Briga à toa pela LOA

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Por Douglas Barreto da Mata

Um extraterrestre que pousasse em Campos dos Goytacazes nos dias que antecederam a votação da Lei Orçamentária Anual de 2024, a LOA, se questionaria como um Poder Republicano, neste caso personificado na pessoa do seu Presidente da Mesa Diretora, conseguiu levar às últimas consequências a obstrução, não da votação da referida lei, mas sim do seu devido processo legislativo, em descumprimento daquilo que é o Manual a Lei Maior entre seus pares, ou seja, o Regimento Interno da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes.

Se fosse convidado a ficar mais um tempo na planície goytacá, para assistir o desfecho desse conflito, com certeza o extraterrestre voltaria aos seus dizendo:

“Olha, façam o que fizerem, se forem à Campos dos Goytacazes, nunca confraternizem com uma parcela de vereadores da Câmara de Vereadores, liderados pelo seu Presidente…Não há possibilidade de interlocução eficaz ali.”

Novamente ressalto que tais constatações independem de preferência por este ou aquele grupo político, embora não seja crime em democracias ter opções políticas, e isso não invalida nossas opiniões.

Essa baboseira de neutralidade ou isenção é só anestésico vendido pela mídia comercial para que faça defesa de vários interesses, posando de vestal da moralidade.

Não cola mais.

Bem, voltando ao assunto principal, o certo é que, sejam lá quais forem os motivos que o grupo que rasgou o Regimento Interno da Câmara de Vereadores temos certeza de uma coisa:

  • Não foi para inserir emendas que ampliassem direitos deste ou daquele segmento da sociedade, até porque, esse movimento (ou “briga política” – e legítima, diga-se) se daria dentro do processo legislativo “abortado” pela minoria liderada pelo Presidente da Casa.

Se ele ainda vai ter que responder pelos atos perante a Justiça, só a Justiça dirá.

Mas politicamente ficou explícito que nunca foi pelo bem estar da cidade e dos cidadãos e cidadãs.

Não é à toa que a Casa de Leis municipais goza de tão pouco prestígio junto à comunidade, fato refletido em várias pesquisas de opinião.

Sim, sabemos que os parlamentos nunca são muito bem vistos, e isso, em parte, é um efeito da injusta criminalização da política, e da hipocrisia de um eleitor que parece querer se isentar da responsabilidade por más escolhas.

Na votação da LOA 2024, infelizmente, é corretíssima a percepção de que o Parlamento municipal abusou do seu mandato e da confiança outorgada pelo eleitor, através da intransigência “inexplicável” de sua atual minoria de 08 vereadores. 

Como os justos pagam pelos pecadores, é possível dizer que a Câmara Municipal, como um todo, saiu bem menor do que entrou nesse dissenso.

A cereja do bolo foi a abstenção dos 08 vereadores que pactuaram a votação, em cláusulas firmadas com a intermediação corretíssima do MPRJ.

Mais ou menos como a noiva que briga para ter um anel de 32 brilhantes pelo noivo, diz que não casará sem o mimo, e no momento do SIM, percebe que há 30 e não 32 brilhantes, como exigiu, diz, para espanto de todos os convidados, padrinhos e familiares na Igreja que se absterá da pergunta do celebrador.

No caso recente da LOA, como dizem os antigos, “briga” foi  “à toa”.

Final bisonho da disputa da LOA 2024 me faz ter saudades de Ruço Peixeiro

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No dia 08 de janeiro publiquei neste blog um texto escrito por Douglas da Mata analisando  a situação envolvendo as disputas em torno da Lei Orçamentária de 2024 do município de Campos dos Goytacazes. Nesse texto Douglas da Mata apontou para o que seriam perspectivas nada animadoras para o futuro do presidente da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, o honorável Marquinhos Bacellar.

Pois bem, ontem com a aprovação da LOA 2024 com um placar de 16 votos a favor e 8 abstenções, o que salta aos olhos é a solidão política em que os vereadores da “oposição” deixaram o presidente da Câmara, na medida em que a votação havia sido negociada por ele diretamente com o prefeito Wladimir Garotinho. Assim, ao se absterem de votar algo que foi acordado, os vereadores da “oposição” parecem indicar que o acordo foi feito sem sua permissão.

Por outro lado, ao analisar as concessões feitas pelo prefeito Garotinho para viabilizar a votação da LOA 2024, o que se percebe é que elas abrangem itens que até podem ser importantes, mas que deixam intacta a proposta apresentada pela executivo municipal. Se era para ter esse final, convenhamos que era mais eficiente que se tivesse votado o orçamento ainda em 2023.

Mas como Douglas da Mata apontou o objetivo nunca foi obter um melhor uso da dinheirama que compõe o orçamento municipal, mas desgastar a imagem do prefeito. E está claro que tal objetivo ficou longe de ser alcançado, apesar das encenações burlescas que ocorreram no plenário da Câmara de Vereadores.

Ah, sim. O que eu espero dessa situação é que a parte mais organizada da população possa se mobilizar para eleger uma bancada de vereadores que seja mais útil no sentido de resolver os problemas graves que afetam a vida da cidade. 

Finalmente, depois dessa situação toda senti saudade dos tempos em que o ex-vereador Ruço Peixeiro fazia das suas dentro da Cãmara de Vereadores. Pelo menos ele era autêntico e comprometido com causas que, pelo menos, eram óbvias.

A ditadura legislativa serve a quais interesses?

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Por Douglas Barreto da Mata

A grande beleza dos acordos constitucionais, desde que Locke, dentre outros, decifraram a necessidade e a natureza de pactos sociais dedicados ao regramento da vida política e social das forças e grupos em conflito em cada sociedade, é justamente a busca constante de seu aperfeiçoamento.

Há modelos constitucionais de toda sorte, compará-los, como querem alguns, é sempre temerário, a nosso ver.

Recentemente, a sociedade dos EUA convulsionou em um ataque ao Capitólio, na confirmação da vitória de Joe Biden.

Logo após, como em vários outros anos passados de outros presidentes, a administração Biden se viu engessada pelo risco de “shutdown” (desligamento ou paralisação), causado pela disputa entre republicanos e democratas, que resultou na ausência de peça orçamentária.

Tudo isso prova que nenhum estamento institucional é perfeito.

Por certo, nenhuma Constituição serviria ao Brasil como a sua própria, mas é fato que toda constituição requer reparos constantes, ainda mais quando um país continental mantém sua integridade em uma federação mista, isto é, com pouca autonomia legislativa e tributária aos entes federados e subordinados à União.

É normal que após períodos de exceção, como foi a ditadura de 1964, haja aquilo que se chama de “euforia constitucionalista”, quando todos os anseios e demandas reprimidas pela autocracia vêm à tona, em busca de legitimação de seus interesses na Carta Constitucional.

Esse processo nunca é linear, sabemos, e vez por outra, um ou outro setor consegue mais poder que deveria, ou melhor dizendo, criam dispositivos legais que permitem os abusos de poder.

Nenhum dos atores políticos e até  alguns personagens relevantes deste ou daquele Poder da República deixou de flertar com as tentações autoritárias.

 Todos eles, sem exceção, em algum momento da nossa vida recente pós 1988, buscaram impor algum tipo de coação constitucional para elevar suas atribuições.

Felizmente, com mais ou menos sucesso, foram contidos.

No entanto, há ainda algumas brechas a serem lacradas.

Um observador mais atento diria que o que está acontecendo na cidade de Campos dos Goytacazes, quando o Presidente da Câmara Municipal utilizou (alguns dizem, abusou) de seu poder para impedir a votação da LOA, ameaçando de imobilização do Poder Executivo, e pasmem, o próprio Poder Legislativo, é um fenômeno nacional, que reflete os efeitos da “euforia constitucional”, que agora se transformou em “ressaca” pelo abuso do Poder Legislativo sobre o Poder Executivo.

O desafio a Montesquieu, e a sua ideia de partição equilibrada dos poderes estatais, acabou por instaurar no país uma espécie de sistema presidencialista impróprio, que já foi chamado de coalizão, mas que se reveste hoje em uma adaptação não autorizada pela Constituição, e nem pelo eleitor (o voto, o poder originário), para transformar as casas legislativas e seus presidentes em “primeiros-ministros”, atuando como chefes de governo, e deixando aos poderes executivos as simbólicas cadeiras destinadas aos chefes de estados.

Além de Campos dos Goytacazes, identificamos ainda casos semelhantes em Cascavel/CE (Aqui!),  São Luis/MA (Aqui!) e Belford Roxo/RJ, onde a Justiça, em decisão liminar, restituiu o andamento do processo legislativo.

Os casos das cidades de Belford Roxo e de Campos dos Goytacazes, para ficarmos apenas na nossa esfera geográfica de proximidade, apresentam-se como um desafio descomunal para a vida política das cidades, e porque não dizer, do próprio futuro constitucional das relações entre os Poderes Executivos e Legislativos, e por fim, do Judiciário.

Não é possível, qualquer que seja a filiação política do observador, achar normal que a pessoa a quem caiba a presidência dos poderes legislativos, desde as cidades, passando por estados até a União, possa reter nesta função delegada pelos seus pares legisladores, a total e completa atribuição para pautar leis orçamentárias, sendo que, quando assim desejarem, possam deixar cidades, estados e até a União, sem previsão orçamentária para atendimento das despesas imprescindíveis à vida dos cidadãos e cidadãs.

Tal prerrogativa exclusivíssima, quem vem sendo rotineiramente distorcida, como citamos, buscava dar aos parlamentares uma posição isonômica, o equilíbrio frente ao Poder Executivo, proponente da lei orçamentária, funcionando como mais uma ferramenta dos freios e contrapesos previstos como princípios de nossa Constituição, evitando aquilo que era conhecido, ou seja, a subordinação de parlamentares aos desejos dos chefes dos executivos.

A emenda saiu bem pior que o soneto, em nosso modesto entender.

Em suma: o poder de pautar o processo legislativo orçamentário é um PODER-DEVER, não um elemento discricionário que possa ser usado sem uma vinculação normativa, e pior, sem consequências para ações ou omissões deliberadas para violar a própria natureza precípua da casa parlamentar que é, LEGISLAR.

No entanto, ao que nos parece, como já mencionamos, essa ferramenta se converteu em objeto de abuso, voltada para golpes locais, que por suas vezes, engessam a fluidez constitucional em inflexões paralisantes.

Não cumprir os regimentos internos das casas parlamentares municipais é como capturar e subverter a forma prevista para que as leis sejam criadas.

É matar ou aleijar as leis em sua concepção.

É como tentar o cruzamento genético do burro com um elefante.

Agora, como parece que o caos se instalou, as instituições buscam acertos e ajustes ao que já foi violado.

Claro, sempre com as melhores intenções, mas incapazes de perceberem o verdadeiro sentido da agressão constitucional praticada, abrindo perigoso precedente, ou de resultados juridicamente muito piores que seriam alcançados, caso houvesse a justa reparação pela Justiça da normalidade jurídica, o que, aliás, é função precípua do Poder Judiciário.

Se há irregularidades no processo legislativo, como alegado pelo Presidente da Câmara, e se todos concordam que é no processo político jurídico legislativo que se sanam tais problemas, qual a justificativa para não dar andamento à pauta, votação, debate,  emendas e sanção da LOA?

A busca pelo tal acordo parece como a tentativa de trocar os pneus de um carro que já está com motor fundido.

Emprestamos um trecho da decisão do Egrégio Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, pelo Meritíssima Senhora Juíza da 3ª Vara Cível de Belford Roxo, em sede de Mandado de Segurança (0819303-35.2023.8.19.0008) impetrado pelos vereadores da cidade, em caso semelhante ao de Campos dos Goytacazes:

“(…)

O respeito às regras aplicáveis ao processo legislativo deve ser base para atuação dos parlamentares em todas as esferas de poder. O princípio democrático não pode ser violado, a fim de evitar a exclusão de grupos legítimos junto aos Poderes do Estado.

Importante é a atuação do Poder Judiciário, quando provocado, garantido a observância dos regimentos da casa legislativa e da legitimidade da produção de tais normas, tendo como norte a Constituição Federal. 

Logo, a observância das normas constantes de Regimentos Internos do Poder Legislativo Municipal constitui um importante fator de legitimidade do processo de elaboração das leis. 

As condições de participação de diferentes grupos, inclusive minoritários, devem ser protegidas, em respeito às regras de discussão democraticamente postas, salvaguardando a legalidade que vinculará a todos. 

A vontade política se assenta na garantia do processo discursivo, propiciando inclusão de todos os envolvidos, preservando o direito à participação, a legitimidade e legalidade na elaboração do arcabouço jurídico. 

A desconsideração de normas procedimentais tem o escopo de reforçar a maioria, em detrimento ao Princípio Democrático. (…)

Fica então a questão:

Qual é o nome dado à forma de governo onde as leis são feitas ao arrepio e/ou com uso casuístico das regras, com desrespeito à vontade popular outorgada em mandatos representativos pelo voto?

Sim, isso mesmo: Ditadura.

Disputa da LOA 2024 mostra que é urgente desprivatizar o orçamento de Campos dos Goytacazes

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Com o imbróglio envolvendo a votação da LOA 2024 se encaminhando para os tribunais, uma das questões que os nobres vereadores deveriam, quando a análise finalmente começar,  apreciar com o devido esmero é o grau de privatização em que se encontra o orçamento municipal de Campos dos Goytacazes.

Uma primeira questão que deveria ser abordada é o percentual que se reserva para o pagamento da dívida pública.  Isso seria excelente, na medida em que governos anteriores realizaram ações que elevaram brutalmente o montante da dívida pública. Agora em pleno ano eleitoral, os vereadores campistas poderiam nos prestar um excelente serviço ao expor qual o montante do orçamento municipal que está carimbado para o pagamento dos juros da dívida pública.

Outro aspecto que merece a devida publicização se refere ao montante que se destina para pagar serviços públicos que estão objetivamente terceirizados, começando pela área da saúde, mas alcançando contratos diversos que abarcam áreas desde a educação até a limpeza pública. É que, meus caros leitores, dada a gritaria que se ouve em prol da aceleração da aprovação da LOA 2024, o montante entregue pela viúva campista não é pequeno. O problema é que todos os anos, a discussão do orçamento do próximo ano sempre começa e termina sem que se dê a devida publicidade aos números. Agora, pelo menos, poderemos cobrar mais transparência sobre os valores que serão alocados.

Uma das características principais das políticas neoliberais é a privatização (sob a camuflagem da terceirização) de áreas que deveriam ser de controle absoluto do estado, sem que isso se traduza na prometida economia de recursos ou, tampouco, na melhoria da qualidade dos serviços prestados. O que normalmente acontece é justamente o contrário, com o aumento do custo e a piora da qualidade dos serviços oferecidos a uma população cuja maioria é pobre e alijada de acesso.

Ainda que eu desconfie que a motivação dos vereadores de oposição ao prefeito Wladimir Garotinho possa ser diversa do que estou sugerindo, eles poderiam nos surpreender e brindar a todos nós com informações e dados que permitam uma elevação da qualidade do debate público sobre a estrutura e distribuição do orçamento municipal. 

Mas uma coisa é certa: a situação inédita que cerca o debate da LOA 2024 deveria ser aprovietada para se começar a reestatização do orçamento municipal.  Uma sugestão que pode parecer Démodé seria a adoção do chamado orçamento participativo, na medida em que isto poderia permitir que a própria população possa decidir como deve ser usado o dinheiro público que, por aqui, foi literalmente privatizado.

Enquanto Câmara é palco de disputa farsesca, mudanças climáticas mandam recado

Em um momento em que o plenário da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes é palco de uma disputa com fortes tintas de farsa, a nossa cidade foi palco de mais um evento meteorológico extremo, com pluviômetros indicando que quase 70 milimetros de chuva caíram em menos de uma hora, dando lugar à queda de árvores, alagamentos em áreas de grande circulação e destruição de estruturas físicas.

Como já informei aqui neste espaço, uma tese de dissertação defendida pelo sociólogo André Vasconcellos no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf já mostrou que os grupos que hegemonizam a política campista o fazem a partir de formas tradicionais que ignoram, entre outras coisas, a necessidade de estabelecer políticas públicas voltadas para preparar Campos dos Goytacazes para um processo de adaptação climática que se tornará cada vez mais urgente.

No momento em que se divulga que 2023 foi o ano mais quente desde que foram iniciados registros anuais de temperatura no planeta há 174 anos, uma das certezas é que precisaremos rumar para tornar nossas cidades mais ajustadas a um novo regime climático que será marcado por altas temperaturas, grandes eventos meteorológicos e fortes oscilações na disponibilidade hídrica.

Campos dos Goytacazes é um município onde podemos esperar a manifestação de todos os elementos extremos que caracterizam as mudanças climáticas. No entanto, eu tenho certeza que na LOA de 2024 que motiva a disputa farsesca que ocorre na Câmara de Vereadores não há um mísero centavo para que se inicie o necessário e urgente esforço de adaptação climática que o município precisa iniciar.

Sessão é encerrada na Câmara por motivo de segurança após nova confusão da  LOA Folha1 - Política

Aos que assistem ao espetáculo em meio ao pasmo e à indignação, eu digo que nas próximas eleições municipais há que se cobrar que os passos mais básicos sejam iniciados para iniciar o processo de adaptação climático sejam discutidos.  Sem isso, as batalhas de Pirro que ocorrem entre as forças políticas municipais só servirão para esconder que estamos atrasados em nosso esforço de adaptação climática.  O problema é que com isso, o dia de ontem só será uma mera amostra do que estar por vir.