Na tesourada na extensão da Uenf, contas que não batem geram sentimento de “indigxidade” entre professores e estudantes

perplexo

Postei ontem um texto da lavra da professora Luciane Soares da Silva dando conta de uma tesourada que teria impactado uma série de projetos de extensão dentro da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o que teria gerado algo que poderia ser classificado como “indigxidade”, que vem a ser uma mistura de indignação e perplexidade.  

A indignação viria com a aparente falta de divulgação de critérios que foram adotados para dar notas que terminaram decidindo quais projetos receberiam teriam ou não o aporte de recursos via a Pró-Reitoria de Extensão da Uenf.  Já a perplexidade se deu por conta dos óbvios impactos que o não financiamento terá sobre projetos de grande impacto social, bem como na capacidade dos estudantes sobreviverem sem suas bolsas de extensão.

Pois bem, hoje tive acesso aos editais de extensão de 2023 e 2024 onde pode ser visto algo no mínimo curioso em termos dos valores alocados para cada ano, sendo que de um para outro os projetos aprovados terão em torno de 14% a mais de recursos financeiros (ver imagem abaixo).

tetos extensão

Com isso, fica anulada qualquer explicação em torno da causa dos cortes, pois bastaria ter mantidos os valores de 2023 para que um número maior de projetos fosse aprovado, sem necessidade de criar a agora infame lista de espera por recursos que provavelmente nunca virão, visto que o cenário dominante não é favorável ao surgimento de mais recursos, dado o aperto financeiro que o estado do Rio de Janeiro vive. Como recursos adicionais terão de vir do tesouro estadual, é muito fácil ver que esperar por novos recursos seria, pelo menos um ato de fé, uma coisa que não coaduna com uma instituição que se gaba de fazer ciência.

Outro detalhe que tem causado farta “indigxidade” é o fato de que o projeto classificado em primeiro lugar para recebimento de verbas foi proposto pela reitora Rosana Rodrigues (ver imagem abaixo).

aprovados extensão

Aqui não cabe nenhum julgamento ao mérito do projeto, pois desconheço o conteúdo e seus objetivos. Mas o que deixou muita gente com altos graus de “indigxidade” é que em um momento em que se descontinuarão projetos de impacto social, ver que a reitora não só concorreu, mas como encabeça a lista dos aprovados está sendo visto com uma contrassenso, especialmente em uma instituição em que a transparência e a equidade de oportunidades deveria ser a pedra angular do processo de gestão.

Nesse caso específico, gostaria de lembrar do provérbio “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Esse provérbio teria nascido com a decisão do imperador romano Júlio César de se divorciar de sua segunda esposa, Pompéia, após um imbróglio envolvendo um jovem patrício chamado Clódio que conseguiu entrar disfarçado de mulher em uma festa que ela havia organizado, aparentemente com o objetivo de seduzi-la, mas que era proibida para homens. Apesar de Pompéia ser completamente inocente em relação à invasão e aos planos de Clódio,  Júlio César se divorciou dela, afirmando que: “minha esposa não deve estar nem sob suspeita”.

Em outras palavras, a reitora Rosana Rodrigues pode nem ter nada a ver com a colocação do seu projeto em primeiro lugar e que o feijão seja mesmo uma maravilha (eu particularmente sou fã), mas isso não resolve a cisma que assola as mentes dos que tiveram seus projetos preteridos e, em função disso, fadados à interrupção.  Afinal, como o caso de Pompéia bem demonstrou, não basta ser honesta, deve parecer honesta”. 

Por fim, o que me parece mais necessário é que haja a devida transparência não apenas acerca dos critérios utilizados para avaliar os projetos de extensão, mas, principalmente, sobre os mecanismos de distribuição de recursos que abarcam várias áreas importantes dentro da Uenf, incluindo a extensão, mas não apenas aí. Talvez seja a hora de acionar o Conselho Curador da instituição para que se tenha o devido controle sobre esses mecanismos.