Quando a manchete esconde a notícia

Datafolha apurou que a maioria dos brasileiros critica Bolsonaro pela atuação na covid-19, opinião partilhada até por 35% dos eleitores bolsonaristas, mas a Folha deixou essas informações em segundo plano, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

bolsonaro tosseJair Bolsonaro tosse durante ato em favor do golpe militar, no dia 19 de abrilImagem: Foto: Sérgio Lima/AFP

Por Paulo Moreira Leite

Um dos ensinamentos básicos da comunicação é simples: a manchete vale mais que o título, o título vale mais do que o texto e às vezes a foto vale mais do tudo. Estamos falando de comunicação, é bom esclarecer.

Jornalismo é outra atividade. Muitas vezes, por incompetência ou alguma motivação obscura, a notícia — a informação mais importante — está na última linha do texto. Pode parar na nota de rodapé. Ou mesmo desaparecer.

Num momento dramático da vida do país, a manchete de hoje Folha de S. Paulo é uma demonstração definitiva de uma inversão dessas noções elementares do jornalismo — atividade cuja legitimidade reside na capacidade de oferecer informações fidedignas para orientar leitores e, através deles, a população de um país.

Como não era difícil imaginar, a pesquisa mais recente do Datafolha apurou que 52% dos brasileiros consideram que Bolsonaro teve um papel negativo no combate à pandemia. Alguns acreditam que ele é totalmente responsável. Outros, que é parcialmente responsável.

Em qualquer caso, 52% da população não tem receio receio de afirmar que Bolsonaro tem responsabilidades numa tragédia destinada a permanecer para sempre na memória do país.

A Folha também apurou que, para 47% dos entrevistados, Bolsonaro “não tem culpa nenhuma”. Um número respeitável, sem dúvida.

A notícia, no entanto, é que 52% apontam a responsabilidade de Bolsonaro no episódio, com ênfase maior ou menor. Estamos falando da opinião da maioria de brasileiros e brasileiras, um dado essencial para o país debater a pandemia, as responsabilidades e as providências que devem ser tomadas no próximo período.

O destaque a esse número permite valorizar a necessidade de correção de rumo e definir responsabilidades. Sob governos democráticos, as pesquisas de opinião podem funcionar como filtros que auxiliam na tomada de decisões com apoio da maioria.

A longo prazo, é óbvio que essa avaliação– e a forma pela qual foi retratada –terá um efeito sobre a conjuntura política, inclusive na campanha presidencial de 2022.

Não cabe, aqui, questionar a qualidade técnica do levantamento do Datafolha. O instituto tem reputação comprovada pelo trabalho. A questão é outra.

Ao colocar a opinião minoritária na manchete, repetindo o destaque nas páginas internas, os editores do jornal fizeram uma opção questionável, quando se recorda que vivemos numa sociedade dividida, com maiorias difíceis.

Também deram pouco destaque a um dado importante que o próprio Datafolha apurou: a crítica a atuação do presidente atinge uma dimensão tamanha que já envolve uma parte significativa do eleitorado que lhe deu o voto em 2018.

Perdido na página B1, um gráfico mostra que 30% dos eleitores de Bozolonaro no segundo turno de 2018 apontam o presidente como “um dos culpados” pela pandemia. No mesmo gráfico, descobre-se que 5% cravam na opção “principal culpado”. Conclusão: 35% dos brasileiros e brasileiras que voltaram em Bolsonaro têm uma visão negativa de seu papel na luta contra a covid-19.

Isso explica porque 52% tem uma visão negativa do papel de Bolsonaro. É fácil saber onde estava a notícia.

Alguma dúvida?

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo site “Brasil 247” [Aqui!].