Um exame necessário sobre o governo de Rafael Diniz e seus menudos neoliberais: matriz ideológica e origem de classe

Imagem relacionada

Conversando hoje com uma colega que frequenta conselhos municipais, ouvi fatos horrorosos de como a coisa anda funcionando em alguns deles sob a batuta dos menudos secretários neoliberais do jovem prefeito Rafael Diniz. Pelo que ouvi, a coisa anda tão feia que já há quem sinta saudade do traquejo rústico dos tempos dos secretários da prefeita Rosinha Garotinho.

O que parece prevalecer agora é mesmo alguma cartilha emprestada do Instituto Mises onde reina a supremacia do Deus capital, e inexistem espaços para quaisquer arranjos que não sejam controlados por empresas privadas.  Nas palavras de um destes jovens menudos, mas um com título de doutor, até se ouve os movimentos sociais, mas quem decide é ele, o sábio convertido aos preceitos da eficiência neoliberal (eficiência essa que é apenas um sinônimo para privatização da coisa pública).

Um dos ideólogos do grupo que hoje isola o prefeito Rafael Diniz da ira popular crescente até cunhou uma expressão que epitomiza a ideologia Rafaelista quando se trata de desclassificar a atuação de quem ousa levantar alguma crítica de dentro das universidades para um governo que hoje já matou qualquer esperança de mudança na forma de governar em Campos dos Goytacazes. Falo aqui da figura do “intelectual ideológico”, que aparentemente serve para definir aqueles que criticam práticas por não praticarem.

Pois bem, reconheço que dessa bacia de menudos neoliberais não pode se esperar muita coisa, muito menos que seus membros, mesmos os que saíram de Morro do Coco para o mundo (ou pelo menos para a sede do poder executivo municipal) que conheçam toda a magnitude de definições teóricas para o que vem a ser “ideologia”.  Eu particularmente me sinto contemplado pela definição apresentada por Karl Marx em seu emblemático “Ideologia Alemã”, mas existem várias outras, incluindo a formulada pelo pessoal da Escola de Frankfurt [1 e 2].

Entretanto, suspeito que ao formular a expressão “intelectual ideológico”, o menudo neoliberal em questão estivesse se atendo a usos mais coloquiais de ideologia que se resumem a uma separação chão a chão entre teoria e prática ou em uma separação radical entre capital e trabalho. Desconfio ainda que quando se aplica o jargão de ideológico haja ainda um componente de classe, onde quem recebe é visto como um inimigo sem justa causa do capital e dos capitalistas.

Mas, convenhamos, é difícil saber o que esse pessoal realmente sabe ou sequer se deram a ler algo minimamente denso sobre o conceito de Ideologia (ou mesmo se leram o famoso “O que é Ideologia” que a filósofa Marilena Chauí escreveu para a coleção “Primeiros Passos” da Editora Melhoramentos [3]).  Apesar disso, penso que pode ser útil não apenas levantar a matriz ideológica dos menudos neoliberais e do jovem prefeito Rafael Diniz, bem como a origem de classe de cada um deles.

É que enquanto a matriz ideológica me parece de inspiração neoliberal, a coisa aqui vai além em alguns aspectos, e fica aquém em outros tantos, daquilo que foi formulado por Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Por isso, seria útil estabelecer linhas mestras do que esse grupo tem dito e feito desde que entrou porta adentro na sede do executivo municipal.

Outro elemento essencial para entendermos algumas nuances dentro deste grupo seria levantar a origem de classe de cada um deles, já que se sabe que  quase todos foram colegas de um mesmo estabelecimento de ensino, onde aparentemente herdaram a preferência pela roupa bem passada e pela barba bem feita, isto no caso dos homens. 

Assim, afinal, qual seria a árvore genealógica capitalista desses jovens governantes que tanto parecem amar o privado, enquanto demonstram clara ojeriza contra os pobres e desvalidos do município? Seriam eles todos descendentes de usineiros e latifundiários, ou temos aí uma amalgama mais complexa, unindo comércio, especulação financeira e serviços? Eu diria que se essa esfinge for decifrada, várias das idas e vindas que já ocorreram até em contratos de licitação anulados pelo Tribunal de Contas do Estado talvez sejam mais bem compreendidas.

A questão é que sempre quando ouço alguém utilizando do conceito de ideologia para desclassificar críticas, sempre tendo a ver que este é um gesto que tende a ocultar práticas e obediências que sempre emergem no trato da coisa pública.  Por isso, para mim, tentar usar o conceito de ideologia como uma ferramenta de combate político é o mais ideológico dos atos. Pena que seja sempre o ato de um covarde ou, quando não, de um grupo de covardes.

E para ninguém dizer que eu não falei das flores, coloco abaixo um vídeo com Cazuza cantando a sua ideologia. Aliás, essa música me parece cada vez mais atual, e Cazuza cada vez mais essencial.

 

 


[1] http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/ideologiaalema.pdf

[2] https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/viewFile/9168/8507

[3]  https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/388158/mod_resource/content/1/Texto%2014%20-%20O%20que%20%C3%A9%20ideologia%20-%20M.%20Chau%C3%AD.pdf

No Brasil, a prova final de que a compatibilidade entre Capitalismo e democracia é uma falácia

Resultado de imagem para capitalismo versus democracia

A ideia de que o Capitalismo é o lugar das realizações humanas, assumindo que as mesmas são sintetizadas pelo pleno acesso ao consumo de bens, mesmo os completamente desnecessários, vem sendo impulsionada com mais força após o colapso da União Soviética.  A disseminação dessa concepção ideológica de que o Capitalismo é o sistema que nos governará pelo resto da existência da eternidade é composta ainda com a inclusão de que ele nos oferece formas superiores da liberdade humana, a começar pela decisão de sermos essencialmente individualistas, mesmo em face das piores manifestações do eldorado capitalista sobre nossos semelhantes e, por extensão, sobre o nosso planeta.

O que raramente dito é que a democracia liberal de inspiração burguesa é meramente um artefato constituído para manter-se a impressão de que há efetivamente no Capitalismo válvulas de escape para a inerente acumulação desigual da riqueza em que o sistema está estruturado. Na prática, quaisquer avanços democráticos com efeitos distributivos sempre exigiram que houvesse processos de mobilização radicais por parte da classe trabalhadora.  Se deixada por si só, a burguesia não poderia ligar menos para os valores liberais que foram constituídos para garantir a hegemonia capitalista na Europa ainda no Século XVIII pelos pensadores iluministas, mais destacadamente os ingleses e franceses. 

Se olharmos para como o Capitalismo se constitui nas suas regiões periféricas, onde o Brasil está firmemente colocado pela forma particular pela qual o sistema se implantou por aqui, veremos que nem há por parte da burguesia brasileira maiores pruridos em impor um sistema avassalador no que tange à concentração da riqueza e a produção de desigualdades sociais.  E também aqui só ocorreram avanços quando as forças menos reacionárias pressentiram que tudo poderia vir abaixo se algumas concessões mínimas não fossem concedidas. Afora estes poucos momentos, a burguesia brasileira não tem qualquer tipo de pudor em aprofundar ainda mais a exploração da maioria dos brasileiros, garantindo para si a manutenção de vidas nababescas e desconectadas da realidade miserável em que vivem os trabalhadores.

Por isso tudo é que não é difícil entender como foi possível para um presidente tão claramente impopular como Michel Temer aplicar uma série de contrarreformas que apagam as poucas conquistas que foram arrancadas pela classe trabalhadora brasileira ao longo do Século XX. Temer consegue fazer isso porque possui a benção das oligarquias reacionárias que mandam no Brasil. 

Resultado de imagem para capitalismo versus democracia

Essa é a verdade nua e crua.  O problema é que vê-la iria demandar que existissem partidos políticos e movimentos sociais que estivessem dispostos a não apenas de aceitá-la, mas também se dispor a mudá-la.  Lamentavelmente por mais grave que seja a atual conjuntura histórica a maioria dos que ocupam o espectro dito de esquerda ainda parecem sonhar com ganhos incrementais e não num ataque frontal contra as estruturas criadas pela burguesia brasileira manter tudo no seu devido lugar desde que as bases da economia nacional foram lançadas pelos conquistadores portugueses no Século XVI.  Assim, qualquer mudança que venha a ocorrer vai demandar que haja a superação da visão de que a maior parte da energia existente seja gasta em instituições sem qualquer chance de serem efetivamente democráticas.