Gado de fazendas ligadas a “narcopecuarista” foi vendido à JBS e Frigol

Conflitos por terra, trabalho escravo, desmatamento ilegal e homicídio envolvem o nome de João Soares Rocha, que usou a pecuária para lavar dinheiro do tráfico, segundo a PF

Gado de fazendas ligadas a “narcopecuarista” foi vendido à JBS e Frigol -  Agência Pública

  • Pelo menos duas fazendas teriam fornecido animais para a JBS e Frigol
  • Rocha deve cerca de R$ 4 milhões ao Ibama em multas ambientais
  • Uma das propriedades foi palco de conflito com sem-terra
Anna Beatriz Anjos, Bruno Fonseca, Clarissa Levy, Rafael Oliveira, Thiago Domenici para a Agência Pública

Uma organização criminosa que transportou 8 toneladas de cocaína entre 2017 e 2018 para o exterior e recebeu como pagamento pelo menos US$ 3,4 milhões em dinheiro vivo. Quem liderava esse grupo? Segundo as investigações que serviram de base à Operação Flak, da Polícia Federal do Tocantins (PF-TO), era João Soares Rocha, de 64 anos.

“Rochinha” ou “Joãozinho Pé de Cobra”, como também é conhecido o chefe da organização, teria se tornado uma mistura de narcotraficante e pecuarista – um “narcopecuarista” – com atuação sobretudo no sudeste do Pará, onde sua família possui mais de uma dezena de imóveis rurais, alguns sobrepostos a Projetos de Assentamento (PAs) da Reforma Agrária e a uma área de proteção ambiental (APA).

Rocha, apontam as investigações, teria ganhado muito dinheiro com o transporte de entorpecentes e investido parte dos valores na compra de gado para venda a frigoríficos, um expediente comum na lavagem de dinheiro, especialmente em estados produtores de gado, de acordo com o presidente da Associação Nacional de Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo.

Como a investigação da PF-TO não tinha como objetivo descobrir para quais frigoríficos o gado foi vendido, a Agência Pública traçou o caminho dos animais em oito fazendas relacionadas a Rocha, alvos de busca e apreensão e sequestro judicial no âmbito da Flak. A partir de Guias de Trânsito Animal (GTAs) obtidas pela reportagem, é possível afirmar que entre janeiro de 2018 e julho de 2020 tanto a JBS quanto a Frigol receberam para abate 2.505 animais de duas dessas propriedades – veja o detalhamento nos infográficos abaixo.

A GTA é exigida por lei para cada transporte de gado, mas não é um documento público. Nela devem constar origem e destino do animal, nome, CNPJ ou CPF do vendedor e do comprador do lote bovino, controle de doenças, quantidade e faixa etária e se a movimentação tem como finalidade a criação, a engorda ou o abate.

Os documentos analisados mostram também que outras cinco fazendas da família de Rocha transportaram bois entre si ou para propriedades de terceiros, com a finalidade de engorda, para que posteriormente fossem fornecidos aos dois frigoríficos. 

De acordo com dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR) do Pará, vários dos imóveis da família são próximos entre si. Todos ficam nos municípios paraenses de Tucumã, Ourilândia do Norte e São Félix do Xingu – cidade com o maior rebanho bovino do país. Nas três cidades, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou ao menos 34 conflitos por terra em 2020.

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A parceria com o maior traficante do Brasil

Deflagrada pela PF-TO e pelo Ministério Público Federal no Tocantins (MPF-TO) em 21 de fevereiro de 2019, ocasião em que Rocha foi preso preventivamente, a Operação Flak investigou o modus operandi da organização criminosa que, formada por mais de 40 pessoas, por meio de aeronaves, teria transportado cocaína de países produtores da droga, como Bolívia e Colômbia, para outros da América do Sul (Suriname, Venezuela, Guiana), América Central (Honduras e Guatemala) e África. 

Rocha conseguiu na Justiça um habeas corpus depois de alguns meses preso. Solto em julho de 2019, mediante pagamento de fiança de cinco salários-mínimos, hoje ele é considerado foragido, mas por outra ação judicial, em que é acusado de ser o mandante de um assassinato ocorrido em abril de 2020, história que será contada adiante. 

As investigações indicam que Rocha era o responsável por aspectos cruciais do funcionamento da organização criminosa: financiava a compra das aeronaves utilizadas nas ações – a PF o identificou como responsável por pelo menos nove delas –, recrutava pilotos, copilotos e mecânicos para a quadrilha e negociava o valor do frete dos entorpecentes diretamente com produtores e compradores. 

É nesse ponto que aparece a figura de Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, considerado o maior traficante do Brasil até julho de 2017, quando foi preso pela Operação Spectrum, da PF do Paraná. A PF-TO apurou que “Rochinha” transportava drogas para Cabeça Branca, também denunciado no âmbito da Operação Flak. 

Elvis Secco, delegado da PF que coordenou a Spectrum e prendeu Cabeça Branca, explicou à Pública que o narcotraficante também utilizava a pecuária para ocultar a origem dos recursos provenientes do tráfico. “Pode-se dizer que a principal estratégia de lavagem dele era a criação de gado e plantação de grãos”, conta. “Primeiro, [tem como] colocar a fazenda no nome de um laranja e ficar como dono formal. Segundo, é uma ótima maneira de viver uma vida discreta, porque, se você comprar fazendas e morar numa cidade agrícola, pode facilmente usar como história de cobertura a venda de grãos, a compra e venda de gado. Terceiro: é lucrativo.”

Ainda segundo a PF-TO, o esquema de Rocha tinha também a participação de Evandro Geraldo e Cristiano Felipe Rocha Reis, irmão e sobrinho de Rocha, com quem chegaram a se desentender. Ambos morreram após um acidente de avião em agosto de 2018.

A Polícia Federal apontou ainda que Rocha recebia cerca de US$ 150 mil em espécie por voo entre a Venezuela e o Suriname que transportava em média 400 quilos de cocaína. Esses valores teriam proporcionado a ele “considerável elevação patrimonial” e foram lavados por meio da pecuária, “com a criação e engorda de gado e venda para frigoríficos, na compra de terras para pastagem, garimpos e postos de combustível”, registra o inquérito.

O perito Marcos Camargo explica: “O que se busca normalmente [para a lavagem de dinheiro] é uma atividade que tenha pouca regulamentação ou que tenha dificuldade de fiscalização, por alguma razão”. No caso da pecuária, o valor que se dá ao gado é subjetivo. “Você pode pegar um boi e dizer que ele custa R$ 2 milhões. Você não consegue ter uma fiscalização tão efetiva. Na medida que você adquire uma fazenda ou alguma coisa desse tipo, você pode simplesmente colocar os bois ali e atribuir, entre aspas, o preço que você quiser a eles.”

Além disso, também de acordo com a PF-TO, como estratégia para ocultar uma parcela de seus bens, Rocha teria transferido parte desse patrimônio para seus três filhos – Stefânia, de 29 anos, Izabela, de 26, e João Vitor Ferreira Rocha, de 22 – e sua então companheira, Mayra Gomes Trindade Ferreira, de 47 anos.

De acordo com o perito Marcos Camargo, a transferência de bens a parentes é uma estratégia a que traficantes de drogas normalmente recorrem. “[Costumam colocar] em nome de terceiros, da esposa, das filhas, de laranjas, porque, se alguma coisa acontecer em termos de processo penal e quiserem, por exemplo, bloquear os bens, não se vai conseguir ou se vai ter dificuldade de conseguir, porque esses bens não vão estar no nome [do traficante]. Você terá uma proteção a mais contra uma ação judicial que venha querer bloquear os seus bens ou dar perdimento”, destaca.

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Do tráfico para o prato

A reportagem analisou ao todo 190 GTAs de fazendas ligadas a João Soares Rocha, também em nome de seus filhos e sua ex-companheira, e que foram sequestradas pela Justiça a pedido da PF e do MPF no Tocantins. Em julgamento posterior pelo Tribunal Regional Federal da 1a Região (TRF-1), houve reforma da decisão de sequestro das áreas ligadas aos familiares de Rocha.

As GTAs envolvem oito imóveis rurais da família, dos quais cinco ficam no município de São Félix do Xingu: fazenda Paranaíba, com movimentações em nome de Rocha; fazenda Cachoeira e fazenda Matão, ligadas a Mayra Ferreira Trindade Gomes; fazenda Serra Grande, do filho mais novo, João Vitor Ferreira Rocha; e fazenda Izabela, da filha do meio, Izabela Ferreira Rocha. Outros dois imóveis, localizados em Tucumã, são a fazenda Estrela da Serra, relacionada à filha mais velha, Stefânia Ferreira Rocha; e o sítio do Cacau, também de João Soares Rocha. 

Há ainda GTAs em nome da fazenda Agropecuária Abelha II, em Ourilândia do Norte, que é da empresa Agropecuária Abelha Comércio & Serviços Ltda., da qual Stefânia, Izabela e João Vitor são sócios. 

Embora Rocha não apareça formalmente como um dos sócios da Agropecuária Abelha Comércio e Serviços Ltda., a investigação da PF-TO aponta que a empresa e a fazenda relacionada pertencem ao narcopecuarista. A Agropecuária Abelha II é o principal entreposto da movimentação de gado entre os imóveis da família e os grandes frigoríficos.

Entre janeiro de 2018 e julho de 2020, 3.018 vacas e bois saíram de cinco fazendas dos familiares de Rocha com destino à propriedade em Ourilândia do Norte. No mesmo período, 2.230 animais foram transportados de lá para a JBS e Frigol, com a finalidade de abate. A Frigol também recebeu 275 cabeças de gado da fazenda Matão, em nome de Mayra, entre janeiro e dezembro de 2018, segundo as GTAs.

As GTAs analisadas pela Pública mostram ainda movimentações de gado envolvendo dois imóveis registrados em nome de Rocha no CAR do Pará. Nos dias 28 de novembro e 3 de dezembro de 2018, Mayra transferiu 350 cabeças de gado da fazenda Matão para a fazenda Paranaíba, da qual Rocha é dono. Um dia depois, em 4 de dezembro, ela transportou outros 65 bois da mesma fazenda para o sítio do Cacau, também do agora ex-marido. As três operações tinham como finalidade a engorda do gado para posterior comercialização.

Em 5 de dezembro de 2018, Rocha enviou 200 cabeças de gado do sítio do Cacau para a fazenda Primavera, em Curionópolis (PA), cujo dono é o pecuarista Rafael Saldanha Júnior, também para engorda. Saldanha Júnior, que já teve áreas embargadas pelo Ibama em cinco oportunidades, além de ter recebido pelo menos sete autuações ambientais, vendeu 161 bois para a JBS e para a Marfrig ao longo dos meses seguintes.

Além disso, a reportagem apurou que três das fazendas envolvidas nas transferências de bovinos estão sobrepostas a Projetos de Assentamento (PAs) da Reforma Agrária. É o caso das fazendas Estrela Grande e Paranaíba, que ficam sobre o PA Tucumã, instituído em 1991 na cidade de mesmo nome, hoje com 3.610 famílias assentadas; e da Agropecuária Abelha II, cuja área coincide com o PA Luciana, que, criado pelo Incra em 1998 em Ourilândia do Norte, atualmente abriga 309 famílias. Esse mesmo PA é palco de um conflito que se arrasta há anos entre sem-terra e o proprietário da fazenda 1.200, que também tem porções incidentes sobre o assentamento, conforme revelou investigação da Pública.

Já a fazenda Serra Grande está sobreposta à Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma unidade de conservação constituída pelo estado do Pará em 2006 entre São Félix do Xingu e Altamira. A APA faz parte do mosaico de áreas protegidas da Terra do Meio e de fevereiro a abril deste ano foi a recordista de desmatamento entre unidades de conservação na Amazônia, segundo levantamento do Imazon. 

O procurador da República Daniel Azeredo, um dos responsáveis pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne no Pará – acordo firmado entre o MPF e frigoríficos para evitar a compra de produtos vindos de fazendas envolvidas em irregularidades socioambientais –, explica que as APAs, em tese, admitem a criação de gado em seu interior, mas a atividade precisa ser regulada por um plano de manejo. Embora exista há quinze anos, a APA Triunfo do Xingu ainda não dispõe desse documento, que define as regras de uso do solo em todas as unidades de conservação – ele está em fase de elaboração e deve ser publicado nos próximos meses. “O Estado está omisso”, aponta. “Não dá nem pra dizer que quem está lá está errado, porque não está escrito se pode ou se não pode. Teria que ser feita essa cobrança.”

Pelo TAC da Carne, porém, não deveria ocorrer a compra de animais com origem em fazendas que tiveram desmatamento depois de agosto de 2008, data em que o acordo foi assinado. Isso aconteceu dentro da fazenda Matão em 2008 e 2016, segundo dados do sistema Prodes, mantido pelo Inpe.

Em relação ao monitoramento de propriedades ligadas ao tráfico de drogas e outros delitos, Azeredo considera que seria razoável cobrar os frigoríficos caso existisse uma base de dados que reunisse as propriedades de pessoas condenadas pelo crime, o que não há atualmente. “É muito difícil você pedir para acessar todos os sistemas de justiça e analisar caso a caso. Eu acho que aí a questão deve ser de organização de lista, para que houvesse essa cobrança”, avalia.

Em resposta aos questionamentos da Pública (leia aqui a íntegra), a Frigol informou que deixou de comprar bois das fazendas Agropecuária Abelha II e Matão em janeiro deste ano e em dezembro de 2018, respectivamente. Em nota, o frigorífico afirmou que “vem apresentando um avanço progressivo na rastreabilidade dos animais, que pode ser conferido nos resultados das auditorias do Ministério Público Federal.” 

A JBS comunicou que recebeu animais da Agropecuária Abelha II pelas últimas vezes em 2018, quando “a propriedade estava de acordo com a Política de Compra da empresa e com o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores do MPF”, e que não ocorreram novas compras em 2019, ano em que foi deflagrada a Operação Flak.

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O vai e vem das fazendas na Justiça

Desde que a Justiça Federal do Tocantins autorizou a deflagração da Operação Flak, em 13 de fevereiro de 2019, as propriedades de João Soares Rocha e seus familiares são alvo de disputa nos tribunais.

À época, o juiz do caso permitiu o sequestro das oito fazendas que aparecem nas GTAs obtidas pela reportagem e determinou a avaliação e venda do gado remanescente, também alvos de sequestro, para evitar deterioração dos bens. Meses depois, no entanto, a ex-companheira e os filhos de Rocha conseguiram reaver as fazendas registradas em seus nomes por meio de decisão do TRF-1, que considerou legítimo o patrimônio dos quatro por não haver denúncia contra eles. 

Ainda assim, o juiz federal responsável pelo processo que deflagrou a Flak determinou que uma administradora judicial verificasse a presença de gado pertencente a João Soares Rocha nos imóveis de seus familiares, já que neles havia animais marcados com as iniciais “JR”. A defesa da ex-companheira e dos filhos de Rocha, porém, segundo consta em juízo, “ofereceu resistência ao ingresso da administradora judicial na fazenda” para o cumprimento da decisão.

O mesmo TRF-1 negou a suspensão do sequestro dos bens de João Soares Rocha, tendo apenas suspendido o leilão de parte do gado do pecuarista, que estava marcado para dezembro de 2019. De acordo com a última decisão, tanto os animais quanto as propriedades do acusado se encontram sob seu domínio, mas como “fiel depositário” da Justiça – isso significa que ele tem a obrigação de conservar os bens até posterior decisão judicial.

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Chegada a Ourilândia do Norte, onde fica a fazenda Agropecuária Abelha II

Pistolagem contra sem-terra em Ourilândia do Norte

De acordo com Maria, a orientação das lideranças – que agiam autonomamente, sem apoio de movimentos sociais – era que as famílias não cortassem as cercas de arame originais da propriedade, delimitassem seus lotes e não mexessem com o gado de Rocha, que seguia no imóvel aos cuidados de um vaqueiro. “Fizemos barraco, começamos a plantar feijão, melancia, abóbora, essas coisas primeiro. Aí depois mandioca, cacau, vários tipos de plantas frutíferas a gente tinha lá”, explica. Ela diz que os ocupantes também mantinham criações de galinhas e porcos e que alguns, confiantes na possibilidade de permanecer no local, já tinham investido na construção de poços artesianos, por exemplo.

A situação foi de relativa tranquilidade até que, na noite de 5 de setembro de 2020, uma das lideranças da ocupação, o agricultor João Antônio Soares da Silva, de 57 anos, foi assassinado a tiros no banheiro que ficava do lado de fora de sua casa, em Ourilândia do Norte. O boletim de ocorrência da morte foi registrado na delegacia da cidade e a investigação agora está a cargo da Delegacia Especializada em Conflitos Agrários (Deca) de Redenção. O delegado Antônio Mororó Júnior, responsável pelo caso, informou que o inquérito corre sob sigilo, mas que já se verificou “que a motivação do crime tem relação com conflito agrário e disputa de terras”.

Maria relata que depois do assassinato de Silva pessoas estranhas começaram a rondar a ocupação e abordar os moradores. “Eles deixavam os cabos de revólver [aparecendo por] debaixo da camisa. A gente conhece esse povo aí. A gente conhece pelo jeito de vestir deles”, narra. 

No fim de outubro, homens teriam avisado de barraco em barraco que as famílias tinham 15 dias para deixar o local. A expulsão, entretanto, viria antes do prazo: durante a noite, um grupo colocou fogo nas casas e plantações dos ocupantes e passou com máquinas por cima do que sobrou. Segundo Maria, ninguém se machucou, mas os sem-terra perderam tudo. “Eles podiam ter deixado a gente tirar nossas coisas, as mandiocas, o cacau, porque cacau é dinheiro”, lamenta.

Procurada, a Superintendência do Incra do sul do Pará, responsável administrativamente pela região de Ourilândia do Norte, informou não ter registros sobre a ocupação. O advogado dos filhos de João Soares Rocha, Stefânia, Izabela e João Vitor – donos formais da Agropecuária Abelha II –, não respondeu especificamente às perguntas da Pública sobre a ocupação das famílias sem-terra na fazenda e sua expulsão (no fim desta reportagem, há mais informações sobre a manifestação da defesa). Já os advogados de Rocha não enviaram seu posicionamento até a publicação.

publica bois ourilandiaBois em fazenda de Ourilândia do Norte, cidade em que a família de João Soares Rocha mantinha uma de suas propriedades

A conta de Rocha na Justiça

Desmatamento ilegal, trabalho análogo à escravidão, homicídio e ameaça: denunciado na Justiça Federal do Tocantins no âmbito da Flak por tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico e atentado contra a segurança do transporte aéreo, entre outros delitos, João Soares Rocha tem também histórico de infrações ambientais. 

Hoje, ele deve cerca de R$ 4 milhões por duas multas aplicadas pelo Ibama por crimes contra a flora e o ecossistema, tendo quitado outras duas que, juntas, somavam R$ 33 mil. Ele já teve duas áreas embargadas pelo órgão, em 2007 e 2015. O embargo mais recente, ainda pendente de julgamento, ocorreu dentro da fazenda Matão, em Tucumã, cujo registro no CAR está em nome de sua ex-companheira, Mayra, e que vendeu gado para a Frigol em 2018, contrariando o TAC da Carne. 

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Rocha é acusado de ser o mandante do assassinato do advogado Silvio José Dourado, ex-agente da PF

Uma das multas ainda ativas, no valor de R$ 3,3 milhões, resultou de ação de fiscalização do Ibama realizada no Parque Nacional da Serra do Pardo, em Altamira e São Félix do Xingu, em dezembro de 2006. Na ocasião, os agentes do órgão identificaram uma área de 2.243 hectares – equivalente a mais de 2,2 mil campos de futebol – de floresta nativa desmatada ilegalmente em uma fazenda de Rocha no interior da unidade de conservação. A multa foi motivo de uma ação civil pública que, ajuizada pelo MPF-PA em abril de 2007, até hoje tramita na Justiça Federal do Pará. 

Em outro processo, o pecuarista é acusado de ter mantido três funcionários da fazenda Cachoeira, em São Félix do Xingu, em situação de trabalho análogo à escravidão. Em setembro de 2010, o Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatou os homens, que haviam sido contratados para construir cercas na propriedade, e constatou que eles estavam submetidos a condições degradantes e humilhantes, sem acesso a habitação e saneamento básico, morando em barracos de lona a 5 km da sede da fazenda. O MPT pediu na Justiça a condenação de Rocha e Marivan dos Santos, então gerente da fazenda. Os acusados recorreram e atualmente o processo aguarda decisão no TRF-1. Posteriormente, em 2013, Rocha foi incluído na “lista suja do trabalho escravo”, divulgada pelo governo federal.

Mas não para por aí: atualmente, João Soares Rocha também é réu por homicídio em ação que tramita no Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO). Ele é acusado de ser o mandante do assassinato do advogado Silvio José Dourado, ex-agente da PF, ocorrido em 17 de abril de 2020 na capital Goiânia, quando o pecuarista já estava solto no âmbito da Flak. 

Segundo a Polícia Civil, à época a vítima estava namorando Mayra Gomes Trindade Ferreira, e Rocha, inconformado com o novo relacionamento da ex-companheira, teria contratado dois homens para executar Dourado. Logo depois do crime, a Justiça decretou sua prisão temporária e, posteriormente, em julho, a prisão preventiva, mas ele segue foragido. Após esse episódio, Rocha ainda teria ameaçado Mayra, o que, em outubro do ano passado, gerou mais um processo contra ele no TJ-GO.

Embora só tenha virado réu por tráfico de drogas por conta da Flak, a conexão de Rocha com esse universo já havia sido apontada no passado. Em 2006, a Delegacia de Polícia Federal em Redenção apurou a relação entre ele e o notório traficante de drogas e armas Fernandinho Beira-Mar, ex-líder da facção carioca Comando Vermelho. Segundo as suspeitas da PF, à época Rocha estaria lavando o dinheiro do criminoso, mas a investigação não resultou em condenação. 

João Soares Rocha teria ainda ligações com outro narcotraficante, Leonardo Dias de Mendonça, sócio de Beira-Mar, segundo as investigações. No final de 2002, no âmbito da Operação Diamante, da PF de Goiás, vários bens de Mendonça foram sequestrados, incluindo a fazenda Paranaíba, em São Félix do Xingu. Tempos depois, Mayra, sua então companheira, foi à Justiça na tentativa de recuperar a posse do imóvel rural, afirmando serem ela e o marido seus proprietários legítimos – como prova, apresentou um contrato de parceria pecuária firmado entre Rocha e Mendonça em novembro de 1999. A família retomou a propriedade, que até hoje segue em sua posse. 

Em relação ao caso da Fazenda Matão, a Frigol comunicou que considerava o embargo do Ibama referente a uma propriedade vizinha, mas que, em outubro de 2019, o órgão disponibilizou dados demonstrando que partes da propriedade também estavam entre as áreas atingidas. “Na ocasião, a Frigol bloqueou este fornecedor em seu cadastro, embora já não houvesse comercialização com a empresa”, informou, em nota.

Outro lado

A Pública procurou as defesas de João Soares Rocha e de Mayra e seus três filhos. Os advogados de Rocha não responderam até a publicação desta reportagem. Já a defesa de Mayra e dos filhos afirmou que os bens pertencem legitimamente à família e destacou que o TRF-1 acatou os argumentos apresentados no âmbito do mandado de segurança e reverteu o sequestro dos bens de seus clientes. A defesa ressaltou ainda que nenhum dos familiares foi indiciado pela Operação Flak.

A reportagem tentou contato também com o pecuarista Rafael Saldanha Júnior, mas não obteve retorno.

Gado do narcotráfico também foi parar em frigoríficos no MT 

O caso de Rocha não é o único em que traficantes de drogas utilizaram a pecuária para lavar o dinheiro decorrente da atividade criminosa. Na cidade de Cáceres (MT), na fronteira com a Bolívia, ao menos 122 cabeças de gado de Hugo Fernando de Assis Custódio foram enviadas para engorda em outra fazenda no município por meio de um laranja fictício, segundo Guias de Trânsito Animal (GTAs) obtidas pela Pública. A fazenda intermediária, por sua vez, vendeu quase mil cabeças de gado para grandes frigoríficos nos meses seguintes. 

GTAs obtidas pela reportagem indicam que ao menos 963 cabeças de gado foram destinadas ao abate, principalmente para a JBS, mas também para a Frical Frigorífico e para o Frigorífico 3M, entre 14 de agosto de 2018 e 25 de junho do ano seguinte.

Custódio atualmente cumpre pena em São Paulo. Ele foi preso em dezembro de 2016, na cidade paulista de Ribeirão Preto, com cerca de 422 tabletes de substância análoga à pasta base de cocaína. Em 2019, foi condenado a mais de dez anos de prisão pelo crime. Para o Ministério Público do Mato Grosso (MP-MT), a propriedade rural do traficante, chamada fazenda III Barras, era utilizada para lavar dinheiro obtido no tráfico, além de servir de esconderijo de parte do montante. 

Em dezembro de 2020, o promotor Augusto Lopes Santos, do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), apresentou denúncia contra Custódio, sua esposa e outros sócios, por lavagem de dinheiro e organização criminosa, entre outros crimes. A propriedade, que vale cerca de R$ 10 milhões, e aproximadamente 800 cabeças de gado e maquinários agrícolas estão sob sequestro judicial.

A Pública contatou Rúbia Soares, esposa de Hugo Custódio, que não respondeu aos questionamentos. Adão Alves Júnior, pecuarista que comprou os animais da fazenda III Barras, afirmou que iria verificar a existência da negociação, mas não retornou até a publicação do texto. A JBS informou apenas que a fazenda III Barras não consta em sua base de fornecedores e os outros frigoríficos envolvidos também não se manifestaram em relação às perguntas enviadas pela reportagem.

Colaboraram Bianca Muniz e Raphaela Ribeiro

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela Agência Pública [Aqui!].

JBS diz que pagou o equivalente a US $ 11 milhões em ataque de ransomware nos EUA

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A JBS USA pagou um resgate equivalente a US $ 11 milhões após um ataque cibernético que interrompeu suas operações na América do Norte e Austrália, disse o CEO da empresa em um comunicado na quarta-feira.

A subsidiária da empresa brasileira JBS SA (JBSS3.SA) suspendeu o abate de gado em todas as suas fábricas nos EUA por um dia na semana passada em resposta ao ataque cibernético, que ameaçava interromper as cadeias de abastecimento de alimentos e inflacionar ainda mais os já altos preços dos alimentos.

O ataque cibernético ocorreu no mês passado em Colonial Pipeline, o maior gasoduto de combustível dos Estados Unidos. Ele interrompeu a entrega de combustível por vários dias no sudeste dos EUA.

O software Ransom funciona criptografando os dados das vítimas . Normalmente, os hackers oferecem à vítima uma chave em troca de pagamentos de criptomoedas que podem chegar a centenas de milhares ou até milhões de dólares. O FBI disse no início deste mês que a agência estava investigando cerca de 100 tipos diferentes de ransomware.

As fábricas de carnes da JBS, que produzem quase um quarto da carne bovina da América, se recuperaram mais rápido do que alguns compradores de carne e analistas esperavam.

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Uma visão geral da fábrica de suínos Worthington da JBS USA em Minnesota, EUA, 28 de outubro de 2020. REUTERS / Bing Guan

“Foi uma decisão muito difícil de tomar para nossa empresa e para mim pessoalmente”, disse André Nogueira, CEO da JBS USA sobre o pagamento do resgate. “No entanto, sentimos que essa decisão deveria ser tomada para evitar qualquer risco potencial para nossos clientes.”

O braço do frigorífico brasileiro nos Estados Unidos e a Pilgrims Pride Corp (PPC.O) , empresa norte-americana de frangos em sua maioria de propriedade da JBS, perderam menos de um dia de produção de alimentos. A JBS é a maior produtora de carnes do mundo.

Terceiros estão realizando investigações forenses e nenhuma determinação final foi feita, disse a JBS. Os resultados preliminares da investigação mostram que nenhum dado da empresa, cliente ou funcionário foi comprometido no ataque, disse.

Um grupo de hackers ligado à Rússia está por trás do ataque cibernético contra a JBS, disse uma fonte familiarizada com o assunto na semana passada. A gangue cibernética ligada à Rússia atende pelo nome de REvil e Sodinokibi, disse a fonte.

O jornal de Wall Street noticiou na quarta-feira que o pagamento do resgate da JBS foi feito em bitcoin.

O Departamento de Justiça recuperou na segunda-feira cerca de US $ 2,3 milhões em resgate de criptomoeda pago pela Colonial Pipeline Co, reprimindo os hackers que lançaram o ataque.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Relatório da Rainforest Foundation da Noruega revela papel da indústria automobilística na destruição da Amazônia

Um novo relatório da Rainforest Foundation Norway revela como é altamente provável que os cinco maiores fabricantes de automóveis europeus contribuam para o desmatamento em grande escala da floresta amazônica

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Transparência e sistemas de rastreabilidade eficazes são quase inexistentes nas cadeias de abastecimento do couro. As fotos são de um curtume de propriedade da Durlicouros em Xinguara, no estado do Pará, onde está localizada grande parte da pecuária brasileira. Foto: RFN / Victor Moriyama

Pela primeira vez, o risco de desmatamento da indústria automobilística europeia foi mapeado. 

O relatório constatou que o Grupo Volkswagen, BMW Group, Daimler, PSA Groupe * e Groupe Renault correm um alto risco de contribuir para o desmatamento da floresta amazônica, comprando couro de grandes clientes de empresas brasileiras ligadas ao desmatamento em grande escala. 

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“As marcas de automóveis europeias que usam couro brasileiro são responsáveis ​​por estimular o desmatamento da floresta amazônica”, diz Anne Leifsdatter Grønlund, consultora de desmatamento zero da Rainforest Foundation Norway. 

Embora o couro brasileiro venha com um alto risco de desmatamento, nenhum dos grandes fabricantes de automóveis tem políticas ou medidas adequadas para evitar que o couro desmatado entre na cadeia de abastecimento. 

“Transparência e rastreabilidade são quase inexistentes nas cadeias de suprimentos do couro, e é muito provável que as empresas que compram couro dos principais fornecedores brasileiros de couro comprem couro de vacas que pastam em terras desmatadas. Atualmente, ninguém pode provar que o couro que compram é livre de desmatamento ”, diz Grønlund. 

Grandes quantidades de couro para a indústria automobilística

O desmatamento no Brasil aumentou nos últimos dois anos e atingiu o máximo de 12 anos em 2020, com mais de 1 milhão de hectares de floresta destruída. A pecuária é a atividade que mais desmata na Amazônia brasileira. O Brasil possui o maior rebanho bovino do mundo, e 80% do couro é exportado, quase metade do qual é usado na indústria automobilística. 

O relatório analisa os dados de desmatamento de 2019 e 2020 nas zonas de compra de frigoríficos e curtumes no Brasil ligados aos fluxos comerciais específicos entre o Brasil e fabricantes de componentes de couro para automóveis na Europa.  

O relatório apurou mais de 1,1 milhão de hectares de desmatamento recente (2019 e 2020) nas zonas de compra dos frigoríficos que abastecem os curtumes da JBS Couros, maior processadora de couro do Brasil.  

Os curtumes Vancouros foram expostos a 0,80 milhões ha de desmatamento, Durlicouros a 0,56 milhões ha, Fuga Couros a 0,47 milhões ha, Minerva Couros a 0,48 milhões ha, Viposa a 0,12 milhões ha e para a Mastrotto Brasil não foi possível calcular o risco de desmatamento exposição. (Observe que as zonas de compra dos matadouros vinculados aos curtumes se sobrepõem parcialmente e, portanto, os números não são possíveis de resumir.)  

Todos os cinco maiores fabricantes de automóveis estão expostos a um mínimo de 1,1 milhão de hectares de desmatamento recente por meio da JBS Couros. 

É altamente provável que todas as cinco grandes montadoras de automóveis da Europa utilizem couro proveniente de um ou de todos os três maiores frigoríficos do Brasil, JBS, Marfrig e Minerva, que, segundo o relatório, estão expostos a desmatamentos em larga escala por meio de seus e fornecedores indiretos de gado. 

O relatório também documenta evidências de lavagem de gado , em que o gado é criado em terras ilegais desmatadas e movido e vendido de fazendas com pastagem legal para contornar a legislação ambiental. 

As empresas são responsáveis ​​por sua cadeia de suprimentos

Além do desmatamento, o relatório constatou a grilagem ilegal de terras e violações dos direitos humanos em cadeias de abastecimento amostradas. Os camponeses da vizinhança de grandes fazendas de gado afirmam ter sido alvejados e suas casas totalmente queimadas. 

“Alegar ignorância não é desculpa. Os fabricantes de automóveis são responsáveis ​​pelos produtos que vendem em um mercado de um milhão de euros. Todas as empresas que usam couro brasileiro devem implementar sistemas de rastreabilidade do produto acabado e de volta à fazenda de nascimento do gado, Grønlund diz e acrescenta: 

“Fornecedores com desmatamento direto ou indireto ou violações de direitos humanos em suas cadeias de abastecimento devem ser excluídos,”

A Rainforest Foundation Norway também insta os legisladores europeus a banir os produtos do desmatamento do mercado europeu. 

“A UE prometeu tomar medidas para salvar as últimas florestas tropicais remanescentes. Nosso relatório documenta a necessidade de uma nova legislação para impedir a entrada de produtos do desmatamento no mercado europeu. Não há tempo a perder ”, diz Anne Leifsdatter Grønlund, consultora de desmatamento zero da Rainforest Foundation Norway.

Background

O Brasil possui o maior rebanho bovino do mundo, com 214,7 milhões de animais . Quase metade do rebanho bovino brasileiro é criado na Amazônia Legal, região que também concentra a maior capacidade de abate do país.

Nos últimos anos, está bem documentado que os grandes frigoríficos do Brasil, como a JBS , fornecedora de couro para a indústria automobilística europeia, estão ligados ao desmatamento.

O Brasil é o maior exportador de couro bovino do mundo; até 80% da produção de couro bovino é exportada. Entre 2018 e 2020, o Brasil exportou um total de 1,26 milhão de toneladas de couro.

A maior parte do couro brasileiro é exportada para China e Itália, os principais centros da indústria de processamento de couro em todo o mundo, antes de ser exportada como couro acabado ou produtos refinados.

A floresta tropical é o ecossistema com a maior biodiversidade da Terra e está repleta de vida. No entanto, um estudo recente mostra que apenas um terço da floresta tropical original permanece intacta.

Quando a floresta tropical é destruída, não apenas sua valiosa diversidade cultural e biológica é perdida. Também estamos perdendo uma de nossas ferramentas mais eficazes na luta contra as mudanças climáticas catastróficas. Uma floresta intacta é uma tecnologia própria da natureza para capturar e armazenar dióxido de carbono e evitar que seja lançado na atmosfera.

* O Grupo PSA recentemente se fundiu com o Grupo FCA. A nova empresa chama-se Stellantis. É o Grupo PSA que é estudado neste relatório.

O relatório foi encomendado à Aidenvironment pela Rainforest Foundation Norway (RFN)

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Rainforest Foundation Norway [Aqui!].

Anistia Internacional reúne mais de 57 mil assinaturas para exigir que a JBS pare de comprar gado ilegal da Amazônia

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Com índices de desmatamento batendo recordes sucessivos e quando os olhos do mundo se voltam cada vez mais para a Amazônia brasileira, nesta quarta-feira, 28 de abril, a Anistia Internacional promove ações de pressão no Brasil e em outros países onde o movimento atua, para exigir que a JBS pare de comprar gado bovino que tenha pastado ilegalmente em área protegidas na floresta amazônica.

Entre as avenidas e ruas de São Paulo, um caminhão estilizado contendo réplicas de gado bovino vai circular com mensagens como “Comprar gado ilegal é financiar a violação de direitos humanos na Amazônia” e seguirá em direção à sede da empresa, na Av. Marginal Direita do Tietê, nº 500. Eletronicamente serão entregues, 57.471 assinaturas de pessoas de 84 países da petição “Diga à JBS para não comprar gado ilegal da Amazônia”, à diretoria da empresa. Neste 28 de abril será realizada a Assembleia Anual de Acionistas da empresa e a Anistia Internacional escolheu esse dia para chamar a atenção investidores da JBS para as violações de direitos humanos que a atividade da empresa, se não devidamente monitorada, pode contribuir.Ação JBS Paulista 3 Miguel CastañoAnistia Internacional Brasil

Na terça-feira, 27 de abril, às 17h, a Anistia Internacional vai se reunir remotamente com Marcio Nappo, Diretor de Sustentabilidade da JBS e Alexandre Kavati, da área de monitoramento de fornecedores da empresa, para marcar também essa entrega das adesões à petição e cobrar da empresa quais as ações estão sendo realizadas e previstas para a proteção e garantia dos direitos humanos na sua cadeia direta e indireta de fornecimento.

“A conservação da Amazônia passa também pela proteção das populações que habitam a região. Exigimos o fim das violações de direitos humanos de brasileiros e brasileiras que vivem lá. Como sociedade civil organizada, a Anistia Internacional se une as mais de 57 mil pessoas no mundo para cobrar medidas efetivas da JBS para que informações sobre sua cadeia de fornecimento sejam transparentes e que seus negócios não ponham em risco nenhum indígena ou morador dessas áreas protegidas”, afirma Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil.

Direcionada ao CEO da JBS, a petição, lançada em julho de 2020, exige que a empresa implemente um sistema de monitoramento eficaz, incluindo seus fornecedores indiretos, até o final de 2020; a JBS deve corrigir, por si mesma ou em cooperação com seus fornecedores, os abusos e violações de direitos humanos sofridos por povos indígenas e moradores de áreas protegidas e ainda deve compensar, em cooperação com seus fornecedores, as comunidades indígenas e das reservas por danos ambientais causados pela pecuária comercial ilegal em suas áreas protegidas. As medidas, no entanto, não foram adotadas.

“A JBS precisa assumir um compromisso público em parceria com seus fornecedores, para indenizar indígenas e moradores das áreas protegidas onde houve criação de gado ilegal. A criação de gado ilegal favorece outras práticas também associadas às violações de direitos humanos como a grilagem, a invasão de terras e o desmatamento. Os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia e a Anistia Internacional também chama atenção para as pessoas que vivem sob ameaças constantes, nesses territórios”, aponta Jurema.

O relatório

A Anistia Internacional lançou a petição junto com o relatório Da Floresta à Fazenda , que denunciou a presença de gado criado de forma ilegal em áreas protegidas da floresta amazônica brasileira na cadeia de fornecimento da maior produtora de carne bovina do mundo.

O relatório revelou que, em 2019, a empresa comprou gado criado em fazendas ilegais no estado amazônico de Rondônia. Localizadas em áreas protegidas, essas fazendas operavam ilegalmente na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau e nas Reservas Extrativistas do Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto.

“Apresentamos neste documento uma associação entre destruição da floresta, a criação de gado e violações de direitos humanos que precisa parar urgentemente”, aponta Jurema.

Horas após a divulgação do documento, o Ministério Público Federal em Rondônia anunciou que iniciaria uma investigação sobre as conclusões da Anistia Internacional sobre a JBS. Alguns dias depois, um ex-auditor que monitorava a cadeia de suprimentos da JBS acusou a empresa de alegar falsamente que suas operações na Amazônia brasileira são livres de desmatamento. Em 28 de julho, a principal casa de investimentos europeia Nordea Asset Management retirou a JBS de seu portfólio por causa de ligações com desmatamento na Amazônia.

Ao não monitorar efetivamente a entrada de gado bovino em sua cadeia indireta de fornecimento, a JBS falhou na adoção de um processo adequado de devida diligência como estabelecido nos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos . De acordo com os Princípios Orientadores da ONU, a JBS contribui para abusos de direitos humanos dos povos indígenas e comunidades tradicionais residentes em reservas extrativistas ao participar nos incentivos econômicos para o gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas, afirmou, à época, a Anistia Internacional.

Em 23 de setembro de 2020, a JBS anunciou que iria introduzir um novo sistema para monitorar seus fornecedores de gado, incluindo seus fornecedores indiretos, até 2025. A Anistia Internacional considera esse cronograma muito distante. Em novo anúncio, em 23 de março de 2021, a JBS estabeleceu um “compromisso de atingir as emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) até 2040”, incluindo uma promessa de “atingir o desmatamento zero em sua cadeia de fornecimento global até 2035”.

“Desde 2009 a JBS está ciente dos riscos de que o gado pastado ilegalmente em áreas protegidas pode entrar em sua cadeia de abastecimento, e já se comprometeu a monitorar seus fornecedores indiretos até 2011, o que não ocorreu como mostra o relatório da Anistia Internacional. A Anistia Internacional reafirma que a JBS deveria ter implementado a devida diligência e medidas preventivas até o final de 2020. Os compromissos assumidos pela empresa precisam ser efetivos na prática e devem ser percebidos por quem vive na Amazônia”, aponta Jurema.

Está tudo conectado

A Amazônia brasileira tem ganhado destaque mundo afora nos últimos anos, mas não pela riqueza da sua biodiversidade, e sim por uma mistura preocupante: desmatamento, queimadas e atividade pecuária. Está tudo conectado, como a Anistia Internacional vem alertando desde 2019.

O relatório “Da Floresta à Fazenda” é o terceiro trabalho de um diagnóstico que a Anistia Internacional desenvolve na Amazônia brasileira desde o começo de 2019. E dá continuidade à pesquisa anterior realizada pela Anistia Internacional, em áreas protegidas da Amazônia, alertando para o risco iminente de conflitos e desmatamento documentando violência contra povos indígenas expondo a pecuária bovina como o principal fator que impulsiona a nova onda de desmatamento da floresta.

As queimadas na maior floresta tropical do mundo, que em 2019 mobilizaram políticos e artistas estrangeiros a exigir a proteção da Amazônia, foram só o começo de uma equação que gera prejuízo ambiental e social. A maioria desses incêndios faz parte de um processo mais amplo pelo qual a floresta amazônica é convertida ilegalmente em áreas de pastagem de gado, apontou o relatório Cercar e trazer o boi: pecuária bovina ilegal na Amazônia” .

Além das queimadas, o desmatamento, que acumula recordes contínuos nos últimos anos, abre caminho para violações de direitos humanos como a grilagem e a invasão de terras, que são executadas com métodos violentos e ameaças de morte.

“A Anistia Internacional reforça que está tudo conectado: queimadas, desmatamento e a atividade pecuária na Amazônia. Todas essas ações geram graves violações de direitos humanos que precisam parar urgentemente. É obrigação dos governos estaduais e federal investir em fiscalização e incentivar a proteção da floresta. E empresas que atuam na região, como a JBS, também devem se unir para exercer suas atividades de forma econômica, social e ambientalmente seguras”, explica Jurema.

Serviço

Ação #GadoIlegalNÃO

Dia: 28 de abril março de 2021

Hora: Das 08h30 às 16h30

Itinerário: Sede JBS (Av. Marginal Direita do Tietê, 500 – Vila Jaguara), Av. Paulista, Pacaembu, Largo do Batata – Pinheiros, Av. Faria Lima, Av. Paulista, Ibirapuera, Sede JSB

JBS estende imunidade aos desmatadores para alimentar sua cadeia de suprimentos até pelo menos 2035 em um ‘compromisso global’ surreal

“Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso.”

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Por Katie Nelson para o Greenpeace

Londres, Inglaterra –  Em resposta ao anúncio da JBS de planejar enfrentar o desmatamento ilegal até 2030, eliminar o desmatamento até 2035 e atingir emissões líquidas zero até 2040, Daniela Montalto, ativista florestal e alimentar do Greenpeace no Reino Unido, disse:

“Por suas margens de lucro, a JBS continua sacrificando o clima, a biodiversidade e o cumprimento da legislação. Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia e além por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso. Neste ponto, as instituições financeiras e compradores que continuam a negociar ou investir na JBS estarão zombando de quaisquer compromissos de sustentabilidade. Além do mais, eles serão conscientemente cúmplices em alimentar a catástrofe ambiental que ameaça nosso planeta. ”

A declaração da empresa não se compromete a atacar a fonte fundamental de sua pegada de carbono – a produção de carne. O anúncio é um grande retrocesso em relação à promessa feita originalmente em 2009 de entregar desmatamento zero em toda a base de abastecimento da Amazônia até 2011, demonstrada por total transparência. O anúncio atual aborda apenas o desmatamento ilegal no Brasil até 2030, e qualquer desmatamento não antes de 2035. A proibição do uso deliberado do fogo, legal ou não, não é mencionada.

Mesmo em meio ao caos e turbulência econômica causados ​​pela pandemia global COVID-19, e como a agenda anti-ambiental do presidente Bolsonaro continua a causar estragos na Amazônia, [2] as exportações de carne bovina do Brasil estabeleceram um novo recorde histórico em 2020 .

No início deste mês, o Greenpeace International publicou uma investigação expondo o maior processador de carne do mundo JBS e seus principais concorrentes Marfrig e Minerva abatidos bovinos comprados de fazendeiros ligados aos incêndios de 2020que destruíram um terço do maior pântano interior do mundo na região do Pantanal. 

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“Com a estação seca de 2021 e provavelmente uma nova crise de incêndios se aproximando rapidamente, a JBS está quase distribuindo os fósforos. Ao continuar lucrando com a destruição, está efetivamente prejudicando os esforços globais para impedir o colapso da Amazônia e de outros biomas. O setor industrial de carne bovina é um passivo. Países importadores, financistas e compradores de carne como McDonald’s, Burger King ou os grupos franceses Carrefour e Casino devem acabar com sua cumplicidade nesta catástrofe que se desenrola. Fechar o mercado para destruidores de florestas não é suficiente – é hora de eliminar a carne industrial ”, disse Montalto.

Governos, finanças e empresas de consumo devem mudar de carnes industriais e fechar mercados para empresas que contribuem para a destruição de florestas e ecossistemas e a transição para um sistema alimentar que não seja uma força motriz de desmatamento, mudança climática e risco futuro de pandemia.

Notas:

[1] Declaração JBS completa: https://www.3blmedia.com/News/JBS-Makes-Global-Commitment-Achieve-Net-Zero-Greenhouse-Gas-Emissions-2040

[2] O chamado ‘pacote de destruição’ atualmente em pauta no Congresso Nacional Brasileiro e ordenado pelo gabinete do presidente Bolsonaro, é composto por propostas legislativas sobre os seguintes temas: mineração em terras indígenas (Projeto de Lei nº 191/2020, proposto pela Câmara dos Representantes); licenciamento ambiental (Projeto de Lei nº 3.729 / 2004 e aditivos, em tramitação na Câmara dos Deputados, e Projeto de Lei do Senado nº 168/2018); e regularização fundiária (Projeto de Lei nº 2.633 / 2020 da Câmara dos Deputados e Projeto de Lei nº 510/2021 do Senado Federal). A sociedade civil brasileira assinou carta contrária às iniciativas. A carta publicada em março de 2021 está disponível aqui: https://www.greenpeace.org.br/hubfs/carta_Nao_Ao_Atropelo_do_Processo_Legislativo_ingles.pdf

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Greenpeace [Aqui!].

Indígenas denunciam grupo francês Casino por venda de carne de área de desmatamento ilegal

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Representantes de comunidades indígenas do Brasil e da Colômbia processaram a multinacional varejista Casino, controladora do Grupo Pão de Açúcar (GPA), em um tribunal da França nesta 4ª feira (3/3), acusando-a de vender carne bovina relacionada a crimes ambientais na Amazônia. Segundo a denúncia, a Casino violou a legislação francesa ao não impor critérios e sistemas de monitoramento de fornecedores (em particular, o frigorífico JBS), facilitando assim a ocorrência de crimes como desmatamento e grilagem de terras.

Encabeçada por entidades como a Coordenadoria das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre outros, a ação também acusa a Casino de violações aos Direitos Humanos. Entre os casos citados pela denúncia, está o da Terra Indígena (TI) Uru Eu Wau Wau (RO), invadida ilegalmente por pecuaristas que forneceram gado para a JBS que, depois vendeu a carne para o Pão de Açúcar no Brasil.

A denúncia foi abordada por FolhaReutersRFI e UOL, entre outros.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui! ].

Bancos brasileiros são os principais financiadores do desmatamento na Amazônia e no Cerrado

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Os setores de carne bovina e soja têm sido dois dos principais motores do desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado nos últimos anos. As instituições financeiras com exposição a esses setores podem estar inadvertidamente contribuindo para as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Conforme as partes interessadas globais reagem a essas ameaças, as instituições financeiras podem ficar cada vez mais expostas aos riscos financeiros. Este relatório, usando dados de Florestas e Finanças , mostra quem está financiando esses dois setores.

Baixe o PDF aqui: Bancos nacionais financiam 74% da carne bovina e soja brasileira

Principais conclusões:

  • Os financiamentos fornecidos aos setores de carne bovina e soja no Brasil totalizaram US $ 100 bilhões de 2013 a abril de 2020 . De acordo com a base de dados do Forests & Finance, foram fornecidos a estes setores US $ 82 bilhões em empréstimos e US $ 13 bilhões em underwritings, bem como US $ 5 bilhões em ações e US $ 1 bilhão em títulos.
  • 74 por cento do financiamento total identificado originou-se de instituições financeiras brasileiras. Eles forneceram US $ 66,2 bilhões em empréstimos e US $ 5,4 bilhões em subscrição. Eles também detêm US $ 3,0 bilhões em ações e US $ 3,0 milhões em obrigações. O Banco do Brasil foi de longe o maior financiamento (US $ 42,4 bilhões).
  • As instituições financeiras estrangeiras contribuíram com US $ 14,5 bilhões para o setor de carne bovina e US $ 11,2 bilhões para a indústria da soja. Santander, Rabobank, HSBC e JPMorgan Chase estão entre os 25 maiores financiadores.
  • Esses quatro bancos têm políticas de desmatamento enquanto financiam empresas de soja e carne que têm sido repetidamente associadas ao desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Sua principal exposição é para os três grandes frigoríficos do Brasil, JBS, Marfrig e Minerva, junto com o trader de soja Cargill.
  • O elemento-chave na cadeia de financiamento é o Sistema Nacional de Crédito Rural do Brasil. Gerenciado pelo Banco Central do Brasil, o sistema canalizou empréstimos para setores agrícolas, principalmente carne bovina e soja, constituindo 91 por cento de todos os empréstimos identificados nesta pesquisa. Devido a exigências legais, cerca de dois terços do financiamento vêm de depósitos em bancos brasileiros, enquanto as taxas de juros de aproximadamente 75% do crédito são subsidiadas.
  • Os investidores europeus têm influência para se engajar no desmatamento. Uma vez que o Sistema de Crédito Rural não oferece um mecanismo eficaz para promover a agricultura sustentável, uma maior atenção da UE e do BCE sobre o risco de desmatamento pode fazer com que os financiadores europeus fiquem mais alertas sobre a reputação e o risco de investimento.

Setores de carne bovina e soja são os dois principais motores do desmatamento no Brasil

Nos últimos anos, a pecuária no bioma Amazônia e o cultivo da soja em direção ao Cerrado têm sido os principais motores do desmatamento no Brasil.Como mostrou o relatório da Chain Reaction Research de agosto de 2020 sobre a cadeia de abastecimento da carne bovina brasileira, a expansão do setor (Figura 1) é impulsionada pelo aumento da demanda nos mercados de exportação em meio a mudanças políticas, legislativas e de fiscalização favoráveis. A pecuária é responsável pelo desmatamento em grande escala, estimado em 80% do desmatamento em todos os países com cobertura florestal amazônica. Outra motivação para a criação de gado é a conversão da terra subjacente, que pode ser usada para diferentes commodities. A pecuária é uma operação de baixo custo que impede que as florestas voltem a crescer.

O forte aumento na área de cultivo de soja (Figura 2) é impulsionado por seu papel como uma importante fonte de proteína de alta qualidade e facilmente digerível para a pecuária, bem como uma fonte de óleo vegetal. O farelo de soja representou cerca de 70 por cento da produção mundial de farelo de sementes oleaginosas para a indústria pecuária em 2019/20.

Dados anuais do INPE mostram que após oito anos de queda, a taxa de desmatamento na Amazônia Legal voltou a aumentar em 2013, e atingiu 11,1 mil km 2 por ano em 2020, a maior taxa anual desde 2008. No Bioma Cerrado, estimativa de desmatamento para 2019 foi de 6,5 mil km 2 .

Figura 1: Tamanho do rebanho bovino Brasil

Fonte: USDA

Figura 2: Área de cultivo de soja no Brasil

Fonte: USDA

Os setores de carne bovina e soja do Brasil receberam US$ 100 bilhões em financiamento

Em uma base regional, as instituições financeiras sul-americanas fornecem 74% do financiamento total desde 2013 que foi identificado por Forests & Finance. UE27 e América do Norte seguem com 11 por cento e 6 por cento, respectivamente. Embora o tipo de financiamento da UE27 esteja concentrado em empréstimos (81%), os bancos e investidores norte-americanos estão igualmente ativos em todas as formas categorizadas neste relatório. Financiadores do Leste Asiático e outros países europeus forneceram fundos relativamente pequenos, mas ainda consideráveis, enquanto o Leste Asiático estava mais focado no setor de soja e a Europa (ex-UE27) mais focada em carne bovina.

Figura : Financiamento total identificado por região de origem (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, a região “Europe Other” consiste principalmente no Reino Unido, Noruega e Suíça

Empréstimos como o tipo dominante de financiamento

Os empréstimos representaram 81 por cento do financiamento total identificado por Florestas e Finanças. A Forests & Finance identificou US $ 81,6 bilhões em empréstimos, que se destacou como a fonte de financiamento mais importante para os dois setores. Underwritings de US $ 13,2 bilhões foram a segunda maior fonte de financiamento. No entanto, envolveram mais investimentos estrangeiros devido à natureza mais internacional das emissões de ações e obrigações. As participações em ações e títulos eram relativamente pequenas.

Figura 4 : Financiamento total identificado por tipo (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, Empréstimos e subscrição constituem o tipo de fluxo de financiamento, enquanto as participações em ações e títulos são categorizadas como participações. 95% do financiamento é na forma de fluxos, o que representa todos os empréstimos e underwriting identificados entre 2013 e abril de 2020 em uma base cumulativa. O tipo de financiamento de holding reflete os registros mais recentes disponíveis em abril de 2020.

Figura 5 : Mapa de empréstimos e subscrição fornecidos aos setores brasileiros de carne bovina e soja pelos bancos

Fonte: forestandfinance.org, NRCS: National Rural Credit System, em USD

Figura 6 : Mapa de participação e títulos nos setores brasileiros de carne bovina e soja por investidores

Fonte: forestandfinance.org, em USD

Banco do Brasil é o maior financiador da carne bovina e soja brasileira

Os bancos brasileiros forneceram a maior parte do financiamento total para os setores de carne bovina e soja, respondendo por 81% do total. Doze dos 25 maiores financiadores listados na Figura 7 são bancos brasileiros. O Banco do Brasil, controlado pelo governo (59% de propriedade de órgãos federais do Brasil), está no topo da lista por uma margem muito ampla. O Banco do Brasil destinou US $ 42,4 bilhões aos setores de carne bovina e soja entre 2013 e abril de 2020 (42,3% do total), principalmente na forma de empréstimos, mas também por meio de subscrição, títulos e participações acionárias.

No total, os 25 maiores financiadores responderam por 90% do financiamento identificado fornecido aos dois setores, sendo US $ 60,5 bilhões para carne bovina e US $ 29,5 bilhões para soja. As instituições financeiras de fora do Brasil com exposição considerável são o Santander da Espanha com US $ 5,1 bilhões, o Rabobank da Holanda com US $ 3,0 bilhões, o HSBC do Reino Unido com US $ 2,5 bilhões e o JPMorgan Chase dos Estados Unidos com US $ 0,9 bilhão.

Figura 7 : 25 principais financiadores (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, visto em outubro de 2020, * John Deere Bank é o braço de financiamento de leasing da empresa de equipamentos agrícolas

Instituições estrangeiras com compromissos ambientais

Todas as instituições financeiras estrangeiras identificadas com exposição significativa têm relações de financiamento com pelo menos uma das empresas na Figura 8, que é uma seleção de empresas com ligações ao desmatamento mencionadas anteriormente por Chain Reaction Research ( JBS , Marfrig , Minerva , Cargill , Bunge ). Mesmo assim, as instituições financeiras mantiveram-se ativas no relacionamento com essas empresas, com base nos dados de financiamento mais recentes.

Figura 8 : Exposição de instituições estrangeiras selecionadas a empresas de risco florestal (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, (L): Empréstimos, (U): Underwriting, (S): Participação, * Sistema Nacional de Crédito Rural, o valor em dólares das exposições mostrado na tabela foi ajustado para apresentar as proporções relativas à carne bovina e soja Atividades. Os valores originais são maiores para toda a empresa.

A lista a seguir mostra as políticas ambientais das instituições financeiras listadas na Figura 8 e nas Avaliações de Políticas do Banco de Florestas e Finanças (consulte o Apêndice 1):

  • Santander: “ Desmatamento líquido zero até 2020” – Soft Commodities Compact
  • Rabobank: “ Desmatamento líquido zero até 2020” (ver fonte ) – Soft Commodities Compact
    • A política do banco foi avaliada como “Política forte do setor de risco florestal ” e obteve uma pontuação de 39 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • HSBC: De acordo com o documento de Política de Commodities Agrícolas do banco nos setores de Soja, Pecuária e Rubberwood, “o HSBC não fornecerá conscientemente serviços financeiros a clientes de alto risco envolvidos diretamente ou com fornecedores envolvidos em desmatamento, ou seja: a conversão de áreas (geralmente florestas) necessárias para proteger HCVs; a conversão de florestas tropicais primárias; ou apuramento por queima. ”
    • A política do banco foi avaliada como “ Boa política do setor de risco florestal com algumas lacunas ” e obteve uma pontuação de 30 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • JP Morgan Chase: “ Desmatamento líquido zero até 2020” (ver fonte ) – Soft Commodities Compact
    • A política do banco foi avaliada como “ Política do setor de risco florestal justa com lacunas ” e obteve 28 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • Bank of America: De acordo com o documento da Estrutura de Política de Risco Social e Ambiental do banco sob lista proibida, “o Bank of America não se envolverá conscientemente em atividades ilegais, incluindo extração ilegal de madeira ou fogo não controlado – incluindo transações em que um cliente se envolva em extração ilegal de madeira uso do fogo para limpar terras florestais. ”

Esse grupo de financiadores, dominado por instituições financeiras europeias, fornece 14% do financiamento total para empresas brasileiras de soja e carne bovina. Eles podem enfrentar risco de reputação devido às suas políticas de desmatamento e mudanças na regulamentação (europeia) sobre o desmatamento e a devida diligência nas cadeias de abastecimento.

Fornecer financiamento para setores de risco florestal, neste caso carne bovina e soja, especialmente para JBS, Marfrig, Minerva e Cargill e Bunge, (uma seleção de empresas vinculadas ao desmatamento mencionadas pelo CRR) pode expor os bancos a riscos financeiros e de reputação por meio desmatamento. Em particular, os financiadores da Europa podem enfrentar risco de reputação devido ao foco crescente em cadeias de abastecimento sem desmatamento pelas regulamentações europeias .

Empréstimos são a maior fonte de financiamento, tendo o sistema de crédito rural como principal canal

Noventa e um por cento dos empréstimos foram concedidos por meio do Sistema Nacional de Crédito Rural, onde o destinatário final e o prazo de vencimento dos recursos não são divulgadosA lista dos 25 maiores provedores de empréstimo (ver Figura 9) cobre 95 por cento de todos os empréstimos originados entre 2013 e abril de 2020. Enquanto os bancos brasileiros ocupam a maior parte da lista com o Banco do Brasil na liderança, a maioria desses empréstimos locais são facilitada através de um sistema de financiamento chamado sistema Nacional de crédito Rural (sistema Nacional de crédito Rural) As informações do Banco Central do Brasil, que também administra o sistema de crédito, sugerem que o financiamento do programa se baseia principalmente em regras. Por exemplo, inclui exigências de reserva legal para depósitos à vista e de poupança rural em bancos brasileiros. Além disso, as taxas de juros para a maior parte do crédito que o sistema oferece são subsidiadas. Informações mais detalhadas sobre como os dados são incorporados ao banco de dados Florestas e Finanças estão incluídas no Quadro 1 abaixo.

Figura 9 : 25 principais provedores de empréstimos (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org 

Sistema Nacional de Crédito Rural do Brasil

A análise do Sistema Nacional de Crédito Rural com base nos dados do Banco Central do Brasil revela que a maior parte do crédito rural concedido tem como destino os setores de carne bovina e soja. Embora o total de empréstimos em aberto concedidos por meio do programa tenha crescido de R $ 272 bilhões (US $ 82 bilhões) em maio de 2017 para R $ 320 bilhões (US $ 59 bilhões) em maio de 2020, o valor em US $ diminuiu devido a uma forte desvalorização da moeda local. O valor total do empréstimo pendente no programa correspondeu, em média, a 9,5% dos empréstimos em todo o sistema bancário brasileiro nos últimos quatro anos. O nível de originação anual de crédito implica cerca de 20 meses de maturidade média dos créditos do sistema.

Figura 10 : Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil (em bilhões de dólares)

Fonte: Banco Central do Brasil

Figura 11 : Sistema Nacional de Crédito Rural por tipo de beneficiário e subsídio

Fonte: Banco Central do Brasil

Em média, 75% dos empréstimos concedidos pelo Sistema Nacional de Crédito Rural entre junho de 2017 e junho de 2020 foram subsidiados com taxas de juros inferiores às do mercado. Embora as pequenas propriedades familiares recebam taxas de juros mais baixas com mais subsídios (ver Figura 11), elas receberam apenas cerca de 13% do total de empréstimos. As taxas de juros anuais subsidiadas foram 30% mais baixas em comparação com as taxas definidas livremente (não subsidiadas) para as propriedades não familiares e 55% mais baixas para as propriedades familiares. 

Figura 12 : Taxas médias anuais de juros do Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil

Fonte: Banco Central do Brasil

O efeito do Sistema Nacional de Crédito Rural no desmatamento

A pesquisa de impacto do Sistema Nacional de Crédito Rural aponta para uma mudança na política de crédito do sistema em 2008. A aprovação do crédito rural subsidiado na Amazônia está condicionada à comprovação do cumprimento da regulamentação ambiental. Principalmente por meio de uma redução nos volumes de crédito (principalmente em municípios onde a pecuária é a principal atividade econômica), o desmatamento no bioma Amazônia entre 2009 e 2011 foi 60% menor do que teria sido sem restrições de crédito.

Em sua nota de política para 2020 , o Banco Mundial afirmou que um pequeno número de grandes fazendas recebe a maior parte do financiamento rural, enquanto 85% de todos os fazendeiros no Brasil não têm acesso ao crédito. Além disso, a maior parte do crédito rural é para financiamento do tipo capital de giro de curto prazo, com financiamento de investimento de prazo mais longo limitado. Assim, a probabilidade de o crédito rural afetar positivamente os investimentos em agricultura sustentável é considerada baixa.

Figura 13 : Empréstimos por região (em milhões de dólares)

Figura 14 : Empréstimos * (milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org. * A diferença nos fluxos de empréstimos entre os diferentes números do relatório decorre dos ajustes do setor em dados de Florestas e Finanças (ver anexo 1), bem como da exclusão de alguns dos financiadores do Sistema Nacional de Crédito Rural (ver caixa 1)

Subscrição

A subscrição cumulativa de emissões de ações e títulos entre 2013 e abril de 2020 totaliza US $ 13,2 bilhões. Desse total, 77% são destinados às emissões de títulos dos três grandes frigoríficos – JBS, Marfrig e Minerva. Uma vez que quase todas essas emissões de títulos foram denominadas em dólares americanos, as instituições financeiras internacionais tiveram uma participação elevada, subscrevendo 60 por cento do tamanho total dos negócios, significativamente maior em comparação com sua contribuição em empréstimos.

Figura 15 : 25 maiores subscritores (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Desenvolvimento histórico

O total de subscrição identificado caiu para US $ 334 milhões em 2015, principalmente por causa da seca. Isso foi seguido por um ano de expansão, com negócios atingindo US $ 3,2 bilhões.

Figura 16 : Subscrição Regional (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Participação

Os dados de participação são mais diversificados devido ao envolvimento de fundos de ações globais, especificamente na forma de ETFs. Quando a participação de 21,3 por cento do BNDES (Banco de Desenvolvimento do Brasil) (no valor de US $ 2,1 bilhões, ajustado para a participação das operações de carne bovina da JBS) na JBS é excluída como uma exceção, os investidores norte-americanos têm o maior percentual de 49 por cento contra 33 por cento para América do Sul. O BNDES desinvestiu da Marfrig no final do 1T2020, vendendo sua participação de 30% na empresa (no valor de cerca de US $ 500 milhões). O BNDES afirmou que pretende desinvestir também da JBS, mas a venda ainda não se concretizou.

Figura 17: Participação regional (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, ajustado pela participação do BNDES na JBS

Figura 18 : 25 principais acionistas (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Bondholding

Bondholding é a menor área de financiamento identificado recebido pelos setores de carne bovina e soja no Brasil, com apenas US $ 663 milhões, totalizando apenas 0,7 por cento do financiamento total identificado. Os investidores locais da região da América do Sul praticamente não têm participações nos títulos, enquanto a América do Norte (58%) e a UE27 (29%) têm a maior exposição.

Figura 19 : Obrigações regionais (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Figura 20 : 25 principais detentores de títulos (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Financiadores europeus em posição de se envolver com soja e carne bovina

Ao financiar 12% do financiamento total da carne bovina e soja no Brasil, os investidores e bancos europeus têm o potencial de contribuir para a redução do desmatamento nas cadeias de abastecimento da carne bovina e da soja. Quando o JPMorgan Chase e o Bank of America estão incluídos, 14% do financiamento é feito por meio de instituições financeiras com políticas de desmatamento.

Grande parte do financiamento dos setores brasileiros de soja e carne bovina flui por meio de crédito rural de bancos brasileiros, que atualmente têm impacto mínimo na agricultura sustentável. No entanto, os financiadores europeus enfrentam risco de reputação devido ao desenvolvimento de regulamentos da UE sobre o desmatamento nas cadeias de abastecimento. Além disso, o Banco Central Europeu (BCE) dá um peso cada vez maior aos riscos de mudança climática, desmatamento e biodiversidade. Todos os financiadores enfrentam riscos de investimento, pois as empresas que financiam podem ser confrontadas com um acúmulo de risco de acesso ao mercado, risco de regulamentação e risco de financiamento. As participações no capital também podem perder valor devido ao risco de reputação.

Como os bancos e investidores europeus também são financiados por seus próprios investidores, essas instituições financeiras também estão em posição de evitar a repetição das perdas causadas pelo financiamento da indústria de combustíveis fósseis, que também está ligada às mudanças climáticas.

Apêndice 1: Florestas e finanças

Objetivo, escopo, metodologia e parceiros da Forests & Finance, resumidos no site:

Forestsandfinance.org visa destacar o papel que as finanças desempenham na viabilização do desmatamento tropical. É o resultado de extensas pesquisas e investigações por uma coalizão de organizações de campanha e pesquisa, incluindo Rainforest Action Network, TuK INDONESIA, Profundo, Amazon Watch, Repórter Brasil e BankTrack. O banco de dados Forests & Finance avalia os serviços financeiros recebidos por mais de 300 empresas e mais de 16.000 empresas de risco florestal de pequena escala que receberam financiamento que estão diretamente envolvidas na carne bovina, óleo de palma, celulose e papel, borracha, soja e madeira tropical (“ setor de risco florestal ”) cadeias de suprimento e cujas operações impactam as florestas tropicais naturais no Sudeste Asiático, Brasil, bem como na África Central e Ocidental. Nem todas as empresas selecionadas para o banco de dados estão envolvidas em operações prejudiciais. Contudo, todos estão envolvidos em operações de grande escala em regiões de florestas tropicais que apresentam alto risco de causar desmatamento e impactos sociais associados. As instituições financeiras que fazem negócios com essas empresas estão, portanto, altamente expostas aos riscos de desmatamento.

Os bancos de dados financeiros Refinitiv (anteriormente conhecido como Thomson EIKON), Bloomberg IJGlobal, TradeFinanceAnalytics, arquivos de registro de empresas, bem como relatórios de empresas disponíveis publicamente, foram usados ​​para identificar empréstimos corporativos, crédito e facilidades de subscrição fornecidas às empresas selecionadas no período 2013-2020 (Abril). Os investimentos em títulos e ações das empresas selecionadas foram identificados por meio da Refinitiv e da Bloomberg na data de depósito mais recente disponível em abril de 2020. Essas bases de dados financeiras fornecem acesso a dados de mercado em tempo real, notícias, dados fundamentais, análises, ferramentas de negociação e mensagens. O portal Transparência do BNDES e o portal do Banco Central do Brasil foram usados ​​para identificar fluxos financeiros adicionais para empresas de risco florestal no Brasil. Esta pesquisa fornece um conjunto de dados de nível de negócio de relacionamentos específicos entre empresas selecionadas e qualquer instituição financeira vinculada. Das mais de 300 empresas pesquisadas, apenas 230 empresas tinham financiamentos identificáveis ​​onde o financiador, o valor do financiamento e a data de início eram conhecidos dentro do período de estudo.

As empresas com atividades comerciais fora do setor de risco florestal registraram valores reduzidos para apresentar com mais precisão a proporção do financiamento que pode ser razoavelmente atribuída às operações do setor de risco florestal da empresa selecionada. Quando as informações financeiras disponíveis não especificavam a finalidade do investimento ou da divisão de recebimento dentro do grupo da empresa-mãe, os fatores de redução foram calculados individualmente pela comparação das atividades do setor de risco florestal de uma empresa em relação às atividades totais do grupo-mãe. Ajustadores adicionais foram calculados para empresas que operam em várias geografias dentro do escopo desta pesquisa.

Os bancos comerciais identificados neste estudo foram avaliados para determinar a força de quaisquer políticas publicamente disponíveis relevantes para a tomada de decisão de investimento no setor de risco de floresta tropical e, subsequentemente, pontuados de acordo com uma série de critérios que incorporam padrões ambientais, sociais e de governança. Cada um dos principais bancos recebeu uma pontuação sobre o escopo de suas políticas e seus padrões ambientais e sociais. A Metodologia de Avaliação de Políticas do Forests & Finance Bank é baseada no Fair Finance Guide (FFG) com foco no setor de risco florestal.

Os dados e avaliações apresentados neste site não foram fornecidos ou autorizados por nenhuma das instituições financeiras ou clientes em causa. Embora todas as tentativas tenham sido feitas para pesquisar e apresentar dados e avaliações de forma precisa e objetiva, é difícil garantir a precisão total. Isso se deve principalmente à falta de consistência e transparência na maneira como as instituições financeiras e clientes do setor de risco florestal registram as principais informações financeiras e empresariais. Onde houve ambigüidade nas informações de origem dos serviços financeiros, os autores deste site agiram com cautela, resultando em uma provável subestimação dos verdadeiros montantes de financiamento envolvidos. Os autores estão empenhados em corrigir quaisquer erros identificados na primeira oportunidade.

Visite o site para mais informações e para usar o banco de dados.

Apêndice 2: Principais destinatários de financiamento identificados por Florestas e Finanças

Figura 21 : 25 maiores destinatários de financiamento (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

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Esta reportagem foi inicialmente escrita em inglês e publicada pela Chain Reaction Research [Aqui! ] .

Investigação revela que Walmart, Costco e Kroger vendem nos EUA, carne da JBS que está ligada à destruição da Amazônia

Walmart, Costco e Kroger estão vendendo carne bovina importada do Brasil pela subsidiária Sampco da JBS.Walmart, Costco e Kroger estão vendendo carne bovina importada do Brasil pela subsidiária Sampco da JBS. Fotografia: Brendan McDermid / Reuters

Por Andrew Wasley e Alexandra Heal para o “The Guardian”

Três das maiores redes de supermercados dos Estados Unidos vendem carne brasileira produzida por uma polêmica empresa de carnes ligada à destruição da floresta amazônica , revelou uma investigação.

As gigantes do setor alimentício Walmart, Costco e Kroger – que juntas totalizaram vendas líquidas de mais de meio trilhão de dólares no ano passado – estão vendendo carne bovina brasileira importada da JBS, a maior empresa de carnes do mundo , que está associada ao desmatamento .

A carne bovina brasileira foi identificada como um dos principais impulsionadores do desmatamento na Amazônia, onde trechos de floresta são derrubados para pastagens usadas na pecuária. A Amazônia é um amortecedor crucial na estabilização do clima regional e global. Especialistas dizem que preservar as florestas tropicais do mundo é essencial para evitar a intensificação da emergência climática .

Pesquisa do Guardian, do Bureau of Investigative Journalism e da agência de análise de dados sem fins lucrativos C4ADS apurou que, nos últimos anos, a subsidiária da JBS Sampco Inc importou para os Estados Unidos milhares de toneladas de carne bovina brasileira, destinada a cadeias de supermercados e outras empresas de alimentos.

Os produtos incluem carne desfiada e enlatada (corned), bem como carne congelada e bifes. Em dezembro, a carne desfiada da marca Sampco, produzida em uma fábrica da JBS em São Paulo, estava sendo vendida online tanto pelo Walmart quanto pela Costco, e os dados de envio apontam as exportações da JBS de carne enlatada brasileira sendo fornecida para venda nas lojas Kroger.

Entre julho de 2017 e novembro de 2019, a Sampco importou mais de 5.000 remessas de produtos bovinos brasileiros, totalizando 7.884 toneladas, mostram os recordes obtidos pelo C4ADS.

Em resposta a essas descobertas, os ativistas pediram às cadeias de supermercados que tomassem medidas rápidas para livrar as cadeias de suprimentos de produtos associados ao desmatamento.

“Os supermercados precisam ir além de sua retórica de sustentabilidade, estabelecendo requisitos estritos para seus fornecedores, proibindo o desmatamento, monitorando seus fornecedores para conformidade e cancelando contratos com os piores infratores como a JBS”, disse Lucia von Reusner, diretora sênior de campanha da organização internacional de campanha Mighty Terra.

Costco se recusou a responder perguntas, mas apontou para suas políticas de sustentabilidade , que afirmam: “Nossa intenção não é obter carne de regiões de alto risco de desmatamento até que sistemas abrangentes de rastreabilidade e monitoramento estejam em vigor.”

Um porta-voz do Walmart disse: “O Walmart leva essas alegações a sério e analisará as alegações feitas. Acreditamos que as florestas saudáveis ​​sustentam a biodiversidade, sustentam a subsistência e desempenham um papel importante na mitigação das mudanças climáticas. O Walmart está trabalhando com fornecedores na certificação, monitoramento, apoio a regiões de compras sustentáveis, promovendo ações colaborativas e defendendo políticas eficazes. ” 

JBS, gigante da carne do Brasil, se compromete com fornecedores ligados ao desmatamento

Um porta-voz da Kroger disse: “Levamos o desmatamento a sério, conforme demonstrado pelo nosso compromisso de não desmatamento , e continuamos a envolver nossos fornecedores na busca por este compromisso e para garantir que nenhum desmatamento ocorra em nossas cadeias de fornecimento relevantes.”

As exportações de carne bovina da JBS foram vinculadas a fazendas envolvidas em 300 km2 de desmatamento por ano. A empresa abate quase 35 mil cabeças de gado por dia no Brasil.

Um porta-voz da JBS disse: “A falsa alegação de que as exportações da JBS estão ligadas ao desmatamento é irresponsável e baseada em análises superficiais e imperfeitas da correlação entre a concentração do desmatamento em nível municipal e a localização de nossas fábricas. Correlação não é causa ”.

Os ativistas disseram que as últimas revelações destacaram a necessidade urgente de leis americanas que combatam o desmatamento. Até o momento, não houve nenhuma proposta significativa nos Estados Unidos para uma legislação federal proibindo as importações agrícolas relacionadas ao desmatamento tropical, ao contrário da Grã-Bretanha e da UE, onde o ímpeto por novas regras recentemente ganhou força .

“Os EUA são cúmplices em impulsionar o desmatamento global por meio de suas vendas de produtos de carne bovina do Brasil”, disse Sarah Lake, vice-presidente e diretora da Mighty Earth para a América Latina. “O governo Biden tem a oportunidade de fazer avançar uma legislação para restringir a importação de produtos ligados ao desmatamento, assim como a UE, o Reino Unido e a França já estão fazendo.”

Brian Schatz, senador democrata pelo Havaí, disse antes da pandemia de COVID-19 que planejava introduzir essa legislação . E na semana passada, um projeto de lei foi apresentado à assembléia estadual da Califórnia exigindo que empreiteiros forneçam produtos ao estado para garantir que eles não estejam vinculados ao desmatamento no exterior.

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Este texto foi escrito originalmente em inglê e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Relatório da ‘Repórter Brasil’ sobre trabalho escravo na pecuária tem repercussão internacional

Investigações que mapearam os casos de trabalho análogo ao de escravos ligam fazendas flagradas aos maiores frigoríficos do Brasil

Reportagens de veículos estrangeiros destacaram o abismo entre o lucro bilionário dos frigoríficos brasileiros e as recorrentes condições de trabalho degradantes em fazendas fornecedoras (Foto: Marcio Isensee e Sá/Repórter Brasil)

Por João Cesar Diaz para a Repórter Brasil

A oitava edição do relatório o “Monitor”, da Repórter Brasil, traz uma análise aprofundada da relação entre o trabalho escravo contemporâneo e a pecuária no Brasil – com casos de fazendeiros que usaram escravidão contemporânea e forneciam inclusive para gigantes do setor, como a JBS. O relatório teve repercussão internacional, com matérias publicadas no jornal britânico The Guardian, na agência de notícias estadunidense Bloomberg e na Reuters Foundation.

As histórias levantadas no relatório destacam como, após mais de 10 anos de políticas corporativas sendo anunciadas para enfrentar o trabalho escravo em fazendas de gado, a situação de muitos trabalhadores não mudou.

Historicamente, a maior parte dos casos de trabalho escravo acontece na região rural, e a pecuária é o setor onde o problema é bem evidente e documentado. De acordo com dados do Governo Federal sistematizados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais da metade dos casos de trabalho escravo flagrados no Brasil entre 1995 e 2020 aconteceu nas atividades relacionadas à pecuária.

Dez anos de escravidão

O relatório se aprofunda em diversos estudos de caso, incluindo um envolvendo seis trabalhadores – quatro deles migrantes paraguaios, resgatados de condições análogas às de escravo em 2019 da Fazenda Rodoserv IV, no município de Caracol, no Mato Grosso do Sul.

Carne para alimentação dos trabalhadores na fazenda Rodoserv IV era armazenada em baldes (Foto: Equipe de fiscalização/Divulgação)

Na propriedade de Amarildo Martini, sócio do grupo “Rodoserv” – rede de postos de combustíveis e restaurantes de estrada –, os trabalhadores tinham de se abrigar em barracas improvisadas com retalhos de lona e galhos reunidos por eles mesmos. Sem acesso à água potável ou a banheiros, quatro dos funcionários da fazenda passaram dez anos submetidos a essas condições degradantes.

Segundo dados revelados pela apuração da Repórter Brasil, a fazenda forneceu gado diretamente ao frigorífico da JBS na região durante os meses de janeiro e outubro de 2019 (ano do resgate dos trabalhadores) e em fevereiro e abril do ano seguinte. 

Repercussão internacional

Com essa base, a Bloomberg, publicou a reportagem Slave Labor at Brazilian Cattle Farms Focus of New Report (“Trabalho escravo em fazendas de gado no Brasil é o foco de novo relatório”, em tradução livre), destacando as dezenas de violações trabalhistas graves encontradas. A matéria ressalta a ligação entre fazendas flagradas utilizando trabalho escravo e as grandes companhias de frigoríficos brasileiras – especialmente a JBS, a maior do mundo. A agência também levantou o paralelo entre a taxa crescente de desmatamento na região amazônica e a expansão das áreas de pastagem (legais e ilegais). 

“Fazendas de gado brasileiras ‘usaram trabalhadores em condições análogas à escravidão’” ou, no original em inglês, Brazilian beef farms ‘used workers kept in conditions similar to slavery, foi o título da matéria do The Guardian – veículo parceiro da Repórter Brasil em matérias investigativas no campo. 

A reportagem questiona a falta de rastreabilidade da carne processada nos frigoríficos da JBS e Minerva, citando casos de trabalho escravo em fazendas que forneceram carne para as companhias, e cobra respostas sobre a responsabilidade e a transparência das empresas na escolha de seus fornecedores.

Já a reportagem da Reuters, “JBS entre frigoríficos vinculados a fazendas contaminadas pela escravidão no Brasil” (JBS among meat firms linked to slavery-tainted ranches in Brazil, no original em inglês) enfatizou o abismo entre os bilhões de dólares de lucro dos frigoríficos brasileiros e as recorrentes condições degradantes que trabalhadores das fazendas que alimentam essa cadeia produtiva são submetidos.

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Este artigo foi publicado inicialmente pela Repórter Brasil [Aqui!].

Anistia Internacional critica políticas de Bolsonaro por aumento de desmatamento na Amazônia

O desmatamento crescente da Amazônia é resultado direto das políticas de Bolsonaro

gado anistiaA Anistia Internacional lançou uma petição online, Diga à JBS para não comprar gado ilegal da Amazônia, que pode ser assinada aqui.

Novos dados revelam que o desmatamento da Amazônia brasileira aumentou 9,5% em relação ao ano passado, e mostram o trágico custo da política adotada pelo presidente Jair Bolsonaro, de enfraquecimento sistemático das proteções ambientais – afirma, hoje, a Anistia Internacional.

Divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), os dados mostram que entre agosto de 2019 e julho de 2020 uma área de 11.088 km² de floresta foi perdida – um aumento de 9,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. 

A pesquisa evidencia que a Amazônia brasileira sofreu a pior destruição em 12 anos, já que em 2008 foram derrubados 12.911 km² de floresta.

“Ao declarar a região amazônica aberta aos negócios, Jair Bolsonaro priorizou o lucro de grandes empresas em detrimento do bem-estar de populações vulneráveis. Áreas protegidas continuam a ser queimadas para a expansão da pecuária bovina comercial”, disse Richard Pearshouse, Diretor de Crises e Meio Ambiente da Anistia Internacional.

“Por trás desses números há uma crise concreta para algumas das populações mais vulneráveis da Amazônia brasileira. Os moradores tradicionais e os povos indígenas que vivem sustentavelmente em áreas protegidas estão perdendo as florestas preciosas que lhes dão alimento, fontes de subsistência e remédios – além de sua própria identidade.”

Os dados revelam que foram perdidos 381 km² de floresta situada em terras indígenas. É a terceira maior perda de floresta em terras indígenas desde 2008. 

Unidades de conservação perderam 1.096 km² de floresta (um número semelhante ao do período anterior, que registrou a maior perda florestal em áreas de proteção ambiental desde 2008, com 1.110 km² de floresta derrubada).

“A floresta amazônica é feita de uma biodiversidade riquíssima e é habitada por muitos povos indígenas e moradores tradicionais. As autoridades brasileiras têm a obrigação constitucional de cuidar desse bioma e das comunidades que nele habitam. Proteger a floresta amazônica é fundamental para proteger essas pessoas. Esses dados sobre desmatamento refletem não apenas um retrocesso enorme na política ambiental, mas também na política de direitos humanos na região Norte do Brasil”, disse Jurema Werneck, Diretora Executiva da Anistia Internacional Brasil.

Fazendas pecuaristas ilegais alimentam a destruição da Amazônia

Uma pesquisa da Anistia Internacional já mostrou previamente que a pecuária bovina é o principal propulsor da apropriação ilegal de terras em reservas extrativistas e territórios indígenas da Amazônia brasileira, incentivando a derrubada da floresta e pisoteando os direitos dos povos indígenas e moradores tradicionais.

A região amazônica vem acompanhando a maior expansão da lucrativa indústria pecuária no Brasil. Desde 1988, o número de bovinos criados na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões de cabeças de gado bovino em 2018 e respondendo por 40% do total nacional. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida em terras indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo, 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 tornou-se área de pastagem para gado bovino -uma superfície cinco vezes maior que a de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo em um briefing publicado em novembro de 2019.

Gado bovino criado ilegalmente foi encontrado em cadeia de fornecimento da JBS

Em uma investigação publicada em julho de 2020, a Anistia Internacional descobriu que gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia brasileira foi encontrado na cadeia de fornecimento do grande frigorífico JBS. A Anistia Internacional não encontrou evidências indicando envolvimento direto da JBS em abusos de direitos humanos.

Em setembro, após pressão da Anistia Internacional, a JBS anunciou que até 2025 vai adotar um novo sistema de monitoramento de seus fornecedores de gado bovino, incluindo os fornecedores indiretos. Pelo menos desde 2009 a JBS tem conhecimento dos riscos de que gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas pode estar entrando em sua cadeia de fornecimento. A empresa havia prometido anteriormente que até 2011 começaria a monitorar seus fornecedores indiretos.

“Esse cronograma não serve”, disse Richard Pearshouse. “Em 2009 a JBS prometeu que até 2011 começaria a monitorar seus fornecedores indiretos. Mas aqui estamos, em 2020, com outra promessa vaga de que isso pode ser feito até 2025. A AnistiaInternacional novamente exorta a JBS a implementar essas mudanças até o final deste ano.”

Reserva extrativista do Rio Jacy-Paraná

Foi realizada ontem (2 de dezembro) uma audiência pública para discutir um projeto de lei submetido à Assembléia Legislativa de Rondônia que visa reduzir a área da Reserva Extrativista do Rio Jacy-Paraná (Resex Rio Jacy-Paraná) em 1.520 km². 

A maioria dos moradores da Resex Rio Jacy-Paraná foi expulsa por fazendeiros de gado bovino e grileiros durante apropriações de terra promovidas nas duas últimas décadas. A Resex é uma das unidades de conservação mais desmatadas da Amazônia. Entre agosto de 2019 e julho de 2020, a Resex Rio Jacy-Paraná perdeu 104 km² de mata – um aumento de 10,1% em comparação com o período anterior.

Segundo dados oficiais obtidos pela Anistia Internacional através da Lei de Acesso à Informação, o número de cabeças de gado bovino dentro da Resex Rio Jacy-Paraná subiu de 83.642 em novembro de 2018 para 105.478 em abril de 2020. 

“Se o projeto de lei for aprovado, isso significará a regularização das apropriações de terras para a prática da pecuária bovina comercial ilegal dentro da Resex. Isso vai apenas incentivar novas apropriações de terra em áreas protegidas da Amazônia”, disse Richard Pearshouse.