Crianças reimaginam o território: projeto de extensão do LEEA une pesquisa e arte no Residencial João Batista

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No último sábado, 14 de dezembro, o pátio do Residencial João Batista, antiga “Inferno Verde”, tornou-se um espaço de criatividade e troca, reunindo crianças do local e das áreas vizinhas para uma atividade inovadora de pesquisa e expressão artística. A ação, realizada pelo projeto de extensão “Políticas Públicas e Espera: Ações para a Garantia e Preservação de Direitos em Programas Habitacionais”, é coordenado pela professora Teresa Peixoto Faria/SEUR-Oficina CEU do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

A atividade inspirou-se nos resultados da exposição “Meu Bairro é Bonito”, exposição de fotografias realizadas pelas crianças, ocorrida em janeiro de 2024, que revelou o talento narrativo e a capacidade de observação das crianças e apego ao lugar onde residem.

Com base nessas descobertas, o projeto propôs utilizar o desenho como ferramenta central de pesquisa de inspiração etnográfica, criando um espaço onde os pequenos participantes pudessem expressar suas percepções a respeito das mudanças estruturais que ocorreram no território e suas experiências de maneira criativa.

Inicialmente, foi feita a leitura do livro didático Meu Bairro é Assim, de César Obeid, que aborda de forma lúdica e reflexiva a diversidade e as características dos bairros. A partir dessa leitura, as crianças foram incentivadas a desenhar sobre o próprio bairro, explorando sua percepção e criatividade, assim a habitar a  imaginação. Atividade que está facilitando diálogos sobre pertencimento e sociabilidade através do estímulo à criatividade e ao protagonismo infantil.

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As mudanças territoriais vivenciadas pelas crianças do Residencial João Batista, foram expressas de maneira única através de seus desenhos. Essas produções revelaram percepções profundas sobre a transição para o novo arranjo residencial, destacando as adaptações necessárias à nova configuração de prédios e apartamentos, sobretudo, o habitar. As narrativas visuais das crianças capturam tanto a memória afetiva do espaço, quanto os desafios e possibilidades do cotidiano no residencial, oferecendo um olhar sensível sobre como a transformação do território impactou suas vidas e relações sociais.

A ação permitiu compreender a dinâmica urbana e social do bairro a partir das múltiplas perspectivas infantis, um olhar muitas vezes negligenciado em estudos tradicionais. Para o grupo de pesquisa, a atividade amplia a compreensão das relações sociais e do espaço urbano, oferecendo contribuições únicas para o debate sobre políticas públicas habitacionais e o direito à cidade. À medida que o livro tratava de questões como saneamento básico, espaços de lazer, características estéticas e mobilidade urbana dos bairros, surgiram relatos espontâneos de insatisfação. Muitas crianças reclamaram da falta de limpeza adequada ao pátio, das escadas dos prédios e da precariedade na conservação das calçadas. Esses apontamentos evidenciaram a relação direta entre o cotidiano delas e o direito à cidade, destacando como a ausência desses recursos básicos limita a qualidade de vida delas e reforça desigualdades.

Realizada durante as férias escolares, a atividade promoveu não apenas um momento de lazer e criatividade, mas também uma oportunidade de escuta e atenção  para as crianças do Residencial João Batista que ao compartilhar suas visões por meio da arte, ajudaram a construir um retrato coletivo e sensível da vida no território. Vale ressaltar a importância de espaços de socialização infantil, onde as crianças se tornam seres brincantes e criativos. Durante as trocas com as crianças, muitas relataram que seu espaço favorito no Residencial João Batista é o parquinho com o campo de areia, onde elas possam brincar e estar entre pares.

Além disso, em celebração às festas de fim de ano, houve a distribuição de sacolinhas de doces, marcando o momento com carinho e alegria. Também foi promovida uma gincana, atividade sugerida pelas próprias crianças, fortalecendo o espírito de cooperação e diversão entre todos.

Assim, o projeto reafirma o compromisso do LEEA e da Uenf com a pesquisa aplicada e a extensão universitária, contribuindo para a valorização das vivências locais e para a elaboração de políticas públicas mais inclusivas e sensíveis às realidades do território.

Projeto da Uenf usa desenhos feitos por crianças para refletir sobre dinâmicas territoriais em Campos dos Goytacazes

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A proposta de utilizar o desenho como ferramenta central para a pesquisa etnográfica surgiu a partir dos resultados da exposição “Meu Bairro é Bonito”, que evidenciaram o potencial observador e narrativo das crianças do território em que se localiza o residencial João Batista. O projeto irá propor através de reflexões sobre as dinâmicas territoriais a confecção de desenhos pelas crianças, permitindo o surgimento de novas formas narrativas capazes de evocar graficamente ideias, encontros, diálogos, observações e percepções sobre a vida social das crianças e do contexto em que vivem.

projeto desenho

A experiência terá início no pátio do residencial, com exercícios que visam a troca entre pesquisadores e o universo pesquisado, buscando compreender a dinâmica urbana a partir dos múltiplos pontos de vista que emergem do olhar infantil.

Durante a atividade, as crianças serão incentivadas a desenhar não apenas com base no que veem no território, mas de forma a expressar suas experiências, emoções e reflexões sobre o bairro e a cidade. Este processo permite que o desenho se torne uma ponte para o diálogo e a troca, permitindo que as crianças partilhem suas percepções de forma criativa e significativa.

A análise do material produzido buscará enfrentar questões centrais para a prática da pesquisa antropológica, tais como, os desafios do trabalho de campo e as múltiplas interpretações que podem surgir das narrativas visuais. Este processo permitirá ampliar a compreensão sobre como as crianças vivenciam e narram seu mundo, oferecendo contribuições únicas para o entendimento das relações sociais e do espaço urbano que habitam.

LEEA 25 anos, uma trajetória coletiva de construção do conhecimento dentro da UENF

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Este ano se completam 25 anos da minha chegada na Universidade Estadual do Norte Fluminense, o que combina com a criação do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) no Centro de Ciências do Homem (CCH).  Esses períodos se combinam porque logo na minha chegada recebi a permissão do então diretor do CCH, o renomado antropólogo peruano Luís Guillermo Lumbreras, para dar os primeiros passos na instalação de um laboratório de pesquisas que nascia com a tarefa de realizar tarefas que transcenderiam ao escopo de uma única disciplina.

Com isso em mente, como primeiro chefe do LEEA, consegui atrair pesquisadores que vinham de áreas distintas como História, Estudos Urbanos, Sociologia e Planejamento. Com base nas primeiras chegadas de professores, o LEEA pode rapidamente se constituir como um espaço diverso e pronto para atacar algumas questões candentes da realidade regional.

Uma das características singulares do LEEA é que seus pesquisadores sempre estiveram envolvidos no tripé ensino-pesquisa-extensão, dando um fôlego renovado não apenas para a consolidação do laboratório, mas do próprio centro em que está alojado. Com isso, pudemos instalar uma forma de construção que sem medo de imodéstia ajudou o CCH a sair da condição de isolamento em que se encontrava dentro da UENF, possibilitando um crescimento consistente e relativamente livre de disputas mais acirradas.

A trajetória atual do LEEA é de seguir na trilha que foi iniciada em 1998, sendo que a minha expectativa é que possamos continuar atuando naquilo que a região de entorno mais precisa que é de formação de recursos humanos com capacidade não apenas de refletir sobre a realidade, mas também de propor mudanças naquilo que se entende precisa ser mudado.

Como toda pessoa que já envolveu na construção de qualquer projeto, vejo hoje que minha presença dentro dele está em vias de se esgotar, já que a minha aposentadoria já se encontra (salvo alguma nova mudanças nas regras) ao alcance do olho. Isso, longe de me desanimar, serve como estímulo para que os próximos anos sejam tão instigantes como foram os 25 anos anteriores.

Longa vida ao LEEA, ao CCH e à UENF enquanto universidade pública, gratuita e de qualidade!