Belo Monte e o que vi, o que ficou, o que ainda ameaça correr

Imagens de algumas reportagens que fiz sobre Altamira e Belo Monte

Por Ismael Machado* 

Ando revendo, até por conta desse novo espaço criado, algumas das histórias que relatei nesses 35 anos de trajetória profissional. Algumas coisas testemunhadas nessa Amazônia repleta de complexidades. Belo Monte, por exemplo. Durante cerca de seis anos, entre idas e vindas à região do Rio Xingu, por volta de 2008 a 2013, acompanhei, como repórter, a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Não foi uma cobertura contínua, mas uma sequência de retornos — e isso fez diferença. Porque, a cada viagem feita, o que antes era anúncio de desmazelos começava a ganhar forma concreta e o que era dúvida passava a ter consequência direta entre a população local.

O que mais ficou dessas viagens não foram os números do empreendimento, sempre grandiloquentes, mas as vozes de quem seria diretamente afetado por essa obra sonhada desde o regime militar e levada a cabo definitivamente na gestão federal do PT.

Rememoro essas vozes pouco ouvidas. Celso Albertino da Silva, morador de um travessão da Transamazônica, dizia que não se prende um rio como se prende um boi. Não havia ironia na frase. Era uma leitura direta de quem conhecia o comportamento da água. Ele explicava que, ao desviar o curso, o rio encontraria outro caminho. O lugar onde vivia, segundo o projeto, se transformaria numa espécie de cuia — as partes altas permanecendo, o resto submerso.

Em Paratizão, Émerson Nascimento Pessoa não falava de engenharia nem de impacto ambiental. Falava de permanência. “Não tenho vontade de sair daqui.” Tinha três filhos pequenos e uma casa à beira do rio. Ao lado, Silmara Mendes Costa, a Caçulinha, dizia o que talvez fosse mais preciso: sair dali seria uma tristeza. Não havia cálculo nisso.

Os pais de Émerson já tinham ido embora. Deslocados não para outro projeto de vida, mas para não assistir ao que consideravam inevitável. “Saíram antes pra não ver isso aqui perdido”, constatava Émerson. Em vários pontos do Xingu, a decisão de sair antecipadamente aparecia como forma de evitar o testemunho da própria perda.

Mais acima, em Arroz Cru, Francélia Nogueira da Costa insistia numa pergunta que se repetia em diferentes comunidades: o que significava, de fato, a tal “indenização”? Falava-se em assegurar isso às famílias, mas sem clareza sobre como se traduziria na vida concreta de quem sempre viveu da roça e da pesca. Nunca esqueci um casal formado por uma bióloga e um técnico agrícola lá no meio de uma propriedade num travessão da Transamazônica. No meio do almoço que ela fez questão de preparar a mim, ao motorista e ao repórter fotográfico, me endereçou essa resposta quando questionei sobre a indenização da pequena propriedade agroflorestal que eles mantinham há uns dez anos. “Quanto custa o nosso sonho? Qual o valor monetário dele?”. Essa fala me acompanha sempre quando alguma discussão nesse sentido entra em pauta em rodas de conversa.

Ao mesmo tempo, a ativista Antônia Melo denunciava a forma como as negociações eram conduzidas — fragmentadas, diretas, com promessas que circulavam de maneira desigual entre comunidades. Para ela, havia um esforço claro de dissolver resistências.

Na Prelazia do Xingu, Dom Erwin Krautler dizia que o ponto decisivo era impedir a primeira barragem. A leitura era simples: uma vez iniciada, a lógica do empreendimento seguiria adiante.

Enquanto essas falas se acumulavam, Altamira mudava rapidamente.

A cidade recebia trabalhadores, o comércio se movimentava, a promessa de crescimento ganhava corpo. Mas a estrutura não acompanhava. Ali por volta de 2013, o Hospital Municipal São Rafael passou de cerca de 200 atendimentos diários para uma média de 500 em poucos meses. Filas se formavam onde antes havia margem.

Lembro de Elismar Carvalho, dona de hotel, percorrendo hospitais em busca de atendimento e não conseguindo, mesmo com plano de saúde. O relato se repetia em diferentes versões. A cidade crescia mais rápido do que conseguia absorver esse crescimento.

O aumento populacional trouxe também pressão sobre segurança, educação, serviços básicos. A própria Associação Comercial de Altamira, inicialmente favorável à obra, passou a falar em cobranças, em acordos não cumpridos, em falta de planejamento.

No rio, as mudanças começavam a aparecer antes mesmo da conclusão da usina.

 

Na Volta Grande do Xingu, Manoel Juruna dizia não haver compensação possível para a destruição do modo de vida. A preocupação com a redução da água e com a pesca era constante. E não era apenas projeção.

Entre ribeirinhos, a incerteza e o medo eram regras.

Manoel Neves de Araújo sabia que a decisão não passava por ele. “Não é com muita vontade que a gente vai sair daqui.” Albino Pessoa dos Santos, o Fininho, também estava cadastrado para indenização, mas deixava claro: preferia não sair. Manoel Matos da Cruz e Laura de Souza, já idosos, sequer sabiam para onde iriam.

As perguntas estavam todas colocadas ali. Mas as respostas, como na canção de Bob Dylan, ficavam soprando no ar.

Hoje, passados anos da entrada em operação de Belo Monte, é possível olhar para trás e perceber que muitas dessas questões não foram resolvidas, apenas arquivadas no tempo.

A Volta Grande do Xingu convive com redução significativa de vazão em determinados períodos. A pesca, base alimentar e econômica de comunidades indígenas e ribeirinhas, foi profundamente afetada. Espécies diminuíram, rotas migratórias foram alteradas, e a regularidade que organizava a vida ao redor do rio deixou de existir como antes.

Os reassentamentos urbanos, apresentados como solução, trouxeram novos problemas. Muitas famílias deslocadas passaram a viver em áreas com infraestrutura padronizada, distante do rio e das atividades que garantiam sua subsistência. O custo de vida aumentou, a dependência de renda monetária se intensificou, e a promessa de melhoria não se realizou de forma homogênea.

Em Altamira, o ciclo da obra deixou marcas conhecidas. O crescimento acelerado durante a construção, seguido por retração econômica. Parte dos empregos desapareceu com o fim das obras. A pressão sobre serviços públicos não recuou na mesma proporção.

No campo energético, a usina opera, mas as limitações apontadas ainda durante a construção permanecem relevantes. A dependência do regime de chuvas do Xingu faz com que a geração efetiva varie bastante ao longo do ano, distante da potência instalada anunciada.

A energia produzida segue majoritariamente destinada a setores industriais de grande consumo. A relação direta entre o impacto local e o benefício para a população da região continua sendo uma questão aberta.

Nada disso é exatamente novo. Estava, de alguma forma, anunciado nas falas recolhidas ao longo daqueles anos. O que mudou foi o tempo, pois o que era previsão tornou-se condição. E é a partir dessa condição que se projeta o que vem pela frente.

Belo Monte nunca foi um caso isolado. Ela se insere numa lógica mais ampla de ocupação e uso dos rios amazônicos como base para grandes projetos energéticos. Outros rios da região — como o Rio Tapajós, o Rio Madeira e o Rio Tocantins — já foram ou continuam sendo, alvo de propostas semelhantes, em diferentes estágios.

A experiência do Xingu funciona, nesse sentido, como referência concreta.

Ela mostra que os impactos não se encerram com a conclusão da obra. O deslocamento nunca é apenas geográfico. E as compensações financeiras não substituem modos de vida. O que se percebeu é que sistemas urbanos locais dificilmente acompanham o ritmo imposto por grandes empreendimentos. E que os efeitos ambientais se estendem no tempo, muitas vezes de forma irreversível.

Há uma dimensão de Belo Monte não medida em megawatts, cronogramas ou cifras bilionárias. Ela aparece como lembrança incômoda nos alertas que, ainda no período de implantação da usina, foram feitos por pesquisadores, lideranças locais e órgãos públicos, muitos deles ignorados ou relativizados no calor da decisão política.

“Não há na história nenhum registro de construção de barragem que não tenha gerado consequências sérias e irreversíveis para as populações locais”, advertia a antropóloga Sônia Magalhães. Sua afirmação não era retórica. Ela sintetizava um conjunto de incertezas que, à época, cercavam o projeto, sobretudo pela ausência de estudos aprofundados em áreas consideradas sensíveis.

Do ponto de vista ecológico, os dados disponíveis já indicavam um cenário de excepcionalidade. Um estudo conduzido pelo biólogo Hermes Ferreira apontava que a diversidade de peixes na área diretamente afetada pela barragem superava a de todo o continente europeu. Tratava-se de um ecossistema singular, moldado por barreiras naturais como as cachoeiras da Volta Grande do Xingu, que funcionavam como zonas de isolamento e evolução de espécies. Ainda assim, como reconheciam os próprios especialistas, era uma área insuficientemente estudada, o que ampliava o grau de risco. “De qualquer perspectiva que se olhe, social ou ambiental, não se sabe o custo de Belo Monte”, resumia Sônia Magalhães.

Enquanto isso, o consórcio responsável pela obra, a Norte Energia, um grupo formado por diversas empresas estatais e privadas envolvidas na construção de Belo Monte, sustentava que os impactos estavam sendo mitigados dentro do previsto. Em notas oficiais, destacava investimentos em infraestrutura urbana, como a ampliação do saneamento básico em Altamira — onde, até então, apenas 18% da população tinha acesso à água tratada e não havia rede de esgoto estruturada. A empresa também citava ações vinculadas ao Projeto Básico Ambiental (PBA) e ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-X), que prometia destinar centenas de milhões de reais à região.

Essa narrativa institucional, no entanto, convivia com uma realidade mais desordenada no território. O avanço das obras trouxe consigo um crescimento populacional acelerado, pressões sobre serviços públicos e transformações sociais abruptas. Próximo aos canteiros, surgiam estruturas improvisadas que evidenciavam esse novo contexto — como a chamada “Boate Xingu”, instalada à margem da floresta, símbolo de uma economia paralela que acompanha grandes empreendimentos. Nossa equipe retornava de uma aldeia quando deparamos com essa ‘boate’ armada à margem da floresta, anunciando ‘modelos’ vindas de São Paulo para a inauguração. Mais ‘Bye Bye Brasil’ impossível.

Para as populações diretamente afetadas, o futuro aparecia como uma violenta ruptura. Povos indígenas da Volta Grande do Xingu temiam a redução drástica da vazão do rio, com impactos diretos sobre a pesca, a navegação e os modos de vida tradicionais. “Tampando o rio, como é que nós vamos ficar?”, questionava José Arara, liderança indígena, ao apontar o leito pedregoso que poderia secar. Entre os Juruna da aldeia Paquiçamba, a desconfiança em relação às compensações oferecidas era evidente. “Prometeram muito e cumpriram pouco”, dizia o cacique Manoel Juruna, reforçando a percepção de que não havia equivalência possível entre indenização financeira e perda territorial.

Entre ribeirinhos, o dilema assumia outra forma com o deslocamento compulsório. Comunidades inteiras seriam inundadas, e a indenização oferecida não garantia a reconstrução das condições de vida. “Poder é poder”, resumia Manoel Neves de Araújo, morador do Paratizinho, ao expressar a sensação de impotência diante da obra.

No campo jurídico, as controvérsias eram igualmente intensas. A Advocacia-Geral da União buscava no Supremo Tribunal Federal reverter decisões que haviam suspendido as obras, enquanto a Procuradoria-Geral da República sustentava que não havia base para tal intervenção. No centro da disputa estava um ponto crucial: o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da OIT. Para o Ministério Público, consultas realizadas após decisões já tomadas eram “mera forma sem substância”, incompatíveis com o princípio da autodeterminação.

As críticas não se restringiam ao campo social ou jurídico. Especialistas em energia também questionavam a lógica econômica do empreendimento. O pesquisador Célio Bermann argumentava que Belo Monte não se justificava pela eficiência energética, mas pelo volume de recursos mobilizados durante sua construção. Segundo ele, a rentabilidade para grandes empreiteiras estava concentrada na execução da obra, não na geração de energia em si.

Os números reforçavam a desconfiança. O custo estimado do projeto saltou de R$ 4,5 bilhões, em 2006, para mais de R$ 26 bilhões — com projeções que ultrapassavam R$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, estudos indicavam que a usina operaria em plena capacidade por apenas alguns meses ao ano, devido ao regime hidrológico do rio Xingu. Durante a estiagem, a produção poderia cair a cerca de um décimo da capacidade instalada.

No campo ambiental, os riscos eram descritos com precisão técnica. Relatórios apontavam para a possibilidade de eutrofização dos reservatórios, com impactos na qualidade da água e na saúde pública. A eutrofização, para os menos afeitos a termos tão técnicos, é o enriquecimento excessivo de nutrientes (especialmente nitrogênio e fósforo em corpos d’água), causando o crescimento descontrolado de algas e cianobactérias. Esse processo, geralmente provocado por esgoto ou fertilizantes, reduz o oxigênio da água, causando a morte de peixes e a degradação do ecossistema.

A redução de até 80% da vazão na Volta Grande do Xingu ameaçava extinguir espécies endêmicas, enquanto a perda de igarapés, fundamentais para a reprodução de peixes, poderia comprometer mais da metade das espécies aquáticas da região. Era um cenário apocalíptico que lentamente foi se desenhando real.

Os próprios técnicos do IBAMA reconheciam limitações nos estudos de impacto ambiental. Em parecer interno, admitiam que análises não haviam sido concluídas com a profundidade necessária, especialmente em relação às populações indígenas e aos efeitos do crescimento populacional. Havia, segundo o documento, um “grau de incerteza elevado” em aspectos essenciais, como a qualidade da água.

Paralelamente, indicadores já mostravam efeitos indiretos do empreendimento. Dados do Imazon apontavam que Altamira liderava o desmatamento na Amazônia naquele período, um sinal claro da pressão territorial associada à obra.

É bom enfatizar, fazendo um extenso parêntesis, que desde pelo menos 2021, vários estudos científicos e análises de indicadores socioambientais mostram que os municípios da Amazônia (e do Brasil como um todo) que mais desmatam tendem a apresentar piores indicadores de qualidade de vida, desenvolvimento social e renda do que aqueles com menor desmatamento. Pesquisas baseadas no Índice de Progresso Social (IPS) — um indicador internacional que considera aspectos como moradia, acesso à educação, inclusão social e bem-estar — revelam que, na Amazônia Legal, os municípios com maiores áreas de floresta derrubada têm pontuações médias significativamente mais baixas no IPS do que tanto a média do Brasil quanto a média regional. Esse padrão sugere que o modelo de desenvolvimento baseado na remoção da floresta não tem trazido melhorias substanciais nas condições de vida das populações locais e pode estar associado à pobreza, exclusão social e baixo progresso social.

Um exemplo emblemático dessa relação é o caso de Altamira, tema principal desse texto, que por muitos anos foi apontado como um dos municípios brasileiros com maiores áreas desmatadas na Amazônia. A intensa pressão sobre a floresta local, historicamente impulsionada por atividades como pecuária e agricultura de corte e queima, se refletiu em desafios sociais e econômicos persistentes e em indicadores de progresso social abaixo da média nacional, conforme levantamentos do Imazon e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O legado de desmatamento intenso ilustra como a simples remoção de floresta dificilmente se traduz em qualidade de vida mais elevada ou desenvolvimento sustentável para as comunidades amazônicas.

E retorno a Belo Monte. O conjunto desses elementos compunha, já naquele momento, um quadro de alertas consistentes. Ainda assim, a resposta institucional frequentemente se apoiava na promessa de que falhas seriam corrigidas em projetos futuros. Como admitiu o então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, havia problemas no processo, mas a expectativa era de que “o próximo seria diferente”.

Na Amazônia, essa lógica recorrente — de reconhecer erros apenas depois de consumados — revela uma constante histórica. Decisões estruturais são tomadas sob incerteza, enquanto os custos sociais e ambientais se tornam evidentes apenas no decorrer do tempo. Belo Monte, naquele contexto, já carregava todos os sinais de um projeto cujo impacto ultrapassaria, em muito, as previsões oficiais.

Celso Albertino, do alto de sua experiência ribeirinha, dizia que a água não se segura.

O que se tentou fazer em Belo Monte foi reorganizar o curso do rio dentro de um desenho técnico. O resultado não foi um rio contido, mas um sistema em permanente ajuste, com consequências distribuídas ao longo dos anos.

O Rio Xingu continua correndo.

E sofrendo novas ameaças. De algo que também já havia sido alertado anos atrás. A exploração de ouro, minério detectado quando da construção de Belo Monte.

E voltamos ao mesmo ciclo, já que a tentativa da mineradora canadense Belo Sun Mining Corp. de instalar o projeto Volta Grande, destinado à exploração de ouro na região de Altamira e de Senador José Porfírio, recoloca a Volta Grande do Xingu no centro de uma nova disputa socioambiental. Após idas e vindas judiciais, decisões recentes restabeleceram etapas do licenciamento do empreendimento, permitindo que a empresa avance no processo de instalação da mina. No entanto, a controvérsia está longe de encerrada. O Ministério Público Federal, organizações da sociedade civil e lideranças indígenas seguem questionando a validade dos estudos ambientais apresentados e, sobretudo, a ausência de consulta prévia, livre e informada às populações potencialmente afetadas, algo que, vale repetir, é um direito assegurado pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição brasileira.

A proposta da Belo Sun prevê a implantação de uma das maiores minas de ouro a céu aberto do país justamente em uma área já profundamente impactada pela Usina de Belo Monte. A instalação de uma mineração em larga escala, com uso de substâncias químicas como cianeto no processamento do minério, amplia o risco de contaminação da água, do solo e da cadeia alimentar. Para povos que já enfrentam a diminuição da pesca e mudanças no regime do rio, a perspectiva de mais um grande empreendimento representa a sobreposição de impactos em um território fragilizado. O histórico amazônico mostra que a promessa de desenvolvimento raramente se traduz em melhoria estrutural da qualidade de vida da maioria da população local. Insisto nessa tecla, pois como repórter sempre ouvi a frase chantagista ‘ou é isso ou determinado município vai estagnar na miséria eterna’. Sempre foi uma coisa ou outra, no discurso de quem defende sempre os avanços em prol da palavra da moda (progresso, desenvolvimento etc).

A situação em Altamira evidencia, portanto, uma encruzilhada. De um lado, a lógica capitalista de expansão mineral como vetor de crescimento econômico; de outro, a defesa de direitos territoriais, da integridade ecológica e da precaução em uma região já marcada por desequilíbrios produzidos por Belo Monte. A insistência em avançar com um novo megaprojeto na Volta Grande do Xingu, sem que as incertezas acumuladas tenham sido plenamente enfrentadas, reforça a percepção de que a Amazônia continua sendo tratada como fronteira de exploração, e não como território de direitos.

É um filme gasto e repetido. Nas telas outrora verdes hoje cor de terra seca, um bangue-bangue estrelado por John Wayne onde infelizmente os vilões nunca são punidos ao final.

 

Postagem em protesto contra a exploração de ouro pela Belo Sun.


*Ismael Machado é jornalista

A Amazônia depois da COP 30: o que ficou, o que segue em disputa

Por Ismael Machado* 

O calor era pesado naquele agosto de 1995, em Corumbiara, Rondônia. O maior conflito agrário já registrado em Rondônia até então e um dos mais brutais da história do estado deixaram como rastro dez mortos e dezenas de feridos. As imagens e relatos dos crimes cometidos em Corumbiara chocaram o mundo, diante da brutalidade perpetrada pela polícia militar de Rondônia contra as cerca de 600 famílias que estavam acampadas na Fazenda Santa Elina. Cobri esse massacre como repórter de uma TV em Porto Velho.

Anos depois, acompanhando o julgamento do Massacre de Eldorado dos Carajás, o ar parecia ainda mais denso — não apenas pela temperatura, mas pelo acúmulo de tudo o que não se resolveu ali. Corpos tombados que voltavam como memória em relatos no tribunal, vozes interrompidas que insistiam em atravessar o tempo. Em outro momento, no interior do Pará, o enterro de Dorothy Stang se deu sob um silêncio irregular, um grito sufocado vindo de dentro da floresta.

Mais tarde, já no audiovisual, ao dirigir um documentário atravessando áreas de mineração no sudeste do Pará, onde a presença da Vale redefine paisagens, ritmos e destinos, a sensação era outra, mas não menos intensa: comunidades inteiras reorganizadas em função de um projeto que chega com escala global e impacto local imediato. Em todos esses momentos, separados no tempo e na linguagem testemunhadas por mim, havia um elemento comum: a Amazônia não se deixa reduzir a uma narrativa única. O que se revela é um território feito de camadas simultâneas, onde conflito, permanência e reinvenção coexistem. E foi com essa e tantas outras memórias acumuladas que ano passado acompanhei as discussões sobre a COP-30.

Quando a Conferência chegou a Belém, projetou sobre a Amazônia uma expectativa rara, a de que, finalmente, o centro das decisões globais coincidiria com o território mais decisivo para o equilíbrio climático do planeta. Para quem acompanha essa realidade há décadas, havia ali menos surpresa do que reconhecimento. A promessa de convergência entre discurso global e realidade local já apareceu antes, com outros nomes, outras agendas e outros protagonistas.

Passado o evento, o contraste entre promessa e realidade se torna mais nítido. A floresta permaneceu onde sempre esteve, ou seja, atravessada por pressões econômicas, conflitos fundiários, experiências de resistência e formas de vida que não cabem facilmente nos modelos dominantes de desenvolvimento. Ao longo dessas décadas, o que se observa não é exatamente uma transformação estrutural, mas uma sucessão de camadas que se sobrepõem. São velhas práticas que não desaparecem, apenas se reconfiguram para caber nos discursos do presente. Nos últimos dias tivemos a notícia de que uma equipe do Ibama foi recebida a tiros em uma área de garimpo clandestino. Fato isolado? Nunca.

Para além de respostas definitivas, o legado da conferência deixou perguntas incômodas. Houve avanços institucionais, compromissos reafirmados e um volume de recursos anunciados. Ainda assim, a dinâmica concreta da região não se altera por declarações. A Amazônia segue sendo tratada, em grande medida, como espaço de exploração, ainda que sob novos discursos. A linguagem da sustentabilidade ganhou centralidade, mas sua tradução prática continua em aberto. Vista em perspectiva, essa recorrência revela um padrão persistente.

A noção de bioeconomia, amplamente mobilizada durante e após a COP, exemplifica bem essa ambiguidade. Em alguns casos, tem servido como base para iniciativas que valorizam cadeias produtivas locais, respeitam o ritmo dos ecossistemas e garantem renda para comunidades. Em outros, aparece como uma reedição de práticas antigas, agora revestidas de termos mais aceitáveis no cenário internacional. Ao longo do tempo, diferentes conceitos ocuparam esse lugar de promessa — desenvolvimento sustentável, economia verde, inovação florestal — , quase sempre carregando a mesma questão de fundo, que se resume numa sentença para mim: o problema nunca esteve apenas na ideia, mas nas condições concretas de sua implementação. Em outras palavras, quem define as regras, quem controla os processos e quem se beneficia dos resultados.

Essa disputa ganha ainda mais nitidez quando observada sob a lente econômica. O Banco Mundial calcula que a floresta amazônica em pé teria um valor de US$ 317 bilhões por ano. Ainda assim, o que se verifica na prática revela uma inversão profunda de prioridades. Em 2024, o Pará, que exportou US$ 23 bilhões, eliminou 6,7 milhões de árvores da floresta e obteve um faturamento diminuto de apenas US$ 500 milhões com as madeiras da Amazônia. A discrepância entre o valor potencial da floresta preservada e o retorno efetivo da sua exploração predatória expõe, de forma quase didática, o descompasso entre discurso e prática.

No plano territorial, a situação continua marcada por assimetrias profundas. A expansão de atividades ilegais, como o garimpo e a grilagem, convive com políticas de proteção frequentemente frágeis ou descontinuadas. Ao mesmo tempo, povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e camponesas mantêm formas de ocupação e uso da terra que demonstram, na prática, outras possibilidades de relação com o ambiente. Essas experiências não são residuais; constituem parte significativa da realidade amazônica e, em muitos casos, são justamente o que impede que a devastação avance ainda mais rapidamente. Ao longo de anos de cobertura, elas aparecem como uma possibilidade de futuro, ainda que constantemente ameaçadas.

No livro Arrabalde, de João Moreira Salles, ele descreve uma frase de um antigo madeireiro que também já ouvi diversas vezes. O depoimento, sincero, de “quando cheguei aqui não tinha nada”. Esse nada era a floresta. O inimigo a vencer, como amplamente divulgado na propaganda oficial do governo militar, por intermédio de órgãos como Sudam e Basa, por exemplo.

Há outras formas de ver a Amazônia, no entanto. Tenho pensado nisso a partir do contato com diversas pessoas que buscam formas diferentes de viver. A cultura ocupa um lugar central nesse cenário, embora nem sempre seja reconhecida como tal. Na música, nas artes visuais, no audiovisual, na gastronomia e na moda, para ficar em exemplos simples, a Amazônia contemporânea vem produzindo linguagens que articulam tradição e experimentação. Essas produções não apenas representam o território, mas participam ativamente de sua construção simbólica e política. Ao mesmo tempo, enfrentam o risco constante de apropriação externa, que transforma referências locais em mercadoria global sem retorno proporcional para seus criadores — um processo que se repete com impressionante regularidade.

No campo da moda, por exemplo, cresce o interesse por matérias-primas amazônicas e por estéticas associadas à floresta. Parte desse movimento se organiza em torno de práticas mais responsáveis, com cadeias produtivas curtas e maior transparência. Outra parte, no entanto, reproduz lógicas já usadas e reusadas, deslocando valor para fora da região. A questão não está apenas no produto final, mas no percurso que ele percorre até chegar ao mercado. Ao longo do tempo, o que muda são os intermediários e as narrativas; a estrutura de concentração de valor, muitas vezes, permanece. Há quem resista a isso e é um alento encontrar esses focos de resistência. Não à toa, a maioria encabeçado por mulheres.

Essa diversidade de possibilidades produtivas também se expressa na própria floresta. Cientistas brasileiros já descreveram, na Amazônia, plantas capazes de produzir fibras, celulose, corantes, óleos essenciais, óleos vegetais fixos, alimentos e substâncias medicinais, com potencial para gerar cadeias econômicas nos setores de alimentos, cosméticos e farmacêutico. Nesse último caso, o contraste também chama atenção: o mercado farmacêutico brasileiro conta com 411 empresas, sendo 295 de capital nacional e 116 internacionais, movimentando cerca de US$ 36 bilhões, enquanto a biodiversidade amazônica, uma de suas maiores bases potenciais, segue subaproveitada ou capturada de forma desigual.

O tema da alimentação também sintetiza muitas dessas tensões vividas atualmente. Sistemas agroflorestais, manejo tradicional e agricultura familiar convivem com a expansão de monoculturas voltadas à exportação, como a soja, no exemplo mais forte atualmente. Cada modelo implica formas distintas de uso do solo e da água, de distribuição de renda e de impacto ambiental. Nesse contexto, a discussão sobre a terra permanece central. A concentração fundiária e a insegurança jurídica alimentam conflitos e dificultam a consolidação de alternativas sustentáveis. O geógrafo Bruno Malheiro tem pesquisas aprofundadas que mostram como a questão da Amazônia como exportadora de soja é um projeto federal. Como diria aquele personagem do Chapolin Colorado: “e agora, quem irá nos ajudar?”.

Converso com Pablo Neri, uma jovem liderança do MST e ele me aponta, categórico, que a reforma agrária, adaptada às especificidades amazônicas e orientada por princípios agroecológicos, precisa voltar a aparecer como elemento estratégico fundamental, ainda que enfrente resistências políticas e econômicas significativas. Quem se aprofunda mais nessa luta corre o risco de sempre ser recebido com violência. Essa é uma constante histórica, registrada de forma contundente por José Batista Afonso e Aírton Pereira no indispensável livro “Assassinatos e Impunidade no campo e no Pará — 1980 a 2024” e também algo que, ao longo de décadas de jornalismo na região, sei que não são apenas dados ou estatísticas, mas um modelo de enfrentamento que se tornou quase um padrão que atravessa gerações.

Leio um texto do jornalista Paulo Silber e vejo esse padrão se repetindo. Ele informa sobre um protesto na Terra Indígena Mãe Maria que paralisou trens da Estrada de Ferro Carajás, reacendendo ações do MPF que questionam licenciamento ambiental e consulta às comunidades. A comunidade indígena mira a Vale, em protesto contra os impactos ambientais atribuídos às obras de duplicação da ferrovia, que já tinha sido alvo de outros protestos recentes. O bloqueio ocorreu no município de Bom Jesus do Tocantins e foi organizado por lideranças de povos que vivem na Terra Indígena Mãe Maria, território com cerca de 62 mil hectares e população aproximada de 1,3 mil pessoas. A área é habitada por povos Gavião, entre eles Parkatêjê, Kyikatêjê e Akrãtikatêjê.

Esse filme já vimos antes. Ainda veremos essa repetição. É fato.

Há caminhos. Iniciativas organizadas por mulheres, jovens, produtores culturais e trabalhadores do campo vêm construindo soluções que articulam geração de renda, preservação ambiental e fortalecimento comunitário. Essas experiências operam em escalas diversas e, muitas vezes, com recursos limitados, mas apresentam um grau elevado de inovação social. O desafio está em ampliar seu alcance sem comprometer sua autonomia e também em conseguirem ser enxergadas de forma completa por quem tem a caneta decisória, algo que historicamente nem sempre acontece.

No plano internacional, a Amazônia permanece no centro de disputas geopolíticas. Interesses ligados a mercados de carbono, biodiversidade e recursos naturais continuam a se intensificar. A pressão externa, que ao longo do tempo já assumiu diferentes justificativas, encontra agora novas formas de se expressar no contexto da transição energética e da economia verde. Ao mesmo tempo, persistem movimentos estratégicos de grandes potências atentos aos recursos minerais da região. Esse cenário exige cuidado para que novas formas de dependência não se estabeleçam sob o argumento da sustentabilidade. A participação efetiva de atores locais nos processos decisórios se torna, nesse sentido, um ponto sensível. Trump sinaliza isso claramente, cobiçando as “terras raras”. A classificação de terrorismo ao PCC e ao Comando Vermelho acende uma luzinha amarela a quem consegue pensar um pouquinho nesse tabuleiro de xadrez do futuro.

Estamos preparados? Gostaria de dizer sim sem pestanejar. Mas entendo que a produção de conhecimento também precisa aparecer como dimensão estratégica. Universidades e centros de pesquisa da região desempenham papel fundamental na construção de alternativas, mas ainda enfrentam limitações estruturais. O fortalecimento dessas instituições, aliado ao reconhecimento dos saberes tradicionais, pode contribuir para a formulação de políticas mais ajustadas à realidade amazônica. Ainda assim, o que se vê, com frequência, é uma distância persistente entre o conhecimento produzido e sua incorporação efetiva nas decisões.

O período posterior à COP-30 não indica um desfecho, mas uma continuidade marcada por tensões e possibilidades. A sustentabilidade, frequentemente apresentada como consenso, revela-se, na prática, um campo de disputas. Diferentes projetos para a Amazônia seguem em confronto, cada um com suas prioridades, seus métodos e suas consequências.

A floresta, por sua vez, permanece como elemento central dessa equação, não apenas por sua importância ecológica, mas por concentrar modos de vida que desafiam padrões dominantes. O que está em jogo não se limita à preservação de um bioma, mas envolve a forma como sociedades organizam suas relações com o território, com o trabalho e com o futuro.

Independentemente de conferências, reuniões ou agendas governamentais, o que permanece é a necessidade de transformar compromissos em práticas consistentes, capazes de dialogar com a complexidade amazônica. E talvez o que a experiência acumulada ao longo de décadas permita afirmar, com alguma cautela, é que a Amazônia não muda no ritmo dos anúncios. Ela se transforma lentamente, de forma desigual e quase sempre em disputa, no entrelaçamento contínuo entre forças que tentam redefini-la em termos puramente econômicos e outras que insistem em mantê-la viva.


*Ismael Machado é jornalista.

Água na Amazônia: abundância em disputa

Saneamento precário, contaminação, conflitos agrários e o futuro de uma das maiores reservas da Terra

Fot0: Ismael Machado 

Por Ismael Machado*

Em 2010, numa viagem de reportagem ao arquipélago do Marajó para o jornal Diário do Pará, vivi uma das experiências que mais moldaram minha percepção sobre a água na Amazônia. A matéria tinha um título simples e certeiro, bolado pelo editor e parceiro Lázaro Magalhães — Breves pede água boa — mas o que encontramos estava longe de ser simples. Ao lado do saudoso repórter fotográfico Thiago Araújo, percorri comunidades em Breves, onde a vida cotidiana era atravessada por uma contradição brutal: gente cercada por rios e igarapés imensos, mas sem acesso à água potável.

No mesmo ano, produzi outra reportagem sobre a ausência quase total de saneamento na Região Metropolitana. Lembro especialmente de um personagem: Denilson Santos, conhecido como Manel, morador de uma área chamada Livramento, numa zona de fronteira entre Ananindeua, Marituba e Belém. Ele tinha vergonha de mostrar onde a família fazia suas necessidades fisiológicas — um buraco raso cercado por três troncos de açaizeiro. Não havia fossa, não havia banheiro, não havia dignidade mínima garantida pelo poder público. Na mesma reportagem, Maria Gorete Cardoso, à época com 47 anos, informava que apanhava água de uma cacimba comunitária no Curuçambá, em Ananindeua. Ela enchia latas e latas de água, botava numa canoa e voltava remando para sua casa na ilha do Jacineuma.

Naquele período, dados do Instituto Trata Brasil indicavam que a renda média de moradores da Grande Belém poderia aumentar cerca de 12% com acesso adequado à água e saneamento. Passados mais de quinze anos, não é possível afirmar que a transformação tenha ocorrido na escala prometida.

Dois anos depois dessas reportagens, escrevi uma série especial para o mesmo jornal em alusão ao Dia Mundial da Água, com a colaboração do ex-aluno Eraldo Paulino. O trabalho recebeu o primeiro (e único) Prêmio de Jornalismo Científico, iniciativa conjunta do governo estadual e da Universidade Federal do Pará. Entre os dados levantados, havia números alarmantes: cerca de 900 mil pessoas consumindo água contaminada em condomínios da região metropolitana e perdas de quase metade da água tratada devido à precariedade das tubulações. Vejo em meus arquivos as fotos de Thiago Araújo no print em PDF das reportagens e lamento nossa situação atávica.

Em Barcarena, o município industrial, o problema era a contaminação das fontes por conta da atividade das grandes empresas ali instaladas. A série jornalística mostrava que os conflitos pela posse da água já eram grandes no Pará, ladeando a luta pela posse da terra, mas encerrava mostrando iniciativas de recuperação de nascentes em algumas localidades. Uma gota de esperança num rio de problemas.

Revisitar essas memórias jornalísticas hoje é perceber como a crise hídrica e sanitária amazônica não é nova. É estrutural.

A Amazônia ocupa um lugar singular no planeta. A região concentra a maior bacia hidrográfica do mundo, cerca de um quinto da água doce superficial disponível na Terra. Rios de dimensões continentais atravessam a região, incluindo o próprio Amazonas, cuja vazão supera a soma de vários grandes rios globais. Em teoria, seria o território menos provável para enfrentar problemas relacionados à água.

Na prática, porém, a Amazônia tornou-se um dos exemplos mais contundentes de como abundância natural não garante acesso seguro, nem justiça social, nem estabilidade ambiental. A crise da água amazônica não é uma crise de disponibilidade. É de distribuição, qualidade, poder e modelo de desenvolvimento.

O paradoxo do copo vazio às margens do maior rio do mundo

Milhões de pessoas vivem próximas a rios imensos e, ainda assim, dependem de água sem tratamento — igarapés, poços rasos ou captação direta de rios contaminados. Comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas, assentamentos rurais e periferias urbanas convivem com doenças de veiculação hídrica que seriam evitáveis com infraestrutura básica.

Essa realidade revela uma das maiores dívidas históricas do Estado brasileiro na região: saneamento básico. A cobertura de coleta e tratamento de esgoto permanece entre as mais baixas do país, e a ausência de infraestrutura transforma a própria água disponível em vetor de doença. O problema não é apenas técnico. É estrutural e político.

Capitais regionais como Belém, Manaus e Porto Velho, para ficar apenas nessas três, mas entendendo que o problema é mais amplo, repetem o padrão: crescimento acelerado sem expansão equivalente das redes de saneamento. O avanço urbano não foi acompanhado por redes de água e esgoto na mesma velocidade. O resultado é uma geografia urbana desigual, onde bairros centrais têm abastecimento relativamente regular enquanto periferias dependem de soluções individuais, com poços improvisados ou ligações clandestinas, transferindo para o indivíduo uma responsabilidade que deveria ser pública.

A abundância natural, nesse contexto, não elimina a escassez socialmente construída.

Se a falta de infraestrutura compromete o acesso, a contaminação compromete a qualidade. A Amazônia enfrenta múltiplas fontes de degradação hídrica simultâneas.

O garimpo de ouro, especialmente o ilegal, libera mercúrio nos rios, contaminando peixes e populações humanas ao longo das cadeias alimentares. Estudos científicos têm identificado níveis preocupantes da substância em comunidades indígenas e ribeirinhas, com impactos neurológicos, cognitivos e gestacionais.

Ao mesmo tempo, o desmatamento altera o regime hidrológico, aumenta a erosão e o assoreamento dos cursos d’água, enquanto o esgoto urbano não tratado despejado diretamente nos rios agrava a deterioração ambiental. A água, símbolo histórico de pureza amazônica, torna-se vetor de risco sanitário.

Água como eixo de conflitos agrários

No campo amazônico, a água se transformou de recurso natural a elemento central de disputas territoriais. O avanço da fronteira agropecuária, da mineração, da exploração madeireira e da grilagem modificou e ainda modifica paisagens hidrológicas inteiras. Nascentes são degradadas, cursos d’água desviados e áreas úmidas drenadas para expansão dita produtiva.

Marabá, por exemplo, é alvo de um projeto polêmico. Pedral do Lourenço é um conflito socioambiental e econômico de longa data, centrado na remoção de formações rochosas no Rio Tocantins para viabilizar a navegação de grandes embarcações durante o ano todo, inclusive no período de seca. As obras, planejadas há anos, visam criar uma hidrovia que beneficia o escoamento da soja, por exemplo, mas enfrentam resistência de comunidades tradicionais e órgãos ambientais por conta de impactos à pesca e biodiversidade. O Governo Federal defende a obra como fundamental para o escoamento de soja e minérios e o sempre propalado desenvolvimento regional. A que custo?

Ao longo do tempo, hidrelétricas, portos, hidrovias, mineração e expansão agrícola são frequentemente apresentados como motores de desenvolvimento regional. No entanto, esses empreendimentos alteram regimes naturais de rios, impactam comunidades e geram novos conflitos socioambientais. Barragens modificam fluxos, afetam a pesca e alteram ecossistemas aquáticos. Estradas aumentam o desmatamento e mudam padrões de drenagem. Projetos de grande escala frequentemente redistribuem poucos benefícios econômicos enquanto concentram impactos sociais e ambientais em populações locais.

A disputa pela água, nesse sentido, é também disputa por modelos de desenvolvimento. O Rio Xingu nunca se recuperou totalmente do impacto do complexo hidrelétrico de Belo Monte. Eu sei porque vi. Estive lá em Altamira por oito vezes fazendo reportagens durante a construção da hidrelétrica. Havia locais do rio que eram únicos na vivência de peixes chamados ornamentais. Famílias como a de Genilson Gomes da Silva, então com 30 anos, viviam dessa atividade. Não mais. Foi lá que aprendi com Antônia Melo e Dom Erwin Krautler como é complicado lutar contra toda a força do capital e mesmo assim manter a dignidade.

O fato é que comunidades tradicionais frequentemente se veem diante da perda de acesso a fontes que garantiam sua sobrevivência por gerações. Controlar a terra significa também controlar a água e, portanto, controlar modos de vida. Poucas violências são tão simbólicas como essa.

Conflitos socioambientais envolvendo rios, barragens, irrigação e contaminação tornaram-se mais frequentes nas últimas décadas, revelando que a disputa pela água na Amazônia já é uma realidade concreta.

Eventos climáticos extremos recentes mostram que a Amazônia também não está imune a crises hidrológicas. Secas históricas reduziram drasticamente níveis de rios, isolaram comunidades, comprometeram o transporte fluvial e afetaram sistemas de abastecimento. Em outros momentos, cheias intensas provocaram contaminação de poços, colapso de estruturas sanitárias precárias e disseminação de doenças. Também acabo lembrando outra reportagem que fiz, dessa feita para o jornal O Globo, sobre a seca no rio Solimões, em Manacapuru. À época, 2003 ou 2004, se não me falha a memória, essas secas ainda eram relativamente uma novidade vistas com espanto. Deixaram de ser.

A alternância entre extremos — seca e inundação — aumenta a vulnerabilidade de populações que já vivem com infraestrutura limitada. Além disso, o desmatamento regional pode estar alterando o próprio ciclo hidrológico amazônico, reduzindo a capacidade da floresta de reciclar umidade e influenciando padrões de chuva em escala continental.

A água amazônica, essencial para o equilíbrio climático global, também depende da própria floresta para existir.

E aí vem a palavra que soa como doce na boca de políticos e governos. Privatização. Nos últimos anos, mudanças no marco regulatório do saneamento abriram espaço para maior participação privada no setor. Defensores argumentam que investimentos serão ampliados e a universalização acelerada. Críticos alertam para o risco de aprofundamento das desigualdades, especialmente em regiões onde o retorno financeiro é menor e os custos logísticos são mais altos como na Amazônia. E vamos ser sinceros? Talvez se conte nos dedos da mão a efetivação das promessas alardeadas pelos privatistas em qualquer setor.

No caso da água a questão central permanece quase sempre esquecida. Afinal, ela é mercadoria ou direito? A resposta define prioridades políticas.

A importância estratégica da água amazônica ultrapassa fronteiras nacionais. Em um mundo onde crises hídricas se tornam mais frequentes, reservas abundantes ganham relevância geopolítica crescente, a região passa a ser vista não apenas como patrimônio ambiental, mas como ativo estratégico global. Essa dimensão internacional aumenta pressões econômicas e políticas sobre o território, tornando ainda mais complexa a governança dos recursos. E em tempos de Trump, isso sempre nos deve deixar com todos os sentidos em alerta.

O panorama amazônico demonstra que a escassez pode existir mesmo em territórios de abundância. Falta de saneamento, contaminação, conflitos agrários, mudanças climáticas e modelos de desenvolvimento predatórios convergem para produzir vulnerabilidades múltiplas.

Mas não nos esqueçamos. A crise da água na Amazônia não é natural. É resultado de decisões humanas, históricas e políticas. Garantir acesso universal à água potável na região exige proteção ambiental, reconhecimento de direitos territoriais, planejamento urbano, investimento público consistente e governança que priorize populações locais.

Na Amazônia, a água tornou-se, simultaneamente, riqueza, risco e campo de disputa sobre o futuro. O medo é nos afogarmos no mar da ignorância e, numa rima pobre, da ganância.


*Ismael Machado é jornalista com longa experiência na cobertura de assuntos relativos à Amazônia brasileira.