Ao afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada enquanto a PF apura fatos que alcançam sua relação com Vorcaro, ministro do STF aprofunda um delicado problema de conflito de interesses e credibilidade institucional
O afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, acrescentou um ingrediente particularmente explosivo ao caso do Banco Master. A questão não está apenas na excepcionalidade de um ministro do STF afastar dois integrantes da cúpula da Polícia Federal, mas no fato de que o próprio André Mendonça aparece no universo de informações levantadas pela instituição que agora tem seus dirigentes afastados.
André Mendonça sustenta que relatórios produzidos pela PF envolveram procedimentos ilegais de inteligência e que ele próprio teria sido alvo de monitoramento indevido. Essa alegação precisa evidentemente ser apurada. O problema institucional surge porque o ministro que se considera atingido pelos procedimentos é também aquele que determinou uma das medidas mais severas possíveis contra a direção da instituição responsável por produzi-los. Mesmo que André Mendonça esteja juridicamente correto sobre eventuais ilegalidades cometidas pela PF, permanece uma pergunta difícil de afastar: seria adequado que ele próprio decidisse sobre as consequências para os responsáveis por uma estrutura investigativa que produziu informações a seu respeito?
A situação torna-se ainda mais delicada porque André Mendonça confirmou ter recebido o banqueiro Vorcaro em março de 2025, embora sustente que o encontro tenha ocorrido uma única vez, em contexto institucional, e que sua atuação posterior no STF tenha inclusive contrariado interesses do banqueiro. O encontro, por si só, não demonstra qualquer irregularidade. Entretanto, sua existência torna especialmente necessária a preservação de uma distância inequívoca entre André Mendonça e decisões que possam interferir em investigações capazes de alcançar suas próprias relações com Vorcaro.
Existe ainda outra contradição. Quando informações obtidas nas investigações do caso Master alcançaram outros integrantes do STF, André Mendonça defendeu o aprofundamento das apurações e posteriormente retirou o sigilo de elementos que expunham relações entre Alexandre de Moraes e Vorcaro. Agora que informações produzidas pela PF atingem o próprio André Mendonça, sua reação foi questionar a legalidade dos procedimentos e afastar preventivamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência da instituição. As situações podem ter diferenças jurídicas relevantes, mas a assimetria é suficientemente evidente para exigir uma explicação pública particularmente robusta.
Não se trata, neste momento, de acusar André Mendonça de prevaricação ou de qualquer outro crime. As informações disponíveis não autorizam semelhante conclusão. O problema é anterior e talvez institucionalmente mais profundo: a aparência de que uma autoridade possa estar exercendo poderes jurisdicionais em uma controvérsia na qual possui interesse pessoal direto. Em um Estado de Direito, não basta que uma decisão seja juridicamente fundamentada; é igualmente necessário preservar condições capazes de afastar dúvidas razoáveis sobre a imparcialidade de quem decide.
O afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada também cria um precedente preocupante para a autonomia operacional da Polícia Federal. Se dirigentes policiais podem ser removidos por decisão de uma autoridade que aparece nas próprias informações produzidas pela instituição, investigadores encarregados de apurar fatos envolvendo integrantes dos poderes superiores passam a trabalhar sob uma ameaça objetiva: suas investigações poderão produzir consequências não apenas para os investigados, mas para os próprios investigadores.
É justamente por isso que a crise do Banco Master deixou há muito tempo de ser apenas uma investigação sobre Vorcaro e seus negócios. Ela passou a colocar à prova as relações entre Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal e demais instituições responsáveis pelo sistema de Justiça. Quanto mais as investigações se aproximam de autoridades encarregadas de supervisioná-las, maior deveria ser o cuidado com impedimentos, controles colegiados e transparência.
André Mendonça pode, ao final, estar correto ao sustentar que houve abusos na produção dos relatórios da Polícia Federal. Mas essa conclusão será muito mais convincente se for estabelecida por autoridades que não sejam simultaneamente julgadoras e personagens dos fatos examinados. Ao afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada enquanto ele próprio está inserido no universo das apurações relacionadas ao Banco Master, André Mendonça criou uma contradição que nenhuma decisão judicial consegue simplesmente apagar.
E talvez seja essa a pergunta que permanecerá sobre o episódio: quando uma investigação alcança quem possui poder para controlar os investigadores, quem deve decidir sobre os limites da investigação? A resposta institucionalmente saudável certamente não pode depender apenas da autoridade de quem está sendo investigado.
