde a terra tivesse função social e onde trabalhadores rurais não fossem tratados como descartáveis.

Nos anos 1970 e 1980, o Pará era um território marcado por conflitos agrários agudos. A abertura política e redemocratização formal não significaram o fim da violência no campo. Ao contrário, a disputa pela terra se intensificava em meio à expansão de grandes projetos econômicos. Foi nesse cenário que Paulo Fonteles se destacou como advogado da Comissão Pastoral da Terra e como parlamentar comprometido com os camponeses. Foi assassinado, como sabemos.

E foi nesse mesmo cenário que Hecilda precisou aprender a resistir. Enfrentou o desgaste do tempo, a tentativa de esquecimento e a naturalização da violência. Filhos Dessa Raça, esse meu livro que não preenche tudo, tenta apontar para isso, ao fato de que há heranças que não são materiais, mas éticas. Hecilda Veiga representa essa herança.

Hecilda e Jorge Panzera, presidente da IOEPA

Falar de Hecilda Veiga é falar de permanência. De alguém que atravessou o medo e a pressão política sem abrir mão da dignidade. Sua história não é apenas lembrança de um passado de conflito; é interrogação sobre o presente onde a democracia ainda é ameaçada. Hecilda sustentou suas convicções. E, ao sustentar, transformou-se ela própria em símbolo de resistência amazônica, discreta, firme e indispensável. Em uma fala a um repórter de tv local nessa noite de lançamento, Hecilda se disse uma sobrevivente. Quase agradeceu por isso. Lembrou de outros que não tiveram a mesma sorte, como Honestino Guimarães, presidente da UNE, morto sob tortura.

Penso nessa mulher que me parece tão frágil fisicamente e que guarda em si todas as lutas do mundo. Para quem não a conhece, traço um pouco de sua biografia. Hecilda Mary Ferreira Veiga foi uma jovem que gostava de cantar e admirava Che Guevara. Como tantos de sua geração ousou lutar contra o arbítrio e o autoritarismo. Filha de migrantes nordestinos que chegaram ao estado do Pará em busca de uma vida melhor e que em Belém estabeleceram-se no Telégrafo Sem Fio, o antigo bairro São João do Bruno, numa área que abrigava o matadouro de Belém.

Hecilda nasceu em casa, no dia 11 de março de 1947, o segundo pós-guerra. Um parto caseiro, tão comum entre as famílias. Não só ela, como o irmão Daniel, nascido dois anos depois. Quem ‘pegou’ as crianças foi a avó Antônia Miranda. Todo o entorno de Hecilda era repleto de vida operária. E isso calaria fundo na pessoa que ela seria no futuro.

Cursou os primeiros cinco anos escolares, o primário, no Grupo Escolar Augusto Montenegro, no próprio bairro. A simpatia e a desenvoltura estampadas no sorriso aberto sempre faziam ser escolhida Miss Caipira nas quadrilhas juninas. Com gosto, a mãe mandava pregar os enfeites juninos nas roupas da filha miss. Ao todo frequentou, além da Augusto Montenegro, o Paes de Carvalho e o Magalhães Barata. Em todos uma característica: era sempre aplicada, dada a leituras, uma intelectual precoce.

Em 1964 Hecilda foi para a escola com o intuito de ser professora. Terminaria o ginásio na escola Magalhães Barata. Fez vestibular para Ciências Sociais e não demorou a se engajar no movimento estudantil, no efervescente ano de 1968. Cerrando fileiras na Ação Popular e posteriormente no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Hecilda e seu companheiro Paulo Fonteles ganharam codinomes e foram enviados a Brasília para participar do Movimento Estudantil na capital federal.

Ambos foram capturados e torturados nas dependências do Exército Brasileiro. Seu filho mais velho nasceria na prisão e sob tortura. Julgada e condenada pelo governo militar, foi transferida a Belém, acusada de ser terrorista. Após esse período de encarceramento, Hecilda voltou à universidade, não sem antes ser uma das fundadoras da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, uma das primeiras entidades com esse objetivo no Brasil.

Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará em 1983 e concluiria o Mestrado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido pela Universidade Federal do Pará em 1995, aprofundando-se nas questões do planejamento do desenvolvimento na Amazônia sob orientação de José Marcelino Monteiro da Costa. Passou a integrar o corpo docente da Universidade Federal do Pará.

Seu histórico de luta em prol da democracia fez com que fosse homenageada pelos estudantes de seu curso de origem. O Centro Acadêmico de Ciências Sociais tem o nome de Hecilda Veiga em reconhecimento a quem sempre se dedicou na construção de um país socialmente mais justo.

Sua produção bibliográfica inclui a obra A redemocratização em Belém (1945–1947): os comitês democráticos e a campanha contra a fome, de 1984, estudo que recupera experiências políticas e mobilizações sociais no pós-Estado Novo, e o texto 1968: uma obra aberta, publicado no Jornal Resistência, em que revisita criticamente o legado de 1968. Hecilda também se destacou na formação de novas gerações de cientistas sociais. Orientou e participou de dezenas de bancas de trabalhos de conclusão de curso, especializações e dissertações, abordando temas como sistema partidário, reforma do Estado, MST, impactos socioambientais na Amazônia, imigração árabe no Pará, memória da Guerrilha do Araguaia e políticas públicas. Sua atuação docente sempre esteve associada à reflexão crítica sobre democracia, participação política e direitos sociais.

Reconhecida por sua contribuição intelectual e pública, recebeu a Medalha “Isa Cunha”, concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, e a Medalha do Mérito Francisco Caldeira Castelo Branco, da Prefeitura de Belém.

Em tempos em que a memória histórica volta a ser disputada e relativizada, revisitar essa trajetória é também refletir sobre o papel das mulheres na sustentação dos movimentos sociais amazônicos. Muitas vezes invisibilizadas, foram elas que mantiveram redes, arquivos, famílias e comunidades em pé quando a violência tentou dissolver tudo. Hecilda se junta a nomes como Adalgisa Lopes, Luzia Canuto, Maria Oneide, Zélia Amador, Maria Joel Dias, Dorothy Stang, Luzia Miranda, Marga Rothe e tantas mais, que contam uma outra história amazônica e brasileira.

Hecilda sendo homenageada no lançamento do livro

Escrevo e reflito. Há uma emoção difícil de traduzir quando ouvi Hecilda Veiga falar sobre democracia, naquela noite tão simbólica no lançamento do livro, na universidade que ela tanto ama. Não é apenas a força das palavras, mas o que elas carregam, algo como o tempo atravessado, as perdas suportadas, a coragem cotidiana de permanecer. Há uma serenidade firme em sua voz um pouco acelerada, em tom menor, que não fala de teoria, mas de experiência vivida no corpo da história, mesmo que percebamos que sua memória já não tenha a mesma linearidade, o peso dos anos lhe cobrando faturas, a saúde fragilizada. Ainda assim, ela está aqui, caminhando com seus passos miúdos, mas gigantescos, entre nós.

Ter escrito um livro sobre ela me representou muito, ainda que o resultado, claro, me soe incompleto. Foi um aprendizado. Hecilda ensina que democracia é prática insistente, muitas vezes silenciosa, quase invisível e que pode oferecer pouca recompensa pessoal em troca, se a vida é dedicada a ela. Ao organizar um mínimo de sua história, algo também se reorganiza em quem escreve. Entendi que absorver seu pensamento é compreender que a democracia não nasce pronta nem se sustenta sozinha. Ela depende de pessoas como Hecilda, que não desistem, não se dobram e acabam por transformam dor em compromisso. E há uma espécie de gratidão íntima em poder registrar isso. Fico sempre com a sensação de que, ao contar esse tipo de história, também se ajuda a preservar um pedaço do futuro.

E se você quiser saber um pouco mais dessa história e está em Belém, aparece no espaço Ná Figueredo, ali na Gentil, nessa quarta-feira, dia 8 de abril de 2026. É pelo final da tarde. Vamos estar lá com o livro, música e um abraço para ofertar.

Com Hecilda, um registro no lançamento de Araguaianas, livro de seu filho Paulo.


Fonte: Medium