Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades indígenas e camponesas no MS

Pesquisa aponta danos alimentares, doenças crônicas e falhas públicas em áreas indígenas e camponesas

Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades

Moradia localizada ao lado de lavoura. (Foto: Katiuscia Galhera) 

Por Inara Silva para “Campo Grande News” 

Um relatório inédito sobre os impactos dos agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas de Mato Grosso do Sul traz à tona um cenário de exposição contínua, invisibilidade institucional e mudanças forçadas no modo de vida tradicional. Intitulado “Impactos de agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas no MS”, o relatório foi produzido por pesquisadoras vinculadas à Fundação Oswaldo Cruz, à UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, articulando pesquisa acadêmica e organizações da sociedade civil.

Resultado de uma pesquisa realizada entre março e agosto de 2025, o estudo foi divulgado esta semana e reúne entrevistas, questionários, observações de campo e análise de dados públicos para compreender como o modelo agrícola baseado em monoculturas afeta populações que não utilizam esses produtos, mas vivem ao lado de quem os utiliza.

Entre as principais constatações, está o fato de que essas populações vivem dentro da chamada “zona de deriva” (fenômeno em que o produto aplicado nas lavouras é transportado pelo vento), atingindo casas, fontes de água, plantações de subsistência e até o interior das aldeias.

Cerca de 90% dos entrevistados afirmaram que suas áreas de agricultura para subsistência, muitas delas organizadas como quintais agroflorestais, são afetadas pela pulverização, o que reduz o desenvolvimento de cultivos agroecológicos e compromete a produção de alimentos tradicionais. O impacto direto, segundo o relatório, representa prejuízo à soberania alimentar dessas famílias.

Bananeiras com as folhas secas, provavelmente, impactadas pelo agrotóxico, segundo os moradores. (Foto: Katiuscia Galhera)

Pesquisa qualitativa

Segundo os autores, o estudo oferece uma compreensão inicial das experiências relacionadas à exposição aos agrotóxicos na região analisada. Por isso, adotou uma abordagem qualitativa, exploratória e com diversidade territorial dos participantes. A ideia é complementar pesquisas quantitativas já realizadas na região e documentar evidências concretas de exposição e seus efeitos no cotidiano das comunidades.

“O objetivo não é transformar pessoas em objetos de pesquisa, mas reconhecê-las como protagonistas. Elas participam da análise, ajudam a interpretar os dados e constroem o conhecimento conosco”, explica a doutora em Recursos Genéticos e Vegetais, Fernanda Savicki de Almeida, pesquisadora da Fiocruz Ceará.

A distribuição espacial envolveu populações da região central do Estado, como Campo Grande e Sidrolândia; do sul , em municípios como Dourados, Itaporã, Caarapó e Rio Brilhante; além da região sudoeste, com Ponta Porã e Amambai, e da região sudeste, em Ivinhema.

De forma geral, há uma cobertura de todo o Estado. Segundo Fernanda Savicki, como se trata de uma análise reflexiva, o resultado mostra uma tendência muito forte do que acontece em todo o Mato Grosso do Sul.

Entre os respondentes, 59% se identificaram como indígenas, 20,5% como negros (pretos ou pardos) e 20,5% como brancos. As mulheres representam 61,4% das pessoas ouvidas, homens 36,4% e 2,3% se identificam como travestis.


Localização das comunidades visitadas pelos pesquisadores (Foto: reprodução)

Territórios cercados

O trabalho concentrou-se em áreas indígenas como Laranjeira Yvyrapikuê, Guyra Kambi’y, Avaeté II, Guyraroka e Passo Piraju, hoje rodeadas por extensas plantações mecanizadas de soja, milho e, em menor escala, algodão e cana-de-açúcar.

Mesmo sem cultivar essas commodities, moradores relatam contato frequente com pulverizações realizadas nas propriedades vizinhas. Entre os sinais observados no campo estavam frutos deformados, folhas queimadas e o enfraquecimento de hortas tradicionais, elementos que os próprios moradores associam à exposição constante aos agrotóxicos.

Segundo a pesquisadora Katiuscia Galhera, o estudo identificou um descompasso entre a instrução normativa que regula a pulverização de agrotóxicos e a realidade observada em comunidades rurais e indígenas. Pela legislação, deve existir uma distância de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e 250 metros de moradias isoladas. Contudo, segundo a pesquisadora, as medições feitas in loco revelaram cenários em que as lavouras estavam a apenas 50 metros e, em alguns casos, até menos, das residências e áreas de convivência.

Entre os achados documentados estão:

  • cheiro intenso de veneno após pulverizações, inclusive perto de moradias;
    resíduos percebidos sobre plantas, solo e estruturas comunitárias;
  • insegurança quanto à qualidade da água consumida;
  • necessidade de interromper atividades cotidianas durante aplicações;
  • perda parcial de lavouras destinadas ao autoconsumo.
  • Ambiente contaminado, saúde afetada.

Imagem apresenta os sintomas relatados pelos respondentes (Foto: Reprodução)

A maioria dos entrevistados descreve contato frequente com produtos químicos:

  • 77,3% afirmam viver ou trabalhar em áreas diretamente expostas;
    63% relatam convivência com o problema há mais de um ano;
    86,4% dizem já ter passado por ao menos um episódio de intoxicação;

Segundo os pesquisadores, trata-se de um quadro de exposição subcrônica ou crônica, quando o contato ocorre repetidamente, mesmo em doses consideradas menores.

Os sintomas relatados coincidem com descrições da literatura científica: dor nos olhos (50%), náuseas e gosto ruim na boca (45,5%), dor de estômago (43,2%), diarreia (40,9%), secreções nasais (38,6%), fraqueza (36,4%), além de vômitos, tosse, espirros, febre e tontura. Há ainda registros de convulsões e sangramento nasal em menor proporção.

A principal via de intoxicação relatada é a respiratória (82,5%), seguida por contato com pele ou olhos (27,5%) e ingestão de alimentos contaminados (20%). A pulverização terrestre foi mencionada em 85% dos casos, além de aplicações por aeronaves ou drones (47,5%), poeira química (40%) e contaminação da água (32,5%).

Dados oficiais

Informações do Painel de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos indicam que, entre 2006 e 2024, foram registradas 4.192 notificações de intoxicação exógena por agrotóxicos no Estado, uma média de 20,25 casos por mês.

A residência aparece como principal local de ocorrência, com 2.788 registros, superando o ambiente de trabalho (909) e outros locais. O dado converge com a pesquisa de campo, na qual 77,3% afirmaram que casa e trabalho são o mesmo espaço de exposição.

Outro destaque é que, em Mato Grosso do Sul, os agrotóxicos de uso agrícola lideram as notificações (1.416 casos), diferentemente do cenário nacional, onde predominam intoxicações por raticidas.

Municípios com maiores índices de ocorrência coincidem com regiões de expansão agrícola, como o Cone Sul, caso de Laguna Caarapã e Caarapó, e áreas do norte e nordeste do Estado, onde predominam lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e eucalipto.

Lavoura ao lado de área indígena. (Foto: Katiuscia Galhera)

Relatos comunitários

Além dos episódios agudos, os entrevistados relataram doenças crônicas associadas aos sistemas circulatório, respiratório, hepático e renal, além de alergias, problemas dermatológicos, alterações hormonais, imunológicas e casos de câncer. O conjunto de dados sugere compatibilidade entre esses perfis de adoecimento e efeitos conhecidos da exposição prolongada a agrotóxicos.

Há também elevado número de relatos comunitários sobre nascimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista em contextos de uso intensivo de glifosato, além de recém-nascidos com cardiopatias congênitas.

Um estudo com prontuários de bebês internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal do Hospital Universitário da Grande Dourados mostrou que, entre 2019 e 2021, 55,31% dos 358 recém-nascidos examinados apresentaram diagnóstico de cardiopatia congênita. O relatório ressalta que não estabelece causalidade direta, mas aponta a coexistência desses agravos com a intensificação do uso de herbicidas na região.

Impactos no cotidiano

A contaminação e o avanço das lavouras também alteram práticas culturais, calendários agrícolas tradicionais e formas de ocupação do território. Os locais de exposição relatados incluem retomadas indígenas (36,4%), reservas ou aldeias (27,2%), assentamentos rurais (25%) e acampamentos.

O relatório classifica essa dinâmica como processo de injustiça ambiental, no qual populações que não se beneficiam economicamente do agronegócio concentram os riscos sanitários e territoriais da atividade.

Segundo a pesquisadora Fernanda Savick, a pressão ambiental inviabiliza práticas que sustentam a identidade dessas comunidades, como a produção de alimentos, a relação com a água, a transmissão de conhecimentos e a organização social.

“Estamos inviabilizando modos de vida que têm a ver com cultura, ambiente, educação e identidade. Isso vai além da questão ambiental, há também um processo simbólico. Por isso, podemos falar em injustiça, ou até de racismo ambiental,” destaca a pesquisadora ao afirmar que retirar ou fragilizar o vínculo dessas populações com o território significa comprometer sua própria sobrevivência.

“São violações de direitos em várias dimensões, não apenas no acesso à terra,” resume Savicki.

Pesquisadores flagram frutos deformados e folhas queimadas (Foto: Katiuscia Galhera)

Falhas institucionais

Apesar das evidências, os especialistas apontam lacunas no monitoramento, subnotificação de casos e ausência de políticas públicas estruturadas. Apenas parte dos atendimentos de saúde relacionados à exposição chega a ser registrada nos sistemas oficiais.

Para os autores, o problema vem sendo tratado como questão exclusivamente agrícola, quando envolve saúde pública, ordenamento territorial, direitos humanos e desenvolvimento regional.

Os pesquisadores destacam que a pesquisa não pretende apenas denunciar situações pontuais, mas qualificar o debate público com base em evidências construídas junto às populações afetadas.

“A ideia é transformar dados em reflexão e reflexão em políticas concretas”, afirma Savicki.

Recomendações – Entre as medidas consideradas urgentes, o estudo propõe:

  • criação de zonas de amortecimento entre lavouras e comunidades;
  • fortalecimento da vigilância em saúde no SUS (Sistema Único de Saúde);
  • monitoramento permanente de água, solo e ar;
  • restrição da pulverização aérea próxima a moradias;
  • instalação de laboratório público para análise de resíduos;
  • participação das comunidades nas decisões territoriais;
  • incentivo a modelos produtivos menos dependentes de insumos químicos

Fonte: Campo Grande News

Agrotóxicos afetam mais de 17 mil famílias no Brasil: saiba como denunciar as intoxicações

Canais oficiais vão do SUS ao sistema judicial, mas mobilização popular ainda tem papel essencial no cenário

Trator é usado na pulverização de agrotóxicos em lavoura no município de Belterra, região metropolitana de Santarém – João Romano 

Por Nara Lacerda para o “Brasil de Fato”

Nos últimos anos, a utilização de agrotóxicos como armas químicas vem sendo observada como um elemento que, cada vez mais, potencializa os conflitos no campo brasileiro. Segundo o mais recente relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre conflitos no campo, no ano passado mais de 17 mil famílias sofreram com intoxicações.

Embora existam mecanismos de denúncia desse tipo de crime, a subnotificação e a impunidade são realidades constantes. Do Sistema Único de Saúde (SUS) aos tribunais, a população ainda tem dificuldade de acesso e acolhimento, pontos que exigem preparo da máquina pública.

Em conversa com o Brasil de Fato durante a 5ª Feira Nacional da Reforma Agrária, que acontece até domingo (11), em São Paulo (SP), Alan Tygel, da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos, afirma que a construção desse suporte também demanda resistência e envolvimento da de movimentos populares e da sociedade civil. “É uma realidade que vamos precisar construir. Parte da nossa luta é manter essa mobilização e fazer essas denúncias chegarem, fazer essa pressão.”

Um dos primeiros passos possíveis para buscar ajuda em caso de intoxicação é procurar o SUS. No atendimento nas unidades de saúde, pacientes têm direito de registrar a situação com o preenchimento de uma ficha de notificação de intoxicação exógena. O documento deve ser disponibilizado mesmo em caso de suspeita.

Nele devem constar dados considerados essenciais, como o tipo de trabalho realizado pela pessoa intoxicada, data, hora e local da ocorrência. Além disso, deve conter informações sobre as substâncias envolvidas e do que é produzido na região onde o problema aconteceu.

Essa notificação é obrigatoriamente repassada ao Ministério da Saúde, por meio do Sistema Nacional de Agravos de Notificação Compulsória (Sinan), que tem o dever de investigar o ocorrido.

Outro caminho possível e importante é a denúncia judicial. Ela pode ser feita para o Ministério Público, para a polícia ambiental ou nas delegacias da polícia civil, com um boletim de ocorrência. É fundamental que o fato seja documentado de forma consistente e evidências como fotos e vídeos, quando possível, são muito importantes.

“Uma das ações que temos tentado fazer é justamente trazer à tona essa realidade, que já existe no Brasil há muito tempo, mas é uma realidade escondida, que fica nos subterrâneos. Uma das nossas tarefas é orientar a população para que essas denúncias sejam construídas de forma consistente” ressalta Tygel.

Para facilitar o processo e orientar a população, a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos também oferece recursos online. No site da organização é possível acessar um passo a passo sobre como denunciar. O botão para chegar ao guia está em destaque na página principal.

Problema do mundo

Iniciativas populares de luta também desempenham um papel essencial de fortalecimento das denúncias contra os agrotóxicos. Um exemplo de força vem da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), que desde 2021 sentiu a necessidade de atuar de maneira mais prática para auxiliar a população do estado nesse processo.

Linalva Cunha, que integra o movimento, também conversou com o BdF sobre o tema. No depoimento emocionante, ela falou sobre a situação dramática que ampliou a ação da Rama. “Em 2021, a comunidade Araçá do município de Buriti recebeu veneno por conta de uma plantação ao lado do território. Vimos ali a imagem de uma criança atingida diretamente, com o corpo ferido e a pele que derretia por causa do veneno.”

Diante do caso, segundo ela, a necessidade de abrir novas frentes no trabalho da rede em torno do combate aos venenos agrícolas se tornou urgente, “nós entendemos que não dava para só ouvir e falar sobre a importância da agroecologia. Sabíamos que era preciso combater outras outras temáticas que agridem a perpetuação dos povos, uma delas é o agrotóxico”.

A partir de então, a rede passou a discutir instrumentos e formas de levar o debate aos territórios e, ao mesmo tempo, fazer levantamentos in loco, com ajuda das comunidades. Hoje, a Rama atua na formação e informação para denúncias, em parcerias para estudos e pesquisas sobre qualidade da terra e da água e articulações políticas nacionais e internacionais, inclusive na luta por legislação sobre o tema.

“Nós queremos que o Nordeste, o Sul, o Sudeste, o Brasil compreendam que a luta contra os agrotóxicos é um problema do mundo. A crise climática e todas essas questões que temos enfrentado mexem com a nossa capacidade de produzir e se reproduzir no chão que pisamos.”

Alan Tygel e Linalva Cunha conversaram com o BdF diretamente da 5ª Feira da Reforma Agrária do MST. O evento ocorre no Parque da Água Branca, na capital paulista, até o próximo domingo (11). Ouça a entrevista completa no tocador de áudio abaixo do título desta matéria.

Editado por: Nicolau Soares


Fonte: Brasil de Fato

Com contaminação em alta no Brasil, envenenamento por agrotóxicos mata 300 mil por ano no mundo

Trabalhadores rurais são os mais expostos; saiba como identificar intoxicação e o que fazer

agrotóxicos matam bfMovimentos populares protestam contra o PL do Veneno, que flexibilizou o processo de liberação e fiscalização de agrotóxicos no Brasil – Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Por Redação Brasil de Fato 

O Brasil ocupa o posto de maior consumidor de agrotóxicos do mundo, com 720 mil toneladas anuais, de acordo com os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Esses produtos, amplamente utilizados pelo agronegócio, são apontados como responsáveis por 300 mil mortes anuais em decorrência de envenenamentos, conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Em território nacional, o problema é crescente. Os números relacionados à contaminação por agrotóxicos no primeiro semestre do ano saltaram de 19 para 182, o que representou um aumento de mais de 950% em relação ao mesmo período em 2023. O dado foi divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) nesta semana, no marco do Dia Mundial de Luta Contra os Agrotóxicos.

No Brasil, cerca de 19 milhões de pessoas estavam empregadas no setor em 2022, muitas delas expostas a intoxicações graves que impactam o sistema nervoso, respiratório e reprodutivo.

Dados do “Atlas dos Agrotóxicos”, da Fundação Heinrich Böll, revelam que, globalmente, cerca de 385 milhões de pessoas sofrem intoxicação por esses produtos a cada ano, sendo os trabalhadores rurais de países em desenvolvimento os mais vulneráveis. Entre as doenças associadas à exposição contínua estão Parkinson, leucemia infantil, câncer de fígado e mama, além de condições como diabetes tipo 2, asma, defeitos congênitos e distúrbios de crescimento.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) destaca o uso no Brasil de mais de 20 agrotóxicos proibidos em outros países, como atrazina e clorpirifós, já banidos na União Europeia. Essa prática aumenta os riscos para os trabalhadores e reforça a dependência de insumos químicos no modelo agrícola nacional.

A OIT também alerta para o impacto das mudanças climáticas na exposição aos agrotóxicos. O calor extremo, comum em regiões agrícolas, facilita a absorção dessas substâncias pela pele, intensificando os efeitos tóxicos. Embora os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) sejam obrigatórios por lei, seu uso pode ser inviável devido às condições climáticas e às longas jornadas de trabalho no campo.

Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) arca com custos estimados em R$ 45 milhões por ano para tratar casos de intoxicação, segundo a Fundação Heinrich Böll.

Flexibilização de leis sobre agrotóxicos eleva riscos à saúde e ao meio ambiente

Em maio deste ano, o Congresso Nacional derrubou vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à lei que flexibilizou o registro de agrotóxicos, transferindo a responsabilidade principal para o Ministério da Agricultura e enfraquecendo órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Conhecida como PL do Veneno, a nova legislação é criticada por instituições científicas e ambientais, que alertam para o aumento do uso de substâncias tóxicas no Brasil.

Pesquisadores da Fiocruz apontaram, à época, que a lei possibilita a liberação de produtos altamente cancerígenos, desconsiderando os impactos na saúde pública e no meio ambiente.

“Entidades de renome internacional e notório saber científico como a Fiocruz, o Inca [Instituto Nacional de Câncer], a Abrasco [Associação Brasileira de Saúde Coletiva] e a ONU [Organização das Nações Unidas] destacaram que o PL vai permitir o registro de produtos mais tóxicos no país, incluindo aqueles com maior potencial cancerígeno. A ciência está errada e o agro está certo?”, escreveram os pesquisadores da Fiocruz, em nota.

Como identificar intoxicação por agrotóxicos

A Anvisa, por meio da cartilha Série Trilhas do Campo, lista sintomas de intoxicação por contato com a pele, ingestão ou inalação de agrotóxicos. Entre os sinais estão:

Pela pele:

  • Irritação (vermelhidão, inchaço, dor);
  • Brotoejas com coceira;
  • Desidratação (pele seca, escamosa e, em casos graves, infeccionada).

Por inalação:

  • Tosse, dificuldade de respirar, dor no peito;
  • Ardência no nariz e na boca.

Por ingestão:

  • Náuseas, vômitos, diarreia;
  • Irritação na boca e garganta.

Efeitos prolongados incluem tremores, fraqueza, abortos e depressão.

O que fazer em caso de suspeita

Ao perceber sintomas, procure imediatamente postos de saúde, hospitais ou Centros de Referência em Saúde do Trabalhador. O serviço Disque Intoxicação (0800-722-6001) também está disponível para orientações gratuitas. Atendimentos são realizados por 36 unidades da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat), distribuídas pelo país.

A redução dos danos causados pelos agrotóxicos depende de um esforço coletivo, que inclui fiscalização rigorosa, ampliação das políticas públicas e o fortalecimento de alternativas como a agroecologia. Somente assim será possível garantir condições mais justas e seguras para os trabalhadores rurais.

Edição: Martina Medina


Fonte: Brasil de Fato

Seis em dez casos de intoxicação por agrotóxicos no RS acontecem em casa

agrotóxicosFOTO: IBADAH MIMPI / UNSPLASH

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Pesquisadoras da Escola de Saúde Pública e do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, em Porto Alegre, ao analisar 3.122 casos suspeitos de intoxicação  por agrotóxicos notificados no Rio Grande do Sul entre 2011 e 2018, mostram que o cenário mais comum de contaminação acontece de forma acidental, em 40% dos casos, e na própria residência do trabalhador, em 59% dos casos. Seis em cada dez casos notificados estão relacionados à produção agrícola do estado. O estudo foi publicado em 7 de dezembro na revista “Epidemiologia e Serviços de Saúde”

Na maioria dos casos, as notificações foram de homens (63,7%), brancos (86,9%) com baixo nível de escolaridade. Apenas 4,3% haviam cursado ou completado o ensino superior. Embora a faixa etária mais atingida tenha sido de 20 a 29 anos (20,3%), a maioria (60,6%) das intoxicações suspeitas foi notificada a partir dos 30 anos. Em 82% dos casos, a intoxicação foi do tipo aguda, quando há apenas um evento de exposição do indivíduo à substância tóxica em 24 horas. O diagnóstico da intoxicação foi feito por meio de avaliação clínica em 61% dos casos notificados.

O fato de quase seis entre dez notificações terem ocorrido por contato na própria residência, superando o ambiente de trabalho (33,7), não surpreendeu as autoras. “Esse dado levanta as hipóteses da existência de problemas no armazenamento e de descumprimento da distância mínima recomendada entre a lavoura e a casa. Além disso, no ambiente domiciliar se utilizam também inseticidas, raticidas e produtos destinados ao tratamento de piolhos e outros parasitas, aumentando ainda mais o risco de intoxicação”, observa a sanitarista da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, Amanda Brito de Freitas, que assina a autoria do estudo ao lado da sanitarista Vanda Garibotti. 

Como evitar intoxicações 

A contaminação acidental (40%) foi o principal motivo de intoxicação. Mais do que isso, registrou o dobro da contaminação por uso habitual (20%) e supera também o uso ambiental e tentativa de suicídio. As principais motivações associadas com esses acidentes são o armazenamento em local de fácil acesso, manejo inadequado destas substâncias (incluindo também a reutilização das embalagens) e falta de equipamento de proteção individual (EPI). 

A orientação técnica e a fiscalização nestes casos são fundamentais para evitar os riscos à segurança e à saúde dos trabalhadores rurais. Na agricultura, explica Amanda Freitas, o objetivo do uso do EPI é evitar os riscos químicos que podem levar às intoxicações de forma aguda e crônica, em decorrência da utilização de agrotóxicos. As atividades de pulverização (42%) e diluição (18%) foram as de maior exposição ao agrotóxico. 

“É importante que o empregador proporcione capacitação aos trabalhadores com orientação quanto ao risco à saúde inerente à utilização desses produtos, quanto aos locais adequados de armazenamento e forma correta de manuseio e aplicação, de acordo com os rótulos e as bulas do fabricante; assim como o uso correto da vestimenta adequada incluindo: calças e camisas compridas, que cubram toda a pele, botas, luvas, avental, óculos de segurança ou viseira de proteção, chapéu ou capuz com máscara. Além disso, é importante orientar também sobre as recomendações quanto à manutenção, lavagem, descarte e armazenamento destes EPIs”, detalha.

As autoras vislumbram que o estudo seja utilizado como subsídio para o planejamento das ações da vigilância em saúde e políticas públicas para a proteção da saúde da população. Ela também concluem que é necessário avançar na identificação dos casos de intoxicação por meio do desenvolvimento de novos métodos diagnósticos a partir de biomarcadores e melhor qualidade da coleta de dados. 

fecho

Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].