Aula Magna na Academia Brasileira de Ciências celebra centenário da visita de Albert Einstein ao Brasil

O físico e historiador da ciência Ildeu de Castro Moreira proferiu a Aula Magna sobre o Centenário da visita de Albert Einstein ao Brasil

Por Academia Brasileira de Ciências 

A Reunião Magna 2025 marcou o centenário da visita de Albert Einstein ao Brasil e à Academia Brasileira de Ciências (ABC) com uma conferência magna especial do físico e historiador da ciência Ildeu de Castro Moreira. O palestrante já produziu trabalhos importantes para a memória da Academia, como sobre a visita de J. Robert Oppenheimer e o papel da ABC na criação da primeira rádio do Brasil.

Em 1925, o ilustre físico alemão veio ao Brasil na esteira de uma visita à Argentina e graças ao esforço de um seleto grupo de pesquisadores brasileiros, que na ocasião compunham a Sociedade Brasileira de Sciencias, primeiro nome da ABC, então com nove anos de fundação. “Einstein fez parte de um conjunto maior de visitantes que a ABC recebeu, como Émile Borel, Marie Curie, Richard Feynman, Enrico Fermi. Esses nomes atraíam todos os jornais e tornavam a Academia conhecida”.

A visita foi dividida em duas etapas. Na primeira, uma rápida parada antes de seguir para a Argentina, foi suficiente para ser capa de jornais importantes da época. No dia 21 de março, Einstein foi recebido pelo então presidente da ABC, Aristides Pacheco Leão, e visitou o Jardim Botânico, marcando a ocasião em seu diário:

“(…) Jardim Botânico, bem como a flora de modo geral supera os sonhos das 1.001 noites. Tudo vive e cresce a olhos vistos por assim dizer. Deliciosa é a mistura étnica nas ruas. Português-índio-negro com todos os cruzamentos. Espontâneos como plantas, subjugados pelo calor. Experiência fantástica. Uma indescritível abundância de impressões em poucas horas”, registrou.

O trecho é simples, mas mostra uma atitude amena de Einstein quanto à diversidade étnica brasileira. Numa era de racismos ditos “científicos”, essa visão não era, de forma alguma, consenso entre as elites. Para Ildeu Moreira, é preciso ter cuidado para não rotular figuras históricas de forma anacrônica, trazendo outra passagem da vida do cientista. “Em 1946, Einstein fez questão de visitar a única universidade negra dos EUA, a Universidade de Lincoln, onde chamou o racismo de ‘a pior doença da América’”, exemplificou.

Mas voltando ao Brasil, a segunda estadia de Einstein, após passar pela Argentina, foi mais ativa. Durante uma semana ele visitou instituições científicas brasileiras como o Clube da Engenharia, a Escola Politécnica da então Universidade do Brasil, hoje UFRJ, o Museu Nacional, o Instituto Oswaldo Cruz, o Observatório Nacional, e, é claro, a ABC. Recebido em sessão solene pelo Acadêmico Juliano Moreira, que viria a ser o primeiro homem negro a presidir uma academia de ciências em qualquer país do mundo, Einstein apresentou um tema de vanguarda que nutria debates acalorados: a física quântica.

Albert Einstein em conferência na sede da ABC, em 1925

“Einstein proferiu uma conferência breve sobre o estado da teoria da luz, apresentando uma questão inovadora, o problema da realidade do quantum de luz, o que viríamos a conhecer como fóton. Ele havia proposto o quantum de luz, mas a comunidade cientifica não aceitava a ideia de que a luz era feita de partículas”, explicou Moreira. Os primeiros experimentos comprovando a posição de Einstein começaram a ser publicados meses depois.

Na ocasião, o físico escreveu um artigo à mão que viria a ser traduzido e publicado pelo Acadêmico Roberto Marinho de Azevedo na Revista da Sociedade Brasileira de Sciencias, precursora dos Anais da ABC. Einstein também fez uma transmissão radiofônica pela primeira rádio brasileira, a Rádio Sociedade, criada pela ABC. O trecho, traduzido pelo Acadêmico Mário Saraiva, comemora o poder social da radiodifusão:

“Após minha visita a esta Rádio Sociedade, não posso deixar de mais uma vez admirar os esplêndidos resultados a que chegou a ciência aliada à técnica, permitindo aos que vivem isolados os melhores frutos da civilização. (…) Na cultura levada pela radiotelefonia, desde que sejam pessoas capacitadas as que se encarreguem das divulgações, quem ouve recebe além de uma escolha judiciosa, opiniões pessoais e comentários que aplainam os caminhos e facilitam a compreensão: esta é a grande obra da Rádio Sociedade.”

Para Ildeu Moreira, além da exposição e do interesse gerado pela visita, Einstein contribuiu para influenciar uma nova geração de Acadêmicos a questionar o ideário positivista reinante no Brasil. “Este não gostava da ideia de universidades e do estímulo à ciência pura. Dessa forma, Einstein ajudou a fortalecer os pesquisadores e as instituições científicas nacionais”, finalizou.

Baixe aqui o livro desenvolvido pela ABC sobre a visita de Einstein.


Fonte: Academia Brasileira de Ciências

Revista “Nature” publica artigo sobre luta dos cientistas brasileiros contra cortes orçamentários do governo Bolsonaro

Cientistas brasileiros se esforçam para transformar políticos em aliados. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro corta o apoio à ciência e à educação, os cientistas abrem caminhos para oferecer conselhos científicos a parlamentares

protestos educação

Protestos contra os cortes do governo brasileiro na educação e financiamento da ciência ocorreram em mais de 220 cidades em 15 de maio. Crédito: Cris Faga / NurPhoto via Getty

Por Rodrigo de Oliveira Andrade para a Nature

Os cientistas do Brasil estão lutando contra os planos do presidente Jair Bolsonaro de cortar o financiamento de programas de pesquisa e educação. Os pesquisadores se uniram a membros do Congresso Nacional, Cientistas do Brasil estão lutando contra os planos do presidente Jair Bolsonaro de cortar o financiamento de programas de pesquisa e educação. Pesquisadores se uniram a membros do Congresso Nacional  para destacar o papel estratégico que a ciência, a tecnologia e a educação desempenham no desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Cerca de 20 congressistas se reuniram com pesquisadores acadêmicos, empresários e representantes do setor industrial para lançar em Brasília a “Iniciativa de Ciência e Tecnologia no Parlamento” no dia 8 de maio. O anúncio foi feito no mesmo dia em que mais de 60 órgãos científicos brasileiros se reuniram no Congresso Nacional para demonstrar sua oposição aos cortes que o governo Bolsonaro fez no orçamento das universidades públicas e no sistema nacional de pesquisa.

“A iniciativa vai se concentrar em questões onde a ciência e a política se encontram”, diz Ildeu de Castro Moreira, físico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, um dos grupos que está coordenando o projeto.  O principal objetivo é fornecer assessoria científica aos parlamentares brasileiros – e promover relações próximas com eles, promovendo discussões abertas sobre questões de ciência e educação.

A iniciativa a vem em um momento delicado para os setores de ciência e educação do país. O presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, que tomou posse em janeiro, começou a desmantelar o sistema nacional de pesquisa, contradizendo sua promessa de campanha de fazer da ciência e tecnologia uma prioridade e aumentar os gastos brasileiros em pesquisa de 1% a 3% de seu produto interno bruto. .

No final de março, o governo Bolsonaro anunciou que congelaria 42% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações – reduzindo efetivamente seu financiamento para apenas 2,9 bilhões de reais (US $ 750 milhões). Isso é 2,2 bilhões de reais a menos do que o nível aprovado para 2019, e o menor orçamento para o setor desde 2006. O governo também cortou 5,8 bilhões de reais, ou 25%, do orçamento do Ministério da Educação.

E no final de abril, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que o governo estava planejando “descentralizar” seus investimentos nas ciências sociais e na filosofia. Dias depois, o governo anunciou que cortaria 30% dos fundos para as universidades federais. O ministério também congelou, sem aviso prévio, mais de 3.000 bolsas de estudo destinadas a apoiar pesquisas de pós-graduação.

Milhares de cientistas, professores e estudantes saíram às ruas no dia 15 de maio, em mais de 220 cidades brasileiras, para protestar contra os cortes no financiamento da educação e da ciência.

Procurando aliados

Os defensores da nova iniciativa científica dizem que já estão encontrando apoio entre os políticos para políticas que visam impulsionar a pesquisa no Brasil.

“Já começamos a trabalhar para encontrar soluções em conjunto com os congressistas para alguns grandes projetos de lei em andamento no Congresso Nacional”, diz Luiz Davidovich, físico da UFRJ e presidente da Academia Brasileira de Ciências, que está ajudando a orientar a iniciativa. .

Um dos projetos de lei evitaria que o governo usasse o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do país para pagar dívidas públicas. Davidovich diz que isso ajudaria a garantir a sustentabilidade a médio e longo prazo do apoio do governo à pesquisa.

A iniciativa de ciência e tecnologia também espera convencer os legisladores a derrubar os vetos de leis de Bolsonaro que o Congresso Nacional havia aprovado em 7 de janeiro. O presidente derrubou dispositivos que regulam a criação de fundos de doações filantrópicas para apoiar instituições públicas, como universidades e centros de pesquisa.

O projeto brasileiro segue os passos de iniciativas semelhantes em outros países. O Comitê Parlamentar e Científico do Reino Unido tem funcionado como um elo de ligação entre os formuladores de políticas, órgãos científicos e a indústria científica desde 1939. Outro grupo, o Science & Technology Australia, ajudou a promover boas relações entre os políticos e líderes de ciência e tecnologia do país. Esses links resultaram em mudanças na política que beneficiaram a ciência, a tecnologia, a engenharia e a medicina, incluindo a pesquisa.

Os defensores esperam por um sucesso semelhante no Brasil, dado o atual clima sombrio de pesquisa e educação. Cientistas no país têm lutado com sucessivos cortes orçamentários desde 2013, diz Fernando Peregrino, presidente do Conselho Nacional de Fundações de Instituições de Ensino Superior e Pesquisa Científica e Tecnológica. Mas algo mudou sob Bolsonaro, ele diz: “É a primeira vez que testemunho essa hostilidade do governo com a comunidade científica”.

“Eles estão tentando destruir o sistema de ciência e tecnologia do país, que foi construído ao longo de décadas”, diz Peregrino. “E nós não devemos deixar acontecer.” 

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela revista “Nature” [Aqui!]