Agronegócio em xeque: carne bovina brasileira sofre ampliação de banimento depois da descoberta de casos do Mal da Vaca Louca

carnes

Uma crise silenciosa está se expandindo sem muita cobertura da mídia corporativa após a descoberta de casos de Mal da Vaca Louca em frigoríficos de Minas Gerais e Mato Grosso. É que após a proibição de importação de carne brasileira por China e Arábia Saudita, agora mais quatro países resolveram banir importações brasileiras (Rússia, Indonésia, Irã e Egito).  O problema aqui é estes países representam uma parte substancial do montante total de compras de carne bovina feitas no Brasil, a começar pela China que é o nosso principal importador.

Mas é preciso lembrar que quando ainda era deputada federal em 2018, mas já anunciada como futura ministra da Agricultura,  Tereza Cristina (DEM/MS) anunciou a intenção, que depois seria levada a cabo, de afrouxar a fiscalização diária do governo federal em frigoríficos, sob a alegação (esfarrapada, diga-se de passagem) de que as regras então  vigentes não permitiam ampliar a produção aos finais de semana, porque os fiscais do governo não trabalhavam sábado e domingo, nem podiam receber horas extras.

A conversa anunciada e defendida com unhas e dentes pelos donos de frigoríficos é de que seria possível adotar regras de “autocontrole” que deixariam sob as responsabilidades dos abatedores as principais medidas para fiscalizar a sanidade dos animais sendo abatidos em suas unidades industriais. 

É importante frisar que já em 22 de dezembro de 2018, publiquei uma nota neste blog indicando a minha opinião de que a proposta do autocontrole nada mais era do que uma senha para “chutar o balde” no controle da produção de carne e do desmatamento. Eu, aliás, também afirmei que os anúncios de Tereza Cristina já tinham acendido todas as luzes de alerta em muitos países que adquirem produtos de origem animal que são produzidos pelo Brasil.  Agora passados quase  três anos daquela postagem, o que se vê é a confirmação de tudo o que escrevi. 

Mas o que está acontecendo era previsível, por que se permitiu o afrouxamento de regras que agora resultam no banimento da carne brasileira? É que claramente falou mais alto a disposição do lucro a qualquer custo, mesmo que isso colocasse em risco a saúde da indústria de carne brasileira, provavelmente por causa da aposta furada de que nossos compradores mais latem do que mordem quando se trata de impor suas regras sanitárias. Agora se vê que o caso não é bem esse.

Finalmente, se esse banimento se mantiver ou até mesmo for ampliado, o consumidor brasileiro pode ter até um alívio no preço interno. Mas esse barateamento poderá sair caro se as regras de fiscalização dentro dos frigoríficos não forem recolocadas nos níveis que garantam que não estamos comendo carne fora dos padrões internacionais.

Incidência de “Vaca Louca” no Mato Grosso faz Brasil suspender exportações de carne bovina para a China

vaca loucaAnimais acometidos do “Mal da Vaca Louca” perdem a capacidade de manterem em pé, sendo um dos primeiros sinais da doença.

Se o funcionamento do agronegócio pudesse se apresentado como uma partida de futebol, creio que se poderia dizer que quando um time começa a dar errado, o que não falta é bola para fora do campo de jogo. 

É que depois da mídia corporativa notar que a participação das exportações de commodities agrícolas estava perdendo fôlego e afetando diretamente a balança comercial, hoje o Ministério da Agricultura anunciou a suspensão da exportação de carne bovina para a China em função da detecção de “um caso atípico” do “Mal da Vaca Louca” no estado do Mato Grosso.

vaca louca mt 1

Para quem não se lembra, o chamado “Mal da Vaca Louca,  uma doença neurológica que acomete bovinos e, tem sido relacionada com a doença de Creutzfeldt-Jacob (CJD) em humanos, é normalmente associado ao uso de farinha de carne e ossos na alimentação do gado. Essa farinha resulta da transformação industrial dos corpos de animais e é usada para constituir rações para alimentar animais da mesma espécie.

É importante notar que a variante típica difere da variedade clássica ligada à doença de Creutzfeldt-Jakob nas pessoas. Como a vaca infectada não entrou na cadeia de fornecimento de alimentos, o status de risco sanitário para contração do “Mal da Vaca Louca” típico seria “insignificante”,  segundo fontes do MAPA.

Um primeiro anúncio do anúncio do MAPA foi a ocorrência de uma queda acentuada no valor das ações dos principais frigoríficos brasileiros ao longo desta 2a. feira, a começar pelo Minerva, o primeiro a ser afetado pela proibição de exportação para a China, justamente o maior comprador atual de carnes brasileiras.

O problema é que essa notificação tem tudo a gerar uma espiral de retração em relação à compra de carne bovina produzida no Brasil nos principais mercados consumidores desse produto, a começar pela China, Rússia e os países árabes. É que dificilmente os governos dos países importadores ficarão inertes à informação dessa ocorrência no Mato Grosso, e vão querer ter certeza de que este não foi apenas um caso isolado.

O pior é que dada a atual dependência da balança comercial brasileira na exportação de carne animal, principalmente bovina, essa notícia deverá azedar ainda mais as já bastante ácidas previsões para o comportamento do PIB brasileiro em 2019.