Mato Grosso do Sul: uma vitrine da violência contra os povos indígenas no Brasil

Relatório do Cimi mostra que a violência não se distribui aleatoriamente pelo território brasileiro: ela acompanha as disputas pela terra e o avanço de poderosos interesses econômicos

O Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), apresenta números que deveriam causar constrangimento a um país que pretende se apresentar internacionalmente como defensor dos povos indígenas.

Em 2025, o Cimi registrou 1.276 casos de violência contra o patrimônio indígena. Desse total, 897 estavam relacionados à omissão ou morosidade na regularização das terras, 169 envolveram conflitos relativos a direitos territoriais e 210 corresponderam a invasões, exploração ilegal de recursos naturais e outros danos ao patrimônio indígena.

Os 169 conflitos territoriais atingiram 143 Terras Indígenas distribuídas por 23 estados. Aproximadamente dois terços desses territórios apresentavam alguma pendência em sua regularização ou sequer haviam recebido providências efetivas para iniciar a demarcação.

Esses números ajudam a identificar a origem de grande parte da violência. Não estamos diante de centenas de conflitos locais independentes. Existe uma geografia da violência contra os povos indígenas que acompanha a disputa pelo controle da terra e dos recursos naturais.

Na Amazônia, aparecem com força o garimpo, a extração ilegal de madeira e grandes projetos minerais. Em outras regiões, avançam a pecuária, a soja, a cana-de-açúcar, as plantações comerciais de árvores e diferentes empreendimentos de infraestrutura. O relatório registra inclusive danos a cursos d’água relacionados à mineração, à drenagem destinada às monoculturas e à contaminação por agrotóxicos.

Mas existe um estado que talvez sintetize como poucos essa combinação entre concentração da terra, poder econômico e violência contra povos indígenas: Mato Grosso do Sul.

Mato Grosso do Sul: quando a disputa territorial se torna permanente

Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 37 assassinatos de indígenas, ficando atrás apenas de Roraima, com 82, e Amazonas, com 47. O estado também registrou 42 suicídios indígenas, novamente um dos maiores números do país. 

A situação dos Guarani e Kaiowá ajuda a compreender por que isso acontece. Durante décadas, comunidades foram confinadas em áreas extremamente reduzidas enquanto seus territórios tradicionais passaram ao controle de grandes propriedades rurais. Posteriormente, partes importantes dessas áreas foram incorporadas à expansão da soja, do milho, da cana-de-açúcar e, mais recentemente, das plantações de eucalipto associadas à produção de celulose.  Quando comunidades realizam as chamadas retomadas, portanto, não estão simplesmente invadindo propriedades escolhidas aleatoriamente. Elas tentam retornar a territórios que reivindicam como tradicionalmente ocupados e cuja demarcação frequentemente permanece inconclusa depois de anos ou mesmo décadas.

Guyraroká oferece um exemplo particularmente revelador. A Terra Indígena possui mais de 11 mil hectares oficialmente reconhecidos, mas a comunidade permaneceu confinada a aproximadamente 50 hectares, cercada por áreas agrícolas. As pulverizações de agrotóxicos nas proximidades das moradias tornaram-se tão graves que, em setembro de 2025, indígenas Guarani e Kaiowá retomaram uma fazenda sobreposta ao território numa tentativa de impedir novas pulverizações. A reação incluiu ataques de homens armados e ações policiais contra os indígenas.

Esse caso mostra que o conflito começa muito antes do primeiro tiro. Ele começa quando uma terra tradicional permanece décadas sem solução; continua quando grandes propriedades e monoculturas ocupam o território reivindicado; agrava-se quando agrotóxicos atingem casas, escolas, águas e plantações indígenas; finalmente explode quando as comunidades tentam recuperar partes dessas terras.

Quando o Estado escolhe um lado

A situação de Mato Grosso do Sul ganha contornos ainda mais graves porque existem registros recorrentes de participação das forças policiais estaduais em conflitos envolvendo indígenas e proprietários rurais. No caso de Guyraroká, o Cimi denunciou a participação da Tropa de Choque da Polícia Militar e do Departamento de Operações de Fronteira em ações contra indígenas. Em outros territórios também existem denúncias de despejos realizados sem ordem judicial.

Os Conselhos dos povos Terena e Guató chegaram a acusar publicamente as forças policiais estaduais de atuarem na defesa de interesses privados durante conflitos fundiários. Esse padrão coloca uma questão incômoda: o Estado que pode levar décadas para garantir o direito territorial indígena demonstra uma capacidade impressionante de mobilização quando a propriedade privada precisa ser protegida.

É justamente essa assimetria que transforma Mato Grosso do Sul numa espécie de vitrine do problema indígena brasileiro. Ali se encontram praticamente todos os elementos presentes em outras regiões do país: concentração fundiária, demora nas demarcações, avanço de atividades econômicas sobre territórios tradicionais, confinamento de comunidades, contaminação por agrotóxicos, retomadas, ataques armados e intervenção policial.

A violência começa pela disputa da terra

O relatório do Cimi permite, portanto, enxergar uma cadeia bastante clara. A demora na demarcação mantém territórios em situação conflituosa; a valorização econômica da terra amplia a pressão sobre essas áreas; agricultura, pecuária, mineração e outros empreendimentos avançam; comunidades indígenas permanecem confinadas ou tentam retornar aos seus territórios; proprietários e outros agentes privados reagem; finalmente, a violência aparece como instrumento de manutenção da estrutura territorial existente.

Em novembro de 2025, essa sequência voltou a produzir uma morte em Mato Grosso do Sul. Vicente Fernandes Vilhalva, Guarani Kaiowá, foi assassinado durante um ataque à retomada de Pyelito Kue, na Terra Indígena Iguatemipeguá I. O Ministério Público Federal classificou a situação como grave e voltou a cobrar a conclusão da demarcação. Por isso, chamar episódios como esse simplesmente de “conflitos fundiários” pode esconder mais do que esclarecer. É preciso perguntar quem controla a terra, quem foi historicamente retirado dela, quem possui recursos econômicos e políticos para defender sua posição e como o Estado se comporta diante dessa enorme desigualdade.

O Mato Grosso do Sul oferece uma resposta particularmente desconfortável, pois o que acontece ali mostra que a violência contra os povos indígenas não constitui um problema isolado nas margens da sociedade brasileira.  A violência está diretamente ligada ao modelo de ocupação do território, à concentração da propriedade e à expansão de atividades econômicas que transformam terra, água e florestas em mercadorias.Nesse sentido, Mato Grosso do Sul não representa uma exceção. É por isso que o Mato Grosso do Sul se mostra como uma vitrine particularmente transparente de um conflito que atravessa grande parte do território brasileiro.

E talvez seja justamente por isso que aquilo que acontece com os Guarani e Kaiowá receba tão pouca atenção nacional. Olhar demoradamente para Mato Grosso do Sul obrigaria o Brasil a enfrentar uma pergunta que permanece incômoda desde sua formação: quem tem direito à terra e de que lado fica o Estado quando esse direito entra em conflito com os interesses dos grandes proprietários e das grandes empresas?

Investigação liga cadeias de fornecimento de frango na Europa a abusos contra povos indígenas no Mato Grosso

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Campo de soja adjacente à floresta de transição amazônica no estado de Mato Grosso, Brasil Rhett A. Butler / Mongabay

Por Laurel Sutherland para o Mongabay

Na década de 1950, um grupo de índios Guarani Kaiowá que vivia na comunidade de Takuara, no estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, foi despejado à força da terra que eles chamavam de lar por séculos para preparar o caminho para o desenvolvimento agrícola.

Hoje, Takuara é conhecida como Brasília do Sul, uma fazenda de 5.700 hectares que se tornou sinônimo de abusos dos direitos indígenas no Brasil.

De acordo com uma nova pesquisa publicada nesta quarta-feira pela Earthsight, Brasília do Sul é hoje uma grande produtora de soja que é vendida para grandes cooperativas e comerciantes, incluindo a Lar Cooperativa Agroindustrial, uma das maiores produtoras de aves do Brasil.

A investigação foi realizada pela Earthsight, grupo ambientalista sediado em Londres, e pelo “De Olho nos Ruralistas”, que monitora o agronegócio no Brasil.

A Westbridge Foods, sediada no Reino Unido, foi identificada como uma das maiores compradoras de frango congelado e marinado da Lar e é fornecedora de produtos avícolas para KFC, Sainsbury’s, Asda, Aldi e Islândia, entre outras.

Entre 2018 e 2021, a Westbridge supostamente importou mais de 37.000 toneladas de frango congelado e marinado da Lar – cerca de um terço do frango que a empresa brasileira enviou para a UE e o Reino Unido no período.

Em resposta às perguntas dos investigadores sobre as conclusões do relatório, tanto Aldi quanto Asda negaram que o frango fornecido à Westbridge tenha qualquer ligação com Brasília do Sul, enquanto o Sainsbury’s afirmou que o frango fornecido a eles não vem do Lar. A Sainsbury’s e a Aldi disseram que investigariam o assunto com a Westbridge, acrescentando que estão comprometidas em respeitar os direitos humanos em todas as suas cadeias de fornecimento e adquirir soja sustentável.

Mas as empresas do Reino Unido não são as únicas vinculadas a Brasília do Sul. Registros obtidos pela Earthsight e De Olho nos Ruralist mostram que o único grande cliente europeu de produtos de frango para ração animal da Lar é a Paulsen Food, com sede em Hamburgo, que comprou cerca de 14.000 toneladas entre 2017 e 2021. A Paulsen Food é fornecedora de produtos avícolas para Saturn Petcare e Animonda Petcare, que fornecem alimentos para animais de estimação para alguns dos maiores varejistas da Alemanha.

A Mongabay entrou em contato com Westbridge e Paulsen para comentar, mas não recebeu uma resposta até o momento da publicação.

“Essas descobertas reforçam a necessidade de legislação secundária futura da Lei do Meio Ambiente do Reino Unido para incluir, na maior extensão possível, a proteção dos direitos indígenas à terra e para cobrir as principais commodities, incluindo soja e frango alimentado com soja”, diz Rubens Carvalho, chefe de pesquisa de desmatamento da Earthsight.

Em novembro passado, a Lei do Meio Ambiente do Reino Unido foi aprovada pelo Parlamento. A intenção era banir o uso de commodities ligadas ao desmatamento nas atividades comerciais do Reino Unido assim que entrar em vigor nos próximos cinco anos, mas não aborda diretamente as violações de direitos humanos associadas.

Foto cortesia de Earthsight e De Olho nos Ruralistas

Uma catástrofe ecológica 

A Comissão Europeia também apresentou uma proposta de um novo regulamento para conter o desmatamento e a degradação. No entanto, embora a proposta inclua a soja, ela não inclui o frango, permitindo que os importadores fiquem isentos da obrigação de monitoramento.

“O caso dos Guarani Kaiowá revelado por este relatório ilustra tristemente por que precisamos urgentemente de regras da UE contra o desmatamento importado, não apenas para a natureza, mas também para as pessoas. A apropriação de terras e as violações dos direitos de propriedade da terra, especialmente dos povos indígenas, são práticas comuns para obter terras para a produção agrícola – também para os mercados europeus”, disse Delara Burkhardt, relatora-sombra do Grupo Socialista e Democrata no Parlamento Europeu, à Mongabay.

“É uma catástrofe ecológica e uma tragédia humana.”

Suprimido

Burkhardt pediu que o direito internacionalmente reconhecido ao consentimento livre, prévio e informado para usar e converter a terra seja parte integrante da próxima estrutura de desmatamento da UE.

Após a aquisição de Takuara pelo barão do gado Jacintho Honório da Silva Filho em 1966, os Guarani Kaiowá fizeram inúmeras tentativas de recuperar o acesso à sua terra ancestral sem sucesso.

“As tentativas dos Guarani Kaiowá de recuperar o acesso às suas terras ancestrais foram brutalmente reprimidas, inclusive por meio de despejos violentos e o uso agressivo da justiça para impedi-los”, diz o relatório.

Em 2003, o líder Kaiowá Marcos Veron foi espancado até a morte quando trabalhadores armados de Brasília do Sul e pistoleiros contratados atacaram o acampamento que os indígenas haviam montado no território disputado. No entanto, enquanto três pessoas foram condenadas pelo ataque, ninguém foi condenado por seu assassinato.

“Os direitos constitucionais dos Guarani Kaiowá continuam sendo suprimidos por um governo hostil, desigualdade no sistema de justiça e poderosos interesses agrícolas”, disse Earthsight.

O incidente de 2003 não foi o último ataque violento que o povo Guarani Kaiowá enfrentaria. Segundo o relatório, o grupo ampliou a área que ocupava em Takuara de 300 para mais de 1.500 hectares. Isso resultou em seis noites consecutivas de ataques armados e um “cerco implacável por homens armados”, em fevereiro do mesmo ano. Enquanto um juiz federal ordenou a remoção da comunidade, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral do Brasil decidiram contra o despejo dos Kaiowá para evitar derramamento de sangue.

O povo Kaiowá de Takuara ainda aguarda a resolução final do caso.

“O destino final da comunidade depende se o governo federal cumprirá seu mandato constitucional e concederá aos Kaiowá direitos exclusivos sobre suas terras ancestrais”, observa o relatório.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo site “Mongabay News” [Aqui!].