Metade dos manguezais do mundo em risco devido ao comportamento humano – mostra estudo

A perda dos ecossistemas, que são vastas reservas de carbono, seria “desastrosa para a natureza e para as pessoas em todo o mundo”, diz a UICN

Duas pessoas com macacões e máscaras de proteção azuis usam absorventes para limpar o óleo de um pequeno mangue na praia

Filipinos limpam óleo de manguezais em Mindoro após vazamento. A poluição, as condições meteorológicas extremas, a subida do nível do mar, a agricultura, o desenvolvimento e as barragens ameaçam os mangais. Fotografia: FR Malasig/EPA 

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

Metade de todas as florestas de manguezais do mundo estão em risco de colapso, de acordo com a primeira avaliação especializada destes ecossistemas cruciais e reservas de carbono.

O comportamento humano é a principal causa do seu declínio, de acordo com a análise da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), com os mangais no sul da Índia, no Sri Lanka e nas Maldivas em maior risco.

Os sistemas no Mar da China Meridional, no Pacífico central e no Triângulo de Coral oriental em torno da Malásia, Papua Nova Guiné e Filipinas foram classificados como ameaçados.

The global mangrove areas are depicted above

Angela Andrade, presidente da comissão da UICN sobre gestão de ecossistemas, afirmou: “Os ecossistemas de manguezais são excepcionais na sua capacidade de fornecer serviços essenciais às pessoas, incluindo a redução do risco de catástrofes costeiras, o armazenamento e sequestro de carbono e o apoio à pesca. A sua perda será desastrosa para a natureza e para as pessoas em todo o mundo.”

Encontrados em todo o planeta, os manguezais incluem dezenas de espécies diferentes de árvores e arbustos ao longo das costas tropicais, que abrigam uma vasta gama de biodiversidade. Eles funcionam como viveiros de peixes e sustentam mamíferos tão variados quanto tigres, cães selvagens africanos e preguiças. 

 
Um tigre de Bengala à beira de uma floresta de mangue
Um tigre de Bengala nos Sunderbans indianos, a maior extensão de manguezal do mundo. Os manguezais abrigam uma enorme variedade de espécies. Fotografia: Arindam Bhattacharya/Alamy

Os ecossistemas armazenam uma quantidade desproporcional de carbono para o seu tamanho, absorvendo quase três vezes o carbono armazenado pelas florestas tropicais do mesmo tamanho.

Cerca de 15% das costas do mundo são cobertas por manguezais, mas o estudo concluiu que estes estão cada vez mais ameaçados pela subida do nível do mar, pela agricultura, pelo desenvolvimento ao longo das costas, pela poluição, como os derrames de petróleo , e pelas consequências da construção de barragens.

As fazendas de camarão, o desenvolvimento costeiro e as barragens nos rios, que alteram o fluxo de sedimentos, foram todas estabelecidas como causas anteriores de perda pelos pesquisadores. Mas as ameaças crescentes decorrentes da subida do nível do mar e da crise climática ameaçam a sua sobrevivência devido ao aumento da frequência e da gravidade das tempestades intensas .

Os investigadores utilizaram as ferramentas da UICN para avaliar o risco para os ecossistemas – semelhantes à sua lista vermelha , utilizada para calcular o risco de extinção de espécies – para realizar a investigação, que envolveu mais de 250 especialistas em todo o mundo.

“A lista vermelha de ecossistemas fornece caminhos claros sobre como podemos reverter a perda de manguezais e proteger estes delicados ecossistemas para o futuro, ajudando, por sua vez, a salvaguardar a biodiversidade, a enfrentar os efeitos das alterações climáticas e a apoiar a concretização do Quadro Global de Biodiversidade”, disse Andrade. disse.

Os manguezais no Havai e no sudeste da Polinésia não foram incluídos na avaliação porque não fazem naturalmente parte dos ecossistemas.


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Fonte: The Guardian

Edição especial relaciona áreas protegidas e conservadas com a atual pandemia

Publicação traz 150 artigos sobre o impacto da pandemia de COVID-19 na conservação


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A IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) lança uma edição especial da revista científica PARKS , sobre os impactos da pandemia do coronavírus na conservação da natureza em todo o mundo. A publicação é uma iniciativa da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da IUCN e traz nesta edição o compilado mais abrangente até o momento da pesquisa científica mundial sobre as ligações e os impactos de COVID-19 na conservação da natureza.

A revista estima que no Brasil o número reduzido de visitantes pode levar a uma perda de US﹩ 1,6 bilhão em vendas para empresas que trabalham direta e indiretamente com o turismo em áreas protegidas. Enquanto na Namíbia, as Unidades de Conservação comunais podem perder US﹩ 10 milhões em receitas de turismo direto, segundo estimativas iniciais.

Os estudiosos apontam que mais da metade das áreas protegidas da África e 1/4 das áreas protegidas da Ásia foram forçadas a interromper ou reduzir suas ações de conservação, como patrulhas anti-caça, e um em cada cinco guardas florestais relataram ter perdido seus empregos. 

Dentre os ensaios, escritos por cerca de 150 autores, estão textos de Mariana Napolitano, gerente de ciências do WWF-Brasil; Yolanda Kakabadse, ex-presidente da Rede WWF; Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia e ganhador do Prêmio Nobel da Paz; Mary Robinson, ex-Presidente da Irlanda e ex-Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos; e Sir Richard Roberts, bioquímico e vencedor do Prêmio Nobel de Medicina.

Doenças zoonóticas e a natureza como prevenção

“A natureza é uma rede de segurança para muitas das comunidades afetadas por essa pandemia e pode ser uma das nossas maiores aliadas contra futuras pandemias”, comenta Mariana Napolitano, gerente de Ciências do WWF-Brasil e autora de um dos artigos da revista PARKS.

No ensaio “Causas de doenças zoonóticas”, ela e a equipe do WWF-Brasil trazem uma visão geral sobre como áreas protegidas e conservadas podem desempenhar um papel significativo na minimização da ameaça de transbordamento de doenças do mundo natural para as pessoas.

As chamadas doenças zoonóticas, ou simplesmente zoonoses, são diversos tipos de enfermidades que são transmitidas dos animais para os humanos.

• As zoonoses representam 60% das doenças contagiosas conhecidas.
• Dessas, 72% foram transmitidas por animais silvestres (em comparação com animais domésticos).
• 3/4 de todos os patógenos emergentes são zoonóticos.

As principais atividades que ajudam essas doenças a escaparem do mundo natural e nos infectarem são as mudanças no uso da terra, especialmente pela intensificação da produção agrícola e pecuária, o comércio de animais silvestres e o consumo da carne desses animais”, comenta Mariana.

As áreas protegidas e a conservação da vida selvagem são a forma mais eficaz de controlar essas atividades e minimizar os perigos associados a elas. Além disso, elas são aliadas na necessária recuperação verde frente à atual crise.

Esta edição do PARKS também revela que pelo menos 22 países propuseram ou promulgaram retrocessos nas regulamentações ou cortes orçamentários na conservação do meio ambiente. Os pacotes e políticas de estímulo econômico pós-COVID analisados pela revista continuam a minar em vez de apoiar a natureza, nossa melhor esperança contra futuras pandemias e atuais crises planetárias, como as mudanças climáticas.

“Cuidar do nosso planeta nunca foi tão urgente. A crise do coronavírus nos mostrou o que acontece quando estamos em desequilíbrio com a natureza. 2021 precisa ser o ano em que mudamos de rota, para uma economia mais justa, menos intensiva no uso de recursos naturais e de menor emissão de gases de efeito estufa. Precisamos nos unir como sociedade”, reflete Mariana.

Além do artigo sobre zoonoses, a Rede WWF contribuiu com mais quatro artigos nesta edição de PARKS: “Uma visão geral global e perspectivas regionais”; “Áreas marinhas protegidas e conservadas em um mundo pós-COVID-19”; “Turismo em áreas protegidas e conservadas em meio à pandemia” e “O impacto da COVID-19 nos guardas florestais”.

Confira a revista (em inglês) em: https://parksjournal.com/parks-27-si-march-2021/