Cientistas cobram de líderes mundiais enfrentamento conjunto de mudança climática e perda de biodiversidade

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O Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES) e o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC )lançaram hoje (10/06) o relatório do workshop sobre biodiversidade e mudança climática. O workshop foi realizado em dezembro de 2020, em formato virtual, durante quatro dias e reuniu 50 dos principais especialistas mundiais em biodiversidade e clima, selecionados por um Comitê Científico Diretor de 12 pessoas criado pelos dois órgãos intergovernamentais.

A primeira colaboração desse tipo apela aos líderes para enfrentarem de maneira conjunta a mudança climática e a perda da biodiversidade, oferecendo caminhos para resolver essas crises inter-relacionadas.

O relatório, criado pelos 50 dos maiores especialistas mundiais em biodiversidade e clima , conclui que as políticas anteriores enfrentaram a perda de biodiversidade e a mudança climática de forma independente uma da outra. O documento argumenta que abordar as sinergias entre mitigar a perda da biodiversidade e a mudança climática, ao mesmo tempo em que considera seus impactos sociais, oferece a oportunidade de maximizar os benefícios e atingir as metas de desenvolvimento global.

A natureza oferece maneiras eficazes de ajudar a mitigar a mudança climática, mas estas soluções só podem ser eficazes se forem construídas com base em reduções ambiciosas em todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem. Uma agenda integrada de mudanças climáticas e biodiversidade, diz o relatório, não deixaria nenhuma pessoa ou ecossistema para trás.

As recomendações do relatório do workshop incluem:
• Parar a perda e degradação de ecossistemas ricos em carbono e espécies em terra e no oceano;

• Restauração de ecossistemas ricos em carbono e espécies;

• Aumentar as práticas agrícolas e florestais sustentáveis;

• Eliminação de subsídios que apóiam atividades locais e nacionais prejudiciais à biodiversidade;

• Orientar melhor as ações de conservação, coordenadas com e apoiadas por uma forte adaptação e inovação climática;

• Assegurar que os programas e políticas de conservação sejam multifuncionais, abordando as paisagens de terra, água doce e oceano em vez de se concentrar apenas em alguns elementos da natureza. Essas iniciativas também precisam beneficiar as comunidades locais;

• Quando soluções baseadas na natureza são utilizadas como compensações de carbono, elas são mais eficazes quando sujeitas a condicionantes rigorosos, e não devem ser utilizadas para retardar ações de mitigação em outros setores. Isto é particularmente importante dado que as soluções baseadas na natureza são provavelmente menos eficazes sob a crescente mudança climática e seus impactos.

Os autores também afirmam que as seguintes medidas de mitigação e adaptação climática seriam prejudiciais à biodiversidade:
• Plantio de monoculturas bioenergéticas sobre grandes extensões de terra;

• Plantio de árvores em ecossistemas que historicamente não foram florestas e reflorestamento com monoculturas – especialmente com espécies de árvores exóticas;

• Aumentar a capacidade de irrigação para a agricultura em resposta às pressões da seca;

• Alertam ainda: quaisquer medidas que se concentrem muito na mitigação da mudança climática devem ser avaliadas em termos de seus benefícios e riscos gerais.

Algumas das principais estatísticas são:
• 77% das terras (excluindo a Antártica) e 87% da área do oceano foram modificadas pelos efeitos diretos das atividades humanas;

• Estimativas globais das necessidades exatas de áreas efetivamente protegidas e conservadas para garantir um clima habitável, biodiversidade autossustentável e uma boa qualidade de vida ainda não estão bem estabelecidas, mas variam de 30% a 50% das áreas de superfície oceânica e terrestre.

• Há 12.983 compensações de biodiversidade listadas implementadas em 37 países, porém apenas um terço das compensações de biodiversidade atende comprovadamente ao princípio de “nenhuma perda líquida” (NNL).

• Globalmente, foi estimado que o sistema alimentar é responsável por 21-37% do total das emissões líquidas antropogênicas de gases de efeito estufa ao incluir as atividades de pré e pós-produção.

• Manter ou restaurar 20% do habitat nativo em “paisagens habitadas/alteradas pelo homem pode contribuir para as metas globais de clima e biodiversidade, ao mesmo tempo em que gera múltiplos benefícios, através de soluções baseadas na natureza e outras abordagens baseadas em ecossistemas.

Os autores do relatório ressaltam que, embora a natureza ofereça formas eficazes de ajudar a mitigar a mudança climática, essas soluções só podem ser eficazes se forem baseadas em reduções ambiciosas em todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem.

Ana María Hernández Salgar, presidente do IPBES, diz: “A terra e o oceano já estão fazendo muito – absorvendo quase 50% do CO2 das emissões humanas -, mas a natureza não pode fazer tudo. Uma mudança transformadora em todas as partes da sociedade e de nossa economia é necessária para estabilizar nosso clima, deter a perda da biodiversidade e traçar um caminho para o futuro sustentável que desejamos. Isto também exigirá que enfrentemos ambas as crises em conjunto, de formas complementares”.

Hans-OttoPörtner, co-presidente do Comitê Científico Diretor, diz: “A evidência é clara: um futuro global sustentável para as pessoas e para a natureza ainda é alcançável, mas requer uma mudança transformadora com ações rápidas e de longo alcance de um tipo nunca antes tentado, com base em reduções ambiciosas de emissões. A solução de alguns dos fortes e aparentemente inevitáveis compromissos entre clima e biodiversidade implicará uma profunda mudança coletiva de valores individuais e compartilhados relativos à natureza – como o afastamento da concepção de progresso econômico baseado unicamente no crescimento do PIB, para um que equilibre o desenvolvimento humano com múltiplos valores da natureza para uma boa qualidade de vida, sem ultrapassar os limites biofísicos e sociais”.

Especialistas não envolvidos no relatório reagiram dizendo:
Lucy Almond, Presidente da Nature4Climate: “Este relatório conjunto é um acréscimo bem-vindo à pesquisa que mostra que não podemos resolver a crise climática sem investir na natureza. Precisamos de uma ação política que reconheça que, para atingir os objetivos do Acordo de Paris, precisamos tanto de uma transição energética quanto de um investimento muito maior em soluções baseadas na natureza. Qualquer recuperação econômica deve ser à prova de futuro também para a natureza. Não podemos mais agir em nichos; investir na natureza é investir no clima e na prosperidade econômica.”

Beatriz Luraschi – Diretora de Políticas – Política Global – RSPB: “O Relatório do Workshop IPBES-IPCC reafirma o que já sabemos: que sem proteger e restaurar a natureza, não podemos enfrentar a mudança climática. Não há espaço para complacência – o relatório faz importantes advertências sobre “soluções climáticas” mal concebidas que minam diretamente a natureza, tais como o uso de bioenergia em larga escala. Sabemos que precisamos proteger, restaurar, criar ecossistemas naturais e gerenciar melhor as terras agrícolas, a fim de reduzir as emissões e proteger a vida selvagem. Os líderes globais, que se reunirão para a Cúpula do G7 na Cornualha neste fim de semana, devem estar atentos à ciência para lidar com as emergências da natureza e do clima.”

Brian O’Donnell, Campanha pela Natureza: “A era do enfrentamento isolado das crises da natureza e do clima deve chegar ao fim. Os principais cientistas mundiais da natureza e do clima nos mostraram um caminho a seguir onde priorizamos ações climáticas que beneficiem a natureza. Se os líderes mundiais concordarem em proteger pelo menos 30% das terras e oceanos do planeta e garantir os direitos de posse da terra dos povos indígenas e comunidades locais, podemos fazer um enorme progresso para o clima e a natureza.”

Dr. Enric Sala, National Geographic Explorer in Residence, Diretor Executivo da Pristine Seas, autor de “The Nature of Nature: Por que precisamos da natureza selvagem”: “Não podemos pensar no aquecimento global e na perda da natureza como crises diferentes. Elas são uma e a mesma coisa. A causa de nossa crise global é nosso abuso de nosso sistema de suporte de vida, nossa crescente destruição e poluição do mundo natural em prol de um crescimento econômico sem restrições. Este importante relatório nos lembra que as principais soluções incluem proteger pelo menos 30% do planeta até 2030, mudar a maneira como produzimos alimentos e reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa a quase zero até 2050.”

Dr. Simon Zadek – Presidente de Finanças para a Biodiversidade: “Cada dólar, emprego e produto na economia global de 80 trilhões de dólares depende da natureza. E ainda assim, embora as instituições financeiras tenham reconhecido cada vez mais o clima como um importante motor de riscos e oportunidades, a natureza ainda é largamente ignorada. O relatório científico do IPCC e do IPBES fornece mais evidências de que esta negligência representa um perigo existencial e reforça a necessidade de aumentar a ambição e acelerar o progresso de iniciativas como a Task Force sobre Divulgação Financeira Relacionada à Natureza.”

Dra. Pamela McElwee, professora associada do Departamento de Ecologia Humana da Rutgers: “O relatório do Workshop do IPCC-IPBES chega quando os líderes do G7 se reúnem para discutir – entre outras questões vitais – a necessidade de maior financiamento climático. 50 importantes especialistas afirmaram que as medidas que tomamos para deter a mudança climática também devem ter como objetivo deter a perda da biodiversidade. Há um risco real de financiar as chamadas soluções climáticas que podem exacerbar a crise da biodiversidade, como o reflorestamento rápido e em larga escala sem a proteção da biodiversidade. Os países precisam cumprir suas promessas climáticas para reduzir rapidamente as emissões de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, melhorar a gestão e a conservação de nossas preciosas terras e oceanos. O fato de muitos dos pacotes de recuperação econômica pós-COVID no G7 e em outros lugares não apenas não conseguirem enfrentar a enormidade da crise climática, mas que praticamente ignoram a biodiversidade, mostra que este problema continua difícil de ser superado”.

Você pode encontrar mais informações e o relatório completo aqui 

Brasil terá que refazer suas metas no Acordo de Paris antes da COP26

ONU pede revisão de planos climáticos ruins; Brasil ficou fora de Cúpula em 2020 por submeter objetivos que reduzem esforço do país contra aquecimento global

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Um relatório da ONU divulgado hoje (26/02) afirma que as metas atuais dos principais poluidores combinadas não chegam nem perto de mitigar as mudanças climáticas. Segundo o documento, as propostas atuais dos países que representam 30% das emissões de gases de efeito estufa conseguirão reduzir em apenas 1% as emissões até 2030 em relação aos níveis de 2010. Para garantir que o aquecimento global fique abaixo de 2ºC, esse percentual deveria ser de 25%, sendo 45% para a meta de 1,5ºC, segundo cálculos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), maior autoridade científica sobre o assunto.

O relatório Síntese Inicial NDC foi solicitado pelas Partes do Acordo de Paris para medir o progresso dos planos nacionais de ação climática – Contribuições Nacionais Determinadas, conhecidos pela sigla NDC – antes da COP26 em novembro deste ano, que será realizada em Glasgow, na Escócia.

No ano passado, o Brasil ficou de fora da Cúpula de Ambição Climática da ONU exatamente porque os organizadores do evento não consideraram suficientes as metas climáticas divulgadas quatro dias antes do encontro pelo Ministério do Meio Ambiente. O Brasil é o 6º maior emissor do mundo, e a destruição das florestas responde pelo maior volume de emissões.

“No momento, é como se estivéssemos entrando em um campo minado de olhos vendados”, definiu Patrícia Espinosa, secretária executiva de Mudança Climática da ONU. Ela encorajou todas as nações a investigar outras áreas a fim de criar planos mais robustos. “O que precisamos é muito mais radical e transformador do que o que temos agora. Precisamos de planos concretos para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis o mais rápido possível”.

“O relatório provisório de hoje é um alerta vermelho para nosso planeta”, lamenta o secretário geral das Nações Unidas Antonio Guterres. “Os principais emissores devem apresentar metas muito mais ambiciosas de redução de emissões para 2030 em suas Contribuições Nacionais Determinadas bem antes da Conferência Climática da ONU em Glasgow, em novembro. Agora é a hora.”

Laurence Tubiana, CEO da Fundação Europeia do Clima e uma das idealizadoras do Acordo de Paris afirma que os países do G20 deveriam liderar o processo de mitigação das mudanças climáticas. “Os governos que entregaram planos pouco ambiciosos devem — como sugere a ONU — reconsiderar e reapresentar os planos até a COP26”.

Entre pesquisadores e ambientalistas, os resultados do relatório geraram comoção. “É espantoso como os países estão longe de lidar com a crise climática”, afirma Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa, um think tank com sede no Quênia que estuda a transição energética no continente africano. “Alguns países fizeram bem em atualizar suas promessas do Acordo de Paris, mas muitos outros, como Brasil, Japão, Austrália, México e até mesmo a Nova Zelândia não fizeram nada, vergonhosamente. Este estado de coisas não pode continuar.”

Para Niklas Höhne, fundador do NewClimate Institute, organização especializada em políticas climáticas, o maior impacto positivo vem da União Europeia, seguida do Reino Unido e da Argentina. “Mas dez países apresentaram NDCs revisadas sem nenhuma melhoria na ambição ou mesmo retrocedendo: Austrália, Brasil, Japão, México, Nova Zelândia, Singapura, Coreia do Sul, Suíça e Vietnã”, destaca o pesquisador. Ele ressalta que dessa lista, ao menos o Japão já reconheceu a pouca ambição da meta submetida em 2020 e se comprometeu a melhorá-la este ano.

“O Brasil apresentou uma NDC que efetivamente enfraquece suas já insuficientes metas de ação climática para 2025 e 2030”, avalia Höhne. “Como resultado, as emissões do Brasil em 2030 sob a nova meta poderiam ser 27% maiores do que eram quando ratificou o Acordo de Paris em 2016.” Ele lembra que um recuo nas metas de redução de emissões desobedece a exigência do Acordo de Paris de que cada nova NDC seja mais ambiciosa que a anterior.

Esperança

Os resultados do relatório aumentam ainda mais as expectativas em relação a uma postura mais ambiciosa este ano por parte dos dois grandes poluidores do planeta: EUA e China.

“Espero que os EUA e a China possam igualar a União Europeia na entrega de estratégias que nos coloquem no caminho do zero líquido”, afirma Tubiana, que também é embaixadora da França para a Mudança Climática.

A diretora executiva do Greenpeace Internacional, Jennifer Morgan, também joga os holofotes sobre os dois países. “Estamos chamando os maiores emissores do mundo, os Estados Unidos e a China, para entregar NDCs no próximo mês que nos dêem motivos de esperança”, afirma. Ela ainda vê a possibilidade de países que estão indo no caminho contrário voltarem a cooperar pelo clima.

“A Austrália e o Brasil, arrasados por queimadas agravadas pela emergência climática, devem, respectivamente, controlar os interesses dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, enquanto trabalham para criar um futuro justo e seguro para seus cidadãos e proteger a preciosa biodiversidade”, disse a ambientalista.

 
“Com planos climáticos lamentavelmente fracos, grandes emissores como Japão, Austrália e Brasil estão pesando sobre a ambição global, quando na verdade deveriam estar liderando”, afirma Tasneem Essop, diretor executivo da Climate Action Network. Para ele, anúncios de metas líquidas zero em 2050 não podem ser o único sinal de ambição climática. “Os EUA e a China – que ainda vão apresentar suas NDCs – devem fazê-lo o mais rápido possível. É imperativo que os Estados Unidos forneçam sua parte justa, tanto sobre a redução de emissões, como em relação às finanças.”

O relatório está disponível  [Aqui!]

Pesquisadores dinamarqueses alertam que a elevação do nível do mar poderá ser pior do que se temia

A equipe dinamarquesa prevê um possível aumento de 1,35 m até 2100 e destaca problemas com a modelagem anterior

Uma menina e uma mulher caminham pela água no porto de Kali Adem, ao norte de Jacarta, na IndonésiaUma mulher e uma criança caminham pela água no porto de Kali Adem, ao norte de Jacarta, onde os efeitos da elevação do nível do mar já são sentidos. Fotografia: Willy Kurniawan / Reuters

Por Karen McVeigh para o “The Guardian”

A elevação do nível do mar provavelmente será mais rápida e maior do que se pensava, de acordo com pesquisadores que afirmam que as previsões recentes são inconsistentes com os dados históricos.

Em sua avaliação mais recente, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas disse que o nível do mar dificilmente aumentará além de 1,1 metro (3,6 pés) até 2100 .

Mas pesquisadores do clima do Instituto Niels Bohr da Universidade de Copenhague acreditam que os níveis podem aumentar até 1,35 metros até 2100, no pior cenário de aquecimento. Quando eles usaram dados históricos sobre a elevação do nível do mar para validar vários modelos nos quais o IPCC fez sua avaliação, eles encontraram uma discrepância de cerca de 25 cm, eles disseram em um artigo publicado na revista Ocean Science .

Os pesquisadores disseram que os modelos usados ​​pelo IPCC não eram sensíveis o suficiente, com base no que eles descreveram como um teste de “verificação da realidade”.

“Não é uma boa notícia acreditarmos que as previsões anteriores são muito baixas”, disse o cientista da mudança climática, Aslak Grinsted, coautor e professor associado do Instituto Niels Bohr.

“Os modelos usados ​​para basear as previsões do aumento do nível do mar no momento não são sensíveis o suficiente”, disse ele. “Para ser mais claro, eles não atingem o alvo quando os comparamos com a taxa de aumento do nível do mar que vemos quando comparamos cenários futuros com observações voltando no tempo.”

No entanto, ele esperava que seu método de teste pudesse ser usado para restringir os modelos, torná-los mais confiáveis ​​e reduzir a incerteza. Ele disse que o artigo foi enviado aos cientistas do nível do mar do IPCC.

As previsões de aumento usadas pelo IPCC são baseadas em um “quebra-cabeça” de modelos para mantos de gelo, geleiras e expansão térmica ou aquecimento do mar. Quanto mais a temperatura subir, mais alto será o nível do mar.

Mas, disse Grinsted, às vezes apenas uma quantidade limitada de dados estava disponível para os modelos serem testados. Praticamente não havia dados sobre a taxa de derretimento da Antártica antes das observações de satélite na década de 1990, disse ele. Grinsted descobriu que, embora os dados individuais, quando testados para trás no tempo, de 1850 a 2017, refletissem o aumento real do nível do mar, quando os dados foram combinados as previsões eram muito conservadoras.

“Temos melhores dados históricos para o aumento do nível do mar no total, o que, em princípio, permite um teste do quebra-cabeça combinado de modelos”, disse Grinsted.

A equipe de pesquisa do Instituto Niels Bohr espera que seu método para validar cenários futuros olhando para o passado possa ganhar uma base em como a elevação do nível do mar será analisada.

Jens Hesselbjerg Christensen, professor da seção de gelo, clima e geofísica do Instituto e coautor do artigo, disse: “Esperamos que essa nova métrica de comparação seja adotada e possa se tornar uma ferramenta que possamos aplicar na comparação de modelos diferentes”.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian”  [Aqui!].

O antiambientalismo sob pressão

Por  Helena Margarido Moreira*

 
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São Paulo, 14 de dezembro de 2020 – A cada novo mês, nos deparamos com quebras de recordes nos desmatamentos e queimadas de nossa vegetação nativa. Até o dia 22 de outubro, o número de queimadas na Amazônia já havia superado os registros do ano de 2019, quando a média mensal de áreas que receberam alertas de desmatamentos pelo Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real) foi de 1.189 Km2, enquanto que entre 2015 e 2018 foi de 576 Km2.

Os focos de calor no mês de outubro de 2020 já foram 73% superiores ao do mês de setembro e também é superior a anos anteriores. Esta espiral do fogo e do desmatamento, porque os dois estão diretamente relacionados, vem consumindo a biodiversidade brasileira e ameaçando a sobrevivência das comunidades indígenas. Também, mudanças no uso do solo e o agronegócio são os principais vetores de emissão dos gases de efeito estufa (GEE), que intensificam o aquecimento global, o que coloca o Brasil como o sétimo maior emissor do mundo.  

Os últimos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) já apontavam que riscos associados ao clima para os sistemas natural e humano são maiores para o aquecimento global de 1,5°C que para o atual (que já está em torno de 1℃), mas ainda menores que para 2°C. Esses riscos dependem da magnitude e ritmo do aquecimento, localização geográfica, níveis de desenvolvimento e vulnerabilidade, de escolhas e da implementação de políticas de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação das emissões de GEE. A cada aumento de temperatura, aumentam também os riscos associados ao clima para a saúde, para os meios de subsistência, para a manutenção da biodiversidade, para a segurança alimentar, o abastecimento de água e para o crescimento econômico. Estes efeitos são sentidos de forma ainda mais severa pela população de baixa renda, intensificando as desigualdades socioeconômicas entre os indivíduos.

A este cenário desafiador, se soma uma pressão cada vez maior da comunidade internacional, que será liderada a partir de janeiro de 2020 pelo presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e sua agenda prioritária de combate à crise climática. A pressão, portanto, para que o Brasil garanta o cumprimento de nosso aparato de proteção ambiental e se empenhe não só a cumprir as metas do Acordo de Paris, mas renová-las com mais ousadia, aumenta bastante com o início do governo Biden-Harris nos EUA. Neste contexto, o Brasil deve, junto aos demais países signatários do Acordo de Paris, submeter até o final deste ano metas e planos de ação mais ousados que permitam que o aumento da temperatura global da Terra se limite à 2℃ (o que já traz consequências bastante graves).

Naomi Klein afirma que o negacionismo climático não será mais voltado à negação da ciência do clima, mas sim às políticas de proteção às populações mais vulneráveis que necessariamente deverão ser tomadas pelos governantes no combate à crise climática que vem se intensificando, e que traz impactos desiguais nas diferentes regiões do planeta. E as respostas passam necessariamente, portanto, por pensar em desigualdade e crise climática. É preciso garantir a proteção dos biomas, zerar o desmatamento ilegal, proteger as populações indígenas e as populações mais vulneráveis.

*Helena Margarido Moreira é doutora em Geografia pela USP e Professora de Relações Internacionais. 

Os Falsos Proeminentes Cientistas do Clima

lattes

César Lattes foi um dos mais célebres físicos experimentais brasileiros. Seu nome foi imortalizado na Base de currículos Lattes, mantida pelo CNPq consiste num patrimônio acadêmico brasileiro único no mundo. Desde 1999 virtualmente todos os acadêmicos e pesquisadores brasileiros, inclusive ex-ministros e ex-presidentes mantém atualizado seu perfil no Lattes. Ali estão todas as publicações científicas, participação em eventos, orientações, trajetória acadêmica, proficiência linguística, enfim, tudo o que caracteriza a vida intelectual e acadêmica. Como praticamente todos os cientistas brasileiros estão cadastrados na plataforma Lattes, ela contém uma quantidade enorme de informações relevantes sobre os cientistas e a comunidade científica brasileiros, infelizmente ainda pouco exploradas.

Duas estratégias são muito usadas por pseudocientistas e anticientistas para confundir o público leigo: uma é apresentar supostas controvérsias onde há consenso. Outra é apresentar pesquisadores irrelevantes ou pouco prestigiados pelos pelos seus colegas como grandes especialistas numa área. 

aquecimento

Não há dúvida de que a concentração de CO2 e de outros gases causadores de aquecimento global vêm aumentando a um ritmo nunca visto na história do planeta. O consenso na comunidade científica é que o aumento da concentração desses gases está causando a um aumento da temperatura média global com consequências que podem ser catastróficas para o futuro da humanidade mais cedo ou mais tarde. Por isso, por precaução, cientistas prestigiados se reuniram no IPCC, um painel global de especialistas em clima e fizeram uma recomendação de redução no ritmo de liberação de gases do efeito estufa. As atividades desse painel foram reconhecidas com o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Mesmo que os modelos adotados pelos especialistas estejam errados (o que é pouco provável), é prudente reduzir a concentração de CO2 e outros gases causadores de efeito estufa gases na atmosfera.

Obviamente a indústria dos combustíveis fósseis não gosta nada dessas recomendações e vem investindo milhões para desqualificar o trabalho dos cientistas sérios.
Recentemente chegou a minha atenção uma carta enviada à ONU por um grupo holandês chamado CLIntel, ou Climate Intelligence. A carta começa afirmando que não há uma emergência climática e é assinada por nada menos que “500 proeminentes cientistas”. Caso esses signatários representem um grupo de cientistas reconhecidos por seus pares sem dúvida a carta deveria ser levada em consideração pela ONU.
Um grupo de cientistas sérios preparou uma resposta à carta. Segundo eles a carta contém várias estratégias há muito adotadas pela pseudociência: mentiras, cherry picking, descontextualização de informações. afirmações imprecisas e não respaldadas por referências sólidas. Um dos críticos coloca em dúvida a competência científica dos 500 signatários.

Como sete signatários são brasileiros, podemos utilizar a base Lattes para verificar se eles realmente são “proeminentes cientistas” como afirma o CLIntel.
Seguem os nomes dos signatários brasileiros com links para seus currículos Lattes.

  1. Luiz Carlos Baldicero Molion tem doutorado em meteorologia e é professor da UFAL. O documento afirma que ele é professor emérito, a Wikipedia diz que ele é professor associado. O Lattes não tem informação e na página da UFAL não há menção a ele ser emérito. Segundo o Web of Knowledge, o mais prestigioso banco de dados acadêmicos do mundo, o Prof. Molion tem um índice h=10. O índice h é um estimador da relevância acadêmica de um pesquisador. O índice h é definido para um pesquisador que tem h artigos publicados com mais de h citações. No caso do Prof. Molion, ele tem 10 artigos internacionais com 10 citações cada um. O valor de h que indica relevância depende da idade do pesquisador e da área. No caso do Prof. Molion h=10 é um valor relativamente mediano, não o qualificando como um cientista muito preoeminente.   
  2. Ricardo Augusto Felicio tem doutorado em geografia e é professor da USP. Seu Lattes revela que da sua lista de 11 artigos nenhum é em revista internacional. Alguns nem se qualificam como artigos. Dessa forma não é possível definir seu índice h. O professor Felício não pode ser considerado um proeminente cientista.
  3. Geraldo Luis Saraiva Lino não tem currículo Lattes. Um proeminente cientista brasileiro teria.
  4. Thiago Maia não tem currículo Lattes. Um proeminente cientista brasileiro teria.
  5. Igor Vaz Maquieira tem graduação em ciências biológicas. Aparentemente não é professor ou pesquisador em nenhuma universidade. O senhor Maquieira não tem nenhuma publicação científica nacional ou internacional. O senhor Maquieira não pode ser considerado um cientista, muito menos proeminente.
  6. Mario de Carvalho Fontes Neto tem graduação em Engenharia Agronômica. O senhor Fontes Neto não tem nenhuma publicação científica nacional ou internacional. O senhor Fontes Neto não pode ser considerado um cientista, muito menos proeminente.
  7. Daniela de Souza Onça é doutora em geografia e professora da UDESC. Dos seus 11 artigos 9 são num certo Fórum Ambiental da Alta Paulista que não é exatamente uma revista científica. Como ela não tem nenhum artigo internacional não é possível definir um índice h. A professora Onça não pode ser considerada uma proeminente cientista.

Graças ao Lattes podemos mostrar que nenhum dos sete signatários brasileiros da carta da CLIntel é um proeminente cientista. Quatro deles nem podem ser qualificados como cientistas. Se extrapolamos essa amostra para os demais signatários podemos concluir que pelo menos grande parte dos que assinam a carta não são nem cientistas nem proeminentes. A carta é mais uma manobra dos grupos de pressão anticiência para desacreditar o trabalho de gente séria.

Agradeço ao colega e amigo Carlos Lenz Cesar por ter me chamado a atenção para a carta do CLIntel

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Este artigo foi originalmente publicado pelo blog Cultura Científica [Aqui!].

Nível do mar sobe com velocidade 2,5 vezes maior do que a do século 20, aponta IPCC

geloFrequência e intensidade de eventos extremos costeiros, como inundações, devem aumentar até 2100, indica relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (foto: Wikimedia Commons)

Elton Alisson | Agência FAPESP – O aquecimento global tem aumentado a temperatura dos oceanos e o derretimento das geleiras e dos mantos de gelo nas regiões polares e montanhosas do planeta. Essa combinação de fatores tem levado a um aumento do nível do mar e, consequentemente, da frequência e intensidade dos eventos extremos costeiros, como inundações.

As conclusões são de um relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) sobre oceano e criosfera – as partes congeladas do planeta.

Um sumário para formuladores de políticas foi lançado quarta-feira (25/9), em Mônaco, dois dias após a abertura da Cúpula do Clima em Nova York, nos Estados Unidos, em que líderes mundiais foram pressionados a implementar medidas mais ambiciosas para combater o aquecimento global.

“O oceano e a criosfera estão ‘esquentando’ em decorrência das mudanças climáticas há décadas e as consequências para a natureza e a humanidade são amplas e severas”, declarou Ko Barret, vice-presidente do IPCC.

“As rápidas mudanças no oceano e nas partes congeladas do nosso planeta estão forçando tanto as pessoas das cidades costeiras como de comunidades remotas do Ártico a alterar fundamentalmente seu modo de vida”, afirmou.

De acordo com o documento, aprovado pelos 195 países membros do IPCC, o nível do mar subiu globalmente em torno de 15 centímetros (cm) durante todo o século 20 e, atualmente está subindo a uma velocidade duas vezes e meia maior – a 0,36 cm por ano. E esse ritmo está acelerando.

Mesmo que as emissões de gases de efeito estufa (GEE) fossem bastante reduzidas e o aquecimento global limitado a bem menos que 2 ºC dos níveis pré-industriais o nível do mar subiria entre 30 e 60 centímetros até 2100.

Se as emissões de GEE continuarem aumentando fortemente, o nível do mar pode subir entre 60 e 110 centímetros no mesmo período, de acordo com as projeções dos cientistas autores do documento.

“Nas últimas décadas, a taxa de aumento do nível mar se acelerou devido ao aumento crescente do aporte de água proveniente do derretimento das geleiras, principalmente na Groenlândia e na Antártica, e da expansão da água do mar pelo aumento da temperatura marinha”, disse Valérie Masson-Delmotte, diretora de pesquisa da Comissão de Energias Alternativas e Energia Atômica da França e copresidente do grupo de trabalho 1 do IPCC.

Eventos extremos

A elevação do nível do mar aumentará a frequência de eventos extremos que ocorrem, por exemplo, durante a maré alta e tempestades intensas. As indicações são de que, com qualquer grau de aquecimento adicional, eventos que ocorreram uma vez por século no passado acontecerão todos os anos em meados do século 21 em muitas regiões, aumentando os riscos para muitas cidades costeiras baixas e pequenas ilhas, prevê o relatório.

As ondas de calor marítimas também dobraram em frequência desde 1982 e estão aumentando em intensidade. A frequência desses eventos será 20 vezes mais alta em um cenário de 2 °C de aquecimento, em comparação com os níveis pré-industriais. Elas podem ocorrer 50 vezes mais frequentemente se as emissões continuarem a aumentar fortemente, aponta o relatório.

“Várias abordagens de adaptação já estão sendo implementadas, muitas vezes em resposta a inundações, e o relatório destaca a diversidade de opções disponíveis para cada contexto”, afirmou Masson-Delmotte.

Segundo a cientista, a nova avaliação também revisou para a cima a contribuição projetada da camada de gelo da Antártica para o aumento do nível do mar até 2100 em um cenário de altas emissões de GEE.

Declínio de geleiras

“As projeções da elevação do nível do mar para 2100 e além estão relacionadas a como os mantos de gelo reagirão ao aquecimento, especialmente na Antártica. Ainda há grandes incertezas”, ponderou.

Os 670 milhões de pessoas que vivem em regiões montanhosas estão cada vez mais expostos aos riscos de avalanches e inundações e mudanças na disponibilidade de água pelo declínio de geleiras, neve, gelo e permafrost – solo permanentemente congelado –, aponta o relatório.

Em cenários de alta emissão de GEE, estima-se que geleiras menores encontradas, por exemplo, na Europa, nos Andes e na Indonésia poderão perder mais de 80% de sua massa de gelo atual até 2100.

À medida que as geleiras das montanhas recuam, também são alteradas a disponibilidade e a qualidade de água para onde se dirige a corrente (a jusante), com implicações para setores como agricultura e energia hidrelétrica, ressaltam os cientistas.

No Ártico, a extensão do gelo marinho também está diminuindo gradativamente a cada mês do ano. Uma parte expressiva dos quatro milhões de pessoas que vivem permanentemente na região – especialmente povos indígenas – já ajustou suas atividades de caça, por exemplo, à sazonalidade das condições de terra, gelo e neve, e algumas comunidades costeiras já estão se deslocando.

“Limitar o aquecimento ajudaria essa população a se adaptar às mudanças no suprimento de água e aos riscos, como deslizamento de terra”, disse Panmao Zhai, co-presidente do grupo de trabalho I do IPCC.

Maior absorção de calor

O aquecimento global já atingiu 1 ºC acima do nível pré-industrial, devido ao aumento das emissões de gases de efeito estufa.

Até o momento, o oceano absorveu mais de 90% do excesso de calor no sistema climático e, em 2100, absorverá entre duas e quatro vezes mais calor do que nos últimos 40 anos se o aquecimento global for limitado a 2 °C e até cinco a sete vezes mais com emissões mais altas, estimam os cientistas.

O oceano também absorveu entre 20% e 30% das emissões de dióxido de carbono induzidas pelo homem desde 1980, causando a sua acidificação.

A captação contínua de carbono pelo oceano até 2100 exacerbará esse fenômeno provocado pelo aumento da concentração e da dissolução de dióxido de carbono, que diminui o pH da água superficial, elevando a acidez e causando a destruição de recifes de corais, por exemplo.

O aquecimento e a acidificação dos oceanos, a perda de oxigênio e as mudanças nos aportes de nutrientes já estão afetando a distribuição e a abundância da vida marinha em áreas costeiras, em mar aberto e no fundo do mar.

No futuro, algumas regiões, principalmente os oceanos tropicais, sofrerão reduções adicionais, alerta o relatório.

“Reduzir as emissões de gases de efeito estufa limitará os impactos nos ecossistemas oceânicos. Diminuir outras pressões, como a poluição, ajudará ainda mais a vida marinha a lidar com mudanças no ambiente”, disse Hans-Otto Pörtner, pesquisador da University of Bremen, na Alemanha, e copresidente do grupo de trabalho 2 do IPCC.

Década dos oceanos

O relatório se insere em uma série de ações voltadas a destacar o papel fundamental dos oceanos na regulação do clima do planeta, ao redistribuir o calor que chega em excesso à região tropical até as regiões polares, ao mesmo tempo em que leva o frio dos polos para os trópicos.

As ações foram intensificadas a partir da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – a Rio+20 –, em 2012, no Rio de Janeiro. O evento culminou na realização da Conferência da ONU sobre os Oceanos em junho de 2017 em Nova York, nos Estados Unidos, e na proclamação, no mesmo ano, do período de 2021 a 2030 como a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável – a Década do Oceano.

Esse período corresponde à última fase da Agenda 2030 – um plano de ação estabelecido pela ONU em 2015 para erradicar a pobreza e proteger o planeta, que contém 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs), um deles (14) especialmente dedicado aos oceanos.

A fim de fortalecer essa agenda de ações da ONU no Brasil, América Latina e Caribe, o professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) Alexander Turra propôs à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a criação de uma cátedra no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) para o estudo da sustentabilidade dos ecossistemas marinhos e costeiros.

A proposta foi aceita e, no início de junho, foi inaugurada na USP a Cátedra Unesco para a Sustentabilidade dos Oceanos.

“A proposta da cátedra é canalizar e impulsionar ações voltadas a fortalecer a agenda sobre oceanos na academia e na sociedade”, disse Turra à Agência FAPESP.

Uma das funções da cátedra é fomentar e dinamizar a pesquisa oceanográfica integrada e interdisciplinar.

“É preciso integrar na pesquisa oceanográfica a visão das ciências naturais com as sociais, uma vez que o mar é um sistema socioecológico, e não só natural”, afirmou Turra.

Outras linhas de ação da cátedra são disseminar o conhecimento sobre oceanos – a chamada cultura oceânica –, fomentar o desenvolvimento de novas tecnologias e inovações a partir dos recursos marinhos e articular o conhecimento científico com a tomada de decisão pelos agentes públicos.

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Este artigo foi originalmente publicado Agência Fapesp [Aqui!].

Produtores globais de alimentos ‘não conseguem assumir papel’ na crise climática

Relatório insta empresas de carnes, laticínios e frutos do mar a abordar o impacto do desmatamento da indústria, uso de antibióticos e emissões

vacaO relatório Coller Fairr vem de especialistas em investimentos que desejam incentivar a conscientização dos riscos para o planeta – e da lucratividade – na produção de alimentos. Fotografia: Alan Hopps / Getty Images

Por Harriet Grant para o jornal “The Guardian”

Os maiores produtores mundiais de carne, laticínios e frutos do mar não estão conseguindo enfrentar o enorme impacto que estão causando no planeta através do desmatamento, o uso rotineiro de antibióticos e emissões de gases de efeito estufa, alerta um relatório.

O Índice Coller Fairr classifica 50 dos maiores produtores mundiais de carnes, laticínios e peixes, analisando os fatores de risco, do uso de antibióticos ao desmatamento e abusos de trabalho. Os produtores são a cadeia de suprimentos “oculta”, fornecendo carne e laticínios para marcas globais, incluindo McDonald’s, Tesco, Nestlé e Walmart.

O índice é elaborado por especialistas em investimentos que desejam incentivar a conscientização dos riscos ao planeta – e à sua própria lucratividade – por empresas que não conseguem mitigar os danos causados ao meio ambiente pela produção de alimentos.

Jeremy Coller é fundador da Fairr e diretor de investimentos da Coller Capital. Ele diz que são as grandes empresas por trás das marcas que sofrerão se o planeta não estiver protegido. “São as empresas ocultas na cadeia de suprimentos de carnes e laticínios que enfrentam os riscos climáticos e de saúde pública mais significativos.

“Como demonstrou o relatório histórico do mês passado do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as indústrias mundiais de carnes, peixes e laticínios estão sob séria ameaça devido aos impactos das mudanças climáticas. Em forte contraste com o setor de transportes, apenas um em cada quatro produtores de carne, peixe e laticínios mede suas emissões de gases de efeito estufa, e muito menos age para reduzi-las. ”

Entre outras falhas, o índice diz que nenhuma das empresas analisadas possui uma política abrangente para parar o desmatamento. E apenas quatro empresas do índice “se comprometeram a eliminar gradualmente o uso rotineiro de antibióticos, amplamente difundido no setor”.

Segundo o relatório, dois terços dos produtores nem sequer medem todas as suas emissões de gases de efeito estufa e muito menos estabelecem metas para reduzi-las. Isso inclui a Hormel Foods nos EUA, um fornecedor do McDonald’s. Também está incluído o Cal-Maine Foods. A Cal-Maine é o maior produtor de ovos frescos nos EUA e fornecedor do Walmart e da Nestlé. Nestlé, McDonald’s e Walmart se comprometeram publicamente a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

E embora o Walmart tenha dito anteriormente que deseja alcançar zero desmatamento líquido em sua cadeia de suprimentos até 2020, a pesquisa mostra que fornecedores do Walmart, como Cranswick, no Reino Unido, não possuem uma política abrangente sobre desmatamento. O McDonald’s prometeu reduzir o uso de antibióticos em suas cadeias de fornecimento de carne bovina. Mas a grande maioria dos fornecedores de carne bovina não possui uma política para evitar o uso rotineiro de antibióticos. Apenas um – Marfrig – faz.

As empresas são classificadas de acordo com seu risco para os investidores, com base na análise de nove fatores de risco ambientais, sociais e de governança, combinados com as metas de desenvolvimento sustentável. O WH Group, com sede em Hong Kong, foi considerado de “alto risco”, enquanto a Hormel Foods e Cranswick foram designadas como “de risco médio”.

A pesquisa argumenta que algumas das empresas, que entre elas têm um valor de US $ 300 bilhões (248 bilhões de libras), já estão sofrendo os custos da profunda crise climática.

A Cal-Maine Foods registrou um declínio de 30% na receita apenas no último trimestre do ano devido ao clima extremo.

Peter Van der Werf é especialista em engajamento da empresa de investimentos Robeco, aconselhando como investir de forma sustentável. Ele disse ao Guardian que a pesquisa sobre os riscos ambientais da produção de alimentos é vital.

“Essa é uma pesquisa muito importante. Como gerentes de investimento, tomamos muito cuidado na avaliação de riscos – por exemplo, um analista que analisa a produção de alimentos precisa ter um bom entendimento dos riscos das mudanças climáticas … como desmatamento, perda de suprimento de ração resultante do pastoreio de gado em terras esgotadas, uso de água . ”

Van der Werf diz que pode ver o progresso sendo feito, pois os produtores estão cientes do benefício de considerar os riscos ambientais.

“As empresas estavam anteriormente relutantes em mostrar interesse em proteínas alternativas, como carne falsa, mas vimos um grande crescimento na demanda. Começamos o engajamento em relação à segurança do trabalho e ao uso de antibióticos e, durante três anos, vimos claramente um engajamento e conscientização. Agora, a Tyson Foods, por exemplo, tem metas climáticas. Eles não tinham isso antes. “

Ele diz que o objetivo final é que produtores e investidores se afastem da carne e peixe como fontes de proteína, tanto quanto possível.

“Os incêndios que vimos na Amazônia surgiram em conversas com investidores. Eles estão preocupados com as mudanças climáticas, com incêndios florestais. Há uma necessidade global de reduzir ainda mais a dependência de carne e laticínios e observar diferentes opções de proteínas. ”

Um porta-voz da União Nacional dos Agricultores disse ao Guardian que existe um compromisso de alcançar emissões líquidas de carbono zero na indústria agrícola do Reino Unido até 2040. Ele disse que isso será alcançado através da melhoria da eficiência e do bem-estar animal, gerenciando o armazenamento de carbono nas fazendas e aumentando energia renovável.

O Guardian entrou em contato com as empresas nomeadas, mas no momento da publicação não havia recebido respostas de todas elas.

A Nestlé disse: “O Padrão de Fornecimento Responsável da Nestlé estabelece práticas de sustentabilidade que pedimos aos nossos fornecedores, seus funcionários, agentes e subcontratados que respeitem e sigam o tempo todo. Além disso, executamos um programa de fornecimento responsável de 15 matérias-primas de alta prioridade, incluindo carnes, aves e ovos e laticínios. Para esses materiais, nosso trabalho começa mapeando nossa cadeia de suprimentos até a fazenda ou o matadouro. Quando os fornecedores se recusarem a melhorar, nós os removeremos da nossa cadeia de suprimentos. ”

O Walmart disse: “Acreditamos que tanto a ação colaborativa quanto a rastreabilidade em toda a nossa cadeia de suprimentos global são necessárias para reduzir o desmatamento associado à produção de carne bovina e soja no Brasil. Estamos trabalhando com o Fórum de Bens de Consumo, a Aliança das Florestas Tropicais e o Grupo de Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado, enquanto trabalhamos para alcançar nossa meta de reduzir o desmatamento. ”

A Tyson Foods disse: “Anunciamos recentemente uma meta baseada na ciência para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 30% até 2030, bem como uma parceria com o Environmental Defense Fund focada em aumentar as práticas agrícolas sustentáveis ​​em mais de 2 milhões de acres de milho em linha até 2020. Isso é o maior compromisso já feito por uma empresa de proteínas dos Estados Unidos e reportaremos nosso progresso ao longo do tempo. ”

Hormel disse: “Como empresa global de alimentos de marca, levamos nossas práticas de sustentabilidade muito a sério. Estamos trabalhando para alcançar nossas metas de 2020 para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e o uso de energia não renovável em 10% até 2020.

“É com satisfação que o relatório destacou nossa empresa como uma das líderes do setor e apresentou a Hormel Foods por nossas melhores práticas de uso da água. Além disso, o relatório destacou a Hormel Foods como a única empresa que estabeleceu uma política agrícola sustentável que se estende aos produtores de grãos para alimentação animal. ”

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Co-presidente do Grupo 2 do IPCC esculacha políticas pró-desmatamento do governo Bolsonaro

portnerClimatologista alemão Hans-Otto Pörtner declarou que políticas pró-desmatamento do governo Bolsonaro vão no sentido contrário das recomendações do último relatório do IPCC

As dores de cabeça do governo Bolsonaro em função das críticas recebidas internamente em função do avanço explosivo das taxas de desmatamento na Amazônia brasileira. É que perguntado em coletiva de imprensa sobre o que significam as novas políticas de permissão explícita do avanço da franja de desmatamento nas florestais tropicais brasileiras, o climatologista alemão Hans-O. Pörtner, vice-presidente do Grupo de Trabalho do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), foi taxativo ao dizer que as novas políticas brasileiras simplesmente representam o oposto de tudo o que foi recomendado no relatório que o painel acaba de publicar (ver vídeo abaixo).

 

Como o professor Hans-O. Pörtner não pode ser demitido pelo presidente Jair Bolsonaro fica ainda mais óbvio a inutilidade da demissão do físico Ricardo Galvão do posto de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Na verdade, o que essa manifestação de um dos mais importantes autoridades mundiais do campo das mudanças climáticas deixa claro é que a demissão de Ricardo Galvão aumentou exponencialmente a má vontade da comunidade científica mundial com o governo Bolsonaro.

E isso terá consequências políticas e econômicas, pois o que pesquisadores como Hans-O Pörtner pensam e falam acabam tendo um peso significativo no plano das agências e acordos multilaterais.  Enquanto isso, o anti-ministro do Meio Ambiente,  o improbo Ricardo Salles, anuncia que irá à Europa para tentar dar uma aliviada na péssima imagem que o Brasil tem neste momento por lá.  Mais um caso de dinheiro público que será desperdiçado.

A crise climática está reduzindo a capacidade da Terra de sustentar a Humanidade, diz relatório do IPCC

Relatório da ONU encontra ecossistemas sob ameaça inédita e aponta que a restauração deles é urgente

guardian 0Desmatamento no estado do Pará no Brasil.  O desmatamento de grandes áreas, para usos como fazendas de gado e plantações de café, pode afetar o clima que afeta a saúde da Terra. Foto: Andre Penner / AP

Por Damian Carrington, editor ambiental do “The Guardian”

Desmatamento no estado do Pará no Brasil.  Desmatamento em larga escala para usos como fazendas de gado e plantações de café, pode afetar o clima que afeta a saúde da Terra. Foto: Andre Penner / AP

A crise climática está prejudicando a capacidade da Terra de sustentar a humanidade, com os riscos em cascata se tornando cada vez mais severos com o aumento das temperaturas globais, de acordo com um relatório da ONU compilado por alguns dos principais cientistas do mundo.

O aquecimento global está aumentando as secas, a erosão do solo e os incêndios florestais, ao mesmo tempo em que diminui o rendimento das plantações nos trópicos e derrete o permafrost próximo aos pólos, diz o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O aquecimento adicional levará a condições climáticas sem precedentes em latitudes mais baixas, com potencial de crescimento na fome, migração e conflito e aumento de danos às grandes florestas do norte.

O relatório, aprovado pelos governos do mundo, deixa claro que a humanidade enfrenta uma escolha difícil entre um círculo vicioso ou virtuoso. A destruição contínua de florestas e as enormes emissões de gado e outras práticas agrícolas intensivas intensificarão a crise climática, fazendo com que os impactos sobre a terra sejam ainda piores.

guardian 1Fazenda de gado na Califórnia, EUA. A agricultura intensiva é um usuário pesado de água e uma grande causa de emissões de gases de efeito estufa. Foto: Lucy Nicholson / Reuters

No entanto, a ação agora para permitir que solos e florestas regenerem e armazenem carbono e reduzam o consumo de carne pelas pessoas e o desperdício de alimentos, pode ter um papel importante no combate à crise climática, diz o relatório.

Essas medidas também melhorariam a saúde humana, reduziriam a pobreza e combateriam as enormes perdas de vida selvagem em todo o mundo, diz o IPCC.

A queima de combustíveis fósseis deveria também terminar para evitar a “perda irreversível nos serviços ecossistêmicos terrestres exigidos para alimentos, saúde e assentamentos habitáveis”, diz o relatório.

“Esta é uma tempestade perfeita”, disse Dave Reay, professor da Universidade de Edimburgo, que foi um revisor especialista no relatório do IPCC. “Terra limitada, uma população humana em expansão e tudo embrulhado em uma manta sufocante de emergência climática. A Terra nunca se sentiu menor, seus ecossistemas naturais nunca estão sob ameaça direta. ”

Piers Forster, professor da Universidade de Leeds, disse: “Este importante relatório mostra que precisamos mudar substancialmente a forma como usamos nossas terras para limitar a mudança de temperatura abaixo de 1,5ºC. Em suma, precisamos de menos pastagens [para o gado] e mais árvores ”. O conselho de uso da terra foi contido em um relatório do IPCC em outubro.

O professor Jim Skea, do IPPC, disse que a Terra já estava em dificuldades e que a mudança climática estava aumentando seus fardos. Quase três quartos das terras livres de gelo foram agora diretamente afetadas pela atividade humana, diz o relatório.

O uso deficiente das terras também está por trás de quase um quarto das emissões de gases de efeito estufa do planeta – a destruição de florestas, enormes rebanhos de gado e o uso excessivo de fertilizantes químicos são fatores-chave.

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As emissões relativas a fertilizantes aumentaram nove vezes desde o início dos anos 60. O aumento das temperaturas está causando desertos a se espalhar, particularmente na Ásia e na África, e as Américas e o Mediterrâneo estão em risco, diz o relatório.

Uma das conclusões mais contundentes do relatório do IPCC é que o solo, do qual a humanidade é inteiramente dependente, está sendo perdido mais de 100 vezes mais rápido do que está sendo formado em áreas aradas; e perdeu 10 a 20 vezes mais rápido, mesmo em campos que não são cultivados.

O relatório recomenda uma ação forte de governos e empresas, incluindo acabar com o desmatamento e permitir que novas florestas cresçam, reformando subsídios agrícolas, apoiando pequenos agricultores e criando culturas mais resistentes. Muitas dessas soluções, no entanto, levariam décadas para ter um impacto, diz o IPCC.

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Mudas sendo plantadas na Mongólia Interior este ano para controlar a desertificação à medida que as temperaturas sobem. Foto: Xinhua / Barcroft imagens

Os consumidores das nações ricas poderiam agir imediatamente reduzindo seu consumo de carne e laticínios produzidos intensivamente – produtos que têm um enorme impacto ambiental.

“Há muito mais que podemos fazer nesse espaço que não estamos fazendo, em parte porque é difícil”, disse Pete Smith, professor da Universidade de Aberdeen e autor sênior do IPCC. “Você não gostaria de dizer às pessoas o que comer, que iria cair mal. Mas você poderia incentivar.

O relatório do IPCC sugere “fatorar custos ambientais em alimentos”. Estudos anteriores sugeriram impostos sobre carnes ou frutas e legumes subsidiados. A produção de carne amarra a maioria das terras agrícolas e o consumo de cortes poderia liberar milhões de quilômetros quadrados para plantações florestais ou de bioenergia, segundo o relatório, assim como poderia reduzir o desperdício de alimentos.

Caterina Brandmayr, do think tank da Green Alliance, disse: “A mensagem chave do IPCC é urgência: precisamos agir agora para plantar novas florestas, restaurar nossos ecossistemas e, sim, comer menos carne”.

David Viner, professor da Universidade de East Anglia e autor sênior do IPCC, disse: “A terra é um recurso vital e nós temos que cuidar disso se quisermos ter um futuro sustentável”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Combustíveis fósseis e aquecimento do clima da Terra: uma novidade há mais de 100 anos

Há toda uma sorte de céticos sobre os processos de mudança climática pelo qual passa a Terra neste momento que associam este fenômeno a algum tipo de conspiração que visa impingir crenças cientificamente infundadas sobre os humanos desejosos de continuar consumindo combustíveis fósseis como se nenhum problema houvesse.

Mas o fato é que as previsões científicas acerca da possível contribuição dos combustíveis fósseis na mudança do clima da Terra datam do final do século 19, inclusive alcançando publicações na mídia corporativa.

Achei no Twitter a imagem abaixo que mostra um artigo publicado no jornal neozelandês “The Rodney and Otamatea Times, Waitemata and Kaipara Gazette” que foi publicado no dia 14 de agosto de 1912 (exatamente 106 anos atrás).

previsão 106 anos

O artigo explica que “os fornos do mundo agora estão queimando cerca de 2.000.000.000 de toneladas de carvão por ano. Quando isso é queimado, unindo-se com oxigênio, ele adiciona cerca de 7.000.000.000 de toneladas de dióxido de carbono à atmosfera anualmente. Isso tende a tornar o ar um cobertor mais eficaz para a terra e elevar sua temperatura. O efeito pode ser considerável em alguns séculos.

O incrível é que 106 anos depois da publicação deste artigo ainda existe tanta gente sendo ludibriada pelas corporações do carvão e do petróleo que insistem na inexistência de provas científicas de que a queima de combustíveis fósseis esteja causando uma elevação nas temperaturas da Terra e disparando uma série de modificações no funcionamento climático do planeta.

Desta forma, mesmo com todas as incertezas que cercam os modelos científicos voltados para estimar os impactos advindos do aquecimento da atmosfera em função principalmente da emissão de gases oriundos da queima de combustíveis fósseis, questionamentos sem base científica devem ser solenemente ignorados, mesmo quando oriundos de setores minoritários da própria comunidade científica. 

Para maiores informações sobre a questão das mudanças prognosticadas pelo “”The Rodney and Otamatea Times, Waitemata and Kaipara Gazette” há 106 anos atrás, sugiro acessar o site do Intergovermental Panel on Climate Change [Aqui!]