Do blog do jornalista Maurício Tuffani: morto era editor-chefe de revista científica trash

Médico assassinado se torna editor-chefe de revista científica

Por MAURÍCIO TUFFANI

Imagem: Reprodução

O neuropatologista Roger Brumback e sua esposa Mary foram assassinados em maio de 2013 em sua casa em Omaha, em Nebraska, nos Estados Unidos. Apesar de ter sido amplamente noticiada, inclusive neste ano pela notícia do julgamento do acusado a ser realizado em setembro, a morte do médico não foi impedimento para ele ser apontado como editor-chefe do periódico “American Journal of Medical Sciences and Medicine”.

Morto por vários tiros no abdômen, Brumback era professor da Universidade Creighton, onde havia chefiado o departamento de patologia. O uso indevido de seu nome pela revista foi noticiado na terça-feira (7.jul) pelo blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver.

AJMSM_detalheAlgumas horas depois, o periódico removeu o nome de seu site e em seu lugar inseriu um link para inscrições de candidatos ao cargo de editor-chefe, como mostra o detalhe da página na imagem à direita.

Periódicos predatórios

Longe de parecer apenas um mero episódio anedótico, a apropriação indevida do nome de Brumback pela revista se insere no crescente cenário de desconfiança na comunidade científica em relação aos chamados “periódicos predatórios”. A expressão tem sido usada há alguns anos para designar revistas acadêmicas editadas por empresários que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet, que é o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, financiado pelas próprias instituições acadêmicas mantenedoras dos periódicos ou pela cobrança de taxas de autores dos estudos.

Tanto nas publicações científicas em acesso aberto como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas e até a poucos dias o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

Em novembro de 2012, Beall já havia publicado um post informando o lançamento simultâneo de 85 periódicos científicos pela mesma editora dessa revista, a Science and Education Publishing (SciEP), que desde então está na lista de publishers predatórios mantida pelo blogueiro.

A revista “American Journal of Medical Sciences and Medicine” não consta na na base de dados online Qualis Periódicos, mantida pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação). Pelo menos 235 periódicos da lista de Jeffrey Beall foram identificados no Qualis Periódicos por este blog em abril deste ano.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/07/09/medico-assassinado-se-torna-editor-chefe-de-revista-cientifica/#_=_

Os riscos e impactos do “trash science”. Entrevista especial com o Professor Jeffrey Beall

lista beall

Em meio ao debate sobre os impactos da disseminação do lixo científico na ciência brasileira me deparei com a lista de editoras e revistas predatórias (o que eu chamo de “trash science” ou simplesmente “lixo científico” produzida pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver (Aqui! ).  E a partir do conhecimento da Beall´s List (ou Lista de Beall) tenho identificado editoras e revistas predatórias, muitas das quais têm atraído muitos pesquisadores brasileiros.

No intuito de saber mais sobre as origens e objetivos da Beall´ List, enviei um e-mail para o professor Jeffrey Beall solicitando uma entrevista para aprendermos mais sobre a sua lista e ele gentilmente concordou em responder às minhas perguntas. A entrevista com o Professor Jeffrey Beall segue abaixo na íntegra, e creio que a leitura das respostas que ele ofereceu serão bastante úteis para todos aqueles pesquisadores – dos mais jovens aos mais experientes- que desejem evitar ter suas pesquisas publicadas em revistas predatórias a custos nem sempre baratos, apenas para serem confundidas com lixo científico. 

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BLOG DO PEDLOWSKI: Qual é a sua atual filiação institucional, e principais interesses de pesquisa e atividades profissionais?

Jeffrey Beall (JB): Eu sou professor associado com estabilidade (tenure track) na University of Colorado-Denver. Eu faço pesquisas sobre publicações acadêmicas, métricas de publicações científicas e a ética na publicação.  Eu trabalho na biblioteca da universidade onde eu sou o bibliotecário responsável pelas comunicações acadêmicas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Por que o senhor decidiu iniciar uma lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Inicialmente eu criei a lista em um blog que eu mantinha e fiz isto apenas por curiosidade. Um ano depois de ter criado a primeira lista, no final de 2011, eu criei a lista atual e ela começou a atrair a atenção. Agora, o objetivo da lista é ajudar pesquisadores a evitarem revistas e editoras predatórias e de baixa qualidade.   

BLOG DO PEDLOWSKI: Muitos dos seus críticos sugerem que o seu nível de treinamento acadêmico e áreas de especialização não o habilitam a atuar como um juiz de integridade científica. Como o senhor responde aos seus críticos?

(JB): A questão parece implicar que para julgar um dado periódico, você deve ser um especialista no campo que o mesmo ocupa, como, por exemplo, Engenharia Elétrica. Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.

Ainda assim, muitas revistas publicam lixo científico, e na maioria das vezes sou capaz de identificar quando isso ocorre. Por exemplo, eu vi recentemente um artigo que discutia as civilizações que teriam existido no planeta Marte, e eu não tive a necessidade de ser um especialista em ciência planetária para determinar que tanto o artigo como a revista eram lixo científico.

Editoras predatórias visam enganar pesquisadores honestos para pensar que suas revistas são legítimas. Infelizmente, às vezes eles são bem sucedidos. Então, ocasionalmente, nós vemos boas pesquisas publicadas em revistas ruins.

BLOG DO PEDLOWSKI: Em sua opinião, como o fenômeno das editoras predatórias pode afetar o desenvolvimento futuro de revistas de acesso aberto?

(JB): Editoras e revistas predatórias que estão usando o modelo de ouro (autor paga) do acesso aberto tem um conflito de interesse interno, pois quanto mais artigos eles aceitam, mais dinheiro elas fazem. Muitas pessoas estão promovendo a publicação de acesso aberto, e o modelo tem suas vantagens, mas os defensores do acesso aberto não estão contando a toda à história. O número de publicações acadêmicas de acesso aberto está crescendo rapidamente, mas também o número de revistas e editoras corruptas. O registro científico está sendo cada vez mais contaminado com pseudociência e por ciência de baixa qualidade que serve como “ruído” e torna mais difícil encontrar e acessar ciência de qualidade e outros tipos de pesquisas qualificadas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Quais têm sido as principais respostas da comunidade científica à sua lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Estou honrado de ter recebido muitos e-mails me agradecendo por meu trabalho. Eu venho tendo a oportunidade de falar sobre a minha lista em conferências científicas e de conhecer novos colegas. Nem todo mundo gosta de mim, e está tudo bem com isso. Mas eu acho que até meus inimigos usam minhas listas.

BLOG DO PEDLOWSKI: O senhor tem alguma recomendação para cientistas interessados em evitar o risco de ser atraído e/ou enganado por editoras predatórias?

(JB): Sim. Por favor, consultem as minhas listas. Sejam muito cuidadosos com a aceitação de ofertas que cheguem via e-mails do tipo “spam”, incluindo as ofertas de revistas e conferências. Aprendam quais são as principais revistas em seus campos disciplinares, e as leiam. Leiam cada número das principais revistas, e aprendam o estilo delas. Em seguida, façam sua pesquisa, escrevam e submetam seus artigos às revistas que estejam no topo do ranking.

BLOG DO PEDLOWSKI: Existe alguma coisa que o senhor gostaria de acrescentar?

(JB): Sim, existem novas formas de fraude e aqui está uma: muitos periódicos agora afirmam que ganharam um fator de impacto, quando isto realmente não aconteceu Existem hoje novas empresas, principalmente da Índia, que vendem fatores de impacto falsos para as revistas predatórias. Verifique todos os fatores de impacto antes de submeter um manuscrito para uma dada revista.  

Editora trash e seus múltiplos convites para “pagar e publicar”

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Faz algum tempo que a minha caixa de mensagens eletrônicas no servidor da Uenf vem sofrendo uma enxurrada de convites de editoras predatórias (trash science) que invariavelmente anunciam facilidades para publicar a preços, ao menos inicialmente, módicos. Mas nesta segunda-feira (22/06) fui surpreendido com dois e-mails de uma mesma editora trash para revistas bastante díspares, conforme mostro abaixo, mas que possuem a semelhança de serem anunciadas pelo mesmo endereço eletrônico.

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O primeiro convite mostrado acima, que chegou às 6:53, se refere à revista Advances in Research, e o endereço de envio pertenceria a senhora Isita Sen, editora do ScienceDomain.org

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Como se vê, o segundo convite, que chegou às 9:08, já se refere a um tal de British Journal of Applied Science and Technology, e também foi enviado pela senhora Isita Sen.

Ao consultar a lista de editoras predatórias (trash science) preparada pelo professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver pude verificar que a editora e as revistas anunciadas estão listadas. Essa inclusão aponta para o fato de que estou diante de mais um caso de convite para “pagar e publicar”. 

Uma coisa que me deixa curioso é sobre como meu endereço eletrônico foi obtido por essa editora, já que nunca tive qualquer contato com a mesma. E como tenho notícias que outros colegas também receberam a mesma mensagem fica demonstrado que a entrega na minha caixa postal não foi por acaso. Essa pode ser uma pergunta que se bem respondida poderia nos mostrar o caminho de um comércio bem valioso que é o da entrega de endereços eletrônicos de pesquisadores brasileiros a essas editoras.

E nunca é demais lembrar que tem muito CV Lattes recheado com esses “artigos” neste momento, inclusive por pesquisadores detentores das ambicionadas “Bolsas de Produtividade” do CNPq. Deve ser por isso que o mercado de artigos trash não para de crescer, o que explica essa chuva de e-mails dos editores predatórios.

Trash science: depois de negar o problema, CAPES começa a limpar o Qualis Capes

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Após objetivamente negar o problema da contaminação do Qualis Capes por revistas predatórias em matéria feita pelo jornalista Maurício Tuffani (Aqui!), a Capes parece ter começado o necessário esforço para deixar de reconhecer centenas de revistas “trash” como fontes de produção científica qualificada. Esta informação foi passada a todos os coordenadores de programas de pós-graduação reconhecidos pela Capes, numa mensagem tão breve quanto direta:  

Prezados Coordenadores seguem algumas informações sobre os títulos de periódicos suprimidos pelo JCR, Editores e Revistas consideradas predadoras (que sairão do Qualis caso não tenha cites per doc ou JCR)”

A mesma mensagem ainda traz a lista de editoras predatórias organizada pelo professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, o que pode ser entendido como uma indicação aos pesquisadores brasileiros de que evitem várias centenas de revistas pseudo-científicas que vinham engordando a produção científica dos programas de pós-graduação certificados pela Capes.

Como o professor Beall deverá vir ao Brasil no final de maio para participar do 4o. Congresso Mundial de Integridade na Pesquisa, evento que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro, é provável que a Capes esteja evitando novos embaraços públicos frente aos pronunciamentos que esse especialista em “trash science” deverá fazer. 

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De toda forma, vamos esperar que a partir de agora a Capes pare efetivamente de premiar programas contaminados por produções científicas que não valem nem o papel em que são impressos. E, sim, que essa postura saneadora se estenda também ao CNPq, onde o processo de concessão de bolsas de produtividade e concessão de fomentos também deve estar sofrendo com essa contaminação da ciência trash. A ver!

Os caminhos tortuosos da “trash science”: o apelo ao ego como estratégia para fisgar pesquisadores incautos

Não é novidade que a adesão de muitos pesquisadores à revistas “trash” está ligada à necessidade de mostrar números que os possibilite a galgar posições, obter financiamentos e adquirir algum tipo de notoriedade.  Mas isso não quer dizer que não existem estratégias adicionais que as editoras responsáveis pela disseminação do lixo científico usam para atrair incautos para suas conferências caça-niqueis e, posteriormente, para suas revistas. Uma das estratégias favoritas que eu venho sendo agraciado é o de apelar para o ego dos pesquisadores, e a tática favorita para fisgar os interessados é o súbito aparecimento para cumprir o papel normalmente nobre de ser um “keynote speaker“, o que equivale a ser um orador principal em uma dada conferência. Nem é preciso dizer que essa é uma função normalmente ambicionada, pois dá destaque e notoriedade a quem a cumpre.

Para deixar mais claro, posto um convite que me chegou no dia de hoje para ser um “keynote speaker” na “4th International Conference on Biodiversity” que ocorrerá entre os dias 15 e 17 de Junho na aprazível cidade de Las Vegas, que o site da conferência identifica como sendo a capital internacional do entretenimento.

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Como nunca ouvi falar dessa conferência, fiz o que qualquer pesquisador responsável faria: identifiquei o grupo OMICS International como organizador da conferência, e depois disso fui consultar a lista preparada pelo Professor Jeffrey Beall da University of Colorado Denver para identificar publicadores predatórios (Aqui!). E não deu outra:  o OMICS International aparece listado como responsável por publicações predatórias. E ao verificar o site da própria OMICS International pude ver a clara conexão entre as múltiplas conferências que o grupo organiza e quase 500 periódicos “trash”!

Em face de um exemplo recente que foi identificado pelo jornalista Maurício Tuffani que descobriu a conexão entre uma conferência caça-niqueis na UNICAMP como o turbinamento de CV Lattes dos participantes a partir da publicação de artigos apresentados no evento em uma determinada revista ligada ao organizador do evento (Aqui!), acho pertinente perguntar quantos outros pesquisadores na área dos estudos da conservação receberam este mesmo convite e tiveram o cuidado que eu tive. É que baseado nas evidências sendo levantadas pelo jornalista Maurício Tuffani, não é improvável que pedidos de auxílio de viagem internacional para participar dessa conferência já não estejam sendo preparados neste momento para enviar à CAPES e ao CNPq.

Maurício Tuffani põe o dedo na ferida: lixo científico e o silêncio da academia

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O Qualis e o silêncio dos pesquisadores brasileiros

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto aqui no Brasil a comunidade científica praticamente ignora a presença de mais de 200 revistas acadêmicas de reputação suspeita que foram aceitas no Qualis Periódicos, fora do país já começaram discussões sobre essa base de dados serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos brasileiros a escolher publicações científicas para seus trabalhos.

Tudo começou na semana passada, quando o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos, enviou para uma lista de discussão os links de alguns de meus recents posts sobre sobre a aceitação dessas publicações pela Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de  Pessoal de Nível Superior).

O Qualis abrange cerca de 30 mil títulos, segundo a Capes. Sua classificação nos níveis A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C é usada também em processos seletivos para contratações e promoções e em avaliações individuais e institucionais para concessões de bolsas e auxílios.

Para decepção do colega, eu expliquei a ele que o assunto certamente despertaria muita atenção, mas não geraria muitas discussões, pelo menos publicamente. A apuração que eu realizara até aquele momento já me permitia prever o que acabou acontecendo: o silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros sobre o assunto, apesar de os posts terem .

Acesso livre

Os periódicos predatórios são revistas acadêmicas editadas por empresas que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet. Trata-se do Open Access (acesso aberto), o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, baseado na cobrança de taxas de autores.

Tanto no Open Access como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los.

Lixo acadêmico

Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

É importante ressaltar que bons estudos também têm sido publicados em periódicos predatórios. Mas isso só agrava o problema, pois significa que salários de pesquisadores, seu tempo de trabalho e recursos para pesquisas acabaram se transformando em artigos largados em publicações desprestigiadas e até mesmo consideradas “lixo acadêmico” pela comunidade científica internacional. No caso do Brasil, quase todo o dinheiro envolvido nessa atividade vem de cofres públicos.

Avisos

Nas entrevistas que realizei, cientistas de alto prestígio nacional e internacional afirmaram que a inclusão dos chamados periódicos predatórios no Qualis era uma falha grave por parte da Capes. Mas quase todos eles pediram para não serem identificados.

No início dessa apuração, o que me deixou intrigado foi o fato de que eu havia selecionado pesquisadores não só com bons currículos, mas também que já haviam assumido posicionamentos autênticos, críticos e firmes sobre questões em torno da ciência no Brasil.

O total de periódicos que listei em meu post Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’ (9.mar) corresponde a 0,67% do total de 30 mil títulos. Isso não seria motivo para tanta preocupação.

Maquiagem

O tamanho da encrenca, porém, começou a ficar claro logo depois. Apesar de esse percentual de predatórios no Qualis ser pequeno, ele mostra uma vulnerabilidade indesejável dessa base de dados. Além disso, esse problema começou a mostrar a conexão com outras aberrações, como a realização deeventos caça-níqueis, em condições até anedóticas e constrangedoras.

Outra distorção que constatei foi a maquiagem serial de trabalhos apresentados em conferências, como se eles fossem artigos aprovados por peer review de periódico. E isso aconteceu em um evento na Unicamp, uma das melhores universidades brasileiras, a única com a USP no ranking das melhores do mundo do Times Higher Education.

Disparidades

Para complicar, minha apuração dos periódicos predatórios do Qualis revelou uma outra esquisitice que atinge dessa base de dados que pode prejudicar publicações de boa reputação: uma mesma revista pode ser classificada em diversos níveis de qualidade. Essa variação não seria problemática se ela se restringisse a níveis de qualidade próximos e envolvesse áreas de especialidades muito distintas.

Acontece que há oscilações que vão desde o pior e mais baixo nível de classificação —aplicável somente a publicações com deficiências extremas— aos mais elevados, relativos a padrões de excelência. E, o que é pior, entre áreas muito próximas  (A avaliação ‘quântica’ de revistas científicas no Brasil, 16.mar)

Estagnação

Como vimos acima, a vulnerabilidade e a inconsistência dessa base de dados indicam que o problema é maior que a presença dos predatórios. Após a criação do Qualis em 1998, houve o crescimento da publicação de trabalhos acadêmicos brasileiros, que na prestigiada base de dados Web of Science quase quadruplicou de 2000 a 2013.

No entanto, os indicadores de qualidade dessas publicações mostraram estagnação nesse mesmo período. Pior: esses índices cresceram em poucas instituições de pesquisa de grande produção quantitativa. Isso matematicamente significa que o conjunto do restante da  produção nacional não estagnou, mas caiu em qualidade.

Iceberg

Nesse mesmo período, currículos têm sido recheados com base nesse crescimento quantitativo sem correspondência na qualidade. Isso influenciou não só contratações e promoções, inclusive salariais —tudo por meio de concursos públicos—, mas também avaliações de produtividade individuais e institucionais, concessões de bolsas e auxílios.

O silêncio quase absoluto dos pesquisadores brasileiros não é, portanto, devido aos predatórios, mas aos os buracos que eles revelam no Qualis. Esses buracos expõem uma parte importante de todo um sistema de avaliação de desempenho no qual carreiras e reputações acadêmicas foram sendo construídas nestes últimos anos.

Limpeza

Remover do Qualis os periódicos predatórios poderia certamente resultar em muitas reclamações e protestos. Isso levaria a Capes e outras instituições a deixarem de contabilizar os artigos publicados nessas revistas.

Mas acredito que de uma forma ou de outra é o que acabará acontecendo. E será muito mais rápido se a defesa da manutenção desses títulos depender dos próprios publishers. (Muitas vezes tenho dificuldades para usar os argumentos deles como defesa.)

Acredito que a eliminação dos predatórios acontecerá apesar do silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros.  Muitos dos coordenadores e coordenadores adjuntos dos 48 comitês assessores da Capes são pesquisadores respeitados em termos de excelência acadêmica e reputação por seriedade. Conheço pessoalmente alguns que certamente não compactuarão com essa avacalhação.

Mas não acredito em uma reformulação que leve nosso sistema nacional de pós-graduação a combater a tolerância com revistas de baixa qualidade. É grande demais o contingente que nos últimos anos se formou, cresceu e adquiriu direitos, inclusive trabalhistas, fazendo uso de publicações fracas e desprestigiadas. E tudo isso aconteceu dentro de nossa tradição brasileira de apostar no crescimento da quantidade com a promessa de um posterior aumento da qualidade que nunca acontece.

Vespeiro

Com essas e outras, dá para entender muito bem o motivo pelo qual alguns célebres pesquisadores não estavam dispostos a dar entrevistas e arrumar mais um confronto na vida. O problema deles era “mexer com um vespeiro”. O célebre “Epitáfio para M.”, de Berthold Brecht (1898-1956), que em tradução livre transcrevo a seguir, ilustra bem o que poderia ser esse embate.

Dos tubarões eu escapei./Os tigres eu matei./Fui devorado pelos percevejos.
(Den Haien entrann ich./Die Tiger erlegte ich./Aufgefressen wurde ich von den Wanzen.)

Entendo eles. Eu mesmo muitas vezes tenho dito que o mais desgastante não é enfrentar leões, mas os bandos de hienas. Felizmente alguns pesquisadores brasileiros já estão passando da preocupação para a indignação.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/04/01/o-qualis-e-o-silencio-dos-pesquisadores-brasileiros/

Lixo científico “made in Brazil”

made in brazil

Venho faz algum tempo tratando aqui neste blog da difusão e banalização do que muitos chamam de “publicações predatórias”, e eu (seguindo o que disse o físico Rogério Cézar Cerqueira Leite num polêmico artigo no jornal Folha de São Paulo) denomino de “lixo científico”.  Os sucessivos casos de pesquisadores sendo pegos com artigos e outros tipos de publicações que mimetizam descobertas científicas em revistas onde o único requisito é pagar para publicar é um fenômeno global. As “editoras” estão espalhadas por diferentes partes do globo, ainda que países como China e Índia seja rotineiramente apontados como locais preferenciais para o estabelecimento de empresas especializadas em distribuir lixo científico a preços nem sempre módicos. 

O fenômeno não é novo, mas se espalhou como o vírus da peste negra após a emergência da internet que serviu para validar publicações que não necessariamente vão ser impressas.  Além disso, o surgimento da internet serviu para conectar prestadores de serviços (editoras predatórias) e fregueses (profissionais interessados em turbinar seus currículos sem as exigências da revisão por pares), o que contribuiu para criar um imenso mercado para personagens obscuros.  Esse fenômeno gerou até imensas listas de identificação de publicações predatórias como a criada pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver, que se tornou uma referência mundial no esforço para conter o avanço do lixo científico (Aqui!).

Pois bem, se alguém pensou que o Brasil não possui o seu próprio estoque de publicações “trash”, pensou errado. Após me interessar pelo assunto, comecei a pesquisar (usando o Qualis Capes como ponto de partida) determinadas publicações que possuíam o que o jornalista Maurício Tuffani caracterizou em seu blog como  a “classificação quântica” do Qualis Capes (Aqui!). E o que eu acabei descobrindo é que, apesar de ainda faltar a mesma estrutura logística das editoras predatórias localizadas em outras partes do mundo, há sim no Brasil um mercado emergente de publicações onde determinados personagens são, ao mesmo tempo, dos corpos editorial e científico, exercem o papel de revisores e, sim, ainda publicam seus “artigos científicos”.  Em suma, são o policial, promotor de justiça, juiz, e carrasco! Além disso, essa rede de publicações junta personagens em instituições localizadas em diferentes partes do Brasil, de modo que fica difícil verificar num primeiro momento que são sempre os mesmos personagens envolvidos.

Esse fenômeno “editorial” tem graves implicações para a comunidade científica brasileira, na medida em que os órgãos de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) utilizem critérios que favorecem a quantidade e não a qualidade das publicações no momento em que concedem financiamentos (no caso do CNPq) ou certificam programas de pós-graduação (no caso da CAPES).  A existência e persistência desse sistema de medição é que está na origem do fenômeno das publicações predatórias em nível mundial, e não é diferente no Brasil. Mudar essa situação vai passar por uma urgente reestruturação dos sistemas de medição de mérito, visto que o que estamos vivendo no Brasil é apenas a primeira fase da invasão e colonização da ciência brasileira por revistas predatórias “made in Brazil”. 

Sob o eco do “trash science”, CAPES incentiva participação em conferência mundial sobre integridade na pesquisa

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Tem horas que eu fico em dúvida sobre se estou diante de coincidências ou não, mas acabo de receber (e já até fiz minha inscrição preliminar) numa conferência que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro entre os dias 31 de Maio e 03 de Junho com um tema que é mais atual do que nunca “integridade na pesquisa”.

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Espremida pelas críticas que estão surgindo na comunidade científica (Aqui!) e de investigações jornalísticas sérias (Aqui!) de que a coisa não anda bem na qualidade da produção científica gerada no Brasil, a CAPES agora divulga e incentiva a participação numa conferência sobre integridade científica. 

O inglês, essa língua tão fascinante por sua capacidade de síntese, tem uma expressão que cabe bem para essa situação, que é o “very timely” que quer dizer “muito oportuno”, ou como dizem os mais jovens “da hora”. 

Agora, você esperar que além de incentivar a participação nesta conferência, a CAPES também faça uma revisão profunda no sistema de qualificação dos periódicos no sistema “Qualis”. É que não adianta convidar para que saibamos algo que já deveria ser sabido, e não se comece imediatamente a tomar as medidas profiláticas que a realidade já demonstrou serem necessárias para evitar a disseminação do lixo cientifico na ciência brasileira. É que depois não vai adiantar tentar colocar tramela em porta arrombada.

Para quem não conhece, um dos conferencistas que deverá estar presente na conferência é o professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, que é um dos maiores especialistas internacionais na identificação de pseudo artigos científicos, mas que não passam de trash science”. Talvez com a presença do Prof. Beall, comecemos a aprender mais sobre quão atolados estamos no pântano do lixo científico e das publicações predatórias. Aliás, para aqueles que ainda não conhecem a “lista de Beall” de editoras e revistas envolvidas na disseminação de “trash science”, basta clicar (Aqui!).

 

 

Trash science a todo vapor em eventos “caça-níqueis” no Rio de Janeiro

Eventos científicos “caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros

MAURÍCIO TUFFANI, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

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Estão abertas inscrições, com taxas de até € 450 (R$ 1.453), para 116 reuniões científicas simultâneas em fevereiro de 2016 no Rio de Janeiro. O problema é que eventos como esses já são conhecidos como “scam conferences” (conferências-golpe, literalmente em inglês) no exterior. Organizados sem cuidados acadêmicos, eles são apontados como fraudulentos por instituições de pesquisa de outros países.

A organizadora desses 116 eventos é a Waset (Academia Mundial de Ciência, Engenharia e Tecnologia, na sigla em inglês). Apesar do nome, é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato é dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os registros de suas revistas são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN.

Enquanto no exterior é apontada em alertas para pesquisadores não participarem de suas conferências nem publicarem em suas revistas, no Brasil a Waset aparece na seleção baseada em critérios de qualidade de periódicos nacionais e estrangeiros, feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Disponível na plataforma on-line Qualis Periódicos, essa seleção da Capes orienta pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher revistas para publicar seus estudos. As informações são importantes para as carreiras acadêmicas, nas quais contam a quantidade de artigos publicados e a participação em conferências, que muitas vezes são organizadas por editoras de periódicos.

Sites como o da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da Sociedade Europeia de Redes Neurais e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset. Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição.

O ecólogo Alexandre Marco da Silva, professor da Unesp de Sorocaba, soube pela reportagem que seu nome está no comitê científico da 14ª Conferência Internacional de Geofísica e Engenharia Ambiental, um dos 116 eventos. “Eu nem sei que conferência é essa”, disse ele surpreso ao telefone, acrescentando que exigirá a retirada de seu nome do comitê.

Indicado em todos os 116 sites das conferências da Waset “marcadas” para 2016, o Hotel Windsor Guanabara também afirmou por meio de sua coordenação de eventos desconhecer esse agendamento, assim como mais 110 reuniões em 2017 e outras 110 em 2018.

“FALHA GRAVE”

A inclusão da Waset no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por cientistas ouvidos pela Folha, que preferiram não ser identificados para não se indisporem com a agência do MEC.

Exceção a esse anonimato foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo-se à seleção da editora pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas.

A Waset também está na lista dos chamados “publishers predatórios” do blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso aberto na internet.

Tanto no acesso livre como no pago, periódicos bem conceituados demoram até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os editores predatórios reduzem esse intervalo a poucos meses ou semanas, e raramente rejeitam papers. “Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem” disse Beall.

Em 2013, um ano após a Waset ter sido detectada pelo trabalho solitário de Beall, a Capes concluiu sua avaliação trienal da pós-graduação brasileira por 48 comitês de áreas da Capes, cada um deles com a média de 20 consultores. Mesmo sem seguir o padrão acadêmico de indicar datas de recebimento e de aceitação de artigos, a editora não foi rejeitada por 20 desses comitês.

Dez das classificações obtidas pela Waset no Qualis exigem registro em pelo menos duas bases de dados científicos. Apesar dessa regra, as publicações dessa editora constam apenas no desconhecido International Science Index, cujas iniciais são as mesmas do prestigiado ISI (Institute of Science Information), da Web of Science, que é a maior base mundial desse gênero.

Outra irregularidade da Waset no Qualis é constar erroneamente como título de periódico. Para complicar, a editora tem dez revistas, mas o registro da Capes faz com elas um imbróglio com quatro códigos numéricos ISSN. Dois desses registros são da Turquia, mas inválidos, e os outros dois, de Singapura, foram cancelados, segundo o Centro Internacional do ISSN, em Paris, na França.

RESPOSTA

A Waset não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem. Em nota, a Capes foi evasiva sobre irregularidades na inclusão da Waset e de seus registros ISSN no Qualis e sobre a permanência da editora nessa seleção. Apesar dessa omissão, a agência federal alegou que “nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Veja a íntegra da nota:

A classificação na Capes de periódicos, livros e demais formas de produção intelectual não é feita a priori levando em considerações todas as editoras/publishers que existem ou aqueles que a cada momento, no mundo todo, estão lançando novos títulos.

No início do ano cada programa de pós-graduação (atualmente da ordem de mais de 5.700 cursos) que são devidamente avaliados e recomendados, constituindo assim o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), deve informar à Capes a produção intelectual realizada no ano anterior pelos seus professores, pesquisadores e alunos.

Esta informação declarada pelos cursos de pós mostra que, atualmente (dados de 2013), a produção intelectual da pós-graduação brasileira é publicada em periódicos da ordem de mais de 30 (trinta) mil títulos, editados em dezenas de países.

Quando da classificação (Qualis) destas revistas para fins de avaliação (notas) do SNPG, que é feita pela comunidade acadêmico-científica através de comissões das 48 áreas de conhecimento, são considerados vários aspectos sobre as mesmas. Nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis e os artigos publicados nas mesmas são desconsiderados na avaliação. Isto ocorreu na última avaliação trienal, quando mais de 60 (sessenta) revistas foram retiradas do Qualis, mesmo tendo tido classificação (contabilização) em trienais anteriores.

É importante destacar que, com exceção da área de ensino (uma área nova na Capes e ainda sem a tradição das demais áreas), todos as revistas citadas foram mal classificadas no Qualis e no seu conjunto total representam apenas 0,1% do total de títulos constantes no Qualis. Desta forma, as mesmas não contribuem para a qualificação dos cursos de pós-graduação stricto sensu do Brasil, nem mesmo na área de ensino.

A Capes requer ao sr. Maurício Tuffani que faça constar na íntegra a resposta desta agência na matéria publicada. Caso contrário, a Capes publicará o seu ponto de vista na página da Capes.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2015/03/1597163-eventos-cientificos-caca-niqueis-preocupam-cientistas-brasileiros.shtml