Reinações de um governador acidental: do Jacarezinho para a reinauguração do restaurante popular em Campos

Bolsonaro-Cláudio-Castro

O presidente Jair Bolsonaro ao lado do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro

O governador (por acidente) do Rio de Janeiro, o cantor católico Cláudio Castro (PSC) é uma pessoa bafejada pela sorte, pois saiu da condição de um ilustre desconhecido para ocupar a chefia do executivo da segunda maior economia da federação brasileira.  Entre uma bafejada da sorte e outra, o governador acidental tem se revelado um dos melhores amigos do presidente Jair Bolsonaro por quem nutre uma amizade pública.

Pois bem, no dia de ontem, sob a batuta de Cláudio Castro à frente do governo fluminense, a polícia do Rio de Janeiro realizou uma operação na comunidade pobre do Jacarezinho onde foram ceifadas as vidas de pelo menos 24 moradores, sem que se saiba exatamente quantas dessas pessoas tinha sequer ligação com o mercado ilegal de drogas.  Mas para repetir uma marca das operações sangrentas realizadas ao longo da história fluminense, os mortos eram invariavelmente homens negros jovens.

Eis que hoje o governador acidental do Rio de Janeiro estaria vindo a Campos dos Goytacazes para fazer a reinauguração do restaurante popular que, coincidentemente, servirá suas refeições para uma maioria de pessoas negras pobres. De quebra, se vier mesmo para essa inauguração, o governador Cláudio Castro deverá ser instado a entoar uma canção de cunho religioso (talvez em um dueto com o prefeito Wladimir Garotinho que também é chegado em cantorias em cima de palanques) para marcar a ocasião e, principalmente, a oportunidade publicitária que o evento efetivamente representa.

Sei lá, não sei se sou eu o único a achar que há algo de muito contraditório nessas reinações do governador Cláudio Castro.  Mas que ninguém se surpreenda se pingar sangue da fita de inauguração antes dela ser cortada.

Rio de Janeiro, cidade em estado de sítio seletivo

Os principais veículos da mídia fluminense e paulista estão estampando hoje a realização de uma operação “de segurança” na região formada pelas comunidades do Jacarezinho, Complexo do Alemão, Manguinhos, Mandela, Bandeira Dois, Parque Arará, além do Condomínio Morar Carioca, todas localizadas na região norte da cidade do Rio de Janeiro (ver reproduções das matérias abaixo).

Segundo teria informado fontes da Secretaria Estadual de Segurança, tal operação envolve além de policiais civis e militares das forças estaduais, integrantes das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica), da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, da Força Nacional de Segurança Pública e até de agentes da (ABIN) Agência Brasileira de Inteligência.

Em outras palavras, o que está ocorrendo na Zona Norte do Rio de Janeiro neste momento não é uma simples busca de indiciados pela justiça, mas uma operação de guerra onde forças militares estão envolvidas, claramente em oposição ao que determina a Constituição Federal Brasileira.

Essa situação revela a fórmula que será aplicada para conter o agravamento dos conflitos sociais que inevitavelmente decorrerão da aplicação das medidas de Estado mínimo que estão sendo engendradas para domesticar o Rio de Janeiro e todas as demais unidades da federação a aceitar a agenda ultraneoliberal do governo “de facto” de Michel Temer.

É preciso dizer que a estas alturas a maioria dos indiciados que estariam no bojo dessa operação já deve ter se retirado da zona de guerra criada pelo (des) governo do Rio de Janeiro, deixando para trás a população dessas comunidades para sentirem o peso da ação das forças militares. Como eu mesmo já mostrei aqui neste blog, a presença de militares cujo treinamento é para fazer guerra e não garantir a segurança pública em regiões urbanas cria um imenso caldo de cultura para que abusos sejam cometidos e mantidos sob um grosso manto de silêncio.

A mídia corporativa faz a sua parte ao se manter silenciosa sobre os problemas que cercam a presença dessas forças militares em áreas que são marcadas pela pobreza e pela completa omissão do Estado no fornecimento de serviços públicos essenciais.

Finalmente, que ninguém fique achando que a imposição desse estado de sítio seletivo vai resolver qualquer coisa no Rio de Janeiro. Mais provavelmente a operação de hoje vai servir apenas para agravar tensões e tornar os grupos que controlam essas comunidades ainda mais fortes.