Explicando os Panama Papers, ou, porque o cachorro lambeu a si mesmo?

mossack

Por Slavoj Žižek, via Newsweek, traduzido por Leojorge  Panegalli

A única coisa verdadeiramente surpreendente sobre o vazamento dos Panama Papers é que não há surpresa alguma neles: Não aprendemos exatamente o que esperávamos aprender deles?Contudo, uma coisa é saber sobre contas em bancos offshore em geral, e outra é ver provas concretas. É como saber que o parceiro está te enganando – pode-se aceitar o conhecimento abstrato sobre isso, mas a dor surge quando sabe-se dos detalhes picantes. E quando recebe-se fotos do que eles estavam fazendo… Então agora, com o Panama Papers, nós somos confrontados com algumas das fotos sujas da pornografia do mundo rico, e não podemos mais fingir que nós não sabemos.

Em 1843, o jovem Karl Marx alegou que antigo regime alemão “apenas imagina que acredita em si mesmo e demanda que o mundo deveria imaginar a mesma coisa”. Em tal situação, causar envergonha naqueles que estão no poder torna-se uma arma por si só. Ou, como Marx continua, “a real pressão deve ser feita pressionando por adição à consciência da pressão, a vergonha deve ser feita mais vergonhosa por publicizá-la”.  

Esta é nossa situação hoje: Nós estamos encarando o cinismo desavergonhado da ordem global existente, cujos agentes apenas imaginam que eles acreditam nas suas ideias de democracia, direitos humanos, etc., e através de movimentos como WikiLeaks e as divulgações dos Panama Papers, a vergonha – nossa vergonha por tolerar tal poder sobre nós – torna-se mais vergonhosa pela publicização disto.

Uma rápida olhada nos Panama Papers revela uma característica positiva de destaque  e uma característica negativa de destaque. A positiva é a solidariedade abrangente dos participantes: no mundo sombrio do capital globalizado, nós somos todos irmãos. O mundo Ocidental desenvolvido está lá, incluindo os incorruptíveis escandinávos, e seu aperto de mãos com Vladimir Putin. E o Presidente Chinês Xi, Iran e Coréia do Norte Também estão lá. Mulçumanos e Judeus trocam piscadelas amigáveis – é um verdadeiro reino do multicuturalismo onde todos são iguais e todos são diferentes. A característica negativa: contundente ausência dos Estados Unidos, o que dá alguma credibilidade para a alegação russa e chinesa de que interesses políticos particulares estavam envolvidos no inquérito.

Então o que faremos com toda esta informação? A Primeira (e predominante) reação é a explosão de raiva moralista, claro. Mas o que nós devemos fazer é mudar a pauta imediatamente, da moralidade para o nosso sistema econômico: políticos, banqueiros e gestores sempre foram gananciosos, então o que em nosso sistema legal e econômico permitiu a eles realizarem sua ganância de uma maneira tão grande?   

Do desmoronamento financeiro de 2008 em diante, figuras públicas, do papa para baixo, nos bombardearam com injunções para combater a cultura da ganancia excessiva e consumo. Como um dos teólogos próximos ao papa colocou: “A presente crise não é uma crise do capitalismo, mas a crise da moralidade”. Até mesmo partes da esquerda seguiram este caminho. Não exite falta de anticapitalismo hoje: protestos Occupy explodiram há alguns anos, e nós até percebendo uma sobrecarga de criticas sobre os horrores do capitalismo: abundam, livros, jornais, investigações profundas e reportagens televisivas sobre companhias impiedosamente poluindo nosso meio-ambiente, sobre banqueiros corruptos que continuam a ter gordos bônus enquanto seus bancos tem de ser salvos por dinheiro público, advindo de locais de trabalho em condições degradantes, onde crianças trabalham horas extras.    

Existe, no entanto, uma questão nesse grande fluxo de crítica: o que, via de regra, não é questionada, o quadro democrático-liberal de luta contra estes excessos. O objetivo explicito ou implícito é o de democratizar o capitalismo, para estender o controle democrático sobre a economia, através da pressão da mídia pública, inquéritos governamentais, leis mais duras e investigações policiais mais honestas. Mas o sistema como tal não é questionado, e seu quadro institucional democrático de Estado de Direito permanece a vaca sagrada que até mesmo as formas mais radicais desta “ética anticapitalista”, como o Occupy, não toca.

O erro a ser evitado aqui é melhor exemplificado pela história – apócrifa, talvez – sobre o economista esquerdo-keynesiano John Galbraith: antes da viagem para a URSS nos idos de 1950, ele escreveu para seu amigo anti-comunista Sidney Hook: “Não se preocupe, eu não serei seduzido pelos Sovietes e voltar para casa clamando que eles tem Socialismo!”. Hook prontamente o respondeu: “Mas é isso que me preocupa – que você volte alegando que a URSS NÃO é socialista!”. O que preocupava Hook era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem errado na construção de uma sociedade Socialista, isto não invalida a ideia mesma, somente significa que nós não a implementamos apropriadamente. Nós não detectamos a mesma ingenuidade nos fundamentalistas do mercado de hoje?  

Quando, durante um debate televisivo na França há alguns anos, o intelectual francês Guy Sorman alegou que a democracia e o capitalismo necessariamente vão juntos, eu não pude resistir em fazer para ele a pergunta óbvia: “Mas e a China hoje?” Sorman retrucou: ”Na China não existe capitalismo!”. Para o fanático pró-capitalismo Sorman, se o país não é democrático, significa simplesmente que não é verdadeiramente capitalista, mas pratica sua versão desfigurada, da exata mesma maneira que para um democrata o  Comunismo Stalinista simplesmente não foi uma forma autêntica de Comunismo.

O erro que subjaz não é difícil de identificar – é o mesmo como na conhecida piada: “Minha noiva nunca está atrasada para um compromisso, porque no momento que ela está atrasada ela não é mais minha noiva!”. É assim como hoje a apologia do mercado, em um inédito sequestro ideológico, explica a crise de 2008: Não foi uma falha do livre mercado que causou isto, mas a regulação excessiva, i.e., o fato de que nossa economia de mercado não o era verdadeiramente, que este ainda está nas garras do Welfare State. A lição dos Panama Papers é que, precisamente, isso não é o caso: A corrupção não é um desvio contingencial do sistema capitalista global, é parte do seu funcionamento básico.

A realidade que emerge do vazamento dos Panama Papers é a da divisão de classe, e é simples assim. Os papéis demonstraram como pessoas ricas vivem em um mundo separado no qual são aplicadas regras diferentes, no qual o sistema legal e autoridade policial são pesadamente torcidos e não apenas protegem os ricos, mas estão ainda prontos para sistematicamente flexibilizar a vigência da lei para acomodá-los.

Já existem muitas reações liberais direitistas aos Panama Papers colocando a culpa no excesso do nosso Welfare State, ou o que tenha sobrado dele. Já que a riqueza é tão fortemente taxada, não é de se admirar que seus donos tentem movê-las para lugares com taxas mais baixas, que, em última instancia, não é nada ilegal. Tão ridícula quanto essa desculpa é, este argumento tem uma verdade nuclear, e que faz dois pontos dignos de nota. Primeiro, a linha que separa transações legais de ilegais está ficando cada vez mais enevoada, e frequentemente reduzida a uma questão de interpretação. Segundo, donos de fortunas que as levam para contas offshore e paraísos fiscais não são monstros gananciosos, mas indivíduos que simplesmente agem como sujeitos racionais tratando de salvaguardar suas riquezas.  No capitalismo, você não pode jogar fora a água suja da especulação financeira e manter o bebê saudável da economia real. A água suja efetivamente é a linha sanguínea do bebê saudável.

Não deve-se ter medo de ir até o final aqui. O sistema legal do capitalismo global mesmo é, na sua dimensão mais fundamental, corrupção legalizada. A questão de onde o crime começa (quais negociações financeiras são ilegais) não é uma questão legal mas eminentemente uma questão política, de luta pelo poder.

Então porque milhares de homens de negócio e políticos fazem o que é documentado nos Panama Papers? A resposta é a mesma da velha piada: Por que os cachorros lambem eles mesmos? Porque eles podem.

FONTE: https://lavrapalavra.com/2016/04/11/explicando-os-panama-papers-ou-porque-o-cachorro-lambeu-a-si-mesmo/

Karl Marx manda recado a Lula: enquanto houver capitalismo, a luta de classes não será anulada

As últimas semanas têm sido pródigas nas idas e vindas da tentativa de golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff. De um lado, temos personagens do calibre de Eduardo Cunha, Paulinho da Força e Aécio Neves.  Já do outro lado, o principal personagem é o ex-presidente Lula a quem eu credito a origem de todo o problema quando abandonou as alianças clássicas com partidos de esquerda que o  Partido dos Trabalhadores (PT ) fez até 2002 para cair nos braços de José Sarney et caterva.

Aqui começo a falar do objeto desta postagem: o problema das disputas insolúveis no plano do Capitalismo entre capital e trabalho ao qual Karl Marx sintetizou sob o conceito de “luta de classes”.

Exemplos de governos de conciliação de classes abundam desde o Século XIX quando a social democracia efetivamente rompeu com a perspectiva de transformação revolucionária da sociedade capitalista.  O fracasso desse movimento conciliatório dentro da direção do aparelho de Estado, principalmente na Europa, é que deu origem ao Fascismo na Itália e a Nazismo na Alemanha. 

Mas as lições históricas do fracasso dos governos de conciliação de classe não serviram para nenhum tipo de aprendizado para o ex-presidente Lula e seu círculo mais próximo. Tanto isto é verdade que hoje o PT depende de personagens ilustríssimos como Paulo Maluf, Fernando Collor e Renan Calheiros para impedir o golpe parlamentar disfarçado de impeachment que  foi gestado por associações obscuras de interesses que um dia conheceremos melhor nos livros de História.

E o pior é que ao longo da última década nos foi vendida a falácia de que a única possível saída para alavancar o desenvolvimento brasileiro e diminuir a abissal diferença de renda no Brasil era abraçar de forma acrítica as políticas emanadas do governo de conciliação de classes que Lula comandou e, depois, passou para Dilma Rousseff.

Para mim a grande pretensão do ex-presidente Lula, um reconhecido gênio nos processos de articulação, foi acreditar que favorecendo a anulação do potencial transformador do Partido dos Trabalhadores também conseguiria anular a luta de classes no Brasil. É esse o pior dos erros de Lula, e não as relações pantanosas com empreiteiras como a Odebrecht e a OAS que  resultaram nos traques jornalísticos dos pedalinhos de Atibaia e o do tríplex do Guarujá.

O problema é que, enquanto a militância genuína que ainda existe dentro do PT não ver a inevitabilidade de derrotas ainda maiores por causa da volúpia colaboracionista de Lula, teremos milhões de brasileiros desarmados para o combate em defesa de minguados direitos sociais duramente conquistados.

E lá do cemitério de High Gates no norte de Londres, os ossos de Karl Marx, se pudessem enviar alguma mensagem, diriam a Lula: enquanto houver capitalismo, haverá luta de classes, meu irmão!

Marx e Mariana: que coisa mais incômoda!

Por Prof. Richard Garcia

Nascido na Alemanha em 1818, Karl Marx tornou-se um dos pensadores mais importantes e influentes de toda a história. Suas ideias transformaram o mundo de tal forma, que nunca mais foi possível compreender a sociedade, a política e a história distante de seus questionamentos e críticas. De fato, um homem que mudou o mundo!

Dizem que apenas 30 anos depois a sua morte, suas ideias já alcançavam os cantos mais escondidos do mundo, e mudavam o modo como os homens compreendiam a sociedade e a si próprios como agentes de transformação e produção da própria existência. Dizem as más línguas, que o pensamento de Marx alcançou lugares em que o próprio cristianismo ainda não havia chegado.

John Jabez Edwin Mayall

A verdade é que suas frases e ideias (adaptadas a gosto do freguês) são mais citadas nas rodas de conversa, nos bancos das universidades e até nas homilias das catedrais, do que propriamente conhecidas e entendidas. Sua barba longa, robusta e grisalha é facilmente reconhecida, mas suas ideias revolucionárias e profundamente humanas, raramente compreendidas. Mas não se preocupe, a fama faz isso mesmo. Mas, o que Marx tem a ver com Mariana?

Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press

Então vamos ao mais importante… Uma semana após o desastre do rompimentos das barragens na cidade de Mariana, MG, o que restou foi apenas o lamaçal. Lama fétida dos resquícios da mineração, é verdade. Porém, mais podre do que a lama material, restou o cheiro do sofrimento, da morte, da dor, do descaso, da mentira e do abandono, que se espalha por todo o país.

A vida e os sonhos, em sua simplicidade e abundância, que pulsava por entre o mar de montanhas daquele canto de Minas, no cheiro do café novo nas cozinhas de tantas donas Marias e “seus” Joãos que por ali garantiam as vidas simples e dignas, suas e dos seus, fora ceifada pela lama da irresponsabilidade e incompetência.

O velho barbudo, cujas ideias mudaram o mundo, um dia afirmou que o sistema baseado no dinheiro, que busca o lucro pela exploração dos donos imposta àqueles que não o são, tem o condão, a magia de transformar pessoas em coisas.

Marcos Vieira - 06/11/2015

O nome difícil para esta metamorfose é reificação (res: coisa), que chamaremos, para as “donas” Marias e “seus” Joãos nos entenderem, de coisificação. É isso… nesse sistema movido pelo dinheiro, pelo lucro, deixamos de ser pessoas e nos tornamos “coisas”.

E compreendam o rumo de nossa conversa: quando o ser humano deixa de ser humano, tornando-se apenas “coisa”, ele perde, com a força da lama, a sua dignidade. E uma “coisa”, tal como um chinelo velho, um par de roupas, a fotografia que nunca mais será encontrada, não merece respeito, dignidade ou esperança. Ao contrário, pode ser tratada como um objeto que serve a algum fim. Afinal, não é mais que uma mera “coisa”… E quando tais “coisas” são assoladas pela cachoeira de lama e de descaso, que mata sonhos, histórias, além de vidas, o que resta a fazer?

A esperança de mudança é a fagulha que, em algum tempo, irá propagar… Afinal, o mesmo barbudo que disse que o sistema do dinheiro transforma pessoas em “coisas”, também afirmou que, quando as “coisas” acordarem de suas cavernas interiores, o mundo também irá mudar. Que venha a mudança, trazendo consigo a consciência, a dignidade, a esperança, a vida, o sonho e tudo o mais que pode ressuscitar da terra, da lama, do caos.

Acesse aqui a aula com o conteúdo sobre Karl Marx que é cobrado no Enem e vestibulares.

Richard Garcia é professor de Filosofia, Sociologia e Atualidades do Percurso Pré-vestibular e Enem.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/educacao/enem/2015/11/14/noticia-especial-enem,707966/marx-e-mariana-que-coisa-mais-incomoda.shtml

5 de Maio: Marx vive!

MARX

Comemora-se neste 5 de Maio o 197º ano do nascimento de Karl Heinrich Marx – Karl Marx –, o homem a quem o proletariado de todo o mundo deve os mais importantes serviços no caminho de sua própria libertação, segundo seu companheiro de lutas e de obras Friedrich Engels. E foi no objetivo de homenagear o homem que viria a se constituir na maior referência mundial do proletariado e, igualmente, assumir o compromisso histórico de lutar para concretizar suas propostas na luta geral do proletariado, que o Movimento Marxista 5 de Maio-MM5 adotou esta data como seu próprio nome.

Marx não foi apenas mais um teórico e militante da causa dos trabalhadores. Muito mais que isso, muitíssimo mais que isso, Marx foi o homem que, junto com Engels, criou a teoria científica da revolução do proletariado e da derrubada do capitalismo como caminho para a construção da sociedade comunista, a sociedade sem classes em que todos serão livres e iguais. Fundamentado na filosofia e na ciência histórica que ele criou – o materialismo dialético e o materialismo histórico –, Marx formulou o princípio geral que deve orientar todos aqueles que lutamos por uma sociedade igualitária: o socialismo só poderá ser instalado através de uma revolução liderada pelo proletariado e pelo seu partido comunista. Esta lição de sua primeira obra diretamente política, o Manifesto do Partido Comunista, permanece hoje, 167 anos depois, tão válida e insubstituível quanto na época em que foi escrita.

Marx hoje
De lá para cá, todas, literalmente todas as previsões e análises de Marx foram confirmadas pelos eventos históricos. Isto evidentemente não se deve a uma suposta capacidade especial de previsão do futuro por parte de Marx e Engels ou de uma extraordinária obra do acaso. O marxismo é fruto de um profundo estudo sobre as origens e estruturas do capitalismo, sistema baseado na exploração do proletariado e onde se desenvolvem e se reproduzem relações sociais marcadas por este modo de produção. Estes são traços indeléveis do capital. A certeza de que a superação da miséria só pode ocorrer fora do capitalismo é o que torna o socialismo revolucionário marxista a única forma de organização social de encerrar o ciclo de miséria e assassinatos produzido pelos exploradores de todos os tempos.

O reformismo se baseia na crença infantil de que é possível tornar o capitalismo humano, de mudá-lo por dentro, de ocupar lacunas e um dia acordar em um mundo perfeito. Uma ilusão que só é possível desconhecendo a história, desconsiderando a atuação da burguesia e os efeitos reais da luta de classes. Nós marxistas sabemos que o fim da opressão só pode ser obra da revolução.

Mesmo não tendo assistido em vida ao pleno desenvolvimento do imperialismo, o predomínio do capital financeiro, as duas guerras mundiais, as grandes crises dos séculos XX e XXI, as linhas gerais deste desenvolvimento do capital na linha de perpetuar e aprofundar a exploração sobre os trabalhadores foram identificadas e explicitadas por Marx e Engels. 

Nunca é demais lembrar que às vésperas da Primeira Grande Guerra apenas os comunistas chamavam os trabalhadores a não lutarem entre si. A quase totalidade dos reformistas propagandeou as “vantagens” da disputa por novos mercados. Os marxistas nunca se deixaram levar pelo canto da sereia do desenvolvimento econômico do capital como forma de distribuir riqueza. Liberais e socialdemocratas, tanto no período anterior a crise 1929, quanto na de 2008, enalteceram o mercado e suas leis, chamaram o proletariado para investir e sonhar as belezas do sonho burguês.

Ou de forma ainda mais recente, quando a esquerda reformista seguiu engolindo e incorporando o mantra do neoliberalismo, os marxistas seguiram seu caminho de luta, enquanto reformistas se entregavam de corpo e alma à estrutura política da democracia e, consequentemente, da corrupção. Hoje, parte destes mesmos reformistas grita contra o fantasma da corrupção, enquanto de forma conivente se esquece de que o roubo e a apropriação criminosa é alma do capitalismo. Comparada ao que é pago por ano ao capital financeiro, a corrupção não passa de um trocado. Mas o grosso do roubo se dá mesmo é no dia-a-dia. E em cada uma das operações comerciais que se realizam no capitalismo, lá está a exploração de um homem por outro, marca indelével deste modo de produção. É aí que mora o verdadeiro crime contra a humanidade.

As crises
A crise econômica pela qual passa o mundo hoje só pode ser de fato explicada através do marxismo. A tendência geral da queda da taxa de lucro é explicada por Marx em O Capital com todo o rigor científico que marca sua obra. Ora, a burguesia quer continuar ganhando cada vez mais, e quanto mais investe em tecnologia para ampliar o volume de produção para tentar compensar aquela tendência histórica à queda da taxa de lucro, mais deixa de produzir valores reais, que, como provou Marx, só podem ser produzidos pela força de trabalho humana. Assim, diante de uma crise de pagamento e com produção em excesso, o capital entra em crise. Crises que se dão não por falta de produtos, bens ou serviços, mas justamente porque estes existem em demasia. A burguesia quer vender seus produtos, que lotam os estoques, apodrecem, enferrujam, mas não há mais quem comprar. Eis uma triste exclusividade do capital, a crise não pela falta, mas pelo excesso. Aquilo que poderia ser de todos se perder para poder garantir a riqueza de alguns. Mas como bem sabemos, se os trabalhadores não retiram a burguesia do poder e lhe tomam os meios de produção, o capital cria novas condições de aumentar a exploração ainda mais e segue com seus ciclos de miséria e dor.

Mas o capital, assim como outras estruturas sociais classistas que o precederam, reduz o mundo à sua própria ideologia. Faz da mentira sua lógica e do engodo sua lei. Por isso não faltam aqueles que como paladinos da razão e do conhecimento da burguesia apontam contra o comunismo sua mais forte arma: a democracia. Descrevem a Ditadura do Proletariado – a forma de governo proposta por Marx no socialismo de transição ao comunismo – como uma violência, como algo ultrapassado e perdido no tempo. Mas estes paladinos omitem é que a democracia é a estrutura política com que a burguesia subjuga o proletariado. Existe possibilidade de igualdade política sem que exista a igualdade econômica?

A farsa democrática
Se acreditarmos na democracia acabaremos caindo na lógica de que as empresas envolvidas na chamada ‘Operação Lavajato’ eram um poço de humanidade e caridade e que, pobrezinhas, foram obrigadas a dar dinheiro para os partidos. Ora, tanto os partidos burgueses quanto as empresas jogam o mesmo jogo, defendem os mesmos interesses, se organizam pela mesma lógica: produzir lucro. O capital explora homens e mulheres, crianças e idosos, seria para ele a corrupção algo tão antiético assim? Que os paladinos do capital se esmerem em trazer à tona os melhores exemplos de sociedades capitalistas desenvolvidas e plenamente democráticas. Mas o fato é que lá também existem exploração, miséria, opressão.

Na democracia, a defesa da exploração e do lucro pode se dar de forma velada ou aberta. A reação da polícia contra os professores em Curitiba nada mais é que o poder repressivo do capital contra trabalhadores. O governador quer repassar remessas ainda maiores para o capital especulativo, usando para isso o fundo de pensão dos trabalhadores da educação. Não se trata de uma truculência arbitrária, se trata de luta de classes. Ela segue viva. A brutalidade da burguesia não adormece ou se acalma com o tempo. Em agosto de 2012, 34 trabalhadores de uma mina de exploração de ouro da África do Sul foram assassinados pela polícia. O crime: lutar por aumentos salariais contra a mineradora britânica Lanmin. Trabalhadores que moravam em barracões de zinco lutavam para que uma empresa que fatura bilhões lhes pagasse um pouco mais e foram mortos por isso. Esta é a lógica do capital, no Brasil, África do Sul, Estados Unidos ou Noruega, as variações são apenas as tonalidades de tinta que compõe um mesmo quadro.

As leituras que apresentam fragmentos da realidade, desconsiderando o materialismo dialético de Marx e Engels são incapazes de promover qualquer mudança real. Somente uma revolução proletária pode romper com o capitalismo. E como afirmou outro herói mundial do proletariado, Lênin, sem teoria revolucionária não há prática revolucionária. Marx, além de participar diretamente das lutas proletárias de seu tempo, tendo sido duramente perseguido por isso, é o criador da teoria revolucionária do proletariado. A ele, o proletariado e seus aliados em redor de todo o mundo rendemos neste 5 de Maio de 2015 nossa homenagem. E reafirmamos solenemente nosso compromisso de luta pelos mesmos ideais pelos quais lutou em toda sua vida.

Viva o 5 de Maio!
Viva Karl Marx!
Venceremos!

FONTE: http://www.mmarxista5.org/historia/191-5-de-maio-marx-vive

Prisão para Karl Marx!

karl marx

Vi a foto acima e achei o máximo! E num esforço de ajudar o manifestante que empunha tão interessante demanda, eu indicaria a ele que envie o mandado de prisão para o Cemitério de Highgate que está situado na região norte da cidade de Londres. Estive lá e pude constatar que o túmulo está local bem visível e sinalizado, apesar dos 132 anos desde a data do enterro do filósofo e revolucionário alemão!

cemitério

Manifestações anti-Dilma são apenas uma manifestação da velha luta de classes

marx

Estivesse vivo no dia de hoje, o filósofo e revolucionário alemão Karl Marx deveria estar sorrindo pelos cantos da boca. É que mais de 167 anos depois do lançamento do seu ,”Manifesto Comunista”, o Brasil assiste as mais puras expressões de ódio  (mal dirigidas é claro porque o PT de comunista não tem nada) que se têm na memória recente de um país que insiste em negar a própria existência dos conflitos de classe. É que fracassado o último capítulo do “capitalismo sem classes” que Lula tentou implantar no Brasil, o que se vê é a mais clara prova de que isso é impossível, especialmente sob as condições de um pais do capitalismo periférico. Agora, o que vemos é a boa e velha de luta de classes, sem tirar nem por.

A olhar as cansativas repetições de imagens propaladas pela mídia corporativa, o que tivemos na rua hoje foi um segmento conhecido da população brasileira que adora ser bucha de canhão para golpes de Estado: a classe média branca. As imagens das cidades e capitais onde ocorreram estes simulacros de protesto mostram invariavelmente grupos de pessoas que poderiam estar em alguma capital européia, tal é a brancura de suas peles. Quando não poderiam ser vistos em algum aeroporto internacional se comportando de forma inoportuna e nos envergonhando com suas atitudes geralmente desprezíveis frente a tudo e a todos.

E do que reclamam estes grupos? Da corrupção, mas com um detalhe pitoresco: só se for a do PT! A coisa é tão bizarra que no Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro que é deputado do partido que teve mais políticos denunciados na primeira fase da Operação Lava Jato estava lá para denunciar, com toda a cara do mundo, a corrupção! E ainda teve gente que pediu para posar ao lado dele. Mas é claro que ninguém se deu ao trabalho de perguntar por que ele ainda não pediu desfiliação do enlameado PP.

Agora voltando o que realmente importa que é o eventual aprofundamento da crise política que esses setores mal enjambrados da classe média ajudando a alimentar. A saída para os que querem a construção de saídas que não sejam  cair do maniqueísmo de PT ou PSDB deveriam se ater a uma análise mais crítica da condição da economia globalizada (que se encontra sob a pressão de uma crise com características sistêmicas) e de como as políticas sendo empurradas pela coalizão liderada pelo PT se inserem nas políticas de austeridade demandadas pelas potências centrais. E, de quebra, examinar quais seriam as propostas que o bloco liderado pelo PSDB teria nos oferecer. Depois disso é só fazer as contas para ver que a saída só pode ser pela esquerda, e sem caiamos em chantagens que nos paralisem e impeçam o aprofundamento dos embates contra os setores mais reacionários da população brasileira que, em grande parte, está hoje nas ruas derrubando sua bílis contra os pobres, ainda que aparentemente dirigindo sua ira a Dilma Rousseff.

E eu não poderia deixar de notar que aqui em Campos dos Goytacazes, que dentre os poucos mais de 200 participantes dessa patuscada já fui informado que havia gente que, se vivesse num país efetivamente democrático não teria a menor moral para estar falando contra a corrupção e outros desvios que ocorrem no nosso sistema político. 

E mais do que nunca, há que lembrar que Karl Marx vive! 

Enfim, o desespero

Por Vladimir Safatle

“A situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperanças.” A frase é de Marx, enunciada há mais de 150 anos. Ela lembrava como situações aparentemente sem saída eram apenas a expressão de que enfim podíamos começar a realmente nos livrar dos entulhos de um tempo morto.

Há tempos, insisti que o lulismo entraria em um esgotamento. Era uma questão de cálculo. Chegaria um momento em que o crescimento só poderia continuar por meio de políticas efetivas de combate à desigualdade e acumulação. Afinal, estamos falando de um país que, ao mesmo tempo, apresenta crescimento econômico próximo a zero e bancos, como o Itaú, com lucro anual de 20 bilhões de reais. Um crescimento de 29% em relação a 2013, com inadimplência recuando para mínima recorde.

“Políticas efetivas de combate à desigualdade e acumulação” significam, neste contexto, ir atrás do dinheiro que circula no sistema financeiro e seus rentistas blindados. Mas isto o governo não seria capaz de fazer. Difícil fazê-lo quando você também se torna alguém a frequentar a roda dos dançarinos da ciranda financeira. Ninguém atira no próprio pé, ainda mais quando se é recém-chegado à festa.

Restaram ao governo federal duas coisas. Primeiro, chorar por não ser tratado como um tucano. É verdade. Nada melhor no Brasil do que ser tucano. Como acontece hoje no Paraná, você pode quebrar seu Estado, colocar quatro de suas universidades públicas em risco de fechamento por falta de repasse e, mesmo assim, irão te deixar em paz. Nenhuma capa de revista sobre seus desmandos nem sobre seus casos de corrupção.

Por estas e outras, o sonho de consumo atual de todo petista é ser tratado como um tucano. Eles até que se esforçaram bastante.

Fora isto, resta ao governo ser refém de um Congresso que ele próprio alimentou. Na figura de gente do porte de Eduardo Cunha e seus projetos de implementar o “dia do orgulho heterossexual”, entregar o legislativo à bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala) e contemplar cada deputado com seu quinhão intocado de fisiologismo, o Brasil encontra a melhor expressão da decadência e da mediocridade própria ao fim de um ciclo.

Neste contexto, podemos enfim ver claramente como as alternativas criadas após o fim da ditadura militar não podiam de fato ir muito longe. Nenhuma delas sequer passou perto da necessidade de quebrar tal ciclo de miséria política dando mais poder não aos tecnocratas ou aos “representantes”, mas diretamente ao povo, que continua a esperar seu momento.

Por isto, a situação desesperadora me enche de esperanças.

Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP 

FONTE:http://www.ihu.unisinos.br/noticias/540154-enfim-o-desespero