Em Campos, a aposta no conflito continuado resultou em um tremendo risco de se tornar um “bloco do eu sozinho” à beira do precipício

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Por Douglas Barreto da Mata

O ser humano é um animal gregário, ao mesmo tempo que age com fortes inclinações individualistas.  É esse paradoxo, ou é esse dilema que orienta nossa interação com outros humanos e o ambiente.  Esta contradição nos permitiu alcançar o topo da cadeia evolutiva, dominando outras espécies, desenvolvendo sistemas sociais complexos que, ao mesmo tempo, são diariamente ameaçados por nossa tendência a esquecer o valor dos princípios de vida em coletividade.

Nossa inteligência é nossa salvação e perdição cotidiana.  Na ação política, traço exclusivamente humano em sua natureza e objetivos, o isolamento sempre foi um sinal de iminente derrota.

Vejam o caso de Campos dos Goytacazes. A história recente revela que todas as dinastias políticas locais e regionais chegaram ao auge, quase sempre personificadas em personagens mais relevantes, outros menos, e que conheceram o declínio quando acreditaram que poderiam seguir sozinhos ou fazer com que todos os seus interesses prevalecessem sobre todos os demais.

No plano nacional não foi diferente. Grandes figuras conheceram o ápice, enquanto foram capazes de agregar pessoas e esperanças ao seus redores, e caíram em desgraça quando esqueceram essa lição, e imaginaram que tudo podiam, como Vargas, Jânio Quadros, Collor, etc.

Na planície foi assim com Zezé Barbosa, com o ex-governador Garotinho, com o médico Arnaldo Vianna, e ao que nos parece, em tempo muito precoce, com o Presidente da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, Marquinhos Bacellar, e seu irmão, o Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar.

O alardeado poder imenso conferido ao clã dos Bacellar nos parece grande demais para eles. Hoje, os irmãos se encontram encurralados, sem saída, resumidos a uma agenda que pode ser definida em não ser cassado no plano estadual, para o mais velho, e sobreviver politicamente ao domínio do Prefeito e seu grupo, no caso do mais novo. É muito pouco para quem sonhou ir bem mais longe.

A imagem de um plenário esvaziado, no início dessa semana, na Casa de Leis municipal, quando se discutiu em audiência pública os problemas e soluções orçamentárias da mobilidade urbana da cidade, é um recado importante de que algo está muito mal para o grupo político representado pelos dois.

Todos na planície concordam que a mobilidade urbana é um dos graves problemas a serem resolvidos e debatidos pela comunidade.  Um olhar mais pragmático diria que seria a grande chance de mobilizar forças oposicionistas contra o favoritismo inconteste do atual Prefeito Wladimir Garotinho, de encher galerias, ampliando a ressonância das demandas reprimidas pela gestão do IMTT, porém, o que se ouviu foi um silêncio ensurdecedor.

A Presidência da Mesa Diretora da Câmara Municipal pareceu incapaz de reunir os afetados e interessados no tema.  É flagrante a impossibilidade da Câmara Municipal, na pessoa do seu Presidente, de superar divergências pessoais e estratégias eleitorais que se mostraram inadequadas. A legislatura atual pode ser definida por três momentos, a eleição conturbada para a Presidência da Mesa Diretora, o caso da LOA 2024, e o da CPI da Educação.

Os casos mais graves para a vida municipal foram o risco da não votação do orçamento de 2024, e uma CPI que foi instaurada sem uma justa causa definida, e que acabou morta por inanição, haja vista a absoluta falta de elementos probatórios.

O tom mais elevado do Prefeito, nominando o relatório final de vergonhoso, não está muito distante da realidade, embora alguns possam ter entendido o desabafo com um exagero.

Assim, sem os conflitos citados, nada mais houve que desse foco à atuação desta legislatura, personificada em seu Presidente.  Nenhum tema de interesse coletivo, nada de alcance e profundidade para o debate institucional e para a elaboração de políticas públicas necessárias, nada. Essa postura individualista da Mesa Diretora impôs ao colegiado de vereadores um confinamento político, que se materializa no afastamento daquela Casa dos cidadãos e cidadãs, com prejuízo óbvio para todos.  A fracassada audiência pública sobre mobilidade é a prova cabal dessa circunstância.

Apesar das reclamações do Presidente da Câmara sobre o desinteresse geral, o fato dele não entender, ou pior, desejar desviar a atenção sobre os reais motivos da situação, mostram a inexistência de um espírito público, próprio aos ocupantes das cadeiras de presentação dos poderes, principalmente na atividade parlamentar, que requer, sim, a firmeza na defesa de posições, mas a flexibilidade para buscar e estabelecer consensos possíveis, evitando assim, rupturas institucionais.

Dizem os analistas que o atual Presidente se reelegerá com uma votação grande, talvez seja o mais votado. É bem possível.  Usando a metáfora do futebol, vai ser artilheiro de um campeonato que seu time (a Câmara) foi rebaixado para a quinta divisão. De que adianta? Para a cidade, nada. Talvez seja a hora de aprender com os erros e péssimos resultados recentes, e quem sabem dar um passo atrás para dar dois à frente?

Aos Bacellar, se optarem pelo isolamento no qual se encontram, só restará o precipício político. Ensina a sabedoria dos povos das estepes africanas: Elefante longe da manada vira brinco de marfim.

Tudo indica, porém, que a depender da Presidência da Mesa Diretora, vamos ouvir um samba de uma nota só tocado pelo bloco do eu sozinho.

Campos dos Goytacazes e sua “Alea Jacta Est”

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Por Douglas Barreto da Mata

Aos que pertencem a grupo político do atual Prefeito de Campos dos Goytacazes, ou ao grupo do Presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ou até os que não estão em nenhum desses “lados”, o fato é que salta aos olhos a diferença de estilos e, principalmente, os objetivos táticos e estratégicos de cada uma de suas lideranças.

Engana-se quem imagina que o Presidente da Câmara de Campos dos Goytacazes, Marcos Bacelar, seja o antagonista principal do atual Prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho.

Não é nada disso.

Marcos Bacelar é uma mera cabeça de ponte, um “posto avançado” de seu irmão na cidade de ambos.

Sua tarefa?

Desgastar o quanto puder o atual prefeito, mesmo que isso custe a ele (Marcos Bacelar) sua imagem e capital políticos, e até seu mandato, já que há entendimento razoável dos juristas de que a omissão em pautar a LOA pode acarretar algum tipo de responsabilidade criminal, e no âmbito da Câmara Municipal, de procedimento para cassação do mandato, na forma do Decreto-Lei 201/67 (Artigo 7º, III).

E nos parece que a situação chegou a esse ponto de não-retorno para Marcos Bacelar.

Não há mais nada que ele possa oferecer ao Prefeito Wladimir Garotinho em uma suposta negociação, isto é, nada que o próprio alcaide não consiga na Justiça e com pressão política na Câmara com a maioria que hoje detém.

Ao mesmo tempo, essa condição de preposto do irmão na tarefa de inviabilizar o sucesso político do prefeito nesse mandato, e no virtual próximo mandato, mas já com vistas a inviabilizá-lo em 2026, não deixa muita margem para manobra e novos acordos.

Faltou ao Presidente Marcos Bacelar duas coisas:

– Avaliar o tamanho político do prefeito e a dimensão do projeto de médio e longo prazo dele (prefeito) e;

– O tempo correto da ação, porque a permanente tensão criada pelo Presidente da Câmara, a mando de seu irmão Rodrigo, fortaleceu as hostes do Prefeito, pois havia um prazo para reagrupar e recuperar suas forças.

Agora, já era.

Como disse Churchill, a diferença da guerra e da política é que, nesta última, a gente morre e ressuscita várias vezes.

Bem, se isso é verdade, uma “vida política” de Marcos Bacelar acabou de ser sepultada.

A sorte (de Campos dos Goytacazes) está lançada, ou, Alea Jacta Est.