Por Ângelo Cavalcante*
Um quinto de todo o agrotóxico consumido no planeta é despejado em cachoeiras nas lavouras do Brasil.
Desnecessário dizer dos efeitos e impactos dessa lógica sobre a saúde e a vida das pessoas, dos bichos e mesmo sobre as sobras de meio ambiente.
Na relação forma/função tem-se preciso diagnóstico do que é o latifúndio brasileiro e sua indissociável relação com a guerra química e que acontece diariamente nas lavras brasileiras.
Aqui em Itumbiara, no extremo sul goiano, a cidade subsome em meio a um dos maiores canaviais de todo centro-oeste.
Este “maior” refere-se bem mais às formas produtivas e relacionais engendradas pelo grande agronegócio canavieiro do que às dimensões das suas lavouras.
É um titã!
A cana extinguiu a agricultura familiar local; em dez anos essa agroindústria expulsou mais de trinta mil moradores do rural local para uma nucleação urbana/suburbana desestruturada, precária e abertamente carente de equipamentos urbanos essenciais como, observem bem, serviços de água e energia.
E toda essa tragédia demográfico-ambiental com o aval cínico e subalterno da prefeitura e da câmara de vereadores ao fim, iria “gerar empregos”.
Tudo mentira!
Conta mal-feita e pessimamente concebida de fio a pavio
Se o discurso do assalariamento é uma fortaleza irremovível no juízo rasteiro da política local, sob o viés das ocupações esse debate cai por terra.
Não é tão complicado!
Quem conhece um pouquinho da agricultura familiar, do cotidiano sócio-produtivo de uma unidade familiar de produção vai identificar que toda a família e mesmo a vizinhança se envolve para realizar as lidas da terra, da criação e da manutenção do trabalho.
A cooperação, a mutualidade e a solidariedade são termos-chave para a compreensão do que efetivamente, é a agricultura familiar.<
Todos se ocupam, interagem, intercambiam bens, serviços e saberes. É uma vasta e complexa rede cooperativa e colaborativa da hora primeira do dia ao fechamento das labutas
O agronegócio canavieiro de Itumbiara não eliminou apenas a produção física das agro-famílias. Deu fim a teias e processos ancestrais de integração, unidade e vivência em torno do ato de trabalhar o campo.
O prejuízo é bem maior do que se possa imaginar.
Atualmente, parte dessas famílias arrendaram suas terras ao ‘pool canavieiro’ local, por sinal, o maior evento de especulação imobiliária já visto na história econômica rural de Goiás onde o preço do “arrendo” é dado não pelo proprietário da terra mas pelo grande agronegócio.
Tem base?
Outra parte destas famílias garantiu que seus filhos se proletarizassem nestas mesmas agro-empresas por salários infames e arriscados e; outro expressivo segmento lançou-se ao imenso mundo das atividades informais e precárias acontecidas nas ruas, praças e vielas da cidade.<
A síntese do agronegócio canavieiro local?
É tragédia sob qualquer aspecto.
Em bem primeiro, é gritante e explícito atentado ao direito humano de viver sob condições públicas e sanitárias minimamente adequadas; em seguida, tem-se a combinação de latifúndio com destruição ambiental expressa na devastação própria das monoculturas e que se completam, sobretudo, com a imensa bomba química e que temos de “saborear” todos os dias.
Finalmente, a intensificação do empobrecimento e da pauperização dos trabalhadores rurais é outra consequência da “modernização conservadora” dos campos locais
A agricultura familiar, diferentemente do que possa conceber o juízo econômico utilitarista e liberal, é uma forma de integração sócio-ambiental viável, perene e possível.
Afora isso, temos crises respiratórias infernais, o câncer e esse maldito silêncio que não cessa.
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* Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.