Desafio histórico, contenção do desmatamento confronta modelo de crescimento

Com desenvolvimentismo baseado na exploração de monoculturas e minérios, Brasil vê crescerem influência de ruralistas e flexibilização de regras que permitem destruição de biomas

por Fábio M. Michel, da RBA
PEDRO BIONDI/ARQUIVO ABR
desmata.jpgNo limite. Cortadas por estradas e cercadas por plantações, florestas desaparecem, enquanto modelos econômicos permanecem

São Paulo – Há dez anos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegava ao fim do segundo ano na Presidência da República amargando a maior taxa de desmatamento da Amazônia desde o início das medições do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites, iniciadas em 1988. Em 2004, cerca 27,7 mil quilômetros quadrados de florestas (equivalentes a 3,4 mil campos de futebol) foram ao chão para dar lugar a plantações de grãos, com destaque para a soja e o milho, e também para a cana-de-açúcar. Antes disso, só 1995 registrava devastação maior (29 mil quilômetros quadrados), basicamente pelo mesmo motivo: a expansão das atividades do agronegócio e da extração mineral, produtores de matérias-primas para exportação.

De lá para cá, é verdade que o Brasil instituiu uma série de políticas e medidas que levaram a significativas quedas dos índices oficiais de desmatamento, que chegaram ao menor nível em 2012, aproximadamente 4,5 mil quilômetros quadrados. Os resultados levaram o país a ser considerado pela ONU um exemplo para o mundo de como reduzir o desmatamento e combater a ameaça do aquecimento global, o que foi constatado por um estudo sobre mudanças climáticas produzido pela Union Concerned Scientists (UCS), com sede nos Estados Unidos.

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Índices oficiais de desmatamento da Amazônia. Repique em 2013

O cientista norte-americano Doug Boucher, que foi o coordenador da pesquisa divulgada no mês de junho deste ano em reunião da ONU, realizada na Alemanha, cita a criação de novas áreas de proteção ambiental e de unidades de uso sustentável, além das moratórias acordadas com empresas privadas sobre a compra de soja e carne de áreas desmatadas, como primordiais para combater a derrubada das florestas brasileiras em geral e, particularmente, a amazônica. “As mudanças na Amazônia brasileira na década passada e a sua contribuição para atrasar o aquecimento global não têm precedentes”, declarou.

Na mesma ocasião, porém, Boucher também alertou que o desmatamento voltou a crescer em 2013, ano em que foram ao chão mais de 5,8 mil quilômetros quadrados de matas amazônicas, entre floresta tropical e cerrado – um repique de 28% em relação ao ano anterior. O Brasil, conclui o UCS, dá sinais que trazem dúvidas sobre a continuidade do sucesso na contenção do desmatamento, mantendo, portanto, incertezas sobre o futuro daquele e demais biomas. Os cientistas discordaram, por exemplo, das emendas aprovadas ao Código Florestal no Congresso Nacional, que, entre outras inconsistências, concedeu anistia aos ruralistas por desmatamentos anteriores à promulgação.

Figura também, entre as ameaças potenciais à preservação florestal, o fim da vigência da moratória da soja, em dezembro próximo, que levou diversos países a deixarem de comprar o grão produzido nas áreas provenientes de áreas desmatadas na Amazônia depois de 2006.

Como raiz da iminente retomada dos ataques às coberturas florestais dos biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal) está o atual modelo econômico, ainda fortemente baseado em exportações das chamadas commodities agrícolas e minerais. Ainda que com ares de modernidade, essa já era a principal atividade econômica do país nos tempos coloniais. Historicamente, o Brasil promove alternância de ciclos de intensa exploração de algumas monoculturas, como foram os da cana-de-açúcar, do cacau e do café, ou de minérios, a exemplo de ouro e ferro.

E, a cada ano, as receitas produzidas pelo setor se agigantam. As exportações do agronegócio brasileiro alcançaram o montante de US$ 9,61 bilhões em julho de 2014, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No acumulado dos 12 meses anteriores, o faturamento bateu a marca de US$ 99,81 bilhões, dos quais as exportações do chamado “complexo soja” ficaram na liderança (US$ 33,84 bilhões). O setor de carnes aparece em segundo, com US$ 17,03 bilhões em vendas, seguido pelo complexo sucroalcooleiro, US$ 11,84 bilhões.

O economista Guilherme Delgado, consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz e ex-integrante do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alerta que a expansão desses setores puxados pela demanda externa, o agronegócio e a mineração, principalmente, têm como ponto comum a exploração não onerosa de recursos naturais, o que equivale a dizer que, entre outras políticas deixadas de lado, está a preservação do entorno ambiental, de forma a elevar a competitividade comercial das commodities.

“Em tais condições o setor primário fica escalado para superexplorar recursos naturais, o que provoca, evidentemente, consequências ambientais, que são custos sociais não internalizados na conta do empreendedor, mas completamente detectáveis na conta da sociedade: desmatamentos e queimadas por um lado, com inegáveis contribuições ao efeito estufa”, resume Delgado.

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ARQUIVO ABR, Do ‘boom’ ao colapso, modelo de ocupação das florestas segue a lógica extrativista

Segundo o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), num artigo divulgado em 2007, o modelo de ocupação do interior do país segue o padrão “boom-colapso”, ou seja, sucesso crescente no início das atividades, seguido de apogeu e queda. Nesse círculo pouco virtuoso, a prática comum é derrubar as florestas para a plantação de vastas áreas de uma só cultura até o esgotamento do solo, acelerado pelo uso intensivo de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Uma nova área é derrubada para o cultivo e a anterior é substituída por pasto, passando a receber grandes rebanhos bovinos, que, por sua vez, leva à degradação completa do ambiente. Quando isso ocorre, a criação de animais é deslocada para outra área que deixou de servir para a agricultura. E assim ininterruptamente.

Como agravante, o aponta ainda que a exploração de áreas de floresta para a atividade agropecuária ou mineral leva também a colapsos sociais cada vez mais frequentes, como os tensos e violentos conflitos pelas disputas de terra, o desemprego no campo e os movimentos migratórios das zonas rurais para as urbanas.

Daniel Nepstad, coordenador dos programas Internacional e Cenários do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) alerta que as medidas e políticas do governo a partir de 2004 podem estar no limite da capacidade de contenção do desmatamento provocado pela manutenção da agroindústria, que é grande provedora de divisas comerciais internacionais. “Esses ganhos são globalmente significativos, mas frágeis”, explica Nepstad. “Estamos esbarrando nos limites do que pode ser alcançado por meio de medidas punitivas. Um aumento da demanda global por soja e carne bovina, por exemplo, nos fará precisar de uma nova abordagem para manter o desmatamento nas taxas atuais.”

Conflito

O caminho entre as políticas federais e as lutas dos movimentos sociais ligados à terra para conter o expansionismo do agronegócio cruza com a bancada ruralista no Legislativo, que é o maior grupo do Congresso Nacional atualmente. Oficialmente, conta com 162 deputados e 11 senadores, sob a sigla de Frente Parlamentar da Agropecuária. No Senado e na Câmara, os parlamentares representam empresas e proprietários de terras, que movimentam R$ 440 bilhões entre a produção agrícola e pecuária

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Além disso, representantes desses interesses estão espalhados por prefeituras e governos estaduais. O jornalista Alceu Castilho, autor do livro “Partido da Terra”, levantou 13 mil declarações de bens de políticos brasileiros, incluindo deputados estaduais, prefeitos, vices, suplentes e governadores, e concluiu que, somados, eles representam 2,03 milhões de hectares, ou 203 mil quilômetros quadrados, mais que todo o estado do Paraná, que, segundo o IBGE, tem 199 mil quilômetros quadrados.

As prioridades políticas dos deputados e senadores são claras: liberação de terras dos territórios indígenas, quilombolas, RESERVAS e parques ecológicos para a exploração agropecuária. Também miram a flexibilização de leis trabalhistas do setor rural, a redefinição do que deve ser considerado trabalho escravo, para a seguir com a submissão de trabalhadores a condições mais que precárias, relaxar regras para o registro de agrotóxicos e de novos produtos alimentares, alterar leis para facilitar a compra de terras por grupos estrangeiros e renegociar, a perder de vista, as dívidas dos ruralistas.

Com tantos interesses contrários à preservação ambiental e tamanha representatividade no Legislativo, a consolidação das políticas públicas brota, mas não floresce. Cândido Grzybowski, sociólogo e pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), avalia que o debate sobre as urgências ambientais do país está pautado exclusivamente pelos promotores do agronegócio, entre o que esse grupo considera aceitável para continuar em expansão e o que a sociedade é capaz de suportar.

“Os dilemas sobre o que Brasil e o mundo precisam, e o que estamos dispostos a construir como nação numa perspectiva de sustentabilidade e justiça social, com democracia, ficam em segundo plano. Na verdade, a questão pública e política é determinada por uma velha agenda desenvolvimentista, hegemonizada pelos grandes interesses e forças econômicas envolvidas na cadeia agroindustrial. Tudo que se fará não será no sentido de uma mudança de rumo, mas de flexibilização de regras e condutas para continuar destruindo”, alerta o sociólogo.

Estradas e energia

À medida em que as fronteiras da exploração agropecuária avançam para o interior do país, crescem também as demandas por obras de infraestrutura, especialmente por aquelas que possibilitem o escoamento da produção até os portos de onde sejam exportadas. Num país em que grande parte dos TRANSPORTES DE CARGA ainda se faz por caminhões, a construção de rodovias toma a frente dos investimentos do setor e, historicamente, se transforma em grande indutora do desmatamento.

Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, 75% dos desmatamentos na região ocorreram numa faixa de 100 quilômetros de largura de cada lado das rodovias pavimentadas. Com a ocupação ao longo das estradas e as atividades de pecuária extensiva e agricultura de corte e queima, os incêndios florestais se proliferam. O fogo invade a floresta e o cerrado, e os danos tornam as áreas mais vulneráveis ao fogo. Como o clima da região é diretamente afetado pelas queimadas e a tendência é de agravamento do quadro, a alteração dos sistemas climáticos também é um possível reflexo da pavimentação de rodovias.

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IMAZON/O arco do desmatamento na Amazônia. Círculo vicioso entre derrubadas e abertura de estradas

O asfaltamento das rodovias Cuiabá-Porto Velho e Belém-Brasília, por exemplo, foi decisiva para a formação do que hoje é chamado de “arco do desmatamento” (compare os mapas nas fotos). São 500 mil quilômetros quadrados entre o leste e sul do Pará em direção oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre, onde a fronteira agrícola avança em direção à floresta e também onde encontram-se os maiores índices de desmatamento da Amazônia. O Ipam calcula que o desmatamento adicional associado às rodovias planejadas para a Amazônia pode chegar a 270 mil quilômetros quadrados até o ano de 2030 (o estado de São Paulo tem 248 mil quilômetros quadrados).

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DNIT/RBA/Rodovias federais na Amazônia juntam-se às estaduais e vicinais e contribuem para o desmatamento

Outro órgão de pesquisa, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), contabiliza o impacto de outros projetos de infraestrutura existentes na região, como hidrelétricas – entre as quais atualmente se destacam as construções de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, além de Belo Monte, no Pará –, e linhas de transmissão, gasodutos, ferrovias, que também induzem desmatamentos. O levantamento amplia o impacto em mais 236 mil quilômetros quadrados de áreas desmatadas. Somados, os cálculos de ambos os institutos de pesquisa projetam mais de 500 mil quilômetros quadrados da Amazônia drasticamente alterados num ritmo acelerado.

Qual caminho?

Em âmbito federal, lidar com a complexidade que envolve a questão fundiária, da qual o desmatamento é uma das consequências mais desastrosas, tem igualmente se mantido como o reflexo de relações entre os grupos de interesse representados pela bancada ruralista no Congresso, muitas vezes num embate entre forças desproporcionais.

Contudo, em que pese a força da representatividade legislativa, ainda que grandes proprietários de terra representem uma parcela ínfima da população brasileira, é fato que, sucessivamente, as gestões federais, Lula e Dilma incluídos, têm sido pouco decididos a levar adiante a reforma agrária necessária para garantir a democratização da posse da terra e a expansão da agricultura familiar como forma de garantir a segurança alimentar, a diversidade ambiental e a fixação dos descendentes dos agricultores no campo.

“Optamos pelo caminho mais curto de crescimento, que tem como pressuposto o velho modelo primário exportador, que nos torna dependentes de potências industriais e nos faz ser um grande destruidor ambiental. Não é esse o Brasil emergente que o mundo precisa e que quem luta por democracia e justiça social quer. Só mais democracia pode nos levar a superar esse dilema”, alertou Cândido, em artigo escrito em agosto de 2012, quando o país assistia o Congresso alterar perigosamente o Código Florestal.

“Se o modelo de desenvolvimento não for modificado em sua essência, nada impedirá a destruição contínua da biodiversidade. Não há modelo matemático capaz de calcular em termos econômicos, muito menos em termos de importância para a vida, o que significa toda essa riqueza” reforça Roberto Malvezzi, filósofo e teólogo, que já foi coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e atualmente milita nas pastorais sociais do São Francisco, em Juazeiro, na Bahia.

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CC / COOPERMUNDI /Exportação de grãos. Modelo ultrapassado que principais candidatos não pensam em mudar

E a julgar pelos programas de governo dos principais candidatos à  presidência da República nas eleições deste ano, pouco mudará o cenário de ameaça aos biomas do país. Em linhas gerais, Dilma, Aécio e Marina consagram o agronegócio como fonte de riquezas e enumeram medidas que, espera-se, ao menos alterem a lógica expansionista de grandes agricultores e pecuaristas.

Na primeira candidatura, em 2010, Dilma prometia, em programa de governo, “dar seguimento a um projeto nacional de desenvolvimento que assegure grande e sustentável transformação produtiva do Brasil”, o que incluiria, conforme o documento, definição de políticas especiais para o meio meio ambiente, fortalecimento da agricultura familiar e ênfase à produção de energia renovável.

Para a atual corrida presidencial, o programa de governo da presidenta comemora que a produção de grãos tenha saltado de 96 milhões de toneladas em 40 milhões de hectares, na safra 2001/2002, para 191 milhões de toneladas em 56 milhões de hectares, na safra 2013/2014. O crescimento é associado a investimentos na capacidade de produção, da expansão de obras de infraestrutura e da ampliação do crédito. Estão previstos R$ 156,1 bilhões para financiar a agroindústria no biênio 2014/2015.

A agricultura familiar aparece também no conjunto de metas para um eventual segundo mandato da petista, mas apenas para dizer que as políticas públicas iniciadas com Lula fizeram a renda no campo aumentar em 52% e que estão previsto pouco mais de R$ 24 bilhões de recursos públicos para financiar o setor para a safra 2014/2015.

Marina Silva, a candidata do PSB, ainda terá de explicar melhor o que pretende em relação ao modelo de crescimento econômico a adotar, ou manter, e o impacto da opção ao meio ambiente. Quando candidata em 2010, o “agronegócio sustentável” foi um capítulo à parte nas diretrizes de programa, que dizia: “a produção (agropecuária) deveria ser aliada à conservação e restauração dos recursos naturais, incluindo o desmatamento zero em todos os biomas, a redução do uso de agroquímicos e uma transição para o sistema de agroecologia.”

No entanto, o atual programa que norteia a atual campanha, o do candidato morto em acidente de avião, Eduardo Campos, é menos incisivo. Nele, a redução do uso de agroquímicos nem é citada, a agroecologia figura como “um modelo que pode ser encorajado por meio de incentivos” e a agropecuária seria fortalecida por “acordos comerciais bilaterais com parceiros estratégicos.”

Já as propostas de governo de Aécio Neves (PSDB), embora longas, nada propõe sobre mudanças do modelo de desenvolvimento ou padrão de consumo. Cita vagamente que buscará a “transição para uma economia de baixo carbono para o enfrentamento do aquecimento global” e “adoção de medidas voltadas à redução do desmatamento da Amazônia, do Cerrado e dos demais biomas.”

O desafio, seja para um eventual segundo mandato de Dilma, seja para a futura gestão de um dos outros candidatos que disputam a corrida presidencial, já está lançado há muito tempo. O Brasil, na questão do desmatamento, clama por firmeza de propostas.

FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/eleicoes-2014/desafio-historico-contencao-do-desmatamento-confronta-modelo-de-crescimento-360.html

Preso fazendeiro que articulava invasão de terras no Mato Grosso

Fazendeiro preso pela PF era articulador de invasões de terra indígena, e revelou como a CNA da suporte para deputados ruralistas contra os povos indígenas na PEC 215

Sebastião Prado

Conversa telefônica legalmente interceptada, revela que o líder ruralista Sebastião Ferreira Prado planejava o pagamento de R$ 30 mil a advogado ligado à Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que seria o responsável pelo relatório da PEC 215, na Comissão Especial que aprecia a matéria na Câmara dos Deputados. No diálogo interceptado, Sebastião afirma que “o cara que é relator, o deputado federal que é o relator da PEC 215, quem tá fazendo pra ele a relatoria é o Rudy, advogado da CNA, que é amigo e companheiro nosso”.

O diálogo que revelou a interferência indevida de ruralistas na tramitação do Projeto de Emenda Constitucional 215 (PEC 215) foi interceptado, com autorização judicial, durante as investigações da organização criminosa envolvida com as reiteradas invasões à Terra Indígena Marãiwatsédé, da etnia Xavante, no nordeste de Mato Grosso.

Sebastião Prado, líder da Associação de Produtores Rurais de Suiá-Missu (Aprossum), está preso desde o dia 7 de agosto quando o Ministério Público Federal e a Polícia Federal deflagraram a operação para desarticular a atuação do grupo que coordenava e aliciava pessoas para resistirem à desocupação do território indígena. O grupo recebia recursos de apoiadores de outros Estados para financiar suas atividades, inviabilizando a efetiva ocupação do território pelos índios.

A influência do movimento de resistência extrapolava os limites de Mato Grosso e influenciava, também, conflitos na Bahia, Paraná, Maranhão e Mato Grosso do Sul.

Inicialmente, Sebastião Prado foi preso temporariamente, mas em requerimento apresentado à Justiça Federal no dia 11 de agosto, o MPF sustentou que a manutenção da prisão de Sebastião Prado tutela o “direito fundamental a um ordenamento jurídico constitucional estabelecido de modo legítimo, livre de interferências indevidas, segundo os princípios democráticos e republicanos que devem fundamentar a conformação ética, política e jurídica da sociedade brasileira”. O MPF acrescentou que o fato de a conduta da liderança ruralista direcionar-­se a corromper a edição de ato normativo destinado a transformar a própria ordem constitucional é circunstância sobremaneira gravosa, a exigir do Poder Judiciário medida capaz de obstar tal situação, ameaçadora do próprio estado de direito e da ordem republicana e democrática.

Ao apreciar o requerimento do MPF, a Justiça Federal entendeu que o lobby no âmbito do Congresso Nacional é um aspecto inerente ao próprio processo político, sendo que, a princípio, nada há de mais em se tentar influenciar o relator da PEC 215. Todavia, o juiz afirma que “o problema reside exatamente no meio utilizado para se efetuar o lobby, no caso mediante pagamento ao advogado (ou assessor) responsável pela elaboração do parecer, envolvendo inclusive a Confederação Nacional da Agricultura – CNA”.

Acrescentou o magistrado federal que “o fato de o relatório da PEC 215/2000 ter sido, supostamente, ‘terceirizado’ para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), representa, a princípio, um desvirtuamento da conduta do parlamentar responsável pela elaboração da PEC, eis que a CNA é parte política diretamente interessada no resultado da mencionada PEC”.

 Ao final da decisão que decretou a prisão preventiva de Sebastião Prado, a Justiça Federal ressaltou que “o objeto da PEC é exatamente poder rever a demarcação de terras indígenas já consumadas como é o caso de Marãiwatsédé, o que justifica a atitude do investigado e demais pessoas, ao tentarem a todo custo – segundo informações do MPF –, permanecer na área da reserva indígena, em total afronta a decisão judicial, transitada em julgado, na mais alta Corte deste País, no caso o Supremo Tribunal Federal”.

Diversas diligências investigatórias ainda estão em curso, sendo que os documentos relacionados à possível participação de parlamentares federais no caso foram remetidos à Procuradoria Geral da República para que sejam adotadas as medidas cabíveis.

Assessoria de Comunicação do Ministério Público Federal no Mato Grosso

“O Veneno Está Na Mesa II”: alternativas ao atual modelo agrário

Documentarista Silvio Tendler fala sobre política na agricultura e no cinema

Por Amanda Secco

TENDLER

O documentarista Silvio Tendler lança a segunda parte de seu documentário O Veneno Está Na Mesa. Em cerca de 70 minutos, Tendler complementa o primeiro filme, focado em mostrar os impactos do uso dos agrotóxicos no meio ambiente, na vida dos trabalhadores e na saúde humana, e mostra quais são as alternativas viáveis para o desastroso modelo atual de produção de alimentos.

Além das sessões de cinema de “O Veneno Está na Mesa II”, que têm ocorrido gratuitamente pelo Brasil todo, o filme foi disponibilizado no Youtube e contabiliza quase 28 mil visualizações. Esta, para Tendler, é uma forma de democratizar o acesso à informação e de abrir espaço para debates, já que nas salas de cinema comerciais o documentário recebe pouco espaço. Ele é signatário do “Manifesto em Defesa do Documentário Brasileiro”, que critica justamente o negligenciamento à importância do documentário pelos órgãos encarregados pelo fomento do audiovisual brasileiro.

Na entrevista a seguir, ele conta sobre a produção do documentário “O Veneno Está Na Mesa II”, faz uma avaliação sobre as barreiras à implantação de alternativas ao uso de agrotóxicos e opina sobre a produção de cinema nacional.

Como surgiu a ideia de lançar a segunda parte do documentário?

A ideia de lançar o Veneno Está Na Mesa II surgiu da necessidade de complementar a primeira parte. A primeira parte teve muito impacto porque a gente fez todas as denúncias contra os agrotóxicos. E as pessoas ficaram desesperadas, pensando “será que isso não tem solução?”, “estamos condenados à morte?”. E aí eu comecei a conversar com pessoas que disseram que existe, sim, um outro tipo de agricultura. Disseram que existem a agroecologia, a agricultura alternativa, os insumos agrícolas que são naturais e não venenosos, os saberes ancestrais, que lidam com a natureza há muito mais tempo e com muita mais sabedoria. Então, eu achei que era importante na segunda parte do documentário reforçar os males que esse processo adotado hoje está fazendo na natureza. E ao mesmo tempo mostrar que existem alternativas. Daí nasceu O Veneno II.

Como foi o processo de encontrar essas iniciativas alternativas?

Não foi fácil, mas também não foi tão complicado. Porque as pessoas estão muito organizadas em redes. Então, se você chegar nas pessoas certas e falar o que você está fazendo, elas mesmas já te direcionam para os movimentos corretos. As pessoas te levam para agrofloresta, para agroecologia. Aí é questão de saber trabalhar a montagem e saber enxergar. Eu soube, por exemplo, que o Boaventura de Sousa Santos (professor de sociologia da Universidade de Coimbra), estava ligado a essa questão dos saberes ancestrais. Então, resolvemos ouvi-lo. Nós soubemos que a Vandana Shiva (física e ativista ambiental) viria ao Brasil e fomos lá encontrá-la. Fomos buscar. E também usamos sobras do Veneno Está Na Mesa I. Por exemplo, os trecho sobre o pessoal das fumageiras de tabaco e sobre a morte da dona Eva. Nós já tínhamos esse material.

Qual é a sua avaliação sobre o movimento da agroecologia?

A minha avaliação é que hoje existe uma grande consciência de que os agrotóxicos são extremamente danosos à saúde. Hoje a quantidade de lojas, de restaurantes que trabalham com orgânicos é muito maior do que na época do Veneno Está Na Mesa I. Hoje eu acho que existe uma consciência. Você fala com as pessoas e elas têm conhecimento. Eu acho que O Veneno I foi extremamente pertinente e O Veneno II está sendo também. Hoje você tem uma média de 1.500 pessoas que acessam O Veneno II pela internet por dia. O filme está liberado no Youtube em alta definição. E a cada dia que eu entro para ver os números, há mais espectadores.

Quais você acha que são os maiores empecilhos para o crescimento dessas alternativas de cultivo?

A bancada do agrotóxico no Congresso. Ela é muito forte e tem mais de 160 deputados. Ela barra tudo que seja contra o interesse dos ruralistas, contra o interesse do agronegócio e que combata os agrotóxicos. A ponto deles estarem tentando passar um projeto de lei que transforma o nome de “agrotóxicos” em “produtos químicos sanitários”. Você tem um Congresso hoje, que está completamente dominado. Por outro lado, a bancada que defende a reforma agrária e o pequeno agricultor, que é o que coloca a comida na nossa mesa, é composta de mais ou menos 12 deputados. E você tem uma bancada de 160 que defende os interesses do ruralismo. Você tem muito mais dinheiro no Ministério do Agricultura para o agronegócio do que o Ministério do Desenvolvimento Agrário tem para o pequeno agricultor. Esse é o drama. É muito acentuada a diferença. E cada cidadão hoje tem que escolher seus candidatos. Porque não se trata apenas de discutir as eleições majoritárias. As proporcionais também. As pessoas, quando votarem em um deputado, têm que saber o que ele efetivamente representa. Porque ele pode ter um discurso muito bom e bonito, e uma prática que defenda o interesse do agronegócio, da bancada ruralista, dos agrotóxicos. Tem muita gente infiltrada em todos os partidos. Eles são pragas daninhas.

Você sempre lança seus trabalhos na rede. Qual é a importância desta atitude?

Cinema é pra ser visto. Não é pra ficar em casa, trancado numa prateleira. Ele é pra circular. É um produto de livre circulação. Então, eu boto na internet. Quem quiser, vai lá, assiste, copia, divulga pro seus amigos. E hoje isso está funcionando muito. Todos os meus filmes estão na internet. E as pessoas me respeitam muito mais por isso. Porque eu não estou muito preocupado em ganhar dinheiro. Eu estou preocupado em discutir ideias. É uma forma de você informar mais as pessoas. Os próprios jovens cineastas, assistem, discutem, tomam como exemplo. E isso também acaba criando redes. Eu fico muito feliz porque tem dado certo.

E qual é a importância de abordar temas políticos? Você acha que faltam cineastas com esta abordagem?

Tudo na vida é político. Até as pessoas que acham que não estão fazendo política estão fazendo política. Então, a política que eu faço é a política sincera. Outros preferem empurrar a realidade pra baixo do tapete. Eu fico muito feliz por estar fazendo filmes assumidamente políticos e que discutem ideias. Eu acho que existem muitos documentaristas alternativos que colocam no Youtube, na internet. Talvez por não terem vindo do grande mundo do cinema, eles não sejam tão conhecidos como eu. Mas eles existem. Existem e fazem trabalhos respeitáveis.

Qual é a dificuldade de fazer documentário no Brasil?

O circuito comercial está todo dominado. Hoje eu estava vendo que as grandes companhias de cinema anteciparam a distribuição dos filmes delas porque na época prevista para o lançamento, que é em julho, vai ter Copa do Mundo e ninguém vai ao cinema. E hoje você tem cerca de três mil salas de cinema com três ou quatro filmes norte-americanos ocupando-as. Então, não existe muito espaço para o filme brasileiro. Eles são condenados a passar no máximo em uma sessão depois do almoço, num cineminha capenga. Eu boto na internet e quem quiser assiste. As pessoas fazem sessões dos filmes gratuitas e as salas lotam, as salas enchem. As pessoas querem discutir, me convidam, fazem questão que eu vá. Como se fosse um lançamento comercial, é verdade. E é um lançamento de verdade. Então, eu acho que eu não tenho problema. Eu acho que é lamentável que o Ministério da Cultura não tenha nenhum tipo de política pra esse tipo de cinema. A Ancine hoje só se preocupa com frivolidades, com filmes do chamado entretenimento. Eles ficam felizes quando o Brasil, por exemplo, durante um ano, faz 15 milhões de espectadores. Só que 15 milhões de espectadores, num País de 200 milhões de habitantes, não é nada. Quer dizer, a grande maioria da população brasileira não vai às salas de cinema. E os meus filmes circulam em todo território nacional, em todos os lugares, para todos os tipos de público. Então, eles que são os alienados. E não é só o documentário. O cinema brasileiro como um todo não recebe nenhuma atenção. Como é que um País de 200 milhões de habitantes se contenta que 4 ou 5 filmes por ano façam sucesso? O Brasil tem público para fazer 200 filmes por ano. E nos cinemas, são 4 ou 5 que fazem sucesso. Num País de 200 milhões, quando um filme faz 1 milhão de espectadores, que é menos de 0,5% da população brasileira, as pessoas comemoram. Isso está tudo errado. No Youtube, O Veneno II fez 20 mil espectadores em duas semanas. Fora as milhares de cópias que eu fiz, produzidas, projetadas. Então, eu me sinto vitorioso com essa distribuição alternativa. Eu faço filmes baratos, tenho uma equipe solidária e funciona legal. Dificuldade tem esses caras que fazem filmes caros pra mercado.

FONTE: http://www.carosamigos.com.br/index.php/cultura/noticias/4121-o-veneno-esta-na-mesa-ii-e-as-alternativas-ao-atual-modelo-agrario

“Nunca antes na história deste país se atacou tanto áreas protegidas como agora”

ecoturismo-sustentabilidade.com

“No Congresso Nacional há propostas que, se forem aprovadas, podem afetar mais 2 milhões de hectares só na região amazônica”, adverte o biólogo Enrico Bernard, da UFPE

 

Do IHU Online

“Durante um longo período, de 1981 até recentemente, o governo brasileiro respeitava os limites das unidades de conservação nacionais. Agora, em função de uma visão extremamente desenvolvimentista, essas áreas protegidas passaram a ser vistas como um empecilho, como um estorvo, e a solução é: se está atrapalhando, desfaz”. A crítica é de Enrico Bernard, professor da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e um dos autores da pesquisa Redução, Declassificação e Reclassificação de Unidades de Conservação no Brasil, que aponta um resultado “alarmante” em relação à perda de unidades de conservação no país. De acordo com o pesquisador, é espantoso verificar que, entre a década de 1980 e os anos 2000, houve pontos isolados de redução das unidades de conservação. Entretanto, as ações realizadas nos últimos anos são responsáveis por quase toda a perda de 5,2 milhões de hectares das unidades.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Bernard explica que dez fatores, entre os quais o agronegócio, o turismo, a especulação imobiliária, a construção de hidrelétricas e a geração de energia, são responsáveis pelo diagnóstico apresentado.

Segundo ele, depois da publicação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC, no ano 2000, várias unidades de conservação foram reclassificadas, mas a situação piorou oito anos depois. “A situação, no entanto, mudou de figura a partir de 2008, quando observamos um grande ciclo novo de alteração de limites, de redução e de declassificação das áreas. Esse pico de 2008 não é à toa. Em 2007, a Empresa de Pesquisas Energéticas – EPE, ligada ao Ministério de Minas e Energia, publicou um documento que se chama Matriz Energética 2030, no qual diz claramente que, para atender à demanda energética do Brasil até 2030, todos os grandes rios da Amazônia terão de ser barrados. No ano seguinte, em 2008, começamos a ver eventos de alteração de limites das unidades de conservação da Amazônia. Então, o que motivou essa alteração a partir de 2008 está muito relacionado com a geração e transmissão de eletricidade”. 

O pesquisador frisa que mais de 70% da área perdida estava localizada na Região Amazônica, onde se concentram as maiores unidades de conservação. “Algumas unidades estaduais simplesmente desapareceram. Rondônia é um estado que tem um problema sério, porque algumas unidades de conservação de Rondônia primeiro foram reduzidas e depois simplesmente desapareceram”. E dispara: “O que o Brasil está fazendo é um tiro no pé, porque o país depende muito da geração hidrelétrica, e vários dos rios que abastecem essas hidrelétricas passam por dentro ou têm suas nascentes nas unidades de conservação. Então, acabar com os parques e reservas pode comprometer até a geração de eletricidade do Brasil”.

Enrico Bernard é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e doutor em Biologia pela York University, Canadá. É responsável pelo Laboratório de Ciência Aplicada à Conservação da Biodiversidade e professor de Biologia da Conservação no Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

Para ler a entrevista completa basta clicar Aqui!

The Guardian faz matéria sobre ataques de Kátia Abreu, a “rainha da motosserra” a ambientalistas no Brasil

“Rainha da motosserra” brasileira ataca ambientalistas

Jonathan Watts* 

katia-abreu1Senadora Kátia Abreu (PMDB/Tocantins), adversária aberta dos ambientalistas. Foto: Agência Senado

Fora da estufa política de Brasília, provavelmente, há poucos que conhecem o nome do chefe do poderoso lobby agrícola do Brasil, no entanto, a mulher em questão, Kátia Abreu, está rapidamente se tornando a política brasileira mais interessante, importante – e perigosa.

A senadora e fazendeira do Tocantins foi uma força influente no enfraquecimento do Código Florestal do Brasil, responsabilizado por muitos pelo recente aumento do desmatamento da Amazônia. Seu apoio – no parlamento e em uma ácida coluna de jornal – por mais estradas através da Amazônia, controle do Congresso sobre demarcação de reservas indígenas, monoculturas mais eficientes e “sementes exterminadoras” geneticamente modificadas lhe rendeu a ira dos ambientalistas, que a chamavam de “senhorita desmatamento”, “rainha da motosserra” e “Face do mal”.

Abreu, no entanto, se mantém desafiadora, e diz que se prepara para um dia disputar a presidência e quer ajudar o Brasil a superar os EUA como o maior produtor de alimentos do mundo. “Concorrer à presidência não é um plano, é destino. Estou me preparando para isso, caso esse seja o meu destino”, disse ela em uma entrevista concedida em seu escritório em Brasília. “A crítica dos ambientalistas radicais é a melhor forma de endosso. Isso me dá satisfação. Isso mostra que estou no caminho certo e fazendo o papel certo”.

Formada em psicologia, Abreu assumiu a fazenda da família depois que seu marido morreu em 1987, e se tornou a mais ferrenha defensora do agronegócio no Brasil. Ela dirige a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e lidera seu lobby político, que reivindica ter ao seu lado mais de 250 senadores e membros do Congresso.

Seu principal objetivo é aumentar a produção agrícola, a qual representa 23% da economia do Brasil, fração que continua crescendo. As safras de soja e outros produtos aumentaram nos últimos anos, colocando o país – de acordo com Abreu – a caminho de superar os EUA, mesmo sem novos desmatamentos. “Nós temos todos os elementos essenciais: água em abundância, tecnologia avançada e abundância de terra para a produção. Com essa base, podemos nos tornar o número um sem derrubar árvores”.

Sua agressiva mensagem sobre os agronegócios é sustentada por um nacionalismo do tipo abraçado à bandeira do país e que ataca qualquer grupo acusado de tentar retardar o crescimento da agricultura brasileira. Isto inclui os ambientalistas, grupos indígenas e camponeses sem terra, os quais ela alega – sem provas – trabalham para interesses estrangeiros. “Eu não tenho provas concretas disso, mas tenho uma forte impressão de que este é o caso”, disse ela.

A retórica e o estilo intransigente de Abreu lembram os de Margaret Thatcher. Quando menciono a comparação, a senadora se anima.

“Obrigado! Margaret Thatcher foi uma das maiores mentes defensora das políticas liberais. Ela construiu um conjunto de princípios que mudou o mundo. Só lamento não ter tido a oportunidade de conhecê-la”.

Como Thatcher na década de 1980, Abreu está engajada em uma luta com potencial de mudar o mundo. Enquanto a batalha da Primeira-Ministra britânica contra os mineiros na década de 1980 marcou o início de um período de divisão social e capitalismo descontrolado, o ataque de Abreu ao movimento ambientalista tem enorme potencial de causar desdobramentos para o clima global e a oferta de alimentos. Ela parece estar ganhando. À medida que a economia brasileira tornou-se mais dependente do agronegócio, a influência de seu lobby no parlamento aumentou ao ponto em que ela pode ter um peso decisivo nas vitórias ou derrotas da agenda do governo.

Abreu disse que seu sucesso foi, em parte, resultado das melhorias de estilo de vida que a indústria trouxe para o povo brasileiro. “Quarenta anos atrás, o brasileiro médio gastava 50% de sua renda em alimentos. Agora, a proporção é de cerca de 18%”.

A situação era muito diferente há uma década, quando a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, introduziu uma série de medidas que reduziram o desmatamento, e prometeu mais território para grupos indígenas e camponeses sem terra.

Abreu disse que agora a mesa virou. “Por muitos anos, o ambientalismo chegou a um ponto extremo e nós, no setor do agronegócio, fomos tratados como criminosos”, disse, mas agora “nosso setor do agronegócio pode influenciar a escolha dos reis e rainhas no Brasil. No passado, só exercíamos influência econômica. Agora temos também o poder político”.

Apoio à Dilma

Apesar de estarem ostensivamente em lados opostos da divisão ideológica, Abreu disse que trabalharia com Rousseff por um preço: “Eu só quero que ela esteja disposta a entender a nossa situação, para ter uma ideia dos problemas que o setor agrícola enfrenta e ajudar a resolver esses problemas, para que possamos continuar crescendo e para que o Brasil possa chegar ao número um na produção de alimentos”.Na eleição presidencial em outubro, Abreu disse que apoiaria a atual presidente, Dilma Rousseff, que ela descreveu como “mais interessada em agricultura” do que seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

É provável que isso signifique uma maior erosão dos direitos indígenas, leis ambientais mais fracas e menos restrições sobre sementes geneticamente modificadas — todos objetivos pelos quais o lobby de Abreu luta no Congresso.

“Não podemos descansar sobre os louros alcançados. Há muitas coisas freando o progresso: a questão ambiental, a questão indígena e outras. Mas mesmo assim continuamos obtendo altos índices de produtividade. Imagine o quão alto eles poderiam chegar sem esses obstáculos”, disse Abreu.

*Esse artigo é publicado em parceria com a Guardian Environment Network, da qual ((o))eco faz parte. A versão original (em inglês) foi publicada no site do Guardian. Tradução de Eduardo Pegurier

FONTE: http://www.oeco.org.br/guardian-environment-network/28294-rainha-da-motosserra-brasileira-ataca-ambientalistas

Notas sobre o Imposto Territorial Rural

Por Gerson Teixeira

 

Membros da bancada ruralista estão apreensivos com o crescimento que vem sendo observado na arrecadação do ITR – Imposto Territorial Rural. Já convocaram reunião de Audiência Pública na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados para o debate do tema e a definição de estratégias a respeito. Aprovada no dia 26 de março, a reunião contará com as participações da Receita Federal do Brasil – RFB; Confederação Nacional de Municípios – CNM; Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA; Associação Brasileira dos Produtores de Algodão – ABRAPA; e Associação Brasileira dos produtores de Soja – APROSOJA BRASIL.

O ‘sinal de alerta’ foi dado pela arrecadação verificada em 2013 que alcançou o valor de R$ 848 milhões, resultado 225% superior ao valor arrecadado no exercício de 2006 (preços correntes).

É de amplo conhecimento que desde sempre a tributação sobre a propriedade fundiária rural no Brasil foi desprezível, mantendo-se, na última década, em valor máximo anual em torno de R$ 300 milhões.

Ainda que distante de traduzir o seu potencial fiscal, a receita proporcionada pelo ITR em 2013 correspondeu a 0.2% do Valor Bruto da Produção Agropecuária, resultado que de todo o modo equivaleu a um salto de 100% em relação à mesma razão no ano de 2006.  A Tabela a seguir apresenta a evolução da arrecadação do ITR, de 2006 a 2013, em valores correntes.

 

Ano Valor Arrecadado- R$ 1 milhão
2006 261,9
2007 379,2
2008 469,8
2009 474,5
2010 526,4
2011 602,7
2012 677,4
2013 847,8

Fonte: RFB

 O baixo desempenho histórico da arrecadação do ITR tem sido justificado pela sua natureza extrafiscal, vez que, a função tributária propriamente dita do ITR supostamente teria a finalidade de punir o latifúndio improdutivo e os grandes imóveis que, em geral, não cumpram a função social. Em suma, seria um tributo auxiliar aos objetivos do programa de reforma agrária. Contudo, o ITR jamais teve relevância fiscal; tampouco, efeitos virtuosos nos planos ambiental e fundiário.

Na expectativa de fragilizar ainda mais o ITR, os ruralistas, com o apoio da Receita Federal que jamais se interessou pelo tributo, conseguiram a viabilização de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) propondo a transferência aos Municípios, por opção destes, das atividades de fiscalização, lançamento dos créditos tributários, e da cobrança do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural. Como contrapartida os Municípios contariam com a integralidade da receita gerada pelo tributo.

Do processo legislativo correspondente resultou a Emenda Constitucional nº 42, de 2003, transformada no inciso III do § 4º do art. 153 da CF, regulamentado pela Lei nº 11.250, de 2005, e Normas posteriores.

Vale assinalar que, diversamente do processo de municipalização do tributo que perdurou de 1961 a 1964, por força da Emenda Constitucional nª 5, no caso presente foi preservado o caráter federal do ITR, i.e, manteve-se a competência da União na legislação e na administração geral do tributo, neste caso, exceto nas atividades  fiscalização e cobrança remetidas para a esfera municipal por opção das respectivas prefeituras.

O que os ruralistas não previram era que os prefeitos passassem a vislumbrar o ITR como um instrumento para a viabilização de algum espaço fiscal ante um contexto de oposição entre receitas e restrições da LRF, demandas sociais crescentes e necessidade de contrapartidas financeiras dos municípios aos programas federais.

Em decorrência 1.901 celebraram Convênios com a RFB desde 2008 (posição de início de abril de 2014), dos quais, 1.221 no ano de 2009.

Como seria previsível os municípios dos estados do sudeste, sul e depois centro-oeste são os que concentram o maior número de convênios firmados, conforme ilustra a figura abaixo.

 tabela 1

ITR – Número de municípios com convênios firmados com a RFB por UF

 Por fim, cumpre enfatizar que o crescimento da arrecadação do ITR na esfera dos Municípios não justifica a decisão pela ‘desfederalização’ dessas atividades. Com certeza, a RFB poderia produzir resultado fiscal muito superior ao conseguido pelos municípios caso não qualificasse o ITR como um ‘imposto podre’.

Afora esse fato, ao renunciar à centralização plena do ITR a União renunciou a possibilidade do uso simétrico em todo o país de um instrumento potencialmente poderoso de regulação fundiária e ambiental.

Gerson Teixeira é presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA.

Folha da Manhã faz resumo da ópera sobre o Porto do Açu: muita desapropriação e pouca instalação industrial

(Des) governo Cabral criou latifúndio improdutivo que agora é controlado por uma corporação estrangeira

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O Jornal Folha da Manhã publicou hoje (16/02) uma matéria para divulgar a evolução do projeto do Porto do Açu que, aparentemente, vai se dirigir essencialmente para a área do petróleo (Aqui!). Além das costumeiras estimativas otimistas sobre o futuro do empreendimento que hoje é controlado pelo fundo estadunidense EIG (em suma, o porto que era de Eike agora é mesmo um enclave estadunidense), a matéria traz duas informações preciosas:

1. Da área total desapropriada, menos de 10 quilômetros quadrados estão hoje ocupados. E parte disso refere-se ao estaleiro da OSX, cujo futuro é incerto.

2. O porto vai vingar, mas será menor e terá outro perfil”, diz uma fonte próxima ao projeto.

Essas duas informações colocadas juntas colocam definitivamente em xeque as justificativas feitas pelo (des) governo de Sérgio Cabral para ter desapropriado centenas de famílias de agricultores familiares e pescadores numa área total de 7.500 hectares (o equivalente a 75 quilometros quadrados)! Em suma, em nome de um modelo ultrapassado de desenvolvimento, o que o (des) governo Cabral está fazendo é criando um imenso latifúndio improdutivo e, ainda por cima, colocando-o de bandeja nas mãos de uma corporação estrangeira.

Como amanhã (16/02) haverá mais uma daquelas audiências organizadas pelo deputado Roberto Henriques para supostamente discutir a situação do Porto do Açu, a qual deverá contar com a presença do (des) secretário Júlio Bueno e da presidente da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (CODIN), bem que alguém poderia perguntas à essas autoridades, por que ainda se continua desapropriando terras no V Distrito de São João da Barra!?

Pesquisadores ingleses comprovam que uso de piretróides afeta tamanho e período de erupção de mamangavas

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O uso de piretróides (uma classe de agrotóxicos que são obtidos a partir do crisântemo) se tornou amplo em todo o mundo. Agora pesquisadores da Royal Holloway University da Inglaterra conseguiram comprovar que o uso de piretróides está afetando o tamanho e o período de erupção das mamangavas,  um tipo de abelha da espécie Bombus  que ocupa um papel importante no processo de polinização, inclusive de  culturas agrícolas (Aqui!).

Segundo esta pesquisa, o uso intenso de piretróides implica numa perda da capacidade de coleta de polén pelas mamangavás, já que indivíduos menores possuem uma capacidade igualmente menor de carregar este material.

Essa comprovação se soma à outra evidência em relação aos chamados agrotóxicos neonicotinóides que estariam causando altas taxas de mortandade de abelhas em geral, no que ficou conhecido como o fenômeno como a dizimação das colméias. O mais preocupante dessa situação é que o Brasil está usando cada vez mais piretróides e também os neonicotinóides, o que poderá ter um efeito devastador sobre abelhas e mamangavas.

Se nada disso for suficiente para acender a preocupação, os piretróides estão presentes na maioria dos inseiticidas caseiras e nos EUA já se tornaram um dos principais veículos de contaminação do ambiente domiciliar. No caso dos piretróides, o problema está relacionado aos seus efeitos sobre o sistema nervoso.

Mas nada disso parece preocupar os latifundiários e seus aliados dentro do governo Dilma, já que a pressão para acelerar a liberação dessas classes de agrotóxicos está cada vez maior, em que pese o fato de que o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos.

Entidades enviam moçao ao Governo contra desmanche da legislação de controle de agrotóxicos

Moção sobre desmanche da legislação sobre agrotóxicos

Está sendo veiculada na imprensa a informação de que a Casa Civil prepara uma medida provisória, a ser publicada até o final deste ano, criando uma comissão técnica que passaria a ser responsável pela análise e registro de novos agrotóxicos.

 

 

Duas propostas foram apresentadas ao governo: uma encaminhada pelas empresas do setor, que sugere a criação da CTNAgro, subordinada à Casa Civil e com 13 membros, e outra encaminhada pela bancada ruralista, que sugere a criação da CTNFito, composta por 16 membros, e que teria até 90 dias da data da entrega de um processo para se posicionar em relação ao novo registro.

Conforme a proposta, a nova comissão teria poderes para decidir sozinha, suprimindo, assim, as competências dos órgãos de saúde e meio ambiente.

A comissão que se pretende criar é inspirada na CTNBio – Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, instituída pela Lei 11.105/2005, e que confiscou as atribuições da Anvisa e do Ibama na avaliação de riscos e de decisão sobre o uso de produtos transgênicos no país. O resultado da criação desse tipo de instância é que até hoje nenhum pedido de liberação comercial de organismo transgênico foi rejeitado, apesar da existência crescente de sérias evidências de riscos.

É preciso lembrar que o expressivo aumento das lavouras transgênicas no Brasil foi um dos grandes responsáveis por levar o Brasil a ocupar, desde 2008, a primeira posição no ranking mundial de consumo de agrotóxicos.

Atualmente, além e ser o campeão mundial no uso de venenos, o Brasil importa e permite a aplicação de produtos proibidos em outros países, sem falar na entrada ilegal de produtos.

O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) tem indicado que, nos últimos anos, cerca de 30% dos alimentos consumidos pelos brasileiros apresentam resíduos de agrotóxicos acima dos limites permitidos ou resíduos e agrotóxicos não registrados no país. Outros cerca de 40% apresentam resíduos dentro dos limites permitidos – o que, na verdade, não significa que o seu consumo seja seguro, pois o estabelecimento desses limites é fortemente controverso no meio científico.

Agravando ainda mais esse quadro, recentemente, a regulação dos agrotóxicos sofreu mais um grande retrocesso com a aprovação do Projeto de Lei de Conversão (PLV 25/2013) da Medida Provisória 619/2013, cujo artigo 53 deu ao Ministério da Agricultura o poder de anuir temporariamente, à revelia da Anvisa e do Ibama, sobre a importação, produção, distribuição, comercialização e uso de agrotóxicos não registrados no país em caso de declaração, pelo próprio MAPA, de emergência fitossanitária ou zoossanitária.

A medida tinha como objetivo permitir a utilização de venenos à base de benzoato de emamectina para o controle da lagartaHelicoverpa armigera, cuja população explodiu, segundo avaliação do próprio MAPA, como consequência da difusão das lavouras transgênicas Bt.

Diante desse quadro, afirmamos que não é possível aceitar que esse desmanche da legislação sobre agrotóxicos venha do mesmo governo que acaba de assumir compromisso com a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e que teria como uma de suas mais abrangentes tarefas exatamente lutar pela redução do uso de agrotóxicos no Brasil.

Sendo assim, repudiamos as iniciativas em negociação na Casa Civil e demandamos umaclaraposição do governo sobre o que se espera do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo) e do seu plano de redução do uso de agrotóxicos.

Brasília, 6 de dezembro de 2013.

Assinam esta moção as seguintes instituições membro da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO):

ABA Associação Brasileira de Agroecologia
ANA Articulação Nacional de Agroecologia
AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia
BrasilBio Associação Brasileira de Orgânicos
CAA-NM Centro de Agricultura Alternativa Norte de Minas
CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
CTAO – Câmara Temática de Agricultura Orgânica
MIQCB – Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu
MMC Nacional – Movimento de Mulheres Camponesas
MPA – Movimento de Pequenos Agricultores
MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
RCSXX – Rede de Comercialização Solidária Xique Xique
Rede Ater Nordeste
Rede Cerrado
Rede Ecovida de Agroecologia
Unicafes – União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária