A dramática situação da Lagoa Feia: entre mudanças climáticas e ações humanas, um rico ecossistema é levado ao colapso

Acabo de ler dois materiais que abordam a crise hídrica que ameaça o rico ecossistema da Lagoa Feia, localizada no litoral da região Norte Fluminense, de encontrar o mesmo destino inglório que já se abateu sobre grandes lagos e lagoas ao redor do mundo. Falo aqui de uma matéria publicada pelo Portal Viu e um artigo assinado pelo ecohistoriador Aristides Soffiati.  Ainda que o mote desses materiais seja ligeiramente diferente, ambos se debruçam sobre as causas da profunda ameaça que paira sobre a Lagoa Feia e as comunidades que dela dependam para obter sua reprodução social e fontes de renda. E ambos materiais levantam questões que não podem ser mais ignoradas, vista a gravidade da situação.

Que a Lagoa Feia é alvo de tratos e destratos que estão agravando os impactos das mudanças climáticas sobre nossos sistemas hídricos, isso já não é novidade. O problema está no que décadas de omissão e negligência está resultando: a ameaça de colapso de um ecossistema que oferece serviços ambientais de grande importância, a começar pelo fornecimento de água.

Quero me deter em um aspecto que já deveria ter merecido uma ação renovada, seja do Ministério Público Federal ou do Ministério Público Estadual.  Falo aqui da inoperância do Comitê que é responsável por cuidar do que se convenciona denominar de “baixo Paraíba do Sul” e também do Instituto Estadual do Ambiente (Inea).   Me parece que não estaríamos na condição que se chegou, como documentado pela reportagem do Portal Viu, se não houvesse omissão e até cumplicidade com intervenções que impedem o mínimo de equilíbrio ecológico no ecossistema da Lagoa Feia.

Lembro que em 2008 o falecido promotor Marcelo Lessa se envolveu na explosão de diques construídos ilegalmente na região da Lagoa Feia, pois os mesmos potencializaram a ocorrência de grandes enchentes no município de Campos dos Goytacazes. No entanto, de lá para cá me parece claro que foram construídos mais diques, mas sem a mesma ação diligente dos órgãos fiscalizadores. 

Além disso, um grande mistério é sobre como são tomadas as decisões em torno da operação das comportas que regulam o nível da água na Lagoa Feia.  Com isso, falta o devido controle social sobre quem e como são tomadas as decisões sobre a operação das comportas. Pelo menos é isso que fica claro na matéria do Portal Viu. E quem ganha com isso? Essa é uma questão que precisa ser apurada e os responsáveis tratados nos rigores da lei.

Um detalhe que me vem sendo cobrado se refere à participação da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) no Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana e mais especificamente sobre a participação de seus servidores na direção do referido órgão.  Apesar do comitê estar instalado no campus Darcy Ribeiro por alguma cortesia oferecida no passado é importante esclarecer que a Uenf não tem poder decisório sobre o seu funcionamento. Além disso, a presença ad eternum de um servidor técnico na direção do comitê é algo que já deveria ter sido analisado, mas a baixa prioridade dessa represenção acaba favorecendo que isso se mantenha sem o devido escrutínio.  Com isso, a Uenf acaba sendo legitimadora de uma forma de funcionamento que ela mesmo não acompanha como deveria. Aqui é mais um caso de omissão que contribui para o corolário de problemas que vem sendo desvelado sobre a crise hídrica que ameaça a existência da Lagoa Feia.

E o que fazer em relação a isso? A primeira coisa é quebrar o ciclo de omissão que caracteriza a ação dos órgãos fiscalizadores. Há que se cobrar que haja retorno a um mínimo de fiscalização porque da forma que está não pode continuar. Mas cabe também à comunidade científica abrigada em instituições locais recolocar a situação da Lagoa Feia como prioritária na realização de estudos ambientais e sociais. Afinal, não é possível que se continue ignorando uma situação tão grave. Com a a palavra, o Ministério Público, seja federal ou estadual. Com a palavra, a comunidade científica local. 

Lagoa Feia: a outra grave crise hídrica ocorrendo em Campos que ninguém parece querer ver

lagoa feia seca

Enquanto as reações ocorridas em relação à água que está sendo servida aos campistas pela concessionária “Águas do Paraíba” já fizeram várias engrenagens se moveram para cobrar explicações, há uma outra grave crise ocorrendo na Lagoa Feia, corpo hídrico que é responsável pelo abastecimento de mais de 30 mil pessoas nos municípios de Quissamã e Carapebus.

Hoje de manhã tive um encontro fortuito com um vídeo postado na rede social Facebook pelo consultor ambiental Armando Barreto que mostra a situação catastrófica que está ocorrendo naquele importante ecossistema, tanto para o abastecimento de água como para a pesca artesanal (ver vídeo  Aqui!).

Olhando um pouco mais na página do consultor ambiental, encontrei a informação de que a operação das 14 comportas da Lagoa Feia que caberiam aos técnicos do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) teria sido transferida para um grupo de trabalho do comitê de bacia do Baixo Paraíba que estaria agora tomando as decisões em relação a abrir ou manter fechadas o sistema de regulação. Com isso, a regulação deste sistema não estaria obedecendo as necessidades de manter o nível mínimo de água que garanta a continuidade do abastecimento e da pesca na Lagoa Feia.

Como essa não é a primeira reclamação que eu leio sobre a regulação do espelho da Lagoa Feia, penso que esse é mais um tópico em que se deve cobrar explicações do Inea e do Comitê do Baixo Paraíba. E de quebra, seria importante que o prefeito Wladimir Garotinho também notificasse o INEA e o Comitê Baixo Paraíba.  Afinal de contas, quem vai garantir que 30 mil pessoas que dependem da Lagoa Feia para terem acesso água não ficarão ao Deus dará?

Pescadores de Ponta Grossa dos Fidalgos reclamam de abandono por parte da Prefeitura de Campos

Silesio Correa

Acabo de receber uma mensage do Prof. José Colaço do  Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da UFF/Campos, e que há mais de uma década realiza pesquisas antropológicas com a comunidade de pescadores da Lagoa Feia, especialmente em Ponta Grossa dos Fidalgos.

Vejam o que me escreveu o Prof. Colaço acerca do problema que está atrapalhando em muito a labuta diária dos pescadores de Ponta Grossa dos Fidalgos:

 

“Pedlowski,

Quero tentar “resolver” uma questão e queria saber se você pode me ajudar. Esta semana estive em Ponta Grossa dos Fidalgos e os pescadores reclamaram muito da falta de assistência que a Prefeitura de Campos está dando para eles.

Explico: de acordo com eles, nos últimos meses o vento sul soprou mais forte do que o comum e trouxe muita vegetação de outras partes da Lagoa Feia para frente de Ponta Grossa. O resultado é que eles estão com muita dificuldade de sair todos os dias com os barcos para pescar, e como a vegetação está bem em frente aos portos eles tem que parar os barcos praticamente fora de Ponta Grossa em uma fazenda vizinha. O deslocamento – como você imagina – dificulta ainda mais o trabalho porque que eles tem que levar os apetrechos de pesca e voltar com os isopores e caixas cheios de peixe em uma caminhada que, para alguns, pode chegar a até 3 km.

Tudo isso é para te perguntar se você tem algum contato na Secretaria do Ambiente ou mesmo de Obras (não sei se é assim) porque o que eles precisam é que a Prefeitura envie uma máquina para limpar esta vegetação e liberar o acesso pelos portos deles. eu gostaria de interceder a favor deles, mas não sei os canais institucionais para este caso.

Você tem como ajudar? se não tiver, obrigado pela atenção mesmo assim. abraços, José Colaço”

A minha reação a essa situação tão esdrúxula quanto inaceitável é a seguinte: será que algum leitor do blog poderia fazer chegar aos ouvidos ou olhos de alguém nas várias secretarias que poderiam solucionar o problema afligindo os pescadores de Ponta Grossa dos Fidalgos? É que essa  comunidade cumpre um papel tão fundamental em nossas existências ao prover alimentação a troco de quase nada que me parece descabido que eles não recebam um mínimo de assistência do poder público municipal.