Em “Virginia Aparicio: Ciencia pública, persecución del INTA y un mensaje aleccionador”, publicado por Naturaleza.ar em 20 de setembro de 2026, Fernando Cabaleiro apresenta o caso da pesquisadora do INTA e do CONICET como parte de uma história de pressões e perseguições contra cientistas cujas pesquisas produzem evidências incômodas para os interesses do agronegócio. Seu argumento central é que a punição de uma pesquisadora não atinge apenas sua carreira: ameaça também a continuidade de linhas de pesquisa e o direito das comunidades afetadas de conhecer os resultados.
Aparicio dedicou cerca de 25 anos a estudar o destino dos plaguicidas no ambiente: sua persistência e degradação, os deslocamentos pelo solo, pela água e pelo ar, e sua presença nos organismos. Cabaleiro destaca a importância desse trabalho para os povos fumigados, cujas denúncias sobre contaminação, sintomas e exposição precisavam ser acompanhadas por evidências capazes de ser examinadas por órgãos públicos e tribunais.
O caso de Pergamino mostra como essa produção científica pode ter consequências concretas. Segundo o artigo, Aparicio atuou como perita numa investigação sobre contaminação ambiental relacionada à aplicação de agrotóxicos. As análises encontraram diversos princípios ativos na água consumida pela população. A metodologia foi examinada no processo judicial, e o tribunal a considerou cientificamente respaldada. Para Cabaleiro, esse trabalho ajudou a aproximar o conhecimento produzido em laboratório das demandas das comunidades e da busca por justiça.
O autor relaciona a situação de Aparicio à de Andrés Carrasco, pesquisador do CONICET e professor da Universidade de Buenos Aires. Depois de divulgar, em 2009, resultados de seus estudos sobre os efeitos do glifosato no desenvolvimento embrionário, Carrasco enfrentou questionamentos, pressões e tentativas de isolamento. Cabaleiro relata que o próprio pesquisador interpretava a negativa de sua promoção a pesquisador superior como parte de um processo de ostracismo ligado à sua decisão de investigar e comunicar resultados que questionavam a segurança de um herbicida amplamente utilizado.
O texto também percorre casos internacionais. Árpád Pusztai, pesquisador do Rowett Research Institute, foi suspenso dois dias depois de comunicar resultados preliminares de experimentos com batatas geneticamente modificadas. David Quist e Ignacio Chapela, autores de um estudo sobre a presença de sequências transgênicas em variedades tradicionais de milho de Oaxaca, viram seu trabalho cercado por controvérsias científicas e institucionais. Gilles-Éric Séralini enfrentou críticas metodológicas e a retratação de um estudo sobre milho transgênico e Roundup. Tyrone Hayes, que pesquisou os efeitos da atrazina em anfíbios, denunciou obstáculos à divulgação de resultados e ações para abalar sua credibilidade. Shiv Chopra, cientista regulador canadense, sofreu sanções e foi demitido após questionar a segurança de produtos destinados à cadeia alimentar.
Cabaleiro aproxima ainda o caso da geógrafa Larissa Mies Bombardi, pprofessora da USP que estudou o uso de agrotóxicos no país e suas relações comerciais com a União Europeia. Depois de publicar seu atlas, Bombardi recebeu intimidações profissionais e pessoais, campanhas de desqualificação e ameaças de morte. A pressão a levou a deixar o Brasil e continuar sua atividade científica na Europa.
As situações descritas não são iguais, e o próprio artigo reconhece que cada uma deve ser analisada de acordo com as particularidades da pesquisa e das disputas envolvidas. O traço comum que Cabaleiro identifica é o risco de a controvérsia deixar de ser enfrentada por meio de crítica, revisão, novas medições e acesso aos dados, e passar a atingir as condições de trabalho, a reputação, a carreira e a vida pessoal de quem pesquisa.
É nesse sentido que a situação de Aparicio transmite, segundo Cabaleiro, uma mensagem que ultrapassa seu caso individual. Quando uma cientista que produziu conhecimento relevante para comunidades expostas enfrenta um processo que pode resultar em sua exoneração, outros pesquisadores podem entender que certas perguntas põem em risco sua própria trajetória. Defender Aparicio significa, portanto, defender a liberdade de investigar e comunicar resultados, a independência da ciência pública e o direito dos povos fumigados de contar com conhecimento científico sobre aquilo que afeta suas vidas.
