A extradição de Julian Assange foi negada, por enquanto

Justiça inglesa profere um veredito surpreendente para o caso do fundador do Wikileaks

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Foto: dpa / Dominic Lipinski

Por Daniel Lücking para o Neues Deutschland

“Extradição negada”, tweetou o jornalista James Doleman da sala de imprensa do Woolwich Crown Court em Londres pouco antes do meio-dia. A extradição de Julian Assange para os EUA não ocorrerá por enquanto. A juíza Vanessa Baraitser levou em consideração a situação de saúde de Julian Assange no veredicto. O lado americano agora tem 15 dias para apelar da decisão. O advogado de Julian Assange anunciou que agora solicitará fiança.

A sua estrutura de personalidade autista, que intensifica sua depressão clínica, da qual Assange sofre após anos de isolamento na embaixada do Equador, e na prisão de segurança máxima em Belmarsh, torna provável que Assange possa cometer suicídio na prisão, explicou Baraitser .

O veredito é surpreendente, porque a juíza inicialmente estava claramente aberta ao lado americano. “Este tribunal confia que um tribunal dos EUA examinará adequadamente o direito do Sr. Assange à liberdade de expressão”. Segundo a juíza, Assange continuou a fazer mais do que apenas jornalismo.

Os observadores políticos não foram autorizados a assistir à decisão de Raraitser na segunda-feira. O parlamentar de esquerda Sevim Dagdelen tweetou que ela foi impedida de entrar no Reino Unido no último minuto por “razões frágeis”. Dagdelen foi registrado para participar e deveria ocupar um dos assentos que a família de Julian Assange não poderia usar. Não foi possível para todos os membros da família viajar da Austrália para ouvir pessoalmente o veredito.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

O que diria George Orwell ? Wikileaks libera informações sobre ações de contra-inteligência digital da CIA

A grande notícia do dia de hoje é a liberação de um mega pacote de dados pelo site Wikileaks (Aqui!) sobre as ações de contra-inteligência da Agência Central de Inteligência (CIA) que incluem o hackeamento de telefones, computadores e até televisores.(Aqui!Aqui!Aqui!Aqui! e Aqui!).

Pelo menos uma fonte crível na questão das formas de ação da contra-inteligência estadunidense, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden, já utilizou a sua conta pessoal no Twitter para indicar que o pacote de dados liberado pelo Wikileaks parece ser genuíno (Aqui!).

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A novidade deste vazamento não é tanto por se confirmar algo que se desconfiava estar ocorrendo, visto a fragilidade dos sistemas de segurança da maioria dos equipamentos que usam os sistemas operacionais da Apple e da Google.   Na verdade, a novidade mesmo é o fato de que a própria CIA foi hackeada e teve seus “modus operandi” dissecado por sabe-se-lá-quem, e que depois repassou para o Wikileaks vazar.

De toda forma, esse vazamento deverá ter alguns efeitos imediatos. O primeiro será um baque nas vendas dos televisores inteligentes da multinacional sul coreana SAMSUNG que aparentemente é a única marca que já foi transformada em zumbi pelos hackers da CIA. O segundo efeito deverá ser um aumento considerável nas medidas de segurança dos usuários dos sistemas não apenas da Apple e da Google, mas também do Linux que até agora era citado como quase impossível de ser hackeado.

Há ainda que se reconhecer o fato de que o Wikileaks que já era dado como morto e inútil por muitos, conseguiu aparentemente está mais vivo do que nunca. 

Por último, outro efeito inevitável desse vazamento será um aumento da demanda pelo livro “1984” do escritor inglês George Orwell que antecipou esse tempo onde a ingerência do Estado na área privada dos indivíduos, visando obviamente o controle social das massas, seria total (Aqui!). E 68 anos depois da primeira edição de “1984”  eis estamos aqui todos nós sob o olhar atento do “Grande Irmão” que no final não era comunista, mas sim o suposto campeão dos valores democráticos. George Orwell certamente iria apreciar essa ironia.

Um aniversário sombrio: Julian Assange completa 4 anos dentro da embaixada do Equador em Londres

A data de hoje ia me passando em branco até que eu acessei a minha conta no Twitter e vi a imagem abaixo que me relembrou de que exatamente há quatro anos, Julian Assange entrou pela porta de frente da Embaixada do Equador em Londres para escapar de um peculiar mandado de apreensão emitido pelo governo da Suécia supostamente para ouvi-lo sobre duas acusações de estupro.

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Após incríveis quatro anos, Assange ainda não foi ouvido pelo governo sueco e, apesar de ter recebido asilo do Equador, continua poder sem sair da embaixada que serve como abrigo sob pena de ser imediatamente preso pela polícia inglesa.

E não esqueçamos o do porquê da recusa do editor-chefe do Wikileaks de sair da embaixada para ser ouvido pelos suecos. É que ele tem certeza que se fizer isso vai acabar apodrecendo em alguma das prisões secretas que o governo dos EUA possui no mundo.

Imaginem o que estaria dizendo a mídia corporativa se o caso de Assange estivesse ocorrendo em países como Rússia, Venezuela, China ou Cuba! No mínimo que ele seria um prisioneiro político. Bom, pelo menos nisso estariam certos, pois é exatamente nisto que Julian Assange foi transformado. Seu crime? Vazar documentos secretos que deveriam ser públicos para começo de conversa.

Julian Assange põe o dedo nas relações entre Google e o governo dos EUA. E de quebra, com Hillary Clinton

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Falando via video conferência a uma conferência sobre o futuro do jornalismo, a “New Era of Journalism: Farewell to Mainstream” (já que está efetivamente preso no interior da Embaixada do Equador em Londres), o líder do Wikileaks, Julian Assange, pôs o seu dedo em algo que a maioria dos internautas continua preferindo ignorar em nome do acesso aos bons serviços prometidos pela Google Inc., qual seja, a relação que a corporação possui com o governo dos EUA, e com a candidata presidencial democrata, Hillary Clinton (Aqui!).

Como usuário das diversas ferramentas disponibilizadas pela Google Inc. não estou surpreso com as declarações de Assange, e acredito que ele não apenas está correto em sua análise, mas como também expõe um dos problemas básicos que precisamos ter em conta quando usamos a internet. Falo aqui do fato de que a facilidade de comunicação e acesso à informação que a internet permitiu veio acompanhada de um alto custo para as liberdades individuais. É que somente ingênuos não percebem a estrutura gigantesca de monitoramento social que se estabeleceu a partir da conexão global de computadores e outros artefatos digitais.

Ignorar a capacidade de monitoramento que se deu aos governos nacionais e às agências internacionais é uma ingenuidade que chega a ser perigosa. Mas o fato é que a maioria das pessoas que acessam não apenas as ferramentas da Google, mas de outras corporações que oferecem serviços supostamente gratuitos,  também entrega uma porção significativa da sua privacidade, aumentando assim a possibilidade de invasão de sua intimidade.

Com isto não estou falando que devamos abandonar as formas modernas de comunicação e difusão de informação, já que a tendência nesse sentido parece mais do que inexorável.  O que estou dizendo é que precisamos ser mais preparados para entender as intrincadas relações econômicas e políticas que estão estabelecidas em torno do controle e do uso das ferramentas digitais, especialmente aquelas relacionadas à manutenção do status quo. Em outras palavras, quem quiser brincar com o diabo terá que se saber que nada é de graça no inferno, a começar pela captura de preferências e orientações pessoais. É que numa época tão marcada pelo afã do consumo, essas preferências valem mais do que petróleo.

Dá para confiar no Google? Entrega de dados do Wikileaks ao FBI mostra que não!

O jornal britânico “The Guardian” colocou no ar neste domingo uma matéria assinada pelos jornalistas Ed Pilkington and Dominic Rushe mostrando que a Google demorou “quase” três anos para informar ao Wikileaks que havia passado informações concernentes a membros do grupo ao governo estadunidense, mais precisamente para o FBI (Aqui!).

Apesar de já fazer algum tempo que o Wikileaks vinha denunciando o Google por colaborar o governo dos EUA no esforço massivo de violar a privacidade de usuários da internet, esta confirmação certamente contribuirá para um acirramento nas relações entre as duas partes.

O mais grave é que se suspeita que os dados passados pela Google para o FBI se referem a um processo criminal que corre em segredo de justiça, tendo como motivo o massivo vazamento de documentos secretos por parte do Wikileaks, e que levaram ao encarceramento de Bradley Manning e ao exílio de Julian Assange dentro da embaixada do Equador em Londrres..

Agora fica mais claro que podemos até usar as ferramentas associadas ao Google, mas que com o devido grau de desconfiança em relação à prometida confidencialidade de contas de correio eletrônico. É que para quem entregou dados de pessoas ligadas ao Wikileaks, entregar os de pessoas comuns é nada.

Assange: ‘O serviço secreto francês tem muitas perguntas para responder’

Em entrevista à Carta Maior, Julian Assange falou sobre vigilância massiva e as relações dos serviços secretos internacionais com os atentados de Paris.

Marcelo Justo – exclusivo para Carta Maior

Ars Electronica / Flickr

Londres – A interpretação do massacre da Charlie Hebdo se transformou em um território em disputa. A liberdade de expressão e a relação com a minoria muçulmana, a dicotomia entre multiculturalismo à britânica ou integração secular à francesa, a luta antiterrorista e privacidade são alguns dos eixos do debate.

No Reino Unido, o diretor do MI5 Andrew Parker propôs uma nova lei antiterrorista que concede mais poderes de vigilância eletrônica aos serviços secretos. Um importante editor e historiador conservador, Mark Hastings, não hesitou em acusar como corresponsáveis do que aconteceu o fundador do Wikileaks Julian Assange e o ex-agente da CIA Edward Snowden. Da Embaixada do Equador em Londres, onde está há dois anos e meio esperando uma autorização para deixar o país, Julian Assange falou à Carta Maior.


Qual é sua interpretação do massacre da Charlie Hebdo?

Como editor, foi um fato extremamente triste que aconteceu com uma publicação que representa a grande tradição francesa da caricatura. Mas agora temos que olhar adiante e pensar o que ocorreu e qual deve ser a reação. É preciso entender que a cada dia acontece um massacre dessa magnitude no Iraque e em outros países do mundo árabe. E isto aconteceu graças aos esforços desestabilizadores dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França. A França participou do fornecimento de armas para a Síria, Líbia e da recolonização do Estado africano de Mali. Isto estimulou o ataque neste caso, usando um alvo fácil como a Charlie Hebdo. Mas a realidade é que o serviço secreto francês tem muitas perguntas para responder sobre o acontecido.


Acredita que houve um fracasso dos serviços secretos franceses?

É o que estão tentando esconder. Os serviços de segurança da França sabiam das atividades dos responsáveis pelo massacre e, no entanto, deixaram de vigiá-los. Por que os irmãos Kouachi, conhecidos por seus laços com extremistas, não estavam sob vigilância? Cherif Kouachi havia sido condenado por crimes terroristas. Longe de estar enviando mensagens criptografadas, eles se comunicaram centenas de vezes antes e durante os ataques com celulares comuns. Há muitas perguntas. Por exemplo, por que os escritórios da Charlie Hebdo não estavam mais protegidos dadas as duras críticas da revista ao Islã? Como os conhecidos jihadistas conseguiram armas semiautomáticas na França? Apresentaram os assassinos como supervilões para ocultar a própria incompetência dos serviços. A verdade é que os terroristas eram amadores bastante incompetentes que bateram o carro, deixaram suas cédulas de identidade à vista e coordenaram seus movimentos por telefone. Não era preciso uma vigilância massiva da internet para evitar este fato: era necessária uma vigilância específica.


Uma percepção bastante ampla é que você e o Wikileaks se opõem à vigilância eletrônica. Na verdade, você faz uma clara distinção entre vigilância massiva e vigilância com objetivos definidos.

A vigilância massiva é uma ameaça à democracia e à segurança da população, pois outorga um poder excessivo aos serviços secretos. O argumento para defendê-la é que assim se pode encontrar gente que não se conhecia de antemão. O que vemos, no caso de Paris, é que os protagonistas foram identificados. Deveria haver uma investigação profunda de como foram cometidos esses erros, apesar de minha experiência ser que isto não vá acontecer porque estes serviços são corruptos e são assim por serem secretos. A vigilância massiva não é gratuita e, neste sentido, é uma das causas do que aconteceu, porque restaram recursos e pessoal para o que teria de ter sido a vigilância específica contra uma ameaça terrorista.


Uma das reações mais virulentas na imprensa britânica foi a do historiador e jornalista Max Hastings que acusou você e Edward Snowden de responsabilidade nestes fatos. Hastings não está sozinho. Há muitas vozes que pedem que fechem ainda mais o certo sobre o Wikileaks. Percebe que o Wikileaks está ameaçado pela atual situação?

Há um ano que os setores vinculados a este modo de ver as coisas propõem um aumento da vigilância massiva e um corte das liberdades. Estão em retrocesso por todas as denúncias que houve sobre os excessos de espionagem cometidos pelos governos, inclusive com seus próprios aliados. O que estão tentando fazer é aproveitar esta situação para recuperar o território perdido. O Wikileaks publicou as caricaturas da Charlie Hebdo utilizadas como pretexto para o atentado, algo que não fizeram vários jornais como o Guardian ou o Times porque têm muito medo. Mas uma das coisas positivas que surgiram nos últimos dias é a defesa da liberdade de expressão. Digo isto apesar de, na manifestação de domingo, estarem presentes figuras que são os piores inimigos da liberdade de expressão, como Arábia Saudita e Turquia. Mas, por mais que estejam tentando aproveitar a situação, o Wikileaks funciona há bastante tempo e desenvolvemos técnicas para lidar com este tipo de ameaças. Não vão nos intimidar. Esperemos que outras mídias em nível mundial também não se deixem intimidar.

FONTE: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2F-O-servico-secreto-frances-tem-muitas-perguntas-para-responder-%2F6%2F32630

Julian Assange: Negócio do Google e Facebook é a destruição da privacidade

Julian Assange

Julian Assange é fundador do WikiLeaks, atualmente está refugiado na Embaixada do Equador em Londres

Negócio do Google e Facebook é a destruição industrial da privacidade

O fim da privacidade amplia o desequilíbrio de poder entre as elites e o resto do mundo

por Julian Assange, no New York Times, via UOL

Hoje, dizer que o livro “1984″ de George Orwell foi profético já é um clichê jornalístico, e suas profecias são um lugar-comum da modernidade. Sua leitura agora pode ser uma experiência entediante. Comparados às maravilhas oniscientes do estado de vigilância atual, os dispositivos do Big Brother — televisores vigilantes e microfones ocultos — parecem pitorescos, até mesmo reconfortantes.

Tudo sobre o mundo que Orwell imaginou tornou-se tão óbvio que temos dificuldade com as deficiências narrativas do romance.

Impressiono-me mais com outro dos seus oráculos: um ensaio de 1945 intitulado “Você e a Bomba Atômica,” em que Orwell antecipa mais ou menos a forma geopolítica do mundo no meio século que se seguiu. “Épocas em que a arma dominante é cara ou difícil de fazer”, ele explica. “Será uma era de despotismo, ao passo que, quando a arma dominante é barata e simples, as pessoas comuns têm uma chance. Uma arma complexa deixa o forte mais forte, enquanto uma arma simples — desde que não haja resposta a ela — fortalece os fracos”.

Ao descrever a bomba atômica (que havia sido lançada apenas dois meses antes em Hiroshima e Nagasaki) como uma “arma inerentemente tirânica”, ele prevê que ela irá concentrar o poder nas mãos de “dois ou três superestados monstruosos” com avançadas bases de indústria e pesquisa necessárias para produzi-la. E se, ele pergunta, “as grandes nações sobreviventes fizessem um acordo tácito para nunca usar a bomba atômica uma contra a outra? E se elas apenas a usassem, ou ameaçassem usá-la, contra povos incapazes de retaliar?”.

O resultado provável, ele conclui, seria “uma época tão horrivelmente estável quanto os impérios de escravos da antiguidade”. Ao inventar o termo, ele prevê “um permanente estado de ‘guerra fria’: uma paz sem paz”, em que “os povos e as classes oprimidas têm menos perspectivas e esperança”.

Há paralelos entre a época de Orwell e a nossa. Por um lado, nos últimos meses, fala-se muito sobre a importância de “proteger a privacidade”, mas pouco sobre por que isso é importante. Não é, como nos querem fazer acreditar, que a privacidade seja inerentemente valiosa. Isso não é verdade. A verdadeira razão está no cálculo do poder: a destruição da privacidade amplia o desequilíbrio de poder existente entre as facções que decidem e o povo, deixando “os povos das classes oprimidas”, como Orwell escreveu, “ainda mais sem esperança”.

O segundo paralelo é ainda mais grave e menos compreendido. Nesse momento, mesmo aqueles que lideram o ataque contra o estado de vigilância continuam a tratar a questão como se ela fosse um escândalo político, culpa de políticas corruptas de alguns homens maus, que devem ser responsabilizados. Acredita-se que as sociedades precisem apenas aprovar algumas leis para corrigir a situação.

O câncer é muito mais profundo do que isso. Vivemos não só em um estado de vigilância, mas em uma sociedade de vigilância. A vigilância totalitária não está apenas em nossos governos; está incorporada na nossa economia, em nossos usos mundanos da tecnologia e em nossas interações cotidianas.

O conceito da internet — uma rede única, global, homogênea que abrange o mundo todo — é a essência de um estado de vigilância. A internet foi construída em um modo de vigilância amigável porque os governos e organismos comerciais importantes assim o quiseram. Havia alternativas a cada passo do caminho. Elas foram ignoradas.

Em sua essência, empresas como o Google e o Facebook estão no mesmo ramo de negócio que a Agência de Segurança Nacional (NSA) do governo dos EUA. Elas coletam uma grande quantidade de informações sobre os usuários, armazenam, integram e utilizam essas informações para prever o comportamento individual e de um grupo, e depois as vendem para anunciantes e outros mais. Essa semelhança gerou parceiros naturais para a NSA, e é por isso que eles foram abordados para fazer parte do PRISM, o programa de vigilância secreta da internet. Ao contrário de agências de inteligência, que espionam linhas de telecomunicações internacionais, o complexo de vigilância comercial atrai bilhões de seres humanos com a promessa de “serviços gratuitos”. Seu modelo de negócio é a destruição industrial da privacidade. E mesmo os maiores críticos da vigilância da NSA não parecem estar pedindo o fim do Google e do Facebook.

Recordando as observações de Orwell, há um lado “tirânico” inegável na internet. Mas ela é muito complexa para ser inequivocamente classificada como um fenômeno “tirânico” ou “democrático”.

Quando os povos começaram a formar cidades, foram capazes de coordenar grandes grupos pela primeira vez e rapidamente ampliar a troca de ideias. Os consequentes avanços técnicos e tecnológicos geraram os primórdios da civilização humana. Algo semelhante está acontecendo em nossa época. É possível se comunicar e fazer negócios com mais pessoas, em mais lugares em um único instante de modo nunca antes visto na história. A mesma evolução que facilita a vigilância da nossa civilização, dificulta sua previsibilidade. Grande parte da humanidade teve facilitada a busca pela educação, a corrida para o consenso e a competição com grupos de poder entrincheirados. Isso é encorajador, mas a menos que seja cultivado, pode ter vida curta.

Se há uma analogia moderna do que Orwell chamou de “arma simples e democrática”, que “fortalece os fracos”, ela seria a criptografia, a base da matemática por trás do bitcoin e dos programas de comunicações mais seguros. A produção é barata: um software de criptografia pode ser produzido em um computador doméstico. E a distribuição é ainda mais barata: um programa pode ser copiado de uma forma que objetos físicos não podem. Mas também é insuperável — a matemática no coração da criptografia moderna é sólida e pode suportar o poder de uma superpotência. A mesma tecnologia que permitiu que os aliados criptografassem suas comunicações de rádio para protegê-las contra interceptações, agora pode ser baixada através de uma conexão com a internet e instalada em um laptop barato.

Considerando-se que, em 1945, grande parte do mundo passou a enfrentar meio século da tirania em consequência da bomba atômica, em 2015 enfrentaremos a propagação inexorável da vigilância em massa invasiva e a transferência de poder para aqueles conectados às suas superestruturas. É muito cedo para dizer se o lado “democrático” ou o lado “tirânico” da internet finalmente vencerá. Mas reconhecê-los — e percebê-los como o campo de luta — é o primeiro passo para se posicionar efetivamente junto com a grande maioria das pessoas.

A humanidade agora não pode mais rejeitar a internet, mas também não pode se render a ela. Ao contrário, temos que lutar por ela. Assim como os primórdios das armas atômicas inaugurou a Guerra Fria, a lógica da internet é a chave para entender a iminente guerra em prol do centro intelectual da nossa civilização.

FONTE: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/julian-assange.html

Wikileaks prepara novo vazamento de arquivos secretos

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Julian Assange

Julian Assange: ativista criticou a centralização da informação em poucas mãos e acusou o Google de manter estreitas relações com o governo americano

Da EFE

Lisboa – O fundador do Wikileaks, Julian Assange, revelou neste domingo que a organização prepara um novo vazamento de arquivos secretos e criticou o Google por considerá-lo a serviço do governo dos Estados Unidos.

As declarações foram dadas durante participação em um fórum sobre “Vigilância de Massas” no Festival de Cinema de Lisboa e Estoril (Leffest), por meio de teleconferência, já que continua recluso na embaixada do Equador em Londres.

O ativista australiano não forneceu detalhes sobre o conteúdo do vazamento nem a data que os arquivos serão divulgados.

Durante o discurso, Assange fez duras críticas ao governo e às agências de inteligência americanas por tentarem controlar o maior número possível de dados em nível mundial. Ele destacou que apesar dos muitos ataques contra o Wikileaks, a organização conseguiu sobreviver e segue funcionando.

“Não conseguiram destruir nem um só documento, eles (americanos) perderam”, ressaltou o ativista australiano, refugiado na representação diplomática do Equador em Londres desde julho de 2012, após a Corte Suprema Britânica ter autorizado sua extradição para a Suécia.

Os suecos acusam Assange de ter cometido crimes sexuais no país, fato negado pelo ativista. Ele afirma que a extradição é interesse dos Estados Unidos, que quer ele seja julgado assim como Chelsea Manning, soldado que vazou documentos diplomáticos para o Wikileaks em 2010 e condenado a 35 anos de prisão.

Chelsea Manning, ex-analista de inteligência do exército americano, era conhecida como Bradley Manning na época do vazamento, e passou por uma operação de mudança de sexo. A militar atuou em operações americanas no Iraque.

O fundador do Wikileaks defendeu que a principal ameaça de segurança em nível mundial é o poder ilimitado das agências de inteligência. Ele descartou que a vigilância em massa seja o método mais adequado para combater o terrorismo.

Assange criticou a centralização da informação em poucas mãos, algo que, em sua opinião, transformaria o mundo em totalitário, e acusou o Google de manter estreitas relações com o governo americano. 

FONTE: http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/wikileaks-prepara-novo-vazamento-de-arquivos-secretos