Manguezais estáveis, praias e dunas em retração: MapBiomas faz radiografia da costa brasileira nos últimos 37 anos

dunas

Com 7491 quilômetros, a costa brasileira coloca nosso país entre os 20 países com maior litoral no mundo. Com o auxílio de imagens de satélite e recursos de inteligência artificial, o MapBiomas fez um raio-X desse território, que engloba praias, dunas, manguezais, apincus e áreas de aquicultura e salicultura. Também foram mapeados municípios no interior do Brasil com grandes areais. Os números mostram uma relativa estabilidade nessas formações naturais, com alguns ganhos em manguezais e a mesma tendência de perda de praias e dunas.

A boa notícia vem dos manguezais, que se estendem por toda a costa brasileira do Amapá até Santa Catarina. Entre 1985 e 2021, sua área total expandiu-se 4%, passando de 970 mil hectares para mais de um milhão de hectares (1.011 Mha). Três estados da Amazônia – Amapá, Pará e Maranhão – respondem por 80% da cobertura de manguezais do país e sua configuração explica esse bom resultado. Os manguezais do norte crescem sob um regime de macromaré, cujo nível de água tem variação diária superior a 4 metros, e desenvolvem-se sobre uma planície de lama que chega a medir 30 km de largura, ocupada por árvores de até 30 m de altura, afirma Pedro Walfir, da equipe de mapeamento da zona costeira do MapBiomas. Esse tipo de cobertura natural torna este ecossistema naturalmente resiliente às mudanças antrópicas.

(em hectares)

O mangue é berçário de inúmeras espécies marinhas: 70 a 80% dos peixes, crustáceos e moluscos que a população consome precisam desse bioma em alguma fase de suas vidas. Diversas espécies de peixes economicamente importantes utilizam os mangues como área de reprodução e depois voltam para o mar. Os manguezais também são importantes para proteger a costa da erosão marinha.

Entre as formações naturais sobre as quais o mangue se expande estão os apicuns – superfícies dinâmicas, hipersalinas e associadas ao regime de marés. Entre 1985 e 2021, os apicuns passaram de 57 mil para 54 mil hectares de área no Brasil. O Maranhão concentra aproximadamente 60% da superfície de apicuns do país.

A maior parte de sua área (70%) encontra-se dentro de alguma das 340 Unidades de Conservação da Zona Costeira Brasileira. Apesar disso, entre 1985 e 2021, 1,3 mil hectares de apicuns foram convertidos para atividades de aquacultura que, junto com os 531 hectares perdidos para infraestruturas urbanas, representa o principal risco para este tipo de formação natural. “Apicuns, assim como os manguezais, são localmente dinâmicos, intercalando perdas e ganhos de magnitude aproximadas ao longo da série temporal. São processos de transformação natural”, explica César Diniz, da equipe de mapeamento de zona costeira do MapBiomas. “Porém quando há a conversão para infraestrutura urbana ou aquacultura, essa dinâmica é interrompida: não há volta para a formação original”, completa.

A aquicultura foi a ocupação da zona costeira brasileira que mais cresceu nos últimos 37 anos: ela teve um aumento de 36% entre 1985 e 2021, passando de 36 mil hectares para 56 mil hectares no país. A atividade expandiu-se principalmente sobre superfícies de água (28%), mosaico de agricultura ou pastagem (25%) e formação savânica (14%), com nítida preferência por regiões não vegetadas, como apicuns ou, quando vegetadas, de porte arbustivo. Dois estados, Rio Grande do Norte, com 67%, e Ceará, com 15,4% concentram 82% da área de salicultura / aquicultura no Brasil. Mossoró, no Rio Grande do Norte, possui a maior área de aquicultura / salicultura no país: aproximadamente 11 mil hectares — o dobro da área urbanizada do município.

Praias, dunas e areais perdem 15% de área

O cenário de praias e dunas arenosas sem cobertura vegetal é distinto: com 47% de sua área está em unidades de conservação, as quais minguaram de 457 mil hectares, em 1985, para 389 mil hectares em 2021 — uma retração de 15%. Entre os vetores que levaram a essa perda de 68 mil hectares está a pressão do mercado imobiliário e o consequente avanço de infraestruturas urbanas (11%), a silvicultura (7,4%), as pastagens e mosaicos de agricultura e pecuária (10%).

Essa perda é preocupante porque praias e dunas têm papel estratégico no controle da erosão costeira e preservação da biodiversidade”, explica César. “A praia e a duna normalmente protegem os manguezais das ações das ondas, criando um ambiente calmo, onde a lama pode ser depositada e colonizada pela vegetação de mangue”, detalha.

Os Lençóis Maranhenses e o Cordão Dunar do Rio Grande do Sul são as duas feições arenosas contíguas de maior extensão no Brasil. Juntos, eles respondem por 51% da extensão de praias e dunas do país. Porém não há areais e dunas apenas no litoral: segundo o MapBiomas, dos 10 municípios com maior extensão desse tipo de cobertura, dois ficam no interior do país – Pilão Arcado e Xique-Xique, ambos na Bahia. O município líder é Barreirinhas, no Maranhão.

 
 Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Queimadas em outubro atingiram área 66% maior do que em 2021

Área de florestas queimada de janeiro a outubro de 2022 foi 80% superior ao total registrado nos 12 meses de 2021

queimadas

O mês de outubro não foi quente apenas por causa do primeiro e do segundo turno das eleições, que aconteceram no começo e no final do mês. Entre o dia 1 e o dia 30 do mês passado, as queimadas no Brasil aumentaram 66%, segundo dados do Monitor do Fogo, do MapBiomas. Em apenas 30 dias, 3,4 milhões de hectares foram queimados — 1,3 milhão de hectares a mais do que no mesmo mês de 2021.

Nenhum bioma queimou tanto em outubro como o Cerrado, onde a área afetada quase triplicou em relação ao mesmo mês do ano passado. 1,8 milhão de hectares foram atingidos pelo fogo no bioma — um crescimento de 196% em relação a outubro de 2021. O aumento das queimadas na Amazônia também foi superior à média nacional: 74% a mais que no mesmo mês de 2021. A área queimada em outubro deste ano nesse bioma totalizou 1,3 milhão de hectares.

Os números entre janeiro e outubro deste ano, por sua vez, mostram que 15,2 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo no Brasil — uma área maior que o estado do Ceará. O crescimento em relação aos 10 primeiros meses de 2021 foi de 11%, ou 1,5 milhão de hectares a mais. A maior parte da área consumida pelo fogo (72%) foi de vegetação nativa — em sua maioria, formações savânicas e campestres. As pastagens responderam por 24,5% da área queimada nos dez primeiros meses de 2022. Porém um crescimento expressivo foi observado em florestas: cerca de 2,4 milhões de hectares de florestas foram queimados no Brasil de janeiro a outubro de 2022 — um aumento de 80% em relação ao total registrado nos 12 meses de 2021.

A Amazônia concentrou 85% dos incêndios florestais nos 10 primeiros meses deste ano. Nesse período, as florestas da Amazônia queimaram quase o dobro do que foi queimado em florestas na região em todo o ano de 2021. Quase um terço (29%, ou dois milhões de hectares) do que foi queimado nesse bioma afetou florestas, sendo incêndios ou desmatamento seguido de fogo. Esse número foi mais que o dobro, 111% maior do que a área de floresta afetada por fogo no bioma no mesmo período em 2021 (976 mil ha). Considerando a área total queimada na Amazônia, e não só a de florestas, o crescimento em relação ao ano passado foi de 34%.

Mas o bioma mais afetado pelo fogo no Brasil nos dez primeiros meses de 2021 é o Cerrado. Metade da área queimada no país entre janeiro e outubro (48%, ou 7,2 milhões de hectares) fica no Cerrado. Embora este bioma tenha metade da extensão da Amazônia, ele praticamente empata com ela em área queimada: a Amazônia respondeu por 47% da extensão queimada nos 10 primeiros meses do ano (7,1 milhões de hectares). O aumento na área queimada no Cerrado nesse período foi de 17%.

Sozinho, o Mato Grosso respondeu por um em cada quatro hectares queimados no Brasil entre janeiro e outubro deste, ou 3,4 milhões de hectares. Pará e Tocantins ocupam o segundo e o terceiro lugar no ranking, com 2,5 milhões de hectares e 2,2 milhões de hectares, respectivamente. Juntos, esses três estados respondem por mais da metade (54%) de toda a área queimada no Brasil este ano até outubro.

Os três municípios que mais queimaram este ano ficam na Amazônia: São Félix do Xingu (PA), Altamira (PA) e Porto Velho (RO). Juntos, eles respondem por 1,1 milhão de hectares queimados, ou 8% do total nacional). Trata-se de um crescimento de 131% em relação aos 495 mil hectares queimados no mesmo período de 2021. Esse aumento reflete o avanço do desmatamento no oeste do Pará e em Rondônia.

Boas notícias vieram da Mata Atlântica e do Pantanal. Este último apresentou a menor área queimada nos últimos quatro anos no período entre janeiro e outubro deste ano. O Monitor do Fogo contabilizou uma queda de 87% em relação aos dez primeiros meses de 2021. O mês de outubro, no entanto, trouxe uma área queimada equivalente ao dobro do total queimado nos meses anteriores. A Mata Atlântica, por sua vez, teve a menor área queimada desde 2019, com exceção dos primeiros meses do ano (janeiro e fevereiro), devido a uma queimada na região próxima ao Parque Nacional Ilha Grande.

Outros destaques de outubro de 2022

  • 76% da área queimada em outubro de 2022 foi em vegetação nativa, a maioria em formações savânicas e campestres.
  • Dentre os tipos de formações naturais, as formações savânicas foram as mais afetadas pelo fogo, 37% da área queimada em outubro de 2022.
  • Dentro os tipos de uso agropecuário, as pastagens se destacaram, representando 21% da área queimada em outubro de 2022.
  • Em outubro de 2022, os estados que mais queimaram foram Mato Grosso, Maranhão e Piauí.
  • Os municípios de Cocalinho (MT) e Novo Santo Antônio (MT) foram os que tiveram maior área queimada.

Outros destaques da Amazônia — janeiro a outubro de 2022

  • A formação florestal foi o tipo de vegetação nativa que mais queimou na Amazônia: 29% da área queimada entre janeiro e outubro de 2022.
  • A pastagem foi a classe de uso da terra que mais queimou, com 48% da área total queimada na Amazônia em outubro de 2022.

Outros destaques do Cerrado — janeiro a outubro de 2022

  • Quase metade da área queimada no Cerrado entre janeiro e outubro de 2022 ocorreu em formação savânica (3,5 Mha, 49%).
  • Os estados da região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) são os que tiveram maior ocorrência de fogo no mês de Outubro no bioma Cerrado.

Destaques do Pampa — janeiro a outubro de 2022

  • No verão de 2022 foi registrada uma área recorde de queimadas no Pampa, com 28.039 ha.
  • Por outro lado, no período entre março e outubro a área queimada total foi de 1.117 ha, bem abaixo do que foi registrado para esse mesmo período nos três anos anteriores.

Destaques da Caatinga — outubro de 2022

  • Na Caatinga, o mês de outubro foi o que apresentou maior área queimada para todo o ano de 2022, com 300 mil ha queimados e com aumento de 134% em relação ao mês de setembro

Sobre o Monitor do Fogo:

O Monitor do Fogo é o mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, e atualizados mensalmente. Baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do Sentinel 2 com resolução espacial de 10 metros e temporal de 5 dias. O Monitor de Fogo revela em tempo quase real a localização e extensão das áreas queimadas, facilitando assim a contabilidade da destruição decorrente do fogo. Acesse o Monitor do Fogo e o Boletim Mensal de Outubro 

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Produção de ouro com indícios de ilegalidade aumenta 25% em um ano

Pesquisa do Instituto Escolhas revela novo recorde com volume superior a 50 toneladas

A wildcat gold miner, or garimpeiro, uses a basin and mercury to pan for gold at a wildcat gold mine, also known as a garimpo, at a deforested area of the Amazon rainforest near Crepurizao, in the municipality of Itaituba

Em 2021, o Brasil registrou 52,8 toneladas de ouro com graves indícios de ilegalidade, o que equivale a 54% da produção nacional. O montante é 25% maior do que o verificado em 2020, como mostra o levantamento realizado pelo Instituto Escolhas, divulgado na última quinta-feira (06/10). A análise usou como base dados da Agência Nacional de Mineração e da Coleção 7 do projeto Mapbiomas, lançado no mês passado.

Apresentado em formato onepage, o levantamento do Escolhas traz um detalhamento sobre as origens do ouro com indícios de ilegalidade, sendo que a maior fatia corresponde ao ouro que veio de áreas onde há indícios de extração para além dos limites permitidos.

“São dois pontos de atenção: primeiro, claro, o aumento expressivo do ouro com indícios de ilegalidade, que evidencia a falta de controle e de ações para coibir a extração de ouro ilegal nos últimos meses. E, em segundo lugar, o fato de que quase dois terços desse ouro vieram da Amazônia. Ou seja, 32 toneladas do metal saíram daquela região com alguma indicação de irregularidade”, afirma Larissa Rodrigues, gerente de Portfólio do Instituto Escolhas.

Rodrigues reforça que a ausência de um sistema de rastreabilidade de origem para a cadeia do ouro favorece cada vez mais a ilegalidade, aumentando o impacto da extração ilegal no bioma amazônico e na vida das populações da floresta. “Por tudo isso, o Escolhas tem insistido na importância dos Projetos de Lei 2159/2022 e 836/2021, que estabelecem controles sobre a comercialização do ouro, da extração até as exportações”, reforça.

ouro ilegal

Para atualização dos dados, o Escolhas usou a mesma metodologia do estudo “Raio X do Ouro: mais de 200 toneladas podem ser ilegais”, lançado em fevereiro deste ano. O estudo revelou que 229 toneladas de ouro com indícios de ilegalidade foram comercializadas no país entre 2015 e 2020.

onepage está disponível para download no site e nas redes sociais do Instituto Escolhas

57% dos municípios da Mata Atlântica têm menos de 30% de vegetação natural

Agricultura foi o tipo de uso de solo que mais cresceu na Mata Atlântica nos últimos 37 anos. Áreas urbanizadas triplicaram entre 1985 e 2021

mata atlantica

A Mata Atlântica, onde vivem 70% dos brasileiros, está cada vez mais distante de sua configuração original. Segundo os mais recentes dados do MapBiomas para a área de aplicação da Lei n° 11.428, de 2006, que estende os limites desse bioma para 17 estados, apenas 24,3% desse território ainda resiste como formação florestal. Esse tipo de cobertura, que ocupava 27,1% em 1985, caiu para 24,3% em 2021.

Os estados com menor cobertura nativa em 2021 são Alagoas (17,7%), Goiás (19,5%), Pernambuco (23,4%), Sergipe (25,5%), São Paulo (28,4%) e Espírito Santo (29,3%). Mais da metade (57%) dos municípios possuem menos de 30% da vegetação nativa. Já os estados com maior cobertura nativa de Mata Atlântica no ano passado são Piauí (89,9%), Ceará (76,9%), Bahia (49,7%) e Santa Catarina (48,1%).

Além da redução em área, existe um processo de redução da qualidade dessa cobertura vegetal: entre 1985 e 2021 houve uma perda de 23% de floresta madura. Em 37 anos, 9,8 milhões de hectares de vegetação primária foram suprimidos, enquanto 8,8 milhões de hectares regeneraram-se em vegetação secundária. Elas respondem por 26% de toda a cobertura florestal da Mata Atlântica. “As florestas secundárias são essenciais para proteção dos rios, diminuição da distância entre fragmentos e absorção de carbono da atmosfera, mas não possuem a mesma biodiversidade de uma floresta primária. A vegetação secundária também está mais suscetível a novos desmatamentos após um curto período de recuperação e um terço dela não chega a completar 8 anos de idade”, alerta Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas.

Enquanto a cobertura florestal recua, cresce a área destinada à agricultura: esse foi o tipo de uso de solo que mais cresceu na Mata Atlântica nos últimos 37 anos. Essa atividade avançou 10,9 milhões de hectares. Se em 1985 ela ocupava 9,2% do bioma, em 2021 esse percentual alcançou 17,6%. Nesse período, a silvicultura ganhou 3,7 milhões de hectares, passando de 0,7% (1985) para 3,5% do bioma. Juntos, agricultura e silvicultura já ocupam um quinto da Mata Atlântica.

O uso da terra prevalente no bioma ainda é a pastagem. Embora essa atividade tenha tido uma perda líquida de 10,5 milhões de hectares nos últimos 37 anos, um em cada quatro hectares desse bioma ainda é de pasto, que perde espaço para agricultura, mas ainda avança sobre áreas de floresta. São 32,2 milhões de hectares, ou 24,6% da Mata Atlântica. A agropecuária, agricultura, pastagens, áreas de mosaico de usos e a silvicultura ocupam 60,1% da Mata Atlântica.

A região também passou por um forte processo de urbanização nos últimos 37 anos. As áreas urbanizadas passaram de 674 mil hectares em 1985 para 2,03 milhões de hectares em 2021 — um aumento de 1,4 milhão de hectares. Embora 87,5% da expansão tenha se dado sobre áreas já alteradas, em 1985 12,7% cresceu sobre áreas que eram naturais.

Os efeitos da degradação da Mata Atlântica já podem ser percebidos. Um dos serviços ambientais prestados pelas florestas é produção e proteção de água. No período analisado, de 1985 a 2021, a bacia do Paraná teve sua cobertura nativa reduzida de 22,5% em 1985 para 21,6% em 2021. A do Paranapanema e do São Francisco também tiveram uma redução da cobertura nativa, de 21,3% (1985) para 20,3% e de 57% (1985) para 52,9%, respectivamente.

“Depois de sucessivas crises hídricas afetando dezenas de cidades ao longo da Mata Atlântica, é preocupante ver a capacidade de fornecimento de serviços ambientais deste bioma ser continuamente fragilizada”, adverte Luís Fernando Guedes Pinto, Diretor Executivo da SOS Mata Atlântica. “A preservação do que restou de Mata Atlântica e a restauração em grande escala são essenciais para preservarmos alguma resiliência dessa região à dupla ameaça da crise climática e da crescente irregularidade do regime de chuvas, decorrente do desmatamento da Amazônia”, ressalta, recordando que estamos da Década da Restauração de Ecossistemas da ONU. Alguns exemplos positivos foram a bacia do Tietê, com muito pouca cobertura nativa, mas que passou de 14,29% (1985) para 15,0% (2021) e do Rio Grande, que aumentou de 17,6% para 19,7%.

Mas não foi só a cobertura florestal que diminuiu nos últimos 37 anos. Entre 1985 e 2021 houve uma perda líquida de 9% da área de formações savânicas, sendo que, em 2021, 14% delas eram de vegetação secundária. O mesmo processo pode ser detectado nas formações campestres: elas recuaram 25% entre 1985 e 2021. As restingas arbóreas perderam 12% de superfície.

O levantamento do MapBiomas a partir do mapeamento de imagens respeitou os contornos determinados pela Lei n° 11.428 de 2006, também conhecida como Lei da Mata Atlântica. Com isso, foram analisados todos os remanescentes florestais, incluindo os encraves do Piauí, Ceará e interior da Bahia. Os 465.711 km2 remanescentes da Mata Atlântica são encontrados em 17 estados (a área contínua estende-se por apenas 15 estados).

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O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

91,6% da área garimpada no Brasil ficam no bioma Amazônia

Apenas dois estados – Pará e Mato Grosso – concentram 91,9% do garimpo no Brasil. Avanço do garimpo sobre terras indígenas foi de 632% entre 2010 e 2021

destruição garimpo

A área de garimpo no Brasil dobrou em apenas uma década e confirmou a tendência de suplantar a mineração industrial. Segundo os mais recentes dados do MapBiomas, que identificou o total do território brasileiro ocupado por essas atividades desde 1985 até o ano passado, o garimpo passou de 99 mil hectares para 196 mil hectares entre 2010 e 2021. A mineração industrial, por sua vez, precisou de duas décadas para ver os 86 mil hectares de área ocupada em 2001 dobrarem para os 170 mil hectares registrados em 2021. Este é o terceiro ano consecutivo no qual mais território é ocupado pelo garimpo do que pela mineração industrial.

Essa expansão tem endereço certo — o Bioma Amazônico. “A série histórica mostra um crescimento ininterrupto do garimpo e um ritmo mais acentuado que a mineração industrial na última década, além de uma inequívoca tendência de concentração na Amazônia, onde se localizam 91,6% da área garimpada no Brasil em 2021”, explica Cesar Diniz, coordenador técnico do mapeamento. Na série histórica, o garimpo só suplantou a área ocupada pela mineração industrial no final do século passado, entre 1989 e 2000.

Dois estados específicos – Pará e Mato Grosso – respondem por 71,6% das áreas mineradas no país, ou seja, quando somamos a mineração industrial e a atividade garimpeira. Mas quando o garimpo é considerado isoladamente, o percentual sobe para 91,9%. São 113.777 hectares de garimpo no Pará e 59.624 hectares no Mato Grosso. Quatro dos cinco municípios brasileiros com maior área de garimpo ficam no Pará: Itaituba (57.215 hectares), Jacareacanga (15.265 hectares), São Félix do Xingu (8.126 hectares) e Ourilândia do Norte (7.642 hectares). Em terceiro lugar ficou Peixoto do Azevedo, no Mato Grosso, com 11.221 hectares.

A expansão garimpeira na Amazônia foi mais intensa em áreas protegidas, como territórios indígenas e Unidades de Conservação. Entre 2010 e 2021, as áreas de garimpo em terras indígenas cresceram 632%, ocupando quase 20 mil hectares no ano passado. A terra indígena mais explorada foi a Kayapó, na qual 11.542 hectares foram tomados pelo garimpo até 2021. Em seguida vem o território Munduruku, com 4.743 hectares, a terra Yanomami, com 1.556 hectares, a Tenharim do Igarapé Preto, com 1.044 hectares, e o território Apyterewa, com 172 hectares.

O garimpo cresceu 352% dentro de Unidades de Conservação entre 2010 e 2021. A série histórica mostra que a área ocupada até 2010 encontrava-se abaixo de 20 mil hectares. Em 2021, já eram quase 60 mil hectares. Desse total, quase dois terços ficam na APA do Tapajós, onde o garimpo já ocupa 43.266 hectares. Em segundo lugar vem a Flona do Amanã, com 5.400 hectares, seguida pela Flona do Crepori (1.686 hectares), a Parna do Rio Novo (1.637 hectares) e a Flona do Jamari (1.191 hectares).

]Diferenças entre garimpo e mineração industrial

Ao todo, a Amazônia concentrava 242.564 hectares de área minerada (ou seja, somando garimpo e mineração industrial) em 2021. No caso da Mata Atlântica, esse total é de 63.892 hectares; no Cerrado, 46.070 hectares. A liderança da Amazônia permanece quando analisamos somente o garimpo, com 179.913 hectares. O Cerrado assume o segundo lugar, com distantes 13.253 hectares; a Mata Atlântica, por sua vez, concentra 2.299 hectares.

No caso da mineração industrial, a situação é diferente. Há quase um equilíbrio entre a área ocupada na Amazônia (62.650 hectares) e na Mata Atlântica (61.593 hectares). Outros 32.817 hectares ficam no Cerrado. A diferença fica por conta de Minas Gerais, estado que lidera a modalidade industrial, com quase metade (46,9%) do total nacional, ou 61.181 hectares. Os outros estados com maior área de mineração industrial são Pará (42.216 hectares), Goiás (11.606 hectares), Amazonas (8.166 hectares) e Bahia (7.442 hectares). Juntos, Minas Gerais e Pará respondem por 79,2% da área de mineração industrial brasileira.

Mineração industrial e garimpo diferem também em relação às substâncias minerais exploradas. Enquanto a mineração industrial tem um foco mais diversificado (Fe, Al, Cu, Ni e outros) o garimpo é concentrado em poucas substâncias (Au e Sn): 83% da área ocupada por garimpo está relacionada à extração de ouro e 7% de estanho. No caso da mineração industrial, 22% da área é de mineração de ferro, 20% de alumínio e 12% de calcário.

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Monitor do Fogo: Amazônia e Cerrado foram os biomas mais queimados em agosto

Amazônia teve 1,7 milhões de hectares atingidos pelo fogo no mês e Cerrado 1,2 milhões; o Monitor do Fogo faz o mapeamento mensal das cicatrizes de fogo no Brasil. Dados de agosto para todos os biomas foram lançados nesta terça (20)

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Amazônia teve 1,7 milhões de hectares atingidos pelo fogo no mês e Cerrado 1,2 milhões; o Monitor do Fogo faz o mapeamento mensal das cicatrizes de fogo no Brasil. Dados de agosto para todos os biomas foram lançados nesta terça (20)

A Amazônia e o Cerrado foram os biomas mais atingidos pelo fogo em agosto. É o que mostra o Monitor do Fogo, produto da iniciativa MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), com os novos dados divulgados nesta terça-feira (20). O Monitor do Fogo divulga, mês a mês, um mapeamento das cicatrizes de fogo no Brasil.

Foram 1.699.993 hectares queimados na Amazônia em agosto. No Cerrado, foram 1.190.352 hectares no mesmo mês. Outros biomas também foram mapeados: Mata Atlântica (47.401 hectares), Caatinga (31.554 hectares), Pantanal (19.867 hectares) e Pampa (58 hectares).

Os estados mais afetados pelo fogo em agosto e as respectivas áreas queimadas foram: Pará (869.462 hectares); Mato Grosso (657.342 hectares); Tocantins (421.997 hectares); Amazonas (303.088 hectares); e Maranhão (246. 325 hectares), todos contemplando os biomas da Amazônia e Cerrado.

Aumento do fogo no Pará

O estado do Pará teve aumento de 110% nas queimadas em relação ao mês de agosto do ano anterior. Os municípios paraenses mais afetados em agosto deste ano foram: São Félix do Xingu, com 202.828 hectares queimados; Altamira, com 197.292 hectares queimados; e Novo Progresso, com 130.787 hectares queimados.

Pesquisador no IPAM e no Monitor no Fogo, o cidadão altamirense Felipe Martenexen compartilha como as queimadas afetam a vida de quem mora na cidade. “A gente acaba sentindo na pele todo o efeito dessas áreas queimadas, a gente sente a fumaça. Quando eu acordo, a área de casa está cheia de cinzas. Imagine o ar que a gente está respirando! É algo que compromete a nossa saúde e assusta bastante a população. Nosso papel aqui é produzir os dados para que a comunidade possa usar e aproveitar da melhor maneira possível”, comenta.

Desmatamento e queima de pastagens

De janeiro a agosto de 2022, o Brasil teve uma área total queimada de 5.924.418 hectares, e os principais tipos de vegetação nativa e uso da terra atingidos pelo fogo foram: formações campestres (26,8%); pastagens (24,4%); formações savânicas (16%); formações florestais (14,5%); campos alagados e áreas pantanosas (10,3%).

“O período seco ainda está muito forte, com ondas de calor atingindo regiões onde a chuva não cai há muito tempo. Isso, de fato, gera a possibilidade de incêndios. Quando a gente fala de fogo na Amazônia, a gente está falando, principalmente, de fogo de desmatamento, em um processo que finaliza o desmatamento. Tem também o fogo que é para queima de pastagem, as pessoas usam o fogo para manejar a pastagem que está com arbustos, por exemplo, que não são plantas para o gado comer. O interessante é que o Monitor do Fogo traz esse dado, mostrando que grande parte do que queimou no Brasil de janeiro a agosto é pastagem. A gente vê que, de fato, há um investimento”, diz Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do Monitor do Fogo.

O que está por vir em setembro

Agosto e setembro são os meses em que ocorre o auge da estação seca em algumas regiões do país. Pesquisadores antecipam que os números do próximo mês podem ser ainda maiores para os biomas Amazônia e Cerrado.

“Apesar da área queimada de janeiro a agosto no Brasil ter sido menor que a área queimada em 2021 no mesmo período, infelizmente, estamos esperando uma área ainda maior atingida pelo fogo no país para o mês de setembro, novamente na Amazônia e no Cerrado. Confirmaremos essa projeção nas próximas semanas com o mapeamento do Monitor do Fogo para o mês de setembro”, indica Vera Laísa Arruda, pesquisadora no IPAM e no Monitor do Fogo.

Sobre o Monitor do Fogo

Monitor do Fogo é a primeira versão do mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do satélite Sentinel 2 com resolução espacial de 10 a 20 metros. Todo o processo foi realizado de forma colaborativa entre as instituições da rede MapBiomas e utilizando algoritmos de aprendizado de máquina (deep learning) por meio da plataforma Google Earth Engine e Google Cloud Storage que oferecem imensa capacidade de processamento computacional e em nuvem.

O MapBiomas é uma rede de instituições que envolve ONGs, universidades e empresas de tecnologia dedicadas a mapear e entender a dinâmica do uso da terra no Brasil. Para o Monitor do Fogo, o IPAM realizou o desenvolvimento tecnológico e operacional. Equipes de especialistas em cada bioma realizaram amostragem, avaliação e refinamento do mapeamento: IPAM para os biomas Amazônia e Cerrado; SOS Pantanal/ArcPlan para o bioma Pantanal; Geodatim para o bioma Caatinga; SOS Mata Atlântica/ArcPlan para o bioma Mata Atlântica; e Geokarten para o bioma Pampa.

Um terço da perda de vegetação nativa do Brasil desde o descobrimento aconteceu nos últimos 37 anos

Perfil da cobertura e uso da terra no Brasil alterou-se muito nos últimos 37 anos, agravando os desafios de preservação da segurança hídrica, alimentar e energética. Área ocupada pela agricultura cresceu 228% entre 1985 e 2021

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Entre 1985 e 2021, o Brasil perdeu 13,1% de vegetação nativa, entre florestas, savanas e outras formações não florestais. Esse território foi ocupado pela agropecuária, que agora responde por um terço do uso da terra no Brasil. Tais mudanças se revertem em uma série de desafios enfrentados pelo Brasil na gestão do uso da terra e que o MapBiomas debaterá em evento nesta sexta, 26/08, quando lançará a Coleção 7 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil feita a partir de imagens de satélite e que passa a incorporar dados de 2021.

Entre as principais constatações está o fato de que as alterações causadas pela ação do homem entre 1985 e 2021 foram muito intensas: elas correspondem a um terço (33%) de toda a área antropizada do país. Nesse período, o Brasil passou de 76% de cobertura da terra de vegetação nativa (florestas, savanas e outras formações não florestais), para 66%. Por outro lado, a área ocupada por agropecuária cresceu de 21% para 31% do país, com destaque para o crescimento de 228% das áreas de agricultura e que agora representam 7,4% do território nacional.

Outra tendência constatada foi a redução da superfície de água: nos últimos 30 anos (1991 a 2021), houve uma perda de 17,1%. O fenômeno ocorre especialmente no Pantanal, que é fortemente influenciado, por exemplo, pela variação da umidade gerada na evapotranspiração das árvores da Amazônia.

“Esta tendência de rápidas transformações representa grandes desafios para que o país possa se desenvolver e ocupar o território com sustentabilidade e prosperidade ”, explica Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas. “A ocupação do solo e a produção rural precisam ser compatibilizadas com a conservação dos biomas ”, completa.

A Coleção 7 do MapBiomas mostra que o processo de conversão de vegetação nativa em áreas de lavoura e pastagens foi mais intenso em algumas regiões, com destaque nos anos recentes para o Matopiba — área com predominância de Cerrado entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e a Amacro, na Amazônia Legal, entre os estados do Acre, Amazonas e Rondônia, e no Pampa no Rio Grande do Sul. No Matopiba se concentram 56,2% da perda de vegetação nativa no Cerrado nos últimos 20 anos. Já na AMACRO a perda de florestas aumentou fortemente na última década, representando 22% da perda de cobertura florestal na Amazônia contra 11% no período de 2000-2010. E o Pampa é o bioma de maior transformação proporcional tendo sua área de vegetação nativa reduzida de 61,3% para 46,3% em 37 anos. “Mesmo tendo como vegetação predominante os campos nativos que são plenamente compatíveis com a atividade pecuária, o Pampa vem sendo convertido para o cultivo agrícola, especialmente de soja e os plantios de eucalipto e pinus.”

Em todo o Brasil, entre 1985 e 2021 houve um acréscimo de 42,2 milhões de hectares de pastagem e 43,6 milhões de hectares de agricultura, o que representou um aumento de 39% da área de pastagem e 228% na agricultura. “Apesar de 72% da área de expansão da agricultura ter ocorrido sobre terras já antropizadas, principalmente pastagens, é importante ressaltar que 28% da mudança para lavoura temporária se deu sobre desmatamento e conversão direta de vegetação nativa”, afirma Laerte Ferreira, professor da Universidade Federal de Goiás e coordenador da Equipe de Mapeamento de Pastagem e do GT Solos do MapBiomas.

No caso da floresta amazônica, a importância das Terras Indígenas para sua preservação é destaque: a imagem da ocupação da terra deste bioma já permite ver contornos de algumas delas, como o mosaico de TIs que forma um corredor entre o sul do Pará e o norte de Mato Grosso. A nova coleção de dados do MapBiomas indica que a perda de vegetação nativa em territórios indígenas foi de apenas 0,8% entre 1985 e 2021, contra 21,5% fora de áreas protegidas na Amazônia.

 

Apesar de 66% do território ser coberto por vegetação nativa, isso não significa que essas áreas sejam na totalidade conservadas. A análise da evolução das mudanças de uso da terra ao longo dos anos aponta que pelo menos 8,2% de toda vegetação nativa existente é vegetação secundária, ou seja, são áreas que já foram desmatadas pelo menos uma vez nos últimos 37 anos ou já estavam desmatadas em 1985. Na Mata Atlântica, a proporção de vegetação secundária sobe para 27%. Por outro lado, foi constatado que a interrupção do processo de recuperação da vegetação nativa com novos desmatamentos também já é bem significativa, representando 32,9% do desmatamento na última década.

A Coleção 7 do MapBiomas traz mapas e dados anuais sobre a evolução de 27 classes de cobertura e uso da terra no Brasil desde 1985 a 2021 e inclui também módulo contendo dados sobre a evolução anual do desmatamento, vegetação secundária, irrigação, mineração e qualidade das pastagens. Entre as novidades da plataforma neste ano estão o módulo de visualização em 3D projetado sobre o relevo e ferramentas de análise temporal dos dados que permitem explorar com mais detalhes e profundidade as transformações que acontecem no território brasileiro.

“Os satélites nos ajudam a revelar os desafios de como expandir a agropecuária sem desmatamento, como proteger os recursos hídricos e como ocupações urbanas podem ser mais seguras e menos desiguais ”, explica Julia Shimbo, Coordenadora Científica do MapBiomas e Pesquisadora do IPAM.

Você pode encontrar mapas e gráficos aqui.

Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Ocupação de APPs às margens de rios e córregos dobrou entre 1985 e 2020

Apesar disso, mais de 70% dessas áreas ainda estão preservadas

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Pelo Código Florestal, as faixas às margens de rios, córregos e nascentes são áreas de preservação permanente (APPs). Sua extensão é determinada pelas características dos cursos d’água, tais como a sua largura , sendo que o mínimo é de 30 metros para os rios mais estreitos podendo chegar até a 500 metros para os rios mais largos. Para saber o quanto essas APPs estão (ou não) conservadas em ambientes urbanos, o MapBiomas analisou imagens de satélite entre 1985 e 2020. Os resultados mostram que nesse período dobrou a área urbanizada nessa faixa que, por lei, deve seguir regulamentos específicos para a sua ocupação. As áreas cobertas por construções e infraestruturas a pelo menos 30 metros dos corpos hídricos (como rios e córregos) dentro de cidades passaram de 61,6 mil hectares em 1985 para 121 mil hectares em 2020.

“Este é um dado que por si só é preocupante, já que a proximidade de construções e infraestruturas urbanas pode comprometer a qualidade e aumenta a vazão da água, contribuindo para enchentes na estação chuvosa”, lembra Julio Cesar Pedrassoli, coordenador da equipe de infraestrutura urbana do MapBiomas e que participou da elaboração da nota técnica “Análise da ocupação urbana em torno de corpos hídricos no Brasil”, cuja íntegra pode ser conferida no site do MapBiomas. “Com o agravamento da crise climática, que está afetando a regularidade e o volume das chuvas, a preservação das áreas sem construções no entorno de corpos hídricos torna-se crítica para a segurança das pessoas e para a qualidade ambiental”, completa Edimilson Rodrigues, um dos autores do estudo.

As faixas marginais de 30m de corpos hídricos urbanos ocupam 422 mil hectares no Brasil. Desse total, 71% ainda não estavam urbanizados em 2020. Esses 300,2 mil hectares remanescentes de vegetação, ou não cobertos por áreas construídas, ainda podem ser preservados. Atualmente essa tarefa é das prefeituras que, desde o final de dezembro do ano passado receberam o poder de regulamentar as faixas de restrição à beira de rios, córregos, lagos e lagoas nos seus limites urbanos. Essa atribuição é resultante da alteração do Código Florestal pela Lei 14.285, de 2021, que permite a regularização de edifícios às margens de cursos e corpos d’água em áreas urbanas.

Quase um quinto (19,8%) das áreas urbanizadas a 30m no entorno de rios e córregos urbanos estão concentradas em apenas 20 municípios. “Isso significa que uma atuação mais rigorosa dessas prefeituras pode preservar ou até mesmo recuperar essas APPs, elevando a resiliência do ambiente urbano a enchentes e melhorando a condição de vida das pessoas”, explica Julio. Desses 20 municípios, 11 são capitais, incluindo as líderes desse ranking: São Paulo (3,73 mil ha), Rio de Janeiro (3,40 mil ha), Fortaleza (1,41 mil ha), Manaus (1,38 mil ha) e Curitiba (1,27 mil ha).

O MapBiomas também calculou os estados com maior ocupação urbana no entorno de rios e lagos. Três estados do Sudeste estão entre os cinco primeiros colocados: São Paulo (12,94 mil ha), Rio de Janeiro (7,28 mil ha), Minas Gerais (6,68 mil ha), Santa Catarina (4,94 mil ha) e Ceará (4,19 mil ha). “ Todos têm registrado episódios dramáticos de enchentes com enormes prejuízos humanos e financeiros, o que reforça a importância de recuperação e preservação das APPs hídricas”, reforça Júlio.

A nota técnica do MapBiomas avaliou Áreas de Preservação Permanente nos perímetros urbanos aprofundando-se em um conjunto de 17 municípios na Amazônia Legal (Rio Branco/AC, Cuiabá/MT, Belém/PA, Boa Vista/RR, Palmas/TO e Manaus/AM) e na Bacia do Paraná (Brasília/DF, Campinas/SP, Campo Grande/MS, Curitiba/PR, Goiânia/GO, Londrina/PR, Ribeirão Preto/SP, Santo André/SP, São Bernardo do Campo/SP, São Paulo/SP e Sorocaba/SP).

Nesse universo, os resultados são mais favoráveis: nele, 82% das APPs hídricas urbanas não estão ocupadas por construções ou infraestrutura, o que representa 48.924 ha cobertos por vegetação ou água em 2020. Ou seja, mesmo as cidades com ocupação urbana densa ainda possuem cobertura vegetal em APPs hídricas. A taxa de cobertura vegetal em APPs hídricas em áreas de urbanização densa nesse conjunto de 17 municípios é liderada por Goiânia (74,93%), Campo Grande (65,43%), Belém (52,77%), Curitiba (52,25%) e Cuiabá (51,26%). No outro extremo, as menores taxas foram encontradas em São Bernardo do Campo (13,06%), Manaus (16,48%), Santo André (17,01%), Boa Vista (17,28%) e Campinas (22,37%).

Porém, quando a análise olha para os estados como um todo, a situação é diferente: dos 27 estados brasileiros, apenas seis têm área coberta por construções e infraestruturas inferior às áreas preservadas na margem de 30 m no entorno de rios e lagos. São eles: Roraima (0,12 mil ha de área urbanizada vs. 0,29 mil ha de áreas não cobertas por construções e infraestruturas), Mato Grosso do Sul (0,38 mil ha vs 0,50 mil ha), Goiás (1,15 mil ha vs 1,16 mil ha), Paraná (2,25 mil ha vs 2,78 mil ha), Rio Grande do Sul (3,11 mil ha vs 3,18 mil ha) e Espírito Santo (3,89 mil ha vs 4,08 mil ha).

“Quando os estados como um todo são analisados, a situação fica mais amena. Isso porque são em municípios específicos, como São Paulo, Manaus, Rio de Janeiro, e as demais capitais, que o problema da ocupação é mais grave”, explica Edimilson.

 Sobre MapBioma

Iiniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa. O Prêmio MapBiomas, realizado em parceria com o Instituto Ciência, visa estimular e valorizar trabalhos que utilizem dados de qualquer iniciativa do MapBiomas.

Amazônia e Pampa lideram queimadas de janeiro a julho de 2022

Dados do Monitor do Fogo do MapBiomas mostram que queimadas cresceram 7% na Amazônia e 3.372% no Pampa nos sete primeiros meses do ano

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O Brasil queima no Norte e no Sul de seu território. Dados do MapBiomas mostram que 2.932.972 hectares foram consumidos por queimadas nos primeiros sete meses do ano. Embora maior que o estado de Alagoas, essa área é 2% menor do que a que foi consumida pelo fogo no ano passado. Porém na Amazônia e no Pampa a situação é diferente: esses são os únicos biomas com aumento na área afetada pelo fogo. Na Amazônia o fogo atingiu uma área de 1.479.739 hectares, enquanto que no Pampa foram 28.610 hectares queimados entre janeiro e julho de 2022. Nesse período, foi registrado um aumento de 7% (ou mais de 107 mil hectares) na Amazônia e de 3372% no Pampa (27.780 ha).

Esses dados fazem parte da nova versão do Monitor do Fogo, que o MapBiomas lança hoje (18/08) em sua plataforma. Ela passará a fazer uso de imagens do satélite europeu Sentinel 2, que tem duas importantes características para esse tipo de mapeamento: ele passa a cada cinco dias sobre o mesmo ponto, aumentando a possibilidade de observação de queimadas e incêndios florestais; além disso, tem resolução espacial de 10 metros. Isso acrescenta cerca de 20% a mais na área queimada em relação aos dados do Mapbiomas Fogo coleção 1, que traz o histórico de fogo anualmente desde 1985. Também permite que a partir de agora os dados sejam divulgados mensalmente.

O Monitor do Fogo do MapBiomas difere e complementa o monitoramento do INPE porque avalia as cicatrizes do fogo, e não os focos de calor. O motivo é simples: dados de focos de calor representam a ocorrência de fogo (e potencialmente contribuem para seu combate) mas não permitem avaliar a área queimada. O Monitor de Fogo, por sua vez, revela em tempo quase real (diferença de um mês) a localização e extensão das áreas queimadas, facilitando assim a contabilidade da destruição que é apontada pelos focos de calor da plataforma do INPE.

“Este produto é o único nessa frequência e resolução a fornecer esses dados mensalmente, o que facilitará muito a prevenção e combate aos incêndios, indicando áreas onde o fogo tem se adensado”, explica Ane Alencar, coordenadora do Monitor do Fogo do MapBiomas. “Além do poder público, é uma ferramenta de grande utilidade para a iniciativa privada, como o setor de seguros, por exemplo”, completa.

Os dados dos sete primeiros meses de 2022 mostram que três em cada quatro hectares queimados foram de vegetação nativa, sendo a maioria em campos naturais. Porém, um quinto de tudo que foi queimado no período foi em florestas. Metade das cicatrizes deixadas pelo fogo localizam-se no bioma Amazônia, onde 16% da área queimada corresponderam a incêndios florestais, ou seja, áreas de floresta que não deveriam queimar.

O Mato Grosso foi o estado que mais queimou nos sete primeiros meses de 2022 (771.827 hectares), seguido por Tocantins (593.888 hectares) e Roraima (529.404 hectares). Esses três estados representaram 64% da área queimada afetada no período.

No Cerrado, a área queimada entre janeiro e julho de 2022 (1.250.373 hectares) foi 9% menor que no mesmo período do ano passado, porém 5% acima do registrado em 2019 e 39% maior que em 2020. O mesmo padrão foi identificado na Mata Atlântica, onde houve uma queda de 16% em relação a 2021 (ou 14.281 hectares), porém um crescimento de 11% em relação a 2019 e 8% na comparação com 2020. O Pantanal, por sua vez, apresentou a menor área queimada nos últimos quatro anos (75.999 hectares), com 19% de redução de 2022 para 2021 em relação a área queimada de janeiro a julho.

Desmatamento-do-Cerrado-cresce-13-em-um-ano

O Cerrado sofre com as queimadas neste período de estiagem, a baixa umidade no DF no fim de semana levou a Defesa Civil a declarar estado de emergência na capital(Jose Cruz/Agência Brasil)

Dentro os tipos de uso agropecuário das áreas afetadas pelo fogo, as pastagens se destacaram com 14% da área queimada nos sete primeiros meses de 2022.

O primeiro e o segundo lugar da lista de municípios que mais queimaram entre janeiro e julho de 2022 são ocupados por Normandia e Pacaraima, ambas em Roraima. Em julho de 2022, os municípios de Formosa do Araguaia e Lagoa da Confusão, no Tocantins, foram os que tiveram maior área queimada. Neste último, fica parte do Parque Nacional do Araguaia.

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