Ataque ao Irã: a crise capitalista e a grande guerra que se aproxima rapidamente no horizonte

Fordow e o B-2: conheça a usina do Irã e o bombardeiro dos EUA

O ataque das forças armadas dos EUA às instalações nucleares do Irã será noticiado de diversas formas, mas certamente a melhor cobertura não virá da mídia corporativa, seja a nacional ou a global. O problema aqui é que mais do que nunca, informação é algo estratégico demais para ser compartilhado com leigas. Quem nos ensinou isso foi o geógrafo francês Yves Lacoste em seu livro “A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra” quando ele enuncia que existe a geografia dos bancos escolares e a leigos (a maioria de nós) e a dos Estados maiores que usam as informações geográficas para planejar as guerras que assolam o mundo para garantir o controle de matérias primas e rotas comerciais. Acima de tudo, é preciso lembrar que La Coste disse nesse livro que o “mundo é ininteligível para quem não tem um mínimo de conhecimentos geográficos“.

É preciso notar que o não menos célebre jornalista Seymour Hersh anunciou com precisão horas antes em seu blog no Substack o início dos ataques realizados contra as instalações nucleares iranianas.  Se Hersh sabia do que ia acontecer, acho difícil que não houvesse o devido nível de alerta em Teerã cujos serviços secretos são conhecidos por serem bastante alertas e possuírem agentes infiltrados em diversos serviços de inteligência do mundo. Tanto isto é verdade é que poucas horas depois, agências de notícias iranianas informaram que todo o urânio enriquecido de posse do país tinham sido movidos para outras instalações.

Como consequência da destruição das instalações, o que temos agora é provavelmente uma pulverização locacional do material enriquecido e da dispersão de parte das máquinas de enriquecimento.  Com isso, é provável que o risco dos iraniano possuírem uma bomba atômica tenha aumentado em vez de diminuir.  Com isso, aumentam as chances de uma guerra prolongada, dado que invadir o Irã não é algo factível dada as características geográficas (como geógrafo não posso deixar de notar essa ironia) que tornam o país de difícil invasão terrestre. 

Restará aos EUA e a Israel continuar jogando bombas poderosas para dobrar o Irã militarmente ou esperar que o regime iraniano seja derrubado por alguma revolta interna.  Ambas as possibilidades são cercadas de dificuldades estratégicas, mesmo porque, apesar da torcida de muitos analistas de plantão, as armas iranianas mais modernas ainda não foram usadas e provavelmente estão reservadas para outras fases da guerra que se iniciou com os ataques israelenses e ganha agora maior envergadura com a entrada aberta dos EUA no conflito.

O risco real é que outras forças comecem a se envolver no conflito, pois os interesses geopolíticas envolvidos vão muito além do trio atual. Há que se lembrar que o Irã tem a Rússia e a China como aliados estratégicos, e esses dois países não vão ficar assistindo esta situação de mãos cruzadas, ainda que suas ações não se tornem tão explícitas como as dos EUA.  Assim, ainda que não entrem diretamente no conflito, é provável que russos e chineses irão dar uma mãozinha para o Irã. E essa maõzinha virá reacheada de mísseis e drones de guerra. Com isso, está garantida a instalação de um conflito que começa regional, mas poderá se tornar rapidamente global.

Finalmente, há que se analisar toda essa situação tendo como pano de fundo a grave crise que o sistema capitalista atravessa, tanto do ponto de vista econômico, como do geopolítico. Que os EUA e a União Europeia perderam a corrida contra a China é algo evidente, o que grava os problemas vividos com a hegemonia financeira que marca o funcionamento do capitalismo no Ocidente.  Com isso, uma grande guerra se torna algo quase que inevitável, dado que em momentos de crises sistêmicas, a opção é sempre a guerra. Isto aconteceu nas duas grandes guerras mundiais, e tem toda chance de acontecer agora, ainda que não imediatamente.

Na geopolítica de crise sistêmica, as aparências enganam…e matam

Por Douglas Barreto da Mata 

Desde os primórdios, quando os ajuntamentos de pessoas começaram a disputar territórios e recursos entre si, tão importante quanto o esforço militar de cada parte, era o controle da narrativa. Se a História é a tradução da versão dos vencedores, definir quem, e como se conta essa história é crucial. Desde os papiros até os meios digitais muita confusão e distração foram produzidas, confundindo não só o senso comum, mas também acadêmicos e pessoas dotadas de acesso às informações mais, digamos, qualificadas.

A esquerda brasileira, por exemplo, está tão perdida quanto cego em tiroteio. A mídia brasileira é um caso à parte, com raríssimas e honrosas exceções. Ela não está perdida, ela está na coleira. Jornalistas brasileiros, na maioria, não pensam por si, só reproduzem o conteúdo que vem da matriz, os EUA. É um trabalho constante de sustentação de um pensamento hegemônico global, sem qualquer compromisso com verdade factual, ou intenção de pensar “fora da caixa”.

Assim, em um estranho universo, mídia e esquerda se juntam, cada qual por uma razão distinta, a primeira por burrice, a segunda por má fé, e apresentam visões muito ruins sobre o tabuleiro geopolítico, e claro, sobre os conflitos que envolvem Israel.

Sim, eu sei. Ideologicamente há argumentos para odiar Israel, desde a ideia esdrúxula de sua existência, a partir de 1948, sua posição agressiva a partir de então, e culminando com os episódios recentes, o holocausto palestino e a guerra com o Irã. Eu já disse isso aqui antes.

Uma coisa é uma posição política e afetiva a favor dos mais fracos. Outra é desconhecer a História. Apesar de serem os únicos que confrontam o império estadunidense, e terem sido alvo de agressões por muito tempo, passando pelas Cruzadas e outros embates, as sociedades islâmicas são teocráticas, ultra conservadoras e com hierarquia de classes rígidas. Não são um paraíso socialista.

Lá nos idos do início do capitalismo, e nos períodos anteriores de acumulação primitiva, o Islã reunia condições tecnológicas e científicas muito mais avançadas, e dominavam rotas de comércio cruciais (uma cena ilustrativa é o Saladin oferecendo gelo no deserto para os prisioneiros cruzados, no filme Cruzadas). Foram massacrados em um momento que a História e seus desígnios decidiu quem ia dar o salto Paes uma sociedade de produção capitalista, ou não. Se não fosse por esse motivo, o mundo ocidental não existiria como conhecemos, e talvez Hollywood fosse Meca. Por isso foram massacrados, embora a justificativa tenha sido a fé.

Então é, no mínimo, contraditório, a esquerda desconhecer que combater o autoritarismo israelense não faz sentido, se a escolha for autoritarismo islâmico, que são regimes que praticam o modo de produção capitalista, mais atrasados pelas razões já expostas aí em cima.

Por outro lado, a mídia nacional (sucursal da Casa Branca), bate tambor por Israel, e vende o conto do mocinho contra o bandido, reduzindo a questão a uma luta entre o mundo (ocidental) “esclarecido” e os “bárbaros” do Islã, requentando ódios medievais misturados com ressaca da guerra fria. Não, não se luta por democracia ou por valores universais no oriente médio, a disputa ali é por grana. Aliás, no mundo todo. No entanto, não é só isso.

O que está em colisão são três grandes modelos autoritários, que se colocam em blocos: O complexo sino-indo-russo e associados, aqui juntos o Irã e facções do mundo árabe, e do outro, EUA, Europa, e associados, incluindo Israel e partes do mundo árabe. A América Latina parece hesitar, mas não vai resistir muito, e deve aderir, a um ou outro bloco, no todo ou dividida. Essa parte Sul do mapa talvez seja o local de alternativas genuínas, todas abortadas, é claro, pelo esforço EUA-Europa.

O sucesso chinês e, de certa forma, os relativos sucessos russo e indiano estabeleceram um padrão a ser perseguido pelas potências ocidentais decadentes, que se ressentem do fardo “democrático”, ou seja, da impossibilidade de fazer o capitalismo sem amarras ambientais, eleitorais e de regulamentação, melhor dizendo, impondo rígidas regras para retirar “obstáculos sociais” do caminho, com planejamento verticalizado ao máximo. Se antes chineses eram conhecidos pelas cópias, hoje é o “mundo livre” que deseja o padrão chinês de gestão política do capitalismo.

Diferente da Segunda Guerra, nos dias atuais não há oposição de um suposto bloco “democrático” contra um eixo totalitário. A contenda é para saber quem será o mais autocrático. Esqueça a “vocação humanista europeia”. Essa farsa acabou na tentativa de insuflar a Ucrânia contra a Rússia (outra historinha da mídia nacional).

Mesmo desse jeito, pensando de forma pragmática, o fato é que torcer pelo Irã exige o desprendimento, em outras palavras, vontade de andar a pé e deixar uma pauta de produtos (derivados de petróleo, ou quase tudo) fora de nossa vida ocidental. É Israel que, como preposto militar dos EUA e da Europa, mantém o preço do petróleo em um patamar que nos permite viver. Dura verdade, mas é a verdade.

O Irã é um regime que existe como oposição aos EUA, mas não significa que isso nos favoreça. Talvez aqui e ali, mas não se pode confundir o regime iraniano com aquele que foi derrubado pelos EUA, em 1953, quando o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh prometeu estatizar o petróleo. Naquela época o Irã era um país secular (religião separada do Estado), que foi transformado em uma brutal ditadura pela CIA.

Na década de 1970, os aiatolás mobilizaram a resistência e o ódio, fermentando esse movimento com fanatismo religioso, e o resto todo mundo sabe. O Irã é uma analogia da nossa extrema-direita por aqui, que mistura religião, repressão de costumes, e hierarquias políticas.

Engraçado é também assistir os ultra direitistas atacando o Irã e a Palestina, quando nesses locais estão instalados regimes que esses contingentes políticos nacionais desejam instalar no Brasil Religiosos, autocráticos e ultra capitalistas.

A geopolítica, às vezes, exige deslocamentos e alinhamentos temporários, demanda sopesarmos qual é mal menor, e o que é ou não possível para alcançar um objetivo estratégico. Acima de tudo, requer bom senso. Eu leio muita gente boa por aí babando russos e chineses, imaginando um mundo cor de rosa pós EUA.

Não creio que a solução para a esquerda e para o Brasil seja mudar de dono. Ao mesmo tempo, a aversão que a extrema-direita brasileira tem pelo Islã e China, ou o amor incondicional ao EUA não se justificam.

No contra-ataque iraniano a Israel, o que mais importa é a mensagem

ataque iraniano

No dia 01 de abril, Israel bombardeou a embaixada iraniana em Damasco, capital da Síria, e matou pelo menos um general, além de causar a destruição generalizada do edifício. A resposta ocidental capitaneada pelos EUA foi um misto de passar a mão na cabeça de Benjamin Netanyahu que ordenou o ataque com uma forte preocupação com a reação iraniana que iria inevitavelmente acontecer.

Passadas menos de duas semanas, a resposta iraniana veio em um mistura de drones militares, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro. Logo após o fim do bombardeio, o governo de Israel veio a público dizer que havia interceptado 99% das armas iranianas, o que implicaria que o esforço iraniano teria sido facilmente neutralizado.

Após estes acontecimentos, este domingo deverá ser repleto de reuniões políticas, incluindo uma do Conselho de Segurança da ONU, onde a maioria aliada aos EUA deverá apoiar as reclamações israelenses, causando a emissão de declarações de denúncia ao regime iraniano. Essas declarações terão efeito próximo de zero, na medida em que China e Rússia deverão vetar qualquer resolução condenando o Irã.

A preocupação real é, na verdade, com a eventual resposta de Israel que poderá optar por contra-atacar o território iraniano, como é desejo antigo de Benjamin Netanyahu que necessita ampliar o seu arco de guerra para não ser defenestrado do cargo de primeiro-ministro, o que deverá ser seguido pelo seu aprisionamento por motivos crimes do colarinho branco para os quais existem provas suficientes para sua condenação pela justiça israelense.

Uma coisa que vem sendo dita é que o ataque iraniano, além de ter sido telegrafado para quem poderia impedir o sucesso do ataque (no caso os EUA, o Reino Unido, França, e também Israel), também utilizou armas que não estão na linha de frente do arsenal da república islâmica. Esses dois fatos são vistos como uma falta de desejo (ou hesitação) dos iranianos em iniciar uma guerra ampla com Israel, visto como mais poderoso e recheado de aliados ainda mais poderosos (a começar obviamente pelos EUA).

Esse é um raciocínio que despreza o fato de que a simples decisão do Irã de atacar o território israelense é algo que desafia frontalmente o status quo vigente pelo menos desde a derrota árabe na breve guerra do Yom Kippur em 1973. A verdade é que esse ataque, em meio à resistência palestina em Gaza, acaba demonstrando que Israel não é mais visto como invencível e que pode sim ser desafiado militarmente. Esse não é um desdobramento qualquer, pois se essa percepção de fraqueza se sedimentar, o que não faltará no Oriente Médio vai ser gente querendo realizar ataques contra alvos israelenses, seja dentro de Israel ou fora dele.

O que está posto pelo contra-ataque iraniano é um aumento exponencial da volatilidade política não apenas do ponto de vista regional, como também global. É que a economia global já vinha sendo perturbado fortemente pela ação das milícias iemenita Houthi que vem afetando o trânsito de navios comerciais no Mar Vermelho, uma região vital para o comércio internacional.

A questão que fica é se teremos ou não uma guerra regional ampliada a partir do contra-ataque iraniano.  Eu diria que apesar dos desejos do primeiro-ministro israelense, a questão palestina vai acabar pesando contra essa possibilidade. É que com os pés atolados em Gaza, a abertura de uma frente mais ampla contra o Irã, obrigaria aos principais patronos de Israel, os EUA, a entrarem diretamente no teatro de guerra.

De toda forma, a bola agora está com Benjamin Netanyahu, o que certamente não contribui para gerar uma expectativa de apaziguamento para a situação explosiva que ele mesmo criou. 

Governo Bolsonaro apoia assassinato de general iraniano e insere Brasil na explosiva situação do Oriente Médio

átrump araujoAo emitir nota de apoio ao governo Trump pela eliminação de general iraniano, o ministro Ernesto Araújo cometeu grave prejuízo contra os interesses brasileiros.

O governo Bolsonaro já flertou com o perigo ao anunciar a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.  Nesse caso prevaleceu prevaleceu o pragmatismo que levou em conta as fortes relações comerciais mantidas pelo Brasil com os países árabes, o que significou uma derrota para a ala olavista cuja grande expressão é o, digamos, excêntrico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Mas defrontado com as repercussões do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o ministro Ernesto Araújo resolveu deixar de lado o pragmatismo e fez o Itamaraty emitir uma nota de apoio ao governo dos EUA sob a escusa de apoiar o combate ao terrorismo (ver imagem abaixo).

nota itamaraty

Se ainda havia algum tipo de dúvida acerca do grau de irresponsabilidade reinante no governo Bolsonaro em relação não apenas aos interesses comerciais nacionais, mas à própria segurança interna, eu me permito dizer que essa nota totalmente fora de propósito acaba de confirmar o que já era visível. É que essa nota acaba de enterrar décadas de uma forma cuidadosamente elaborada de pragmatismo diplomático que manteve o Brasil como parceiro comercial de países virtualmente em guerra em diversas partes do planeta, mas também nos manteve fora da rota do terrorismo internacional.

Agora, ao endossar a ação bélica do governo Donald Trump pela simples razão de mostrar alinhamento ideológico,  Ernesto Araújo e seus chefes dentro do governo Bolsonaro não apenas colocaram em risco as exportações de commodities agrícolas para os países árabes (mesmo aqueles não alinhados politicamente ao Irã), mas também abriram a possibilidade de que brasileiros e suas representações políticas e comerciais se tornem alvos de ataques terroristas. 

Como o Irã e seus diversos “proxies” estão certamente neste momento acompanhando a reação dos governos de todas as partes do mundo para medir o grau de alinhamento com os EUA no assassinato de Qaseim Suleimani,  ao emitir essa nota, Ernesto Araújo colocou um alvo nas costas de todos os brasileiros.  É que como todo o mundo já sabe, a resposta iraniana ao assassinato de seu mais importante líder militar não virá sob a forma de confrontos diretos com as forças estadunidenses, mas com a escolha de alvos mais fáceis de serem atacados. Essa é a realidade que deveria ter sido considerada pelo governo Bolsonaro antes de emitir qualquer comunicado sobre a eliminação de Suleimani, mas não foi. 

Agora não adiantará nada qualquer desmentido de fachada sobre uma posição oficial do ministério das Relações Exteriores. A única saída seria demitir imediatamente Ernesto Araújo e todos os seus auxiliares diretos por não terem impedido a emissão dessa nota despropositada. Mas como dificilmente ocorrerá na velocidade que deveria, o melhor é nos prepararmos para o pior, seja na área comercial como na militar.

 

Assassinato de general iraniano é jogada política de Donald Trump que pode acelerar crise econômica global

Qasem SoleimaniQasem Soleimani (ao centro na posição central da imagem) era um dos principais estrategistas das forças iranianas e seu assassinato deverá ter fortes repercussões políticas e militares no Oriente Médio

O assassinato do general iraniano Qasem Soleimani pelas forças armadas dos EUA é claramente uma jogada política do encrencado presidente estadunidense Donald Trump. Para sair das cordas em que foi colocado pela jogada obscura que realizou para pressionar o governo da Ucrânia, Donald Trump autorizou a eliminação da principal liderança militar do Irã.

O problema em realizar uma jogada de tão alto risco é que, apesar de Trump e seus generais estarem bem longe do alcance das ações retaliatórias que o Irã deverá realizar para vingar o assassinato de Soleimani, suas próprias tropas e agentes de governos aliados no Oriente não estarão. 

Com isso em mente é preciso levar em conta que o Irã acabou de realizar uma série de operações conjuntas para fazer frente à possíveis agressões armadas, principalmente dos EUA.  A partir desse fato é que se vê que a decisão de eliminar Soleimani não é uma a ser ignorada para entendermos a intrincado situação geopolítica em que o assassinato do general iraniano se insere.

De qualquer forma, a principal consequência desta jogada política e eleitoral é causar um desequilíbrio para cima dos preços do petróleo que terá fortes consequências para uma economia global onde já existem sinais abundantes de que uma grave crise deve se instalar ao longo de 2020. 

No caso específico do Brasil, há que se ver como se pronunciará o excêntrico (para dizer o mínimo) ministro das Relações Exteriores sobre este grave incidente geopolítico. Se abrir a boca para “passar o pano” no assassinato de Qasem Soleimani (como é esperado), quem sofrerá vai ser o latifúndio agro-exportador que poderá perder acesso ao mercado iraniano. Como o Brasil agora depende ainda mais diretamente da exportação de commodities agrícolas qualquer perda de mercado trará perdas econômicas que não serão desprezíveis.

Um elemento a ser considerado é que a decisão de assassinar um alto oficial iraniano pode até demonstrar a capacidade bélica dos EUA. Entretanto, por outro lado, isso demonstra a fraqueza estratégica em que está posta a principal potência militar do planeta. E isso não é uma notícia secundária para se entender o que virá pela frente nos próximos anos e décadas. 

Finalmente, o tempo dirá se a jogada de Donald Trump vai dar certo ou não, e como o custo disso será sentido pelo resto do mundo. Mas que ninguém se surpreenda se uma grave crise econômica global eclodir. 

Após agrotóxicos e desmatamento, governo Bolsonaro adiciona submissão aos EUA ao seu portfólio anti-agronegócio sustentável

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Navio iraniano carregado com milho brasileiro está impedido de retornar para o Irã por causa da negativa da Petrobras de vender o combustível necessário para a viagem.

Venho alertando desde o início de 2019 que o governo Bolsonaro está empurrando o Brasil para a condição de um pária internacional que terá graves consequências para a habilidade de realizar comércio de seus grandes aliados do latifúndio agro-exportador. As variáveis que vinha utilizando em minhas análises eram o uso intensificado de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo e a ampliação do desmatamento na Amazônia.

Mas o governo Bolsonaro resolveu adicionar outro fator que poderá resultados tão ou mais devastadores sobre a venda de commodities brasileiras que é a submissão política ao governo de Donald Trump.  A primeira faceta prática dessa submissão se apresenta na negativa de abastecer com petróleo dois navios iranianos que estão fundeados no Porto de Paranaguá, no litoral norte do Paraná, um deles carregado com 48 mil toneladas de milho brasileiro que foi comprado pelo Irã.   Aí é que começa o imbróglio, pois o Irã é o principal comprador do milho brasileiro, tendo importações no valor de US$ 1,3 bilhão apenas nos prímeiros seis meses de 2019. 

Mas a coisa pode piorar se outros países seguirem o mesmo raciocínio que o Irã está adotando em retaliação à submissão brasileira à agenda política do governo Trump. É que segundo o site Sputnik, o embaixador do Irã em Brasília, Seyed Ali Saghaeyan,  teria dito ontem ao governo brasileiro que “seu país poderia facilmente encontrar novos fornecedores de milho, soja e carne se o Brasil se recusar a permitir o reabastecimento dos navios.

O problema é que o Brasil que sempre teve um comportamento pragmático no plano diplomático agora é comandado por um presidente que finge ser nacionalista, mas, na prática, repercute a agenda estadunidense.  O cenário é piorado pela atuação de um ministro das Relações Exteriores, o excêntrico (digamos assim) Ernesto Araújo, que se declara em uma espécie de cruzada pessoal em defesa da pureza cristã do Ocidente (seja isso lá o que for). Essa combinação é um coquetel perfeito para a repetição de casos como desses dois navios iranianos, com potencial nuclear de destruição da capacidade operacional do comércio exterior brasileiro.

O interessante é que até agora só se ouviu reclamos murchos  da Federação da Agricultura do Paraná (FAEP) que teria lembrado em nota que o “país persa é um dos principais compradores de produtos importantes para o Paraná, como a soja e a carne bovina. Mas pela reação geral vinda do governo Bolsonaro, as súplicas da FAEP caíram em ouvidos mocos. Por outro lado, a ministra Tereza Cristina, sempre tão loquaz na defesa de agrotóxicos, continua aparentemente fechada em copas em um silêncio que poderá ser sepulcral para a agricultura paranaense.

Finalmente, há que se lembrar que o então candidato Jair Bolsonaro teve expressiva votação nos chamados “estados do agronegócio”. Agora com essa medida que começa prejudicando inicialmente o Paraná, vamos ver como fica a popularidade do presidente que está arriscando perder um grande parceiro comercial em nome de sua ânsia de bajular o presidente estadunidense Donald Trump. Aos latifundiários que juraram amores por Bolsonaro, fica a pergunta se esse amor está sendo retribuído da forma que eles esperavam.

 

Irã aponta um fato inexorável: não há futuro no petróleo

O mundo acordou hoje para as consequências imediatas da suspensão do embargo econômico promovido contra a república islâmica do Irã após o governo daquele país cumprir as exigências feitas em relação ao abrandamento do seu programa nuclear.

Mas para quem pensa que está todo mundo contente com o retorno do Irã ao acesso pleno à economia mundial, engana-se redondamente. Para tanto, basta ver duas matérias publicadas sobre o assunto pela Rede Francesa de Informação (RFI) e pela BBC que são mostradas nas imagens abaixo.

É que a alegria do Irã em poder retomar US$ 100 bilhões de dólares que estavam arrestados nos países ocidentais e de poder vender seu petróleo livremente estão causando uma forte derrubada das bolsas de valores no Golfo Pérsico, deixando as monarquias da região em polvorosa. Aliás, o mesmo efeito deverá ser sentido nas bolsas da Ásia, da Europa e dos EUA. 

Aparentemente o que é bom para a paz e para o Irã é péssimo para os especuladores que operam no mercado de ações.

Agora, interessante mesmo é o conteúdo de uma matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo e que repercute conteúdo de agências internacionais. É que, como mostra a imagem abaixo, o governo dos aiatolás não quer que a economia iraniana continue dependente da venda do seu petróleo!

oil crise 3

É que além de saber que a entrada do seu próprio petróleo vai jogar ainda mais os preços que já estavam afundando, o Irã também sabe que há uma forte mudança em curso na matriz energética que tornará os combustíveis fósseis obsoletos.  Dai que a transição para menos dependência do petróleo deve estar sendo considerada como estratégica pelos iranianos.

Aliás, é só no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, que o petróleo ainda é tratado como esperança do futuro. Celso Furtado e Florestan Fernandes certamente atribuiriam este erro grosseiro de análise ao caráter dependente da economia brasileira. 

Refletindo crise, preço do petróleo cai ao menor valor desde 2009

 

petroleo

Um indicativo de que o comportamento regressivo da economia chinesa já está tendo impactos importantes, a Bloomberg News já colocou no ar uma matéria mostrando que o Índice Brent, principal indicador dos preços do petróleo bruto no mundo, caiu para menos de 45 dólares, o menor valor desde 2009 (algo em torno de US$ 43.72 como mostrado no infográfico acima).

Como os efeitos do desaquecimento da economia chinesa precisam ser associados ao aumento da oferta de petróleo, incluindo a entrada do óleo iraniano no mercado mundial, as expectativas é de que a queda nos preços vá continuar. Dai se depreende que a extração do petróleo do pré-sal poderá se tornar inviável economicamente.  Por outro lado, diante de preços cada vez menores, é de se esperar que em algum momento o preço da gasolina comece a cair no mercado brasileiro. Ou não!

Reuters: acordo nuclear do Irã vai derrubar ainda mais os preços do petróleo!

Pump Jacks are seen at sunrise near Bakersfield, California October 14, 2014. REUTERS/Lucy Nicholson/Files

A matéria abaixo publicada pela agência Reuters aponta que o acordo nuclear firmado pelo Irã terá como efeito indireto uma depressão ainda maior nos preços do petróleo em função do volta do país ao mercado internacional. O interessante é que o petróleo iraniano ainda vai levar um tempo para alcançar os mercados globais e os preços futuros já estão desabando. Além disso, como o mercado mundial de petróleo já está super carregado, quando o óleo iraniano chegar ao mercado mundial, a expectativa é de uma queda ainda maior nos preços.

Moral da história para os municípios petrorentistas na região da Bacia de Campos: apertem seus cintos, modernizem seu controle de gastos, e cortem os cargos comissionados. Do contrário, o que hoje parece ruim, vai parecer excelente como memória histórica.

 

Oil prices tumble as Iran, global powers reach nuclear deal

Oil prices tumbled more than $1 on Tuesday after Iran and six global powers reached a landmark nuclear deal that would see an easing of sanctions against Tehran and a gradual increase in its oil exports.

The agreement, which capped more than a decade of on-off talks, was hailed by Iranian and Western diplomats as a “historic moment” that opens the way to a new phase in international relations.

Under the deal, sanctions imposed by the United States, European Union and United Nations would be lifted in exchange for curbs on Iran’s nuclear programme.

There were no immediate details on how sanctions would be eased on oil.

Front-month Brent crude futures LCOc1 had dropped $1.15 to $56.70 a barrel by 0930 GMT. U.S. crude CLc1 was trading down $1.05 at $51.15 per barrel.

Analysts say it would take Iran many months to fully ramp up its export capacity following any easing of sanctions. But even a modest initial increase would be enough to pull international oil prices down further as the market is already producing around 2.5 million barrels per day above demand.

“Even with a historic deal, oil from Iran will take time to return, and will not be before next year, most likely the second half of 2016,” Amrita Sen, chief oil analyst at London-based consultancy Energy Aspects, told Reuters.

“But given how oversupplied the market is with Saudi output at record highs, the mere prospect of new oil will be bearish for sentiment.”

Sanctions on the Islamic Republic have almost halved its exports to a little over 1 million barrels per day. A deal could see Iran increase its oil exports by up to 60 percent within a year, a Reuters survey of analysts said.

“Sanctions have crippled Iran’s oil production, halving oil exports and severely limiting new development projects. The prospect of them being lifted is creating great excitement … as foreign trade and investment will allow Iran to make huge efficiencies and drive down the cost of production,” said Sarosh Zaiwalla, a London-based sanctions lawyer.

(Additional reporting by Hennning Gloysten in Singapore; Editing by Dale Hudson)

FONTE: http://uk.reuters.com/article/2015/07/14/uk-markets-oil-idUKKCN0PO01T20150714?utm_source=Facebook