Lula reduziu desmatamento da Amazônia em 70%; aumento em anos de Bolsonaro é de 73%

O governo do petista pegou uma das maiores taxas da história quando assumiu o primeiro mandato, em janeiro de 2003, mas entregou índice em queda vertiginosa para a sucessora Dilma Rousseff. Já Jair Bolsonaro assumiu o mandato em janeiro de 2019 com uma tendência de alta e, com a paralisação e retrocesso de medidas contra a perda de floresta, os números retrocederam em 15 anos.

bolso fogo

No domingo (16), Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) se enfrentaram em um novo debate na Band, duas semanas antes do segundo turno. Os candidatos trocaram acusações e confundiram a cabeça do telespectador.
 

Lula disse: “Foi no nosso governo o menor desmatamento da Amazônia”.

Bolsonaro rebateu: “No seu governo foi desmatado mais do que o dobro do que o meu”.

Lula respondeu: “Quando eu ganhei as eleições tinha um desmatamento de 27 mil quilômetros. Caiu para quatro mil quilômetros”.

Quem falou a verdade? Vamos aos fatos:

Entre 2002 (21,6 mil km²) e 2011 (6,4 mil km²), mandato de Lula até a posse de Dilma Rousseff (PT), a taxa de desmatamento diminuiu 70,3%. Já entre 2018 (7,5 mil km²) e 2021 (13 mil km²), que inclui os primeiros três anos do governo de Jair Bolsonaro, ocorreu uma alta de 73,3%, segundo os dados oficiais do Prodes, Projeto para o mapeamento oficial das perdas anuais de vegetação nativa na Amazônia Legal, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Entre 2002 (21,6 mil km²) e 2011 (6,4 mil km²), mandato de Lula até a posse de Dilma Rousseff (PT), a taxa de desmatamento diminuiu 70,3%. Já entre 2018 (7,5 mil km²) e 2021 (13 mil km²), os primeiros três anos de Jair Bolsonaro, ocorreu uma alta de 73,3%.

Com relação à área de floresta, Jair Bolsonaro (PL) diz que durante o governo Lula o desmatamento foi “mais do que o dobro”. Ele faz um recorte injusto, já que o candidato do PT governou por oito anos, enquanto ele por 4. Se ambos tivessem taxas de desmate ano a ano iguais, Lula ainda assim teria o dobro de floresta perdidas no total devido à quantidade de tempo no governo.

Neste caso, é importante levar em conta a média do período: foram 8 anos de governo Lula e 15,7 mil km² por ano, em média — no governo de Bolsonaro, foram 3 anos e uma média de 11,3 km² por ano. Ou seja: o índice não é o “dobro” e o candidato do PL também não esclarece que Lula recebeu uma taxa altíssima, o que eleva a média, mas a transforma na menor da história.

O menor desmatamento da Amazônia

O primeiro mandato do governo Lula, que tomou posse em janeiro de 2003, recebeu uma taxa de 25,4 mil km² da gestão anterior. O Brasil vivia taxas altíssimas de desmatamento, sendo que um ano depois, em 2004, o registro continuou subindo: foram 27,8 mil km², número a que se referiu o candidato do PT durante o debate.

Com a chegada de Lula, Marina Silva assumiu como ministra do Meio Ambiente também em janeiro de 2003. Em 3 de julho daquele ano, um decreto instituiu o Grupo Permanente de Trabalho Interministerial (GPTI), que chegou a ser composto por 17 ministérios e esteve sob coordenação da Casa Civil. A equipe elaborou o PPCDam, Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal.

Lançado em 2004, o PPCDAm tinha 3 eixos principais para combate ao desmatamento: ordenamento fundiário e territorial; monitoramento e controle; fomento às atividades produtivas e sustentáveis.
 Em resumo, de forma bastante simplória e até mesmo injusta com a complexidade do programa, ele foi um esforço coletivo e político para a demarcação e a destinação de terras, para aumentar as ferramentas de dados e a fiscalização em campo, além de ter uma política clara contrária aos crimes ambientais.

Clarissa Gandour, colunista do PlenaMata, doutora em Economia pela PUC-Rio e coordenadora de Avaliação de Política Pública para Conservação no Climate Policy Initiative/PUC-Rio, está entre as especialistas que defendem a eficiência do programa. Em texto de novembro de 2021, ela diz: 

“O PPCDAm inaugurou uma nova abordagem para lidar com o desmatamento na Amazônia. Foi pioneiro não apenas em conteúdo, ao introduzir instrumentos inovadores de política pública, mas também em forma, ao considerar o combate ao desmatamento como uma responsabilidade interministerial e não apenas do Ministério do Meio Ambiente”.
 

O PPCDAm inaugurou uma nova abordagem para lidar com o desmatamento na Amazônia. Foi pioneiro não apenas em conteúdo, ao introduzir instrumentos inovadores de política pública.

Clarissa Gandour, colunista do PlenaMata, doutora em Economia pela PUC-Rio e coordenadora de Avaliação de Política Pública para Conservação no Climate Policy Initiative/PUC-Rio

Retomando a primeira fala de Lula: “Foi no nosso governo o menor desmatamento da Amazônia”. O candidato falou a verdade porque preferiu falar “nosso” governo, no lugar de “meu” governo. Apesar de pegar a maior taxa da história, os 27,8 mil km², o governo do PT conseguiu atingir 4,6 mil km² de desmatamento em 2012 (segundo ano de Dilma). Esse é o menor índice da série do Prodes, monitoramento anual do Inpe.
 

Retomada

Jair Bolsonaro (PL) assume o cargo em 2019 já com uma tendência de alta nas taxas de desmatamento. No entanto, segundo analistas e especialistas já entrevistados pelo PlenaMata, uma série de medidas contribuíram para uma alta sequencial ainda maior no índice.

Entre as mais simbólicas, está a chegada de Ricardo Salles como ministro do Meio Ambiente que, em seu primeiro ato no governo, já extinguiu a secretaria à qual o PPCDam estava vinculado.

De 2019 a 2021 – a taxa anual de 2022 do Prodes ainda não foi divulgada, já que geralmente os dados são liberados em novembro – a gestão de Bolsonaro consolidou uma alta de 73% no desmatamento na Amazônia Legal.

Além disso, o principal órgão fiscalizador do governo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama Autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente responsável por fiscalização, licenciamento e outras funções na área ambiental.) foi desmontadotanto em número de autuações, com uma queda de 23% ainda em 2019, quanto em ações efetivas em campo e na aplicação das multas. Bolsonaro chegou a dizer a ruralistas que negociou “uma limpa” no Ibama e no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBioAutarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente responsável por ações ligadas ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação.).

Em 2022, enquanto a campanha eleitoral acontece, a perda de floresta segue batendo recordes. Apesar de a taxa anual de desmatamento ainda não ter sido divulgada, é possível medir a “temperatura” da destruição com os alertas emitidos pelo sistema Deter, também do Inpe. Em setembro, 1.455 km² foram desmatados  o número é 48% maior que o registrado no mesmo período do ano passado e é a pior taxa da série histórica para o mês desde o início do monitoramento.

Os dados anuais também não são positivos: o acumulado de alertas de desmatamento em 2022 já é o maior da série histórica do Deter — foram 8.500 km² desmatados de janeiro a setembro de 2022 na Amazônia. Nesses 9 meses, o país teve mais derrubadas do que durante todos os 12 meses de 2021. Além disso, nesta quarta-feira (19), o Contador de Árvores Derrubadas.

Ferramenta desenvolvida pelo MapBiomas/PlenaMata que estima em tempo real quantas árvores são derrubadas na Amazônia Legal brasileira

do PlenaMata ultrapassou a marca de 500 milhões de árvores derrubadas na Amazônia.

Contador do PlenaMata traz estimativa em tempo real de árvores derrubadas na Amazônia Legal. No fechamento desta reportagem, em 19 de outubro, marcava 502 milhões de árvores derrubadas por desmatamento em 2022.


O PlenaMata leu os planos de governo de Lula (PT) e Bolsonaro (PL). Depois, compartilhou os trechos relacionados à Amazônia, principalmente, mas também conectados à pauta ambiental, com os especialistas Adriana Ramos, Ilona Szabó, Marcio Astrini e Beto Veríssimo. Leia as análises das propostas:


Reportagem do InfoAmazonia para o projeto PlenaMata.

A manobra das inserções de rádio como nova bomba semiótica falhada da campanha de Jair Bolsonaro

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A mais nova tentativa da campanha de Jair Bolsonaro de tumultuar a reta final do segundo turno das eleições presidenciais foi levantar dúvidas sobre a quantidade de inserções de rádio da parte que lhe competia da propaganda eleitoral. Passadas pouco menos de 48 horas da fantástica denúncia (no sentido de que não passa de uma fantasia) do ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, Fábio Farias, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre Moraes, tascou um arquivamento sumário no pedido e ainda levantou a possibilidade de que a manobra possa ser configurado como crime eleitoral.

O que Alexandre Moraes fez foi desarmar mais uma bomba semiótica lançada pela campanha de Jair Bolsonaro para lançar dúvidas sobre a lisura de um pleito no qual a possibilidade de derrota está crescendo no horizonte.  É a famosa jogada de pôquer em que a pessoa com a mão fraca aumenta o tamanho da aposta na esperança de que os oponentes peçam mesa.

O problema é que a estas alturas do campeonato, a campanha do ex-presidente Lula não está precisando nem se mexer, tamanha é a enrascada em que Jair Bolsonaro foi colocado primeiro por sua própria boca (o caso das meninas venezuelanas), depois pelas revelações em torno dos planos de Paulo Guedes de desindexar salário-mínimo, aposentadorias e pensões da inflação passada, e depois o desastre causado pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson que deu mais de 50 tiros e lançou três granadas em uma equipe da Polícia Federal que estava indo prendê-lo.

O problema aqui é verificar até onde Jair Bolsonaro irá querer aumentar o tamanho da sua aposta, já que as suas expectativas de vencer as eleições de forma limpa estão se esvaindo, inclusive em São Paulo que era visto como um estado que poderia ajudá-lo a virar a maré dos votos. De toda forma, desconfio que até domingo o que se verá é uma encenação em que o cachorro fará cara de Pitbull, mas poderá dar uma Yorkshire se a coisa apertar.  De toda forma, todo cuidado será pouco, pois nunca se sabe o que um presidente, mesmo sendo ele Jair Bolsonaro, desesperado poderá tentar fazer.

 

Cantor e “Pastor celebridade” faz auto retratação fake para atacar Lula e o TSE nas redes sociais

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O cantor gospel e “Pastor Celebridade André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha (MG), fez circular um vídeo de uma suposta  auto retratação que seria resultado de uma determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O único problema é que o TSE não determinou isso

Na tarde de ontem o cantor gospel e “Pastor Celebridade André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha (MG), fez circular um vídeo de uma suposta  auto retratação que seria resultado de uma determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em um tom que misturava ironia e sarcasmo, Valadão passou a enumerar todas as “fake news” envolvendo o ex-presidente Lula que ele está propalando, e que o TSE finalmente decidira interromper a circulação.

O vídeo chegou a ser circulado por outro membro da mesma igreja, o deputado federal André Janones (Avante/MG), como demonstração de que Valadão estaria reconhecendo o seu erro e que, por isso, haveria de se praticar o perdão em relação ao erro dele que é basicamente circular fake news eleitorais em benefício da candidatura de Jair Bolsonaro.

O que era estranho virou farsa quando a assessoria de comunicação do TSE negou que a corte tivesse emitido qualquer decisão obrigado Valadão a se retratar em relação às suas fake news sobre Lula.

Uma primeira consequência de se juntar os fatos acerca do vídeo de Valadão é que o “pastor celebridade” produziu outra fake news ao se utilizar de uma mentira (uma ordem judicial inexistente) para continuar propaganda suas mentiras contra o ex-presidente Lula.

A segunda consequência terá agora de partir do próprio TSE, segundo alvo do ataque de Valadão. É que está evidente que não é apenas este “pastor celebridade” que embarcou em uma campanha sem limites contra a candidatura de Lula, usando todos os métodos sujos disponíveis, mesmo sob pena de comprometer a própria capacidade de falar e ser ouvido com a devida seriedade pelos próprios membros  de sua congregação.

Essa situação toda envolvendo as lideranças evangélicas que foram fartamente beneficiadas pelo governo Bolsonaro consequências muito graves para a convivência política dentro do Brasil após as eleições de 31 de outubro, vide os ataques que estão sendo realizados dentro de templos católicos. 

Mas parece que para Valadão e outros “pastores celebridades” o que importa agora é vencer as eleições e garantir a continuidade das benesses concedidas. E pensar que antes o que os protestantes esperavam eram bençãos. 

Pesquisadores e profissionais da área de Ciência e Tecnologia lançam manifesto em favor da candidatura de Lula

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Nós, cientistas, professores, pesquisadores, técnicos, empresários, trabalhadores, servidores, pós-graduandos e gestores, que atuam em ciência, tecnologia e inovação (CT&I), nos manifestamos pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República Federativa do Brasil. Fazemos isto por termos certeza de que Lula fará um governo democrático, com avanços sociais e a recuperação econômica do País. Temos clareza que a eventual continuidade do péssimo governo do presidente Bolsonaro nos levará a um desastre maior do que o atual.

Ao longo dos 4 anos de governo, Bolsonaro se destacou pelo negacionismo em relação à ciência, atuando contra as vacinas e a proteção individual, além de incentivar remédios ineficazes. Tais ações foram corresponsáveis por uma parcela significativa das centenas de milhares de mortes na pandemia. Bolsonaro promoveu um processo de desmonte da CT&I no Brasil, reduzindo drasticamente os recursos para esta área, bem como para a educação, e desviando fundos legalmente destinados a ela para interesses eleitoreiros e orçamentos secretos. Presenciamos nos últimos anos, a evasão de muitos de nossos jovens que abandonaram o país em busca de melhores condições de estudo e trabalho. Seu governo atuou contra a liberdade de pesquisa e a transparência da gestão pública ao promover demissões e perseguições a pesquisadores que divulgavam dados importantes sobre o meio-ambiente, a saúde e a economia do país. A sua política deliberada de destruição do meio ambiente levou a um crescimento enorme no desmatamento, a ameaças às terras indígenas e conduziu o país a um triste recorde internacional. Em consequência das ações do governo, a imagem do Brasil no exterior foi profundamente afetada, prejudicando o comércio e as cooperações internacionais. As ameaças constantes à democracia e aos direitos individuais, o grande aumento do desemprego, o crescimento da fome, que atinge agora 33 milhões de pessoas, e a deterioração acentuada das condições de vida da população brasileira são o legado trágico de uma política de governo que o país deve, agora, derrotar democraticamente.

Como Presidente da República, Lula agiu sempre de forma democrática e o bom desempenho de seu governo foi reconhecido pela população: no final do seu mandato, tinha 87% de aprovação. O Brasil atingiu a posição de sexta economia do mundo (hoje caiu para o 12o lugar) e o PIB por pessoa foi o maior da nossa história. A dívida externa foi toda paga e o país acumulou reservas de centenas de bilhões de dólares. Havia pleno emprego e o Brasil foi retirado do Mapa da Fome. A CT&I teve um grande impulso, assim como a educação, com aumento substancial de recursos e planejamento adequado, alcançando patamares bem mais altos que os atuais. Houve a criação e expansão de muitas universidades e institutos federais e ampliou-se o acesso de milhões de jovens ao emprego e às escolas e universidades. As ações de inclusão social beneficiaram milhões de pessoas.

As propostas de Lula para o próximo governo recuperam e ampliam em muito o que seu governo anterior realizou. Pontos essenciais serão a recuperação econômica do país, a melhoria do sistema educacional e da saúde pública, a extinção da fome e a preocupação com o meio ambiente e com uma agricultura sustentável. Em seu programa, Lula planeja o aumento e a continuidade de recursos para CT&I e educação – vistos não como gastos, mas como investimentos – e o estímulo à pesquisa básica e à inovação tecnológica e social. Será dado destaque à valorização das bolsas de estudo e à criação de oportunidades de trabalho para os jovens que querem se dedicar à CT&I no País, oferecendo futuro a eles e à Nação.  

Por essas razões apoiamos a eleição de Lula para a Presidência do Brasil. Votar nele significa também se juntar a uma ampla aliança de democratas para salvar o País do autoritarismo. Como profissionais da CT&I, setor crucial para a inserção do Brasil no mundo contemporâneo, declaramos a nossa firme disposição de colaborar para a recuperação econômica e para um desenvolvimento sustentável e socialmente mais justo do país. Por um Brasil mais rico e menos desigual, no qual a educação, a ciência e a saúde sejam instrumentos essenciais para o desenvolvimento econômico do país e para a melhoria das condições de vida de todos os brasileiros e brasileiras, votamos Lula!

Já assinaram este manifesto:

Sergio Machado Rezende – Departamento de Física – UFPE
Soraya Smaili – UNIFESP
Ildeu de Castro Moreira – Instituto de Física – UFRJ
Luiz Antonio Elias – Pesquisador INPI
Helena Nader – UNFESP
Luiz Davidovich – Instituto de Física – UFRJ
Marco Lucchesi – UFRJ
Rubens Belfort Jr. – UNIFESP
Paulo Artaxo – USP
João Ramos Torres de Mello Neto – IF/UFRJ
Marilene Corrêa da Silva Freitas – UFAM
Celso Pansera – ICTIM
Luis Manuel Rebelo Fernandes – IRI/PUC-Rio e UFRJ
Ennio Candotti – Museu da Amazônia – MUSA
Renato Cordeiro – FIOCRUZ
Denise de Carvalho – UFRJ
Fernando Peregrino – UFRJ
Anderson S. L. Gomes – Departamento de Física – UFPE
Sidarta Ribeiro – UFRN
Manuela Carneiro da Cunha – USP
Reinaldo Guimarães – UFRJ
Para assinar também, basta clicar [Aqui!].

Patrões da mídia corporativa são antes de tudo ávidos rentistas que amam Jair Bolsonaro e sua política de fome

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Neste domingo dois grandes veículos de mídia (O Globo e Folha de São Paulo) fizeram editoriais cobrando clareza nos planos econômicos do ex-presidente Lula. O primeiro fincando a demanda nos planos de reindustrialização e o segundo veio com uma manchete tirada do estrategista de Bill Clinton,  James Carville Jr., que cunhou o engenhoso mote “É a economia, estúpido”, que a Folha sacanamente substituiu por Lula.

E as perguntas a serem feitas por Jair Bolsonaro? Para esse nem editorial, nem uma matéria que questiona suas políticas econômicas centradas na desindustrialização que Lula promete reverter.  Mas um analista minimamente informado dos investimentos feitos pelas famílias Marinho e Frias vai logo saber porque seus veículos de mídia não perguntam para Bolsonaro. É que eles estão muito felizes com as altas taxas de juros que propiciam uma renda muito maior do que sua atividade formal que é o da comunicação.

Aliás, se estendermos a teia analítica para outros veículos, a Band TV por exemplo, encontraremos representantes do agronegócio que vem se refastelando com as políticas de desmanche ambiental do governo Bolsonaro.

Assim sendo, muito se fala das redes invisíveis de “fake news” do Bolsonarismo, que são reais e que distribuem uma ampla gama de mentiras, mas se olharmos mais perto, veremos que os grandes veículos de mídia também distorcem a realidade a partir de suas notícias para continuarem propriciando a seus donos as rendas milionárias que o rentismo impulsionado por Jair Bolsonaro lhes oferece.

Ainda sobre os resultados eleitorais: se Bolsonaro foi derrotado, por que dizer o contrário?

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Uma das questões que mais me intrigam no pós-primeiro turno é a insistência de muitos, inclusive de apoiadores do ex-presidente Lula, em ignorar uma evidência: Jair Bolsonaro perdeu feio o primeiro turno, apesar da “pequena” desvantagem que ele obteve nas urnas.  

Mas vamos lá aos fatos: em uma situação muito peculiar de financiamento extra campanha, principalmente via o Auxílio Brasil e o chamado “orçamento secreto”, as forças que apoiam Jair Bolsonaro investiram bilhões de reais para vencerem em primeiro turno as eleições presidenciais. A certeza de vitória era tanta que, desafiando as pesquisas eleitorais, Bolsonaro dizia que venceria em primeiro turno. A coisa era considerada delírio, quando se tratava apenas de um cálculo mal feito.

Algumas análises já mostraram que o voto de Jair Bolsonaro se interiorizou, de forma a compensar o recuo de votos em grandes cidades, especialmente naquelas onde o desemprego avançou mais. Essa tendência, convenhamos, é mais do que normal, pois não foi nas capitais que o governo Bolsonaro enfiou mais dinheiro, mas sim nas regiões mais interiores, principalmente das regiões norte e centro-oeste.

Por outro lado, as análises que enfatizam (e eu cito apenas aquelas que não são feitas para turbinar a candidatura de Jair Bolsonaro) um aspecto derrotista dos resultados desprezam o fato óbvio de que Lula, desafiando a máquina eleitoral do governo federal, venceu em cidades importantes, não se restringindo a derrotar Bolsonaro no Nordeste.  Se fosse assim, o destino eleitoral de Bolsonaro teria sido aquele que ele propalava em seus comícios e não aquele que as urnas entregaram.

O Brasil sempre foi dividido, qual é a novidade?

Outras análises de teor derrotista tendem a enfatizar, e lamentar, o fato de que o Brasil saiu dividido das urnas. Ora, quem diz isso parece desconhecer a história brasileira. A verdade é que sempre fomos divididos, e os resultados eleitorais só mostraram isso mais claramente porque certas forças da direita tenderam ao desaparecimento, com os seus votos coalescendo em torno de Jair Bolsonaro.  Um exemplo disso foi o PSDB que de partido dominante de eleições passadas passou a ser minoritário até em São Paulo.

Assim, o que assistimos foi uma unificação das forças de direita em torno de Jair Bolsonaro, o que atende a interesses diversos até do atual presidente.  Como já vimos isso em outros períodos históricos, qualquer análise que aponte uma suposta “fascitização” atual do Brasil, despreza o fato de que nunca fomos um país efetivamente democrático. Quando muito, somos um simulacro de democracia onde direitos fundamentais só são concedidos às elites, enquanto a maioria da população fica relegada ao descaso e à violência do Estado brasileiro.

Quem despreza o fato de que nossa economia dependente é baseada na opressão e na violência é que acaba caindo nesse tipo de lamento. Quem entende minimamente a nossa formação capitalista dependente deveria se concentrar em organizar a maioria que votou em candidatos opostos a Jair Bolsonaro, em vez de perder tempo com análises que só servem para desmobilizar a classe trabalhadora e a juventude.

A  verdade é que já éramos divididos e continuaremos divididos depois do segundo turno, independente de quem ganhar as eleições.  É que eleições são apenas momentos muito específicos da luta de classe que ocorrem em um terreno muito hostil aos que precisam ter uma mudança radical na realidade em que estamos imersos.

Mas no momento, a tarefa posta é aumentar a votação do ex-presidente Lula para derrotar Bolsonaro nas urnas. Derrotar o seu projeto econômico e social vai ser algo que deverá transpor, e muito, o marco restrito das eleições.

Agora é hora de eleger Lula para derrotar o retrocesso

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Não pretendo fazer uma análise completa dos resultados, pois meu esforço cairia em um imenso redemoinho em que minha opinião não iria contar muito.  A intenção dessa postagem é simplesmente uma, qual seja, a necessidade de que se vote no ex-presidente Lula para impedir que um retrocesso ainda maior ocorra no Brasil, especialmente no que se refere aos direitos dos trabalhadores e da juventude.

Já se sabe que o novo congresso será ainda mais conservador que aquele que se encerra em 31 de dezembro, com a eleição de figuras de proa do governo Bolsonaro tendo sido eleitos em diversos estados da federação. Por outro lado, a esquerda ganhou adições de figuras importantes e conhecidamente aguerridas, como é o caso de Guilherme Boulos.

Por isso, não há que se perder tempo em análises sobre as razões do voto massivo em Jair Bolsonaro em algumas regiões, pois se terá tempo suficiente depois do segundo turno para que isto seja feito. Agora, o que precisa ser feito é que as pessoas que estão em um estado de choque momentâneo saiam dessa condição e comecem a trabalhar de forma intensa para fazer com que a vitória de Lula seja confirmada em segundo turno. 

E, convenhamos, a perspectiva de mais quatro anos de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto não pode ter outra consequência que não seja a de se arregaçar as mangas e começar a trabalhar pela eleição de Lula.

À ação, cidadãos!

Destino da Amazônia depende do resultado das eleições brasileiras, dizem especialistas

Mais destruição sob Bolsonaro pode levar a floresta da Amazônia além de um ponto de inflexão irreversível

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Um bombeiro combate um incêndio na floresta amazônica em Apuí, Brasil. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Por Damian Carrigton, editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

O destino da Amazônia depende da eleição nacional do Brasil no domingo, segundo especialistas, que dizem que a continuação da destruição desenfreada sob o presidente Jair Bolsonaro pode levar a maior floresta tropical do mundo a um ponto de inflexão irreversível.

Por outro lado, uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que presenciou um declínio acentuado do desmatamento no poder, pode levar a uma queda de 90% no desmatamento, estimam os cientistas.

A floresta amazônica desempenha um papel vital no clima global como uma vasta reserva de dióxido de carbono, mas pesquisas recentes mostraram que os incêndios e a derrubada de árvores deixaram a região emitindo mais CO 2 do que absorve . Pesquisadores mostraram em março que a Amazônia estava se aproximando de um ponto de inflexão , após o qual a floresta seria perdida, com profundas implicações para o clima global e a biodiversidade.

Bolsonaro tornou-se presidente no início de 2019 e reduziu as proteções ambientais e promoveu a colonização dafloresta. a pesquisa mostra que as emissões de CO 2 dobraram em 2019 e 2020 em comparação com a média da década anterior, impulsionadas pelo aumento do desmatamento e dos incêndios à medida que a aplicação da lei entrou em colapso.

Os dados mais recentes mostram que quase um milhão de hectares de floresta tropical foram queimados no ano passado. No mês até 26 de setembro, os incêndios atingiram seus níveis mais altos em uma década. A agência nacional de pesquisa espacial do Brasil, INPE, registrou 36.850 alertas de incêndio na região, mais que o dobro do mês inteiro de 2021.

O aumento pode ser porque aqueles que destroem a floresta ilegalmente aproveitam uma última oportunidade para apropriar-se de terras antes da eleição, de acordo com pesquisadores da Amazônia.

“Bolsonaro arrastou o Brasil de volta aos dias de oeste selvagem que pensávamos ter deixado para trás”, disse Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental do Brasil , que trabalha para proteger os povos indígenas e suas casas na floresta. “Não é exagero, então, dizer que o destino da Amazônia depende do resultado de nossa eleição em 2 de outubro. Se Bolsonaro ganhar mais um mandato, a maior floresta tropical do mundo pode passar de seu ponto de inflexão. Se ele perder, temos a chance de trazê-lo – e o Brasil – de volta do precipício.”

Indígenas brasileiros protestam pela demarcação de terras indígenas e pelo assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, em São Paulo, Brasil.

Indígenas brasileiros protestam pela demarcação de terras indígenas e pelo assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, em São Paulo, Brasil. Fotografia: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

Ramos disse que conflitos violentos e assassinatos de indígenas e protetores de florestas por grileiros aumentaram acentuadamente desde que Bolsonaro se tornou presidente. Ela disse: “Aqueles percebidos como obstáculos às suas atividades – incluindo [ativista e jornalista assassinado] Bruno Pereira e Dom Phillips , e vários povos indígenas, como o protetor da floresta Paulo Paulino Guajajara – pagaram o preço final”.

Erika Berenguer, especialista em desmatamento da Amazônia da Universidade de Oxford, Reino Unido, disse à New Scientist : “Não digo isso levianamente como cientista, mas esta é a eleição mais importante já realizada no Brasil para a Amazônia e sua sobrevivência”.

Luciana Gatti, do INPE, cuja pesquisa mostrou a duplicação das emissões de CO 2 da Amazônia sob Bolsonaro, disse que a floresta tropical estava mudando drasticamente por causa do colapso da aplicação da lei e do desmatamento agressivo durante o mandato do presidente. “Este é um grande risco não só para o Brasil , mas para todo o planeta”, disse ela. “A redução da aplicação da lei promove a sensação de impunidade para crimes ambientais.”

A pesquisa da equipe de Gatti, em análise pela revista Nature , é baseada em centenas de amostras de ar coletadas em pequenos aviões sobre a Amazônia na última década e mostrou resultados “alarmantes”. As emissões de CO 2 aumentaram 89% em 2019 e 122% em 2020, em comparação com a média de 2010-18.

Em 2020, o aumento das emissões deveu-se principalmente a um aumento de 74% no desmatamento e um aumento de 42% na área queimada por incêndios. No mesmo ano, o número de multas pagas por crimes ambientais caiu 89% e o número de infrações registradas pelas autoridades caiu 54%, com situação semelhante em 2019.

A equipe de Gatti também produziu a pesquisa anterior mostrando que a floresta amazônica foi transformada de um sumidouro de carbono para uma fonte, o que significa que está acelerando o aquecimento global em vez de desacelerá-lo. A maior parte da destruição da Amazônia é resultado da produção de carne bovina, com o cultivo de soja e a mineração também fatores.

“A Amazônia está chegando perigosamente perto de um ponto crucial, que pode ver grandes áreas se transformarem de uma floresta tropical úmida e resiliente em um estado seco, devastado pelo fogo e irreversivelmente degradado”, disse Mike Barrett , do WWF.

“O que estamos presenciando é o fim da Amazônia”, disse Angela Kuczach, diretora da Rede Pro UC – Rede Nacional de Unidades de Conservação do Brasil. “Aqui mesmo no coração do sul da Amazônia, estamos trocando floresta por deserto e biodiversidade por cinzas. Não podemos mais dizer que vamos perder a Amazônia em 20 ou 30 anos; estamos perdendo isso agora.”

Bolsonaro disse a líderes mundiais na Assembleia Geral da ONU na semana passada que o Brasil era uma “referência para o mundo” para meio ambiente e desenvolvimento sustentável. “Dois terços do território brasileiro permanecem cobertos por vegetação nativa, que se encontra exatamente como quando o Brasil foi descoberto em 1500 [por colonos espanhóis]”, disse. “Na Amazônia brasileira, mais de 80% da floresta permanece intocada, ao contrário do que é noticiado pela grande mídia nacional e internacional.”

O Ministério da Justiça do Brasil afirma estar realizando uma operação policial desde 2021 para combater a destruição ilegal de florestas e proteger áreas indígenas.

A maioria das pesquisas de opinião sugere que Lula está perto de garantir a maioria geral dos votos necessários no primeiro turno de domingo para evitar um segundo turno contra Bolsonaro no final de outubro. Lula disse que vai reverter as mudanças legais de Bolsonaro, reformar agências ambientais e expulsar garimpeiros ilegais de terras indígenas. Sob a presidência de Lula e sua sucessora no Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff, o desmatamento caiu 72% de 2004 a 2016.

No entanto, reverter o impacto de Bolsonaro será um desafio, de acordo com Izabella Teixeira, conselheira de meio ambiente de Lula e ministra do Meio Ambiente do Brasil de 2010 a 2016.

“Este é um grande desafio e é completamente diferente do que era no passado”, disse ela à New Scientist.

Se Lula ganhar a presidência e recriar a redução bem-sucedida do desmatamento em seu mandato anterior, a destruição da floresta cairia 90% na próxima década, segundo análise publicada pela Carbon Brief. Mais de 75.000 km 2 de floresta amazônica seriam salvos, estimaram os pesquisadores.

Gatti disse que países e consumidores fora do Brasil também podem ajudar . “Precisamos ter um compromisso internacional com os países, para que eles não comprem os produtos que resultam na destruição da natureza”, disse ela.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Meio ambiente: especialistas analisam programas dos candidatos à Presidência da República

Os pesquisadores Reuber Brandão e Philip Fearnside, da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, avaliam propostas de Lula, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Simone Tebet

unnamed (3)Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante (GO), mantida pela Fundação Grupo Boticário. / Foto André Dib

Os quatro candidatos que aparecem nas primeiras colocações das pesquisas eleitorais sobre a corrida presidencial dedicam espaço considerável para a agenda ambiental em seus planos de governo. Seja por convicção sobre a importância de proteger o patrimônio natural brasileiro, seja por um cálculo eleitoral que percebe a relevância do tema para a geopolítica e o comércio internacional, as propostas trazem inovações, mas também deixam de lado temas importantes, como o fortalecimento das Unidades de Conservação. Pesquisadores da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) avaliaram as principais propostas dos candidatos Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (PMDB).

“O programa da candidata Simone Tebet parece ter maior planejamento das ações. Prevê, inclusive, a criação de uma secretaria para tratar da questão climática. O programa do candidato Lula também dedica espaço considerável para a questão ambiental, sempre reforçando que irá mudar as políticas do atual governo, em especial o negacionismo científico, climático e reverter o enfraquecimento das instituições de fiscalização e controle”, observa Reuber Brandão, membro da RECN e professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília (UnB).

O professor considera que a questão ambiental também ocupa amplo espaço no plano de governo de Bolsonaro. “No entanto, a despeito das muitas linhas dedicadas ao tema, traz ideias focadas em uma percepção anacrônica da questão ambiental, repetindo que o problema da Amazônia é de soberania. O programa ambiental é repleto de lugares comuns, com diversas platitudes e a recorrente lógica de que a questão ambiental é subalterna da agricultura, sem explorar o papel da ciência no desenvolvimento da conservação, na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e no desenvolvimento conjunto da atividade agrícola”, afirma Brandão.

O programa de Lula traz proposta de ampliar o mercado de trabalho utilizando a recuperação de áreas degradadas, enquanto o programa do atual presidente dedica atenção à justiça ambiental, o que é interessante, na visão de Brandão. “No entanto, nenhum dos programas dos quatro principais candidatos cita a criação de Unidades de Conservação como políticas ambientais importantes, o que é extremamente preocupante. Vale lembrar que a manutenção de áreas naturais é fundamental para a preservação da biodiversidade, além de sua importância para pesquisas científicas, educação ambiental, turismo sustentável, entre outras possibilidades”, reflete Brandão.

Na questão indígena, o pesquisador observa que o plano do candidato Bolsonaro, que busca a reeleição, foca na exploração econômica das terras indígenas, especialmente com turismo e venda de produtos, sem uma clara política de proteção desses grupos, de suas terras e de suas culturas.

Brandão classifica como pobre o programa ambiental do candidato Ciro Gomes. “O documento não tem propostas claras e sequer cita os biomas do Brasil. Sempre se refere à questão ambiental como a proteção florestal, em um país que possui diversos ecossistemas não florestais”, avalia.

O pesquisador avalia como positivas nas propostas de Tebet e Lula a ênfase na ciência como processo essencial à independência econômica, uso da biodiversidade e promoção da conservação. “O plano do Lula ainda ressalta com maior ênfase o papel de grupos minoritários e populações tradicionais no desafio da transição energética, ecológica e produtiva do país, com ampliação de experimentos de agroflorestas”, realça.

Amazônia

Um dos maiores especialistas em mudanças climáticas no mundo, Philip Martin Fearnside, membro da RECN e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ressalta que os dois candidatos que lideram as pesquisas – Lula e Bolsonaro – têm programas e históricos contrastantes com relação ao meio ambiente na Amazônia. O pesquisador entende que Bolsonaro considera as preocupações ambientais como impedimentos à exploração das riquezas da região amazônica e, por isso, aposta que o atual presidente pretende continuar as suas políticas que enfraqueceram o controle ambiental. Ele também vê pontos positivos e negativos no programa dos outros candidatos.

Na visão de Fearnside, Lula apresenta uma interpretação mais adequada sobre a importância do meio ambiente, especialmente ao destacar a necessidade de reconstruir os órgãos ambientais que têm sido desmontados desde o início do atual governo, como Ibama, ICMBio e Funai. “Ele também promete defender terras indígenas e retirar garimpeiros. Mesmo com estes sinais positivos, há áreas que precisarão de cuidado em um eventual governo Lula. A questão das hidrelétricas na Amazônia, por exemplo, tem enormes consequências em potencial, e o histórico dos governos PT na construção de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte é preocupante. O Lula tem falado que faria Belo Monte de novo e que a população local foi beneficiada devido aos gastos do projeto na parte social”, analisa.

O pesquisador também chama a atenção para outro projeto polêmico para a região: a construção da rodovia BR-319, que pretende ligar Manaus (AM) a Porto Velho (RO). Em conjunto com estradas laterais planejadas, essa grande rodovia abriria uma enorme área de floresta amazônica à entrada de desmatadores a partir de uma espécie de arco do desmatamento. “Infelizmente, além do custo astronômico de um programa de governança na escala necessária, as chances são mínimas de realmente alcançar essa transformação desejada na vasta área a ser impactada, especialmente dentro do prazo de um mandato presidencial”, avalia.

O membro da RECN, que pesquisa a Amazônia há mais de 40 anos, ressalta que Ciro Gomes e Simone Tebet têm tomado posições semelhantes à de Lula com relação à BR-319, colocando o avanço das obras como desejável, mediante uma boa governança. “Portanto, seria importante ficar atento a como evoluirão as políticas ambientais durante o próximo governo, independentemente de quem vencer as eleições”, finaliza Fearnside.

Sobre a Rede de Especialistas

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

A Amazônia brasileira está pegando fogo, enquanto Jair Bolsonaro e Lula indicam metas semelhantes

fogo

Incêndio florestal perto de Brasília no dia 5 de setembro de 2022

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt” 

Na região amazônica brasileira, o número de incêndios florestais voltou a aumentar significativamente este ano. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal, entre outros, registrou um total de 78.159 incêndios na Amazônia de 1º de janeiro a 20 de setembro deste ano. Isso é 52% a mais do que no mesmo período de 2021.

As principais organizações ambientais, como o World Wide Fund For Nature (WWF) e o Greenpeace, responsabilizam o atual presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro. Os incêndios florestais são uma “tragédia anunciada”, disse o porta-voz brasileiro do Greenpeace, André Freitas, em comunicado na segunda-feira. Ele descreveu o mandato de quatro anos de Bolsonaro como um dos momentos mais sombrios para o meio ambiente.

No entanto, uma análise das estatísticas de incêndios florestais mantidas pelo INPE desde 1998 coloca em perspectiva as declarações dos ambientalistas. No ano eleitoral de 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores (PT) foi eleito presidente pela primeira vez, o número de incêndios na Amazônia subiu de 35.716 para 93.862 – um aumento de 162% em relação ao mesmo período ano passado. Nos anos que se seguiram, o número de incêndios florestais aumentou para 145.124 nos primeiros nove meses de 2005. Outro aumento significativo nos incêndios na Amazônia de 182% em relação ao mesmo período do ano passado foi registrado – novamente em ano eleitoral – em 2010, quando a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, concorreu ao PT. Naquela época, ocorreram 87.039 incêndios na floresta tropical.

Segundo reportagem publicada em agosto pela rede jornalística investigativa Amazônia Real , o asfaltamento da rodovia BR-319 na Amazônia é o principal responsável pelo aumento dos incêndios florestais nos primeiros meses deste ano. Isto é para ligar Porto Velho, no sudoeste da Amazônia, com Manaus, no estado do Amazonas. Em 28 de julho, o órgão ambiental brasileiro IBAMA concedeu aprovação provisória para o asfaltamento do trecho central ausente da via. O alvará de construção aprovado pelo governo em Brasília é, segundo a Amazônia Real, obviamente também motivado pela política eleitoral. No entanto, tanto Bolsonaro quanto seu adversário Lula apoiam a conclusão da estrada federal, que cortará um dos últimos grandes blocos de floresta tropical intacta no coração da Amazônia, que foi rejeitada por conservacionistas e cientistas que pesquisam as florestas amazônicas.

No entanto, em seu programa para as próximas eleições presidenciais de 2 de outubro, Lula promete combater a mineração ilegal, o corte e a queima e o desmatamento, além de uma melhor proteção da floresta amazônica. “Vamos combater o crime ambiental promovido por milícias, grileiros, madeireiros e organizações empresariais que desrespeitam a lei. Estamos comprometidos com a luta incansável contra o desmatamento ilegal e a promoção do desmatamento líquido zero. O Brasil tem “uma das maiores biodiversidades do planeta”.

Ao mesmo tempo, Lula promete em seu manifesto eleitoral reindustrializar o Brasil, promover o agronegócio e a indústria do petróleo, estimular as atividades de mineração e ampliar e modernizar a infraestrutura – especialmente a construção de estradas – “por meio de um programa enérgico de investimento público”. Como ele pretende quadrar o círculo não é encontrado na redação, o que dificilmente difere do programa eleitoral do presidente em exercício em ambos os aspectos.

Jair Bolsonaro também afirma que irá “tomar medidas decisivas e enérgicas contra crimes ambientais”, combater incêndios florestais e desmatamento ilegal, ao mesmo tempo em que deseja expandir a infraestrutura e promover a indústria. De acordo com seu programa eleitoral, outro governo sob seu comando “conciliará a proteção ambiental com o crescimento econômico justo e sustentável para todos”. O que se pode esperar das promessas apresentadas provavelmente só se tornará aparente quando o novo presidente tomar posse em janeiro de 2023.


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Este originalmente escrito em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].