Uma eulogia para Kathlen Romeu

Kathlen-Romeu-gravida-tiroteiro-Rio-2Kathlen Romeu,  que morreu assassinada durante investida de forças policiais na comunidade do Lins na cidade do Rio de Janeiro

Ao longo de pouco mais de uma década da existência deste espaço, escrevi várias eulogias para pessoas com quem convivi, aprendi e admirei a partir do meu convívio pessoal. Além dos textos refletirem o meu esforço para reconhecer o impacto que as pessoas retratadas tiveram na minha vida e na de outros, escrever eulogias é um esforço pessoal para conviver com a perda de pessoas que foram e continuam sendo importantes na forma com que toco a minha vida.

Hoje decidi escrever uma eulogia para Kathlen Romeu, jovem mulher negra assassinada muito provavelmente por uma arma empunhada por uma agente das forças policiais do Rio de Janeiro. Ao contrário das outras pessoas a quem dediquei minhas eulogias, nunca encontrei pessoalmente com Kathlen, mas conheço pelo menos uma pessoa que teve a oportunidade de ser seu professor. Kathlen, como mostram suas fotos que estão aparecendo nas redes sociais, era uma jovem que tinha sonhos e, mais importante, trabalhava para torná-los realidade.  Os relatos que surgem é de que era uma pessoa de bem com a vida, ainda que preocupada com o espectro da violência que se abate diariamente sobre os negros brasileiros, especialmente aqueles que nascem e vivem em áreas impactadas pela pobreza e pela constante ação do aparato repressivo do Estado brasileiro.

Um detalhe que me impactou particularmente no caso de Kathlen foi o fato de que ela estava grávida em uma gestação que deveria estar no seu quarto mês de duração. Assim, o seu assassino não ceifou apenas a vida de uma jovem mulher negra, mas também do ser humano em formação que ela carregava dentro de si. Mais chocante ainda é saber que esse duplo assassinato é apenas mais um de uma série de extermínios de mulheres, a maioria negra, grávidas no chamado “Grande Rio“. Isso me leva a crer que o extermínio de Kathlen Romeu não foi um mero “acidente de trabalho”, mas faz parte de uma ação orquestrada para intimidar ainda mais aqueles que já vivem eternamente em contato direto com o medo.

A morte de Kathlen Romeu deveria deixar qualquer um que se preza como ser humano com o sangue fervendo, pois não há como aceitar que alguém que passou pela vida realizando coisas boas para quem se aproximava dela se torne apenas mais uma estatística nos malfeitos cometidos pelo Estado. Aliás, o silêncio das autoridades constituídas, a começar pelo governador acidente Cláudio Castro, revela que os culpados pela morte de Kathlen e de tantas outras pessoas não são apenas aqueles que disparam suas armas em condições de pouquíssima transparência e controle por parte da sociedade fluminense.

Se esse texto chegar até quem conviveu com Kathlen Romeu, quero apenas dizer que o mero contato com as narrativas de quem ela foi, e mais importante, o que ainda poderia ser como mãe e como cidadã, me motivou a expressar meu sentimento de senso de perda pessoal que sua morte me causou.  Por isso, me somo à todas as vozes que estão se levantando para exigir que seu assassinato seja exemplarmente apurado e os responsáveis punidos de forma rigorosa.