Chuvas RS 2025: quem será o Caramelo da vez?

Nas chuvas de 2024, o cavalo Caramelo simbolizou a resistência contra as chuvas devastadoras que se abateram sobre o estado do Rio Grande do Sul

Por João Anschau*

A saudosa professora Iracema foi um ser que surgiu em minha vida sem pedir licença para ficar. Ocupou a janela, mesmo tendo chegado atrasada na lista dos notáveis influenciadores que estava sendo construída no meu imaginário. Nem por isso teve sua importância diminuída. Era dura, mas nunca perdeu a ternura pela escolha de um ofício, na época mais valorizado e respeitado, e mantinha o mesmo sentimento com seus rebentos adotados. Certa vez, numa prova de matemática – minha matéria favorita na época – me deu zero. Algo “improvável” de acontecer, mas o poder da caneta era dela. Recebi a avaliação, voltei para minha mesa e conferi uma por uma das questões. Todas estavam certas. Retornei e disse para ela que havia um erro. Ela concordou. 

– Mas a falha foi sua professora, retruquei. 

– O que diz o enunciado? 

– Desenvolva as questões. 

– O que você fez? 

– Resolvi as questões e as respostas estão corretas. 

– Você às resolveu diretamente, sem detalhá-las. 

– Mas a senhora sabe que eu sei. 

– Eu te conheço, mas se outra professora tivesse aplicado a prova, ela poderia concluir que você copiou as respostas de um coleguinha.

– Mas eu não colei. 

– Mas também não elaborou.

Com as paredes vertendo água internamente, devido ao excesso de umidade, acompanho o noticiário oficial da tragédia chuvosa que mais uma vez atinge centenas de municípios gaúchos. E entre um e outro boletim, aparentando um “Não vale a pena ver de novo”, reprise de 2023/24, um repórter quase comemora o fato de não termos ainda atingido os mesmos níveis de chuvas de maio do ano passado. Você não leu errado. Informa assim: “comemorando.”

Quem mora no extremo sul do Brasil sabe que o ocorrido por aqui há mais de um ano foi tratado com irresponsabilidade por quem deveria “informar e mediar o debate” acerca das volumosas chuvas. Sonho meu. Reconheço. O básico, causas e consequências, não estava na pauta. Campanhas publicitárias ufanistas — até filme idealizado pela Secretaria de Comunicação do governo gaúcho foi lançado, no qual se enaltecia o nosso ‘novo Bento Gonçalves Leite’ — brotaram em todos os cantos do Rio Grande do Sul (RS). Era um tal de força dos gaúchos pra cá, pra cima deles pra lá, que, de tanto floreio, dava pra desconfiar dos rumos que tomava a discussão a respeito de crises climáticas provocadas pelos mesmos de sempre. Romantização e normalização do absurdo foram a tônica sem gás. A mídia hegemônica que tem lado – o do lucro, e dane-se a nossa vivência harmoniosa (catástrofes também enchem os cofres dos patrões) – parecia ter apenas um objetivo: criar novos ‘heróis’ conhecidos, ou nem tão anônimos assim. Agora está em busca de um novo “Caramelo” para chamar de seu. E as vidas ceifadas? E as vidas ceifadas? Os capitalistas guascas colocam na rubrica ‘danos necessários’ e (serão) cobertos pelo erário mais adiante.

O mundo de Cristina e a lei de Murphy… “Parece mentira que estamos passando por isso novamente”. Essa frase foi disparada pela apresentadora do telejornal mais visto no RS. Não foi uma estagiária fazendo um programa experimental, no qual até se admitem erros pontuais que não prejudiquem o produto final. E acreditem, a jornalista não corou. Foi na cara dura mesmo. Abro agora a seção “erraram”.  Dona Cristina, o hoje foi previsto ontem por quem nos avisa há muito. Pesquisadoras e pesquisadores não fazem exercícios de futurologia lendo a borra do café. A ciência usa métodos racionais e nos apresenta cenários. São pessoas que, mesmo atacadas e tratadas como delinquentes, continuam a executar a tarefa de iluminar a estupidez humana — de nada adianta ter, como bem lembrou Jorge Furtado em “Ilha das Flores”, o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, se a desigualdade continuar a ser a nossa maior “virtude”. Não há problema com a sua memória que, evidentemente, é seletiva e atende a interesses distintos da sua audiência. E acredito que pela sua idade não deve haver um diagnóstico de Alzheimer que possa justificar seu esquecimento. A senhora representa sem questionamentos os fiadores e patrocinadores da destruição do bem comum.

Em abril deste ano, o cais do porto, um dos espaços mais atingidos, em Porto Alegre, pelas águas em 2024, foi palco de um evento que discutiu empreendedorismo e inovação. O South Summit Brazil 2025 foi uma festa,  literalmente. Um carnaval sem malemolência fora de época. Nem parecia que naquela área, há alguns meses, a natureza mandava recados, incompreendidos por quem decide e aparenta ter problemas cognitivos, auditivos e visuais. Tudo o que era mostrado agora tinha glamour, respirava um ar de normalidade e tentava dar contornos de superação, alegria e novas oportunidades. Durante vários dias, em quase todos os espaços de jornalismo/entretenimento, éramos inundados — não é um trocadilho — com notícias incessantes a respeito da celebração — numa análise mais cuidadosa, aqueles informes pareciam peças criadas por relações públicas e marqueteiros do patrocinador maior, o Governo gaúcho. O meio ambiente, e sua composição cada dia mais apagada, inexistia para os olhos ligados de pessoas descoladas do mundo de verdade, aquele no qual inundações mataram, desalojaram e apagaram histórias. 

E o gerente governador Eduardo Leite — mesmo sem o uso do colete laranja vibrante, sempre alinhado, limpinho e bem passado — concedeu entrevista à sua rede particular de comunicação – leia-se concessão pública de TV e rádio. Entre as platitudes proferidas, Edú disse que em um ano não se resolve tudo. Invejem, Brasil, nosso “Nostradamus” de boutique. Temos um genuíno visionário e difusor de sentenças dignas de crianças em processo inicial de alfabetização. Um luxo no meio do lixo acumulado nas casas dos desafortunados de plantão. Fiquei de butuca aguardando que o gestor Leite anunciasse uma nova e “profícua” viagem, juntamente com o prefeito do chapéu de palha, Sebastião Melo, para a Holanda e aprender com o primeiro mundo como se faz. Concluo, depois de doses de “sabedoria” governamental, que a experiência acumulada por pesquisadores e especialistas gaúchos no tema não produz diárias e fotos para o próximo álbum — 2026 logo ali na frente — de estadista gourmet. A ciência gaudéria não fala holandês e se convidada a sentar-se à mesa, pode azedar o leite. Por isso, continuam as apostas em soluções mágicas, paliativas e totalmente distantes das reais necessidades que o momento exige. 

Na quarta-feira, dia 18, início da tarde, durante o retorno da cidade de Ijuí, noroeste do RS, tive a companhia, em aproximadamente 40 kms, de muita chuva. Água na pista, misturada com terra, era normal. Lavouras encharcadas, idem. Curvas de nível praticamente inexistem, pois ‘diminuem’ a área produtiva, e o solo que lute. E no meio dessa lama — literal e política — eis que surgem os produtores do PIB, pedindo renegociação. Apoio. Desde que os beneficiários estejam no grupo daqueles que realmente foram severamente atingidos pelas águas e que não possuem condições de continuar. É importante lembrar que o chamado agronegócio recebe uma generosa fatia de incentivos fiscais patrocinados por mim e por você. Estima-se que 85% das benesses direcionadas para o agro estão concentradas em grandes produtores de commodities (soja, milho, gado). E o que recebemos em troca? Na água e nos alimentos um combo de venenos e outros insumos zero saudáveis que são utilizados para acelerar processos e atender a sanha produtiva predatória agroalimentar. Resulta que o Brasil é um grande produtor de alimentos cancerígenos, cujos tratamentos, em sua maioria, são custeados pelo SUS. Sem magoá-los, vou me apropriar de uma definição dos especialistas do segmento nada pop: abre-se uma janela de oportunidade para que seja revisto — só que não vai rolar — esse modelo nocivo de praticar agricultura. Registro que a securitização não é para a senhora e para o senhor que plantam comida de verdade e têm uma relação harmoniosa com a natureza.

E o Barão de Itararé se apresenta e reforça a sempre atual frase: “De onde menos se espera é que não sai nada”. Se o Rio Grande do Sul foi em 2024 um laboratório de como não desenvolver ambientalmente, o mínimo que se espera da representação política eleita democraticamente é que revejam suas posições, mesmo para aqueles que estão no Congresso apenas e tão somente para representar os interesses de seus financiadores privados. Esse seria, no meu mundo ingênuo, o melhor dos mundos. Se a legislação ambiental já sofria ataques anteriores, agora conseguiram a façanha de abrir toda a porteira e aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Enquanto isso acontecia, o RS perdia mais um tanto de sua cobertura vegetal de Áreas de Proteção Permanente. Ah, mas o que isso tem a ver com as enchentes sulistas? Tudo e mais um pouco. E já que o pudor foi deixado do lado de fora da porta da casa de tolerância legislativa, humildemente sugiro — também por respeito a elas, tratadas a machadadas — que retirem dos calendários a data alusiva ao dia da árvore. Não é apenas incoerente manter o 21 de setembro, plantar algumas espécies, sacar algumas selfies e no outro dia fingir que a cidade passou do verde para o cinza do concreto. Até a máfia tem regras de convívio que devem ser respeitadas, portanto, não adianta a bancada da destruição ambiental cobrir sua cara de surpresa quando a água cobra a conta.

Escrevo essa provocação durante a semana de Corpus Christi. Milhares não estarão com os seus para dividir o pão e o vinho porque mais uma vez foram expulsos de suas casas pelo recado duro das águas. Não é mais aceitável tratar isso como novo normal e aguardar, daqui a 12 meses, outros registros do mais do mesmo. Tampouco é recomendável aguardar as eleições de 2026 para ver quem vai puxar a capivara da destruição e exibir seus feitos nada cristãos. Se ainda existe resistência e resiliência, urge que se apresentem e guiem. O contraponto não é apenas uma questão de retórica. É fundamental apontar o nome, sobrenome e endereço dos responsáveis pela necropolítica guasca, financiada por aqueles que dizem não guentar mais “pagar” tantos impostos, mas nadam em isenções fiscais pecaminosas. Não é um convite à revolução. É algo mais simples: é a busca da salvação coletiva. Para isso, precisamos gravar na lista dos compromissos diários que reconstrução não é sinônimo de estradas. 

Ah, detalhe importante: diferente do que disse uma senhora, que ao mostrar-se conformada por ter sido desalojada outra vez, cravou que ‘Deus está no controle’, há controvérsias. Primeiro: não tenho procuração para representá-lo, mas contudo já adianto que Ele nos entregou o planeta alinhadinho, bastando efetuar manutenções pontuais e seguir. Segundo: Ele é filho de carpinteiro, mas não cursou engenharia. Terceiro: atrevo-me a revelar — e não é uma heresia, apenas análise de seu comportamento — que Ele não volta mais. A desistência tem relação direta com a falta de interpretação textual e comportamental do que Ele pregava. Portanto, incluam Ele fora dessa bagunça. E mais: Ele também não disse para contribuir com o dízimo e sustentar os agiotas da fé.

As respostas continuam insatisfatórias, incompletas. O poder público é omisso e mostra-se incapaz de ouvir especialistas. O barulho do colapso sugere não incomodar, e a escora dos anúncios de recursos e vazios de planejamento dá indícios de apodrecimento. Para além dos extremos climáticos, o que continua a avançar é a agenda do capital, esta que nunca é chamada às falas e, onipresente, escreve, interpreta e sentencia o nosso amanhã. A ampulheta do ‘se continuar assim, vai dar nada bom’ corre lentamente e segue o seu rito. E nós, convencidos de que é assim que a roda gira, assistimos e esperamos um milagre de um Deus que já deixou claro que não é signatário da teoria da prosperidade destrutiva. E não será surpresa se em breve as bets — outra praga normalizada e legalizada — entrarem no cassino da morte e faturarem ainda mais, literalmente em cima de mais um desastre que atinge certeiramente os carregadores da base.

Vivemos uma quadra histórica na qual a estupidez humana é premiada. Grosseiramente comparando, é como se alertássemos uma criança a não pôr um objeto de metal em uma tomada elétrica. Que aquilo pode dar ruim. Ao invés da segurança, da proteção, o que temos é o estímulo a fazer errado e o errado é saudado como necessário para “desenvolver”. Nossas “crianças” grandes, bem nutridas e com polpudos orçamentos publicitários, são tratadas como empreendedores… — e faço o complemento — do caos. Vivemos tempos de carestia e não faço referência aos preços dos alimentos. O meu alvo é outro: a escassez da razão. Não sei se haverá tempo, mas os sinais estão aí para quem é crente ou ateu. Contemplar, refletir, exigir e cobrar de quem sempre ganha à custa do nosso sofrer é mais do que urgente. Professora Iracema, ah como a senhora faz falta, pois necessitamos de mais pessoas que exijam o desenvolvimento aprofundado do enunciado e não queiram, de forma apressada, resolver tudo na base do “eu sei e ponto”, ignorando processos, terceirizando responsabilidades e culpando os atingidos, como se eles pudessem fazer escolhas. Mestra, a senhora tinha razão: precisamos da conta completa, sem atalhos.


*João Anschau é jornalista e Mestre em Educação nas Ciências pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Também é criador e impulsionador do podcast “Salve, Terra!” que está disponível no Spotify.

E agora Marcelo, o rio transbordou e tudo acabou? Reflexões sobre o “day after” da hecatombe climática do RS

rio transbordado

Por João Anschau

“Fala Marcelo”, pede mais uma vez o locutor. E Marcelo convida novamente os plantadores de trigo para um dia de campo.

“E o que mais Marcelo?”, insiste o extraterrestre apresentador. Marcelo então aproveita e dá spoiler das novidades, novos manejos – entenda-se, agrotóxicos e insiste para que os parceiros não percam a janela de plantio das culturas de inverno.

“Fala Marcelo e o recado final”, mas antes, o acelerado radialista agradece, num verdadeiro gozo, o tempo dedicado a conversar e trazer luz para os ouvintes carentes de “sabedoria”. E Marcelo não se afrouxa e sentencia: “não podemos se entregar pro tempo”.

O relato descrito anteriormente não é ficção. O informe comercial, tratado como entrevista, aconteceu no mesmo dia em que a UFAL divulgou um estudo mostrando o nível de encharcamento do solo no RS.

Indo para o segundo mês do pós-Veneza, o nosso laranja síndico da massa falida fala somente em reconstruir. É música triste de uma nota só. Ele quer nos fazer crer que temos que continuar para manter o mesmo. Nenhum mea culpa, algo que a direita costuma cobrar vorazmente da esquerda, a respeito do acontecido. Ao contrário, o que mais ouvimos são palavras anêmicas que fogem do problema. O nosso comandante parece estar sem bússola e deixa claro em suas manifestações que emergência climática não tem nada de urgente. Ele parece muito com aqueles desprovidos de criatividade que enxergam na bebida alcoólica o único gancho para as suas sofridas composições. Findando cada dia, eu tenho a impressão de que somos governados por pessoas com deficiência cognitiva severa.

Há algumas semanas, provocado por um grupo de jovens a respeito de minhas esperanças quanto ao futuro (futuro?), respondi que eu aposto num triplo: um meteoro para acabar de vez com esta bagaça; a volta dos dinossauros; ou, finalmente, a dupla de ratos Pink e Cérebro conseguindo dominar o planeta, colocando os ratos humanos em seus devidos esgotos.

Não é o pessimismo que aduba os meus dias. A minha resposta é fruto do descrédito. Estamos carentes e essa falta é resultado de outra: lideranças no plural. Nos acostumamos a ficar no aguardo de uma fala, de um gesto ou uma indicação do mesmo de sempre. Terceirizou-se o articular, conquistar e toda e qualquer iniciativa que necessite pôr as mãos na massa e nas maçãs colhidas direto na fonte alimentar natural. Dizem os especialistas que tudo se faz pelas redes, e esse negócio de juntar gente para conversar, ouvir, trocar uma ideia ou começar uma revolução – nem que seja pra dizer que são contra os “comunistas” -, é papo de analógicos. As redes e a pandemia de COVID-19 realmente nos tornaram “melhores”. PS: Para eu ser justo, de acordo com a revista Science, após a passagem do furacão Maria, os macacos de Porto Rico ficaram menos agressivos e mais solidários. Outra vez os irracionais nos dando a letra. 

Um modo todo estranho de indignação faz com que percamos o senso de prioridade e de responsabilidade. Atualmente, somos envolvidos pela teia chamada comoção, arquitetada pela senhora emoção que não costuma dialogar com a razão. Não são apenas os dejetos ou lixo produzido e reproduzido que fazem parte de nossa paisagem cada vez mais concreta e abstrata de qualquer alteração. Nos tornamos o exército de Brancaleone, nos diferenciando dos originais pela falta de talento e de coragem. 

“Admirável Mundo Novo”, do genial e visionário Aldous Huxley, parece ter sido escrito para o agora. Uma sociedade alienada, sob controle e estruturada em valores pré-definidos, distante da realidade e submissa, além de achar normal a padronização em detrimento da pluralidade, parece muito com o “vale a pena ver de novo”. A obra cai como uma luva para definir o contemporâneo céu, sol, sul, terra embarrada, cor desbotada, onde muito do que se planta não cresce e o que mais floresce são as dúvidas e dívidas.

Em alguns locais alagados na capital gaúcha foram encontradas piranhas – sem necessidade de trocadilhos infames – e essa informação passou batida como se fosse normal. Mexemos com a estrutura bem bolada dos demais que habitam essas paragens e as consequências estão aí, agora, também, mordendo os calcanhares dos desatentos. Parafraseando o saudoso Eduardo Galeano, a injustiça climática é como as serpentes e só morde os pés descalços dos periféricos.

Calma, que tem mais. Em Caxias do Sul, o mesmo vereador que destilou toda a sua estupidez – sóbrio e limpo, eu imagino – xenofóbica contra nordestinos, agora, resolveu demonstrar que ignorância ambiental não é fruto apenas do negacionismo. É um fermento que faz crescer o ódio que mira sempre um “inimigo” indefeso e tido como empecilho. As árvores, na cabeça do edil “e”diota, são as responsáveis pelo evento climático que, diferente de seu mandato parlamentar, não tem hora pra acabar. E nós bancamos esse “democrata” quadrúpede ainda não domesticado. Umberto Eco tem razão. Antes, um viva à liberdade de expressão.

E como passamos pelo mês das festas juninas, pipocam pedidos nada envergonhados de senhores sem-vergonha. O setor privado, representado por estruturas que lhes garante zero questionamento da base da pirâmide, quer dinheiro de quem, na visão deles, só atrapalha o “desenvolvimento”. Quando a água invade as camas dos trabalhadores, o Estado é lembrado para acudir… os mega/maxi empresários. E o prêmio “faz a diferença” vai para… os indiferentes com a aflição alheia. Ou como escreveu Oswaldo Montenegro é “muito deleite pra pouca dor”. 

Para além dos ventos, granizo e chuvas, tudo em excesso, temos também a falta de respostas. As consequências – causas são cristalinas apesar da sujeira – que tornaram o Rio Grande do Sul uma grande fazenda não são discutidas. Tá tudo dominado e bloqueado por um discurso de que a palavra de ordem é união e de que agora é hora de reerguer. Refazer quantas vezes? Uma fórmula que gera divisas para os agraciados de sempre e passivos humanitários para o lumpesinato, também conhecidos como buchas de canhão. Essa movimentação feita no modo prende a corrente e arrebenta o que estiver pela frente em nome do “deus” cifrão tem credores que, ao que parece, já mandaram vários recados e todos foram solenemente ignorados ou colocados na gaveta do um dia se vê o que faz. Senhores dos anéis cravejados de sangue inocente, chegou a hora do encontro de contas. E agora? O trator, o machado e a motosserra não podem ser culpados ou puxar uma “cadeia” sozinhos. São instrumentos que, como nós, legitimam novas tragédias. Campanhas de solidariedade são importantes, mas não podemos ficar apenas no doar itens de primeira necessidade, enquanto outros deram, sem consulta prévia, suas vidas.

Os refugiados ambientais não são frutos do acaso ou obra do divino, mas resultado contábil borrado de um modelo de sociedade que deu, dá e continuará dando ruim. Vida que segue, pra esta gente, não é apenas mais uma frase de efeito, mas efeito comportamental do vamos esticar a corda mais um pouquinho e arranjar um local “mais” seguro pra essa indiada até a próxima enxurrada. Deslocamentos humanos serão romantizados ou transformados em histórias de superação com exibição em horário nobre? 

Pode piorar? Sempre. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra…” passou as divisas do rios Mampituba e Uruguai. A bancada ruralista gaúcha, não satisfeita em testemunhar os desastres ambientais e sociais repetidos, agora quer replicar a nossa desgraça para os outros. Um projeto de lei, desconhecido da imensa maioria, como sempre acontece, infelizmente, pretende dar permissão para acabar com quase 50 milhões de hectares de campos nativos. O relator do absurdo é o deputado tucano Lucas Redecker, nascido em uma das regiões mais atingidas no estado. Nobre representante do poder que emana do povo, vide as áreas de proteção ambiental na volta do Rio Taquari que não chegam a um terço do que já foram um dia. O senhor me faz lembrar a modelo Nana Gouvêa que costumava fazer selfies em locais devastados por alguma tragédia e achava que estava tudo certo registrar e faturar com a desgraça alheia. Recentemente elas frearam o ímpeto coronelês de Arthur Lira e o PL – duplo sentido bem oportuno – do estupro. Quem vai puxar o bridão dos senhores do engenho, acionistas e financiados?

Na hora da tormenta, minha mãe, dona Anita, costuma queimar folhas de palma. O faz, segundo ela, para afastar o mau tempo. José Lutzenberger e o padre jesuíta Pedro Balduíno Rambo foram lembrados, há algumas semanas, também na hora do desespero. Mas, ao que parece, o tempo já abriu, e seus préstimos de sabedoria e conhecimento não serão mais necessários por agora. Vale o mesmo para o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, descoberto pelos pautadores de nossas vidas, como se novidade fosse, após 60 anos de pesquisa, extensão e ensino. O negacionismo não é obra de ‘jair’ apenas. É uma construção simbólica que reza pela cartilha Chacrinha: eu estou aqui para confundir; eu não estou aqui para explicar.

Em alguns meses teremos eleições municipais. Eu estou apostando uma garrafa de vinho produzida sem trabalho escravo que o tema mudanças climáticas receberá o mesmo tratamento dado àquela criança que quer algo e a mãe responde que na volta a gente compra. Por mais que pesquisadores, cientistas, extensionistas, ambientalistas e outros tantos comprometidos com a vida da mãe Terra e seus filhos de todas as espécies batam seus tambores, a triste e covarde melodia da conformidade, da ignorância e da indiferença ditará os passos da maioria. O poder econômico desarma todos os alarmes e conta para isso com o aparato servil e parcial da mídia tradicional, um escudo bem alimentado que faz o trabalho de aquietar mentes e corações. Para além do Município que queremos é oportuno perguntar “que amanhã sua candidatura defende?”

No próximo dia 8 de julho vamos “comemorar” uma década do 7 a 1. Vivemos um grande looping onde derrotas são celebradas e o 20 de setembro guasca não me deixa faltar com a verdade. O senso comum é modulado de tal forma que torna qualquer questionamento um ato de rebeldia. Uma receita básicona e de simples preparo, que prevê subverter a ordem imposta que nos faz acreditar que somos meros passageiros, sem responsabilidades e com o bilhete de partida comprado com destino incerto, é tida como heresia. E na melhor das utopias, faltam pulmões para gritar e apontar o caminho, e no horizonte não aparece, nem que seja, um Dom Quixote para movimentar os moinhos da insurreição.

Tudo se encaminha para que no final não seja a esperança a última a morrer.

Desculpe Caramelo, eles “não” sabem o que fazem!

CARAMELO

Por João Anschau

Quando o “principal” assunto que domina parte das conversas virtuais se dá em torno do salvamento ou não de um cavalo ilhado em cima de um telhado, é sinal que continuamos dando errado enquanto sociedade. Nem na dor aprendemos.

Caramelo não é responsável por nada que seus olhos assustados enxergam. Não foi consultado. Tiraram seu chão e seu habitat e agora discutem se devem ou não garantir sua permanência por aqui. Esse comportamento tem nome, sobrenome e vários filhos parasitas.

E não é hora de achar culpados, lembram os mais apressados. Para não magoar ninguém, eu vou usar outra palavra. Representantes. O que acontece no Rio Grande do Sul tem representação com CNPJ e muitos vendedores que agora apelam para o pix alheio. Nada de mexer no bolso dos donos do negócio. Filho feio não tem pai.  . 

E a natureza nos oferta mais um momento – não confundir com o discurso asqueroso e escroto de coachings que convenceram muitos, durante a pandemia de COVID-19, a desafiar a lógica com a surrada “são nas dificuldades que surgem as oportunidades” -, para refletir, debater e cobrar mudanças. Elementos e eventos sobram para que paremos de brincar de Highlander e tratemos pelo nome o que acontece em nosso entorno. Se os muristas encontram “dificuldades” para pensar, eu, humildemente, sugiro ‘Os miseráveis’, de Victor Hugo, para início da prosa.  .

E como zelador do memorial da destruição, eis que o governador Eduardo Leite nos apresenta o plano Marshall bagual cheiroso. Resumindo, a proposta, além de incoerências que pipocam de direita a direita, traz um amontoado do mesmo, feito pelos mesmos de sempre, cuja sensibilidade humana opera como de costume abaixo de menos 50 graus Celsius. São péssimos escritores, porém, têm as costas quentes e contam com o apoio de seus financiadores e a sempre azeitada máquina do capital a lhe assoprar e sugerir Estado mínimo, para os outros.

A reconstrução deve – ou deveria – passar obrigatoriamente pelo discutir modelos produtivos. Desenvolvimento econômico com água tomando conta das casas não é o mesmo que desenvolvimento econômico numa cama quentinha e nove refeições por dia. Ninguém come PIB enquanto a riqueza estiver concentrada.  Na roleta russa do plantar que tudo dá a banca nunca perde. Têm-se estiagem ou excesso de chuvas, ela ganha nas duas pontas. Governador Eduardo Leite, em seus cálculos liberais, bancos e indústria vão contribuir com quantos zeros depois do primeiro ponto? Não creio que depois do senhor usar aquele colete laranja sempre limpo e bem passado que, outra vez, eu e o Caramelo seremos convocados a dar mais um passinho à frente no busão lotado.  

Quem vai produzir comida de verdade, saudável e sem agrotóxicos, é uma pergunta recorrente que faço para os meus mais chegados há muito. Vale para o governador e para o/a prefeito/a. É um assunto que envolve a nossa e a saúde do planeta, e não brotou na catástrofe mais recente. Mais do que nunca se trata de um tema de casa obrigatório para a/os gestora/es públicos. Pros que desaprenderam por falta de uso e para os que desconhecem, é hora de praticar literalmente a definição de prioridade. Temos um case de insucesso de como não agir. Deu muito ruim, senhores e senhoras. Portanto, liberem os consultores de receitas prontas para achacarem os rentistas da Faria Lima e se concentrem na base da pirâmide.  .

É cristalino que os generosos incentivos públicos não podem ser direcionados apenas e tão somente às chamadas cadeias agroalimentares. O bolo delfiniano cresceu muito e tá na hora de cortá-lo e dividi-lo com sabedoria entre os terceirizados. A natureza é generosa e, sábia, já deixou claro que ela, mesmo esgualepada, fica e se recria. Já nós… Mais com menos dá negativo para a maioria. 

Meu companheiro de jornada, Caramelo, temos uma distopia em curso e sem prazo para finalizar. Alterações no roteiro, meu amigo, dependerão em parte de nós humanos. Os coadjuvantes terão que se mobilizar e demonstrar insatisfação com os rumos da História. Mas esse levante não pode ficar na responsa de um ou dois. Eu sei, eu sei. Muitos dirão que minha sugestão é utópica. Concordo. Mas a outra opção é aprender a dormir com os olhos abertos e enriquecer ainda mais a indústria farmacêutica. Escolham.

Grande Caramelo, por falta de tempo, não percebemos que aos poucos nos tornamos ‘o Rio 40 graus purgatório da beleza e do caos’. Que daqui a pouco surgirá um “Moisés” que conduzirá famílias inteiras expulsas pelo êxodo para algum lugar seguro. Ficarão para trás histórias e memórias e voltaremos ao século XIX com cobertura em tempo real. Esse novo normal já nasce doente. Caramelo, eu poderia sugerir o Pampa sulriograndense como um local seguro para a sua vivência.

Mas hoje, apesar de bravas e bravos pelejarem para manter a casa em ordem e com sua arquitetura o mais próximo do natural, eu temo que você corra o risco de ser expulso pelo “progresso econômico” que está transformando o Bioma em uma grande lavoura. E mais Caramelo. Lá, como cá, “investimentos” são comemorados e estampam as manchetes dos jornais como se finalmente Karl Marx fosse atendido e entendido e a riqueza dividida entre todos. Não há contraponto vivo e tampouco a vida entra na pauta dos patrocinadores da extinção da biodiversidade. Finalmente nos aproximamos da civilização, gritam alguns. E outros, do mesmo grupo, comemoram a saída dos “bárbaros” preservacionistas. 

Caramelo, o plano Marshall original surgiu após uma guerra. O que o Rio Grande do Sul enfrenta atualmente não deixa de ser uma batalha. Ambas, resultado da estupidez humana. A nossa luta é por (sobre)vivência. Nas duas frentes, sabe-se quem são os inimigos da razão, mas por estas bandas, os algozes são tratados com pompa e circunstância, idolatrados e tidos como indispensáveis para a nossa continuidade. E o senso comum, adubado sem descanso, aceita e reproduz o discurso Chicó, “não sei, só sei que foi assim”.

 Força Caramelo!


*João Anschau é jornalista e Mestre em Educação nas Ciências pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Também é criador e impulsionador do podcast “Salve, Terra!” que está disponível no Spotify.

O RS virou mar, mas não foi por falta de avisos

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O Rio Grande do Sul virou mar, mas não foi por falta de avisos

Por João Anschau*

Não foi por falta de avisos. No plural mesmo, pois nos últimos sete meses, o Rio Grande do Sul enfrenta a quarta catástrofe. Quarta. As anteriores mandaram recados duros e claros. Ao que tudo indica, os poderes públicos – leia-se governos – estadual e, de muitos Municípios, preferiram pagar para ver. E estamos, parte considerável dos moradores do extremo sul do Brasil, vendo, pagando e assistindo em tempo real. Os quase 200 km percorridos hoje cedo, até chegar à minha cidade, me fizeram ver bem mais que estragos. Rodovias sendo invadidas por água e com ela muita terra. Cadê as matas que margeavam as estradas? O rato do capitalismo comeu para plantar mais um filete de commodities. Mais adiante vi um rio quase pari passu com a ponte que separa dois municípios. Em duas décadas cruzando por aquele local algo novo se apresentou e sem pedir permissão para quem quer que seja. Apenas foi engolindo o que a sua frente insistiu em ficar. Passando lentamente, para além da curiosidade humana em olhar o infortúnio patrocinado pelos donos do capital, foi possível ver pequenos animais tentando um refúgio em alguns metros quadrados cada vez menores, já sendo tomado pela força das águas.

Um pouco mais além, em conversas com outros que também testemunham o que por aqui acontece, foi possível perceber que mais uma vez a tragédia que nos assola criará uma comoção momentânea, que logo será substituída por algo, provavelmente, bem menos importante. E para variar, outra vez, muitos jogarão nas costas  Dele a responsabilidade. “Deus quis assim” não rola mais. Não é apenas covardia colocar toda a responsa que é nossa nas costas de alguém que não faz orçamento público. Que não desmata. Que não transforma áreas de proteção ambiental em lavouras. Não. Somos nós que aceitamos passivamente que os homens do dinheiro façam leis e nos digam que “crescimento econômico” tem os seus problemas e bora bater metas.

Chuvas no RS: Leite faz demagogia, mas aprovou só R$ 50 mil para a Defesa  Civil

Eduardo Leite derrama lágrimas de crocodilo, mas só destinou R$ 50 mil para a Defesa Civil

E nessa toada de muito discurso e zero prática, seguimos em frente empurrados pelas enchentes ou pelos ciclones. E o poder público? O governo do Estado conseguiu a proeza de destinar 50 mil reais para a Defesa Civil. Vou repetir: R$ 50.000,00. Calma caro leitor/a. Tem mais. O RS é pioneiro em nos fazer passar vergonha nacional. Em setembro de 2023, o governador Eduardo Leite, em entrevista a Globonews, afirmou que as chuvas ocorridas naquele período não tinham sido previstas. Você não leu errado. Eduardo Leite tentou dar uma de João sem braço e tirar o dele da reta. Como não estamos mais na década de 1950, e as informações, para o bem e para o mal, chegam em tempo real, a Metsul, prestadora de serviços meteorológicos, teve que desmentir o mandatário sulriograndense. Entramos para a história pela porta dos fundos e não foi nada engraçado. Mas, como bem lembrou a empresa em nota, ” a ciência meteorológica cumpriu o seu papel”. Já o poder público… 

 Ao certo, o que temos agora é destruição, mortes e, mais uma vez, os atingidos em boa parte são aqueles que não tem nenhuma culpa pelas decisões equivocadas e criminosas de pessoas que, neste momento, estão em suas seguras casas e muito bem alimentados, conseguindo dormir tranquilamente sem o risco de serem acordados por novas enxurradas. O artigo 225 da Constituição Federal estabelece que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Cabe perguntar: falta interpretação de texto – não quero, nem posso acreditar que somos governados por analfabetos funcionais – ou o vale tudo em nome do progresso e desenvolvimento para poucos em detrimento de milhões é a lei informal que define o amanhã dos moradores do planeta terra e está tudo certo?

Mais uma vez, os mais afetados são as pessoas em situações mais vulneráveis. O direito básico à dignidade e a consequente busca pela justiça climática já deveria estar na ponta da lista das pautas prioritárias. Não existe justiça ambiental quando se discute o futuro do planeta sem a participação dos chamados povos vulneráveis. Não é mais aceitável discutir justiça climática sem debater privilégios. Encerro, deixando uma pergunta para os meus irmãos e irmãs de trincheira: que façanhas – destacadas no hino sulriograndense – de modelo à toda terra, queremos que sejam lembradas amanhã?


*João Anschau é jornalista e Mestre em Educação nas Ciências pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Também é criador e impulsionador do podcast “Salve, Terra!” que está disponível no Spotify.