Protestos disseminados sinalizam céu carregado para o governo Bolsonaro

greve sao mateus

Estudantes do CEUNES e do IFES fecharam a BR-101 em São Mateus (ES) para protestar contra cortes orçamentários impostos pelo governo Bolsonaro.

As imagens que chegam de diferentes cidades brasileiras sobre o movimento ocorrido neste 15 de maio já indicam que o governo Bolsonaro pode ter exagerado na mão ao cortar 30% do orçamento de universidades e institutos federais, subestimando o tamanho que a inevitável reação poderia alcançar.

Pois bem, abaixo publico a capa e a matéria publicada na edição desta 5a. feira (16/05) do jornal “Tribuna do Cricaré” que circula basicamente na cidade de São Mateus, localizada no extremo do estado do Espírito Santo. 

É que não apenas as imagens são reveladoras da disposição de enfrentamento que os estudantes do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (vinculado à Universidade Federal do Espírito Santo) e do IFES estão mostrando para o pós 15 de maio.

A questão que se coloca aqui é claramente a disseminação dos protestos para fora das capitais, muita em parte ao processo de interiorização que foi impulsionado principalmente durante os dois mandatos do ex-presidente Lula, seja por meio do programa REUNI ou pela criação dos chamados Institutos Federais de Ensino.

Além disso, foi esse processo de descentralização que possibilitou a que muitos jovens que moram em cidades interioranas e de famílias pobres a entrar em cursos de graduação em instituições públicas. E são essas milhares de jovens que estão possibilitando a capilarização do movimento de  revolta contra os cortes draconianos impostos pelo ministro Abraham Weintraub nas instituições federais de ensino.

E é por essa capacidade de capilarização que o movimento que foi às ruas no dia de ontem não deveria ser submetidos, nem seus participantes deviam ter sido rotulados de “idiotas úteis” pelo presidente Jair Bolsonaro. É que provavelmente essa afirmação ainda voltará para assombrar o presidente e seu ministro.

Poucos estudantes poderiam pagar a universidade

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Por Elisa Monteiro,  elisamonteiro@adufrj.org.br

Um estudo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior desmonta a tese de que aluno da universidade pública é filho da elite e poderia pagar pelos estudos. Com base em dados de 2014, ele indica que aproximadamente 65% dos estudantes de graduação das Ifes vêm de famílias cuja renda familiar per capita está abaixo de 1,5 salário mínimo. Ou seja, de baixa renda, segundo critério do Programa Nacional de Assistência Estudantil. O levantamento alcançou cerca de 130 mil pessoas, o equivalente a 10% do total das matrículas em 62 universidades federais.

A pesquisa foi utilizada pela campanha Conhecimento Sem Cortes em um vídeo que circula nas redes. “Estão dizendo por aí que as instituições de ensino superior deveriam deixar de ser gratuitas. Isso porque, supostamente, a maioria dos seus alunos poderia pagar mensalidades. Isso não é verdade!”, afirma Tatiana Roque, presidente da Adufrj, logo no início.

O novo perfil socioeconômico dos estudantes das federais aponta que mais da metade desses jovens está na faixa de renda bruta familiar de até três salários mínimos, o equivalente a R$ 2.800. Imediatamente acima, cerca de 20% contam com até cinco salários (R$ 4.700) e outros aproximadamente 20% com 10 salários (entre R$ 4.700 é R$ 9.400). Enquanto apenas 10% dos alunos chegariam à economia doméstica acima de 10 salários.

“Essa pequena faixa azul no topo do gráfico são famílias cuja renda é superior a R$ 9.400. São famílias que recebem mais que dez salários mínimos. Esses são os únicos estudantes cujas famílias poderiam pagar um ensino superior de qualidade”, destaca o professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) Cleber Haubrics. “Cobrar só dos estudantes que podem pagar seria irrelevante diante dos custos das universidades”, alerta o vídeo. O material pode ser visto e replicado a partir do Facebook da Adufrj.

Depoimentos confirmam vídeo

A reportagem foi conferir o significado destes indicadores. Foram ouvidos alunos de graduação sobre a possibilidade de cobrança de uma mensalidade no valor de custo médio mensal no mercado: R$ 2 mil. Thalis Azevedo é um caso exemplar, com origem humilde no interior do Nordeste do país, o jovem declara que a cobrança na UFRJ teria acabado com as chances de ter um médico na família. “Só me manter aqui já é complicado. Outro amigo do Maranhão não conseguiu e voltou”. Já Thuane Nascimento, do Direito, expressa a juventude da Baixada que compõe a primeira geração familiar na universidade pública. “Minha irmã tem idade para estar na faculdade, mas não conseguiu entrar ”.

FONTE: http://www.adufrj.org.br/noticia/estudo-mostra-que-poucos-alunos-poderiam-pagar-a-universidade/