Por João dos Reis Silva Junior e Vera Lúcia Navarro*
O ser social pesquisador, nas sociedades dependentes, não pode ser compreendido apenas como um profissional da ciência ou como um especialista técnico. Ele é, antes de tudo, uma forma social historicamente produzida pela própria estrutura da dependência. Sua existência intelectual não nasce em um espaço neutro, mas em um campo de forças marcado por subordinação econômica, hierarquias internacionais do conhecimento e assimetrias estruturais de poder (Marini, 1973; Bambirra, 1978; Dos Santos, 1978). Pesquisar, nesse contexto, não é apenas investigar objetos: é ocupar uma posição social específica dentro da divisão internacional do trabalho intelectual.
A dependência ampliada desloca a pesquisa do seu sentido clássico de produção autônoma de conhecimento e a insere em circuitos globais de validação científica, financiamento, indexação e reconhecimento simbólico. O pesquisador passa a operar em um sistema onde o valor do saber não é definido por sua relevância social local, mas por sua capacidade de circular em bases internacionais, revistas indexadas, rankings institucionais e métricas de produtividade (Oliveira, 2003; Arantes, 2014). A ciência se transforma, assim, em uma mercadoria simbólica regulada por dispositivos globais, e o pesquisador em um trabalhador cognitivo inserido nesses fluxos.
Isso produz uma transformação profunda na própria subjetividade científica. O pesquisador já não organiza sua atividade prioritariamente a partir das necessidades históricas da sociedade em que vive, mas a partir de agendas externas, temas legitimados internacionalmente, formatos metodológicos padronizados e linguagens teóricas consagradas fora de seu espaço social (Santos, 2007). A pesquisa deixa de ser, gradualmente, uma forma de interpretação crítica da realidade e passa a ser um procedimento técnico de produção de resultados reconhecíveis nos circuitos globais da ciência.
É nesse cenário que se configura a dupla alienação. A primeira dimensão é material-institucional: o pesquisador se torna força de trabalho intelectual integrada a sistemas de financiamento, avaliação e produtividade que não respondem às demandas sociais da formação dependente, mas às lógicas transnacionais da ciência e do capital (Marini, 1973; Oliveira, 2003). Seu trabalho é organizado por editais, métricas, plataformas, indicadores e sistemas de avaliação que definem o que é relevante, o que é financiável e o que é publicável.
A segunda dimensão é simbólico-epistêmica: o pesquisador passa a pensar a realidade a partir de categorias, teorias e paradigmas produzidos em outros contextos históricos, que são apresentados como universais, neutros e cientificamente superiores (Quijano, 2000). Isso gera uma ruptura entre conhecimento e experiência social concreta. Ele interpreta sua própria realidade com lentes que não nasceram dela. Produz diagnósticos sofisticados, mas muitas vezes desconectados da vida social real. Alienado do produto do seu trabalho e alienado do sentido histórico do conhecimento que produz.
Nesse processo, o epistemicídio deixa de ser exceção e se torna estrutura. Não se trata apenas do apagamento de saberes tradicionais, indígenas ou populares, mas da produção sistemática de uma hierarquia global do conhecimento, onde epistemes do Sul são desqualificadas como locais, periféricas, insuficientemente teóricas ou metodologicamente frágeis (Santos, 2007; Quijano, 2000). As tradições intelectuais latino-americanas são marginalizadas, enquanto cânones eurocentrados são naturalizados como padrão universal de cientificidade.
O pesquisador, muitas vezes sem intenção consciente, passa a operar como agente reprodutor desse epistemicídio: reproduz currículos, bibliografias, referências, agendas e modelos teóricos que apagam sua própria tradição crítica. Ensina teorias importadas, cita autores centrais do Norte Global, organiza a pesquisa segundo padrões internacionais e, assim, contribui para a invisibilização sistemática do pensamento produzido em sua própria formação social.
Forma-se, então, uma figura paradoxal: um sujeito altamente qualificado, produtivo, tecnicamente competente e internacionalizado, mas historicamente desenraizado. Ele pesquisa, publica e circula, mas não enraíza. Produz dados, artigos e indicadores, mas não produz sentido social. Opera categorias complexas, mas frequentemente não fala desde o seu lugar histórico. A dependência ampliada transforma o pesquisador em mediador técnico de saberes globais, e não em intérprete crítico da própria sociedade (Arantes, 2014; Oliveira, 2003).
Por isso, pensar o ser social pesquisador exige tratá-lo como categoria histórica, não apenas como função institucional. Ele é constituído pela dependência, moldado pela dupla alienação e inserido em um sistema onde o epistemicídio opera como normalidade institucional. Recuperar sua potência crítica não é uma questão apenas metodológica, mas histórica, política e civilizatória. Implica romper com a neutralidade tecnocrática da ciência, reconstruir o vínculo entre teoria e formação social concreta e reinscrever a produção do conhecimento no tempo histórico dos países dependentes.
Não se trata apenas de melhorar métodos ou atualizar bibliografias. Trata-se de redefinir o sentido social da pesquisa. De recolocar o conhecimento como instrumento de interpretação crítica da realidade e não apenas como produto técnico circulável. No fundo, a questão não é apenas como se produz ciência, mas para quem ela é produzida, a que interesses ela serve e que mundo ela ajuda a sustentar.
Referências (ABNT)
ARANTES, Paulo Eduardo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
DOS SANTOS, Theotonio. Imperialismo e dependência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. México: Era, 1973.
OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2000.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n. 78, p. 3–46, 2007.
João dos Reis Silva Junior é professor titular da Universidade Federal de São Carlos e atua no Programa de Pós-Graduação em Educação dessa instituição. Vera Lúcia Navaro é professora associada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP), da Universidade de São Paulo, e integra o Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP/USP.
