Entrevista especial com Carlos Eduardo Rezende, candidato a reitor da UENF

O Blog do Pedlowski está publicando uma entrevista especial realizada com o Prof. Carlos Eduardo Rezende, candidato a reitor da Universidade Estadual do Norte na chapa formada com o Prof. Juraci Aparecido Sampaio, a Avança UENF: Ciência e Sociedade.
A entrevista aborda uma série de questões, incluindo desde os planos da chapa para o que seriam 4 anos à frente da reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) em um dos momentos mais críticos da história para as universidades públicas brasileiras, mas também aspectos relacionados à críticas que têm sido veiculadas via redes sociais ao que seria um perfil partidário da chapa Avança UENF.

Abaixo as respostas oferecidas pelo Prof. Carlos Rezende às questões que lhe foram remetidas pelo Blog do Pedlowski.

Foto com Juraci

Juraci Sampaio (à esquerda) e Carlos Eduardo de Rezende (à direita) compõe a chapa Avança UENF: Ciência e Sociedade que concorrerá nas eleições à reitoria da Uenf que ocorrerão no início de Setembro.
Blog do Pedlowski (BP): O senhor é normalmente apresentado como um dos fundadores da Uenf. Poderia descrever aos leitores do blog aspectos que considera relevantes de sua trajetória dentro da universidade?
Carlos Eduardo Rezende (CER): Este é um assunto que carrega uma série de excelentes memórias na minha trajetória institucional. Eu estava, assim como muitos outros colegas da UFRJ, realizando parte do meu doutorado na Universidade de Washington (University of Washington) na Escola de Oceanografia (School of Oceanography) na cidade de Seattle em um grupo de referência internacional na área que escolhi para minha vida acadêmica. Naquele momento eu estava muito preocupado com o que faria após terminar o doutorado. Ainda em Seattle, me inscrevi para vagas de recém-doutor e ainda no exterior soube que havia sido selecionado para a vaga. No entanto, ao retornar ao país e conversando com meu orientador de doutorado, Prof. Wolfgang Christian Pfeiffer, me foi apresentada a proposta da Universidade Estadual do Norte Fluminense, que posteriormente teve o nome do seu mentor somado, isto é, Darcy Ribeiro. Obviamente escolhi participar de um projeto que me oferecia um horizonte temporal maior e aqui estou desde então e onde construí minha trajetória acadêmica passando por inúmeras experiências no plano pessoal e profissional.
Na UENF, posso afirmar, participei de todas as suas etapas, tendo o prazer de conviver de perto com pessoas de grande prestígio político (ex. Leonel Brizola e Darcy Ribeiro) e inúmeros pesquisadores renomados que vieram logo no primeiro momento para consolidar grupos nos diferentes centros de pesquisa. Inclusive, tenho o orgulho, neste exato momento, em que me candidato ao cargo de Reitor da Instituição, de obter apoio de alguns destes renomados pesquisadores e estes depoimentos estão disponíveis no canal YouTube da nossa chapa Avança UENF (https://www.youtube.com/results?search_query=avancauenf).
Nestes 26 anos da história institucional, desempenhei inúmeras funções tais como chefe de Laboratório, Diretor de Centro, Vice-Reitor e Pró-Reitor de Graduação, participei de todos os conselhos e colegiados da UENF, comissões para enquadramento funcional de servidores técnicos e docentes. Um ponto importante dentro da minha trajetória institucional é que nunca me omiti politicamente tendo participado ativamente das grandes conquistas da instituição como, por exemplo, a nossa tão desejada autonomia administrativa e recentemente na luta pelos duodécimos como membro do Conselho Universitário e Tesoureiro da Associação de Docentes, tendo inclusive divergido da atual administração em relação ao fracionamento que foi aprovado na ALERJ. Aliás, gostaria de dizer que estive entre os fundadores da ADUENF e metade do meu tempo colaborei com nossa associação sem o menor comprometimento com meu desempenho funcional no plano acadêmico e de pesquisa.
No Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) pude convidar incialmente profissionais para compor o quadro docente e técnico do laboratório que posteriormente fizeram concursos e vários permanecem até hoje. Ainda no LCA coordenei importantes projetos para o país como o Programa Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva que estabeleceu o limite de 200 milhas do nosso país, resguardando nossa soberania e riquezas naturais; membro da Comissão de Ciências do Mar do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação; participei em programas Nacionais tais como os Institutos do Milênio e Nacional de Ciência e Tecnologia; participo de iniciativas internacionais como Future Earth Coasts como coordenador para América do Sul; cooperação por aproximadamente 20 anos com a PETROBRAS e outras empresas do setor privado e Organizações Não Governamentais. Todas estas interações possibilitaram consolidar um laboratório com uma excelente central analítica que coloca o LCA com reconhecimento Nacional e Internacional. Na UENF fui o responsável por 10 anos do primeiro programa de cooperação internacional de mobilidade estudantil para alunos de graduação que envolveu alunos do Centro de Biociências e Biotecnologia e Ciências do Homem, antes do Programa Ciência sem Fronteiras. Em síntese, seriam estes alguns destaques que poderia oferecer aos leitores e dizer que me sinto muito feliz morando em Campos dos Goytacazes onde também consolidei minha família com minha esposa, duas filhas e um filho, três netos e uma neta, um genro e uma nora campistas, constituindo assim um profundo laço com a cidade e toda região Norte Fluminense.

Carlao e Brizola

Carlos Eduardo de Rezende em companhia do governador Leonel Brizola em cujo mandato foi construída a Uenf.
(BP): Por que decidir compor uma chapa para concorrer à reitoria da UENF?
CER: Por várias vezes, em eleições anteriores, meu nome foi colocado por alguns colegas, mas sempre declinei por questões familiares. No entanto, este ano fui novamente procurado, conversei em família, com algumas amigas e amigos, e a questão não foi totalmente rechaçada em um primeiro momento. Desta forma, pensei e considerei inúmeros fatores, principalmente diante da situação atual em que se encontra o país e nosso estado, e iniciei algumas conversas com potenciais pessoas para compor a chapa até chegar ao nome do professor Juraci Sampaio. O professor Juraci é bem mais jovem do que eu, tem trabalhado na UENF nos últimos 15 anos e foi o responsável por um levantamento histórico do desempenho dos nossos alunos de graduação ao longo destes 26 anos de existência da nossa instituição. Cabe ressaltar inclusive que este é um trabalho pioneiro, pois pela primeira vez temos estas informações consolidadas em um documento.
BP: Quais seriam os principais diferenciais da sua chapa em relação às outras duas que também estão participando do processo eleitoral?
CER: Nossa chapa possui uma característica muito importante, pois os dois pesquisadores possuem experiência administrativa e mérito acadêmico. Os dois são membros permanentes de programas de pós-graduação da instituição, tem realizado pesquisas e publicado em revistas com impacto nacional e internacional, e orientado alunos em nível de graduação e pós-graduação. Agora, não vou comentar sobre as características das duas chapas, pois a comunidade conhece as pessoas, as informações estão disponíveis e acredito que a comunidade terá total maturidade para escolha daqueles que representem a instituição da melhor forma possível. Não estamos tratando de um cargo político e sim de uma representação acadêmica da instituição. Nessas horas, muitas pessoas tendem a magnificar defeitos e desconhecerem, ou a desprezar, o mérito acadêmico e da história dentro da instituição.
BP: Em linhas gerais, quais são as principais propostas da sua chapa para a Uenf?
CER: O nosso programa é abrangente, mas precisamos ampliar o acesso ao restaurante universitário; recuperar a infraestrutura da instituição; modernização técnica e profissional dos cursos de graduação e pós-graduação, e a implantação do Colégio de Aplicação da UENF; programas de treinamento técnico nas áreas científica e administrativa; ampliar as atividades culturais e divulgação científica integrando a comunidade acadêmica com a sociedade local e regional, por isto a chapa de chama AvançaUENF: Ciência e Sociedade; intensificar as relações com as instituições de ensino superior que atuam nas regiões Norte, Noroeste e Lagos visando o fortalecimento das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Concluindo, defendemos uma UENF FORTE, de Qualidade, Inclusiva e Democrática.
BP: Em sua opinião, quais serão os principais desafios que terá de se defrontar caso seja eleito reitor?
CER: o primeiro desafio é a eleição, por este motivo acredito que devemos conduzir este processo dentro de uma liturgia acadêmica para que posteriormente a chapa escolhida pela comunidade consiga conduzir a instituição dentro de um ambiente de união, pois o principal desafio é mostrar a toda sociedade a importância da nossa instituição para o desenvolvimento regional e do país. Precisamos restabelecer os salários e o quadro de servidores, pois ao longo dos últimos anos não tivemos concursos para o quadro permanente dos técnicos e docentes; precisamos também trabalhar para melhoria das bolsas dos estudantes de graduação, pós-graduação e pós-doutorado. Como disse anteriormente, existem coisas que dependem do trâmite e implantação interna com apoio da comunidade através dos seus conselhos e colegiados, outro de um apoio do executivo e dos nossos parlamentares.
BP: Em relação a um tema bastante sensível que é o da proposta de uma eventual cobrança de mensalidades dos estudantes da Uenf, qual é a sua posição?
CER: sou um defensor da Universidade Pública, Gratuita, de Excelência e Socialmente Referenciada. Inclusive, já me pronunciei publicamente sobre este assunto onde reitero o teor, a saber: Aquelas e aqueles que estão ou estiveram na Universidade Pública, seja como servidor técnico ou docente, e também como aluno, tem a obrigação de defendê-la. Quaisquer manifestações contrárias poderiam ser encaradas como um desserviço as nossas instituições públicas, sejam estaduais ou federais.
BP: Além de estar a quase cinco anos sem qualquer reposição salarial, os servidores e professores da Uenf estão com diversos benefícios e direitos congelados. Como pretende resolver este problema junto ao governador Wilson Witzel?
CER: Acredito que temos duas perguntas nesta questão. Primeiro, temos procedimentos em tramitação no âmbito da nossa administração que sequer foram praticados (ex.: enquadramentos, insalubridade) e em seguida, os salários com data para dissídio e benefícios que precisam ser reajustados. Então, uma parte é interna e a outra dependerá de conversar com o Governador e Secretários. Na UENF sempre fui um defensor da nossa autonomia, incluindo a financeira. Há dois anos travamos uma intensa campanha, participei como membro do Conselho Universitário e Tesoureiro da ADUENF, indo para ALERJ, entregando manifesto do CONSUNI aos parlamentares e apoiando a atual reitoria neste pleito. No entanto, discordamos da forma que foi aprovada para implementação, isto é, em 3 anos seguindo os seguintes percentuais 25%, 50% e 100%, e aparentemente correto, pois até agora não se chegou a uma forma final para que este repasse orçamentário se concretize. Enfim, o modelo de autonomia financeira e o total respeito aos repasses destes recursos serão fundamentais para qualquer reitoria.
BP: O senhor tem sido acusado nas redes sociais de estar encabeçando uma chapa com perfil partidário. Como o senhor responde a esta afirmação?
CER: Infelizmente, nosso país passa por um momento muito delicado no âmbito da política partidária e algumas pessoas não conseguem pensar fora desta lógica. Óbvio que tenho minhas preferências políticas, mas na universidade, meu partido é a UENF. Ao longo de 35 anos de profissão, posso afirmar que me orgulho muito da minha trajetória profissional e estar na UENF desde a sua concepção original é uma delas. Assim, esta tentativa tosca de rotular minha candidatura com perfil partidário é absurda e tenta criar factoides para me desqualificar. Agora, deixo claro, jamais deixarei de defender qualquer ponto que considere fundamental e relevante para minha instituição ou para meu país. O que tenho visto nas universidades é uma tentativa de calar, a base da força e de intimidações, as pessoas que possuem uma visão progressista. Ao longo de muitos anos alguns professores cultuaram a postura de negar a política, passar isto para parte dos alunos como uma coisa detestável e hoje temos uma sociedade polarizada e totalmente despolitizada.
BP: Após quase 3 décadas de atuação na Uenf, quais seriam em sua opinião as principais contribuições da universidade para o desenvolvimento regional?
CER: a UENF tem formado excelentes profissionais em nível de graduação e pós-graduação, e considero que esta é a principal contribuição que podemos oferecer para o desenvolvimento da região assim como o conhecimento que geramos através das nossas pesquisas científicas. Na contribuímos ativamente para várias empresas, universidades públicas e privadas, institutos federais e para órgãos públicos como Ministério Público Federal e Estadual, órgãos ambientais e os profissionais formados pela UENF tem atuado em diferentes esferas dos setores públicos e privados. Este é um dos principais legados que nossa instituição tem oferecido para região, para o país e internacionalmente.
BP: A UENF viveu um período muito difícil em 2017 com a falta de salários, mas continuou cumprindo com suas responsabilidades. Como isso foi possível?
CER: De fato este foi um dos piores momentos que vivemos dentro da instituição, pois somados ficamos aproximadamente 6 meses sem salários. Isto realmente comprometeu as finanças e a saúde mental dos nossos servidores técnicos e docentes. Vários não se recuperaram até hoje no quesito financeiro e também da saúde. Um impacto terrível na vida das pessoas e nos vimos confrontados com uma pressão terrível. Em um primeiro momento, fomos convencidos de que a melhor forma para reverter este processo seria continuar trabalhando, mas as reservas financeiras das pessoas foram se esgotando assim como a estabilidade emocional. Afinal de contas todos possuem responsabilidades civis e familiares que em nenhum momento poderiam ser ignoradas. Assim, diante desta situação, algumas das atividades foram descontinuadas e outras até mesmo mantidas por algumas reservas técnicas individuais, mas por força dos servidores técnicos e docentes, as atividades essenciais foram mantidas mesmo diante da pressão por parte de algumas pessoas que insistiam que a situação estava totalmente normal.
BP: Há algo que eu não perguntei e o senhor gostaria de abordar?
CER: O que vem acontecendo na UENF é uma situação muito especial, talvez isto aconteça pela sua jovem história. A instituição certamente possui inúmeras lideranças no plano acadêmico, porém o mais importante é conhecer a trajetória profissional que expressa esta liderança. No nosso caso, a escala de mudança ocorre a cada 4 anos e não basta uma auto identificação, considero que perdemos um pouco estes referenciais na UENF e precisamos resgatar, pois estamos em uma instituição que prega excelência na área de formação de recursos humanos na graduação e pós-graduação, na pesquisa e extensão.
Qualquer gestão pode e deve ser julgada pelos seus resultados, mas a tentativa de se perpetuar a frente da instituição me parece um grande equívoco. A meu ver, a melhor liderança para UENF deve somar qualidades tais como caráter, mérito acadêmico, habilidade e um pouco de sorte. Não faço parte do grupo que deseja o poder a qualquer custo, que isto fique bem claro para todas e todos. A frente de uma gestão a prudência é necessária para avaliar os riscos e apontar para os melhores caminhos. Considero que a eleição representa um ponto inicial da caminhada, mas infelizmente o maior problema em um processo eleitoral é o não reconhecimento das suas qualidades e a ampliação excessiva dos defeitos assim como reinventar parte da história. Concluindo, espero que o indicado pela comunidade conte com apoio de todos os setores depois de finalizada esta etapa, pois está evidente a forma como as universidades têm sido tratadas ao longo dos últimos anos.