Projetos de infraestrutura na Amazônia: a quem devem beneficiar?

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Bruno Batista/VPR / Agência Brasil

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Por Philip M. Fearnside, Laurent Troost e Paulo Moutinho

As escolhas sobre infraestrutura devem ser feitas para que os meios de subsistência das populações amazônicas sejam fortalecidos dentro dos limites da necessária conservação ambiental. Para que isto aconteça, contudo, algumas questões-chave devem ser respondidas. A primeira é: quem se beneficia da infraestrutura planejada? Muito da infraestrutura na Amazônia claramente não foi construída para beneficiar a população da região. A infraestrutura deve ser apenas aquela que beneficie os habitantes da Amazônia e tenha mínimo impacto sobre os ecossistemas terrestres e aquáticos.

A questão seguinte trata de quem deve se beneficiar. A população da Amazônia brasileira é mais de 80% urbana e investimentos em infraestrutura precisam incluir componentes para beneficiar aqueles que vivem nas cidades. Precisa-se de empregos que tenham reduzidas demandas de energia e de recursos físicos que geram grandes custos ambientais para a paisagem circundante.

A Amazônia rural inclui povos indígenas e outros povos tradicionais, além de uma população sustentada pela pecuária e, em menor escala, pela agricultura. A pecuária tem um impacto enorme por cada emprego criado para aqueles que cuidam do gado, consertam cercas, etc. O setor agropecuário industrial recebe uma variedade de subsídios governamentais diretos e indiretos (incluindo a infraestrutura). Os povos tradicionais são aqueles que têm a necessidade mais premente de serem apoiados por questões ambientais e de direitos humanos. No entanto, a maioria dos projetos de infraestrutura e outros investimentos governamentais para residentes na Amazônia rural têm como beneficiário primário o agronegócio. O caso da rodovia BR-163 (Santarém-Cuiabá), reconstruída para transportar soja, ilustra esta tendência.

Além das questões de para quê e para quem os investimentos em infraestrutura devem ser planejados, é preciso responder à questão sobre o que pode ser ou não considerado “sustentável”. A palavra “sustentável” implica algo que durará indefinidamente, ou pelo menos por muito tempo. No entanto, a maior parte do que está sendo realizado dificilmente pode ser considerada “sustentável”. A maior parte da área desmatada é ocupada por pecuária extensiva, que degrada o solo, e manter as pastagens com base de fertilizantes encontraria limites tanto financeiros quanto físicos na escala das vastas áreas já desmatadas, sem falar daquelas que resultariam do desmatamento continuado.

Incentivar a mineração na Amazônia é uma peça central dos planos do atual governo do Brasil. A mineração é uma atividade inerentemente insustentável, já que os minérios se esgotam. O que resta quando não há mais o que minerar é o impacto ambiental da mina e o abandono da população que dela dependia. Este é o caso da esgotada mina de manganês no Amapá, onde a ferrovia e outras infraestruturas construídas pela empresa estão abandonadas e a população da cidade, criada em função da mineradora, não tem mais fonte de renda. A expectativa de vida dos projetos de mineração na Amazônia costuma ser curta: 31 anos para a proposta mina de potássio em Autazes, e apenas 12 anos para a proposta mina de ouro Belo Sun.

As decisões sobre projetos de infraestrutura na Amazônia devem se basear nos impactos socioambientais gerados diante da realidade atual. O planejamento baseado na suposição de um futuro utópico, onde as normas ambientais sejam cumpridas e respeitadas, resultará na continuidade de degradação ligados a grandes obras. “Cenários de governança” construídos sob premissas irreais têm sido frequentemente usados para justificar projetos altamente prejudiciais. Isso se aplica à maior ameaça atual à floresta amazônica: a proposta de “reconstrução” e pavimentação da rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho). Esta rodovia, juntamente com estradas secundárias a ela associadas, abriria a vasta área de floresta intacta que cobre a metade oeste do Estado do Amazonas à ação de grileiros, madeireiros e outros atores que promovem o desmatamento e a degradação florestal.

A busca por “infraestrutura sustentável” pode ter efeitos perversos, e categorias de projetos devem ser descartadas quando, para a categoria, esses efeitos perversos excedem os prováveis benefícios de identificar e construir projetos ideais. As hidrelétricas amazônicas são um exemplo crítico. A história dessas barragens até agora tem sido uma sequência de desastres com impactos imensamente maiores do que aqueles que foram levados em consideração nas decisões. A perspectiva de encontrar o “santo graal” de uma barragem “boa” abre uma brecha que perpetua esse padrão. Mesmo que uma barragem teoricamente “boa” fosse construída ocasionalmente, o resultado de ter essa brecha é uma perda líquida para o meio ambiente e para a população da Amazônia. O relatório do Painel Científico para a Amazônia reconhece isso e recomenda contra quaisquer novas barragens na Amazônia com 10 MW ou mais de capacidade instalada, sem exceções. O maior impedimento para o desenvolvimento sustentável e de baixo impacto é a concorrência de caminhos com características opostas.

 

Sobre os Autores

Philip M. Fearnside é biólogo, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus, Amazonas. Suas diversas pesquisas são unidas pelo conceito de serviços ambientais ou serviços ecossistêmicos reguladores e incluem as causas e processos de desmatamento e degradação florestal, suas emissões de gases de efeito estufa entre outras consequências, e os impactos e a sustentabilidade de hidrelétricas, agricultura, pecuária e manejo florestal. Fearnside foi autor coordenador do Capítulo 20 e coautor dos capítulos 14, 15 e 19 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

Laurent Troost é arquiteto belga radicado em Manaus desde 2008, fundador da “Laurent Troost Architectures”. Desenvolve projetos integrados com a natureza ou onde a natureza define espaços arquitetônicos. Ganhou inúmeros concursos e prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio de Arquitetura Akzonobel Tomie Ohtake ou o Dezeen Award. Laurent foi Diretor de Planejamento Urbano do Município de Manaus de 2013 a 2020 e desde então é consultor do Banco Mundial sobre cidades amazônicas. Troost contribuiu ao Capítulo 34 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

Paulo Moutinhoé doutor em ecologia pela Unicamp, estuda as causas do desmatamento na Amazônia e suas consequências para a biodiversidade, mudança climática e habitantes da região. Tem trabalhado na Amazônia brasileira há mais de 25 anos e foi cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM, do qual foi Diretor Executivo por duas vezes (2006 a 2009 e 2015). Moutinho foi também cofundador do Observatório do Clima, uma rede de instituições brasileiras para o debate das mudanças climáticas. Atualmente é pesquisador sênior do IPAM. Moutinho co-coordenou o grupo de trabalho 11 e contribuiu aos Capítulos 30, 32 e 34 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.


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Este texto foi publicado originalmente pela agência Bori [Aqui!].

Os grandes planos de Biden

O presidente dos EUA quer modernizar a infraestrutura – a esquerda do partido quer ainda mais

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A infraestrutura dos EUA precisa de renovação. O presidente dos EUA, Joe Biden, deseja apresentar seus planos em Pittsburgh. Foto: AFP / SAUL LOEB
Por Moritz Wichmann para o Neues Deutschland

O presidente dos EUA, Joe Biden, planeja investir mais de US $ 2.25 trilhões na infraestrutura do país nos próximos anos. Na quarta-feira ele viajou para a cidade “Rustbelt” de Pittsburgh, o antigo centro industrial dos EUA, onde o nome cinturão de ferrugem é o programa dado a desindustrialização dos últimos 50 anos. Aqui, Biden apresentou seu pacote de infraestrutura. Após a adoção do pacote de ajuda contra a crise do coronavírus, deve ser o segundo projeto legislativo de Biden, que mantém sua tática anterior de transformar a política social moderadamente progressista em “questões de mesa” e não se concentrar na cultura de direita .

Um total de US$ 620 bilhões devem ser investidos na reparação de estradas e pontes. A infraestrutura do país também deve ser adequada para a crise climática. Além disso, cerca de 500.000 estações de recarga para carros elétricos serão instaladas no país até 2030, 50.000 ônibus a diesel para o transporte público local serão substituídos por elétricos e a frota de veículos do governo dos Estados Unidos será convertida em carros elétricos.

Mais de US$ 300 bilhões serão usados ​​para substituir canos de água antigos, expandir a Internet de banda larga e adaptar a rede elétrica do país para atender às demandas de eventos climáticos mais extremos. Com mais de 300 bilhões de dólares, antigos e novos “apartamentos a preços acessíveis” e edifícios sociais devem ser renovados e melhor isolados. O fato de Biden definir “infraestrutura” de forma muito ampla é demonstrado pelo fato de que a proposta atual também inclui mais de 400 bilhões de dólares para melhorar o atendimento aos idosos.

Porque, segundo a Casa Branca, tudo isso pode gerar milhões de empregos, o pacote é chamado de “Plano de Emprego Americano”. O pacote de infraestrutura também inclui US $ 580 bilhões para impulsionar a produção industrial no país e financiar pesquisas como o desenvolvimento de baterias e chips de computador, além de programas de treinamento profissionalizante para funcionários. Os detalhes do pacote serão negociados duramente nas próximas semanas – e os democratas também podem ter que recorrer a truques processuais por meio de regras orçamentárias para contornar o bloqueio republicano.

Para os republicanos no Congresso dos Estados Unidos, o pacote é uma “lista de desejos liberais” e um “cavalo de Tróia para impostos mais altos”.  Biden quer uma grande parte dos gastos não por meio de dívidas, mas por meio de aumentos moderados de impostos  para financiar esses projetos. O imposto corporativo, que foi reduzido por Donald Trump em 2017 de 35 para 21%, deve ser aumentado para 28%. Além disso, a Casa Branca quer defender um imposto mínimo de 21% para grandes empresas em nível global, a fim de evitar, tanto quanto possível, a competição para baixo entre os estados em impostos corporativos. Americanos ricos com uma renda anual de mais de 400.000 dólares deverão pagar mais no futuro. Os republicanos e a poderosa Câmara de Comércio dos Estados Unidos rejeitam isso. Lobistas empresariais já estão pressionando os parlamentares democratas a votarem contra os aumentos de impostos.

Mas Biden e os parlamentares democratas moderados também estão sob pressão da ala progressista do partido e de ONGs de esquerda, que organizaram mais de 100 eventos e anúncios na Internet em todo o país . A demanda: “Vá grande na recuperação” – Biden deve gastar mais dinheiro na renovação da infraestrutura.

O pacote de infraestrutura “não chega nem perto”, disse que o partido deixou Alexandria Ocasio-Cortez no Twitter. “O contexto importante é que a soma de 2250 bilhões de dólares americanos se estende por um período de dez anos”, disse Ocasio-Cortez. Décadas de subfinanciamento agora devem ser compensadas com mais dinheiro. Por outro lado, uma adaptação mais rápida e abrangente à crise climática é necessária para responder adequadamente à dimensão do problema.

Os democratas progressistas apresentaram, portanto, a » Agenda Prosperar «, uma contraproposta de um pacote de infraestrutura que permitirá que cerca de US $ 1.000 bilhões sejam gastos em uma década – mas a cada ano. Devem ser criados empregos bem pagos e sindicalizados na indústria de energia verde e na adaptação de edifícios a padrões de emissão mais rígidos, bem como investimentos em áreas particularmente afetadas pela crise climática, onde vivem principalmente pessoas de cor.

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Este artigo foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].