Brasil: Erradicar corais invasores é um desafio

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O coral-sol adere facilmente a rochas, recifes e barcos, o que, combinado com sua capacidade de se regenerar a partir de pequenos fragmentos, facilita sua expansão. Crédito da imagem: Cortesia de Leo Francini para SciDev.Net. 

O nome “coral-sol” é dado a duas espécies invasoras: Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis, nativas do Indo-Pacífico, que foram detectadas pela primeira vez no Brasil na década de 1980 e são extremamente nocivas ao ecossistema marinho do litoral do país devido à sua rápida reprodução.

“Eles formam colônias densas que eliminam a biodiversidade local, alteram os ecossistemas marinhos e sua expansão descontrolada ameaça habitats sensíveis, como os recifes de corais nativos, já enfraquecidos pelo aquecimento das águas, acidificação e poluição.”

Anna Carolina Lobo, líder de Uso Público de Áreas Protegidas do WWF-Brasil

Um artigo recente publicado no periódico científico Marine Pollution Bulletin analisa dados de uma década de manejo adaptativo no arquipélago de Alcatraces, considerado um dos maiores criadouros de aves marinhas da costa brasileira.

Lá, entre 2014 e 2023, quase 1,3 milhão de colônias de corais-sol, pesando mais de 12 toneladas, foram removidas. A maioria pertencia à espécie Tubastraea tagusensis (92 por cento). Ações de controle foram realizadas ao longo de 293 dias de trabalho de campo.

Segundo os pesquisadores, o processo de erradicação produziu um efeito de “cobertura curta”: enquanto uma invasão é controlada ou reduzida em áreas de manejo intensivo, a espécie pode aumentar em áreas que receberam menos atenção durante o mesmo período. Atualmente, a espécie também foi identificada na região Nordeste brasileira.

Sergio Coelho-Souza, pesquisador do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo e principal autor do artigo, explicou ao SciDev.Net que atualmente existem duas técnicas de combate ao coral-sol.

O primeiro, simples e barato, utiliza um martelo e um formão. Mas tem limitações na remoção de colônias menores e no alcance de locais de difícil acesso.

Ao longo de uma década, uma equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade desenvolveu uma segunda técnica: um martelo pneumático capaz de remover um número maior de colônias.

“As principais limitações do martelo são a necessidade de um compressor, que ocupa espaço no recipiente e limita seu alcance operacional, e o alto ruído que ele produz”, explicou o pesquisador.

O estudo sugere um protocolo para integrar monitoramento e controle, priorizando a remoção de colônias isoladas em áreas de baixa abundância para erradicação local e o uso de martelos pneumáticos em áreas de alta abundância, quando possível.

Dispersão ao longo da costa brasileira

Segundo o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, o coral-sol foi registrado pela primeira vez no país na década de 1980, em uma plataforma de petróleo na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro.

Desde então, houve diversos registros em outros locais até que em 2018 as autoridades ambientais brasileiras incluíram o coral-sol como espécie exótica invasora prioritária para a elaboração e implementação de um Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento .

A invasão agora está afetando outras partes do Brasil. Pesquisadores confirmaram que o coral-sol chegou em 2020 ao litoral de Pernambuco , na região nordeste do país, e estava se deslocando em direção a áreas de proteção ambiental.

Em 2022, a espécie foi identificada em uma plataforma de petróleo no mar do Ceará, outro estado da mesma região. No mesmo ano, o bioinvasor foi localizado no litoral de um terceiro estado do Nordeste brasileiro.

Ameaça aos habitats

Anna Carolina Lobo, líder de Uso Público de Áreas Protegidas do WWF-Brasil, que não esteve envolvida no estudo, disse ao SciDev.Net que o coral-sol foi introduzido acidentalmente na costa brasileira, provavelmente por meio de plataformas de petróleo e navios.

“Eles formam colônias densas que eliminam a biodiversidade local , alteram os ecossistemas marinhos e sua expansão descontrolada ameaça habitats sensíveis, como os recifes de corais nativos, já enfraquecidos pelo aquecimento das águas, acidificação e poluição ”, explicou.

Por sua vez, Coelho-Souza disse que o coral-sol altera a estrutura dos tapetes de algas.

“Além de serem produtores primários — autotróficos — que produzem oxigênio, essas esteiras coletam detritos e sedimentos marinhos e hospedam uma alta diversidade de invertebrados que servem de alimento para outros animais, como peixes de recife, que, por sua vez, servem de alimento para peixes maiores”, acrescentou.

E, por ser heterótrofo, ou seja, incapaz de produzir seu próprio alimento por meio da fotossíntese, o coral-sol consome oxigênio e gera dióxido de carbono.

O grande desafio, segundo os pesquisadores, é que o coral-sol se espalha rapidamente, cobrindo e sufocando espécies nativas e recifes inteiros.

“Mesmo pequenos fragmentos de coral podem dar origem a novos indivíduos, dificultando a erradicação completa”, disse Lobo.

Segundo Coelho-Souza, o coral-sol pode produzir até 3.000 larvas em um único evento reprodutivo.

Além disso, ele adere facilmente a rochas, recifes e barcos, facilitando sua dispersão. “A extração manual, que é o método mais utilizado hoje, é trabalhosa, cara e exige treinamento”, diz Lobo.

Segundo o estudo, cada dia de combate ao coral-sol custa cerca de US$ 720. O total entre 2015 e 2023 chega a US$ 160.000.

Enquanto isso, outros métodos de erradicação estão sendo testados. No final do ano passado, pesquisadores brasileiros anunciaram o desenvolvimento de um hidrogel aplicado por drones subaquáticos que mata corais-lua e tem pouco impacto sobre espécies nativas.

Mas até que uma solução definitiva e eficaz seja encontrada, Lobo sugere que a erradicação da espécie dependerá de uma combinação de remoção manual com monitoramento contínuo e combate a novas introduções.


Este artigo foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do  SciDev.Net

A partir de diagnóstico, cientistas exigem mais visibilidade para o oceano

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Mas também fornece benefícios garantidos à segurança alimentar , aos recursos minerais, à biotecnologia e à regulamentação climática.

Estas e outras afirmações se baseiam no Primeiro Diagnóstico Marinho-Costeiro de Brasil sobre Biodiversidade e Serviços Ecosistêmicos , apresentado no final de novembro.

Elaborado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços e organizações da sociedade civil, o documento oferece um panorama completo da biodiversidade marinha-costeira brasileira e seus serviços ecosistêmicos.

Com o diagnóstico, os pesquisadores pretendem organizar as informações que serão dirigidas aos tomadores de decisão , de modo que os aspectos relacionados ao oceano —um único invisível— sejam considerados e convertidos em políticas públicas.

“Só temos um corpo de água. Por isso, o que está ocorrendo na zona marina brasileira tem impactos globais”.

Anna Stewart Ibarra, diretora executiva do Instituto Interamericano para a Investigação da Mudança Global (IAI)

No documento, os pesquisadores sinalizam como a economia e o bem-estar do Brasil dependem direta ou indiretamente dos 5.700 km² de sua costa marina e dos benefícios que proporcionam, entre eles, a segurança energética.

“Não estamos falando de extração de petróleo e gás do fundo do mar, sino de uma matriz energética renovável”, disse ao SciDev.Net o biólogo Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e um dos coordenadores da pesquisa que deu origem ao documento.

Além da energia eólica e solar no mar, o potencial de geração de energia do oceano também inclui a produção das olas e das águas, que ainda é pouco utilizada no país.

“Se degradarmos o oceano investindo em projetos de extração de petróleo e minerais, comprometemo-nos com os benefícios que podemos transportar”, disse Turra.

O pesquisador enfatiza que é necessário compreender as conexões, como as que existem entre o oceano e o clima e a luta contra a fome. “Em 2050, poderemos produzir seis vezes mais alimentos de forma sustentável a partir do oceano”, afirma.

Em geral, a economia da zona marinha-costeira brasileira é estimada em 200 milhões de dólares, o que representa cerca de 20 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

No entanto, segundo os autores da pesquisa, a cifra é subestimada porque os cálculos econômicos ignoram o serviço de regulação das águas, o que faz com que o mar seja essencial para vários setores, entre eles a agroindústria , responsável de 24 por cento ( 530 milhões de dólares) do PIB do país.

As mudanças climáticas , consequência direta das variações nas temperaturas marinhas, podem afetar a produção agrícola. Além disso, o transporte marítimo é responsável por mais de 95 por cento do fluxo de produtos básicos como a soja.

Os 20% do oceano estão relacionados principalmente à exploração mineral e ao turismo, atividade que representa 8,1% do PIB nacional, mas o segundo está ameaçado. “O turismo no Brasil está centrado no sol e na praia, mas 40% por cento das praias brasileiras estão em processo de erosão, reduzindo a quantidade de areia”, informa Turra.

Segundo o estudo, se os cálculos econômicos não considerarem os benefícios do oceano, também considerarão os impactos ambientais e sociais, tais como a perda de biodiversidade e de ecossistemas, a redução de habitats —como dunas, praias e manguezais, responsáveis ​​por 70% das populações de peixes no Brasil -, a contaminação dos organismos marinhos, a sobreexplotação dos recursos, o aumento da pobreza entre quem obtém a subsistência do mar, e a mudança climática, que provoca eventos extremos, como já se percebe no sul do país.

Como regulador do clima, o oceano absorve grande parte do dióxido de carbono emitido para a atmosfera. Como resultado, o excesso de CO2 que provoca o efeito invernal não se concentra na atmosfera.

Para a ecóloga Anna Stewart Ibarra, diretora executiva do Instituto Interamericano para a Investigação da Mudança Global (IAI), organização intergovernamental com sede no Uruguai, o relatório é um documento importante não só para a América Latina, mas também para o mundo.

“Só temos um corpo de água. Por isso, quem está sucedendo na zona marina brasileira tem impactos globais”, diz SciDev.Net . “Os países do Caribe, por exemplo, dependem do mar para o turismo”.

Para Stewart, que não participou do estudo, o oceano pode ser uma unidade para um diálogo global. Segundo ela, existe uma tendência constante para desenvolver uma agenda para apoiar as ações governamentais, e os coordenadores do documento deveriam aprovar o momento para apresentar os dados em fóruns globais.

Um deles é a Conferência da ONU sobre os Oceanos ou a 30ª Conferência da ONU sobre a Mudança Climática (COP-30), que ocorrerá, respectivamente, em junho e novembro de 2025, em Nice (França) e Belém ( Brasil).

O biólogo Luiz Drude, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), que também participou do estudo, concorda com os autores da pesquisa sobre a falta de leis e políticas reguladoras para el mar.

O pesquisador disse ao SciDev.Net que o  Brasil não conta com estatísticas de pesca desde 2011, e lembrou que as exportações de pesca para a Comunidade Europeia estão suspensas desde 2018 devido à contaminação. Isso representa uma perda anual de 40 milhões de dólares para a economia brasileira.

Para Drude, o trabalho publicado pela Cátedra UNESCO é fundamental para aumentar o conhecimento sobre o oceano, em relação, por exemplo, com as espécies contaminadas.

“A capacidade de observação do oceano no Brasil é baixa, muito menor que a dos países do Atlântico Norte.  O Atlântico Sul segue sendo um grande desconhecido”, afirmou Lacerda.

Segundo o cientista, é necessário um maior acompanhamento da zona marina brasileira, utilizando um sistema de boias —como o que existe na costa— e barcos oceanográficos, tipo de navio preparado para realizar pesquisas e estudos em águas costeiras e marinas.

“Como proteger algo que não sabe como funciona, com um nível de conhecimento baixo?”, questionou Luiz Drude de Lacerda.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado [Aqui!].