Políticas de manejo de fogo podem evitar incêndios florestais, orientam pesquisadores

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Entre 2019 e 2020 os incêndios no Brasil chamaram a atenção do mundo, especialmente na Amazônia e no Pantanal, que perdeu quase 30% da sua área com a maior queimada registrada nas últimas duas décadas. Para atuar de forma eficaz contra esses incêndios, é preciso uma base de informações calcada em pesquisas científicas, agências governamentais com equipes bem treinadas e integração de políticas de manejo de fogo e terras. Essas são as orientações de pesquisadores da USP e de outras instituições em análise publicada na revista “Perspectives in Ecology and Conservation” na terça (20).

Os pesquisadores citam esses e outros itens como fundamentais para o desenvolvimento de abordagens eficazes de manejo do fogo nos biomas e ecossistemas do Brasil. Os investimentos em estrutura incluem o desenvolvimento de sistemas de monitoramento e programas de capacitação local para manejo do fogo, além de ações de divulgação e educação sobre conservação de recursos naturais para fomentar um entendimento mais profundo sobre o papel do fogo nos diferentes ambientes. O estudo teve apoio financeiro do Programa Biota/Fapesp e do CNPq por meio do Centro de Síntese em Biodiversidade (SinBiose) e do Edital PrevFogo/Ibama.

Segundo Vânia Pivello, uma das co-autoras do estudo, o fogo é um tema bastante polêmico. “Algumas pessoas são bastante contrárias ao uso do fogo, o que é compreensível pois ele pode ser muito destrutivo e danoso. Porém é muito importante que possamos discutir onde o fogo ocorre e como ele ocorre, pois os efeitos são completamente diferentes em cada ambiente”.

O Brasil possui biomas e ecossistemas com diferentes respostas ao fogo. Enquanto as florestas tropicais, como a Amazônia e a Mata Atlântica, são extremamente vulneráveis às queimadas, os campos naturais do Sul e o Cerrado são adaptados ao fogo, sendo que muitos de seus processos ecológicos dependem dele. Mesmo esses ecossistemas podem sofrer com as queimadas dependendo da sua frequência, tipo e intensidade.

Além de afetar a biodiversidade, regimes intensos de fogo podem prejudicar a qualidade do ar e o fornecimento de água de regiões. Os pesquisadores alertam que o risco de eventos graves de incêndio provavelmente aumentará no futuro, à medida que os efeitos das mudanças climáticas se tornam mais fortes e causam eventos climáticos mais extremos. Por isso, é importante aumentar a resiliência geral de nossos sistemas socioecológicos ao fogo.

Desde 2014 o Brasil conta com uma Estratégia de Manejo Integrado do Fogo que procura controlar a quantidade de material de fácil combustão e diminuir o risco de incêndios florestais. Ela integra as práticas tradicionais de gestão de incêndios das populações locais ao manejo do fogo, mas ainda não foi amplamente implementada em todo o país. Os pesquisadores apontam a necessidade de desenvolvimento de uma estratégia geral para lidar com o fogo em terras privadas, com uso controlado, quando for benéfico, e sem uso quando os efeitos negativos predominarem.

Pivello cita o Parque Nacional das Sempre Vivas, na região de Diamantina, Minas Gerais, como exemplo de aplicação de uma Estratégia de Manejo Integrado do Fogo. “As populações locais usam o fogo para manejo das sempre vivas, pequenas flores típicas da região, pois se acredita que o fogo possa estimulá-las a produzir mais flores”, explica Pivello. Num esforço conjunto, pesquisadores e gestores do Parque conseguiram chegar a um manejo de fogo adequado para conservar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, permitir que a população local possa extrair seu sustento das flores.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori  [Aqui!]

Pondo fumaça nos olhos: governo Bolsonaro retira do INPE a divulgação dos dados de queimadas e incêndios na Amazônia

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Em mais uma manobra para enfraquecer o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por tabela a ciência de excelência que seus pesquisadores realizam há décadas, o governo Bolsonaro retirou da alçada do órgão a atribuição de divulgar os dados sobre queimadas e incêndios florestais na Amazônia, repassando a tarefa para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), este órgão abrigado mais do que convenientemente no Ministério da Agricultura, comandado pela “pesticide lover”, Tereza Cristina (DEM/MS).

A explicação estapafúrdia dada para justificar mais este ataque ao Inpe e à ciência brasileira é de que esse movimento irá facilitar a integração de dados, visto que o Inmet cuidaria da parte meteorológica e agora irá também cuidar da divulgação dos dados de queimada e incêndios florestais. Essa explicação não faz o menor sentido cientificamente, pois a “expertise científica” estabelecida no Inpe, onde existem pesquisadores de renome internacional justamente por causa dos estudos ali conduzidos sobre queimadas e incêndios florestais, que o movimento contrário seria o mais óbvio, até porque no Inpe está localizado o chamado “Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos” (Cpetec), que é outro nicho de excelência científica operando dentro do Inpe.

Esse movimento é do tipo “jogar fumaça nos olhos” não apenas da comunidade científica que depende dos dados gerados pelo Inpe para fazer estudos justamente sobre queimadas e incêndios, mas também para dificultar o monitoramento por parte dos principais parceiros comerciais brasileiros que hoje cobram não apenas um maior controle sobre o desmatamento, mas também dos pontos de queimadas e incêndios florestais.

Lembro aqui que no artigo que foi publicado na Science em setembro de 2020, identificamos a área atingida pelos incêndios florestais e demonstramos que eles são um dos principais agentes de degradação da floresta amazônica. Assim, fica evidente que não está se operando um esforço para dificultar a transparência sobre o que, de fato, está ocorrendo em termos da área atingida e degradada por incêndios, mas principalmente que se identifique onde incêndios criminosos estão sendo iniciados para acelerar a degradação dos biomas amazônicos.

Por outro lado, há que se lembrar que 2021 deverá ter um dos maiores ciclos de queimadas e incêndios florestais das últimas décadas em função do desmatamento recorde que vem ocorrendo na Amazônia brasileira ao longo deste ano. Assim, é quase certo que os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, via o Inmet,  não terão o mesmo nível de excelência do trabalho realizado pelos pesquisadores do Inpe nas últimas décadas. 

Mas uma coisa parece estar sendo ignorada pelos mentores dessa manobra: a expertise criada pelo Inpe sobre a incidência de queimadas e incêndios florestais já gerou dezenas de projetos de pesquisa em universidades brasileiras e internacionais, e que irão continuar monitorando de forma mais fidedigna a ocorrência de queimadas e incêndios florestais não apenas na Amazônia, mas nos demais biomas florestais brasileiros.  Em outras palavras: a ciência pode ser atrapalhada e boicotada, mas dificilmente se consegue impedir o seu funcionamento dada a capilarização que mais de 200 anos de avanços científicos já garantiram.

Amazônia em chamas: desmatamento de junho de 2021 confirma pior semestre desde 2016

 
A stretch of the Amazon rainforest is deliberately burned for cattle pasture in Brazil's Rodonia State, Sept. 8, 2019. (Victor Moriyama/The New York Times)

 

O desmatamento registrado em junho na Amazônia cresceu pelo terceiro ano consecutivo: foram 1.062 quilômetros quadrados num único mês, observados pelo sistema Deter, versus 1.043 km2 em junho de 2020 e 935 km2 em 2019. Houve uma queda em relação a maio desse ano, que apresentou um pico de 1.391 km2; contudo, confirma o primeiro semestre com mais derrubada desde 2016, com 3.610 km2, ou 17% a mais do que o mesmo período de 2020 – fato já determinado na semana passada, quando faltavam números dos últimos cinco dias de junho na divulgação feita pelo INPE.

O Deter costuma apresentar dados subestimados em relação ao sistema oficial de monitoramento do desmatamento da Amazônia, o Prodes, que é divulgado anualmente. Contudo, indica tendências.

“O aumento do desmatamento na Amazônia se confirma, o que é extremamente preocupante. O sul da região pode sofrer uma seca mais pronunciada em 2021, então o combate em campo será duplamente desafiador para o governo federal”, diz o pesquisador sênior do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Paulo Moutinho.

Segundo estudo recém-lançado pelo IPAM e o Woodwell Climate Research Center, existem 5 mil quilômetros quadrados de vegetação desmatada desde 2019 esperando o fogo, e um efeito somado do fenômeno La Niña e o aquecimento de partes do Atlântico Tropical Norte pode criar condições mais secas para a região – o que facilita o espalhamento do fogo.

Nesta semana, o vice-presidente Hamilton Mourão, que lidera o Conselho Nacional da Amazônia, afirmou que o objetivo da GLO (Garantia da Lei e da Ordem) na região nos próximos meses é reduzir em 10% o desmatamento.

“É insuficiente: só a derrubada que acontece nas florestas públicas não destinadas, que é totalmente ilegal, responde por um terço de todo o desmatamento na Amazônia”, afirma Moutinho. “A sinalização de que alguma ilegalidade é admitida, somada a projetos como o PL 2633, que em nome da regularização fundiária pode anistiar grilagem, tendem a estimular ainda mais desmatamento.”

Outro ponto de preocupação é a falta de clareza sobre ações de coibição das queimadas. “A publicação de uma moratória do fogo neste ano, como aconteceu no ano passado, deve ser seguida de apoio às brigadas em campo e a um trabalho de conscientização em curto e médio prazo, para que o fogo deixe de ser usado na prática rural”, explica o diretor de Políticas Públicas e Desenvolvimento Territorial do IPAM, Eugênio Pantoja.

Demanda global por soja pressiona Pantanal, maior pantanal selvagem do Brasil

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  • A demanda global por soja viu a produção anual da safra no Brasil subir de 30 milhões de toneladas em 2000 para 125 milhões de toneladas hoje. A maior parte dos agroquímicos consumidos no Brasil é utilizada nesta cultura.
  • A cultura da soja também responde pela maior parte dos agroquímicos usados ​​no Brasil, e a atividade agrícola concentrada no estado de Mato Grosso agora está vendo esses produtos químicos serem lavados rio abaixo até o Pantanal.
  • Maior planície de inundação do planeta, o Pantanal é relativamente intocado pela agricultura, com apenas 0,01% de sua área ocupada por fazendas de soja.
  • Cientistas mostraram que os cursos de água que alimentam o Pantanal estão contaminados e assoreados, e que os peixes estão escasseando em alguns locais.
Por Fernanda Wenzel , Naira Hofmeister , Pedro Papini/ Traduzido para o inglês por Maya Johnson

O anzol que Lourenço Pereira Leite lança no rio Paraguai atrai cada vez menos pintados , cacharas e pacus com o passar dos dias. Essas espécies nativas de peixes sustentaram sua família por muitas gerações, mas nenhuma das habilidades que aprendeu pescando no Pantanal com seu pai e avô o ajudou a evitar as embalagens vazias de agrotóxicos que aparecem em suas armadilhas em vez de peixes. “Isso tem que vir de montante, porque não há grandes fazendas por aqui”, diz ele.

Sua observação resume a encruzilhada em que se encontra este bioma brasileiro: apenas 0,01% do vasto Pantanal selvagem foi transformado em fazendas de soja, mas a área úmida tornou-se um enorme depósito para os resíduos de agroquímicos que lavam das terras agrícolas ao norte do rio. planaltos do estado de Mato Grosso. A crescente demanda internacional por soja fez com que as fazendas invadissem áreas preservadas e empurrou os campos de soja para mais perto das nascentes que alimentam o Pantanal.

No ano passado, o bioma passou por uma queimada histórica que atingiu 30% da região e chamou muita atenção da imprensa internacional – a exemplo dos incêndios de 2019 na Amazônia – com foco na inércia do governo federal em proteger seu patrimônio natural. Mas, na realidade, a região está sofrendo em silêncio há muito mais tempo. Os poluentes viajam rio abaixo, ameaçando uma das poucas regiões naturais do Brasil ainda bem preservada da atividade humana.

Lourenço Leite pesca no município de Cáceres, no sudoeste de Mato Grosso, porta de entrada para o bioma reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial . A água que rege a vida do Pantanal passa pelo local onde ele lança seu fio. As chuvas que caem ao norte, na planície mato-grossense, fazem subir as nascentes dos rios Paraguai, Sepotuba e Cabaçal. Essa abundância de água desce para Cáceres, de onde forma a maior planície alagável do planeta , habitada por espécies raras e ameaçadas de extinção, como onças, tamanduás-bandeira e tatus gigantes.

Em condições naturais, essa água carregaria apenas a matéria orgânica que serve de alimento para os peixes e fertilizante para as plantas. Mas hoje também traz consigo os produtos químicos que vazam das fazendas de soja. Nos últimos 30 anos, a produção de soja do Brasil aumentou seis vezes, de 20 milhões de toneladas métricas por ano para 125 milhões de toneladas hoje, a maioria das quais é cultivada em Mato Grosso . O estado é o maior produtor de soja do Brasil, que por sua vez é o maior fornecedor mundial do grão .

“O Planalto Mato Grosso faz parte do Planalto Central”, diz Débora Calheiros, bióloga da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) do Ministério da Agricultura. A região é considerada o reservatório de água do Brasil por abrigar as nascentes das principais bacias hidrológicas do país. Além da Bacia do Alto Paraguai que forma o Pantanal, outras quatro grandes bacias têm origem aqui: a Amazônia, a São Francisco, a Paraná e a Araguaia / Tocantins, diz Calheiros, que também trabalha no Ministério Público Federal e tem se dedicado sua trajetória na compreensão do impacto do uso de agroquímicos no ecossistema da região.

“O Pantanal é uma espécie de buraco”, diz Nilza da Silva, pescadora de Cáceres. “Nós estamos aqui embaixo e eles plantam soja em cima. Quando as chuvas vêm, para onde flui a água? Descendo a ladeira até aqui.

“O centro de Cáceres fica na margem do rio”, acrescenta Nilza. “Ela costumava ser um buraco muito profundo pesca onde poderíamos até mesmo pegar jaú ” – o bagre dourada, uma das maiores espécies de peixes nativos do Brasil, que pode atingir comprimentos de 1,5 metros. “Hoje em dia, na estação seca, você pode atravessar o rio com água abaixo dos joelhos por causa de todo o lodo. E quase não há peixes ”, diz Nilza.

Um grupo de pesquisadores que monitoram o bem-estar do Pantanal concluiu que o assoreamento que ela descreve é ​​o resultado de um aumento de 200% dos depósitos de sedimentos no Pantanal nas últimas três décadas , número que cresceu junto com o crescimento da agricultura em altitudes mais elevadas.

A planície de inundação do Pantanal foi quase totalmente preservada do agronegócio. Apenas 16% de sua área é dedicada à atividade agropecuária, principalmente à pecuária. É uma imagem diferente das altas planícies, onde 60% da terra foi retomado pelo agronegócio e onde brasileiros maiores municípios produtores de soja, também líderes nacionais no uso de  agrotóxicos , estão localizados. As planícies também abrigam as nascentes dos rios que alimentam o Pantanal.

A soja não é nativa do Brasil e hoje é cultivada em fazendas de monocultura que requerem grandes volumes de inseticidas e herbicidas para manter as pragas afastadas. Por isso, embora represente 42% da área plantada no Brasil, a soja responde por mais de 60% do uso de agroquímicos no país – um coquetel de mais de 450 fórmulas químicas diferentes, a maioria considerada tóxica para o homem ou prejudicial à natureza, de acordo com a Agência Nacional de Saúde e o Ministério do Meio Ambiente.

Os olhos do mundo no Brasil

Das 125 milhões de toneladas de soja que o Brasil produziu em 2019-2020, apenas um terço ficou no país. A maior parte da produção é exportada para servir de ração para bovinos, aves e suínos , que por sua vez são abatidos para alimentar a crescente população do planeta.

A China é o maior cliente de soja do Brasil . As exportações também atingem toda a Europa, com volumes particularmente elevados na Holanda, Espanha e França.

A Noruega, principal doador do Fundo Amazônia que visa proteger a floresta tropical contra o ataque de ameaças como a agricultura, atualmente importa 328.000 toneladas de soja por ano, pelo menos 70% dos quais vêm do planalto de Mato Grosso. Também importa outras 278.000 toneladas na forma de proteína de soja, para usar em suas fazendas de salmão, de acordo com a Statistics Norway.

É uma pequena parcela da produção total do Brasil (cerca de 0,5%), mas representa 86,3% de toda a soja importada por um país que continua pressionando o Brasil a cuidar do meio ambiente por meio do Fundo Amazônia.

A Noruega também pressionou importadores e empresas a adotarem um método de certificação rigoroso para a soja brasileira que entra no país , incluindo uma lista de agrotóxicos proibidos . Ele exige que a origem do produto seja rastreada para evitar qualquer associação com o desmatamento e garantir que os grãos não venham de plantações geneticamente modificadas. Mas do ponto de vista social e ambiental, a soja convencional não difere muito da soja transgênica , pois ambas são cultivadas em extensas monoculturas com uso de agrotóxicos. A única exceção é o uso do herbicida glifosato, que, dependendo de como é aplicado, pode matar a soja convencional . Por esse motivo, ele é usado com menos frequência.

Segundo a plataforma da Trase , seis municípios são os principais fornecedores de soja integral para a Noruega: Sapezal, Diamantino, Nova Ubiratã, Campo Novo do Parecis, Campos de Júlio e Tangará da Serra. Essas cidades – que também exportam para China, Holanda, Turquia, Tailândia, Reino Unido, Arábia Saudita, México e Cuba – estão todas localizadas no planalto de Mato Grosso, região de grande importância ambiental.

Um rio envenenado na nascente

A 200 km, cerca de 120 milhas, a norte de onde Lourenço Leite vai pescar, é um local onde a água escorre do solo em pequenas nascentes cristalinas que formam sete lagos. Esta é a nascente do rio Paraguai . A partir daqui, a água flui por 2.600 km (1.600 mi), através da Bolívia e do Paraguai, antes de se derramar no mar da Argentina junto com o rio Paraná.

Ao longo do caminho, forma as curvas sinuosas que compõem as vistas panorâmicas muitas vezes associadas ao Pantanal brasileiro. Mas dos sete lagos originais, apenas três ainda retêm água, e um deles está perigosamente baixo. “Estão desaparecendo por causa da falta de vegetação e da quantidade de soja e pecuária nas proximidades”, diz Jacildo de Siqueira Pinho, biólogo da secretaria estadual de saúde. “Quem sobrevoa a região vê apenas monocultura. Eles removeram quase toda a vegetação ao redor dos lagos. ”

Foto 1 (canto superior esquerdo): Quatro dos sete lagos dentro da Área de Proteção Ambiental das Cabeceiras do Rio Paraguai secaram devido ao assoreamento; Foto 2 (canto superior direito): Pesquisadores da UFMT coletam amostras de água para verificação de contaminação por agroquímicos; Foto 3 (embaixo à esquerda): Apesar de seu uso proibido, os agroquímicos são usados ​​indiscriminadamente dentro da EPA; Foto 4 (embaixo, à direita): 40% da vegetação nativa da área de conservação foi substituída por soja, milho e pecuária. Todas as imagens de Jacildo de Siqueira Pinho.

O Código Florestal do Brasil torna obrigatória a conservação das matas ciliares no entorno dos mananciais. Isso significa que na nascente do rio Paraguai, uma área maior do que a capital da Noruega, Oslo, está ostensivamente sob proteção. Conhecida como Área de Proteção Ambiental da Nascente do Rio Paraguai (APA), abrange 77.743 hectares (192.107 acres) e abrange os municípios de Alto Paraguai e Diamantino. Este último é um dos seis principais exportadores de soja para a Noruega.

Todas as atividades que agridem o meio ambiente são proibidas pela EPA, principalmente aquelas que ameaçam os mananciais, e o uso indiscriminado de agroquímicos não é tolerado. Apesar disso, 40% da vegetação nativa dentro da EPA foi desmatada para fazendas de soja e milho e pastagem de gado.

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Entre os poderosos proprietários de terras da APA estão o grupo pecuarista argentino Telhar e Gilmar Mendes, um juiz do Supremo Tribunal Federal que já foi comparado por um colega a um chefe do crime organizado. O Ministério Público do Estado de Mato Grosso não tem conseguido processar com sucesso nenhum dos agentes agrícolas da região.

Os promotores ajuizaram 19 ações cíveis contra várias partes em provas que incluíam um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) mostrando vestígios de pelo menos 10 agroquímicos em amostras de água, sedimento de rio e até solo de dentro da APA da nascente do rio Paraguai. Mas não venceram em nenhuma das ações, nem conseguiram um acordo com os fazendeiros para reduzir a quantidade e a toxidade dos agrotóxicos que utilizam em suas lavouras. Em vez disso, foi o procurador da comarca de Diamantino, Daniel Zappia, que acabou sendo alvo de um processo administrativo do CNMP , a mando de um dos fazendeiros investigados: o ministro Mendes.

“Já provamos que os agroquímicos usados ​​nas cabeceiras chegam aos rios Pantanal e que todos os estuários do bioma estão contaminados”, diz o biólogo Calheiros, que liderou o estudo da UFMT que encontrou vestígios de agroquímicos na unidade de conservação.

Uma das toxinas encontradas pelos pesquisadores da UFMT é a atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004 e que nos anos 1990 levou ao fechamento dos sistemas de abastecimento de água na Itália após a identificação de altas concentrações do produto.

A atrazina em humanos causa irritações na pele, olhos e sistema respiratório. Esses mesmos sintomas vêm aumentando entre os moradores de Cáceres ao longo do baixo rio Paraguai, segundo Claudia de Pinho, coordenadora da Rede Cáceres de Comunidades Tradicionais do Pantanal. “Algumas comunidades reclamam muito de doenças de pele. Isso piorou ainda mais após a queima de 2020 ”, diz ela. Na APA da Fonte do Rio Paraguai, os incêndios florestais de 2020 afetaram 70% da área protegida.

“O desmatamento que ocorre em altitudes mais elevadas envia sedimentos pelos rios para a planície de sedimentos, que é o Pantanal”, diz Solange Ikeda, uma das fundadoras do Instituto Gaia , uma ONG de Cáceres que trabalha pela proteção do Pantanal. “Isso reduziu o nível da água e, aqui, alguns centímetros a menos de água já impacta a biodiversidade, que é controlada pelo pulso de inundação.”

No entanto, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso (SEMA) minimizou as conclusões do relatório da UFMT, dizendo que “não demonstrou que os limites legalmente estabelecidos foram ultrapassados” e que “a legislação não inclui limites para muitos dos [ produtos químicos] listados no relatório. ” Na verdade, o limite aceitável do Brasil para os níveis de glifosato na água é 5.000 vezes maior do que na Noruega e na União Europeia.

Impacto no fundo da bacia

O modo de vida dos moradores do Pantanal mudou com a qualidade da água: já se foi o tempo em que uma pessoa podia matar a sede simplesmente se inclinando na lateral de sua canoa. “Não podemos mais beber do rio porque nos dá diarreia e vômito. Hoje em dia, quando vou pescar, tenho que levar uma garrafa de água mineral ”, diz Lourenço Leite, o pescador de Cáceres. Mas, uma vez que os sintomas que ele descreve surgem tão comumente de casos de envenenamento agudo por agrotóxicos quanto de infecção por parasitas e bactérias que podem ser encontrados na água, é difícil atribuir a culpa.

Mas foi demonstrado que os agroquímicos fluem das planícies altas para a bacia inferior. Um estudo de 2014 verificou a presença de sete dessas substâncias na Bacia do Rio Cuiabá, que também abastece o Pantanal. Segundo os autores, “atos realizados na alta bacia podem impactar diretamente o Pantanal”. As evidências chamaram a atenção de cientistas do exterior, e agora uma equipe de pesquisadores do Brasil, Argentina e Reino Unido está trabalhando no assunto. Eles ainda não divulgaram suas descobertas.

Pescador tradicional do rio Paraguai no município de Poconé, MT. Imagem de André Dib.

Um estudo de 2008 , liderado por Débora Calheiros e três outros pesquisadores, mostrou a presença de quatro agrotóxicos, alguns deles usados ​​em fazendas de soja, em amostras de água do Pantanal. Como o cultivo da soja ainda é uma atividade nova no bioma, isso reforça a hipótese de contaminação da bacia hidrológica.

O agronegócio vem avançando nas fronteiras do Pantanal em um ritmo lento, mas constante . Em 1985, a atividade agropecuária ocupava cerca de 4% do bioma. Hoje, esse número é de 16%, principalmente a pecuária. A soja é responsável por 0,01% do uso da terra no Pantanal. Mas a pressão para abrir novas terras para a agricultura aumentou significativamente na última década porque a demanda excede a capacidade das fazendas existentes, embora a produtividade tenha aumentado desde os anos 1980.

“A soja começou a surgir no Pantanal há dez anos”, diz Clovis Vailant, do Instituto Gaia. “As fazendas já ocupam toda a planície da fronteira com o Paraguai e a Bolívia, de onde vem se espalhando de oeste para leste. O Pantanal está bem no caminho desse crescimento, é a última barreira. ”

A agricultura já chegou a Cáceres e a Poconé, a cerca de 180 km de distância. “Já estávamos sentindo o impacto da agricultura na bacia alta e agora há plantações de soja no Pantanal”, diz Claudia de Pinho, da Rede Cáceres. “Isso nos deixa ainda mais preocupados com a contaminação, porque ela está acontecendo ainda mais perto das comunidades tradicionais. Temos comunidades em Poconé que estão tendo dificuldade em manter suas hortas vivas. Os vegetais morrem porque o vento traz pesticidas das áreas circundantes e os impacta diretamente. ”

De acordo com as projeções dos cientistas , se o crescimento das fazendas continuar neste ritmo, o agronegócio terá substituído a vegetação nativa em uma área de 1,4 milhão de hectares (3,5 milhões de acre) da Bacia do Alto Paraguai até 2050, e a quantidade de agrotóxicos usados na região aumentará em 4,3 milhões de litros (1,1 milhão de galões) por ano – o equivalente a duas piscinas olímpicas cheias de agroquímicos tóxicos. O efeito de tudo isso em grandes altitudes não será grande: representaria um aumento de 7% sobre o volume de agroquímicos usados ​​hoje. Mas nas planícies do Pantanal, onde hoje há pouco uso de agrotóxicos, o aumento pode chegar a 50%.

Bando de andorinhas-do-mar (Phaetusa simplex) nas margens do rio Cuiabá no município de Poconé, Mato Grosso. A relação entre os recursos hídricos e a biodiversidade é muito importante no bioma Pantanal e a poluição da água devido aos agroquímicos pode resultar em um desequilíbrio geral. Imagem de André Dib.

Resíduos também chegam à Amazônia

Dos seis municípios brasileiros que mais exportam soja integral para a Noruega, quatro estão entre os maiores usuários de agroquímicos do Brasil . Segundo dados de 2015, estudo de Wanderley Pignati, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso que se tornou a autoridade brasileira em agroquímicos. Há evidências de defeitos de nascença em crianças, mostra o trabalho de Pignati. Ele também observa que as taxas de câncer em crianças da região são superiores à média nacional e as hospitalizações por intoxicações graves são frequentes.

Três outros estudos de 2016 e 2017 mostram que a contaminação por agroquímicos atingiu municípios que ficam na bacia do rio Juruena, que deságua no Tapajós, ele próprio afluente do rio mais poderoso de todos aqui: o Amazonas.

Nos municípios de Sapezal, Campo Novo do Parecis e Nova Ubiratã, os moradores estão consumindo água, peixes, frutas e verduras comprovadamente contaminados por toxinas das fazendas. Nem mesmo os poços artesianos que abastecem as escolas são seguros.

Como a complexa hidrografia da Amazônia é bastante extensa, o efeito das toxinas se dilui, e é difícil provar que elas chegam à floresta. Mas a bióloga Débora Calheiros afirma que a contaminação é real.

“Por ser crônica, a contaminação se espalha. O ingrediente ativo se decompõe após entrar no sistema de água, mas os compostos resultantes dessa decomposição são às vezes mais tóxicos do que o ingrediente ativo. Quem mais sofre são as pessoas que dependem dessa água e dos peixes ”, afirma.

Muita soja, mas comida insuficiente

Além de comprometer a qualidade da água de dois biomas fundamentalmente brasileiros, o sistema de produção de commodities em larga escala também representa uma ameaça à segurança alimentar das populações locais.

Um estudo de 2019 mostrou que os moradores dos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio obtêm alimentos em outros estados porque é quase impossível cultivar alimentos em uma região onde 98% das terras são dedicadas ao cultivo de culturas comerciais como soja e milho.

Não há espaço suficiente para cultivar frutas e vegetais, ou para criar galinhas e porcos, ou para criar vacas leiteiras. Quem tenta produzir alimentos nesses municípios sofre com a deriva de agroquímicos, fenômeno do vento que leva as toxinas para propriedades vizinhas.

Quase metade das fazendas nesses municípios tem mais de 1.000 hectares (2.500 acres) e são mantidas por apenas alguns proprietários, então o impacto de pulverizar as monoculturas com agroquímicos é grande. “As nuvens de veneno não chegam apenas ao seu alvo (plantas e pragas), mas atingem também os trabalhadores da fazenda e, indiretamente, o ar, o solo e a água, as pessoas que ali vivem, os animais e outras plantas do entorno”, afirma. para o estudo de 2019 .

Este se tornou um dos desafios do dia a dia para os pequenos agricultores agrupados sob a CEIBA, a Associação de Agricultores Familiares do Assentamento Caeté, em Diamantino – um dos principais municípios usuários de agrotóxicos no Brasil e um importante fornecedor de soja para a Noruega.

O CEIBA é formado por cerca de 15 famílias que buscam produzir alimentos com pouco ou nenhum agroquímico. Suas fazendas confinam com os campos de soja, o que exige um esforço extra para proteger os pomares e as hortas dos assentamentos. “Plantamos árvores ao longo das propriedades e do lado que tem soja plantamos mandioca”, diz o agricultor Ruseveth Marques Martins. Eles escolheram a mandioca porque suas folhas se erguem a mais de um metro (3 pés) do solo, formando uma barreira natural contra a deriva; a parte comestível da planta cresce no subsolo, protegida da contaminação do ar.

A deriva compromete a saúde de alunos de escolas próximas às fazendas de soja e mesmo de residentes em áreas urbanas desses municípios. A bióloga Lucimara Beserra identificou resíduos de agrotóxicos na água usada em quatro escolas de Campos de Júlio, Sapezal e Campo Novo do Parecis. “Quem mora aqui está acostumado a ver os aviões jogando veneno”, diz Mauro Flávio de Souza , professor de uma escola da zona rural de Campos de Júlio. “Você pode sentir o cheiro no ar. Se uma pessoa tem algum tipo de alergia a agroquímicos, ela tem que sair da cidade ”.

Pesquisa é tabu na terra dos agrotóxicos

Em 2017, o consumo brasileiro de agrotóxicos foi três vezes maior que a média mundial. Então, só em 2020, o governo do presidente Jair Bolsonaro aprovou o uso de outros 493 agrotóxicos – uma média de quase 10 por semana. Um relatório publicado este ano pelo Parlamento Europeu alerta que um terço dessas substâncias contém ingredientes ativos proibidos ou restritos para uso dentro da UE.

Mas os cientistas brasileiros não podem se mover tão rápido quanto os aviões que lançam os agroquímicos nos campos. “Precisamos de uma rede de laboratórios credenciados, validados e certificados no Brasil para estudar os resíduos de agroquímicos na água, na chuva, na terra, no ar, no sangue, na urina e no leite materno, assim como fazemos na alimentação ”, Afirma Wanderley Pignati, da Universidade Federal de Mato Grosso.

Foi apenas em 2015 que Mato Grosso, estado que mais utiliza agrotóxicos no Brasil, inaugurou seu primeiro laboratório para identificar resíduos de glifosato, o herbicida usado na cultura da soja e que é o mais vendido no Brasil .

Graças a uma parceria com o Ministério Público do Trabalho, o laboratório da universidade federal conseguiu adquirir novos equipamentos. Ainda está em fase de teste para uso devido a atrasos relacionados à pandemia.

Enquanto isso, a universidade conseguiu identificar a presença de 15 princípios ativos, uma fração dos 504 princípios ativos aprovados para uso no Brasil, segundo estudo da pesquisadora Larissa Bombardi .

Por enquanto, a logística de testar qualquer amostra da região para a presença de agrotóxicos significa que ela deve ser enviada à Fiocruz, instituto de pesquisas em saúde pública do Rio de Janeiro, ou percorrer mais de 2.000 quilômetros até Santa Maria Federal Universidade do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, ambas as instituições têm capacidade limitada de detecção de glifosato, por exemplo.

O atual mal-estar econômico complica ainda mais as coisas. Os fundos estaduais e federais foram cortados em 80% nos últimos anos, enquanto as bolsas de pesquisa e pós-graduação foram cortadas pela metade. “Nossas instituições parceiras, como o Ministério Público, estão direcionando todos os seus recursos para o combate à pandemia”, diz Pignati.

Os obstáculos não são apenas técnicos e econômicos. Especialistas que pesquisam os efeitos do uso de agrotóxicos no Brasil podem receber ameaças de morte e até serem forçados a deixar o país. Foi o que aconteceu com Larissa Bombardi, autora de um dos estudos mais completos já produzidos sobre o tema.

Em carta aberta que enviou aos colegas da Universidade de São Paulo no dia 3 de março de 2021, Bombardi revelou que havia sido intimidada após a publicação de seu trabalho.

“Em junho de 2019, recebi recomendações de lideranças de movimentos sociais para que eu fizesse diversos rumos e variasse minha agenda para que minha rotina ficasse mais difícil de rastrear e para que eu ficasse mais protegido de possíveis ataques dos setores econômicos envolvidos no tema ao qual dediquei meu trabalho ”, escreveu ela.

Para a Bombardi, a gota d’água foi em agosto de 2020, quando agressores invadiram sua casa. Eles a trancaram no banheiro e levaram seu computador, onde ela salvou todos os seus dados de pesquisa. “[Um] parente perguntou-me se a agressão pode ter tido a ver com o meu trabalho. Todo mundo sabe que eu não salvo meus arquivos na nuvem. Sinceramente, essa hipótese nem passou pela minha cabeça no dia do ataque. E eu realmente não tenho ideia se isso estava relacionado ao meu trabalho. É possível que não tenha sido. Mas eu nunca saberei ”, disse Bombardi antes de deixar o Brasil para morar na Europa.

Imagem do banner: Vista aérea do Parque Nacional do Pantanal, no estado de Mato Grosso, e do rio Paraguai na divisa entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com a Serra do Amolar ao fundo. Imagem de André Dib. 

Este relatório foi financiado pela Future in our hands e publicado pela primeira vez em português em ((o)) eco .

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Esta texto foi publicada em inglês pelo site Mongabay [Aqui!].

Incêndios colocam em risco as matas ciliares no Pantanal e no Cerrado

fogo

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

No ano que acaba de terminar, os piores incêndios florestais em décadas assolaram o cerrado brasileiro e o Pantanal. As chamadas matas de galeria que margeiam as margens dos rios da paisagem de savana são particularmente afetadas pelos incêndios. Este ecossistema de floresta rica em espécies ameaça tombar. Este é o resultado de um estudo publicado recentemente no Journal of Applied Ecology.

As florestas de galeria perenes não são apenas particularmente ricas em espécies, elas evitam a erosão do solo e protegem os recursos hídricos. Eles também são essenciais para a sobrevivência de numerosas espécies animais, como a onça-pintada em extinção. As matas ciliares são seu refúgio preferido e uma parte importante dos corredores para a preservação da biodiversidade. Surpreendentemente, a proximidade com a água também não protege as matas ciliares dos incêndios florestais que foram causados ​​principalmente para expandir as plantações de soja e pastagens de gado. Uma equipe internacional de cientistas com a participação da Universidade de Hohenheim em Stuttgart examinou os efeitos de um incêndio devastador no parque nacional brasileiro Chapada dos Veadeiros.

Em 2017, 860 quilômetros quadrados de cerrado foram queimados ali. Para parte da área, a equipe de cientistas avaliou imagens de satélite de antes e depois do incêndio e realizou estudos de campo no local. De acordo com isso, cerca de 90 por cento das matas ciliares na região de estudo ainda estavam intactas em 2003. Após os devastadores incêndios florestais de 2017, no entanto, a cobertura florestal nas margens do rio caiu para 20 por cento em alguns lugares. “Em média, a cada segunda árvore adulta e 88 por cento das mudas morreram”, disse a equipe de pesquisa.

“Para nossa surpresa, as florestas que inundavam na época das chuvas foram as que mais sofreram danos. Algumas dessas florestas foram completamente destruídas. Quase todas as árvores morreram e gramíneas e outras espécies invasoras invadiram as áreas «, explica o primeiro autor da publicação, Bernardo Flores, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os cientistas veem uma razão para isso na casca relativamente fina das árvores nas margens. Porque embora as matas ciliares cresçam em um ambiente onde os fogos fazem parte do ecossistema, os fogos naturais raramente os atingem por conta própria. Nesta área, a camada superficial do solo rica em húmus também foi queimada, o que levou à perda de nutrientes e à erosão do solo, além de liberar CO2

Incêndios naturais geralmente surgem de quedas de raios durante tempestades. A chuva subsequente geralmente extingue rapidamente esses incêndios. Além disso, normalmente ocorrem trovoadas na época das chuvas, de forma que o solo e a vegetação ficam úmidos e dificilmente inflamáveis ​​”, explica a pesquisadora Anna Abrahão, da Universidade de Hohenheim. Mas os produtores de soja e gado atearam fogo na estação seca, quando a vegetação está seca e fácil de incendiar.

Além disso, as espécies de gramíneas africanas não nativas das pastagens artificiais para gado espalharam-se pela savana adjacente e deslocaram a vegetação natural. Essas gramíneas exóticas, por sua vez, resultaram em mais biomassa acumulada e forneceram combustível adicional para o fogo. As matas ciliares não suportam esses incêndios intensificados. Ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram uma extensão da chamada estação do tempo de fogo nas savanas tropicais de todo o mundo devido às mudanças climáticas. Na região tropical da América do Sul, esse período é 33 dias a mais do que há 35 anos. Os pesquisadores veem todo o ecossistema em perigo.

A expansão das monoculturas tornou o Cerrado e o Pantanal mais inflamáveis. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro enfraqueceu a política ambiental do Brasil nos últimos anos, o que também está levando ao aumento dos incêndios florestais, resume Rafael Oliveira, ecologista da Unicamp e coautor do estudo.

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, fundado em 1961 no nordeste do estado da Chapada, tinha originalmente uma área de 625.000 hectares. Sob pressão do lobby agrícola, foi drasticamente reduzido em 1972, inicialmente para 171.924 hectares e depois novamente em 1981 para apenas 65.500 hectares. Em 2017, o governo Michel Temer finalmente expandiu o parque nacional, que também está “protegido” como Patrimônio Mundial da Unesco desde 2001, para sua área atual de 235.000 hectares, que, no entanto, continua sendo um espinho no lado do lobby agrícola. A última tentativa de reduzir o parque para 65.500 hectares novamente fracassou em 2019 no Supremo Tribunal Federal.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Floresta Amazônica brasileira sofre os piores incêndios em uma década

fogoFumaça e chamas aumentam de um incêndio ilegalmente aceso em uma reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil, em agosto. Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty Images

Por Agência Reuters-Brasília e publicado pelo jornal “The Guardian”

Incêndios na Amazônia brasileira aumentaram 13% nos primeiros nove meses do ano, em comparação com um ano atrás, como a região da floresta experimenta sua pior onda de chamas em uma década, os dados da agência de pesquisa espacial Inpe tem mostrado.

Os satélites em setembro registraram 32.017 hotspots na maior floresta tropical do mundo, um aumento de 61% em relação ao mesmo mês de 2019.

Em agosto do ano passado, incêndios crescentes na Amazônia conquistaram as manchetes globais e geraram críticas de líderes mundiais, como o francês Emmanuel Macron, de que o Brasil não estava fazendo o suficiente para proteger a floresta tropical.

Na terça-feira (29/09), o candidato presidencial democrata dos EUA, Joe Biden, pediu um esforço mundial para oferecer US$ 20 bilhões para acabar com o desmatamento na Amazônia e ameaçou o Brasil com “consequências econômicas” não especificadas se não “parasse de derrubar a floresta”.

O presidente Jair Bolsonaro criticou o comentário de Biden como uma “ameaça covarde” à soberania do Brasil e um “claro sinal de desprezo”.

Dados do Inpe divulgados nesta quinta-feira (01/10) mostraram que, em 2019, os incêndios aumentaram em agosto e diminuíram consideravelmente no mês seguinte, mas o pico deste ano foi mais sustentado. Agosto e setembro de 2020 igualaram ou ultrapassaram a alta do mês anterior.

“Tivemos dois meses com muito fogo. Já está pior do que no ano passado ”, disse Ane Alencar, diretora científica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

“Pode piorar se a seca continuar. Estamos à mercê da chuva. ”

A Amazônia está passando por uma estação de seca mais severa do que no ano passado, o que os cientistas atribuem em parte ao aquecimento no Oceano Atlântico Norte tropical puxando a umidade da América do Sul.

Toda a Amazônia, que se estende por nove países, tem atualmente 28.892 incêndios ativos, de acordo com uma ferramenta de monitoramento de incêndios financiada em parte pela agência espacial norte-americana Nasa.

Os incêndios de setembro não estão apenas queimando áreas recentemente desmatadas e terras agrícolas, onde os fazendeiros os mandaram limpar, mas também estão queimando cada vez mais a floresta virgem, uma tendência preocupante que sugere que a floresta tropical está se tornando mais seca e sujeita a incêndios.

Aproximadamente 62% dos principais incêndios na Amazônia ocorreram nas florestas em setembro, em comparação com apenas 15% em agosto, de acordo com uma análise de imagens de satélite da organização sem fins lucrativos Amazon Conservation, dos Estados Unidos.

O aquecimento do Atlântico Norte também está ajudando a impulsionar a seca no Pantanal brasileiro, a maior área úmida do mundo, que sofreu mais incêndios neste ano do que o registrado anteriormente, segundo dados do Inpe.

Uma análise da Universidade Federal do Rio de Janeiro descobriu que 23% das áreas úmidas, que abrigam a maior população de onças-pintadas do mundo, foram queimadas.

“O Brasil está em chamas”, disse Cristiane Mazzetti, uma ativista florestal do grupo de defesa Greenpeace Brasil, em um comunicado.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal The Guardian [Aqui!].

Dados científicos sugerem que a Europa está perdendo florestas em ritmo alarmante por causa da extração de madeira

O aumento da extração de madeira pode afetar a capacidade das florestas da Europa de combater a crise climática devido à redução da capacidade de absorção de carbono

florestas europeiasUma floresta sueca ao pôr do sol. A perda de biomassa florestal é mais acentuada na Suécia, responsável por 29% do aumento na colheita.  Foto: Alamy

Por Fiona Harvey para o “The Guardian”

Dados científicos de um artigo recém publicado sugerem que a Europa perdeu uma área significativa de florestas devido ao aumento da extração de madeira nos últimos anos, reduzindo a capacidade de absorção de carbono do continente, e possivelmente indicando problemas mais amplos com as tentativas da União Europeia (UE) de combater a crise climática.

Muitas das florestas da UE – que representam cerca de 38% da sua superfície terrestre – são manejadas para a produção de madeira e, portanto, são colhidas regularmente. Mas a perda de biomassa aumentou 69% no período de 2016 a 2018, em comparação com o período de 2011 a 2015, segundo dados de satélite. A área de floresta colhida aumentou 49% na mesma comparação, publicada na revista Nature Research .

Isso indica que muito mais colheitas ocorreram em um curto período, mesmo considerando os ciclos naturais e o impacto de eventos como incêndios florestais e nevascas fortes. Pode-se esperar que a área colhida varie menos de cerca de 10% devido a ciclos de cultivo e plantio e efeitos similares, segundo Guido Ceccherini, do Centro Comum de Pesquisa da UE, autor principal do estudo.

Portanto, é provável que outros fatores estejam em jogo, e isso pode incluir aumento da demanda por madeira como combustível e mercados maiores para madeira e outros produtos de madeira. Os dados de satélite podem, portanto, ser um indicador precoce de demandas insustentáveis ​​colocadas nas florestas da UE.

A perda de biomassa florestal é mais pronunciada na Suécia, responsável por 29% do aumento da colheita, e na Finlândia, por cerca de 22%. Polônia, Espanha, Letônia, Portugal e Estônia foram muito menos afetados, pois juntos representaram cerca de 30% do aumento nos 26 países estudados.

Ceccherini disse ao The Guardian que é improvável que o aumento observado na colheita e a perda de biomassa resultem em um declínio na área da UE que é florestada em geral, pois a maioria das florestas colhidas seria regenerada . Mas isso prejudicaria a capacidade de absorção de carbono das florestas da UE no curto prazo, disse ele.

“As florestas continuam a ser um sumidouro de carbono , mas menos do que antes”, disse Ceccherini. “Mesmo que parte do carbono da biomassa colhida seja usada em produtos de madeira de longa duração, possivelmente substituindo materiais com maior consumo de energia, como aço ou cimento, a maioria retornará à atmosfera como CO2 em um curto período de tempo [desde] meses a alguns anos. Até que o estoque de carbono nas áreas colhidas retorne aos níveis anteriores, o que leva várias décadas, dependendo do tipo de floresta, um aumento na colheita é, portanto, equivalente a um aumento nas emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. ”

As florestas compensam cerca de 10% das emissões de gases de efeito estufa da UE. Como é provável que as áreas colhidas sejam replantadas, o novo crescimento continuará absorvendo dióxido de carbono da atmosfera, de modo que o balanço de carbono da Europa poderá não ser muito afetado a longo prazo.

No entanto, os pesquisadores disseram que era importante descobrir por que a colheita aumentou tão repentinamente, caso isso indique problemas subjacentes mais amplos na maneira como as florestas da Europa estão sendo gerenciadas. Este estudo não pode estabelecer definitivamente as causas dos aumentos na colheita, por isso são necessárias mais pesquisas.

O aumento da demanda por madeira e produtos de madeira, como celulose e papel, e mais queima de biomassa por combustível podem estar por trás do rápido aumento da colheita observado nos países nórdicos. Nesse caso, de acordo com os pesquisadores, é importante saber para que quaisquer impactos adversos possam ser contidos rapidamente.

O professor Thomas Crowther, fundador do Crowther Lab, que não participou da pesquisa, disse: “É preocupante ver que a crescente demanda por produtos florestais pode estar reduzindo o carbono armazenado na biomassa viva das florestas européias. É possivelmente mais preocupante que a remoção de florestas também possa ameaçar o armazenamento de carbono abaixo do solo. Essas florestas de alta latitude suportam alguns dos maiores estoques de carbono do solo do mundo. Se o desmatamento ameaçar a integridade dos estoques de carbono no solo de alta latitude, os impactos climáticos poderão ser mais fortes do que o esperado anteriormente. ”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo The Guardian [Aqui!].

Mudança do clima aumentou risco de incêndios florestais na Austrália, aponta novo estudo

Bush Fire

De acordo com cientistas, as chances de episódios como os incêndios recentes no sudeste da Austrália acontecer aumentaram ao menos 30% por conta da mudança do clima causada pelas emissões antropogênicas de gases de efeito estufa

A mudança do clima causada pela humanidade contribuiu para criar condições meteorológicas propícias para os incêndios florestais no sudeste da Austrália do final de 2019 e começo de 2020, aponta uma análise feita pelo World Weather Attribution, um grupo internacional que reúne renomados cientistas da área de clima.

Os pesquisadores concluíram que a mudança do clima causada pela elevação da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera da Terra aumentou as chances da Austrália passar por episódios extremos de incêndio florestal em ao menos 30% – mas esse valor pode ser ainda maior, já que a tendência de calor extremo é um dos principais fatores nesse processo e os modelos climáticos ainda subestimam essa tendência na análise.

“As alterações climáticas fazem parte da paisagem atual da Austrália. O calor extremo é claramente influenciado pelas mudanças climáticas causadas pelo Homem, que podem influenciar as condições de fogo”, diz Sophie Lewis, pesquisadora da University of New South Wales, na Austrália. “Temos evidências de que as estações de fogo na Austrália se tornaram mais prolongadas e intensas, e as temperaturas extremas têm desempenhado um papel importante nisso”.

Se as temperaturas globais se elevarem até 2oC, o estudo aponta que as condições para episódios como esse na Austrália se tornarão ao menos quatro vezes mais comuns como resultado da mudança do clima.

O estudo de atribuição observou o Fire Weather Index, que mede as condições meteorológicas relacionadas ao risco de incêndios florestais nas áreas no sudeste da Austrália que foram as mais afetadas pelos incêndios em 2019/2020. Ele comparou as condições atuais, com pouco mais de 1oC de aquecimento global, com o clima observado por volta do ano 1900, usando registros e modelos climáticos.

Os pesquisadores também examinaram o calor extremo e a seca meteorológica (períodos de precipitação extremamente baixa), que são elementos importantes no Fire Weather Index. Uma semana de temperaturas quentes, como aquela vivida no sudeste australiano em dezembro de 2019, tornou-se ao menos duas vezes mais provável por conta da mudança do clima causada pela humanidade. Ondas de calor como aquela observada na Austrália em 2019/2020 são agora mais quentes em cerca de 1-2oC do que as registradas por volta de 1900.

Períodos de precipitação extremamente baixa são mais relevantes para o clima de incêndio do que as tendências de precipitação média, que são um motor da seca agrícola. Os extremos secos anuais tornaram-se um pouco mais comuns no sudeste da Austrália, com 2019 sendo o ano mais seco desde 1900, embora a tendência esteja dentro do intervalo esperado das flutuações climáticas naturais. Os pesquisadores não foram capazes de ligar diretamente o recente recorde de baixa pluviosidade anual nem o mês mais seco da estação de incêndios com a mudança do clima. Outros aspectos da seca não incluídos no estudo, como baixo suprimento de água e solos secos, são influenciados pelas temperaturas altas e, por isso, estão ligados à mudança do clima.

As condições de incêndios descritas pelo Fire Weather Index desde 1979 pioraram mais rapidamente do que as simuladas pelos modelos climáticos. O risco climático do fogo aumenta em grande parte devido a eventos de calor mais intenso. Os modelos climáticos subestimam essa tendência no sudeste da Austrália, como pesquisas anteriores também apontaram em outras partes do mundo. Assim, enquanto os modelos climáticos mostram que a mudança climática causada pela humanidade aumentou em pelo menos 30% as chances da Austrália ter registros extremos do Fire Weather Index, os pesquisadores concluíram que o verdadeiro aumento poderia ser muito maior, com base na sua análise observacional e na subestimação das tendências de calor extremo.

“Descobrimos que os modelos climáticos lutam para reproduzir esses eventos extremos e suas tendências de forma realista. No entanto, eles sempre subestimam o aumento das chances de risco extremo de incêndio, como a Austrália viu nos últimos meses”, aponta Geert Jan van Oldenborgh, do Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos. “Isso significa que sabemos que o efeito é maior que os 30% de aumento observado, o que já é uma influência significativa do aquecimento global”.

Outras ligações entre mudança do clima e o risco de incêndio na Austrália estavam além do escopo do estudo, tais como fontes de ignição e estações de incêndio prolongadas que diminuem a janela para a redução segura do risco de incêndio.

Estudos de atribuição como esse são importantes para analisar o efeito da mudança climática global sobre eventos meteorológicos locais. “Diante de incêndios como estes, a questão não é apenas se o clima em transformação está tendo um efeito sobre o fogo, mas como essas mudanças estão afetando esses eventos e sua probabilidade”, explica Friederike Otto, da University of Oxford no Reino Unido. “Nossa pesquisa apontou que a mudança climática é, de fato, um fator importante nesses episódios em âmbito local. Por isso, precisamos continuar testando nossos modelos climáticos no mundo real, de modo a fornecer informações com maior confiança sobre riscos climáticos no nível local, na escala em que as pessoas vivem e tomam decisões”.

Para Maarten van Aalst, do Centro Climático da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho Internacional, episódios como os incêndios recentes na Austrália reforçam as dificuldades que eventos climáticos extremos impõem às pessoas, especialmente aquelas mais vulneráveis. “As alterações no clima já estão tornando o trabalho humanitário mais difícil. Estamos enfrentando riscos maiores e mais surpresas. Este estudo mostra que esses riscos crescentes também se refletem em perda maciça como a que observamos na Austrália na virada para o ano de 2020. Pessoas e comunidades têm sido duramente atingidas e a recuperação pode levar muitos anos. Os riscos climáticos crescentes significam que a adaptação e a resiliência são críticos, mas por si só não são suficientes – reduzir emissões é crucial”.

Autores do estudo:
• Geert Jan van Oldenborgh, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Folmer Krikken, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Sophie Lewis, University of New South Wales, Canberra, Austrália
• Nicholas J. Leach, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Flavio Lehner, Institute for Atmospheric and Climate Science, ETH Zurich, Zurique, Suíça; Climate and Global Dynamics Laboratory, National Center for Atmospheric Research, Boulder, Estados Unidos
• Kate R. Saunders, Delft Institute of Applied Mathematics, Delft University of Technology, Delft, Países Baixos
• Michiel van Weele, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Karsten Haustein, Environmental Change Institute, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Sihan Li, Environmental Change Institute, University of Oxford, Oxford, Reino Unido; Oxford e-Research Centre, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• David Wallom, Oxford e-Research Centre, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Sarah Sparrow, Oxford e-Research Centre, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Julie Arrighi, Red Cross Red Crescent Climate Centre, Haia, Países Baixos; Global Disaster Preparedness Center, Washington DC, Estados Unidos
• Roop P. Singh, Red Cross Red Crescent Climate Centre, Haia, Países Baixos
• Maarten K. van Aalst, Red Cross Red Crescent Climate Centre, Haia, Países Baixos; Faculty of Geo-information Science and Earth Observation, University of Twente, Enschede, Países Baixos; International Research Institute for Climate and Society, Columbia University, Nova York, Estados Unidos
• Sjoukje Y. Philip, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Robert Vautard, Institut Pierre-Simon Laplace, França
• Friederike E. L. Otto, Environmental Change Institute, University of Oxford, Oxford, Reino Unido

Sobre o World Weather Attribution (WWA)

 

O World Weather Attribution (WWA) é um grupo de colaboração internacional que analisa e comunica a possível influência das mudanças climáticas em eventos climáticos extremos, tais como tempestades, chuvas extremas, ondas de calor, períodos de frio e secas.

Mais de 230 estudos examinaram se as mudanças climáticas tornaram mais prováveis determinados eventos climáticos. Um estudo recente do mesmo grupo descobriu que a mudança climática tornou mais provável a onda de calor recorde de junho na França. Também constatou que a chuva na tempestade tropical Imelda, que atingiu o Texas em setembro, foi tornada mais provável e intensa pelas mudanças climáticas.

Os incêndios florestais em toda a Austrália em 2019-20, particularmente ao longo da costa sudeste, queimaram mais de 11 milhões de hectares (uma área maior que a Irlanda ou Coreia do Sul), destruíram quase 6.000 edifícios e mataram pelo menos 34 pessoas e mais de 1,5 bilhões de animais. Os custos econômicos dos incêndios podem chegar a 100 bilhões de dólares, de acordo com estimativas separadas.

Mais informações em http://www.worldweatherattribution.org/

20% de desmatamento é só um dos problemas na Amazônia. Talvez seja o menor

desmatamento 1

A recente polêmica envolvendo as críticas do presidente Jair Bolsonaro sobre os dados gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento (também conhecido como corte raso) na Amazônia brasileira tem servido para obscurecer o fato de que existem outros mecanismos de alteração da qualidade e da quantidade da cobertura vegetal.

E o interessante é que dois destes mecanismos já são bem estudados pela comunidade científica brasileira e internacional em função dos graves prejuízos que também causam sobre a biodiversidade e os serviços ambientais associados à floresta em sua condição primária. Falo aqui da degradação e da fragmentação florestal cujos agentes responsáveis são basicamente os mesmos do desmatamento, mas variam em termos de intensidade e do foco espacial.

Mas o essencial é que degradação está muitas vezes associada à entrada de diferentes atores dentro de áreas florestais para a retirada de madeira e de minérios.  O processo de degradação pode resultar tanto em mudanças drásticas da cobertura vegetal como também em alterações que rapidamente são assimiladas pela vegetação a partir de um processo de sucessão florestal.  Nesse caso a ação de madeireiros e garimpeiros são as mais notáveis, ainda que em áreas dominadas pela agricultura familiar possa ocorrer a retirada paulatina de madeira ao longo até de várias décadas, sem que se perceba grandes mudanças nas leituras espectrais da cobertura vegetal da área afetada em função da baixa intensidade das alterações promovidas.

A fragmentação é outro processo que se soma ao desmatamento e à degradação para promover a descaracterização das áreas afetadas, promover o chamado “efeito de borda“, e acelerar as mudanças nos serviços ambientais a partir da facilitação de diversos processos, incluindo os incêndios florestais.

fogo amazoniaIncêndio florestal na Amazônia. Adaman Roman.

O fato é que todo o foco colocado pelo presidente Bolsonaro e seus ministros anti-ciência (Marcos Pontes) e anti-ambiente (Ricardo Salles e Tereza Cristina) nos dados de corte raso é um típico jogo de cena, pois, com isso, se evita uma discussão mais ampla da devastação que está em curso tanto na Amazônia como no Cerrado.  A verdade é que os ditos 20% de desmatamento total na bacia Amazônica representam uma fração minoritária das áreas que já não são possíveis de ser consideradas como “naturais”.

Uma dificuldade nos estudos relacionados às mudanças no uso e cobertura da terra na Amazônia tem sido justamente calcular a área total afetada pelos diferentes processos aqui citados (i.e., desmatamento, degradação e fragmentação).  Apesar de existirem estudos pontuais, ainda não se produziu um cálculo que possa expressar a ação conjunta de todos eles no conjunto da bacia Amazônica. Felizmente, existem estudos em preparação que irão nos trazer números globais sobre a ação combinada destes processos.

E é certo que quando os cálculos combinados se tornarem públicos, a pressão sobre o governo Bolsonaro deixará o atual debate sobre o desmatamento raso como algo que ele é, uma tentativa de desviar a atenção mundial da destruição que está em curso na Amazônia, da qual o governo Bolsonaro é um dos seus principais artífices.  A ver!

Eventos de secas extremas deverão aumentar emissão de CO2 na Amazônia

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Em um artigo liderado por um ex-estudante da Universidade Estadual do Norte Fluminense e hoje pesquisador do Insituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Luiz Aragão, temos a informação de que eventuais diminuições na emissão de gás carbônico via o processo de desmatamento deverão ser compensadas por aquelas oriundas de eventos climáticos extremos, tais como secas, que estão causando um alto número de incêndios em toda a Amazônia brasileira [1].

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Imagem do satélite Landsat 8 OLI (Operational Land Imager) mostrando quilometros de florestas queimadas (tons de magenta)  em regiões cobertas por vegetação nativa (tons de verde) na porção leste da Amazônia brasileira.  A cor branca representa nuvens. Fonte: U.S. Geological Survey’s Earth Explorer Platform

Como os eventos climáticos extremos estão aumentando em número e em frequência, e não são eventos controláveis, haverá uma dificuldade adicional para que se controle as emissões de CO2, mesmo que alcance a redução das taxas de desmatamento e dos focos de queimadas. 

Essas conclusões poderão ser ainda mais drásticas quando se considerar que boa parte da floresta considerada em “estado primário”  já foi afetada por atividades ilegais de exploração madeireira e garimpo, o que aumentou as áreas suscetíveis à ocorrência de incêndios.

Aliás, essa subestimativa da área “perturbada” por ações antrópicas é um dos pontos menos abordados na literatura científica. Quando for estimado com precisão como está efetivamente o estoque da cobertura vegetal já alterada por ações de exploração é bem provável que as estimativas que são oferecidas neste estudo tenham que ser recalculadas para cima e não para baixo.

De qualquer forma, as contribuições do estudo liderado pelos pesquisadores do Inpe ao entendimento das emissões de carbono associadas à ocorrência de incêndios são muito importantes. 

Quem desejar acessar este trabalho, basta clicar [Aqui!]


[1] http://www.stockholmresilience.org/research/research-news/2018-02-14-a-different-kind-of-fire.html